domingo, 14 de junho de 2026

Ao Domingo Há Música


A nuvem veio e o sol parou

A nuvem veio e o sol parou.
Foi vento ou ocasião que a trouxe?
Não sei: a luz se nos velou
Como se luz a sombra fosse.

Às vezes, quando a vida passa
Por sobre a alma que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.

Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu, mau véu, ou quase véu,
E, como tudo, não é nada.
                    10-9-1934
Fernando Pessoa, in Novas Poesias Inéditas. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993)

Festejámos Fernando Pessoa, ontem , 13 de Junho, dia do seu aniversário. Um aniversário que já fora versejado por ele próprio, no poema "Aniversário", na voz do seu heterónimo  Álvaro Campos.  Nele, o poeta faz a  revisão do tempo que passou e que, no seu devir, alterou o sentido da festa natalícia.  A nostalgia de um tempo feliz  marca a primeira estrofe  do  poema: No tempo em que festejavam o dia dos meus anos/ Eu era feliz e ninguém estava morto./ Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,/ E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
E , perante o desencanto que lhe provocou a passagem dos dias ,  confessa mais à frente: Hoje já não faço anos./ Duro./ Somam-se-me dias./ Serei velho quando o for./ Mais nada./ Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!
Era impossível não  festejar o seu 138º aniversário. Não nos conformámos, pelo que teimámos em dedicar-lhe o dia de ontem. E porque  a Língua Portuguesa era a sua pátria, continuamos sob a  influência deste poeta maior, ao apresentar o registo musical deste domingo na sua língua  e com  novas produções de vozes  portuguesas. 

Sara Correia, em As Mãos Do Meu Carinho.
Marisa Liz e Camané, em Gente Aberta
Letra e Música: Erasmo Carlos. Voz - Marisa Liz e Camané Mistura e masterização - Sassá Nascimento. Bateria - Ricardo Danin. Baixo - Tiago Pais Dias. Guitarra Acústica - Gui Salgueiro e Tiago Pais Dias. Viola da Terra - Gui Salgueiro. Lap Steel - Zé Nuno. Teclados - Gui Salgueiro. Programações - Gui Salgueiro. Coros - Marisa Liz e Gui Salgueiro. Produção - Gui Salgueiro, Tiago Pais Dias e Marisa Liz. Técnico de Gravação - Nuno Simões. Vídeo: Realização e Edição: Diogo Branco.

sábado, 13 de junho de 2026

Festejar Fernando Pessoa o mais universal poeta português


 Outros modernistas como Yeats, Pound, Eliot inventaram máscaras pelas quais falavam ocasionalmente… Pessoa inventava poetas inteiros
                    Robert Hass, poeta americano, a propósito dos heterónimos

"Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa a 13 de Junho de 1888, mas viveu a sua infância em Durban, na África do Sul. Alguns anos depois de regressar a Portugal para completar os seus estudos, e quando já tinha iniciado a modesta atividade profissional de tradutor comercial que exerceria ao longo de toda a vida, começa a publicar os seus primeiros textos e participa ativamente em tertúlias literárias, sendo um dos fundadores em 1915 da revista “Orpheu” – onde também colaboravam Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros ou Santa-Rita Pintor – publicação seminal responsável pela introdução do Modernismo em Portugal. Poeta “plural como o Universo”, e que assumia que “ser poeta e escritor não é profissão, mas vocação”, a sua escrita é muitas vezes impossível de catalogar ou definir, até pela multiplicidade dos heterónimos que figuram na autoria de muitas das suas obras – onde se destacam Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, e Bernardo Soares – constituindo também por isso uma profunda reflexão sobre a relação entre a verdade, a existência e a identidade. A figura de Pessoa, um homem profundamente introvertido e melancólico, acaba assim por se fundir com a dos seus heterónimos, espelho duma ambição de viver outras vidas, expandindo a sua existência para além da simples condição de empregado de escritório que vivia modestamente e praticamente sem vida social. Paradoxalmente, para quem escrevia compulsivamente “como se fosse muitos”, Fernando Pessoa apenas publicou em vida alguns textos e poemas dispersos e, um ano antes da sua morte, a colecção de 44 poemas “Mensagem”, obra épica, metafórica e profética, onde apresenta a sua visão patriótica dum Quinto Império, tentando encontrar um sentido para a antiga grandeza de Portugal e a decadência existente na época em que o livro foi escrito. Aquele que trazia consigo “todos os sonhos do Mundo” e para quem “a Pátria é a língua portuguesa”, viria a falecer em 1935 tal como viveu, só."
Casa Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa 01 - Mariza, Camané, Madredeus, Mísia, Dulce Pontes & Salvador Sobral (letra)
00:12 - Há uma música do povo
Intérprete: Mariza e Sinfonietta de Lisboa, Lisboa - 2006 
Poema: Fernando Pessoa, 9-11-1928 - Poesias Inéditas (1919-1930)
 Música: Mário Pacheco Arranjo e regência: Jaques Morelenbaum

