![]() |
| Eugénio Lisboa ( 25 Maio 1930 - 9 Abril 2024) |
O narrador comum narra como qualquer coisa mais ou menos podia acontecer. O bom narrador faz acontecer qualquer coisa diante dos nossos olhos como se estivesse presente. O mestre narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo.Hugo von Hofmannnsthat
Recordar Eugénio Lisboa, numa data evocativa da sua morte, 9 de Abril de 2024, é sempre um exercício doloroso para quem teve o privilégio de o conhecer. O vazio que deixou apenas fica menos opressivo pela leitura da sua obra. A sua voz retorna como se se infiltrasse nas páginas para nos fazer acreditar que não está ausente. A sua presença impõe-se tal é a magia da sua escrita transformando esse exercício num exercício de extrema riqueza.
Eugénio Lisboa, num pequeno ensaio " O tal prazer da escrita", de 20 de Junho de 2023, afirmava o seguinte:
A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores. E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.
É nesse universo prodigioso que qualquer dos seus leitores mergulha. As palavras certas encontradas por este exímio escritor curam-nos pela alegria que nos dá ao encontrar o inefável salvífico.
Eugénio Lisboa tem uma obra plural . Volumosa e diversa. Em todos os géneros, em que ela se estende, ressalta sempre o escritor profundamente culto, de uma extraordinária erudição que tem por trás o homem sensível, de uma extrema humanidade e de uma simplicidade contagiante.
Entre mais de meia centena de obras, publicou sete livros de Memórias sob o título "Acta Est Fabula" e não cinco como tinha planeado. Ao fazê-lo permitiu um novo fôlego às Letras Portuguesas.
No Volume III de Acta Est Fabula, Memórias -III - Lourenço Marques Revisited, informa de que:
Escrever memórias, passados os oitenta, é um atrevimento. Planeá-las em cinco volumes é pura loucura. Ninguém me podia assegurar que viveria o tempo suficiente para os escrever todos.
A razão de saltar do primeiro para o terceiro volume ( sem redigir o segundo) é simples: tenho 83 anos e nada me garante que terei vida para redigir os ambiciosamente sonhados 5 volumes. Gostaria em todo o caso, de poder deixar escritos os tomos que dizem respeito à minha vida em África. Foi lá que comecei, mesmo que não vá ser lá que acabo. Esses dois livros, eu devo-os à cidade de Lourenço Marques e ao espaço africano e ao mar africano e à luz africana. Faço questão de pagar essa dívida. O resto será feito se os deuses deixarem.
Eugénio Lisboa é um prodigioso mestre, "narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo." Pinta em palavras a sua África . Há uma estranha coincidência de o dia do seu aniversário ( 25 de Maio de 1930) ser também, a partir de 1972, o Dia de África já que Eugénio Lisboa tem uma alma africana, embora Homem de várias pátrias."
AQUELA ÁFRICA NÃO ACABAVA
A África, onde nasci, sobrava.
Era África por todos os lados,
olhava-se e nunca mais acabava,
nasciam pra sempre laços sagrados.
Era África por todos os lados,
olhava-se e nunca mais acabava,
nasciam pra sempre laços sagrados.
Nascer ali era ver o começo
de tudo: a areia da praia, o mar,
a chuva grossa, o sol quente, sem preço,
os mistérios do sexo a acenar.
de tudo: a areia da praia, o mar,
a chuva grossa, o sol quente, sem preço,
os mistérios do sexo a acenar.
A grandeza prometia grandeza,
os sonhos em nós não eram mesquinhos!
Visávamos grande, com a certeza
os sonhos em nós não eram mesquinhos!
Visávamos grande, com a certeza
de irmos abrir bem novos caminhos!
Estar bem dentro daquele continente
não era dado a pequenina gente!
17.03.2024
Estar bem dentro daquele continente
não era dado a pequenina gente!
17.03.2024
Eugénio Lisboa
E recordar Eugénio Lisboa é reler a sua obra. Nela está o poeta, o ensaísta , o singular crítico literário, o memorialista , o diarista, o cronista, um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa dos séculos XX e XXI.
MEMENTO MORI
Este mar não vai desaparecer.
O que vai desaparecer sou eu.
Este mar vai continuar a ser.
Deixar de vê-lo é destino meu.
Continuará a espelhar o sol,
que, de mim, para isso, não precisa.
Estender-se-á como vasto lençol
o mar que tem grandeza por divisa.
que, de mim, para isso, não precisa.
Estender-se-á como vasto lençol
o mar que tem grandeza por divisa.
O mundo existia antes de mim,
porque há ser que convive com não ser.
Haverá mundo, depois do meu fim
porque há ser que convive com não ser.
Haverá mundo, depois do meu fim
e ser que ignora o meu não ser.
Está bem assim porque é natural,
embora pareça demencial.
19.01.2023
Eugénio Lisboa
LE ROI SE MEURT
Ouvir o anúncio da minha morte
foi como ouvir uma língua estranha:
deram-me um esquisito passaporte,
sem dizerem se é pra vale ou montanha.
Pouco me vale reinar em qualquer Espanha,
a morte quer é haver-se comigo.
Porquê mostrar, a mim, sua gadanha,
achará que sou, pra ela, um perigo?
a morte quer é haver-se comigo.
Porquê mostrar, a mim, sua gadanha,
achará que sou, pra ela, um perigo?
O que perturba é ela conhecer-me,
parecer saber, de há muito, quem sou,
andar atrás de mim a envolver-me!
parecer saber, de há muito, quem sou,
andar atrás de mim a envolver-me!
Mas agora o momento chegou:
ser rei já muito pouco adianta,
quando a morte me aperta a garganta.
01.03.2024
ser rei já muito pouco adianta,
quando a morte me aperta a garganta.
01.03.2024
Eugénio Lisboa
NOTA: LE ROI SE MEURT é o título de uma notabilíssima peça de teatro, de Eugène Ionesco, que vi, encenada em Paris. Como o título me convinha, roubei-lho. É assim que se faz.
Até sempre , Eugénio Lisboa. Que saudade, querido amigo!










.png)

