terça-feira, 3 de novembro de 2026

Homenagear o 86º aniversário de Manoel de Andrade

Manoel de Andrade por Juarez Machado, 1964
Manoel de Andrade e Juarez Machado
"Manoel de Andrade nasceu em Rio Negrinho, SC, Brasil, em 1940. Mudou-se para Curitiba, onde permanece e se formou em Direito. Em 1965, recebe do Centro de Letras do Paraná, o 1º Prémio no Concurso de Poesia Moderna. Ainda em 1965, com Helena Kolody, João Manuel Simões , Paulo Leminski e outros participa na Noite de Poesia Paranaense, no Teatro Guaíra. Em 1968, a revista Civilização Brasileira publica a sua " Canção para os homens sem face" e junto com Dalton Trevisan (Prémio Camões 2012) e Jamil Snege é apontado, pela imprensa local, como um dos três destaques literários de 1968, no Paraná."
Começou muito cedo a laborar a palavra e a elevá-la ao patamar do sublime. Fez dela a musa, em qualquer género literário. É , no entanto, o grande poeta que soube e sabe  utilizar, com mestria, a plasticidade da palavra, quer no lirismo mágico quer no combate à injustiça que agrilhoa a condição humana. Foi o jogral itinerante na América Latina, quando o Brasil foi assaltado por uma ditadura militar. “Eu sou um jogral - afirmava Manoel de Andrade  -  Não busco a fama. Quero identificar-me com a dor do homem latino-americano”.
E acrescenta: - “O poeta, enquanto poeta  comprometido, deve ir ao mundo, captar sua essência e dá-la em canto. Deve fazer uma arte que caminhe. Que cante o continente por onde passa. "
Manoel de Andrade faz hoje 86 anos. É uma voz que não cessa de  se elevar em permanente actividade literária. Publicou inúmeras obras, tendo ainda no prelo, um valioso acervo de poemas que esperamos, com impaciência, descobrir . Poeta, ensaísta, jornalista, Manoel de Andrade é um  dos nomes mais  valorosos das Letras Brasileiras da actualidade.
De entre as suas obras , destacamos o livro de Memórias relativo à época de bardo errante pela América Latina, (Nos rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina, nos anos 70),  publicado em 2014, para o saudar neste dia do seu aniversário. 
Para Manoel de Andrade , este livro de Memórias é, acima de tudo, a longa crónica de um poeta que sonhou com o impossível, e cruzou tantas fronteiras, acreditando que pudesse mudar o mundo com seus versos. É também um convite a viajar por caminhos e por um tempo fascinantes, em que o sonho e a esperança comandavam os rumos da História. Um tempo em que se repartia a vocação solidária de um mundo melhor. Eis porque este livro é o quinhão da utopia que me resta.»
Ser poeta , nas palavras de Manoel de Andrade, é estar disposto a uma aventura imprevisível, uma viagem sem a certeza de um destino, porque o poeta é um ser desgarrado do mundo, vivendo no âmago de seu próprio desterro. Mas é também um processo de auto descobrimento. Um compromisso com o mundo, com a liberdade e o amor. Ser poeta é escavar na alma uma trincheira de esperança e conquistar o direito imperecível de sonhar.
Homenagear Manoel de Andrade é não deixar de relevar a sua poesia, o seu trajecto de homem justo, escondido atrás de uma poderosa voz de poeta indomável, face ao rosto do homem injustiçado.
Eis, pois, porque passamos a transcrever,  deste insigne memorialista,   um ilustrativo  trecho introdutório  e o  poema de amor à América.
O nosso mais profundo agradecimento, poeta, com as nossas mais vigorosas felicitações. 
Canção de amor a América
"Em meados de agosto (1970) escrevi em Quito o mais belo poema da minha fase latino-americana. É uma longa descrição de tudo o que já havia passado pelos caminhos da América. Cito-o também aqui como um lírico e comovente testemunho de uma experiência marcada pelo sentimento de indignação e da amargura em tantas paisagens humanas descoloridas pela miséria e pela injustica, pela verdade histórica que transformei em versos e pela imensa esperança que contagiava a tantos sonhadores como eu que perseveravam em acreditar numa utopia social que trouxesse a redenção dos oprimidos:

Canção de amor à América

Ai, América,
que longo caminhar!


Eu venho com o trigo do meu canto
minha ternura aberta
e o meu espanto;
e do fundo de mim e do meu assombro
e pelos meus lábios de vinho e gaivotas,
te trago o meu cantar de caminhante.


