sábado, 12 de setembro de 2026

AS BEM-AVENTURANÇAS


MÓDULO II - ENSINOS DIRETOS DE JESUS
                                                                           
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AS BEM-AVENTURANÇAS
por Manoel de Andrade
     " As beatitudes são o que de mais belo, poético e profético há no Sermão da Montanha. Belo e poético pelo lírico sabor moral das palavras e profético porque anunciam aos que sofrem a plena libertação e a verdadeira felicidade no mundo espiritual.
     Esta passagem de Mateus e Lucas foi tão estudada e comentada ao longo dos tempos que vale aqui fazer uma singela reflexão lembrando de dois fatos tão significativos na história do cristianismo. Moisés subiu a uma montanha para receber os Mandamentos da Lei e Jesus subiu a um monte para nos enviar os mandamentos do coração. Entre tantas referências, por certo a mais expressiva foram as palavras de Mahatma Gandhi (1869 – 1945) quando, numa de suas reflexões, afirmou que “Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade e só se salvasse O Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” (1) Essa sábia dedução de um homem tão iluminado como Ghandi indica que essa marcante passagem do Evangelho resume todo o fundamento moral do Cristianismo. Santo Agostinho escreveu o livro “Sobre o Sermão do Senhor na Montanha” onde analisa em profundidade cada detalhe da mensagem incomparável de Jesus. Martinho Lutero (1483 – 1546) dedicou ao texto vários sermões em Wittenberg, publicados em 1532 e Francois Mauriac (1885 – 1970), o grande mestre do romance francês, que descreveu Jesus em seu livro O Filho do Homem e foi laureado com o prêmio Nobel de Literatura de 1952, comentando o mais belo discurso do Divino Mestre, afirmou: "Quem nunca leu o Sermão da Montanha, não é capaz de saber o que é o cristianismo". E mesmo diante de tanta reverência, no Ocidente, essa mensagem sublime de Jesus foi deformada pela poderosa tutela “teocrática” que tinha a Igreja sobre a consciência das pessoas. A vigilância pela pureza dogmática mantida pela intolerância do Santo Ofício negava todo o elevado significado da compaixão, da caridade e do perdão que marcaram indelevelmente as palavras de Jesus. Nascida à sombra arbitrária da cura pontifícia e do trono imperial, a Inquisição marcou o desprezo absoluto pelo significado da fé, do amor e da esperança contida no Sermão da Montanha, restando às vítimas do poder eclesiástico, o desespero, a ruína e a crença na perdição irreparável da salvação da própria alma.
     Finalmente, é indispensável acrescentar que no Sermão da Montanha, contido no Evangelho de Mateus, está descrito o nosso mais belo “caminho” para nos dirigir a Deus. É lá que Jesus nos ensina a orar com humildade e respeito ao Criador, proferindo a mais perfeita e a única prece que nos ensinou: o Pai Nosso."
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(1)https://www.pensador.com/frase/MjYzMDEyOA

                                                        
 2
DISCÍPULOS: SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO
por Manoel de Andrade
    " Este belo título nos traz muitas reflexões sobre a grandeza espiritual de Jesus, como sábio e como poeta. Além das maravilhas morais das Bem-aventuranças, há outros tantos e tão belos recantos nos Evangelhos, onde o Mestre deixou as marcas de sua indelével sensibilidade, trazendo metáforas que se imortalizaram pelo fascinante lirismo das imagens ao falar dos lírios dos campos, das aves do céu, do pão da vida, da candeia, das sementes e do joio e do trigo.
     Vós sois o sal da terra”, disse Jesus aos seus discípulos. O que levou o Mestre fazer esta rara analogia, comparando os seus discípulos ao sal da terra? 
      Na antiga cultura judaica o sal é o símbolo da eterna aliança entre Deus e o povo de Israel. É uma alegoria com profunda significação religiosa, presente já nos primórdios dos rituais de oferendas a Deus como se lê nas primeiras páginas do Levítico: “Salgarás toda a oblação que ofereceres e não deixarás de pôr na tua oblação o sal da aliança com teu Deus; a toda oferenda juntarás uma oferenda de sal ao teu Deus.” (Lv, 2:13).  Em Ezequiel (16:4), os recém-nascidos eram purificados com o sal. No segundo livro de Reis, o profeta Eliseu purifica com o sal as águas do rio Jordão que banhava Jericó: (2 Rs, 2:20-22).
     Além do significado religioso que o sal tinha entre os hebreus, o que Jesus buscou, na sua comparação, foi associar as propriedades puras e incorruptíveis do sal, como uma substância química que tudo preserva, com as qualidades morais dos seus discípulos. Seu desejo era imaginá-los cristalinos como o sal, como um exemplo perfeito da preservação e da pureza. Como o elemento que nada corrompe e conserva tudo o que toca. O símbolo incorruptível do sal como um componente preservador da dissolução moral. Um caráter que não se contamina e que jamais se corrompe. Uma alma imune às impurezas e aos equívocos ilusórios do mundo.
     Além do “sal da terra” os discípulos foram chamados de a “luz do mundo”, porque eram investidos como os arautos da Boa Nova, trazendo acesa no Evangelho a candeia do conhecimento e da verdade. Nada se revela sem a luz. E a luz que ilumina o mundo é o Cristo. Sem ele caminhamos na penumbra.  Se buscamos, como seguidores do Mestre, ser a luz do mundo, deixemos que o amor, a verdade e a justiça brilhem em tudo o que fazemos e compartilhamos. Ser a luz do mundo significa viver com a consciência crística da verdade, porque a consciência é a lâmpada da alma, a bússola divina, iluminando nosso caminho na imortalidade."
Manoel de Andrade , in  Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre Cristianismo e Espiritismo, Edição do Centro Espírita Luz da Caridade, Rua Mato Grosso, 145 – Água Verde, CEP: 80260-070 – Curitiba - Paraná, pp.159 - 162

