terça-feira, 29 de setembro de 2026

Há 479 nascia Miguel de Cervantes Saavedra




Nascia o escritor , Miguel de Cervantes
29 Setembro 1547
"Miguel de Cervantes (1547-1616) é para muitos o autor do primeiro romance moderno e uma das obras-primas da literatura universal.
Soldado, prisioneiro, cobrador de impostos, escritor de sucesso… Qualquer das três definições se adequam à figura de Miguel de Cervantes. Pouco mais se pode acrescentar à sua biografia, já que muito poucas informações documentais foram preservadas relativas aos seus primeiros anos de vida, havendo grandes lacunas que nunca vieram a ser preenchidas quanto à sua trajectória biográfica. A História, na sua sabedoria, terá querido ensombrar o escritor para, desta forma, iluminar melhor a sua obra.
Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em 1547, em Alcalá de Henares (Madrid), precisamente quando a vitória de Mühlberg assinalava o auge da glória de Carlos V e tinham acabado de começar as sessões do Concílio de Trento. Foi o terceiro dos cinco filhos vivos do casamento de Rodrigo de Cervantes com Leonor de Cortinas. A fidalguia do pai e a sua profissão de barbeiro-cirurgião não eram garantia de consideração social ou de património relevante. Pelo contrário, as dificuldades económicas eram muito habituais na casa dos Cervantes, e o pai, impelido pela necessidade, iniciou uma contínua peregrinação que começou em Valladolid e prosseguiu por Córdova e Sevilha. Lamentavelmente, só encontrou acusações por dívidas que acabaram por levá-lo à cadeia.
“Dom Quixote” é um dos personagens mais famosos da literatura ocidental. Miguel de Cervantes é o principal nome da literatura espanhola. Com “Dom Quixote de la Mancha”, uma sátira aos romances de cavalaria, torna-se o precursor do realismo na Espanha.
Miguel Cervantes  tem disputada por sete cidades a sua naturalidade. A maioria dos historiadores concorda que o poeta nasceu em Alcalá de Henares, cidade universitária de Castela. Filho do cirurgião Rodrigo e Leonor de Cortinas. Tinha seis irmãos. Em 1563, a família muda-se para Sevilha, onde estuda gramática e latim, com padres jesuítas.
Como pajem a serviço de Felipe II, foi para Roma. A viagem serviu para fortalecer seu talento, diante das grandes obras do renascimento. Em 1571, em Messina, como soldado, junto com seu irmão Rodrigo, sob o comando de João da Áustria, participou da Armada dos Cristãos, preparada para barrar o avanço dos turcos nas águas do Lepanto. Serviu ainda na companhia do capitão Manuel Ponce de Leon, e depois sob o comando de Dom Lope de Figueroa, em viagens que o levou a conhecer toda a Itália.
Em 1575, no regresso para a Espanha, é preso por piratas argelinos e passa cinco anos em Argel. Em 1580 é resgatado por sua família e por padres trinitários. Passa mais quatro anos como soldado, conhece Portugal e em 1584 volta para a Espanha. Em Madrid edita em 1585, sua primeira novela “La Galatea”. Mantém contacto com Luís de Gongora e com Lope de Vega, importantes literatos da época. Escreve os poemas dramáticos “Los Tratos de Argel” e “La Mumancia”
Em 1605, foi publicada a primeira parte do livro “Dom Quixote”, que foi sucesso imediato e teve seis edições no mesmo ano do lançamento. Escrevendo e tratando de negócios, Cervantes leva uma vida próspera em sua casa em Valladolid, junto com sua família. Em 1606 muda-se par Madrid. Em 1613 publica “Novelas Exemplares” e “El Viaje del Parnaso”. Em 1614 surge uma falsa segunda parte de Dom Quixote assinada por Avellaneda. Mas em 1615 Cervantes publica a segunda parte de Dom Quixote “Delingenioso Cavallero Dom Quixote de La Mancha”.
O poder narrativo da figura e das aventuras de Dom Quixote de la Mancha provocou uma autêntica enxurrada de representações desde que, há quatro séculos atrás, o engenhoso fidalgo começara a aventura que o levaria a tornar-se numa referência da cultura universal. A força da obra de Cervantes alimentou, década atrás de década, o interesse de artistas de todo o tipo, muito distantes entre si, tanto no tempo como na concepção da sua arte: bastará citar os nomes de Francisco de Goya, Gustavo Doré, Ignacio Zuloaga ou Salvador Dalí, emergindo entre uma imensa plêiade de iluministas. Em baixo, Dom Quixote armado cavaleiro (c. 1720), óleo de Valero Iriarte (Museu do Prado, Madrid).


