quinta-feira, 9 de abril de 2026

A saudade de Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa ( 25 Maio 1930 - 9 Abril 2024)

 

O narrador comum narra como qualquer coisa mais ou menos podia acontecer. O bom narrador faz acontecer qualquer coisa diante dos nossos olhos como se estivesse presente. O mestre narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo.
         Hugo von Hofmannnsthat 


Recordar Eugénio Lisboa, numa data evocativa da sua morte, 9 de Abril de 2024, é sempre um exercício doloroso para quem  teve o privilégio de  o conhecer. O vazio que deixou apenas fica menos opressivo pela leitura da sua obra. A sua voz retorna como se se infiltrasse nas páginas para nos fazer acreditar que não está ausente. A sua presença impõe-se tal é a magia da sua escrita transformando esse exercício  num exercício de extrema riqueza.
Eugénio Lisboa, num pequeno ensaio " O tal prazer da escrita", de 20 de Junho de 2023, afirmava o seguinte:

A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores. E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.

É nesse universo prodigioso que qualquer dos seus leitores mergulha. As palavras certas  encontradas por este exímio escritor curam-nos pela alegria que nos dá ao encontrar o inefável salvífico.
Eugénio Lisboa tem uma obra plural . Volumosa e diversa. Em todos os géneros, em que ela se estende,  ressalta sempre o escritor profundamente culto, de uma  extraordinária erudição  que tem por trás o homem sensível, de uma extrema humanidade e de uma  simplicidade contagiante.
Entre mais de  meia centena de obras, publicou sete livros de Memórias sob o título "Acta Est Fabula" e não cinco como tinha planeado. Ao fazê-lo permitiu um novo fôlego às Letras Portuguesas. 
No Volume III de  Acta Est Fabula, Memórias -III - Lourenço Marques Revisited, informa  de que:

Escrever memórias, passados os oitenta, é um atrevimento. Planeá-las em cinco volumes é pura loucura. Ninguém me podia assegurar que viveria o tempo suficiente para os escrever todos. 
A razão de saltar do primeiro para o terceiro volume ( sem redigir o segundo) é simples: tenho 83 anos e nada me garante que terei vida para redigir os ambiciosamente sonhados 5 volumes. Gostaria em todo o caso, de poder deixar escritos os tomos que dizem respeito à minha vida em África. Foi lá que comecei, mesmo que não vá ser lá que acabo. Esses dois livros, eu devo-os à cidade de Lourenço Marques e ao espaço africano e ao mar africano e à luz africana. Faço questão de pagar essa dívida. O resto será feito se os deuses deixarem.  

Eugénio Lisboa é um prodigioso  mestre, "narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo." Pinta em palavras a sua África . Há uma  estranha coincidência de o dia do seu aniversário ( 25 de Maio de 1930) ser também, a partir de 1972, o Dia de África já que  Eugénio Lisboa  tem uma alma africana, embora  Homem de várias pátrias."
 
AQUELA ÁFRICA NÃO ACABAVA

A África, onde nasci, sobrava.
Era África por todos os lados,
olhava-se e nunca mais acabava,
nasciam pra sempre laços sagrados.

Nascer ali era ver o começo
de tudo: a areia da praia, o mar,
a chuva grossa, o sol quente, sem preço,
os mistérios do sexo a acenar.

A grandeza prometia grandeza,
os sonhos em nós não eram mesquinhos!
Visávamos grande, com a certeza

de irmos abrir bem novos caminhos!
Estar bem dentro daquele continente
não era dado a pequenina gente!
                             17.03.2024
Eugénio Lisboa

E recordar Eugénio Lisboa é reler a sua  obra. Nela está o poeta, o ensaísta , o singular crítico literário, o memorialista , o diarista, o cronista,  um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa dos séculos XX e XXI.
MEMENTO MORI

Este mar não vai desaparecer.
O que vai desaparecer sou eu.
Este mar vai continuar a ser.
Deixar de vê-lo é destino meu.

Continuará a espelhar o sol,
que, de mim, para isso, não precisa.
Estender-se-á como vasto lençol
o mar que tem grandeza por divisa.

O mundo existia antes de mim,
porque há ser que convive com não ser.
Haverá mundo, depois do meu fim

e ser que ignora o meu não ser.
Está bem assim porque é natural,
embora pareça demencial.
                      19.01.2023
Eugénio Lisboa
LE ROI SE MEURT

Ouvir o anúncio da minha morte
foi como ouvir uma língua estranha:
deram-me um esquisito passaporte,
sem dizerem se é pra vale ou montanha.

Pouco me vale reinar em qualquer Espanha,
a morte quer é haver-se comigo.
Porquê mostrar, a mim, sua gadanha,
achará que sou, pra ela, um perigo?

O que perturba é ela conhecer-me,
parecer saber, de há muito, quem sou,
andar atrás de mim a envolver-me!

Mas agora o momento chegou:
ser rei já muito pouco adianta,
quando a morte me aperta a garganta.
                         01.03.2024
Eugénio Lisboa

NOTA: LE ROI SE MEURT é o título de uma notabilíssima peça de teatro, de Eugène Ionesco, que vi, encenada em Paris. Como o título me convinha, roubei-lho. É assim que se faz.

Até sempre , Eugénio Lisboa. Que saudade, querido amigo!