Para ti, amada minha,
para teu corpo de cansaço
e por tua fome
eu trago esse meu verso frutecido.


Eu venho com o rocio do amanhecer
sou o cantor da aurora
o que desperta
o que anuncia a vida e a esperança.
Eu sou o mensageiro destes anos
o cantor deste tempo e destas terras
eu sou daqui,
desde a Patagônia até o Rio Bravo
e daqui alço meu canto para o mundo.


Ai América,
que longo caminhar!


Eu sou como uma ave que passa
apenas um cantor errante,
mas se na minha voz há uma sinfonia delirante,
é para golpear-te, América,
para entoar teu grito emudecido.


Agora venho cantar-te
e meu canto é como o dia e como a água
para que me entenda sobretudo o homem humilde.
Agora venho cantar-te
mas em teu nome, América,
eu só posso cantar com a voz que denuncia.
Eu não venho cantar o esplendor de Machu Picchu,
a Grande Cordilheira e a neve eterna;
não venho cantar esta América de vulcões e arquipélagos
esta América altiplânica da lhama esbelta e da vicunha;
venho em nome de uma América parda, branca e negra,
e desde Arauco a Yucatán,
venho em nome desta América indígena agonizante.
Eu venho sobretudo em nome de uma América proletária,
em nome do cobre e do estanho ensanguentado.


Eu hoje não venho cantar um continente de paisagens,
não venho cantar o mar que amo,
os lagos escondidos na montanha,
nem os rios que correm ao fundo dos vales florescidos.
Não, eu não venho cantar este trigo que se nega a quem semeia;
eu venho por uma história mais sincera,
venho falar do homem que vi e ouvi pelos caminhos.


Ai América,
que longo caminhar!


Eu venho falar do camponês
de seu poncho roto e o seu colchão de terra,
de sua resignação e o seu misterioso silêncio,
de seu gesto incontido que em alguma parte se levanta,
de sua fome saciada com o sangue dos massacres.


Eu venho falar do mineiro e sua morte prematura,
de uma vida vivida na penumbra tumular dos socavões,
da silicose escavando dia a dia os pulmões dos operários jovens.
Venho contar das mulheres de Yanuni, Catavi e Siglo Veinte
das palhiris bolivianas com quem falei um dia,
dessas desamparadas viúvas do mineiro massacrado ou soterrado,
que buscam no lixo do estanho
o pão diário dos seus filhos.

Eu não venho cantar o encanto colonial destas cidades,
os altares espanhóis recobertos com o ouro dos Incas,
as grandes praças onde se erguem as estátuas dos libertadores.
Venho cantar as favelas, barriadas e tugúrios,
as povoações calhampas e as vilas-misérias,
Venho denunciar a tuberculose e o frio,
venho em nome dos meninos sem pão e chocolates,
em nome das mães e de suas lágrimas.
Eu venho falar por toda voz que se levanta,
por uma geração reprimida com fuzis,
venho falar das universidades fechadas
e com a marca das tiranias encravada nas paredes.


Eu venho denunciar falsas revoluções
e o oportuno pacifismo,
venho denunciar um tempo de desterros e de torturas,
eu venho alertar sobre um terror que cresce uniformizado
e sobre estes anos em que cada promessa de paz é uma mentira.


Ai América,
eu venho em nome do homem e sua agonia,
em nome de uma infância sem doçura.
E por isso eu venho falar de outra colheita
e de um vale semeado na montanha.
Eu venho anunciar o mel e a espiga
e a terra fértil e doce e repartida.


Ai América,
em nome de uma América americana,
eu venho convocar-te para a luta.
Eu canto para isso, amada minha,
para pronunciar um tempo já chegado entre nós todos,
para dizer-te destes punhos que amadurecem em cada gesto,
e destes rifles que disparam em cada peito.


Ai América,
que longo caminhar!


Rumo ao norte
ao sul
a leste ou a oeste,
eu avanço atravessando essas nações.


Oh caminhar, caminhar...
e saber sentir-se um caminhante!
Pois é tão triste morrer a cada dia,
morrer com os punhos abertos e o coração vazio.
Morrer distante do homem e sua esperança
morrer indiferente ao mundo que morre
morrer sempre,
morrer pequenamente
quando a vida é um gesto de amor desesperado.


Oh caminhar, caminhar...
mas caminhar como caminha o rio e a semente,
conhecendo a completa plenitude em seu destino.
Oh caminhar!
Caminhar
e saber-se um dia fruto.
Caminhar
e sentir-se um dia mar.