1. Enlouquecido pelas suas leituras dos romances de cavalaria, Dom Quixote sai de sua casa em busca de glória e aventuras e, quando encontra uma humilde estalagem pelo caminho, toma-a por um castelo.

2. Dom Quixote acredita que o estalajadeiro é um castelhano de linhagem nobre e este, pensando que o seu hóspede viaja com bom dinheiro, decide entrar no jogo perante o seu pedido de que o armasse cavaleiro.

3. Ataviado com uma velha armadura, o engenhoso fidalgo dispõe-se a receber a investidura que o irá converter em cavaleiro andante e levar a cabo todas as heróicas façanhas que surjam no seu caminho.

4. Convertidas pela febril imaginação de Dom Quixote em altas damas e esforçados cavaleiros, as participantes no ridículo carnaval divertem-se burlando o fidalgo.
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De regresso a Espanha

Tudo indica que, de regresso a Espanha, Cervantes estivesse confiante de que os seus méritos militares o recompensariam com um cargo público, mas, na verdade, não foi isso que aconteceu. Existe apenas evidências de que, em 1581, foi a Oram, em missão desconhecida e de seguida a Lisboa para dar contas da mesma ao governo de Filipe II. No entanto, a literatura deveria congratular-se com esta negativa. À falta de um emprego oficial, Cervantes dedicou-se por completo às letras, frequentou os círculos literários de Madrid e dedicou o seu tempo a escrever La Galatea, que publicou em Alcalá de Henares, em 1585. Além disso, decidido a conquistar um lugar nos ambientes teatrais, escreveu, segundo as suas próprias palavras, “cerca de vinte comédias ou trinta”. Uma delas, El trato de Argel, permitiu reconstituir parte do seu cativeiro argelino.
Por estes anos, o amor surgiu na sua vida. De facto, é a única aventura amorosa que se conhece do autor de Dom Quixote: os seus amores com Ana de Villafranca, ou Ana Franca de Rojas, esposa de um taberneiro madrileno de quem, no Outono de 1584, teve Isabel, a sua única filha. Poucos meses antes do nascimento da criança, em Dezembro, viajou para Esquivias, em Toledo, onde conheceu Catarina de Salazar, filha de um fidalgo do lugar, recém-falecido, com quem se casou em Dezembro desse mesmo ano. Um casamento eventualmente de conveniência, pois a jovem esposa (tinha 19 anos e Cervantes contava já com 37) acabava de herdar terras e vinhedos. Ali estabelecido, não perdeu o contacto com os meios literários da corte. Além disso, apesar do casamento, enquanto a sua mulher continuava em Esquivias, não tardou em prosseguir com a sua vida aventureira. Pouco depois, em 1586, a morte do seu pai obrigou-o a tomar conta da sua mãe e das suas irmãs, e, talvez por isso, tenha insistido em conseguir um cargo oficial, que acabou por concretizar em Maio de 1587, quando lhe foi confiado o de comissário real de aprovisionamento para a Armada Invencível.
Chegada a este ponto, a biografia de Cervantes transmite a imagem de uma personagem em permanente fuga. Um desejo que provavelmente nascia de um espírito aventureiro, mas também de uma certa insatisfação perante um ambiente no qual ainda não encontrara o seu lugar. Nessa louca corrida para fugir de si mesmo e do que o rodeava, aceitou a tarefa de cobrar os impostos em atraso na Andaluzia, o que implicava uma vida errante por terras andaluzas que o levou a Écija, Castro del Río, Cabra, Úbeda, Estepa, sem conseguir mais do que a mera compreensão dos que o recebiam, várias denúncias por apropriação indevida e alguns encarceramentos. Em contrapartida, desta experiência retirou um conhecimento de lugares e pessoas que, a longo prazo, se reflectiu na sua obra literária. Na verdade, apesar dos seus diversos empregos, Cervantes nunca deixou de escrever.

