sexta-feira, 24 de julho de 2026

Acorda-me a tua voz


Contigo

Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.

As mãos afagam a luz,
prolongam o dia breve.

Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.

Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.

Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada.
Eugénio de Andrade, in " Até amanhã", Assírio& Alvim

Começar o dia com as palavras de Eugénio de Andrade e a voz de Sissel é um dos tais  prazeres a não perder. Poesia e Música um casamento perfeito.

Sissel, em   If You Go Away.
 
Sissel, em Crying in the chapel.
 
Sissel, em The First Time Ever I Saw Your Face.
 
 Sissel, em  Down | Live at Lindmo.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Da Descoberta do Mundo




A DESCOBERTA DO MUNDO é um excelente  livro de crónicas, de Clarice Lispector, de onde foram extraídas estas apropriadas reflexões:

❝ Não, quem tem razão é este meu coração indireto, mesmo que os fatos me desmintam diretamente.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a es- perança.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝Ser às vezes sangra.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020 

❝ Nem sempre esmiuçar demais dá certo.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020  

❝ Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil -, fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ O que não será jamais elucidado é o meu destino.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020  

❝ Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Estou habituada a não considerar perigoso pensar.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020  
❝ Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Como vão vocês? Estão na carência ou na fartura?
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ […] milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

Ir para
Esta noite um gato chorou tanto que tive uma das mais profundas compaixões pelo que é
vivo. Parecia dor, e, em nossos termos humanos e animais, era. Mas seria dor, ou era “ir”, “ir para”?
Pois o que é vivo vai para.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

O processo
– Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou
aguentando viver.
– Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o
desespero é uma luz, e um amor.
– E depois?
– Depois vem a Natureza.
– Você está chamando a morte de natureza?
– Não. Estou chamando a natureza de Natureza.
– Será que todas as vidas foram isso?
– Acho que sim.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

Sim
Eu disse a uma amiga:
– A vida sempre super exigiu de mim.
Ela disse:
– Mas lembre-se de que você também super exige da vida.
Sim.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ … os dias seguintes eram a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

Medo do desconhecido
"Então isso era a felicidade. E por assim dizer sem motivo. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa
desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

"É preciso parar
Estou com saudades de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim – enfim, mas que medo – de mim mesma.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco,2020

❝ Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade” refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020  

Não entender
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo. Rocco, 2020

Entre aspas
"Quando mexo em papeis antigos, isto significa exteriormente alguma poeira, e interiormente raiva de mim mesma: porque, nunca me convencendo que tenho má memória, copio entre aspas frases ou textos e depois, passado um tempo, como não anotei, pensando que não esqueceria, o nome dos autores, já não sei quem os disse. Por exemplo:
“Vemos que aqui na terra os opostos se misturam, que um valor positivo se compra ao preço de um valor negativo. E, talvez, a experiência metafísica a mais profunda – a que vem quando o ser toma consciência do absoluto, o que lhe dá estremecimento do sagrado e deixa-o entrever a felicidade, aquela que lhe permite o acesso ao sobrenatural – talvez essa experiência só seja possível quando a alma está tão deslocada que não lhe é mais possível reerguer-se de sua ruína.”
“O que parece incoerente à fria análise pode às vezes estar carregado de sentido para o coração, e este o entende.”
“Não se saberia adquirir o conhecimento intuitivo de um outro universo sem sacrificar uma parte do entendimento que nos é necessário no mundo presente.”
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
Sobre o Livro
Sinopse
"Este livro reúne as crónicas de Clarice Lispector, publicadas no Jornal do Brasil de 1967 a 1973. Permitem compreender melhor a escrita da autora que se consagrou como uma das maiores escritoras do Brasil. Se nos contos e romances o mistério de uma narrativa envolve o leitor num processo quase que iniciático, nas crónicas esse mistério vai aos poucos sendo desvendado, revelando o mundo pessoal e subjetivo da autora enigmática que viveu no Leme, próximo às areias e ao mar de Copacabana, que tanto apreciava.
Ao aceitar o convite do JB para escrever uma coluna aos sábados, Clarice Lispector sente a estranheza entre ser escritora e jornalista: "Na literatura de livros permaneço anónima e discreta. Nesta coluna, estou de algum modo me dando a conhecer", comenta na crónica de 21 de setembro de 1968.
Género leve, ameno, de leitura mais fácil, a crónica traz quase sempre a interpretação de um fato conhecido por todos, investido pela subjetividade de quem comenta o assunto, dando um sabor novo ao acontecido. Com a sua despretensão, a crónica quebra o monumental, o extraordinário, celebrando o cotidiano, o dia a dia e mostra belezas insuspeitáveis através da argúcia, da graça, do humor de quem a escreve. A informalidade investe de leveza uma linguagem cuja densidade busca revelar o segredo das coisas mais simples, o cotidiano transfigurado pelo olhar de Clarice, que redescobre nas Macabéas de todo dia a luminosidade de uma presença estelar. Entre flanelas e vassouras, mulheres simples e humildes se transformam em personagens que se eternizam. Aninha, Jandira, Ivone ou Aparecida são algumas dessas estrelas que saem de suas vidas apagadas para serem reveladas pelo olhar atento e sensível, onde escapa, por vezes, um leve e sorrateiro toque de humor, como no caso da empregada que fazia análise, ou da "mineira calada", que gostava de ler livros complicados."
Sobre a autora
"Clarice Lispector foi uma das mais importantes escritoras da literatura brasileira do século XX. Nascida em 10 de dezembro de 1920, na aldeia de Tchetchelnik, na Ucrânia, e falecida em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, ela se destacou por uma produção literária marcada pela introspecção, pela investigação da consciência humana e por uma linguagem altamente original.
Embora tenha nascido na Europa Oriental, Clarice chegou ao Brasil ainda criança e construiu toda a sua trajetória intelectual, literária e profissional em território brasileiro. Sua obra ocupa lugar central na literatura em língua portuguesa, especialmente por renovar a forma narrativa e por explorar experiências interiores, conflitos subjetivos e questões existenciais com grande intensidade.
Uma escritora decidida a desvendar as profundezas da alma. Essa é Clarice Lispector, que escolheu a literatura como bússola em sua busca pela essência humana.
Sua tentativa de transcender o cotidiano revela-se em personagens na iminência de um milagre, uma explosão ou uma singela descoberta. Todos suscetíveis aos acontecimentos do dia a dia.
Vidas que se perdem e se encontram em labirintos formados por uma linguagem única, meticulosamente estruturada. E é por essa linguagem que Clarice Lispector constrói uma obra de caráter tão profundo quanto universal."