Ai América,
que não exista a dúvida em meu caminho,
que somente esta paixão de justo me enamore.
Fui prisioneiro,
mas outra vez sou pássaro,
outra vez um caminhante,
e volto a abrir a alma com meu canto.


Hoje me detenho aqui...
levanto minha voz, minha acusação, meu juízo.
Declamo minha bandeira de sonhos,
proclamo minha fé,
recolho meu testemunho e me vou.


Eu sou o jogral maldito
e bem amado.
Meu canto é um grito de combate
e eu não canto por cantar.
Eu parto deixando sempre uma inquietude,
deixando numa senha a certeza de uma aurora.


Eu sou o cantor clandestino e fugitivo,
aquele que ama a solidão imensa dos caminhos.
Passo despercebido de cidade em cidade,
em algum lugar público eu vou dizer meus versos
e ali conheço amigos e inimigos.
Mas sempre pude encontrar o grande companheiro,
o homem novo,
aquele que traz a face da esperança,
aquele que se aproxima em silêncio
e com um gesto inconfundível me saúda.


Ai América,
que longo caminhar!


Eu venho amada América,
para iluminar com meu canto este caminho.
Trago-te meu sonho imenso, latino e americano
e meu coração descalço e peregrino.
Mas quando sinto meu sangue escorrendo-se nos anos
e a vida se me acabe antes de ver-te amanhecida;
Quando penso que é tão pouco, amada minha,
o que eu posso dar-te em um poema;
Ai, quando penso nessas flores de sangue que murcharam,
nestes iluminados corpos que tombaram,
e que ainda não pude fazer por ti quanto quisera;
Ai, se com o tempo eu descobrir
que este lírico fuzil que empunho não dispara,
ai América...
quem dirá que a intenção que tive foi sincera."
Manoel de Andrade, in  NOS RASTROS DA UTOPIA, uma memória crítica da AMÉRICA LATINA, nos anos 70,  Escrituras Editora e Distribuidora de Livros, S.Paulo, Brasil, 2014, pp.546-551

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O amor não é mundano

O amor é a mais poderosa força antipolítica
por Hannah Arendt
“O amor, em virtude de sua paixão, destrói o ‘entre’, esse espaço que nos relaciona com outros e nos separa deles. Enquanto dura seu encanto, o único ‘entre’ que pode inserir-se no meio de dois amantes é a criança, o próprio produto do amor. A criança, esse ‘entre’ com que os amantes agora estão relacionados e mantêm em comum, é representativa do mundo onde ela também os separa; é uma indicação de que eles inserirão um novo mundo no mundo existente. Por meio da criança, é como se os amantes retornassem ao mundo do qual seu amor os expeliu. Mas essa nova mundanidade, resultado e único final possíveis de um caso de amor, é, num certo sentido, o final de um amor, que deve superar novamente os padrões ou ser transformado em outro modo de estar juntos. O amor por sua natureza não é mundano, e é por isso — não por raridade — que é não apenas apolítico, mas antipolítico, talvez a mais poderosa de todas as forças antipolíticas humanas.”
Hannah Arendt, in A Con­dição Hu­mana, Relógio D' Água Editores

domingo, 1 de novembro de 2026

Ao Domingo Há Música

Estátua de Mozart em Mozartplatz, Salzburg, Austria

MOZART

O génio musical no estado puro.
Como se a música fosse só ele,
dando, sem esforço, o mais fino apuro,
com notas que lhe saíam da pele.

Criador abundante, a qualidade,
nunca ferida pela quantidade,
quase parecia uma maldade,
aos que a não sofriam com humildade.

A música dele pode ser sublime
ou deliciosamente faceira,
mas nunca por nunca ela deprime,

fluindo airosa e feiticeira.
Meteoro breve da criação,
mostrou-nos a via da perfeição.
           26.06.2022
Eugénio Lisboa, in  Poemas em tempo de guerra suja, Guerra & Paz Editores, Setembro de 2022, p110

Se o mundo se dispusesse a  ouvir música e dela fizesse a sua bandeira , talvez a face da Terra voltasse a sorrir e a dar espaço a outros meteoros deliciosamente sublimes .