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Pensamentos Sobre a Guerra

 

Mais Pensamentos sobre a Guerra
 
Toda a gente, quando a guerra anda no ar, aprende a viver com um novo elemento: a mentira.
Jean Giraudox
 
Temos o poder de fazer, desta, a melhor geração da humanidade, na história do mundo – ou fazer, dela, a última. 
John F. Kennedy
 
Mas, na guerra moderna… morrerás como um cão, por razão nenhuma.
 Ernest Hemingway
 
A guerra existirá até ao momento em que o objector de consciência gozar da mesma reputação de que goza hoje o guerreiro.
John F. Kennedy
 
Eu lancei a frase – “A guerra para pôr fim a todas as guerras” – e esse não foi o menor dos meus crimes.
H. G. Wells
 
Desejamos lei mundial, na idade da autodeterminação – rejeitamos guerra mundial, na idade da maciça exterminação.
John F. Kennedy
 
A maneira de ganhar uma guerra atómica é fazer com que ela nunca comece. 
General Omar Bradley
 
A paz é não só melhor do que a guerra, mas infinitamente mais árdua.
George Bernard Shaw

O que há de pior, logo a seguir a uma batalha, é uma batalha ganha.
Duque de Wellington (vencedor de Napoleão em Waterloo)
 
Seleccionados e traduzidos por
Eugénio Lisboa, 07.11.2023

terça-feira, 7 de abril de 2026

Uma história exemplar

Augustus John em Guilhermina Suggia, 
acervo da Tate Gallery
UMA HISTÓRIA EXEMPLAR
por Eugénio Lisboa
“Quando, em 1978, fui para Londres, na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada, contaram-me uma história que nunca mais esqueci. Foi-me contada pelo chanceler, Fernando Mendes, homem competentíssimo, de quem me viria a tornar amigo.
Fora trabalhar, na embaixada, ainda muito novo e logo a seguir ao fim da segunda guerra mundial, quando, em Inglaterra se vivia num regime de muito severo racionamento de tudo, incluindo bens alimentares. Passava-se ali uma “fome de rabo”. Fernando Mendes dava-nos pormenores impressionantes da forma como se vivia mal, naqueles tempos de frugalidade. E, como era costume com os ingleses, a frugalidade era para todos, incluindo ministros e até para a família real, no Palácio de Buckingham.
Para ilustrar isto, de forma impressiva, contou-me a história da ida da nossa famosa violoncelista, Guilhermina Suggia, a Londres, nesse período de austeridade, para ali dar um concerto. Tendo ficado hospedada, no Palácio de Buckingham, como convidada da família real, ali comia as suas refeições. Depois de um jantar frugalíssimo, como era de regra, Suggia foi dar o concerto, a meio do qual, desmaiou… de fome. Sim, que o violoncelo exige um grande dispêndio de energia! Isto é um exemplo do espírito de cidadania democrática, que, nessa altura, em muito contrasta com o que se passa nas democracias ditas populares, nas quais o povo passa a tal fome de rabo, enquanto os senhores do poder e adjacentes passam a viver em palácios sumptuários, como aconteceu, por exemplo, em Budapeste, ou em condomínios de luxo, onde nada falta. Vi isso em Moçambique, no princípio da independência, quando os Senhores do poder popular, se recusavam a beber os melhores vinhos a não ser em copos de cristal, surripiados “alfandegariamente” e “legitimamente” a portugueses que dali partiam, sem saberem para que destino e com uma mão à frente e outra atrás. E afirmavam, alto e bom som, que “tinham direito”, um direito que, curiosamente, se não estendia ao resto do povo. Isto passou e passa-se, de resto, em todas as democracias populares, sem excepção. Mas não se passava, e não por acaso, na decadente e burguesa democracia inglesa. Os regimes julgam-se por actos e decisões e não por palavreado sonoro e oco. Não há maiores depredadores do que os indivíduos cheios de razão histórica e de legitimidade ideológica. Para eles, vale tudo, até o massacre em massa dos adversários políticos, como foi o caso de um dos piores poetas que já existiram e que se chamou Agostinho Neto.”
Eugénio Lisboa, em 22.06.2022

A 7 de Abril de 1805

Gustavo Dudamel - Beethoven: Symphony No. 3 - Mvmt 1 (Orquesta Sinfónica Simón Bolívar)
A  7 de Abril de 1805 ,Ludwig van Beethoven estreou a sua Terceira Sinfonia, em Viena. 
Foi a primeira apresentação pública que teve lugar no  Teatro an der Wien, em Viena, no dia 7 de Abril de 1805, com o compositor na condução
A Sinfonia n.º 3, Em Mi Bemol (E♭) Maior (Op. 55)  (conhecida como Eroica que em italiano significa "heroica") é uma obra musical, por vezes citada como marco do fim da Era Clássica e o começo da Era Romântica.


domingo, 5 de abril de 2026

No Domingo de Páscoa também há Música

Hans Rottenhammer, Ressurreição de Cristo [Detalhe],quarto trimestre
do sec.XVI, domínio público, Wikimedia Commons

Neste Domingo de Páscoa, o domingo  da nova Esperança , ficam as palavras de um grande poeta , num longo poema , que dão ao dia o seu verdadeiro significado.
Para todos,  desejamos uma Feliz Páscoa .

