quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Até sempre, Jorge Palma!

Jorge Palma

A gente vai continuar

Tira a mão do queixo não penses mais nisso O que lá vai já deu o que tinha a dar Quem ganhou ganhou e usou-se disso Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar E enquanto alguns fazem figura Outros sucumbem á batota Chega a onde tu quiseres Mas goza bem a tua rota Enquanto houver estrada pra andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada pra andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar Enquanto houver ventos e mar Todos nós pagamos por tudo o que usamos O sistema é antigo e não poupa ninguém Somos todos escravos do que precisamos Reduz as necessidades se queres passar bem Que a dependência é uma besta Que dá cabo do desejo A liberdade é uma maluca Que sabe quanto vale um beijo Enquanto houver estrada pra andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada pra andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Jorge Palma
 
Camané em A gente vai continuar
Morreu Jorge Palma. Aos 76 anos partiu, deixando uma obra espalhada por muitas vozes e acentuada e diferentemente por ele próprio. Dono de um timbre especial, era único na interpretação de tudo o que compunha.
Um cultor e perfeccionista do piano embora ágil em outros instrumentos musicais, tinha um conhecimento musical superior que o conduziu à vasta composição de canções que vão perdurar .
Obrigada Jorge Palma. Até sempre!

Citações do dia

CITAÇÕES DO DIA

Se quiseres brilhar como o sol, terás, em primeiro lugar, que queimar, como ele.
Eu uso a emoção para muitos e reservo a razão para poucos.
Só aquele que domina a juventude domina o futuro.
Ao vencedor, nunca lhe será perguntado se disse a verdade.


Recolhi, para boa reflexão dos entusiásticos participantes do congresso do CHEGA, estes pensamentos, que foram motores de arranque de uma das maiores calamidades que assolaram a Humanidade. Tentem arrefecer as emoções e façam bom uso da razão.
O autor destes aforismos incendiários e que andam por aí, na ordem do dia, chamou-se ADOLFO HITLER.

Recolha de
Eugénio Lisboa, 14.01.2024

terça-feira, 22 de setembro de 2026

A gratidão em poesia, num Simpósio de Medicina

 Manoel de Andrade e Edson Gomes Tristão
no 7º Simpósio da Associação Médico Espírita do Paraná

O poeta Manoel de Andrade foi convidado para o 7º Simpósio da Associação Médico Espírita do Paraná, um importante encontro de médicos, com uma vasta e valiosa programação. Evento organizado   e coordenado   pelo Dr. Edson Gomes Tristão, Médico especializado em Ginecologia e Obstetrícia, Mestrado e doutorado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Professor titular de Obstetrícia UFPR e Presidente da Associação-Médico Espírita do Paraná
Manoel de Andrade, o ilustre poeta de Curitiba , encerrou o Simpósio, lendo um longo e belo  poema de gratidão  . Para justificar a escolha,  declarou que, como criatura, há três formas de nos dirigirmos a  Deus: Pedindo ou rogando alguma coisa, agradecendo por tudo o que recebemos ou louvando a Deus pela sua beleza, pela sua magnitude. Perante tudo o que foi apresentado  neste Simpósio, o poeta optou por agradecer.

Prece de gratidão

Eu te agradeço, Senhor,
ser filho do Teu amor
e herdeiro do Universo.
Ser cantor dessa beleza,
ter um lugar nessa mesa,
pelo sabor do meu verso.

Senhor, muito obrigado,
pelos pais bons e honrados
e pelas lições da pobreza.
Pelo café com farinha,
por tudo que eu não tinha
e que fez minha riqueza

Pelo meu corpo perfeito,
pela poesia em meu peito
e os anos da minha idade.
Por todo dever cumprido,
pelo amparo recebido
e o céu da imortalidade.

Eu Te agradeço também
pela semente do bem
plantada no meu pomar.
Pela doçura desse fruto
não ter me tornado um bruto
e ter aprendido a amar.

Pela água da minha fonte,
pela linha do horizonte
e um sonho de marinheiro.
Pelo meu mar de criança
e o meu barco de esperança
percorrendo o mundo inteiro.