03:37 - Ai, Margarida
Intérprete: Camané, Antena 1 - 2013
Poema: Fernando Pessoa / Álvaro de Campos
Música: Mário Laginha

06:46 - Silfos ou Gnomos tocam?
Intérprete: Madredeus, Centro Cultural Belém - 1993
Poema: Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues, 25-9-1914
Música: António Variações

12:25 - Dança de mágoas
Intérprete: Mísia
Poema: Fernando Pessoa, “Cancioneiro”
Música: Raúl Ferrão, Fado Carriche

16:32 - Infante
Intérprete: Dulce Pontes, Istambul - 2007
Poema: Fernando Pessoa, "Mensagem"
Música: Dulce Pontes, Meir Ariel e Yehuda Eder

21:07 - Presságio
Intérprete: Salvador Sobral, Fórum Cultural do Seixal - 2017
Poema: Fernando Pessoa, 1928 - Poesias Inéditas (1919-1930)
Música: Júlio Resende

quinta-feira, 11 de junho de 2026

O primeiro livro e o regresso a Lourenço Marques


Eugénio Lisboa, 1930-2024

O primeiro livro e o regresso a Lourenço Marques
por Eugénio Lisboa
“Publiquei o meu primeiro livro, há 50 anos. Vivia então na cidade da Beira (ainda hoje se chama assim), em Moçambique. O livro, diga-se de passagem, não foi publicado na Beira, nem sequer em Lourenço Marques, cidade onde nascera e onde vivera a maior parte da minha vida até então vivida. Também não foi publicado em Lisboa, onde tirara o meu curso de engenharia (como se vê, a minha vocação para eterno “outsider” é impecável). Viu a luz no Porto, onde nunca vivi, editado pela Livraria Tavares Martins, que o acolheu numa colecçãozinha intitulada “Poetas de Ontem e de Hoje”, dirigida por João Gaspar Simões, que eu não conhecia pessoalmente, e que me não conhecia a mim, nem pessoalmente, nem de maneira nenhuma: eu nunca publicara nada, nem em livro, nem em revista, nem em jornal e não tinha por costume andar atrás de escritores, mesmo dos que admirava. A responsabilidade do livro foi-me simplesmente cometida, de forma algo escandalosa, por um dos tais escritores que eu muito admirava – José Régio - , cuja obra conhecia como os meus dedos, mas sobre a qual não escrevera, nem sonhava escrever uma única linha. Uma noite, em Portalegre, regressando com ele do Café Central – hoje assassinado - , comunicou-me que, na sua recente visita ao Porto, o Tavares Martins lhe pedira autorização (e colaboração) para incluir na supra dita colecção, logo a seguir ao tomo dedicado a Garrett, uma antologia de poesia do autor de Poemas de Deus e do Diabo. Régio respondera-lhe que sim, com a condição de ser ele – e não Simões – a escolher o ensaísta que organizaria a antologia e para ela escreveria um estudo crítico introdutório. E que o escolhido seria um oficial miliciano chamado Eugénio Lisboa, que conhecera em Portalegre e ali se encontrava, a cumprir serviço. O Tavares Martins aceitara e, pelos vistos, o Simões também. (…) Portalegre serviu, também, para me apresentar o Alentejo, que ainda hoje é a minha província favorita num Portugal a que pertenço e não pertenço, visto encontrar-me maravilhosamente tripartido entre Moçambique, a Inglaterra e Portugal, minhas três pátrias de que não abdico: não sou um desenraizado, o que tenho é muitas raízes – em suma, sou rico. De qualquer modo, só para conhecer uma cabeça como a do Régio e um coração como o do Dr. Falcão, valeu a pena ir cumprir a pena de degredo, em Portalegre.