CRISTO


Quão grandioso és Tu, Senhor,
transfigurado no alto do Tabor!
Evocas no infinito a Elias e Moisés,
numa epifania divina e inescrutável,
revelando Teu poder irrefutável
diante de Pedro, João e Tiago aos Teus pés!

Canto o Teu triunfo no alto do Calvário,
ante os zombadores e ali tão solitário,
dizendo ao mundo e aos anais da História:
Pai, por misericórdia, perdoa Meus algozes.
É o Teu amor, sob as dores mais atrozes,
que erige ali o panteão da Tua glória.

E no injusto tribunal dos opressores,
Teu amor invencível vence os “vencedores”.
Vence a imensa ingratidão do mundo,
vence a justiça de Pilatos e a Lei dos sacerdotes,
perdoa a patética traição de Iscariotes
e deixas na Via Crucis Teu rastro mais profundo.

Teu sacrifício, Teu exemplo, Tua dor,
revelam a personificação do Teu amor.
São Teus lábios perdoando o bom ladrão,
é Tua inocência sangrando no madeiro,
manchando de vergonha o mundo inteiro
e entregando a Deus Teu coração.

E depois da fúnebre travessia,
Tu ressurgiste no terceiro dia,
anunciando o sol da imortalidade.
E dizes, mostrando Tuas chagas a Tomé,
põe aqui teu dedo, e revive a tua fé,
Eu estou vivo. Sou a prova da verdade.

E só então subiste para além do horizonte.
Ficou Tua imagem, meu sustento, minha fonte,
Teu Evangelho a iluminar meus passos.
Ficou Tua figura tão bela e tão serena,
Teus cabelos repartidos na forma nazarena,
e se Te busco em prece, me sinto em Teu regaço.

O vértice da verdade, és Tu Senhor
És a ponte, o caminho para o Criador,
e ante a tempestade, és a certeza da bonança.
És o Mestre dos saberes mais profundos,
És Tu que acendes o farol do mundo,
És o sacrário da fé e o templo da esperança.

És o poeta das aves e dos lírios.
És o altar de todos os martírios,
e o fermento da humana devoção.
Bendito sejas, Divino Missionário,
Governador da Terra, celeste relicário,
e modelo da suprema perfeição.

Em verdade, nenhum poeta deste mundo,
cantou ditos tão belos e tão profundos
como a Tua sapiência no Sermão do Monte.
Onde, na beleza das Bem-Aventuranças,
Tu espalhaste as sementes da esperança
nas dimensões do tempo e do horizonte.

Rabi da escola terrestre,
Tu és o mestre dos mestres,
o Redentor e a luz do mundo.
Teu Evangelho simboliza a verdade,
é a cartilha de amor à humanidade
e o testamento dos princípios mais profundos.

Tua profecia derrubou o santuário
e dividiste as datas do nosso calendário.
Que poder é esse que encanta o mundo?
Caiu o Templo e nada restou do Império.
Restou Tua imagem no sudário e no mistério
e ninguém mais deixou exemplos tão profundos.

E desde então dois mil anos são passados,
e a humanidade ainda ostenta seus pecados.
Hoje somos nós que rogamos o Teu perdão,
pelas fogueiras que acendemos em Teu nome,
pela desventura de tantos que têm fome
pelas trincheiras em guerra e os bazares da ilusão.

Na magia da fé e nos mares do encanto,
numa nave celestial que esperamos tanto,
tu, ó Cristo, navegas revelando a profecia.
Estás no leme do veleiro da esperança,
no rumo do porvir, da Terra da bonança,
para nos abrir, no amanhã, um novo dia.
                           Curitiba, 29 de março de 2026
Manoel de Andrade, poema inédito

 
Leonard Bernstein em  LSO -  Gustav Mahler: Symphony No. 2 in C Minor "Resurrection", V. Finale (Excerpt)

sábado, 4 de abril de 2026

Uma súplica pungente

 

Lacrymosa ,  Messa Requiem, de Guiseppe Verdi
Este registo foi realizado  no Scala de Milão. O  Maestro  Daniel Barenboim dirigiu  a Orquestra,  os Coros do  Téatro alla Scala, a soprano  Anja Harteros , a  Mezzo Soprano Elina Garanca , o tenor Jonas Kaufmann e o baixo  René Pape.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O resgate de Jesus

 
O resgate de Jesus
 
Depois do seu passamento,
no mais ingrato momento,
Jesus foi abandonado.
Apenas dois fariseus,
sacerdotes entre os judeus,
honraram o crucificado.
 
Foi José de Arimateia
que teve a sublime ideia,
do resgate de Jesus.
Rogou a Poncio Pilatos
que autorizou com seus atos
descer seu corpo da cruz.
 
Pelo Evangelho, sabemos,
que ele com Nicodemos
retiraram do madeiro
o corpo do mestre amado,
que depois foi perfumado
para seu ato derradeiro.
 
E foi nesse triste cenário,
que ali perto do Calvário
foi um sepulcro encontrado.
E a Arimateia, bendigo,
por ceder o seu jazigo,
onde Jesus foi sepultado.
 
Ninguém sequer imagina
que foi por inspiração divina
o resgate de Jesus.
O que teria se passado
com seu corpo abandonado,
e ali pregado na cruz.
 
Pois pela lei do Império,
não se dava cemitério
para os réus crucificados.
Por condenações tão graves,
eram pasto para as aves,
suspensos e ali deixados.
 