terça-feira, 21 de julho de 2026

Eugénio Lisboa, uma voz presente

Eugénio Lisboa, (1930- 2024)

Eugénio Lisboa,  um dos intelectuais mais eruditos  destes dois últimos séculos da nossa Literatura, estará sempre presente neste espaço. 
Recordamos um texto que compõe o magnifico livro de homenagem, Eugénio Lisboa, vário, intérprido e Fecundo - Uma Homenagem, organizado por Otília Martins e Onésimo Teotónio Almeida, aquando dos seu oitenta anos.

EUGÉNIO LISBOA
- UMA VOZ PRESENTE

por Guilherme D’Oliveira Martins
“Eugénio Lisboa é um ensaísta singularíssimo. Ao longo da sua vida tem sido um incansável estudioso do segundo modernismo português e da nossa cultura, com especial atenção para José Régio. Contudo, é um escritor multifacetado, com luz própria, com uma sensibilidade e uma argúcia dignas de referência especial. Com inteligência fina, tem sabido aliar a grande erudição à capacidade de compreender a realidade literária, cultural e social, distinguindo o que tem valor do que não tem. Percebe-se bem que Eugénio Lisboa apreende, com grande lucidez, os valores seguros, isto é, o que tem condições para ficar para além do sucesso efémero e passageiro. Há dias, falando de lusofonia, perguntavam-me sobre as grandes referências da literatura de Moçambique – e não tive dúvidas em referir, com Craveirinha e Mia Couto, o magistério fundamental de Eugénio Lisboa e de Rui Knopfli. E se me lembrei da relevância literária de ambos , nomes de primeira grandeza na idiossincrasia moçambicana , não me esqueci ainda da memória saudosa de Fernando Gil, filósofo relevante no panorama contemporâneo , nado e criado no cadinho moçambicano

