sábado, 18 de abril de 2026

A propósito de Fernando Pessoa


"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
Fernando Pessoa, "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa". Lisboa: Ática, 1966. p. 93.

Eu olho com saudade esse futuro
Eu olho com saudade esse futuro
Em que serei mais novo que depois,
E essa saudade, com que me sinto dois,


Cerca-me como um mar ou como um muro.
Não descreio, nem creio; mas ignoro:
‘Stou posto onde se cruzam as estradas,
Multiplicando definidos nadas,


E no meio do jogo amuo e choro.
O presságio roeu os meus prenúncios.
Velei a esfinge com serapilheiras.
E os jardins dispostos em quincúncios


Dão sobre esteiras de mar morto e vago,
E um vapor de corda, sem bandeiras,
Pára no tanque, que nos finge um lago.
Fernando Pessoa, (escrito em 28.5.1924), in Poesia 1902-1917, Assírio e Alvim, [ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine], 2005.




Eu amo tudo o que foi

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,


O que só dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Fernando Pessoa, (escrito em 1932), in Poesia 1931-1935, Assírio e Alvim, [ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine], 2005.


Fernando Pessoa - heterónimos
por Ademir Pascale
"Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço com aquilo a que eu chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figuras, movimentos, caráter e história, várias figuras irreais que eram para mim visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar. (...) Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. (...)"
Fernando Pessoa, excerto de uma carta a Adolfo Casais Monteiro, 13 de Janeiro 1935.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A actualidade em cartoon

 
Henricartoon

Henricartoon

Henricartoon

Martin Rowson, The Guardian

Martin Rowson, The Guardian
Le vignette di Italia Oggi
Le vignette di Italia Oggi

Chappatte . Le Temps, Genève
Chappatte .Globe Cartoons

Chappatte . The Boston Globe.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Um dueto sinfónico

 A música cria para nós um passado que ignorávamos e desperta em nós tristezas que tinham sido dissimuladas às nossas lágrimas.
                     Oscar Wilde
HAEVN e Néomí, em  Till the Morning (Symphonic Version) | Orchestral Duet.
"Um dueto sinfónico orquestral de HAEVN e Néomí, onde a pop cinematográfica se encontra com a emoção da música clássica moderna e a narrativa intimista. Sobre duas vozes que tentam reencontrar o caminho uma para a outra. "

terça-feira, 14 de abril de 2026

Índia : Mani Bhavan, a casa de Mahatma Gandhi

A Índia é um país que tem, no imaginário de cada um, diferentes percepções e fascínios insondáveis. Quem lá chega , vem à descoberta de uma experiência forte e reveladora.
Tem, como referência, tudo o que leu, tudo o que pode investigar e aquela curiosidade que qualquer viajante carrega, quando se dispõe à partida. Acontece em qualquer país, em qualquer cidade, em qualquer lugar do mundo. Procurar aquilo que se sabe  e se pretende descobrir, além do sempre inesperado que toda a viagem traz. 
Foi assim em  Bombaim  . Ir no encalço de Mahatma Gandhi , a grande figura que preenche decisivas e importantes páginas da História da Índia e do Mundo.
Numa rua calma,  bordejada por árvores, no pacato bairro de Gamdevi, ergue-se Mani Bhavan, a casa onde Mahatma Gandhi viveu em Bombaim.  Explicar o que se sente perante as marcas da sua vivência e que enchem a casa, é roubar à casa a verdadeira riqueza que ela encerra. O mundo de Gandhi abre-se,   ali, perante os nossos olhos. Somos apenas seres que têm o privilégio de estar com Gandhi e de o descobrir no seu habitat. O fascínio deste encontro prodigioso é avassalador. Toma-nos.
Rua Laburnum , sede do Mani Bhavan,
 Museu Mahatma Gandhi, no bairro de Gamdevi,
Bombaim, Índia.
Mani Bhavan


Mani Bhavan



Mani Bhavan
"Seja muito bem vindo a Mani Bhavan, o símbolo da inesquecível luta pela independência , liderada pelo líder político Mahatma Gandhi.
Este edifício foi a sede , em Bombaim, entre 1917 e 1934, do movimento de independência liderado por Gandhi. A partir daqui, Gandhi definiu a formação da nação indiana segundo os seus ideais de verdade e de pacifismo.
Foi a partir desta casa que Gandhi iniciou a sua primeira luta popular pela independência , acção que abalou os alicerces do regime britânico.
Muitas decisões importantes , que moldaram o destino da nação , foram tomadas durante a sua estadia aqui, em Mani Bhavan.
Hoje , esta casa foi transformada em monumento nacional. 
No rés-do-chão, situa-se a biblioteca, contendo obras escritas  por Gandhi e também pelos livros sobre a sua vida, seus pensamentos  e temática associada.






