domingo, 12 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música



Sem a música, a vida seria um erro.
    Friedrich Nietzsche

Para reiterar  o que  Nietzshe afirma, apresentámos, com ênfase impune, a selecção musical deste domingo. 
 
De Rachmaninoff Piano Concerto No. 2.,Khatia Buniatishvili interpreta  Adagio Sostenuto
"Em 1975, Eric Carmen ouviu esta melodia e transformou-a numa das canções pop mais famosas de sempre ("All by Myself"). Ele tinha razão. O Adagio sostenuto do Concerto para Piano n.º 2 , de Rachmaninoff contém uma das mais belas e comoventes melodias da história da música ocidental, uma linha tão completa, tão perfeitamente formada, que estava praticamente à espera de ser roubada. Mas antes da canção pop, antes das bandas sonoras dos filmes, antes de todos os clichés românticos que se apropriaram dela — havia isto. O original. A fonte. E, nesta interpretação de Khatia Buniatishvili com a Filarmónica do Teatro Regio Torino, ouve-se exactamente por que razão é que alguém não conseguiu deixá-la em paz. O andamento começa com um diálogo entre clarinete e flauta que soa como uma conversa entre duas pessoas que ainda não sabem que estão apaixonadas. Depois entra o piano e tudo muda. Buniatishvili interpreta o Adagio com uma liberdade improvisatória que faz com que a melodia soe como uma descoberta recente, em vez de uma repetição infinita. 
Este é o Adagio de Rachmaninoff  tal como deve ser sentido; não como um clássico, mas como um segredo."
.  
Céline Dion interpreta a canção de Eric Carmen All By Myself (Official Remastered HD Video).

sábado, 11 de julho de 2026

Sobre o beijo


O beijo na boca tem muito mais milhões de anos do que pensávamos
por Sergio Parra
"Uma nova análise sugere que o beijo na boca, longe de ser uma invenção cultural moderna, pode ter surgido há mais de 21 milhões de anos entre os primeiros ancestrais dos grandes símios.
De acordo com um estudo de 2007, um único beijo apaixonado promove a transferência de até mil milhões de bactérias de uma boca para outra, juntamente com cerca de 0,7 miligramas de proteína, 0,45 miligramas de sal, 0,7 microgramas de gordura e 0,2 microgramas de "compostos orgânicos variados", ou seja, restos de comida. Mas porque existe o beijo? Não é uma fonte de infecções?
Existem gestos humanos que parecem tão profundamente pessoais e culturais que é fácil esquecer a sua dimensão evolutiva. De acordo com um novo estudo publicado na revista Evolution and Human Behavior, o beijo na boca não é uma invenção recente nem exclusivamente humana, mas um comportamento com profundas raízes biológicas que pode remontar à linhagem comum dos grandes símios, há entre 21,5 e 16,9 milhões de anos.
Esta descoberta, que desafia a ideia de que o beijo evoluiu como um gesto exclusivamente cultural, baseia-se numa extensa análise filogenética de dados observacionais sobre o comportamento social em primatas. Investigadores do Departamento de Biologia da Universidade de Oxford, liderados pela bióloga evolutiva Matilda Brindle, reuniram evidências de interacções orais não agressivas em chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas, concluindo que esse tipo de contacto já estava presente nos ancestrais comuns a essas espécies.

O que é um beijo?
O beijo é definido nesta investigação como um acto não violento de contacto entre bocas, com movimento, mas sem transferência de alimento. Esta definição evita abordagens antropocêntricas e permite identificar comportamentos semelhantes em diferentes espécies. O problema é que este tipo de interacções não deixa vestígios fósseis. Por isso, a equipa optou por uma reconstrução filogenética, utilizando modelos bayesianos e milhões de simulações para rastrear probabilidades evolutivas.
Os resultados desta abordagem não só situam a origem do beijo muito antes do que se pensava, como também apoiam a hipótese de que os neandertais e outros hominídeos extintos podiam praticá-lo e até partilhá-lo com o Homo sapiens durante os períodos de hibridização entre espécies.
Apesar da surpreendente descoberta, o estudo também deixa muitas questões em aberto. Entre elas, a mais intrigante: porque nos beijamos? Embora o beijo possa fortalecer os laços sociais, servir como prelúdio sexual ou ajudar a avaliar possíveis parceiros através de sinais químicos, continua a ser um comportamento que implica riscos, como a transmissão de doenças. Em termos evolutivos, não está claro se os seus benefícios superam esses custos.