Lidando com a justiça

Os problemas decorrentes do seu trabalho como cobrador de impostos em atraso deram, no entanto, um fruto inesperado. Em 1597, depois da queda do banco onde depositava os valores cobrados, acusado de apropriação indevida, é preso em Sevilha. Foi ali, atrás dos muros da prisão, onde nasceu o Dom Quixote. A fatalidade, entretanto, instalou-se no seio da sua família. Em 1593, morreu a sua mãe e, em 1600, faleceu também o seu irmão Rodrigo. Pouco tempo depois, em 1604, enquanto ultimava a redacção do Dom Quixote, instalou-se em Valladolid com as suas irmãs Andrea e Magdalena, a sua filha Isabel e uma criada chamada María de Ceballos. Um ano mais tarde, no início de 1605, quando as necessidades económicas do escritor eram mais elevadas, publicou na gráfica madrilena de Juan de la Cuesta El ingenioso Hidalgo don Quijote de la Mancha. O sucesso foi imediato. Em poucos meses, perante a existência de várias edições-pirata, Juan de la Cuesta teve de imprimir uma segunda edição, algo insólito para a época, tendo em conta que a tiragem inicial foi de 1.600 exemplares.
Cervantes a escrever a referida dedicatória ao conde de Lemos,
numa gravura de Capuz, a partir da pintura de Eugénio Oliva Rodrigo (1883).

Com o pé “encaixado no estribo”

Em 1606, face ao êxito de Dom Quixote, Cervantes instalou-se comodamente no bairro madrileno de Atocha. Nesse mesmo ano, a sua filha Isabel casou-se com Diego Sanz. Um efémero casamento – Isabel enviuvou dois anos depois – do qual nasceu a única neta do escritor, Isabel Sanz. Mas Cervantes não parecia ter nascido para ser feliz. Num ano e meio, morreram as suas irmãs Andrea e Magdalena e a sua única neta, Isabel Sanz.
O escritor, afundado na dor, decidiu encontrar consolo na religião e ingressou na congregação dos Escravos do Santíssimo Sacramento de Olivar, o que, embora lhe permitisse expiar os supostos pecados da sua aventureira vida anterior, impunha-lhe também umas estritas regras que compreendiam o jejum e a abstinência nos dias prescritos, a assistência diária aos ofícios, a realização de exercícios espirituais e a obrigação de realizar visitas regulares aos hospitais. Quatro anos depois, a sua inquietação mística levou-o a professar como noviço na Ordem Terceira de São Francisco, na qual já o tinha feito a sua esposa. Ao mesmo tempo, o sucesso de Dom Quixote provocou uma autêntica avalancha de publicações: em 1613, as Novelas ejemplares; um ano depois, a Viaje del Parnaso, as Ocho comedias y ocho entremeses nuevos nunca representados e, em 1615, a Segunda parte del ingenioso Caballero don Quijote de la Mancha. Esta última em resposta ao surgimento de um apócrifo Segundo tomo del ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, publicado em 1614 em Tarragona por um tal Alonso Fernández de de Avellaneda, uma falsa identidade sobre a qual pairam as mesmas brumas que sobre o autêntico criador da personagem.
Estes últimos anos são os que estão mais bem documentados sobre a vida de Miguel Cervantes. Vivia retirado na sua casa, dedicado à oração e à literatura e mais próximo da sua mulher do que alguma vez tinha estado. Em Abril de 1616, doente com hidropisia, sentiu que estava a morrer. No dia 19 desse mesmo mês, gravemente doente, dedicou ao conde de Lemos o seu último livro, Los trabajos de Persiles y Sigismunda, tornando seus os versos: “Puesto ya el pie en el estribo, / con las ansias de la muerte, / gran señor, esta te escribo”.
O prólogo ao Persiles foi o seu testamento literário. Morreu quatro dias depois, durante a noite de 22 de Abril. Foi sepultado no dia seguinte com o rosto descoberto e o hábito franciscano, no convento das Trinitárias Descalças da Rua de Cantarranas (actual Lope de Vega). A falta de recursos obrigou os confrades da Venerável Ordem Terceira de São Francisco a pagar o funeral do escritor. Meses mais tarde, Catarina, sua viúva, geriu a publicação do Persiles.
Miguel de Cervantes Saavedra morre em Madrid, Espanha, no dia 23 de Abril de 1616

A agitada vida de Cervantes

1547 | Nasce em Alcalá de Henares.