(…)Comecei por gaguejar com a honra que surpreendentemente me visitava e por dizer ao Régio que, sim senhor, me tocava muito o convite, mas que nunca publicara nada (embora rabiscasse um “diário” errático para a gaveta) e que, portanto, não fazia sentido aceitar a oferta. Mas o Régio sabia-a toda. E foi por ali fora, alegando isto e aquilo e ainda que, nas nossas alongadas conversas de café, eu mostrara um conhecimento, em profundidade, da obra dele, como nunca vira em ninguém, que, acrescentava ele, a escrever, é que se aprende a escrever, e que, em suma, ele não tinha qualquer dúvida quanto ao serviço asseado que sairia das minhas mãos. Mas eu iria, poucos meses depois, para África, atirei-lhe, a ver se o dissuadia... Que não fazia mal: acabava o trabalho antes de partir e ele, Régio, comprometia-se a rever, em Portugal, as provas, com todo o cuidado que punha nas suas próprias coisas.
(…)Parti para Lisboa em fim de Fevereiro de 1955, envaidecido e apavorado. Parecia-me cada vez mais uma enorme loucura ter-me rendido ao desafio do grande escritor. De qualquer modo, pus-me ao trabalho, aboletado, em república, na casa do Rui Serrão, colega e amigo de batalhão, que também se fizera amigo do Régio e do Dr. Falcão e deixara, por acaso, o coração em Portalegre, nas mãos gentis da “bela Helena”, com quem viria a casar. De dia, fazia os estágios e ia preparando os relatórios e, à noite, relia o Régio, tomava notas, escrevia períodos que me pareciam dignos de, mais tarde, se irem encaixar no mítico ensaio-a-haver. E tinha cada vez mais medo de não ser capaz de escrever coisa com coisa. Mas sempre ia descobrindo, na obra do autor de A Velha Casa, recantos que, até então, só mal entrevira: dava-me um estranho gozo interior sentir, às vezes, que acertara, que tocara em algo de profundamente revelador, mas sufocava-me a angústia de ainda não ver o texto em que tudo aquilo se iria inserir. Foi um trabalho longo, minucioso, lento, angustiado, que durou de Março a Maio: três meses suados e bem suados. Acabei, com uma alegria que não há palavras para contá-la, por descortinar o guião geral em que as minhas pérolas singulares se iriam incrustar. Aqueles átomos de descoberta não iriam ficar pendurados, sem se articularem num todo que fizesse sentido. Finalmente eu via o argumento. Mas havia em tudo aquilo um defeito contra o qual não me apetecia lutar: era o meu primeiro livro, mais, era o meu primeiro texto, e era-o sobre um escritor que eu conhecia bem e que me “agarrara” aos quinze ou dezasseis anos, com um livro que nunca mais saíra de mim: Uma Gota de Sangue, primeiro volante de uma vasta e ambiciosa soma romanesca, que viria a ficar incompleta. Como acontece com os primeiros livros, eu queria meter “tudo” logo no primeiro parágrafo: tal era o medo de que se “perdesse” se o não registasse logo ali... Um ou outro período corria assim o risco de sair, não propriamente “rico”, mas sim “atafulhado”...
