O talento revela-se exactamente porque esconde a sua perfeição.
William Shakespeare
LIVRES PENSANTES
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
domingo, 9 de agosto de 2026
Ao Domingo Há Música
sábado, 8 de agosto de 2026
"À espera de Godot" subiu ao palco há 74 anos
onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
se verte no vazio no esquecimento de ter sido
sem esta onda onde por fim
corpo e sombra juntos se consomem
que faria eu sem este silêncio onde murmúrios se despenham
ofegantes fogosos rumo ao amparo rumo ao amor
sem este céu que se eleva
acima da poeira do seu lastro
que faria eu faria como ontem como hoje
quando busco pela minha vigia um outro como eu
vagueio na corrente longe de toda a vida
num espaço viciado sem voz entre as vozes fechadas comigo .
Samuel Beckett, Poema originalmente escrito em francês, do período entre 1947-49, correspondente à escrita de À Espera de Godot, in Selected Poems: 1930-1989. Faber and Faber, 2009.
Samuel Bckett (Dublin, 13 de Abril de 1906 — Paris, 22 de Dezembro de 1989) |
"Samuel Beckett (1906-1989) nasceu perto de Dublin. Estudou francês e italiano no Trinity College de Dublin, foi professor em Paris, conheceu Joyce, regressou à Irlanda em 1931, voltou a Paris quando rebentou a guerra, fez parte da Resistência. É no pós-guerra que vive o período mais intenso da sua produção literária, com a escrita, em francês, das peças “À Espera de Godot” e “Fim de Partida”, além de uma trilogia de romances composta por "Molloy", "Malone Morre" e "O Inominável". Começa a traduzir os seus textos para inglês e volta a escrever também nesta língua. Constrói assim uma obra bilingue, cada vez mais depurada. Recebe o Nobel em 1969, distribuindo o dinheiro pelos amigos."
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
O conceito de “católica e apostólica" na igreja cristã primitiva
| Basílica de S. Pedro, Vaticano, Roma, Itália |
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
A difícil arte de admirar
por Eugénio Lisboa
Aquele que deseja a rosadeve respeitar o seu espinhoAndré Gide
A admiração que visa ser escada de acesso a uma promoção do admirador não traz felicidade. Os poetas, às vezes, dizem-no melhor e de maneira mais curta: “O segredo da felicidade reside em admirar sem desejar” (Carl Sandburg, poeta americano).”
Eugénio Lisboa, 21.01.2024
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Interlúdio Musical
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Fernando Pessoa e a Mensagem
Bellum Sine Bello
I. Os Campos
Primeiro / O dos Castelos
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar ’sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Segundo / O das Quinas
Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
II. Os Castelos
Primeiro / Ulisses
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
Segundo / Viriato
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
Nação porque reincarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Viajar por Portugal
Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,
Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;
Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!
E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!
Florbela Espanca, sonetos
domingo, 2 de agosto de 2026
Ao Domingo Há Música
Canto como quem usaOs versos em legitima defesa.Canto, sem perguntar à MusaSe o canto é de terror ou de beleza.Miguel Torga , Orfeu Rebelde
Ouvi-te e ouvi-aNo mesmo tempoE diferentesJuntas cantar.E a melodiaQue não havia.Se agora a lembro,Faz-me chorar.Fernando Pessoa, Cancioneiro