Herbert von Karajan, em  Mozart Piano Concerto No.21 K467. II. Andante "Elvira Madigan".

sábado, 31 de outubro de 2026

Bonito luar…



Era uma noite de luar
por Rubem Braga
"O táxi ia rodando devagar pela rua mal iluminada, para que eu pudesse ir vendo os números das casas. Quando vi o 108, mandei parar. Tinha de ir ao 250 e perguntar por dona Judite. Era quase certo que não me seguiam; de qualquer modo não convinha parar o táxi diante da casa para não chamar a atenção. Tive, além disto, o cuidado de deixar o carro se afastar sem que o chofer pudesse ver a casa em que eu entrava. Naquele tempo vivíamos cercados de precauções. O menor descuido era a prisão – e as notícias que vinham lá de dentro eram de fazer tremer.
Andei pela calçada. Era uma rua sossegada, em um bairro onde antigamente viviam famílias ricas. Agora os ricos moravam em outras partes da cidade, e aqueles casarões envelhecidos, com seus parques de grandes árvores, pareciam dormir. Uma vez ou outra passava um auto; depois o luar aumentava o sossego da rua.
Apertei a campainha. Uma mulher gorda me disse que fosse pelo jardim, ao lado da casa; era uma porta que tinha uma escadinha nos fundos.Ao bater, ouvi um rumor lá dentro. Depois senti que alguém me espiava pela veneziana, sem dizer nada. Bati outra vez. Ouvi ainda uns rumores dentro do quarto e, por fim, uma voz nervosa:
– Quem é?
Marina não me havia reconhecido e com certeza estava inquieta. Tranquilizei-a:
– Sou eu, Domingos.
A porta abriu-se.
Tinha visto Marina poucas vezes, sempre em companhia do marido, na rua. Nunca havíamos trocado mais de duas ou três palavras. Não se podia dizer que fosse bonita, mas era agradável com seu ar um pouco seco, um pouco nervoso, e seu jeito de vestir-se com severidade. Agora estava diante de mim e não pude deixar de sorrir quando a vi metida em um macacão.
– Trago notícias do Alberto.
Dei o recado que um político solto no dia anterior havia trazido. Alberto mandava dizer que estava bem, que há muito tempo já não o interrogavam, e que não tinha nenhuma esperança de ser libertado tão cedo. Era bom que ela tentasse sair do Rio, onde podia ser presa a qualquer momento, e fosse para o Nordeste, onde morava sua família. A viagem de avião ou por mar seria impossível. O melhor era ir de trem até Belo Horizonte e seguir para Alagoas pelo São Francisco. Havia uma pessoa que podia arranjar uma parte do dinheiro, e um endereço em Belo Horizonte onde talvez conseguisse mais. Era preciso abrir o caixote de livros. e queimar um papel que estava dentro das Poesias de Olavo Bilac. Dei-lhe um número para onde devia telefonar.
– Acha que eles vão deixar o Alberto preso muito tempo?
Dei minha opinião com sinceridade. Alberto estava comprometido. Quando o pegou, a polícia não sabia grande coisa dele, mas lá dentro sua situação tinha piorado muito. Parece que tinham aparecido umas histórias velhas, de São Paulo…
– E você, como vai?
Ela fez um gesto desanimado. Podia continuar naquele quarto com direito a comida, mais uns oito dias. Já não tinha dinheiro nem para cigarros. Ofereci-lhe dos meus:
– Não sabia que você fumava.
Não fumava antes. Mas ali, obrigada a ficar dentro do quarto dias e dias, semanas e semanas começou a fumar. Há mais de três meses que não saía. Andava apenas pelo velho e pequeno parque, nos fundos da casa, quando não chovia. Havia lido todos os livros e estava cansada de ler.
– Isso aqui é pior do que prisão. Às vezes tenho vontade de sair, tomar um ônibus, andar por aí, ir a uma praia…
Arriscara-se a ir a um cinema do bairro, e quase morrera de medo. Na volta, um homem a seguiu. Teve certeza de que ia ser presa; quando estava perto de casa, o homem, mal-encarado, apertou o passo e a deteve, tocando-lhe o braço com a mão. Parou, trêmula, e logo saiu correndo e entrou em casa; jogou-se na cama chorando, num desabafo nervoso. O homem lhe havia feito uma proposta amorosa…
Contava essas coisas sentada na cama, um pouco excitada; e estava engraçada assim, metida no macacão do marido, com uma régua na mão, contando o seu susto. Rimos, mas logo ela se pôs a andar no quarto para um lado e outro, batendo com a régua na coxa.
– Que é que você acha que devo fazer?
Acendi um cigarro. Fazia calor. Na parede havia um quadro sem interesse, de um pintor amigo do casal. Ela pensava em procurar alguém que fosse amigo do governo. Talvez o doutor Antunes conseguisse…
– Também está preso.
– O doutor Antunes? Não é possível!
Vi que estava mal informada do que acontecia, e lhe dei várias notícias. Nenhuma era alegre. Sentou-se novamente na cama, batendo com a régua no joelho. Ficamos em silêncio. Achei que devia me despedir, mas ela me deteve:
– Espere, quero saber de uma coisa…
Perguntou-me pelos Amaral, se era verdade que a mulher tinha se suicidado. Era boato, ou pelo menos, parecia. Havia quem dissesse que o casal estava no Paraguai; outros diziam que ele estava preso no norte do Paraná, em Londrina…
Surgiram outros nomes. Eu quase não podia dar informações sobre ninguém, e muitos eu não conhecia nem de nome nem de vista. Voltamos a falar de Alberto. Ela havia perdido o nervosismo; falava agora no seu tom habitual, um pouco seco, um pouco distante. Falava do marido e de si mesma como se estivesse examinando um problema alheio, com frieza e lógica. Tinha na gaveta um velho Guia Levi, e consultou preços de passagens e horários. Certamente deveria tomar o trem em alguma estação do estado do Rio, se resolvesse ir para o Norte.
– Vai?
– Isso é que estou pensando. Em Alagoas posso ficar na fazenda de minha tia, perto de São Miguel. Ali não haveria nenhum perigo, mas…
Voltou a perguntar se não haveria mesmo nenhum jeito de fazer alguma coisa pela libertação de Alberto. Talvez aquele ex-deputado, amigo do Amaral, pudesse…
Balancei a cabeça. A polícia não estava soltando ninguém. Prendera gente demais, inocentes e culpados, e enquanto não interrogava todo mundo, não apurava as coisas, não queria soltar ninguém. Uma ou outra pessoa conseguia sair quando tinha proteção muito forte e estava completamente inocente. Alberto já fora preso antes, era um elemento marcado. A única esperança estava na mudança que diziam que ia haver no Ministério. Mas estavam sempre dizendo essas coisas, e ninguém saía do governo. Dava a impressão de que ia ser assim eternamente…
– Que coisa!
Voltou a falar de Alberto, contou detalhes de sua prisão. Ela havia escapado por milagre. Mas estava ali, sozinha, sem poder sair de casa… Começou quase a lamentar-se e subitamente pareceu de novo tranquila. Os cabelos despenteados e o macacão lhe davam um ar ao mesmo tempo gracioso e cordial de rapazola. Devia ter uns trinta anos. Agora sua voz parecia ter cinquenta:
– A situação é esta: se não fosse por causa do Alberto eu poderia ter fugido para o Sul. Mas perdi a oportunidade. Mais tarde, na hora de alugar este quarto, estive quase resolvendo outra vez fugir. Mas queria esperar Alberto… Está visto que não posso ficar esperando a vida inteira. O senhor acha que há possibilidade…
Era engraçado que me chamasse de “senhor”, quando começara me tratando de “você”. Mas logo, na frase seguinte, com uma pequena hesitação na voz, voltou a me chamar de “você”.
Levantei-me e procurei com a vista um cinzeiro para pôr o cigarro. Não havia. Abri uma banda da janela para jogá-lo no jardim.
– Posso deixar a janela aberta? Está quente…
Sentada na cama, ela ficou em silêncio. Resolvi ir-me embora, e fiquei pensando se devia lhe dar o pouco dinheiro que tinha no bolso. Eu voltaria de ônibus. Tirei a nota do bolso. Ela aceitou secamente e me deu um aperto de mão rápido.
Sua voz era tranquila, quase fria.
– Obrigada. Se tiver alguma novidade estes dias, apareça outra vez. Meu nome aqui é Judite de Sousa.
– Sei. Tem telefone?
– Não. Ah, um momento! Pode pôr uma carta no correio para mim?
Tirou uma carta da gaveta, meteu-a em um envelope e começou a escrever o endereço. Junto à janela, lá fora, eu via as grandes árvores gordas, beijadas pelo luar, enquanto ouvia o ranger da pena no papel.
Comentei ao acaso:
– Bonito luar…
Ela acabara de escrever o endereço e respondeu, dando um olhar à janela:
– É.
Foi um “é” tão seco que me arrependi do que havia dito, como se tivesse sido alguma coisa inconveniente. Depois de fechar o envelope ela veio para junto da janela onde eu estava. Para ver melhor lá fora, abri o outro lado da janela e a lua apareceu, redonda, branca, entre as copas das árvores. Foi apenas um instante. Ela fechou os dois lados da janela com brutalidade:
– Não faça isso! Estúpido! Não vê que eu não posso com isso? Que estou sozinha desde que Alberto foi preso?
Ficou um momento diante de mim, pálida, os lábios trêmulos; eu não sabia o que dizer.
– Vá-se embora!
Lançou-se na cama, escondeu a cabeça nas mãos e começou a chorar. Os soluços agitavam seu corpo magro e nervoso sob o macacão azul."
Rubem Braga, in Melhores contos, Global Editora, 2013.