Escrevia à mão, com letra bem desenhada e, no fim, copiei o texto num caderno de trinta e cinco linhas (salvo erro, não juro, branco), que enviei ao Régio, em Portalegre. Passara as duas últimas noites a escrever, sem dormir, à custa de anfetaminas, de que, depois, nunca mais abusei. E fiquei à espera.
Pelo meio, acabei os estágios, amanhei à pressa e sem grande convicção, os relatórios e recusei, com desenvoltura e alguma leviandade, um bom emprego que me fora lisonjeiramente oferecido, para Alverca: decidira mesmo regressar a África, à minha África, onde tinha espaço, recordações, família, o Nero já enterrado e, quem sabe, amores à espera. Estava farto de Lisboa, de Portugal, da Europa, da pequenez disto tudo. Ir-me-ia embora – o Régio não aprovava – no princípio de Agosto. Entretanto, no meio da agitação que precedia a partida, chegaria a reacção do poeta aos meus trabalhos de Hércules. E, com efeito, com data de 22 de Maio (três dias antes do meu aniversário) veio por fim a carta acusando a recepção do meu manuscrito. Abri-a a tremer. Entre outras coisas, dizia o seguinte, começando com as “cautelas” do protocolo: “Ao fazer um juízo sobre o seu trabalho, tenho de ser muito sóbrio: isto porque – numa certa medida – louvando-o, quase teria a impressão de me estar louvando a mim próprio(...) Só quis dizer que Você é muito amável com as minhas coisas. As restrições também lá estão, por certo, e ainda bem! Mas os meus inimigos dirão que certos aspectos apologéticos excedem em muito as observações restritivas, Mais uma vez passemos adiante. O que não pode ser louvar-me, - é reconhecer eu a penetração, a densidade, o encadeamento lógico, visíveis (e creio que, felizmente, não só a mim!) em todo o seu estudo, e que, aliás, eu já esperava de Você. A forma nem sempre é lapidar, e até possível é que Você não tenha propensão especial para o lapidarismo. Ainda se não vê bem, perante certos seus longos períodos, o que é devido a uma inexperiência natural num jovem escritor, ou o que deriva de uma personalidade. Mas o emprego do termo próprio, justo, já é notável na sua prosa; e devo confessar que, se já esperava de Você as qualidades de inteligência e sensibilidade patentes num estudo tão completo e aprofundado a dentro dos seus limites de extensão, não sabia, por ainda não ter lido nada seu, quais seriam as suas possibilidades de expressão verbal. Vejo que tais possibilidades de expressão já não desmerecem da coisa exprimível. Estou, portanto, e em suma, verdadeiramente satisfeito com o ter escolhido, se me permite falar assim. Quando o livro saia, e me pedir alguém de fora (como já tem sucedido) um estudo que dê uma ideia da minha obra – terei, finalmente, um pequeno volume em que já se diz muito sobre ela.” O elogio, vindo do cauteloso Régio, era de monta. Mas fui particularmente sensível ao facto de ele ter percebido o “encadeamento lógico” do meu texto: sofrera angústias, com o receio de não vir a dar uma articulação de enredo ao conjunto de observações que a obra regiana me suscitara. Temera, sobretudo, produzir um amontoado de “pérolas” sem fio de ligação – e, sem fio, como nota Ortega y Gasset, não há “colar”. A carta de Régio vinha sossegar-me.” 
Eugénio Lisboa, Texto lido na Escola Portuguesa de Moçambique, em 7 de Junho de 2007