E a lei do judaísmo,
com um cruel extremismo,
os destinava ao vexame.
Depois de ser despregado
era o corpo do condenado
jogado num vale infame.
 
Por ironia e por Deus,
devemos a dois fariseus
o resgate de Jesus.
Gratidão a Nicodemos
e a Arimateia não menos
por tirarem o Mestre da Cruz.
            Curitiba, 14 de março de 2026
Manoel de Andrade

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Amem-se uns aos outros

 
Psalm 23: I am Not Alone - The Lord is My Shepherd (Gregorian Chant)
"E, estando Jesus em Betânia, em casa de Simão, o leproso,
Aproximou-se dele uma mulher com um vaso de alabastro, com unguento de grande valor, e derramou-lho sobre a cabeça, quando ele estava sentado à mesa.
E os seus discípulos, vendo isto, indignaram-se, dizendo: Por que é este desperdício?
Pois este unguento podia vender-se por grande preço, e dar-se o dinheiro aos pobres.
Jesus, porém, conhecendo isto, disse-lhes: Por que afligis esta mulher? Pois praticou uma boa acção para comigo.
Porquanto sempre tendes convosco os pobres, mas a mim não me haveis de ter sempre.
Ora, derramando ela este unguento sobre o meu corpo, fê-lo preparando-me para o meu sepultamento
Em verdade vos digo que, onde quer que este evangelho for pregado em todo o mundo, também será referido o que ela fez, para memória sua.
Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os principais sacerdotes, E disse: Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei? 
E eles lhe estipularam trinta moedas de prata,
E desde então buscava oportunidade para o entregar.
E, no primeiro dia da festa dos pães ázimos, chegaram os discípulos a Jesus, dizendo-lhe: Onde queres que te façamos os preparativos para comeres a páscoa?
E ele disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus discípulos.
E os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara, e prepararam a páscoa.
E, chegada a tarde, sentou-se à mesa com os doze.
E, comendo ele disse: Em verdade vos digo que um de vós me há de trair.
E eles, entristecendo-se muito, começaram cada um a dizer-lhe: Porventura sou eu, Senhor?
E ele, respondendo, disse: O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair.
Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido.
E, respondendo Judas, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste."
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo: “Tomem e comam; isto é o meu corpo”. 
Em seguida tomou o cálice, deu graças e o ofereceu aos discípulos, dizendo: “Bebam dele todos vocês. Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados".
      Mateus  6-26:26-28
"Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que são meus discípulos, se se amarem uns aos outros."
        João 13:34-35

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Um intróito maior para esta semana

 

 
Mozart's Requiem in the Basilica of the Sagrada Familia - ARTE Concert
" Quando um monumento da música sacra ressoa num espetacular cenário arquitetónico: a Orquestra e o Coro do Gran Teatre del Liceu apresentam uma magnífica interpretação do "Requiem" de Mozart dentro das muralhas da Sagrada Família, em Barcelona. As duas obras-primas inacabadas — a Basílica da Sagrada Família, um templo de luz concebido pelo arquitecto catalão Antoni Gaudí, e a Missa de Requiem em Ré menor de Mozart — encontram-se… Em perfeita harmonia, dão a impressão de formarem um todo indissociável: cada elemento arquitectónico do edifício, das colunas aos arcos e aos vitrais modernistas, parece responder ao poder dramático da partitura. Sob a enérgica direcção do Maestro Giovanni Antonini, a Orquestra e o Coro do Gran Teatre del Liceu, acompanhados por quatro solistas, imprimem a este concerto uma rara força emocional, palpável desde as primeiras notas do "Introitus". Uma experiência imersiva, enriquecida por uma produção inspirada. Concerto (França, 2025, 48 min)"
Nota: A Basílica de Gaudi acaba de ser completada com uma belíssima torre que continua o modelo pensado pelo seu arquitecto.

terça-feira, 31 de março de 2026

O poema

O poema
VII

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

- Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
 
Herberto Helder, in Poemas completos. Série Grandes Escritores, Rio de Janeiro: Editora Tinta-da-China, 2016 – p. 39.