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O caminho da escola para casa


Da escola para casa 
por Maria José Vieira de Sousa
"As horas na Escola não se sentiam.  Passavam tão depressa que, nos primeiros meses, julguei existir um relógio diferente para a escola. Lá, as horas eram mais curtas. A novidade e a sedução das letras davam ao tempo uma dimensão diferente. Uma dimensão que se estendeu a toda a minha permanência na Escola Primária. Foi um tempo de encantamento contínuo. A professora ficou para sempre no retábulo dos eleitos da minha vida. Daqueles que me formaram e me tocaram indelével e persistentemente.
Quando o regresso para casa era feito pela estrada, havia uma paragem obrigatória,  que se repetia, mesmo a contragosto da Fernanda.  Ao cimo da longa estrada que saía da Vila , erguia-se uma imponente construção toda murada com grades de ferro forjado, trabalhado minuciosamente. Tinha em cada extremo um grande caramanchão , como se fossem vigias para protecção do grandioso casarão . Era pertença de um emigrante português que vivera muitos anos no Brasil e regressara rico. Era conhecida como a casa do brasileiro. Nesse tempo, havia muitos destes sinais de riqueza, vindos de emigrantes que voltavam ao solo pátrio.
Essa casa despertava a nossa curiosidade. Tinha uma colecção muito grande de pavões que nos assustava pelo tamanho e pelos sons grasnados que soltava, mas que nos atraía também. Cada um era diferente de um outro. E eram tantos, com penas de muitas e fulgurantes cores que era impossível fugir-lhes. Passeavam-se pelo jardim fronteiro à casa , deixando-se ver e contemplar. E era isso que fazíamos. Cada um de nós lançava suspiros  de regozijo ou de medo conforme se abria ou fechava a cauda, que parecia um leque gigantesco. Deslocava uma grande massa de ar que atingia os nossos pequenos rostos, encostados à vedação. Saía invariavelmente um gritinho de reparo perante aquela pena azul , ou aquela outra quase dourada ou perante toda aquela  cauda de inacabado circulo multicolor, que do alto da sua imponência,  parecia  afirmar, sem qualquer relutância, a sua insofismável   idoneidade  cromática.
E, após este marcado encontro, seguíamos felizes pelo caminho até casa. À medida que se reduzia a distância, éramos cada vez menos. Apenas a Catarina, a Lurdes, a Francisca seguiam quase até ao fim. Moravam perto da Quinta, um pouco para lá da estrada que lhe dava acesso.
Todos os dias, nessa estrada, passava uma figura que nunca esqueci: o Luís. Filho de um lavrador , puxava um  carro de bois  ou uma charrua  para lavrar os campos. Cantava muito bem. Eram canções lindas que eu não conhecia. Chamavam-lhe o Luís tolo. Alto e jovem, sorria quando não cantava. Assim que escutava a sua voz , vinha a correr ao portão, para vê-lo. Os meus pais não permitiam que se abrisse o portão, nesse momento. Talvez, por isso, o fascínio  fosse maior. O Luís acenava-me e sorria. Logo, em seguida, desatava a cantar e eu ficava, ali,  a ouvi-lo.
Nunca tive medo do Luís. Andava descalço, mas sempre limpo e arranjado. Os pais tinham posses . Era o irmão mais novo de uma família de cinco filhos. Todos tinham estudado, excepto ele. No entanto, não havia nenhum como ele. O Luís comandava bois de sorriso nos olhos e canções na boca. Aos meus olhos, ainda tão pouco perspicazes, ele surgia como um herói,  quase o D. Quixote que vim a descobrir mais tarde. Aquela insanidade era de uma pureza incontroversa, genuína.
Há também uma figura que não posso deixar de incluir. Uma figura que me traz memória  de um afecto profundo que faz doer a alma de tanta saudade.
Uma parte da família de meu pai, que era nortenho,  como já referi,  dedicava –se ao Ensino. Havia uma série de professores e todos eles mais velhos que meu pai. Um deles, (o tio Francisco Alão, que não era bem tio porque era irmão de tio Adão, casado com a irmã do meu pai que também era professor) que já era aposentado , esperava-nos sempre junto a uma mercearia – café que ficava na esquina da estrada, que saía da vila. Todos os dias , o Tio Alão ali estava quando regressávamos da escola. Alto e forte, com uns enormes e bem penteados  bigodes brancos, sorria mal nos avistava. Era uma corrida acelerada até chegar a seus braços. Levantava cada um de nós e fazia-nos sentar numa sempre reservada mesa, para lhe contarmos o dia de escola. Questionava isto e aquilo , desde a lição de Leitura, o  Ditado até à aritmética no jogo incansável das contas. Mais tarde, deambulava pela História de Portugal,  sem excluir a Geografia. Pelas respostas , classificava o interesse de cada um e respectiva aprendizagem. Pelo meio, contava-nos uma nova história que nunca deixava de nos  deslumbrar. No fim e, em jeito de magia, extraía dos bolsos um pequeno regalo : um lápis de cor, um rebuçado, um chocolate pequeno nos dias de maior felicidade. Outros dias havia que, sem qualquer gesto de magia, nos oferecia um livro de contos. Foi assim que tivemos os Contos de Perrault,  os Contos de Hans Christian Andersen , os Mais belos Contos dos irmãos Grimm ,  as Fábulas de La Fontaine e outros que não nomeio como “O Romance da Raposa “, de Aquilino Ribeiro.
A Escola tinha destes encantos , destas surpresas que faziam de nós crianças felizes."
Maria José Vieira de Sousa, in O livro que já escrevi ,Memórias, pp.125-130