1571 | Participa na batalha de Lepanto e é ferido na mão esquerda.

1575-1580 | É feito prisioneiro e passa cinco anos em cativeiro em Argel.

1584 | Estreia em Madrid de El trato de Argel e Elcerco de Numancia. Casa-se com Catarina de Salazar.

1585 | Publica La Galatea.

1587 | É designado comissário real de aprovisionamento em Sevilha.

1605 | Surge a primeira parte de El ingenioso Hidalgodon Quijote de la Mancha.

1613-1614 | São publicados as Novelas ejemplares e a Viaje a lParmaso.

1615 | Publicação de Comedias y entremeses, e da Segunda parte del ingenioso caballero don Quijote de la Mancha.

1616 | Morre em Madrid. No ano seguinte, é publicado Los trabajos dePersilesy Sigismunda."
Texto construído com base em consultas e artigos do NGP

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Viajar e conhecer Istambul

Na viagem ; um homem tem de levar consigo saber, se quer trazer saber.
   Samuel Johnson, em James Boswell, Life of Johnson.
 
Istambul, Turquia em 4K - Cenas Incríveis e Tesouros Escondidos por Adnan.
"Neste vídeo, vou mostrar-lhe a bela cidade de Istambul, a capital da Turquia, revelando alguns dos seus segredos mais bem guardados e lugares mais icónicos. Visitei muitos locais imperdíveis, incluindo... 
• Hagia Sophia Grand Mosque 
• Galata Tower • Grand Bazaar
• Suleymaniye Mosque 
• Sultanahmet Square
• Rumeli Fortress
• Maiden's Tower 
• Taksim Square
• Beylerbeyi Palace • Bosphorus Bridge 
• Dolmabahçe Palace
• Basilica Cistern 
• Galata Bridge 
• Aqueduct of Valens
• Ortaköy Mosque (Büyük Mecidiye Camii) 
E muitos outros."
 
Istanbul Turkey 4K Drone Footage | Hagia Sophia, Bosphorus & Istanbul Aerial View
"Explore Istambul, na Turquia, com imagens aéreas deslumbrantes em 4K Ultra HD feitas por drones. Este vídeo cinematográfico mostra os melhores locais de Istambul, incluindo a Hagia Sophia, a Mesquita Azul, a Torre de Gálata, o Estreito de Bósforo, a Ponte do Bósforo, o Palácio Topkapi, a Torre da Donzela, a Praça Sultanahmet, o Corno de Ouro e o horizonte histórico de Istambul. Istambul é uma das mais belas cidades do mundo e a única grande cidade localizada em dois continentes, a Europa e a Ásia. Desfrute de vistas aéreas de cortar a respiração dos famosos pontos turísticos, da arquitetura, das margens do rio, das mesquitas, dos palácios, das pontes e do horizonte moderno de Istambul."

domingo, 27 de setembro de 2026

Ao Domingo Há Música

Aquela canção
Que o vento nos ensinou
Findou
E não a cantámos juntos
.
Aires de Almeida Santos , poeta angolano, de " Damba-Maria", in "Meu amor da Rua 11", Clássicos da Literatura Angola, Editora Grecima, 2014, Luanda

Há sempre uma outra canção que nunca findará de nos deleitar. Chega, de mansinho, numa voz de  conhecido encanto ou de surpreendente desconhecimento. Mas chega e passa a ser aquela canção que nem o vento olvidará...

RAYE , em Who Knows Where The Time Goes (Montreux Jazz Festival 2026) .
De regresso a Montreux para a noite de abertura do Festival de Jazz de 2026, Raye apresenta uma interpretação emocionante de “Who Knows Where The Time Goes”, de Nina Simone, criada em parceria com a Audemars Piguet. 
 