No primeiro andar , há uma série de fotografias de Gandhi, da família, da sua acção anterior na África do Sul e  posterior acção na ìndia.







No segundo andar, encontra-se o quarto de Gandhi, preservado no seu estado original. Aí, Gandhi teve a sua primeira lição na arte de fiar e bebeu o seu primeiro copo de leite de cabra, quando a sua saúde se deteriorou.  As paredes foram convertidas numa galeria de fotografias,  que  mostram diferentes momentos da vida do líder.





Neste andar, as paredes das divisões  contíguas ao quarto estão repletas de quadros representativos de momentos importantes  da vida e luta de Mahatma Gandhi.







Nas primeiras horas do dia 4 de Janeiro de 1932, Gandhi foi preso aqui, no terraço de Mani Bhavan, onde dormia e de onde partiu, aprisionado, depois de rezar.
Assim, aqui, em Mani Bhavan, manifestou-se todo o poder da alma do " Pai da Nação".
Mani Bhavan
"O ponto central das atividades políticas de Gandhi em Mumbai entre 1917 e 1934.
Mumbai desempenhou um papel muito importante na luta da Índia pela independência. Gandhi tinha, com razão, orgulho dos cidadãos patriotas e cosmopolitas de Mumbai.
Revisitando Mani Bhavan em 3 de Março de 1959, Pandit Jawaharlal Nehru observou: “Mani Bhavan, em Bombaim, permanecerá para sempre uma lembrança preciosa para todos aqueles que a visitaram nas muitas ocasiões em que Gandhiji costumava ficar lá. Estou, portanto, feliz que esta casa esteja sendo transformada num Memorial Gandhi”.
Mani Bhavan, um modesto edifício de dois andares na Laburnum Road, na relativamente tranquila localidade de Gamdevi, serviu por cerca de dezassete anos marcantes (1917-1934) como o centro nevrálgico das actividades de Gandhi em Bombaim. Pertencia a Shri Revashankar Jagjeevan Jhaveri, um fervoroso devoto de Gandhi e seu afectuoso anfitrião durante esse período. Hoje, Mani Bhavan é um memorial sagrado a Gandhi, à sua estadia ali e às atividades que ele iniciou a partir dali.
Mani Bhavan tem uma história para contar: abrigou Gandhi frequentemente durante o período em que ele cresceu em estatura e força, de agitador a figura mundial, ao introduzir com sucesso o Satyagraha (individual e colectivo) como uma arma nova e eficaz para combater todo o mal e a injustiça. Mani Bhavan foi o epicentro da luta da Índia pela liberdade, especialmente entre 1917 e 1934.
Foi daqui que se iniciou a primeira fase da luta não violenta pela liberdade. No final de 1918, enquanto se recuperava em Mani Bhavan, Gandhi teve as primeiras aulas de cardagem com uma pessoa que costumava passar por ali. Segundo ele, o zumbido da charkha (roda de fiar) "teve um papel importante na sua recuperação". Ele acatou a sugestão de Kasturba e começou a tomar leite de cabra quando a sua saúde estava muito debilitada, em Janeiro de 1919.
O Satyagraha* contra a Lei Rowlatt foi lançado em Mani Bhavan, em Março de 1919. Com o objectivo de desafiar a Lei de Imprensa Indiana, foi também dali que Gandhi iniciou o boletim semanal “Satyagrahi”, em 7 de Abril de 1919.
Após os distúrbios e cenas de desordem durante o boicote à visita do Príncipe de Gales em 17 de Novembro de 1921, Gandhi iniciou um jejum histórico em Mani Bhavan a 19 de Novembro de 1921, para restaurar a paz na cidade de Bombaim. Ele encerrou o jejum em 22 de Novembro, após a normalização da situação na cidade.