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Os livros de Setembro da Guerra & Paz e da Gradiva


"Estes são os meus livros de Setembro. São 22 novos títulos. Inauguram-se duas novas colecções, uma na Guerra e Paz, outra na Gradiva. E nasce, na Gradiva, uma nova chancela, a Alquimia: um Setembro gordo, numa newsletter que só mando a quem gosto."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva

A Guerra e Paz pensa em português e já vão descobrir porquê
por Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva.
"Quando chega uma colecção nova, parece resplandecente entre todas, e o editor, que julga tê-la vestido de seda e brocado, só quer que os leitores a esperem com óleos perfumados. Pedro Gomes Sanches, com o seu Portugal na Paz dos Bloqueios, como nos habituámos a viver abaixo das nossas capacidades, inaugura a colecção Pensar Português e não podia haver melhor livro inaugural, com tão extraordinária visão holística envolvendo demografia, habitação, emigração e imigração, saúde e educação, o reconhecimento do que Portugal já conseguiu, sem esconder o mal-estar com o que Portugal persiste em falhar. Com vigoroso e combativo prefácio de Pedro Passos Coelho, um livro que confronta a esquerda e a direita em 238 páginas de argumentos civilizados, tão certeiros que chegam a ser cruéis, numa colecção que tem um mecenas exclusivo, a Fundação Manuel António da Mota. Preparem-se para a grande apresentação no Porto.
Os poemas de Rui Teixeira Motta são bandos solitários de aves migratórias e traçam um irrecusável horizonte entre terra e mar. Semifinalista do Prémio Oceanos com As Mãos, o poeta traz-nos agora, gota a gota, o Peso da Luz. Do outro lado do muro, há uma menina alta e bonita que outro grande poeta, António Graça de Abreu, nos quer apresentar: China, Poemas do Erotismo Suave tem «o gosto da erva tenra, luminosa» e oferece «os prazeres da flauta de bambu».
Setembro traz dois novos Atlas Históricos. Um, o Atlas da América Pré-Colombiana, de Brigitte Faugère e Nicolas Goepfert, põe-nos a falar com remotos incas, maias e aztecas, memória de civilizações devastadas. Já no Atlas Histórico do Portugal Revolucionário, o historiador José Matos convoca um passado escaldante: depois do ecuménico 1.º de Maio de 1974, em que os portugueses estavam uns com os outros como nem Deus e os anjos, os caminhos da revolução dos cravos desataram a bifurcar-se. É esse desatino entre revolução e ditadura, entre maiorias silenciosas e vanguardas iluminadas, que aqui se revisita, com mapas, infografias, fotos e um sereno grito de «antes a democracia» que encerra o Verão Quente.
Na colecção diatribe, há polémica. José Pimentel Teixeira interroga-se, em Os Escravos na ONU, sobre a uma resolução daquela angélica instituição, resolução pela qual Portugal passou mais ou menos como cão por vinha vindimada: podem ou devem hierarquizar-se os crimes contra humanidade? Haverá uma «hierarquia do mal na história universal»? Com que rigor a ONU contextualizou a sua resolução? Um livro potente, de argumentação cristalina, escrito com requintado domínio da língua portuguesa.
E em Setembro, vamos a jogo. Entrámos numa parceria com o Observador. A equipa do nosso parceiro concebeu e desenvolveu «puzzles» e uma «vaga de crimes». E nós pedimos aos leitores que sejam os detectives e descubram os criminosos deste SudoCrime, 100 casos portugueses. Teste a sua capacidade lógica e a sua argúcia policial. Depois, faça justiça.
A Crisântemo traz médicas à família
Na Crisântemo, nossa chancela de vida prática, pedimos a sua atenção para duas médicas. A médica endocrinologista, especialista em diabetes e nutrição, Isabel do Carmo, em Tratamento para Emagrecer: do Neolítico à Nova Era das Injecções, propõe-nos uma bela viagem pelo tempo. Vale a pena: se conhecermos o passado podemos actuar de outra forma sobre a obesidade. Mesmo as novas injecções têm, afinal, a sua história. Um livro muito útil.
Outra médica, a cardiologista Vânia Ribeiro, em Um Coração sem Segredos, descomplicar a medicina e cuidar do seu coração, oferece literacia muito clara, simples e directa sobre a principal causa de morte em Portugal, as doenças cardiovasculares. Leia, se mais não for, pelo seu coração!
A euforia peca sem remorsos
A Rita Fonseca continua a levantar bem alto o estandarte da euforia. Em Ace & Ember, de Kate Crew, o segundo livro da série The Mavericks, há um desejo proibido que pode, como sempre acontece no amor, arruinar tudo.
Já em A Pele de Um Pecador, a famosa Avina St. Graves, mostra-nos que por mais que se grite por socorro há circunstâncias em que ninguém nos ouve, sobretudo se a voz nos fica presa na garganta. Um dark romance com uma gota de gótico a tombar-lhe em cima.
Há quem puxe pelos galões, a Gradiva puxa pelos seus Nobel
Para a rentrée, trago-vos, na Gradiva, uma nova colecção de ficção, A Colecção Que Não Precisa de Nome por só acolher escritores que receberam o Prémio Nobel da Literatura. Os dois primeiros são franceses. De J. M. G. Le Clézio (Nobel em 2008), publico um inédito em Portugal, O Africano, viagem íntima em que Clézio confessa que «durante muito tempo sonhei que a aminha mãe era negra.»
De Jean-Paul Sartre (Nobel em 1964), resgatamos do esquecimento de algumas décadas, O Muro, inventário sartriano de medo, desejo, culpa e liberdade (e de absurdo, Manuel Fonseca, de absurdo!). Três homens condenados à morte esperam a sua execução. Venham esperar com eles. Em breve, a Le Clézio e Sartre hão-de juntar-se Ishiguro e Steinbeck.
Na sua boa tradição de ensaio polémico, a Gradiva publica Do Trumpismo ao Chega: a Contaminação, um livro em que Gonçalo Ribeiro Telles sustenta a tese da «exportação» do trumpismo, do seu ideário e dos seus métodos. Portugal não escapou. Escapará a democracia? Mário Centeno prefacia com elegância.
Quem regressa à Gradiva, onde Guilherme Valente primeiro o publicou, é Gabriel Mithá Ribeiro, com um admirável livro sobre educação: A Reforma das Reformas, a autoridade moral suprema do professor: entre Platão, Freud, Weber e a Paideia. O que mais me interessou neste livro de Mithá Ribeiro foi a fundamentação sustentada do papel do professor e a forma como ancora a sua autoridade moral num longo processo civilizacional.
Desse longo processo civilizacional nos fala Civilização, o Contributo da Europa para a Civilização Universal, de Kenneth Clark, num relato apaixonado e visualmente sedutor, com cerca de 300 reproduções das grandes obras de arte. Não é um livro, é um orgulho, uma preciosidade.
E há um novo livro de Richard Dawkins na Ciência Aberta. Os leitores portugueses podem agora ler O Livro Genético dos Mortos, um Devaneio Darwiniano: o passado não morre, os genes de cada animal são um arquivo das vidas passadas. Os nossos genes também. Um livro ilustradíssimo, encantador: o melhor livro de ciência de 2024, agora em português.
Manual de Investigação em Ciências Sociais, de Raymond Quivy, Luc Van Campenhoudt e Jacques Marquet é um daqueles livros que volta a «pedido de várias famílias». Agora em edição revista e aumentada, uma obra essencial para os alunos de ciências sociais, ciências políticas, comunicação e serviço social.
«Os zombies comem cérebros, tás safo», é como começa, desbragado, este Zits, Apocalipse, que a imparável imaginação de Jerry Scott e de Jim Borgman criou. Apreciadores de BD delirem, se faz favor, sem reservas. E para os leitores que ainda pedem que sejam os pais a lerem, aí está um novo Mimi e Rogério: E a Grande Tempestade, de Korky Paul e Valerie Thomas. Com um gato preto, trovões e grandes rajadas de vento.
Fecho com Antoine Saint-Exupery e a sua Terra dos Homens. Esta é uma edição única, a edição ilustrada da Gallimard, que venceu o National Book Award. As ilustrações tocantes, e que chegam a ser comoventes, são de Riad Sattouf, um dos grandes da banda desenhada actual, vencedor do Los Angeles Times Graphic Novel Prize, prémio de excelência no Japan Media Arts Festival e vencedor por duas vezes do Fauve d’Or. Leve para casa: não é só um livro, é uma obra de arte, com o espírito de O Principezinho.
A Alquimia começa com ousadia: num cemitério
Esta é a nova chancela da Gradiva. A Alquimia tem concepção e selecção da Rita Fonseca, e é uma chancela para acolher novas tendências de ficção. Inaugura-se com este dark romantsy, Coroa-me Morta, de Liv Zander, que logo na pré-venda atingiu o 1.º lugar no top da Wook. Um romance em que se cavam sepulturas? Pois sim, mas há um homem demasiado elegante para o cemitério. Atrevem-se a ler?