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Que país constróis?


Que país constróis?

Porque tens nos olhos
o sol
       e o mar…

Porque tens nos olhos
o rio
    e também:
 o riso
e o fogo
 
Porque tens no ventre
a raiz de todas
as crianças…
 
que país constróis
diariamente?
Maria Teresa Horta, in Mulheres de AbrilEditorial Caminho, Lisboa, 1977

terça-feira, 9 de junho de 2026

Lançamento do livro EM BUSCA DA VERDADE, de Manoel de Andrade

O encanto do conhecimento permeia todas as páginas deste incomparável propósito de estudos , motivando sempre o realce da consciência na renovação íntima de cada um. 
 Manoel de Andrade , in  Nota de Autor, Em busca da Verdade. 

Capa e contracapa do novo livro de Manoel de Andrade, poeta brasileiro, residente em Curitiba , Paraná. Um livro que é lançado nesta terça feira , nono dia do mês de Junho, conforme anunciado no convite que publicamos, no dia 3  deste mês. 
Manoel de Andrade nasceu em Rio Negrinho, SC, Brasil, em 1940. Mudou-se para Curitiba, onde permanece e se formou em Direito.
Ao longo de cinquenta anos, como seguidor da doutrina espírita, desenvolveu uma actividade que reflecte o seu profundo espiritualismo , ao  consagrar um permanente estudo dos pilares , ou seja, dos  diversos  aspectos doutrinários do Espiritismo e do Cristianismo, numa criteriosa e incansável   "Busca da Verdade".
Eis, pois,  o release do  lançamento deste novo livro do  notável poeta de Curitiba:

"O livro EM BUSCA DA VERDADE, do poeta Manoel de Andrade, será lançado hoje, dia 9 de junho, em Curitiba, cidade onde vive, no sul do Brasil. A obra retrata seu perfil espiritualista, como um estudioso das grandes religiões, profundo conhecedor do Evangelho e como um adepto praticante do Espiritismo kardecista. Nas suas 475 páginas, o autor analisa e interpreta, com uma base crítica e racional, os grandes sistemas religiosos e espirituais do mundo, dando destaque para os relevantes marcos históricos e as verdades centrais do Cristianismo e do Espiritismo. Seu conteúdo foi indicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB), para complementar a nova edição dos cinco volumes do Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita (EADE), um programa nacional avançado para o estudo sistemático e contínuo sobre a essência do Cristianismo e dos aspectos filosóficos, científicos e religiosos da Doutrina Espírita.
A indicação pela FEB, a “Casa Mater” do Espiritismo no Brasil, de que suas reflexões passem a integrar um projeto nacional de estudos, no país mais espírita do mundo, com mais de 3,8 milhões de adeptos e 30 milhões de simpatizantes, não deixa de ser uma consagração do trabalho do incansável poeta, historiador e ensaísta paranaense pela doutrina de Kardec, que a estuda e vivencia há cerca de cinquenta anos."

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Os livros de Junho da Guerra & Paz e da Gradiva

"Não é bem uma newsletter, é mais o tampo de uma mesa com petiscos, uns copos de vinho, e uma catrefa de amigos debruçados à conversa.
De que outra coisa falaríamos senão de livros. Obrigado por se sentarem a esta mesa. 
Manuel S. Fonseca, Editor da Guerra & Paz e da Gradiva