SOBRE O LIVRO
Rubem Braga, o sabiá da crónica, o “poeta tão poeta que não precisa escrever versos” (Sérgio Milliet), “o primeiro a elevar a crônica ao nível da mais alta categoria literária” (Antonio Candido e José Aderaldo Castello), o lírico envolvente “cuja melhor performance ocorre sempre por escassez de assunto” (Manuel Bandeira), “o mestre no descobrir o lado significativo dos acontecimentos mais triviais” (José Paulo Paes), gostava também de surpreender os seus leitores com pequenos contos, poéticos, de alta categoria literária, líricos, quase sem assunto ou narrando acontecimentos triviais.
Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, em 1913, Rubem Braga iniciou as suas atividades de cronista em 1932, no Diário da Tarde, do Rio de Janeiro. No jornalismo trabalhou em vários jornais do Recife, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, e de outras cidades, ora redator, ora cronista, ora exercendo as duas funções. Durante o Estado Novo foi preso várias vezes. Em 1939, trabalhava em Porto Alegre quando foi encarcerado num navio. Cinco anos depois, desembarcava na Itália, como correspondente do Diário Carioca, para cobrir a Segunda Guerra Mundial. Solicitado por jornais e revistas, viajou por boa parte do mundo, em particular a Europa e as Américas.
FICHA TÉCNICA
Título: Melhores contos
Páginas: 208
Formato: 21 x 13.8 x 1.2 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 01/01/2012 (12ª edição)
ISBN: 978-8526001336
Selo: Global