Uma parte cultural
Nesta linha, os investigadores apontam que o comportamento do beijo não é universal nem entre os primatas nem entre os humanos. Estudos antropológicos indicam que apenas 46% das culturas humanas documentadas praticam o beijo romântico. Essa variabilidade sugere que, embora possa haver uma base biológica para o beijo, a sua expressão depende em grande parte do contexto social e cultural.
Além disso, as informações sobre esses comportamentos em animais selvagens ainda são limitadas. Grande parte dos dados provém de observações em zoológicos e santuários, onde o ambiente controlado pode influenciar os comportamentos. Por isso, os investigadores sublinham a necessidade de mais estudos em populações selvagens e em espécies fora do grupo dos grandes símios, para compreender melhor como o beijo pode ter surgido e se transformado ao longo de milhões de anos.” in Revista National Geographic

Entretanto , fomos para além destas formulações. Demos voz à   música, onde tudo é mais simples. Harmonioso. Nela, o beijo  é mote de muitas canções. Encantámo-nos e  seleccionámos   algumas, cantadas em português. 
 
 Só um beijo, por Luísa Sobral com Salvador Sobral -  | Eléctrico | Antena 3
   
  Solta-se o beijo, por Ala dos Namorados & Sara Tavares & Nuno Guerreiro. 
   
Beijo de Saudade, por  Mariza e Tito Paris.
Beijo, por  Pedro Abrunhosa  e Os Bandemónio.
Primeiro beijo, por Rui Veloso .

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Os livros de Julho da Guerra & Paz e da Gradiva

"Esta é a newsletter que mando a quem gosto e a quem faz a Guerra e Paz e a Gradiva, autores, tradutores, revisores. Mas é sobretudo a vontade de receber abraços amigos de todos os que gostam de livros."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra e Paz e da Gradiva.

Os meus livros Guerra e Paz


"Será Julho um mês orgástico? Dir-me-ão que lá venho eu com as obscenidades do costume! Pois bem, deixo só um aviso: corre um abaixo-assinado na selva para cancelar o primeiro dos meus livros de Julho. 30 Milhões de Orgasmos, A Vida Sexual dos Animais, o saboroso e voluptuoso texto de Minh Tran Huy, com imagens deliciosas de Jul, actual ilustrador de Lucky Luke, corre o véu da sexualidade animal, do pénis perfurador do percevejo ao clitóris-falo da hiena, passando pelo comportamento sexual hippie do bonobo, esse primata nosso primo. O livrinho, a cores, é um deleite visual, uma tela aberta ao espanto e ao permanente sorriso. Genial.
Cleópatra, de Christian-Georges Schwentzel, é mais do que uma biografia dessa última rainha do Egipto, que subiu ao trono com 18 anos. Para quem pensa que já sabia tudo, oh, que audácias e que argúcia estratégica nos revelam as últimas descobertas arqueológicas! Será este livro, da colecção A Minha Estante, uma adaga espetada no coração do mito-Cleópatra? Lê-se depressa: duas noites com Cleópatra. Quem resiste?
Pequena História da Matéria e do Universo é um livro do maior dos astrofísicos, Hubert Reeves, com oito amigos: os amigos são Étienne Klein, Nicholas Prantzos e mais seis franceses, todos astrofísicos também. São nove dos humanos que no mundo mais sabem sobre a física de partículas, sobre a matéria escura e sobre física quântica e escreveram juntos um livrinho: 106 páginas luminosas sobre o Universo, a sua história e os seus componentes. Da colecção A Minha Estante, tudo explicado com a simplicidade de quem sabe e quer que mesmo uma criança de cinco anos fique também a saber.
Às vezes esquecemo-nos de quem somos e do bem que tantos pensaram e fizeram para chegarmos aqui. Carta de Amor de Um Imigrante ao Ocidente lembra-nos com ternura o que andamos todos os dias a esquecer. Konstantin Kisin, o autor, vem de fora, cresceu nas brumas de uma União Soviética sinistra, sem conforto, direitos ou liberdade. Comeu o pão que o sacana do diabo amassou. Vê neste nosso Ocidente a doce terra de leite e mel que os nossos olhos, tapados por uma certa abundância, não querem, de tanta jeremiada e cepticismo, aceitar que é o «melhor». Este livro vem dizer-nos ao ouvido: «Acreditem em mim – o Ocidente é o melhor!» Às vezes, é preciso ouvir quem as amargou. Para ler em Julho, mês de tanta luz que só pode ser, também, mês de amor.