Os meus livros de Junho

Épicos e contos de fadas nas noites de Junho

Há um épico que nunca deixará de nos lamber o ouvido com a sua língua defumada e a sua luz ultramarina. Falo de Os Lusíadas. E com vontade que o comecem a ler, o poeta António Carlos Cortez reescreveu-o para que rapazes e raparigas das escolas não só o leiam, mas aprendam a delicada arte de o degustar. Por isso, Uma estória de Os Lusíadas, de António Carlos Cortez, livro de iniciação, é o primeiro dos meus dez livros de Junho. 
A poesia flui e reflui entre equinócios e solstícios. Pedro Rapoula é um poeta novo. Revela-nos Coisas que me ensinaram a calar, uma escrita que não foge a dores de infância, ao frio da casa e do afecto. É poesia, essa coisa que de nada serve por tanto lá estar tudo.
Mês de Feira do Livro, mês de prémios. O Sal e a Ferida, de Diana Teixeira, é Prémio Nacional de Literatura do Lions e mostra-nos que as feridas abertas no Andes não ficam apenas no Andes, desaguando mesmo à nossa porta, e Antologia Brutalista, do italiano Ricardo Rao, com autênticos episódios da guerra social brasileira, mereceu o Prémio de Revelação Literária UCCLA/CML. 
Aos meus leitores ofereço agora os Contos de Fadas Turcos, na mesma colecção em que já publiquei contos de fadas japoneses e chineses. Façam o favor de entrar no maravilhoso turco povoado de dervixes, pássaros cor-de-laranja, mitos xamânicos, um maravilhoso pintado a ilustrações que combinam cores e tradições persas e otomanas, alegria dos olhos e felicidade dos dedos que desatam a correr de página a página.
Ponho, agora, o meu melhor ar circunspecto. Falemos de pensamento. De René Girard, filósofo maior das últimas cinco décadas, publico uma antologia póstuma, Desejo de Tirania, cuja primeira jóia nos assombra: «É o medo de ser morto que faz do soberano um tirano. E é o nosso medo de morrer que faz com que nos deixemos tiranizar». É da colecção Os Livros Não se Rendem e os meus fabulosos parceiros, a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações encerram aqui um apoio de quatro anos, que se traduziu na doação de cerca de nove mil livros à rede nacional de bibliotecas públicas.
E há um livro, Cataclismo Atlântico: Repensar o Tráfico Atlântico de Escravos, de David Eltis, que diz coisas novas sobre a mais antiga e pungente das práticas humanas, a escravatura. Nenhum debate futuro será possível, ou pelo menos honesto, sem considerar os factos e a informação deste livro. Polémico porque verdadeiro, contra um tempo carregado de demagogia.
Figura destacada da Judiciária e do universo policial, José Lopes apresenta uma proposta sedutora: falar do sistema (mas será que é mesmo um «sistema») de organização das nossas polícias. Quantas são, o que fazem, que redundâncias? Com um prefácio diligente e reflectido de António Araújo, O Sistema Policial Português, Onde Nasceu, Como Cresceu, No Que Deu, vai incomodar algumas almas mais dadas a uma certa paz dos cemitérios, perdão, gabinetes.
O sistema policial era outro quando Carolina Loff, sereia do seu tempo, foi presa e torturada na polícia política. Eis que, frente a frente, ficaram uma comunista e um Pide. Dos antecedentes e da sua teia de espionagem e clandestinidade nos conta este emotivo A Comunista e o PIDE, de Felícia Cabrita. Não vos vou dizer que é uma história de amor, não se vá dar o paradoxo de acreditarem em mim. Ah, é verdade, a Felícia Cabrita autorizou-me a escrever um posfácio. 
Fecho com um extraterrestre chamado Cristiano Ronaldo. Um jornalista do grande L’Équipe, Régis Dupont, mergulhou na vida, mas sobretudo na prodigiosa carreira desportiva do já lendário goleador e escreveu Cristiano Ronaldo, 25 anos no topo do futebol. Para ler antes que comece um Mundial de que só queremos sair campeões.

São os meus dez livros de Junho, dez golos e ainda nem o jogo começou.

duas euforias

A minha luminosa Rita Fonseca continua a mergulhar os milhares de leitoras da sua euforia nas ínvias sombras do dark romance.  A portuguesa Inês Valadas teve arranque eufórico com Onze Minutos e Sara Cate põe as personagens de Elogia-me a fazer coisas sem sexo. Ou será com?