Pelo pão, pelo abrigo,
pelo abraço do amigo,
por Teu carinho invisível.
Agradeço-Te com veemência
esta paz na consciência
e a minha fé invencível.


Pela luz que me ilumina
desde a antiga Palestina
na alegria e na dor.
Por quem sou, pelo que sei,
por Moisés trazendo a Lei,
por Jesus trazendo o amor.

Senhor, eu Te agradeço
pela dor e o tropeço
quando ensinam uma lição.
Ninguém paga sem dever
e a Lei obriga a colher
o efeito da nossa ação.

Pela sapiência contida
no pergaminho da vida,
na magia e na razão.
Agradeço-Te a minha parte,
pela ciência, pela arte
e pela Grécia de Platão.

Por Cabral no rumo certo,
pelo Brasil descoberto,
pela pátria e o cidadão.
Pelo herói da Inconfidência,
o Grito da Independência
e a bênção da Abolição.

Pelas lições da História,
pelo povo e a sua glória
na busca da liberdade.
E pela Humanidade inteira,
quando erguer sua bandeira
pela paz e a verdade.

Grato sou por ter um sonho,
sonhar com um mundo risonho
numa paz contagiante.
Ver este Brasil fecundo,
como o coração do mundo,
em um porvir deslumbrante


Agradeço o bom combate,
e ter encarado esse embate,
com o coração despojado.
Com Tua luz nos meus passos,
a fraternidade em meus braços
e o meu sonho preservado.

Contigo, Senhor, sou forte,
tenho um fanal, tenho um norte:
amor, sensibilidade.
Eu moro na melodia,
na música, na poesia
e no farol da verdade.

Muito obrigado, Senhor
pelo trabalho e o suor,
pelo que dei e recebi.
Quando chegar meu momento,
se eu tiver merecimento,
me leva pra junto de Ti.
Curitiba, Dezembro de 2002
Manoel de Andrade, in As palavras no Espelho, Editora Escrituras, São Paulo, Brasil, 2018, pp. 255-258

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

“Eis a péssima notícia: estamos perdidos, irremediavelmente perdidos. Estamos perdidos, mas temos um tecto, uma casa, uma pátria. É a nossa pátria, o lugar de nossa comunidade de destino de vida e morte. O evangelho dos homens perdidos diz-nos que devemos ser irmãos, não porque seremos salvos, mas porque estamos perdidos”
Edgar Morin, in Terra-Pátria, Edições Piaget, Abril 2001
Sinopse do livro:
"Este é o quinto século da era planetária. A irrupção de forças obscuras e bárbaras convive com a mundialização do desejo de vida, de uma qualidade de vida superior.
Os indícios de morte e de vida confundem-se. Esta situação agónica não resulta apenas de novas crises que vêm avolumar os conflitos tradicionais. É, antes, um todo que vive de ingredientes conflituais, críticos problemáticos e que encerra em si o principal dos problemas: a impotência da humanidade para se tornar humanidade. A presente obra propõe uma reformulação de pensamento que nos permita conceber todas as coisas no seu contexto e no todo planetário, uma definição das nossas finalidades, enquanto seres terrestres. Privados da certeza da salvação podemos, no entanto, enunciar um evangelho da perdição. A tomada de consciência, por parte da comunidade humana, em relação ao seu destino no planeta Terra deverá constituir o acontecimento-chave do fim do milénio. Estamos solidários neste e com este planeta. É a nossa Terra-Pátria."

domingo, 20 de setembro de 2026

Ao Domingo Há Música


Tens os olhos de Deus,
E cada qual com os seus
Vê a lonjura que quer,
E quando me tocas por dentro
De ti recolho o alento 
Que cada beijo trouxer. 
E eu preciso de mais, 
Preciso de mais.
 Pedro Abrunhosa

O calor anda no ar. Traz dias longos e de grande azáfama . Nem sempre chegam para os sonhos que lhe pomos. E rodam, expandem-se em sonhos de ansiados tamanhos. Sonhos que são apenas sonhos para dar cor e mais luz aos dias.
As vozes, que se apresentam,  transformaram  momentos reais em momentos de inenarrável sonho.