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Viajar por Uttarakhand , Himalaias indianos

Uttarakhand Heaven, Tour Cinematográfico com Drone em 4K | Lagos, Templos e Montanhas Himalaias pelos Scenic 4k com Elian.

Uttarakhand é um dos estados mais belos da Índia, muitas vezes chamado de Dev Bhoomi – a Terra dos Deuses.
" Experimente a magia dos Himalaias indianos através de imagens aéreas cinematográficas e relaxantes em 4K feitas com drones. Do colorido Vale das Flores aos picos nevados de Auli, dos lagos tranquilos de Nainital, o encanto de Mussoorie, a energia espiritual de Rishikesh e Haridwar, as paisagens selvagens do Parque Nacional Jim Corbett e os templos sagrados de Kedarnath e Badrinath , este filme capta a verdadeira alma de Uttarakhand. Sente-se, relaxe e desfrute desta viagem aérea imersiva por um dos paraísos escondidos dos Himalaias indianos."

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Sobre a palavra



Sobre a palavra

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada

Interminavelmente

Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água",  Assírio & Alvim Editores , reimpressão: 02-2014

domingo, 25 de outubro de 2026

Ao Domingo Há Música


Somos na manhã

Somos na manhã
pássaros inquietos
contornando a luz 

e o tempo constroi-nos 
estátuas sufocadas de calma
   Lourenço de Carvalho, minha ave africana

Iniciar a manhã, com uma primorosa interpretação de um trecho musical de Piazzolla,   pode emprestar  ao dia uma outra cor e um tanto da magia que se busca.

Piazzolla: Oblivion, pela trompetista Lucienne Renaudin Vary,  acompanhada pela hr-Sinfonieorchester – Frankfurt Radio Symphony, sob a direccção do Maestro Alain Altinoglu,no Rheingau Musik Festival ∙ Kloster Eberbach, 20. 06 2026 ∙

