quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Livros para um Natal Gradiva/Guerra & Paz

Esta é a primeira vez que escrevo em nome da Gradiva. E, logo a seguir,a newsletter natalícia da Guerra e Paz. Com ternura, para quem gosto e para quem admiro.
Manuel S. Fonseca, Editor da Gradiva e da Guerra & Paz

Do manto de Gradiva, cinco livros de Natal
"Tenho a mão a treme
r. É a primeira vez que escrevo aos leitores da Gradiva. Se se lembram de Fanny e Alexandre, de Ingmar Bergman – é um filme de Natal, ó se é!  – lembram-se, é claro, da cena em que o pequeno Alexandre visita uma loja de brinquedos, autómatos, objectos mágicos, uma autêntica gruta de Ali Babá, guiado pelo dono, o judeu Isak Jacobi, amigo da família. É uma cena de maravilhoso puro, de desmedido deslumbramento. Assim me sinto eu, pequeno Manuel, nesta loja mágica chamada Gradiva, criada pelo meu amigo Guilherme Valente. 

O Guilherme pede-me, exige-me, que eu escolha à vontade: «Leva e lê, este Natal.» Agarro logo essa intriga de cem anos, essa viagem e  ocultação de um poema que atravessa o romance de Ian McEwanO Que Podemos Saber. Que força, que dom poético move cada um de nós, que somos afinal também personagens de McEwan, e nos permite sobreviver ao caos, à iminência da catástrofe, ao crime e à vingança, à doença e ao próprio amor? Leiam-no comigo, este Natal. 
E já o Guilherme me pede que procure outro dos seus objectos mágicos. Tropeço no Nome da Rosa, outro Nome da Rosa, aquele que ao nome de Umberto Eco junta o nome de Milo Manara, mestre do traço erótico. É uma das BD do Guilherme, dessas raridades que ele cultiva: imagino-o sentado com um Eco vindo do reino das sombras e com Manara, a pedir-lhes exuberância, riqueza criativa, mistério e desejo. Dessa matéria se faz este volume BD de O Nome da Rosa.
E sigo viagem com o meu amigo e mestre editor. Desembocamos no cosmos. Recebe-nos Stephen Hawking. Na mão, o seu A Teoria de Tudo: Origem e Destino do Universo. Como é possível que o pensamento humano seja tão claro, que alguém possa escrever argumentos tão luminosos e persuasivos, que fazem com que eu me sinta uma criança de cinco anos encantada? Talvez, afinal, o mundo da ciência seja o verdadeiro mundo do conto de fadas, com o seu universo em expansão, buracos negros e Big Bang.
«Manel – diz o Guilherme – este é para ti!» e dá-me As Lições dos Mestres, de George Steiner. E eu agradeço-lhe, intrigado com o que é o saber e como se transmite. Intrigado também com o rumor subterrâneo que liga, afinal, o saber e o poder. O que é ser um mentor? Mestres, aponta Steiner, foram Sócrates e Jesus, Confúcio, Dante ou Shakespeare. E quem foi, em filosofia o nosso mentor, Guilherme? O magnífico Trindade Santos e o Platão que ele nos ensinou a ler? E o que é ser um discípulo? Conseguirei eu ser, como editor, algo que se pareça a um teu discípulo?
Acabaria assim se Guilherme Valente, editor de meio-século, fundador desta gruta mágica, não me fizesse levantar a cabeça, obrigando-me a olhar de frente para Klara e o Sol, do Nobel Kazuo Ishiguro. Estou de olhos nos olhos com Klara, a amiga andróide. No céu, o Sol contempla-nos. Indiferente à nossa natureza, ilumina-nos, aquece-nos, dá-nos energia. Qual de nós o ama mais?
Foram estes os cinco livros de Natal que trouxe desta primeira viagem ao bosque de frutos encantados que se chama Gradiva, jardim que, com minucioso e fremente amor, Guilherme Valente criou e de que quero agora ser  fiel jardineiro.

 

Livros Guerra & Paz que serão sempre de Natal

"Há prendas, quase uma confissão sussurrada, que só se dão a quem muito se ama. Ou talvez a quem queremos que muito nos ame. Há livros que são essas prendas, suspiros de Natal, afago discreto de um dedo a deslizar na arrepiada pele. 

E se o Natal é mesmo essa onda devastadora de tudo se amar, até mesmo os inimigos, mais do que oferecer a outra face, por que não oferecer, a amigos e inimigos, a surpresa da intensa beleza que vem da China? 
Ouçam, leiam bem o título deste livro do modesto funcionário público do século XIX chinês que foi Shen FuNo Fio Inconstante dos Dias: Memórias de Uma Vida Flutuante. Quanta ternura e quanta incerteza não peregrinam por esses dias prometidos, por essa vida navegante? É uma história de amor, com concubinas e barcos de flores, com um boémio curso de vinho de arroz, e é também, em fundo, a paisagem chinesa, rios e montanhas, jardins e palácios, amor e morte.
Outra prenda, toda em veludo, é O Crisântemo e a Espada, essa declaração de amor que a antropóloga Ruth Benedict dedicou ao Japão e aos japoneses. Honra e dívida, pais e filhos, devoção filial, fica tão lindamente exposta toda a delicada reserva japonesa, a íntima filigrana de que é feito o povo do sol nascente. 
A antiquíssimas aventuras é que nos leva outra mulher, Jessie L. Weston. Escreveu Do Ritual ao Romance só para nos mostrar de quantos e tão remotos rituais vêm os nossos ideais de cavalaria, a salvação de donzelas, a morte do rei; de tão longínquo e tão enraizado paganismo vem também o que ainda nos sobra de cristianismo. Lê-se como uma novela da Távola Redonda e foi neste Do Ritual ao Romance que se inspiraram A Terra Devastada de T. S. Eliot e o Apocalypse Now, de Coppola. 
A quem queremos oferecer o corpo, a quem queremos que nos ofereça o corpo é que entregaremos a Cartografia do Desejo, o livro com as mais libérrimas fotografias de Alfredo Cunha. Não é apenas o aroma da nudez que Alfredo Cunha nos oferece: em cada fotografia sua está o essencial de um corpo, o seu movimento, e sobretudo a projecção do seu desejo. O desejo é a preto e branco, e é de lençol de seda a suavidade do papel gardapat, cama em que cada fotografia se deita. 
Para acabar, deixem-me ir buscar o sorriso de fina ironia de Agustina Bessa-Luís. Tomando nas suas mãos 12 episódios da nossa história de mil anos, Agustina somou a essa história a glória e o ciúme, a lealdade e a traição, a espada e o punhal. Agustina romanceou, delirou, dramatizou, ironizou, com liberdade prodigiosa, um dos mais espantosos e escondidos dos seus livros, Fama e Segredo na História de Portugal. Passe o Natal com este livro que até ao Menino Jesus de Caeiro arrancaria um sorriso trocista."

Manuel S. Fonseca, Editor

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