São estes os nossos livros de Setembro. De uma irrecusável diversidade e correndo, por prazer, mil riscos. Mas que raio de vida é uma vida sem «frisson»?"
Manuel S. Fonseca, editor

domingo, 6 de setembro de 2026

Ao Domingo Há Música

Hear my voice
Hear my dreams
Let us make a world, world, in which I believe 
Hear my words
 Hear my cries
 Let me see a change through these eyes 

You may think I won't be heard 
Still I raise this hand, spread this word 
These words of fire, of hope and desire 
And I'll let them free 

Hear my voice 
Hear my dreams 
Let us make a world in which we believe
In which we believe

Hear my words 
Hear my choice 
Hear my voice 

Ouça a minha voz/ Ouça os meus sonhos/ Vamos construir um mundo em que acreditemos/ Em que acreditemos/ Ouça as minhas palavras/ Ouça a minha escolha/ Ouça a minha voz. 
O apelo é feito pelo poema , pela  canção . Um apelo que se coaduna com estes momentos que perpassam pelo mundo e se vão arrastando sem que qualquer voz os apazigue, os mude de rumo. 
A cantora fá-lo . Oxalá os " senhores do mundo" a possam ouvir e deixar-nos sonhar.

Celeste  numa actuação magnifica de  Strange ,  The Other Songs Live 2024.
"Esta foi uma das actuações mais inesquecíveis  no The Other Songs Live. Celeste é uma compositora incrível, com uma voz que define uma geração!"
   