UMA VOZ INDEPENDENTE
Eugénio desde sempre afirmou-se como uma voz independente, não vulnerável a tendências ou modas. Sendo engenheiro de formação, soube ligar um sentido prático da vida à consideração da cultura como o modo mais sublime de dominar a natureza. Não há, pois, dois compartimentos na vida do intelectual – o engenheiro e o escritor completam-se naturalmente. Conheci-o em Londres e depressa percebi que nos iríamos dar muito bem, o que de facto tem acontecido. Temo-nos encontrado muitas vezes (desde a UNESCO às batalhas da cultura e da cidadania, passando pelos amigos comuns) e a empatia é natural, por convergência de valores e preocupações, de atitude e de obrigação crítica. Desconfio das torres de marfim, e Eugénio Lisboa também. As suas conferências, os seus ensaios, as suas críticas têm sempre algo de muito especial e próprio. Cada citação, cada referência corresponde à ênfase necessária e adequada de um sentido crítico. Nunca vi em Eugénio Lisboa uma concessão ao fácil, ao imediato ou à tendência do momento. E em momentos cruciais, usufruímos do seu acutilante sentido crítico, em termos que conduzem a que o tempo lhe dê razão, apesar das perplexidades imediatamente sentidas. No fundo, é um justo, que procura dizer o que pensa e o que sente, mesmo que não seja compreendido no curto prazo ou surpreenda pela rispidez da crítica. E o certo é que a sua fidelidade a José Régio e à “Presença” tem correspondido a um equilíbrio sábio entre o reconhecimento da importância dessa plêiade e a capacidade para perceber quer fragilidades ou limitações quer a força inovadora e a perenidade desse grupo que tornou possível a projecção universal do “Orpheu” e de Fernando Pessoa. Hoje, é natural sentirmos que o primeiro modernismo português se afirmou por si, graças à genialidade do poeta dos heterónimos e à relevância dos seus companheiros, no entanto a qualidade dos animadores da “Presença” permitiu a compreensão (e a projecção) da riqueza excepcional do grupo do “Orpheu”. Eugénio Lisboa entendeu-o bem – pondo a tónica na continuidade e na descontinuidade dos dois modernismos: continuidade no assumir da modernidade, descontinuidade na tensão entre os diferentes caminhos dos dois grupos. De facto, a vida é sempre feita do que flui e do que se interrompe , do que segue e do que se transforma. E manda a verdade que se diga que o primeiro modernismo , valendo por si, e pela força vulcânica , ganhou novo impulso com o segundo movimento que teve Régio como epicentro.

UMA ATITUDE SERENA
A propósito da célebre consideração de Eduardo Lourenço sobre o alegado «contra-revolucionarismo» de Régio, Eugénio Lisboa usa com rigor a " broca de análise" e não se deixa arrastar por qualquer simplificação cutânea. E se fala de simplificação do ensaísta de “Labirinto da Saudade”, demarca-se de João Gaspar Simões numa certa obsessão de desagravo, já que para uma polémica ser interessante e rica é preciso que os argumentos sejam sólidos, em lugar de uma interpretação nominalista, mais baseada em supostas intenções do que na exigência crítica… Hoje sabemos que Eduardo Lourenço não quis dar um sentido político (em sentido lato) à sua apreciação, mas quis porventura salientar a diferença entre o carácter radicalmente inovador do “Orpheu” e um sentido de revisitação e de projecção da “Presença”.
A «contra-revolução» é nitidamente metafórica ou literária, sem o alcance pejorativo que Gaspar Simões julgou. E Eugénio Lisboa entendeu-o com clareza, defendendo, assim, muito mais eficazmente José Régio. “Comparando o ‘Orpheu’ e a ‘Presença’, (diz Eugénio Lisboa) poderíamos resumir o confronto numa fórmula talvez sumária mas com algo de verdadeiro: o primeiro modernismo foi um momento de convulsão e o segundo um momento de reflexão e consolidação” («José Régio ou a Confissão Relutante», s.d., 1988). Depressa percebemos que é fundamental não misturar planos nem ferver em pouca água.
A convulsão e a consolidação são diferentes , disso não há dúvidas, mas uma e outra ligam-se e completam-se, mesmo que a distância seja grande. E se ligarmos o ‘Orpheu’ e a ‘Presença’, temos de dizer , sem grandes hesitações , que as síntese são muito ricas.