A euforia e os dark sports

O Jogador Errado, C. R. Jane: O futebol americano não é bem o nosso futebol. Neste romance, mordem-se ombros e há pernas que se abrem. Não necessariamente em campo. As leitoras vão descobrir que o «dark sports romance» é um género literário bastante sacudido, valha-me Deus. É o livro de Verão da euforia, a chancela que soma bestsellers.

Os meus livros Gradiva

Na Gradiva, começo Julho pelo magnífico exercício de nostalgia e por esse pequenino ressentimento que sucede à agonia do amor longamente silenciado, a que o Nobel da Literatura Kazuo Ishiguro chamou Os Despojos do Dia. E será que, hoje, alguém consegue ler este romance, também vencedor do Booker Prize, sem sentir que se lhe vêm sentar ao colo Anthony Hopkins e Emma Thompson? Como é que se chega – como chegou Ishiguro – ao prodígio de uma escrita embalada a dúbia dignidade, desconsolo e dorida delicadeza? (e peço desculpa pela involuntária aliteração…)
Nunca nos deixaremos de interrogar sobre a arte, sobre a sua ancilar funcionalidade ou sobre a sua sublime inutilidade: é o que faz Lev Tolstoi em O Que É a Arte?, mas é também o que faz Paula Cristina Cunha em Entre a Arte e o Algoritmo - Criadores portugueses confrontam a Inteligência Artificial, à conversa com Gonçalo M. Tavares, Pedro Abrunhosa, Sam the Kid, Helena Amaral, Rita Redshoes e José Jorge Letria entre outros. Pode a máquina ter os devaneios de imaginação e sensibilidade que julgávamos um exclusivo desses bípedes que se passeiam pelo planeta como humanos. A Sociedade Portuguesa de Autores é nosso co-editor e merece a nossa vénia.
Outra arte foi a que o Mestre Wei Liao descreveu num dos grandes clássicos militares chineses, A Arte Militar, obra que roça ombros com a célebre Arte da Guerra, de Sun Tzu. A Arte Militar, de Wei Liao é o livro que o nosso primeiro-ministro bem poderia ler, tão actual é o seu sentido de organização. A versão que publico, feita a partir do inglês, francês, espanhol e italiano, bem como o respectivo enquadramento e notas, vem assinada por um tal Manuel S. Fonseca. É provável que seja eu próprio.
Qual o papel da irreverência na ciência? Nada como deixar falar o Prémio Nobel da Medicina e da Fisiologia, James Watson, no seu A Dupla Hélice, um clássico da literatura científica e da colecção Ciência Aberta. Watson tinha 24 anos quando descobriu, com outros investigadores, a estrutura em dupla hélice do ADN, a molécula que contem o código da hereditariedade. Eis o que permitiu à ciência conhecer a transmissão genética e a forma como, de geração em geração, se organiza a vida, esta nossa vida às vezes infeliz, mas tantas vezes feliz.
E é sobre a vida, a vida no cosmos, que versa o novíssimo livro da Ciência Aberta. Com prefácio de Nuno Crato, é da autoria do professor Luís M. Aires, formado em biologia, física e química. Além da Terra, a astrobiologia e a busca de um sentido cósmico para a vida interroga a possibilidade da vida «lá para cima», fora do nosso planeta. Faz perguntas simples: o que é a vida? Como surge? Como transforma mundos? As respostas fazem-nos olhar de outra maneira para o cintilante universo em que, erectos, caminhamos.

São os meus livros de Julho, prendas que para mim mesmo reservei – perto do fim do mês a Marilyn (a Monroe) talvez me cante «happy birthday» – e que partilho com os leitores da Guerra e Paz e da Gradiva."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra e Paz e da Gradiva.

OBLÍVIO

 OBLÍVIO

O esquecimento é o que nos espera.

Haverá mal em sermos esquecidos?

Termos sido, alguma coisa altera

a tantos destinos não cumpridos?


Há tantos que ficaram por lembrar!

Tantos que não chegaram a cumprir-se!

Não há futuro que dê para guardar

a memória, mesmo de grão-vizir.