Dulce Pontes, em Ondeia.  Música e Letra: Dulce Pontes.
Fotografias: Joana Constante - Coliseu do Porto 17 Janeiro 2015 / Montagem: Carlos José.
  
Mariza , em  Chuva , composição de  Jorge Fernando (Concerto em Lisboa).
   
Ana Moura, em  Tens os Olhos de Deus , composição de Pedro Abrunhosa ( Antena 3).
   
Carlos Do Carmo e Camané, em  Por Morrer Uma Andorinha.
   
  Amália Rodrigues, em Gaivota. Música de Alain Oulman e poema de Alexandre O´Neill.

sábado, 19 de setembro de 2026

O último poema

O último poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira, in  50 poemas escolhidos pelo autor, Ed. Cosac Naify – São Paulo, 2006, pág. 35.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Uma vergonhosa e hipócrita mentira


Não há boas maneiras nas guerras
por Eugénio Lisboa
“Quando se diz que, nas guerras, deve haver boas maneiras, códigos de conduta, separação de civis e combatentes, Cartas das Nações Unidas de 1945, sobre o genocídio, a Convenção de Genebra, de 1949, para tornarem as guerras mais “decentes”, mais “cuidadosas”, mais “cavalheirescas”, está-se simplesmente a vender uma vergonhosa e hipócrita mentira. Nas guerras, nunca há boas maneiras e os actuais e poderosíssimos meios de destruição, ao dispor dos exércitos de quase todos os países, não permitem finas distinções entre civis e combatentes, entre massacre e genocídio, entre guerra limpa e guerra suja. A segunda guerra mundial foi suja, a guerra do Vietnam foi suja, a guerra do Iraque foi suja, as guerras do Afeganistão foram sujas, as guerras coloniais foram sujas e a actual guerra israelo-palestiniana está a ser sujíssima. Dos dois lados. Sempre dos dois lados. Em todas elas se praticaram e praticam as maiores e desnecessárias atrocidades. Não dá para dizer quem tem razão. Quem mata, esteja de que lado for, não tem razão. Só tem razão quem morre e não devia morrer. As razões que se dão para uma guerra são sempre desrazões. A Batalha de Ourique, a Batalha de Aljubarrota, provavelmente, foram também sujas, embora em escala menor porque se matava menos e, nessas, não se confundia civis com combatentes. Mas TODA a guerra é inerentemente suja e infame. O recurso à guerra, nas sociedades modernas, deveria ser considerado crime e evitado a todo o custo.  Produzir uma espingarda, ou um canhão ou um caça, como disse Dwight Eisenhower, que era um general que ganhou uma guerra, é tirar pão a quem tem fome e é tirar aquecimento a quem tem frio. Ou se proíbem as guerras ou não se proíbem. Mas, enquanto se não proibirem, ninguém tem direito à boa consciência dos que inventam a história da carochinha das “leis da guerra”. Na guerra não há leis, a não ser a do mais forte, que é uma lei da selva. Permitir a um psicopata como Putin ou um autista perigoso, como Kim Jong Un a posse de armas nucleares  (e, em suma, a todos os que as possuem) é realmente andar a brincar à beira do abismo. Só uma total impotência internacional de pôr cobro a esta insensatez pode justificar que se tenha chegado a 2023, com guerras santas, apoiadas por um islamo-esquerdismo muito mau ou por um não menos mau israelo-direitismo. As finas distinções para salvar a face da barbaridade que é a guerra são meros eufemismos para serem usados pelos fautores da guerra, que querem dormir sossegados. Nas guerras, esses códigos nunca são respeitados, nem por atacantes nem por atacados. No Vietnam fizeram-se aos vietnamitas as maiores atrocidades e no Afeganistão, durante a invasão, os afegãos serravam as pernas e os braços aos prisioneiros soviéticos, o que não impede a actual love story entre o Islão e uma certa esquerda (o tal islamo-esquerdismo).
Meus caros senhores e senhoras, nada de hipocrisias, encarem a verdade de frente: as guerras, mesmo as “justas” são crimes abomináveis. Basta ver o rosto aterrado e emudecido de uma criança na faixa de Gaza. Culpado? HAMAS e ISRAEL. Os criminosos estão SEMPRE dos dois lados. Hitler poderia perfeitamente ter sido travado a tempo e a França até estava mais bem armada. E a primeira guerra mundial também foi tudo menos inevitável. A inevitabilidade das guerras é outra história da carochinha. Compre-a quem quiser.”
Eugénio Lisboa, 31.10.2023

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Sobre um mundo em turbulência

Gente zangada
por Eugénio Lisboa

 

Se não formos autorizados a rir

 no Céu, não quero ir para lá.