Os livros de Junho são estrelas que descem dos céus

São de sombras e luzes, e o mistério de buracos negros, os livros de Junho da Gradiva, a começar pela prosa cativante e tão feeling good das histórias que Edgar Valles nos conta em Sombras e Luzes do Império, a que João Soares respondeu com competente prefácio. E o mesmo império mereceu, ao investigador José Sá Carneiro, uma incursão muito bem documentada a um momento dramático da nossa história do século XX, A Descolonização e os seus Antecedentes.
Dessa raposa – não, não era um ouriço! – chamada Isaiah Berlin, cujos conceitos de liberdade positiva e liberdade negativa marcaram o pensamento recente, vamos publicar Rousseau e Outros Cinco Inimigos da Liberdade. São seis os filósofos dissecados: todos eles a roerem o pão e queijo da liberdade individual.
Peçam um romance sobre a «diferença»: Estranha Sedução, de Ian McEwan, dá logo um passo em frente. A acção decorre numa cidade sem nome e as traves da perversidade seguram o «conforto dos estranhos» que é a chave de uma história arrepiante: o clímax assusta.
Acendam velas: chegou a edição comemorativa dos 50 anos de O Gene Egoísta, de Richard Dawkins. Um livro de viragem na história da ciência e do evolucionismo darwinista: o «gene» está no centro de tudo. O prefácio é do genial Robert Trivers.
Há livros que se publicam a pedido das famílias. Esta obra meritória de Ana Paula Santana e João Filipe Queiró, Introdução à Álgebra Linear, tem um claro objectivo de apoio pedagógico. Límpido e de serviço público. 
Luís F. Rodrigues trocou a Guerra e Paz pela Gradiva e publica Gestalt da Alma: Método de Autoconhecimento Profundo pela Expressão Artística e Simbólica, com um propósito:  de que modo podemos recuperar a capacidade de escuta interior?
Do espaço interior para o cosmos, a Gradiva, fazendo justiça à sua vocação de «ciência aberta», quer provar que O Céu é o Máximo, e fá-lo com este livro de Máximo Ferreira, que nos põe a olhar lá para o alto entre as estrelas.
De outra maneira, arrebatando os mais distraídos e mesmo os mais afobados ou sôfregos, Astrofísica para Gente com Pressa, de Neil deGrasse Tyson, é uma viagem emocionante aos mistérios do cosmos.
E os pais que queiram converter os filhos à contemplação das galáxias têm, do mesmo autor, Neil deGrasse Tyson, um livrinho infantil, Olha para o Céu Comigo: uma vida entre as estrelas, que Jennifer Berne adaptou e Lorraine Nam ilustrou com delicadeza.

Fechamos este mês em que a Gradiva se passeia pelos astros com um livro do Prémio Nobel da Física, Alain Aspect, Einstein e as Revoluções Quânticas. As experiências de Aspect mostram que partículas entrelaçadas, mesmo se separadas por grandes distâncias, permanecem ligadas, comportando-se de forma idêntica. Começa aqui a física do futuro.

Onze livros Gradiva: a entrelaçar o fundo da história com a imensidão galáctica."

Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva.

Jonas Kaufmann, num emocionante "encore"

  
E lucevan le stelleda ópera Tosca de Giacomo Puccini, pelo tenor Jonas Kaufmann, num emocionante "encore".

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Manoel de Andrade publica um novo livro


Manoel de Andrade , o poeta brasileiro que tantas páginas nos tem ofertado ao longo da vida deste blog, acaba de publicar um novo livro a ser apresentado a 9 de Junho, em Curitiba, para o qual nos remete um honroso  convite.
Manoel de Andrade foi desde a época da Ditadura, nos anos obscuros  de setenta, um insigne arauto da luta pela liberdade  que o obrigou ao exílio e a uma comprometida diáspora pela América Latina. Desse tempo, registou, com mestria, em prosa fluida e assertiva, as memórias de um bardo guerreiro que lutava, com a palavra, a defesa dos oprimidos, sob o jugo de alguns tiranos que , então, dominavam a grande maioria dos países dessa América Latina ensanguentada.
Poeta , Manoel de Andrade tem na palavra  o rigor e a música que faz da poesia a mais bela interpretação da vida. No entanto , é um exímio prosador que dá forma ao que o rodeia e interpreta o mundo. Homem culto e de profunda humanidade tem, em si,  os fundamentos de um grande comunicador que não só nos cativa através da sua escrita , mas também no trato directo com aqueles que têm o privilégio de o ouvir e de o conhecer.
Neste último livro, este intelectual brasileiro transmite-nos, através de doutos comentários, os longos e profundos estudos que tem realizado sobre o Velho e o Novo Testamento.  "Muitas histórias sobre a vida de Jesus , de leitura e releitura  das obras básicas e complementares da Doutrina Espírita e de muitos anos  na busca da beleza e do conhecimento na História, na Filosofia, na Ciência , nas Religiões, na Arte e na Literatura."
De aqui, saudamos Manoel de Andrade , apresentando nosso sempre grato regozijo por mais uma importante e valiosa  obra.