Celeste , em  Hear My Voice .
" Hear My Voice" ao vivo na Union Chapel de Londres. A canção faz parte da banda sonora do filme "Os 7 de Chicago", de Aaron Sorkin e foi composta, em parceria, com o compositor nomeado para os Globos de Ouro, Daniel Pemberton.
 
Celeste interpreta People Always Change, ao vivo no KOKO. 
"A cantora inglesa Celeste interpreta "People Always Change" no KOKO, durante a primeira edição do evento "Uma Noite no Teatro", em prol da Fundação KOKO, em Novembro de 2024. "Uma Noite no Teatro" foi um evento especial de angariação de fundos, em apoio da Fundação KOKO, uma instituição de solidariedade registada e dedicada a transformar vidas e a criar oportunidades transformadoras, celebrando o papel de Benedict Cumberbatch como Embaixador Global. Há mais de 120 anos que o KOKO é o coração da vibrante cultura de Camden. Este legado continua com a Fundação KOKO, uma instituição de solidariedade."
 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Just a perfect day


Lou Reed,,(Lewis Allan Reed , cantor americano  (Março  2, 1942 – Outubro 27, 2013), em Perfect day.

Just a perfect day

Just a perfect day
drink sangria in the park
And then later when it gets dark
we go home

Just a perfect day
feed animals in the zoo
Then later a movie too
and then home

Oh, it’s such a perfect day
I’m glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
you just keep me hanging on

Just a perfect day
problems all left alone
Weekenders on our own
it’s such fun

Just a perfect day
you made me forget myself
I thought I was someone else
someone good

Oh, it’s such a perfect day
I’m glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
you just keep me hanging on

You’re going to reap just what you sow
You’re going to reap just what you sow
You’re going to reap just what you sow
You’re going to reap just what you sow

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Quem não tem espingarda dispara soneto


SONETO MUITO GAUCHE PARA USO DOS OPRESSORES DO MOMENTO

Os ditadores usam a cartilha
normalmente usada por quem oprime.
O opressor percebe bem que trilha
inocentes e que nada o redime.


A razão do opressor é a força,
já que outra razão não tem.
Porém a força a razão reforça
e a razão faz da força seu refém.

A sabedoria dos opressores
é o contrário de saber viver:
o uso constante dos seus terrores

é sementeira que fará colher
os tais destemidos frutos da ira,
que atira os restos da força à pira!
                   25.02.2022

Nota do autor – Quem não tem cão caça com gato. Quem não tem espingarda dispara soneto mal-amanhado.
Eugénio Lisboa, in Poemas em tempo de guerra suja, Guerra & Paz Editores, p.17
Benfeitor precisa-se

Destruir, sem pestanejar, um povo
inteiro, de frio, fome e de sede,
é próprio do mostrengo de Moscovo,
que, com frio de lagarto, procede

ao seu prazer perverso e favorito
de pôr-se sempre em bicos de pés,
para se mostrar muito homenzito,
arrasando todo um país rés vés.

Matar não lhe custa porque não sente
e, com toda a desenvoltura, mente,
porque assim gira seu ego demente!

Putine rima bem com assassine,
mas também com fulmine e chacine:
venha um benfeitor que o elimine!
               22.11.2022
Eugénio Lisboa, in Soneto - modo de usar, Guerra & Paz Editores, Abril de 2024, p 97


Outro Retrato de Putine

Como estúpido, Putine é teimoso,
e, como teimoso, é insensível.
É, na brutalidade, ardiloso,
e, na boçalidade, irredutível.

Experimentado torturador,
de uma KGB de assassinos,
ele não sente hoje qualquer horror,
perante os mais infames desatinos.

Babado diante de Pedro, o Grande,
mas amarrado ao seu metro e sessenta,
resta-lhe servir-se da sua gangue,

a qual ele constantemente aumenta,
pra mostrar um tamanho que não tem
e um além de que fica sempre aquém.
            29.06.2022
Eugénio Lisboa, in soneto - modo de usar, Guerra & Paz Editores, Abril de 2024, p 20

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Viver para contá-la II (cont.)