O Comité Executivo do Congresso reuniu-se aqui em 9 de Junho de 1931 e decidiu enviar Gandhi como único representante do Congresso à Conferência da Mesa Redonda em Londres. Ele retornou a Bombaim frustrado em 28 de Dezembro de 1931. Posteriormente, discutiu a situação com o Comité Executivo do Congresso, que se reuniu em Mani Bhavan e decidiu, em 31 de Dezembro de 1931, reiniciar o Satyagraha. Gandhi foi preso no terraço de Mani Bhavan, na madrugada de 4 de Janeiro de 1932. Uma reunião do Comité Executivo do Congresso foi realizada em Mani Bhavan nos dias 17 e 18 de Junho de 1934.
Mani Bhavan é o local onde Gandhi viveu e interagiu com seus companheiros para moldar o movimento de independência à imagem dos ideais de Verdade e Não-violência. Foi de Mani Bhavan que seus seguidores e devotos partiram para o mundo, inspirados e imbuídos de um senso de serviço e sacrifício. Ainda hoje, Mani Bhavan é uma fonte de inspiração para os amantes da liberdade e da paz em todo o mundo.
Este edifício histórico de importância nacional é uma atracção turística. É visitado diariamente por um grande número de visitantes da Índia e do exterior. O Mani Bhavan Gandhi Sangrahalaya está aberto ao público todos os dias, das 9h30 às 18h.
O piso térreo abriga o escritório do Museu e a Biblioteca, que possui um rico acervo de cerca de 40.000 livros nas seções de Referência e Empréstimo. Muitos académicos, estudantes, professores e participantes das Competições Gandhi Jayanti utilizam a biblioteca para consulta e leitura.
No balcão de exposição estão disponíveis alguns livros importantes de e sobre Gandhi, selos postais com a imagem de Gandhi emitidos pela Índia e outros países, além de lembranças.
No primeiro andar encontra-se a galeria de fotos que ilustra a vida e os eventos de Gandhi por meio de imagens. Ao lado da galeria, está o auditório, onde são exibidos filmes sobre Gandhi e onde gravações de seus discursos são reproduzidas mediante solicitação. O espaço também é utilizado para reuniões, seminários e debates. Diversas competições para estudantes do ensino fundamental, médio e superior são realizadas aqui em colaboração com a Gandhi Smarak Nidhi, de Mumbai, que tem seu escritório no primeiro andar.
No segundo andar, o quarto onde Gandhi viveu e trabalhou está preservado em seu ambiente original. Ao lado do quarto de Gandhi, encontra-se a exposição que retrata a vida de Gandhi por meio de figuras em miniatura.
Mani Bhavan também acolhe diversas reuniões importantes de assistentes sociais, cidadãos preocupados, trabalhadores do programa Sarvodaya, estudantes e professores." in Organização Gandhi Mani Bhavan
Nota: * Sobre a essência do Satyagraha
A ideia central é que a verdade (satya) e a firmeza ou força (agraha), quando unidas, criam um poder moral capaz de transformar a sociedade sem recorrer à violência. Não é passividade: é uma forma ativa, disciplinada e corajosa de luta.
O que caracteriza o Satyagraha
• Não violência (ahimsa) — não causar dano físico ou moral ao adversário.
• Busca da verdade — agir de forma transparente, honesta e ética.
• Autodisciplina — aceitar sacrifícios pessoais sem retaliar.
• Desobediência civil — recusar leis injustas de forma pública e pacífica.
• Transformação do adversário — o objetivo não é destruir o oponente, mas conquistá-lo moralmente, despertando sua consciência.
Gandhi usou o Satyagraha:
• na África do Sul, contra leis discriminatórias;
• na Índia, contra o domínio britânico (como na Marcha do Sal, em 1930).
Mais tarde, inspirou movimentos como:
• o movimento pelos direitos civis de Martin Luther King Jr.;
• a luta de Nelson Mandela;
• diversas campanhas de justiça social no mundo.
 
Visita virtual em 360° à Casa de Gandhi em Mumbai - Passeio pelo Museu Mani Bhavan Gandhi.