LIVRES PENSANTES
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Viajar pelas ruínas de Dara e Baalbek
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Celebrar o Livro
Tudo no mundo existe para algum dia terminar num livro.Stéphane MallarméTenho para mim que sou essencialmente um leitor . Como sabem , eu me aventurei na escrita, mas acho que o que li é muito mais importante do que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta, porém não escreve o que gostaria de escrever e sim o que é capaz de escrever.Jorge Luís Borges
Um livro torna-me muito mais livre.
Um livro abre-me imensas portas.
Antes do livro, era semilivre.
Sem livro, as portas estavam tortas
e não abriam. Mas os livros abrem
portas, mesmo se tortas, porque sabem
endireitar tudo o que está torto
e ressuscitar tudo o que está morto.
Porque o livro tem vida e saber
e, muitas vezes, tem até sabor.
O saber dá-nos imenso poder
e o sabor dá-nos muito prazer!
O livro sabe, pode e contenta,
condimentado com sal e pimenta!
02.11.2022
Eugénio Lisboa, in Soneto , Modo de Usar, Editora Guerra & Paz, Abril de 2024, p 82
Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
Rainer Maria Rilke, in O Livro das Imagens, Relógio D'Água
quarta-feira, 22 de abril de 2026
No Dia Mundial da Terra
terça-feira, 21 de abril de 2026
Poesia e Música
Mariza, em "Há uma música do povo
Há uma música do povo
Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado —
Que ouvindo-a há um chiste novo
No ser que tenho guardado...
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...
E ouço-a embalado e sozinho...
É essa mesma que eu quis...
Perdi a fé e o caminho...
Quem não fui é que é feliz.
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração...
Se uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acaba com um sentido!
9-11-1928
Fernando Pessoa, in Poesias Inéditas (1919-1930).. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).
Fado Português
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'
segunda-feira, 20 de abril de 2026
No reino do ditador
depois de constante bombardear,
aquele cadáver frio que procria,
sem sabedoria nem alegria,
onde se tortura com arrogância,
e se mata irmão ou filho, que importa,
é preciso é desamparar a porta,
até aí, imóvel, caminhar,
imparável e ameaçadora besta,
outra floresta, até aí quieta,
em direcção a Macbeth, como seta!
11.05.2023
Eugénio Lisboa
| 133- Putin caricature stock illustrations |
Nero recomendava o suicídio
ou mandava a guarda pretoriana
ou também usava o matricídio,
querendo livrar-se de algum sacana.
O melhor modo de fazer calar
um adversário muito eloquente
é, sem mais, fazê-lo assassinar,
de modo rápido e eficiente.
Navalny foi agora “afastado”,
porque incomodava muita gente.
Putine, naturalmente agastado,
disse: “Quem me livra deste demente?”
Os seus assessores compreenderam
e, muito prestamente, procederam.
16.02.2024
Eugénio Lisboa SONETO MUITO GAUCHE PARA USO DOS
OPRESSORES DO MOMENTO
Os ditadores usam a cartilha
normalmente usada por quem oprime.
O opressor percebe bem que trilha
inocentes e que nada o redime.
A razão do opressor é a força,
já que outra razão não tem.
Porém a força a razão reforça
e a razão faz da força seu refém.
A sabedoria dos opressores
é o contrário de saber viver:
o uso constante dos seus terrores
é sementeira que fará colher
os tais destemidos frutos da ira,
que atira os restos da força à pira!
25.02.2022
Eugénio Lisboa, in Poemas em tempo de guerra suja , Editora Guerra & Paz , Setembro de 2022, p 17
domingo, 19 de abril de 2026
Ao Domingo Há Música
Música é a expressão perfeita de um Mundo Ideal que nos é comunicado através da harmonia. Esse mundo existe não a um nível superior ou inferior ao mundo real, mas paralelamente a este.Albert Camus, escritos de juventude.
sábado, 18 de abril de 2026
A propósito de Fernando Pessoa
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
Fernando Pessoa, "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa". Lisboa: Ática, 1966. p. 93.
Eu olho com saudade esse futuro
Em que serei mais novo que depois,
E essa saudade, com que me sinto dois,
Cerca-me como um mar ou como um muro.
Não descreio, nem creio; mas ignoro:
‘Stou posto onde se cruzam as estradas,
Multiplicando definidos nadas,
E no meio do jogo amuo e choro.
O presságio roeu os meus prenúncios.
Velei a esfinge com serapilheiras.
E os jardins dispostos em quincúncios
Dão sobre esteiras de mar morto e vago,
E um vapor de corda, sem bandeiras,
Pára no tanque, que nos finge um lago.
Fernando Pessoa, (escrito em 28.5.1924), in Poesia 1902-1917, Assírio e Alvim, [ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine], 2005.
Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O que só dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Fernando Pessoa, (escrito em 1932), in Poesia 1931-1935, Assírio e Alvim, [ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine], 2005.

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