Viver para contá-la II
por Gabriel García Márquez
"Não nos foi possível encontrar outra história como aquela, porque não era das que se inventam no papel. Inventa‑as a vida, e quase sempre à força. Aprendemo‑lo depois, quando tentámos escrever uma biografia do formidável ciclista antioquenho Ramón Hoyos, coroado aquele ano campeão nacional pela terceira vez. Lançámo‑la com o aparato aprendido na reportagem do marinheiro e prolongámo‑la até aos dezanove capítulos, antes de nos apercebermos de que o público preferia Ramón Hoyos a escalar montanhas e a chegar primeiro à meta, mas na vida real.
Vislumbrámos uma esperança mínima de recuperação numa tarde em que Salgar me telefonou para que me reunisse de imediato com ele no bar do Hotel Continental. Estava ali com um velho e sério amigo seu que acabava de lhe apresentar o seu acompanhante, um albino absoluto com roupa de operário e uma cabeleira e umas sobrancelhas tão brancas que parecia deslumbrado mesmo na penumbra do bar. O amigo de Salgar, que era um conhecido empresário, apresentou‑o como um engenheiro de minas que estava a fazer escavações num terreno baldio a duzentos metros de El Espectador, em busca de um tesouro de fábula que tinha pertencido ao general Simon Bolívar. O seu acompanhante ‑ muito amigo de Salgar, como o foi meu desde então ‑ garantiu‑nos a verdade da história. Era suspeita pela sua simplicidade: quando o Libertador se dispunha a continuar a sua última viagem, vindo de Cartagena, derrotado e moribundo, supõe‑se que preferiu não levar um valioso tesouro pessoal que tinha acumulado durante as penúrias das suas guerras como uma merecida reserva para uma boa velhice. Quando se dispunha a continuar a sua amarga viagem ‑ não se sabe se para Caracas ou para a Europa ‑ teve a prudência de o deixar escondido em Bogotá, sob a protecção de um sistema de códigos lacedemónios muito próprio do seu tempo, para o encontrar quando lhe fosse necessário e de qualquer parte do mundo. Recordei estas notícias com uma ansiedade irresistível enquanto escrevia O General no Seu Labirinto, onde a história do tesouro teria sido essencial, mas não consegui dados suficientes para torná‑la credível e, em contrapartida, pareceu‑me frágil como ficção. Essa fortuna de fábula, nunca recuperada pelo seu dono, era o que o pesquisador pesquisava com tanto afinco. Não entendi por que no‑la tinham revelado, até que Salgar me explicou que o seu amigo, impressionado pelo relato do náufrago, quis fornecer‑nos os antecedentes para que a seguíssemos dia a dia até que pudesse ser publicada com igual desenvolvimento.
Fomos ao terreno. Era o único baldio a ocidente do Parque de los Periodistas e muito perto do meu novo apartamento. O amigo explicou‑nos sobre um mapa colonial as coordenadas do tesouro em pormenores reais dos montes de Monserrate e La Guadalupe. A história era fascinante e o prémio seria uma notícia tão explosiva como a do náufrago e com maior alcance mundial.
Continuámos a visitar o lugar com certa frequência, para nos mantermos actualizados, ouvíamos o engenheiro durante horas intermináveis à base de aguardente e limão, e sentíamo‑nos cada vez mais longe do milagre, até que passou tanto tempo que nem sequer nos restou a ilusão. A única coisa de que pudemos suspeitar mais tarde foi de que a história do tesouro não era mais do que um biombo para explorar sem licença uma mina de algo muito valioso em pleno centro da capital. Embora fosse possível que também esse não passasse de outro biombo para manter a salvo o tesouro do Libertador.
Não eram os melhores tempos para sonhar. Desde o relato do náufrago, tinham‑me aconselhado a que permanecesse um tempo fora da Colômbia enquanto se desanuviava a situação, devido a ameaças de morte, reais ou fictícias, que nos chegavam por diversos meios. Foi a primeira coisa em que pensei quando Luis Gabriel Cano me perguntou sem preâmbulos o que ia fazer na quarta‑feira próxima. Como não tinha nenhum plano, disse‑me com a sua fleuma do costume que preparasse os meus papéis para viajar como enviado especial do jornal à Conferência dos Quatro Grandes, que se reunia na semana seguinte em Genebra.
A primeira coisa que fiz foi telefonar à minha mãe. A notícia pareceu‑lhe tão grande que me perguntou se me referia a alguma quinta que se chamasse Genebra. «É uma cidade da Suíça», disse‑lhe. Sem se perturbar, com a sua interminável serenidade para assimilar as tropelias mais impensáveis dos filhos, perguntou‑me até quando lá estaria e respondi‑lhe que voltaria o mais tardar daí a duas semanas. Na realidade, ia apenas pelos quatro dias que durava a reunião. No entanto, por razões que não tiveram nada que ver com a minha vontade, não me demorei duas semanas mas quase três anos. Nessa altura, era eu que precisava do bote de remos mesmo que fosse apenas para comer uma vez por dia, mas tive o cuidado de que a minha família não o soubesse. Alguém pretendeu em dada ocasião perturbar a minha mãe com a aleivosia de que o filho vivia como um príncipe em Paris, depois de a enganar com a história de que apenas lá estaria duas semanas.
‑ Gabito não engana ninguém ‑ disse‑lhe ela com um sorriso inocente ‑, o que se passa é que às vezes até Deus tem que fazer semanas de dois anos.
Nunca me dera conta de que era um indocumentado tão real como os milhões deslocados pela violência. Nunca tinha votado por falta de um bilhete de identidade. Em Barranquilla, identificava‑me com a minha credencial de redactor de El Heraldo, onde tinha uma falsa data de nascimento para escapar ao serviço militar, do qual era refractário desde há dois anos. Em casos de emergência, identificava‑me com um bilhete‑postal que me deu a telegrafista de Zipaquirá. Um amigo providencial pôs‑me em contacto com o gerente de uma agência de viagens, que se comprometeu a embarcar‑me no avião na data indicada mediante o pagamento adiantado de duzentos dólares e a minha assinatura no fundo de dez páginas em branco de papel selado. Assim fiquei a saber, por carambola, que o meu saldo bancário era uma quantidade surpreendente que não tinha tido tempo de gastar devido aos meus afãs de repórter. O único gasto, à parte os meus gastos pessoais que não ultrapassavam os de um estudante pobre, era o envio mensal do bote a remos para a família.
Na véspera do voo, o gerente da agência de viagens cantou à minha frente o nome de cada documento à medida que os colocava sobre a minha secretária para que não os confundisse: bilhete de identidade, caderneta militar, recibos de estar tudo em ordem com a tesouraria de impostos e os certificados de vacina contra a varíola e a febre amarela. No fim, pediu‑me uma gorjeta adicional para o esquálido rapaz que se vacinara as duas vezes em meu nome, como se vacinava todos os dias desde há anos para os clientes apressados.
Viajei para Genebra com o tempo exacto para a conferência inaugural de Eisenhower, Bulganine, Éden e Faure, sem outro idioma além do castelhano e ajudas de custo para um hotel de terceira classe, mas bem apoiado pelas minhas reservas bancárias. O regresso estava previsto para daí a cinco semanas mas, não sei por que rara premonição, distribuí pelos amigos tudo o que era meu no apartamento, inclusive uma estupenda biblioteca de cinema que reunira em dois anos, com a assessoria de Álvaro Cepeda e Luis Vicens.
O poeta Jorge Gaitán Durán chegou para se despedir quando eu estava a rasgar papéis inúteis e teve a curiosidade de revistar o cesto do lixo para ver se encontrava algo que pudesse servir‑lhe para a sua revista. Resgatou três ou quatro folhas rasgadas a meio e leu‑as por alto enquanto as reunia como um quebra‑cabeças sobre a secretária. Perguntou‑me de onde tinham saído e respondi‑lhe que era o «Monólogo de Isabel vendo chover em Macondo» , eliminado no primeiro rascunho de A Revoada. Avisei‑o de que não era inédito, porque o tinham publicado na Crónica e no «Magazine Dominical» de El Espectador, com o mesmo título posto por mim e com uma autorização que me lembrava de ter dado à pressa num elevador.Gaitán Durán não se importou com isso e publicou‑o no número seguinte da revista Mito.
A despedida da véspera em casa de Guillermo Cano foi tão tormentosa que quando cheguei ao aeroporto já tinha partido o avião de Cartagena, onde dormiria nessa noite para me despedir da família. Por sorte, apanhei outro ao meio‑dia. Fiz bem, porque o ambiente doméstico descontraíra‑se desde a última vez e os meus pais e irmãos se sentiam capazes de sobreviver sem o bote a remos de que eu ia necessitar mais do que eles na Europa.
Viajei para Barranquilla por estrada no dia seguinte muito cedo a fim de apanhar o voo de Paris às duas da tarde. No terminal de autocarros de Cartagena, encontrei‑me com Lácides, o porteiro inesquecível do Rascacielos, que não via desde então. Atirou‑se para cima de mim com um abraço de verdade e os olhos cheios de lágrimas, sem saber o que dizer nem como me tratar. Depois de um atropelado intercâmbio, porque o seu autocarro estava a chegar e o meu estava a partir, disse‑me com um fervor que me chegou à alma:
‑ O que não entendo, D. Gabriel, é por que nunca me disse quem era.
‑ Ai, meu querido Lácides ‑ respondi‑lhe, mais magoado do que ele ‑, não lho podia dizer porque ainda hoje nem eu próprio sei quem sou.
Horas depois, no táxi que me levava ao aeroporto de Barranquilla sob o ingrato céu mais transparente que qualquer outro no mundo, notei que estava na avenida Veinte de Júlio. Por um reflexo que já fazia parte da minha vida desde há cinco anos, olhei para a casa de Mercedes Barcha. E ali estava, como uma estátua sentada no portal, esbelta e distante e, de acordo com a moda do ano, com um vestido verde com rendas douradas, o cabelo cortado como asas de andorinha e a serenidade intensa de quem espera alguém que não há‑de chegar. Não pude ignorar o frémito de que a ia perder para sempre numa quinta‑feira de Julho, a uma hora tão matinal, e por um instante pensei em parar o táxi para me despedir, mas preferi não desafiar uma vez mais um destino tão incerto e persistente como o meu.
No avião em voo continuava castigado pelas dentadas do arrependimento. Existia então o bom hábito de pôr nas costas do assento da frente algo que em bom espanhol ainda se chamava recado de escrever. Uma folha de carta com bordos dourados e o envelope do mesmo papel de linho rosa, creme ou azul e, às vezes, perfumado. Nos meus poucos voos anteriores, usara‑os para escrever poemas de adeuses que transformava em aviõezinhos de papel e deitava a voar quando saía do avião. Escolhi um azul‑celeste e escrevi a minha primeira carta formal a Mercedes sentada no portal de sua casa às sete da manhã, com o vestido verde de noiva sem dono e o cabelo de andorinha incerta, sem suspeitar sequer para quem se vestira ao amanhecer. Escrevera‑lhe outras notas de brincadeira, que improvisava ao acaso, e apenas recebia respostas verbais e sempre elusivas quando nos encontrávamos por acaso. Aquelas não pretendiam ser mais do que cinco linhas para lhe dar a notícia oficial da minha viagem. No entanto, no final, acrescentei um pós‑escrito que me cegou como um relâmpago ao meio‑dia no instante de assinar: «Se não receber resposta a esta carta antes de um mês, ficarei para sempre a viver na Europa.» Permiti‑me apenas o tempo para pensar outra vez antes de deitar a carta, às duas da madrugada, na caixa do correio do desolado aeroporto de Montego Bay. Já era sexta‑feira. Na quinta‑feira da semana seguinte, quando entrei no hotel de Genebra ao fim de uma jornada inútil de desacordos internacionais, encontrei a carta de resposta."
Gabriel Garcia Marquez, in Viver para contá-la, Publicações Dom Quixote, 2002, pp.573- 579