segunda-feira, 30 de março de 2026

A construção da Ponte de Brooklyn

 
A construção atribulada da Ponte de Brooklyn, em Nova Iorque
por Javier Zori del Amo
"Da dezena de pontes que atravessam o East River, só a de Brooklyn alcança a categoria de ícone graças à sua arquitectura – e a uma história singular.
A Ponte de Brooklyn não é apenas um emblema da arquitectura nova-iorquina – é também um símbolo literário e cinematográfico imortalizado em inúmeras obras da cultura popular. É uma das construções mais icónicas de Nova Iorque e caminhar na sua faixa pedonal, partilhada com ciclistas, tornou-se uma das experiências essenciais para quem visita a cidade. Atravessar a ponte ao entardecer, especialmente no sentido Brooklyn-Manhattan, proporciona uma vista espectacular do perfil iluminado da ilha – uma recepção quente e majestosa da cidade que nunca dorme.
A história da ponte de Brooklyn é marcada por perseverança e sacrifício. Desenhada pelo engenheiro John August Roebling, a ponte começou a ser construída após a aprovação do projecto, em 1867. Roebling já provara a sua genialidade em obras como o passadiço das Cataratas do Niágara, mas não chegou a ver a ponte terminada.
Um acidente ceifou-lhe a vida em 1869, deixando o seu filho Washington Roebling encarregado da obra monumental. No entanto, também Washington foi vítima de um golpe duro. Afectado pela “doença de Caisson”, uma condição causada pela descompressão rápida após a realização de trabalhos a grandes profundidades debaixo de água, ficou parcialmente paralisado.
Emily Warren e a ponte de Brooklyn
Foi então que a sua esposa, Emily Warren Roebling, se tornou a verdadeira heroína do projecto. Sem conhecimentos prévios de engenharia, Emily assumiu a direcção da ponte, servindo de intermediário entre o seu marido e os trabalhadores, supervisionando as obras e estudando engenharia para concluir a estrutura. É-lhe atribuído o mérito de ter levado o projecto a termo com sucesso, tornando-se assim uma figura-chave da história da ponte.
A ponte foi finalmente inaugurada no dia 24 de Maio de 1883, numa cerimónia presidida por Chester A. Arthur. Com quase dois quilómetros de comprimento e as suas torres neogóticas, foi considerada a oitava maravilha do mundo. Durante anos, foi a estrutura mais alta do Ocidente, consolidando a sua posição como uma das jóias da engenharia do século XIX. Além disso, em termos urbanísticos, a sua construção foi fundamental para a consolidação da Área Metropolitana de Nova Iorque em 1898, unindo Manhattan a Brooklyn, Queens, Staten Island e ao Bronx.
Actualmente, a Ponte de Brooklyn continua a ser uma peça essencial na infra-estrutura de Nova Iorque, embora também tenha evoluído como espaço de recreio. Nova-iorquinos e turistas desfrutam de caminhadas ou passeios de bicicleta na ponte, contemplando as vistas únicas de Manhattan e Brooklyn. Os acessos são fáceis em ambas as margens do rio. Em Manhattan é possível aceder-lhe a partir de uma plataforma de madeira em Centre Street, perto da estação de metro Brooklyn Bridge-City Hall.
Um passeio em DUMBO
Em Brooklyn, as escadas ficam em Washington Street e Prospect Street, perto de Cadman Square. Uma vez em Brooklyn, o bairro de DUMBO (Down Under the Manhattan Bridge Overpass) é uma paragem obrigatória. Esta zona, outrora um distrito industrial, transformou-se num vibrante epicentro cultural e gastronómico, com uma vasta oferta de restaurantes, galerias de arte e lojas.
Com as suas ruas enfeitadas e ambiente moderno, DUMBO proporciona uma vista inigualável da ponte de Brooklyn e do skyline de Manhattan. É um bairro em constante mudança, onde antigos armazéns industriais transformados em lofts de luxo convivem com espaços de trabalho modernos e lojas. O Brooklyn Bridge Park, situado junto à margem do East River, é outro sítio perfeito para relaxar e desfrutar das melhores vistas da ponte, sobretudo ao cair da noite, quando as luzes da cidade transformam o horizonte num espectáculo inesquecível."
Javier Zori del Amo, in National Geographic, Outubro de 2025

domingo, 29 de março de 2026

Ao Domingo Há Música

La saeta

Quién me presta una escalera
para subir al madero,
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?
Antonio  Machado , La saeta , Campos de Castilla


Aqui junto a nós , há  ritmos que sabem dar ao tempo a forma que lhes é própria. 
É assim , nesta época , em Espanha, na Andaluzia que tão marcadamente celebra a semana santa. 
Fica a voz de  India Martinez, em La saeta, canção de Joan Manuel Serrat , adaptação de um poema de Antonio Machado.
Jennifer Jessica Martínez Fernández (Córdoba, 1985), mais conhecida por India Martínez, é uma cantora espanhola. Aos 12 anos participou no programa televisivo Veo Veo, apresentado por Teresa Rabal, e foi finalista. Durante estes anos, começou a estudar guitarra clássica e teoria musical, ganhando vários primeiros prémios em festivais de flamenco. Gravou o seu primeiro álbum, Azulejos de lunares, em 2004, aos 17 anos. India Martínez lançou o seu segundo álbum, Despertar, em 2008, que foi nomeado para dois Grammy Latinos, e em 2012 conquistou o seu primeiro Disco de Ouro com Trece verdades. India Martínez venceu o Prémio Goya de Melhor Canção Original por "Niño sin miedo", do filme "El niño", em 2015. Em 2019, homenageou o humilde bairro de Las Palmeras, em Córdoba, onde cresceu, com o álbum Palmeras. Recebeu a Medalha da Andaluzia em 2017. 
A letra de "La Saeta" baseia-se num poema de Antonio Machado, publicado em "Campos de Castilla" (1912). Foi imortalizada como canção por Juan Manuel Serrat, que compôs a canção e a incluiu no seu álbum de 1969, dedicado a Antonio Machado, o poeta sevilhano que morreu a caminho do exílio. A Andaluzia acolheu-a e é uma canção frequentemente interpretada durante a Semana Santa, tendo-se tornado uma marcha processional. Deixando de lado o discurso crítico sobre a Semana Santa do republicano Antonio Machado, e com a música do cantor e compositor catalão Joan Manuel Serrat, a canção alcançou um estatuto independente como parte da banda sonora da Semana Santa andaluza. 
A primeira adaptação de "La Saeta", de Serrat, como marcha processional foi interpretada pelo grupo musical Santísimo Cristo de la Buena Muerte, de Ayamonte, Huelva. A banda María Santísima de las Angustias gravou a primeira versão para a Semana Santa em Sevilha, em 1986, para acompanhar a procissão do Cristo de los Gitanos, na manhã de Sexta-feira Santa. A partir desse momento, La Saeta alcançaria grande popularidade como marcha processional.
   