RAYE, em  Purple Rain (Prince Cover) | Live at Montreux Jazz Festival 2026.
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Interlúdio musical

Sara Correia, em Dizer Não.
 
Gisela João, em Canção ao Coração.  
Cuca Roseta, em Também te Amo.
 
                                         Teresa Salgueiro, em Alegria .

Baiano é um estado de espírito

Baiano é um estado de espírito
 por Jorge Amado
"Baiano quer dizer quem nasce na Baía, quem teve este  alto privilégio, mas significa também um estado de espírito, certa concepção de vida, quase uma filosofia, determinada forma de humanismo. Eis por que homens e mulheres nascidos em outras plagas, por vezes em distantes plagas, se reconhecem baianos apenas atingem a fímbria desse mar de saveiros, as agruras desse sertão de vaquejadas e de milagres, os rastros desse povo de toda resistência e de toda gentileza. E como baianos são reconhecidos, pois de logo se pode distinguir o verdadeiro do falso. Aqui entre nós: tem gente que há vinte anos tenta obter seu passaporte de baiano e jamais consegue pois não é fácil preencher as condições e como diz o moço Caymmi, nosso poeta, “quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim”.
Pierre Verger, mestre francês de artes e de ciências, andou meio mundo, cruzou caminhos do Oriente e do Ocidente, mares e desertos, montanhas e arranha-céus; era um ser errante, um inquieto. Já duvidava da alegria quando de súbito a encontrou ao chegar às ladeiras da cidade do Salvador da Bahia de Todos-os-Santos. Viu realizado seu sonho antigo na civilização mestiça que aqui plantámos e construímos com a nossa democracia racial. Chegara à pátria de seu coração.
Foi reconhecido e confirmado e, em festa de dança e canto, no terreiro recebeu o nome de Oju Obá. As iaôs dançaram em sua honra, sentou-se Pierre entre os notáveis de Xangô, entre os notáveis da Bahia. Sábio de Paris, feiticeiro da África, baiano dos melhores.
Muitos são os baianos nascidos noutras terras que nos têm trazido a contribuição de seu trabalho criador. O pintor Henrique Oswald, tão cedo falecido, quando alcançava sua completa maturidade de artista. O poeta Odorico Tavares, intemerato defensor de cada pedra de nossa cidade. O gravador Karl Hansen, da Alemanha, que juntou ao seu nome o da terra prometida: hoje se chama Hansen Bahia. Mestre Rescala, a quem tanto devemos pois preservou e restaurou tesouros de arte ameaçados pelo tempo e pela insídia dos governantes.
Baianos nascidos na Amazônia, os poetas Carlos Eduardo da Rocha e seu irmão Wilson, o psiquiatra Rubim de Pinho; no Maranhão, o desenhista e pintor Floriano Teixeira; em Sergipe, Jenner Augusto e José de Dome, mestres pintores, o historiador José Calazans e os jornalistas João Batista de Lima e Silva e Junot Silveira. Vindos de Portugal, como o padre Vieira que aqui desembarcou ignorante e tapado, dura cabeça de pedra — apenas aspirou o ar baiano, deu-lhe um estalo na cabeça, a pedra virou talento, floresceu no padre mais inteligente do mundo — e Antônio Simões Celestino, flor dos Celestinos da Póvoa do Lanhoso. O mais baiano de todos os baianos é o pintor Carybé, nascido no mar, dos ilícitos amores de Iemanjá com um certo senhor h. j. p. de Bernabó, de duvidosa nacionalidade.
Baiano é um estado de espírito."
Jorge Amado, in  Bahia de todos-os-santos, Companhia das Letras, 2012