sábado, 24 de outubro de 2026

Nos rastros da Utopia

Nos rastros da Utopia
Prólogo
por Manoel de Andrade
"Faltou muito pouco para que este livro não fosse escrito. Os primeiros capítulos dessas memórias, iniciadas em Santiago, no verão de 1972, foram abandonados por trinta anos, na solidão de uma gaveta. Em abril de 2002, quando iniciei os procedimentos para enviar ao Ministério da Justiça meu processo de anistia, resumi em 70 páginas a história de minha peregrinação pela América Latina, a fim de passar aos seus futuros relatores fatos que pudessem informá-los sobre as razões do pedido. Acabei não enviando o texto, por acreditar que não estavam ali, e sim nos documentos públicos anexados, as peças essenciais para legitimar o processo. Novamente engavetei minha breve história em face da luta pela sobrevivência familiar, que não deixava tempo nem motivação para reavivar meu velho sonho de escrevê-la. O projeto estava completamente esquecido, como esquecida esteve também, por trinta anos, a minha condição de poeta quando, na primavera de 2002, a inspiração bateu, súbita e magicamente em minha porta, e cinco anos depois seus frutos resultaram na publicação do livro Cantares. Finalmente, em 2009, meu primeiro livro, Poemas para la libertad, lançado em La Paz em 1970 e com outras sete edições no exterior, era publicado, numa edição bilíngue, no Brasil. Foi essa inesperada volta à Literatura e a persistente sugestão de parentes e amigos, que me fizeram voltar a escrever os fatos aqui relatados. 
A América Latina que conheci há quarenta anos vivia de joelhos, marcada por brutais desigualdades, regida por forças reacionárias, pela violência das instituições e um profundo abismo entre uma riqueza orgulhosa e a pobreza humilhada. A exploração desumana do trabalho no campo, as massas indígenas deserdadas e famintas, o êxodo rural, a exclusão urbana e a face inconsolável da miséria eram os seus traços vivos e chocantes, marcados pela sobrevivência do feudalismo e pela persistência dos privilégios colonialistas, que a Independência não modificou. Atravessei toda a região quando seu território era, literalmente, o “quintal” dos Estados Unidos e os interesses imperialistas dominavam os grandes “negócios” do continente. Era um tempo em que a direção dos nossos passos era determinada em Washington, e seu ritmo pelo poder político das burguesias urbanas e das oligarquias agrárias. Na década de 70 --- indelevelmente marcada pela Guerra Fria --- as esquerdas, em todo o continente, mobilizavam-se para reverter todo esse processo de pilhagem, dependência e marginalidade, preocupadas com a teoria e a prática revolucionárias, visando a conquista de soberania, justiça social e liberdade. Em torno dessa tese se discutia a natureza da revolução, dividida entre nossa excepcionalidade indo americana e a visão eurocêntrica do socialismo. Este anseio de liberdade foi um momento fascinante da história latino-americana e aqueles que puderam vivenciá-lo, quer como observador ou como um militante, jamais puderam apagar da alma as luzes das utopias que iluminaram aquele tempo. Fui um desses observadores e o que proponho, nestas páginas, é fazer um inventário não só daquela época, marcada por tanta diversidade e que prodigalizou as mais justas promessas, mas também uma revisão histórica dos conflitos sociais que marcaram os quinhentos anos das lutas libertárias do continente. Os rastros mais antigos e heroicos desses embates foram deixados pelos araucanos no Chile e pelas revoluções indígenas da Bolívia e do Peru. Seus exemplos de bravura e de martírio vivem até hoje nas imagens imperecíveis de Lautaro, Caupolicán, Túpac Katari e Túpac Amaru. Suas mensagens abriram, na década de 70, não apenas novas trincheiras através de todo o continente -- onde tantas vanguardas revolucionárias honraram seus Movimentos com o nome desses heróis -- mas também iluminaram poetas e prosadores, cujas obras se engajaram nessa saga libertária.
A década de 1970 foi uma época de contrastes. De luzes que ofuscaram o mundo e de sombras que abateram os povos. De ideais que incendiaram corações e de corações incendiados pelo ódio. Se é verdade que naqueles anos semeou-se tantos sonhos, também colheu-se profundas desilusões, cujas cicatrizes continuam abertas em quase todos os países da América. Compromisso, resistência e clandestinidade fizeram o contraponto com a repressão, o exílio e a morte.
Este não é um livro político e aqui não se discute as grandes teses que polarizaram o ideário daquela época. Ainda assim, hoje perguntamos: De que valeram o rigor das posições dogmáticas e tantos debates teóricos, ante o despojamento e o sacrifício daqueles que entregaram a vida por um sonho?