 India Martinez Coro ArteSí de Olvidados , em Niño Sin Miedo.
 

sábado, 28 de março de 2026

Eugénio Lisboa cita Roger Martin du Gard

Eugénio Lisboa , como grande pensador , não deixava de citar muitas reflexões de outros grandes escritores que se convertiam em belos e enriquecedores momentos de leitura. 
Eis algumas  retiradas do romance Os Thibault de Roger Martin du Gard , que constam  do seu primeiro volume de Memórias , Acta est fabula. I. Lourenço Marques – 1930-1947

"Deixo aqui, do grande escritor francês, Roger Martin du Gard,  algumas pérolas, todas colhidas nos Thibault:
– “Não há verdade, a não ser provisória... Tactear, hesitar. Não afirmar nada, definitivamente. Todo o caminho em que nos lançamos a fundo torna-se um impasse. Curarmo-nos do gosto da certeza.”

– Jacques: “Um dos dias decisivos da minha vida foi aquele em que compreendi que o que, em mim, era, pelos outros, julgado repreensível, perigoso, era, pelo contrário, o melhor, o mais autêntico de mim.”

– “O orgulho é a minha alavanca, a alavanca de todas as minhas forças. Sirvo-me dele. Tenho perfeitamente esse direito. Será que se não trata, antes de mais nada, de utilizar as nossas forças?”

– “Armadilha do diabo. Disfarçar o orgulho não é o mesmo que ser modesto. Mais vale deixar saltar à vista os defeitos que se não soube vencer, fazer disso uma força, do que mentir e enfraquecer, dissimulando-os.”

– “Nunca se está só, quando se está à mesa de trabalho.”

– “É tentador desembaraçarmo-nos do fardo exigente da nossa personalidade! É tentador deixarmo-nos englobar num vasto movimento de entusiasmo colectivo! É tentador acreditar, porque é cómodo, e porque é supremamente confortável! Saberás resistir à tentação?”

– “É preciso escolher as virtudes que engrandecem. Virtude suprema: a energia.”
Eugénio Lisboa, in Acta Est Fabula, I , Memórias,  Lourenço Marques - 1930- 1947 ,Editora Opera Omnia, 2012, pp.157-158

sexta-feira, 27 de março de 2026

Entre Portugal e Espanha: Uma História Fascinante

 
 Olivença - Entre Portugal e Espanha: Uma História Fascinante

"Olivença, uma cidade histórica envolta em controvérsia, é um destino repleto de monumentos únicos e eventos marcantes. Neste vídeo, exploramos a rica história desta localidade raiana, desde os primeiros registos até à atualidade, revelando o património arquitetónico e cultural que a cidade oferece. Caminhe connosco pelas ruas de Olivença e descubra os traços que revelam a sua ligação a Portugal e Espanha. 
O vídeo percorre os principais monumentos da cidade, como o Castelo, a Igreja de Santa Maria Madalena e os Paços do Concelho, destacando a importância cultural e histórica de cada local. Vamos ainda descobrir como as influências arquitectónicas portuguesas e espanholas se entrelaçam, refletindo a herança partilhada e a complexidade da história de Olivença. Além do percurso histórico, também é abordada a "Questão de Olivença", o diferendo entre Portugal e Espanha pela posse desta cidade, que dura desde há mais de 200 anos. 
Se lhe interessa a história, o património cultural ou as complexidades das fronteiras, este vídeo é uma viagem essencial pela cidade de Olivença."

quinta-feira, 26 de março de 2026

A desgraça da guerra

A desgraça da guerra, o terror
Paris, 1948 - o número
"Paris , casa de Picasso, em torno à mesa , somos uns poucos na tentativa de convencê-lo a comparecer ao Congresso de Intelectuais pela Paz que se vai reunir em Wroclaw na Polónia: Louis Aragon, Alexandre Korneichuk, Pierre Gamara, Emílio Sereni e a cineasta polaca Wanda Jacubowska, cujo filme de estreia triunfa nas salas de cinema. Wanda está sentada ao lado do pintor .
Picasso, intransigente na recusa, não irá , peçam-lhe outra coisa, pode doar um quadro, se preciso. Comparecer, jamais , perda de tempo, tem mais o que fazer , deve pintar. Gastaram-se todos os argumentos , caíram todos no vazio, terminamos por desistir, o Congresso não contará com a estrela de Guernica. Queijos, vinhos, comenta-se o filme de Wanda Jacubowska.
Picasso demora o olhar no braço nu da cineasta, vê o número gravado, pergunta de que se trata.
- Meu número no campo de concentração onde estive durante a guerra.
Picasso passa de leve a ponta dos dedos no braço da moça de Varsóvia, olha para nós, dirige-se a Aragon:
- Eu vou, podem contar comigo.
Foi e fez discurso, esteve o tempo todo. Depois desenhou para outros congressos, a Paloma signo da paz. Tocara com os dedos a desgraça da guerra, o terror."
Jorge Amado, in Navegação de Cabotagem, Publicações Europa - América, p 238