O esquecido não sabe que é esquecido,

não lhe doendo, pois, o esquecimento:

tanto lhe faz ter ou não ter nascido,


porque o não ser não causa tormento.

Esquecer é apagar definitivamente

o que na vida houve de indigente.

Eugénio Lisboa, 29.10.2023

terça-feira, 7 de julho de 2026

Lisboa no dia de Todos os Santos de 1755

O dia de Todos os Santos de 1755 produziu em Lisboa um grande terramoto que foi seguido, uma hora depois, por um maremoto gigantesco e um conjunto de incêndios que acabaram por destruir a cidade e provocar comoção por toda a Europa. Nos lamentos posteriores a esta destruição, os encantos e riquezas de Lisboa eram colocados ao mesmo nível de Paris ou Londres.
José Antonio González Alcantud , Abril , 2020
 
Assim era LISBOA em 1700: Antes do terramoto. Mudou para sempre (reconstrução con IA), por Max Reconstruye La Historia.
Assim era Lisboa no século XVIII: uma das cidades mais ricas e influentes da Europa, aberta ao Atlântico e ligada a rotas comerciais que chegavam até à Ásia e África. Nesta visita guiada, reconstruímos o seu porto, os seus bairros, as suas igrejas, o seu quotidiano e o enorme poder que detinha antes do grande desastre. Mas este vídeo mostra também o ponto de viragem que mudou a sua história para sempre: o terramoto de Lisboa de 1755, o tsunami subsequente e o incêndio que devastou a cidade. Verá como era Lisboa antes da sua queda, o que realmente perdeu e como o Marquês de Pombal liderou uma reconstrução que a transformou numa nova cidade. Lisboa antes do sismo: Palácio da Ribeira, Praça do Comércio, Alfama, Rossio, Belém , Baixa, o  comércio global e a vida quotidiana. O terramoto de 1755 e a reconstrução pombalina.

domingo, 5 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música

Canção para os homens sem face

E canto as crianças que brincam nos parques
      e pulam corda nas calçadas
e os que vão ao palco representar o drama dos outros homens.
Eu canto para todos os homens...
meus irmãos em todas as raças, nacionalidades e crenças,

canto além de todas as fronteiras
porque sob a bandeira da paz eu canto;
e pela fé que me ilumina
e por essa canção escrita no meu peito,
eu canto a humanidade inteira.
Manoel de Andrade, Poemas para a Liberdade

Neste nosso mundo, o único que nos acolhe, há poetas que cantam a circunstância  de cada homem. Não escolhem , não se restringem. É um  canto global. E, ao cantar, geram um apelo universal , a misericórdia de  todos para  qualquer um. 
Há, também,  as vozes que se agrupam para dar forma a muitos apelos que podem dar ao mundo esse outro rosto, essa  nova face.
A todos eles escutamos e , com infindo prazer, os divulgamos.

EL CICLO DE LA VIDA. El Rey León, de  Elton John - Tim Rice , pelas Voces para la Paz (Músicos Solidarios). Maestro: Andrés Salado.  Solistas: María Ayo y Ryan Borges. "Voces para la Paz" , Concerto 2024.
Graças aos concertos organizados por “Voces para la Paz” desde 1998,  construíram-se estradas, pontes, escolas, bibliotecas, clínicas de saúde, orfanatos, poços de água, sistemas de irrigação e muitos mais foram construídos em países de África, Ásia e América Latina. “Vozes pela Paz”: O Poder da Música para um Mundo Mais Justo. 
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ALEGRÍA. Cirque du Soleil. Circo del Sol, de  René Dupéré. Arranjos de  Pedro Vilarroig,   pelas Voces para la Paz (Músicos Solidarios). Maestro: Oscar Navarro. Concerto 2024.
   
E a belíssima canção Miss Sarajevo (Live) , nas vozes de  Luciano Pavarotti, Brian Eno, Bono, The Edge, acompanhados pela  Orchestra Filarmonica Di Torino, sob a direcção do Maestro  Michael Kamen. 
Álbum :Pavarotti & Friends Together ForThe Children Of Bosnia.

sábado, 4 de julho de 2026

Sobre o Amor em "Orgulho e Preconceito"

Jane Austen (1775-1817)
 