(0) (Gabinete de Informação e Imprensa. (N. T.) 
(1). (Ficámos sem notícia! (N. T.).
(2).(Relato de um Náufrago, na tradução portuguesa. (N. T.)
(3).Tribunal Civil 22 do Círculo de Bogotá. (N. T.)
(4).O conto «Monólogo de Isabel vendo chover em Macondo» foi publicado em tradução portuguesa na colectânea Olhos de Cão Azul. (N. T.)
Sobre o livro:
"Publicado originalmente em 2002, "Viver para Contá-la" de Gabriel García Márquez, Nobel de Literatura em 1982, cobre o período de 1927 a 1950, finalizando com o pedido de casamento à sua esposa.
“Viver Para Contá-la” é a fascinante autobiografia de Gabriel García Márquez, onde o mestre do realismo mágico desvenda as memórias de sua infância e juventude. Com a prosa lírica e envolvente que o tornou um ícone literário, Gabo  transporta-nos para os cenários e personagens que moldaram o  seu imaginário, revelando as raízes de obras-primas como “Cem Anos de Solidão”. Mais do que um relato cronológico, este livro é um mergulho profundo na alma do escritor, mostrando como a vida se transforma em arte através da recordação e da narrativa.
Uma jornada íntima e reveladora, esta obra é um convite para entender o processo criativo de um génio. Desde a chegada de sua mãe para vender a casa em Aracataca até os primeiros passos como escritor em Barranquilla, cada página é um vislumbre da Colômbia que inspirou  as suas histórias. É um testemunho da magia da memória, da importância das origens e da incessante busca por transformar a realidade em lenda.
Para os admiradores de García Márquez, “Viver Para Contá-la” é um guia essencial, iluminando passagens inesquecíveis de sua ficção e oferecendo uma nova perspectiva sobre a  sua obra. Para novos leitores, é a porta de entrada para um universo literário sem igual, narrado pela voz inconfundível de um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos. Uma celebração da vida, da literatura e do poder transformador da memória."