ORIGINALIDADE E SINCERIDADE
Eugénio Lisboa procura ser fiel (com inteligência e sem cedências quanto à independência crítica) a uma preocupação de Régio, bem patente no citadíssimo artigo de fundo do primeiro número da “Presença” (“Literatura Viva”) – “pretendo aludir (…) a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhe esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade”. Enquanto a originalidade tem a ver com “dizer aquilo que nós realmente pensamos”, a sinceridade é um corolário dessa atitude fundamental, em nome da coerência entre pensamento e arte.
E manda a verdade que se diga que Eugénio Lisboa é um mestre da clareza, ( valor fundamentalíssimo, num tempo em que tanta gente se esquece das ideias claras e distintas), que nos ensina e ler e a dizer o que se pensa do que se leu, em vez de fazer exercícios de estilo («acrobacias neogongóricas ou sistemáticos estupros») para dissimular ou esconder – porque se não leu, ou porque não se compreendeu. E os dois vícios, contra os quais Eugénio Lisboa se tem erguido, são muito mais comuns do que se possa julgar. Por isso, a primeira lição do mestre, parte do que dizia Spitzer – a regra de ouro da análise crítica é “ler, ler e ler” - «ler com atenção despreconcebida. Ler aguardando, sem a malícia de um programa prévio» (in Pórtico de «As Vinte e Cinco Notas do Texto», INCM, 1987).
E este entendimento é fundamental, uma vez que através de Eugénio Lisboa sabemos com o que contamos. Sabemos que é um leitor criterioso, que nos dá a sua perspectiva, exigindo que ao lermos sejamos fiéis a um sentido crítico pessoal e próprio. Percebe-se, pois, porque insisto que não há dois Eugénios, escritor e engenheiro, há uma personalidade coerente e rigorosa, em que o engenheiro e o homem de cultura formam um só carácter.
E sobre essa coerência ( que tanto preza , e nós nele) oiçamo-lo ainda: “há hoje uma espécie de receio neurótico da clareza, que anda, penso eu, a pedir diagnóstico. Dizia Vauvenargues que a clareza é a boa fé dos filósofos, que é como quem diz: quem não deve não teme. Eu diria, com maior atrevimento, que o desejo da clareza é a pedra de toque da boa fé de quem quer que se exprima” (Idid.).
E António Sérgio vem à baila, com a conhecida afirmação de pedagogo: “Não confundamos. Um eclipse do sol é uma escuridão; mas a teoria dos eclipses é uma doutrina clara”… Se o poeta pode ser obscuro, o crítico tem de ser claríssimo. E neste mês em que assinalamos os cem anos da morte de Tolstoi, podemos citar o escritor russo: “Não alcançamos a liberdade, buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”. O ofício de ler é a grande exigência de Eugénio Lisboa, que o tempo tem revelado como lição perene e necessária. Insistir em ler é, contudo, pedir o essencial, para que a rama não ocupe o âmago da vida. E que melhor ensino podemos tirar de um mestre senão o culto das ideias claras e distintas? Muitos parabéns Querido Amigo! "
Lisboa, Janeiro de 2010
Guilherme d'Oliveira Martins
Texto publicado, em Eugénio Lisboa, vário, intérprido e Fecundo - Uma Homenagem, organização de Otília Martins e Onésimo Teotónio Almeida, Editora Opera Omnia, Outubro de 2011, pp.151-155

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Viajar pelas Ilhas Guadalupe

O que é longe é sempre o Bem,
por mais que a alma se mude.
   Reinaldo Ferreira, Poemas

 
Guadeloupe: A Scenic Caribbean Escape [Amazing Places 4K] 
As Ilhas de Guadalupe, um arquipélago das Caraíbas, são uma região ultramarina de França, conhecida pela sua deslumbrante beleza natural, paisagens diversas e cultura vibrante. As duas ilhas principais, Basse-Terre e Grande-Terre, oferecem florestas tropicais exuberantes, cascatas impressionantes, picos vulcânicos, praias virgens e encantadoras vilas crioulas.

domingo, 19 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música

A música é o verbo do futuro.
   Victor Hugo

A música é ruido pensante.
   Victor Hugo

 

A Música. Ai,  a Música é sempre o verbo . Com ela, esquecemos, sonhamos, reinventamo-nos. Podem ser apenas pequenas fracções de um tempo que não deixa de crescer, mas o suficiente para que qualquer ruido se transforme.
A voz, que se apresenta, transformou muitos dos nossos momentos. 

Dulce Pontes & E. Morricone , em  La Luz Prodigiosa
Música: Maestro Ennio Morricone. Letra: Federico García Lorca.
 
Dulce Pontes & Ennio Morricone , em  Cinema Paraíso ( tema de amor de Cinema Paradiso). 4k (letra).
   