Martinho Lutero


“Há gente, talvez bem intencionada, com bons propósitos de querer salvar o mundo, mas que está sempre zangada. Talvez por estarem zangados consigo próprios, não conseguem estar de bem com quase ninguém. O notável poeta e crítico inglês, do século XIX, Matthew Arnold, era por toda a gente considerado uma excelente pessoa, mas estava sempre zangado com tudo e com todos, de modo que se dizia, dele, que, boa pessoa que era, iria com certeza para o céu, mas que não iria gostar de Deus. São pessoas que, em vez de se rirem com uma boa piada, se zangam. Querem salvar o mundo e os homens, mas, no fundo, não gostam nem do mundo nem dos homens que querem salvar. Parafraseando o pérfido e brilhante Wilde, diria que é preciso termos um coração de pedra, para não desatarmos a rir com tanta zanga.
Lido com gente assim, há muito tempo. Visam a felicidade da Humanidade, mas são incapazes de a construir em casa. Não sabem rir, coisa perigosa. Mesmo, quando o fazem, como não foram formatados para isso, fazem-no com um rictus de sofrimento. Woody Allen dizia de si próprio: “A maior parte do tempo, não tenho muita graça. O resto do tempo não tenho graça absolutamente nenhuma.” Esta gente zangada de que falo vive sempre no resto do tempo de Woody Allen. Repito, são perigosos. Como não sabem rir, não são capazes de se rir de si próprios e, por isso, não sabem fazer autocrítica. Acreditam em projectos grandiosos, mas não são capazes de resolver pequenos problemas domésticos. Têm visões planetárias, mas tropeçam na primeira pedra que lhes saia ao caminho. E, normalmente, riem-se quando não devem. São gente para fazer grandes purgas, quando não se pensa como eles. Diga-se, de passagem, que “pensar” não é o seu forte. Não gostam de pensar e odeiam visceralmente quem pensa pela própria cabeça. Preferem receber “directivas” de autoridades reconhecidas. Bertrand Russell dizia, com imensa graça, que, quando nos cortam a cabeça, a nossa capacidade de pensar diminui consideravelmente. É o que se passa com esta gente zangada, que pulula nas redes sociais: andam por aí, dando pulos desorientados, como galinhas decapitadas.”
Eugénio Lisboa, 04.11.2023

Glosa sobre o fanatismo

O fanatismo embrutece
ou a estupidez fanatiza?
A burrice não me enternece
e o fanático barbariza.

O fanático tem certezas,
onde certezas não existem:
estão repletas de bichezas
que são nocivas e persistem.

A fé não é conhecimento,
pelo menos, até mais ver.
Transforma o mundo em turbulento
e estupora o bom viver.

Crê quem desiste de entender,
por isso o crente é perigoso:
quando não sabe convencer,
vira tirano afanoso.

O fanático não tolera
aquilo que não compreende:
torna-se logo uma fera,
filha bastarda de duende!
                    25.10.2023
Eugénio Lisboa, poema inédito

Dou isto à meditação dos actuais “iluministas”, totalmente embevecidos com os fanáticos que por aí proclamam, aos gritos, um óbvio desejo de hegemonização religiosa do planeta, para maior glória de um deus soturno e nada misericordioso, que veneram. Eles nem sequer escondem ao que vêm. E os “iluministas” acolhem-nos de braços abertos, decididos a serem, por eles, devorados. Já se tem visto e a História, afinal, repete-se.
O fanatismo e a ignorância militante são os maiores inimigos actuais deste pobre planeta. E o bem intencionismo enviesado dos “iluministas” dá à catástrofe uma boa ajuda.