domingo, 30 de agosto de 2026

Ao Domingo Há Música


… perdia-me naquela música estranha e íntima, ensimesmada e como absorta em seus próprios sons, que sempre me faziam bem e me predispunham a dar razão ás vozes de minha alma.
  Hermann HesseDemian

Que melhor desafio pode ser feito, num domingo que fecha um Agosto inconstante e, por vezes,  inclemente do que perdermo-nos na Música?!

HAEVN feat. Neco Novellas, em Caught A Light (Symphonic Version).
Uma colaboração sinfónica orquestral de HAEVN e Neco Novellas, onde a pop cinematográfica encontra o calor de uma orquestra completa e a sabedoria silenciosa de dois mundos que se encontram. Sobre como encontrar a coragem para enfrentar a dor que preferia evitar. E como, nesta quietude, a luz começa a brilhar através das fendas. 
Os interpretes informam também: é o  capítulo quatro da nossa viagem sinfónica. Esta música faz parte do nosso novo álbum Symphonic Tales, já disponível em : https://haevnmusic.ffm.to/symphonicta... 
Para esta versão sinfónica, queríamos que a orquestra contivesse o que as palavras por si só não conseguem. Cordas que carregam o peso de algo frágil e crescente. Ondas que espelham a sensação de uma luz captada pouco antes de desaparecer. Trabalhar com o Neco foi como respirar. Trouxe algo antigo e vivo para a sala — cantando num dialecto de Moçambique lembrando-nos que tudo começa pequeno e que devemos acompanhar o seu crescimento. "Mukome hi ntsongo na ha yetlelile": (molde-o enquanto ainda é pequeno, antes que se acomode e se fixe).
Compusemos esta canção a altas horas da noite em Portugal, quando todas as ideias já tinham sido postas de lado e só restava o mais verdadeiro. Esta é a canção que estão a ouvir agora. Podíamos ver isso em todos os nossos sorrisos quando a terminámos. Escutem com atenção. Deixem entrar a luz. 
Arranjos de Enrico Ferri. Canção original escrita por Marijn van der Meer; Jorrit Kleijnen; Neco Novelas;Tim Bran. Produzido por Esmee Ooms e Kevin Kimman. Misturado por Tom Gelissen. Masterizado por Martinho Scheer. Câmara por Kevin Kimman. Editado por Robin Piree.
 
HAEVN com participação de Neco Novellas, em Trade it for the Night (Versão Sinfónica).
Uma nova versão sinfónica de “Trade It For The Night” de HAEVN, com a participação de Neco Novellas. Repaginada com um arranjo orquestral completo, este vídeo captura as sessões de gravação com uma orquestra ao vivo. Arranjo de Tom Trapp. Música original composta por Marijn van der Meer; Jorrit Kleijnen; Daniel Gibson; Jörgen Ringqvist e David Broeders. Produzido por Esmee Ooms e Kevin Kimman. Misturado por Tom Gelissen. Masterizado por Martinho Scheer. Câmara por Kevin Kimman. Editado por Robin Pire. 
 
HAEVN e Neco Novellas, em Great Mother (Symphonic Version) . 
Uma nova versão sinfónica de “Great Mother” de HAEVN, com a participação de Neco Novellas. Repaginada com um arranjo orquestral completo, este vídeo capta as sessões de gravação com uma orquestra ao vivo. Arranjo de Michelino Bisceglia. Canção original escrita por Marijn van der Meer; Jorrit Kleijnen; Neco Novelas; Tim Bran. Produzido por Esmee Ooms e Kevin Kimman. Misturado por Tom Gelissen. Masterizado por Martinho Scheer. Câmara por Kevin Kimman. Editado por Robin Piree. Video produzido por Esmee Ooms & Kevin Kimman.