SOBRE O LIVRO
“Esse é bem um estranho guia”, diz Jorge Amado no “Convite” que abre Bahia de Todos-os-Santos. “Com ele não verás apenas a casca amarela e linda da laranja. Verás igualmente os gomos podres que repugnam ao paladar.” Essas palavras resumem o espírito deste livro sui generis sobre a cidade de Salvador. Escrito originalmente em 1944, no auge da luta antifascista, manteve em suas sucessivas atualizações a abordagem visceral que o transformou numa obra ao mesmo tempo de celebração dos esplendores da cidade e de denúncia de suas muitas mazelas. A versão definitiva só ficou pronta em 1986. Quem melhor do que Jorge Amado, que cantou em tantos livros a “cidade da Bahia”, povoando suas ruas com personagens inesquecíveis, para fazer esse retrato de corpo inteiro da capital baiana? Pelas páginas deste livro desfilam as belezas arquitetônicas da metrópole – suas igrejas, átrios e palácios, suas ladeiras e ancoradouros -, bem como seus encantos naturais – praias, matas, morros, lagoas -, mas também o lado miserável da cidade, seus cortiços malcheirosos, a falta de saneamento e infraestrutura, o desamparo e a doença. Aqui e ali, fotografias de Flávio Damm utilizadas na edição de 1961 pontuam o que vai sendo descrito. Não se trata de um guia preocupado apenas com a descrição do pitoresco, mas de uma narrativa múltipla sobre o cotidiano da cidade e suas transformações ao longo das décadas. Do dia a dia do trabalhador braçal às receitas de quitutes baianos, da arte dos mestres da capoeira ao misticismo dos terreiros de candomblé, dos pequenos crimes dos “capitães da areia” à dura poesia dos pescadores e mestres de saveiros, da universidade às festas religiosas e pagãs, a vida de Salvador pulsa a cada parágrafo. Moradores da cidade, ilustres ou anônimos, são evocados aqui com a mesma vitalidade e frescor dos personagens dos romances do autor, convertido em cicerone que abre as portas de sua grande casa aos leitores do mundo."

FICHA TÉCNICA
Título: Bahia de todos-os-santos
Páginas: 400
Formato: 21 x 13.6 x 2.4 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 17/08/2012 (1ª edição)
ISBN: 978-8535921373
Selo: Companhia das Letras

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O poema

Herberto Helder (1930-2015) “O poema, VII” in «A Colher na Boca» (1961) 
Dito pelo próprio num disco Vinyl, editado pela Philips, 
para a série Poesia Portuguesa (1968). 

O poema
VII

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
.
É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

– Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
.
– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
Herberto Helder, in  Poemas completos. Série Grandes Escritores, Rio de Janeiro: Editora Tinta-da-China, 2016 – p. 39.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Até sempre, Jorge Palma!

Jorge Palma

A gente vai continuar

Tira a mão do queixo não penses mais nisso O que lá vai já deu o que tinha a dar Quem ganhou ganhou e usou-se disso Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar E enquanto alguns fazem figura Outros sucumbem á batota Chega a onde tu quiseres Mas goza bem a tua rota Enquanto houver estrada pra andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada pra andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar Enquanto houver ventos e mar Todos nós pagamos por tudo o que usamos O sistema é antigo e não poupa ninguém Somos todos escravos do que precisamos Reduz as necessidades se queres passar bem Que a dependência é uma besta Que dá cabo do desejo A liberdade é uma maluca Que sabe quanto vale um beijo Enquanto houver estrada pra andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada pra andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Jorge Palma
 
Camané em A gente vai continuar
Morreu Jorge Palma. Aos 76 anos partiu, deixando uma obra espalhada por muitas vozes e acentuada e diferentemente por ele próprio. Dono de um timbre especial, era único na interpretação de tudo o que compunha.
Um cultor e perfeccionista do piano embora ágil em outros instrumentos musicais, tinha um conhecimento musical superior que o conduziu à vasta composição de canções que vão perdurar .
Obrigada Jorge Palma. Até sempre!

Citações do dia

CITAÇÕES DO DIA

Se quiseres brilhar como o sol, terás, em primeiro lugar, que queimar, como ele.
Eu uso a emoção para muitos e reservo a razão para poucos.
Só aquele que domina a juventude domina o futuro.
Ao vencedor, nunca lhe será perguntado se disse a verdade.


Recolhi, para boa reflexão dos entusiásticos participantes do congresso do CHEGA, estes pensamentos, que foram motores de arranque de uma das maiores calamidades que assolaram a Humanidade. Tentem arrefecer as emoções e façam bom uso da razão.
O autor destes aforismos incendiários e que andam por aí, na ordem do dia, chamou-se ADOLFO HITLER.

Recolha de
Eugénio Lisboa, 14.01.2024