quarta-feira, 25 de março de 2026

Vamos Ler

Vamos Ler
por Eugénio Lisboa
"A leitura é, para os grandes leitores, um prazer, uma instrução e uma terapêutica. Prazer, já vimos como pode sê-lo – e de que maneira absorvente! Quanto a instrução, não há dúvida de que a grande literatura nos abre grandes e novas perspectivas sobre o mundo em que vivemos: fala-nos de lugares e de pessoas, de ideias e de emoções, de conflitos humanos e de aventuras que nos enriquecem. A falta de leitura pode ser a causa de certos impedimentos aparentemente inexplicáveis. Contava o proprietário de uma grande empresa americana, que dependia fundamentalmente do espírito inventivo dos seus engenheiros, para o êxito comercial da firma, que, a certa altura, começou a sentir-se desconfortável com o facto de nunca dar aos seus indispensáveis técnicos uma hipótese de chegarem ao topo da hierarquia da empresa. Mantinha-os a investigar, num nível mais baixo do organograma, embora com salários elevados, ficando os lugares de topo para gente do direito e da economia. Bem pagos, sim, promovidos, não. Permaneciam lá em baixo, a produzir os “gadgets” que a empresa vendia… Por fim, o proprietário, para aliviar a sua consciência, decidiu que era injusto não dar aos seus engenheiros, a quem a empresa tanto devia, a mesma oportunidade de promoção que dava aos juristas e aos economistas. E começou a promovê-los, empurrando-os suavemente pelo organograma acima. Mas acabou a verificar que, a partir de um certo nível da hierarquia, nem eles se sentiam confortáveis com as tarefas de pura gestão, nem os lugares pareciam ajustar-se-lhes. Intrigado, tentou arduamente, durante algum tempo, perceber a razão disto, uma vez que não queria que a injustiça se perpetuasse. O tempo foi passando, sem que ele chegasse a uma conclusão. Até que, um dia, para seu grande espanto, deu com a resposta: o que aos seus engenheiros faltava, para se sentirem mais confortáveis no topo da hierarquia, era um bom bocado de leitura e de cultura geral. A leitura abre-nos portas e ilumina realidades, idiossincrasias, conflitos, emoções, preconceitos, ambições, etc., que um chefe de empresa não pode ignorar. A leitura não fornece um apêndice decorativo ao grande empresário – é simplesmente uma necessidade. Um dos grandes engenheiros electrotécnicos do nosso país, que foi um grande Professor do Instituto Superior Técnico e um notável Ministro da Economia – Ferreira Dias – era também um homem de grande cultura, com a qual muito enriqueceu o seu magistério, do qual, nós, alunos, aproveitámos, gulosamente: durante as viagens de fim de curso, com ele, como cicerone, ou sempre que uma oportunidade surgia. O grande matemático, Mira Fernandes, era um homem cultíssimo, como o era Bento de Jesus Caraça, fundador da legendária Biblioteca Cosmos, e também o Professor de Física do Instituto Superior Técnico, António da Silveira (que escrevia admiravelmente). Os grandes profissionais, os verdadeiramente de topo, não rejeitam a leitura, até ao fim das suas vidas. Aprender até morrer – é o lema. O mítico empresário Henry Ford disse-o de forma categórica: “Quem quer que cesse de aprender é velho, quer tenha vinte, quer tenha cinquenta anos. Quem quer que continue a aprender mantém-se eternamente jovem.” Só os profissionais e empresários medíocres se confinam no universo estreito e fechado da sua “especialidade”. Egas Moniz foi um grande médico, um grande Professor, um notável investigador e um espírito aberto à cultura e à literatura."
Eugénio Lisboa, in Vamos Ler!, Editora Guerra e Paz, 2021, pp.42-45

domingo, 22 de março de 2026

Ao Domingo Há Música


Colombo (Sri Lanka)
Jardins do Palheiro  ( Ilha da Madeira)
Hanging Garden , Bombaim ( Índia)
Velha Goa (Índia)
Colombo ( Sri Lanka)

Quando vier a Primavera

Quando vier a primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro , Poesia de Fernando Pessoa  (Poemas Inconjuntos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 109

A Primavera está aí. É igual em todo o mundo. A natureza acorda e veste-se de novo com as cores perdidas no inverno ou na estação anterior para lhe dar fim. Assim fosse tudo no mundo. Que as cores da Primavera o pintassem e o transformassem num novo Mundo. Talvez assim , tal como o poeta, pudesse morrer contente.
Os temas musicais deste domingo pertencem a uma banda  com nome feito, ao longo dos anos. Nunca esmoreceu e soube renovar-se em todos os trabalhos que foi e vai apresentando.
A voz identitária da banda foi sempre carismática. Uma voz que enche e se distingue entre qualquer outra. Uma mulher talentosa que  sabe dar ao canto a harmonia que faz dele singular, único.