Entre brisas e ventanias, muitos visionários, com seus ideais ou com seu sangue, construíram o barco da esperança para cruzar aquele mar tempestuoso em que se transformara o continente. Navegávamos sob um céu sombrio e sem a certeza de uma “terra prometida” onde pudéssemos aportar nosso destino. Por toda parte deparávamos com tensões sociais, com a imagem combativa das vanguardas guerrilheiras e estudantis e indignados ante um cotidiano de prepotência, espoliação e miséria. Em meus passos pelo continente, muitas vezes misturei minhas lágrimas com as lágrimas dos ofendidos, humilhados e excluídos. Compaixão e revolta foram os sentimentos que escreveram os versos daqueles poetas que comprometeram seu canto para denunciar as iniquidades e a opressão daqueles anos. 
Com este livro entrego o testemunho de um longo caminhar. Ao deixar o Brasil em março de 1969, meus passos cruzaram 16 países num prolongado auto-exílio pelo continente. A América Latina foi minha verdadeira universidade e nestas páginas palpita o espírito curioso de quem buscou saciar sua sede na leitura apaixonada da História, da Literatura e da Arte de tantos povos. Palpita o significado de experiências humanas vividas no convívio caloroso das grandes amizades, na tribuna combativa da poesia e nos amargos momentos da solidão dos cárceres. Palpita ainda um coração angustiado com os passos sem rumo, o olhar vazio e os gestos suplicantes dos filhos do calvário. Este livro é, sobretudo, o relato de um poeta itinerante, de um bardo errante, profundamente identificado com seu tempo e com sua condição de latino-americano. Um confidente solitário, comprometido com o resgate de uma América povoada de utopias e com a saga lendária daqueles que ousaram sonhar com um “admirável mundo novo”. 
Quando mergulhamos no nosso passado e no passado da História, é estimulante compreender que tudo começou muito antes dos nossos passos e que novos caminhos serão abertos pelos sonhadores do porvir. Para aqueles que não viveram no fascínio daqueles anos, que nasceram depois da tempestade, este livro traz uma consigna, uma mensagem, poeticamente resumidas na coragem de optar e no assombro de viver. Esse é o vinho mais capitoso, que nos embriaga e nos comove. “O sábio --- observou Gide --- é quem com tudo se espanta”, e eis porque parte do que sei e do que sou, segue guardado nas emoções que 
geraram estas lembranças.
Meu registro é tão somente uma mínima parte da memória esquecida dos anos 60-70 e que ainda está por ser escrita. Seus protagonistas foram aqueles que, entre as flores e os espinhos, construíram um ninho, um berçário de ideias e promessas que nem todos os sobreviventes que ascenderam ao poder souberam honrar nos atos e nos fatos. Nestes embates, a poesia rebelde ocupa uma honrosa galeria de mártires, lembrando dezenas de poetas que empenharam suas vidas e o encanto de suas metáforas para cantar a mística revolucionária pela lírica dimensão da poesia. Eis porque estas memórias contam também a aventura de um livro chamado Poemas para la libertad. Um livro que nasceu nas edições panfletárias de estudantes peruanos e cujos versos foram publicados em jornais, revistas, opúsculos, cartazes e em milhares de panfletos por todo o continente. Seus poemas foram ouvidos em universidades, teatros, galerias de arte, festivais de cultura, congresso de poetas, sindicatos, reuniões públicas, privadas e clandestinas e até no interior das minas de estanho da Bolívia. Suas edições se esgotavam rapidamente e seus exemplares percorreram a América Latina e o sudoeste dos Estados Unidos levados pelos mochileiros latino-americanos e pelos estudantes e intelectuais chicanos. Um livro proibido, confiscado e tendo que cruzar certa fronteira na bagagem de contrabandistas. Seus versos são filhos do sonho de liberdade que percorria o mundo. Alguns foram escritos no Brasil e nasceram silenciados pelo medo e 
pela impotência, numa pátria esmagada pela opressão. Outros foram se desfraldando ao longo de novas fronteiras, registrando os passos de uma imensa luta que incendiou a América há quarenta anos.
Enfim, estas páginas saem em busca de um passado nem sempre venturoso, e por isso sucedem-se, para contar, sobretudo, a história dos vencidos. Vivemos num tempo em que todos os sonhos foram despedaçados e se escrevo estas memórias, é para que se possa ouvir o eco dos hinos que ficaram tão distantes. Meu livro é, acima de tudo, a longa crônica de um poeta que sonhou com o impossível, e cruzou tantas fronteiras acreditando que pudesse mudar o mundo com seus versos. Passados quarenta anos, há entre o que fui e o que sou uma profunda fidelidade. Intactos estão a disposição de indignar-me com as injustiças, um coração solidário e um sentimento imperecível de gratidão..., aos amigos que ficaram, ao Bom Deus, que amparou meus passos, e à vida, por permitir que eu chegasse até aqui! Eis porque, caro leitor, convido-o a viajar comigo por caminhos e por um tempo fascinante, em que o sonho e a esperança comandavam os rumos da História. Ventura e desventura, encanto e desencanto são os sabores com que estão temperados os fatos que 
passarei a relatar."
Manoel de Andrade, in Nos rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina, nos anos 70, Escrituras Editora e Distribuidora de Livros, São Paulo , Brasil, 2014, pp 25-29