Jane Austen, em “Orgulho e Preconceito”: “A felicidade no casamento é uma questão de pura sorte.”
por Sarah Romero
"A autora britânica – nascida há precisamente 250 anos* – deixou-nos uma das frases mais certeiras e devastadoras sobre o amor romântico naquele que é, possivelmente, o seu romance mais famoso.
Numa época em que o casamento era mais uma necessidade social do que uma decisão afectiva ou relacionada com o amor na sua acepção mais pura, a autora britânica Jane Austen (1775-1817) escreveu um dos romances mais influentes da literatura universal, Orgulho e Preconceito (publicado em 28 de Janeiro de 1813), onde não só retratou a condição da mulher à altura, mas também desmontou a idealização do amor, derrubando o romantismo diante de uma realidade social.
Trata-se de um dos diálogos mais memoráveis do livro, no qual a personagem Charlotte Lucas (a amiga sensata e resignada de Elizabeth Bennet) pronuncia uma frase que, mais de dois séculos depois, continua tão provocadora quanto verdadeira, afastando-se do sentimentalismo e lançando um dardo directo à realidade mais incómoda do seu tempo (que também pode ser o nosso):
PALAVRA DE JANE AUSTEN
“— Bem – disse Charlotte –, desejo muito sucesso a Jane; e se ela se casasse com ele amanhã, acho que teria tantas possibilidades de ser feliz quanto se passasse um ano a estudar o carácter dele. A felicidade no casamento é pura casualidade. Se as disposições de ambos forem bem conhecidas, ou forem muito semelhantes de antemão, isso não contribui em nada para a sua felicidade. Eles sempre conseguem tornar-se suficientemente diferentes depois para ter a sua quota de desgostos; e é melhor saber-se o mínimo possível sobre os defeitos da pessoa com quem se vai passar a vida.”
É simples: mesmo conhecendo bem o casal, ninguém tem garantias de sucesso. Essa é a conclusão mais clara das palavras de Austen, que, apesar de ter recebido um pedido de casamento e ter tido alguns pretendentes, nunca se casou. Ela decidiu permanecer solteira e dedicar os seus 41 anos de vida à carreira de escritora. (Austen morreu devido à doença de Addison, uma condição muito rara que causa, entre outras coisas, astenia, fraqueza, irritabilidade gástrica e escurecimento da pele).
UMA VISÃO PRAGMÁTICA DO AMOR
Através da personagem Charlotte, no capítulo 6 de Orgulho e Preconceito, Austen deixa claro em poucas linhas que o amor – pelo menos em termos de convivência – é volátil, imprevisível e nem sempre está sob controlo racional. Não se trata de um comentário cínico, mas de uma observação precisa sobre a complexidade dos seres humanos.
Na Inglaterra do início do século XIX, o casamento era meramente uma transacção social: as jovens mulheres em idade de casar conseguiam, ao contrair o matrimónio, estabilidade económica, respeito e, muitas vezes, garantiam o futuro de toda uma família. Se o amor aparecesse nesse caminho, era uma grande sorte e, acima de tudo, algo adicional no processo. Por isso, não é surpreendente que a personagem Charlotte, com 27 anos e poucas perspectivas, aceitasse casar com o pedante Sr. Collins sem estar apaixonada por ele. A sobrevivência acima de tudo.
Não é que Jane Austen fosse inimiga do amor, mas sim do amor idealizado. Por isso, através das suas heroínas, que sempre apresentava como pessoas inteligentes, observadoras e moralmente íntegras, ela mostrou que o verdadeiro sucesso no amor exigia mais do que pura atracção: compatibilidade, respeito mútuo e, sim, um pouco de sorte. A sorte que tiveram Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy: a excepção que confirma a regra.
Hoje, as expectativas e as formas incertas de conhecer pessoas, por exemplo através de aplicações de encontros, estão a seguir caminhos novos, mas ainda há românticos e românticas que perseguem o mesmo final que Darcy e a senhorita Bennet. No entanto, a literatura de Austen, muito tempo depois, convida-nos a questionar, a olhar para além do amor à primeira vista e a compreender que o sucesso amoroso não é uma fórmula, mas uma combinação variável de vários factores."
Revista National Geographic ( 16 de Dezembro de 2025)
*- 251 anos , na data actual.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Somos assim?


Lá vai o português
por José Cardoso Pires
"Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa. Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.
No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma podia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu com muita honra. E nisso não é como o coral que faz pé-firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).
Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.
Chega-se a perguntar: está vivo? É claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.
Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.
É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos. Assim, como?"
José Cardoso Pires, in  E agora José?, Moraes Editores, 1977