The Gift,  em Coral ao Vivo - PrimaveraGravado ao vivo no Coliseu dos Recreios em Novembro de 2023. Faz parte do Disco Coral ao Vivo
 
The Gift , em Clássico (Official Video).
The Gift , em Fácil de Entender (Abril de 2006).

sábado, 21 de março de 2026

Poemas no dia Mundial da Poesia


"O valor das palavras na poesia é o de nos conduzirem ao ponto onde nos esquecemos delas, e o ponto onde nos esquecemos delas é onde nunca mais se pode ter repouso."                                 Natália Correia


Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
— Sílaba por sílaba —
O acompanha
Sílaba por sílaba
O poema emerge
— Como se os deuses o dessem
O fazemos
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Assírio & Alvim

O Poeta é um fingidor

Exprimo o que já não sinto.
Escrevo o que já pensei.
Em arte , se sofro, minto:
registo o que já não sei.

Fazer é ter já sofrido
o que hoje não é sofrer.
já não faz nenhum sentido,
a dor dita no escrever.

Eu finjo que já sofri,
com arte que sou capaz,
aquilo que eu vivi,
no tempo de ser rapaz.

Viver é um luxo passado,
perdido, já sem sentido,
que eu terei recuperado
no texto agora mentido.

O poeta é um fingidor:
finge tão completamente,
que finge de fingidor,
no momento em que mente.
Londres, 15.05.82
Eugénio Lisboa, in a matéria intensa, Editora Peregrinação, Suíça, p 52
Soneto do reencontro

Na primavera tu voltaste de mansinho
finda a tempestade, surgiste na bonança
me conjugando o verbo da esperança
num íntimo gesto de lírico carinho.

Tu foste meu fuzil, o meu canto guerreiro
a voz peregrina acesa no meu peito,
ensina-me a cantar agora de outro jeito
para entoar amor e paz ao mundo inteiro.

Combatente e amordaçada em meu destino
silenciados e por atalhos clandestinos
trinta anos se passaram, dia-a-dia.

Depois a liberdade chegou para o meu povo
mas só agora eu te encontrei de novo
para nunca mais perder-te... ó poesia.
Curitiba, dezembro de 2002
Manoel de Andrade, in Cantares , Escrituras Editora, São Paulo, Brasil
Vento do Espírito

Senti passar um vento misterioso
Num torvelinho cósmico e profundo.
E me levou nos braços; e ansioso
Eu fui; e vi o Espírito do Mundo.


Todas cousas ermas, que irradiam
como um nocturno olhar inconsciente,
Luz de lágrima extinta, não sentiam
A trágica rajada, que somente


Meu coração crispava! Ó vento aéreo!
Vento de Exaltação e Profecia!
Vento que sopra, em ondas de mistério
E tanto me perturba e me extasia!


Estranho vento, em fúria, sem tocar
Na mais tenrinha flor! E assim agita
Todo o meu ser, em chamas, a exalar
Luz de Deus, luz de amor, luz infinita!


Vento que só encontras resistência,
numa invisível sombra... Um arvoredo,
Ou bruta pedra, é como vaga essência;
E, para ti, eu sou como um penedo.


E na minha alma aflita, ó doido vento,
Bates, de noite; e um burburinho forte
A envolve, arrasta e leva num momento;
E vai de vida em vida e morte em morte.

Vento que me levou, nem sei por onde,
Mas sei que fui; e, ao pé de mim, bem perto,
Vi, face a face, a névoa a arder que esconde
O fantasma de Deus, sobre o deserto!

E vi também a luz indefinida
Que , nas trevas, se fez, esclarecendo
Meu coração, que voa, além da vida,
O seu peso de lágrimas perdendo.

E aquele grande vento transtornou
Minha existência calma; e dor antiga
Meu rude e frágil corpo trespassou,
Como a chuva nos andrajos de mendiga.

E fui num grande vento; e fui; e vi:
Vi a sombra de Deus. E, alvoroçado,
Deitei--me àquela sombra, e, em mim, senti
A terra em flor e o céu todo estrelado.
Teixeira de Pascoaes, in As Sombras, Círculo de Leitores, Março de 1973, pp.18,19


Viagem

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...
Miguel Torga, in Diário XII, Círculo de Leitores

Amor da Palavra, Amor do Corpo

A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
António Ramos Rosa, in Nos Seus Olhos de Silêncio, Publicações Dom Quixote, 1970; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa,  p. 116
A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da razão
e passagem para o que não se vê.
Manuel António Pina, in Todas as Palavras, Assírio & Alvim

quinta-feira, 19 de março de 2026

Poesia em voz maior

Liberdade

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga, in 'Diário XII', Círculo de Leitores

INSTRUÇÃO PRIMÁRIA

Não saibas: imagina...
Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...
Miguel Torga,in Diários- Diário IX, Circulo de Leitores

MAR

Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!
Miguel Torga, Antologia PoéticaLisboa, Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 1999

quarta-feira, 18 de março de 2026

Viajar pelo Equador

Talvez seja nos grandes espaços naturais que descobrimos o indício mais venerável e mais excelente de tudo quanto nos ultrapassa. 
Alain de Botton, A Arte de Viajar

 
 Ecuador in 4K - Incredible Scenes & Uncovering Hidden Gems ,  4k Films Adnam

Equador 

"A origem do nome não deixa dúvidas. A linha do Equador marca a divisão entre os Hemisférios Norte e Sul.
Equador refere-se à localização geográfica do país, na famosa linha imaginária do equador, que divide a Terra em Hemisférios Sul e Norte. Esta denominação foi dada ao país em 1830, depois que o território se separou da Gran Colômbia. "