Dulce Pontes, em  Amor a Portugal. Música: Maestro Ennio Morricone. Letra: Dulce Pontes/Carlis Vargas.

sábado, 18 de julho de 2026

A propósito do novo livro do poeta Manoel de Andrade

O poeta Manoel de Andrade publicou o livro " Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre  Cristianismo e Espiritismo ",que foi anunciado neste blog e  de que  já publicamos um pequeno excerto.
É um livro invulgar, diferente  do poeta de quem tantas páginas temos já publicadas neste espaço. Tem-nos honrado com a magia rica da sua poesia , habituando-nos a um deslumbre imersivo sempre que lemos ou relemos  os seus poemas. Do seu  longo labor literário , destaca-se também  o volumoso registo de memórias, ( "Nos rastros da Utopia") que traça, perante o leitor, o período em que o autor esteve em diáspora pela América Latina, pugnando pela liberdade, já que não lhe era permitido ser bardo livre no seu país . Nesse exílio,  escreveu um dos mais belos  gritos poéticos  " Poemas para a Liberdade", contra a tirania na América Latina.  
Aparece-nos , agora, com este novo  livro dedicado a outra causa que nos  faz pensar: o estudo aprofundado do Cristianismo e do Espiritismo. Uma obra que nos faz pensar porque, além do tema que não conhecemos , ou seja, não somos devidamente instruídos, nos questiona,  ao colocar  a premissa   " Em busca da verdade", no próprio título, que, nas primeiras páginas,  é abordado pelo autor da Apresentação da obra, Luiz Henrique da Silva, deste modo:
O que é a Verdade?
O sugestivo título deste livro, que atendendo ao honroso convite do autor temos o prazer de apresentar, propõe aos seus leitores a íntima procura de autoconhecer-se, porque a busca da verdade será sempre o mais belo ideal de um homem espiritualizado.
A noção de verdade varia significativamente entre distintas culturas, refletindo divergentes perspectivas sobre a natureza da realidade e do conhecimento.
É importante considerar o contexto em que a verdade é discutida, pois diferentes culturas -- sejam elas filosóficas, religiosas e científicas -- podem ter seus exclusivos pressupostos e valores. Cada doutrina, ciência ou credo tem sua própria abordagem para entendê-la e defini-la."

É nessa questão que se postula o desafio.  Como encontrar ou definir   a verdade nas suas diferentes asserções ?!
E o apresentador , Luiz Silva , prossegue para estabelecer o âmbito e finalidade da obra:

Entendemos que o rico conteúdo desta obra é um ponto de encontro entre o Cristianismo e o Espiritismo, trazendo expressivas reflexões sobre as memoráveis passagens do Evangelho e os relevantes temas sobre a Doutrina Espírita. Suas páginas marcam o roteiro de uma busca evangélica e doutrinária da verdade, através dos sublimes exemplos deixados por Jesus e dos conhecimentos revelados pelo Consolador. Que Jesus continue a inspirar todos que de uma forma ou de outra colaboraram na construção deste farol de luz, em especial nosso irmão e amigo Manoel de Andrade que com sua dedicação, trabalho e reflexão compartilhou através das páginas deste livro a Luz que estava embaixo do alqueire"

Entretanto, Manoel de Andrade  esclarece-nos sobre a rica e laboriosa  agenda de que emergiu  esta obra: 

A coletânea de reflexões que constam destas páginas exprime uma modesta interpretação dos roteiros agendados para as noites de estudos, e compartilhados, todas as terças-feiras, pelos nossos aplicativos de mensagens, visando motivar o grupo para o tema do dia. São singelos comentários sobre o assunto apresentado semanalmente e cuja ordem segue a mesma disposição dos sumários dos cinco livros do Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita (EADE). Considerei adequado reuni-los e ordená-los com o objetivo de deixar um duradouro registro destes luminosos anos de busca e de encontro com o conhecimento. Esperamos que estas despojadas anotações, caso venham a se transformar em livro, adicionem um quarto título ao catálogo de publicações da nossa Casa, como um testemunho do amor pelo estudo, que enaltece e distingue a história do Centro Espírita Luz da Caridade.
Bem quiséramos que o destino destas reflexões fosse além do grupo de estudos do nosso Centro, e pudesse, pela sua fraterna intenção, complementar os estudos do EADE em muitas outras casas espíritas. Entregamos aqui a nossa parte, rogando a Jesus que possa ser repartida com todosManoel de Andrade, Curitiba, outono de 2025.

A sensibilidade do poeta de Curitiba revela-se em muitas destas páginas. É a alma de um bardo que procura e sinaliza as palavras que devem compor as linhas da sua imersão no estudo dos textos religiosos , nas diferentes exposições, resultantes das abordagens que vai realizando ao longo do tempo,  nos mais variados e  afins  temas deste estudo.
O lírico  e  forte poder  das palavras  surge nesta Prece de Gratidão, constante das primeiras páginas do livro , para enquadrar o largo percurso da procura, do estudo :

Senhor e Mestre Jesus!
Chegamos hoje ao final da primeira etapa da nossa longa jornada de estudos do Cristianismo e este é o momento para agradecer a Deus, a ti Senhor Jesus, que és o nosso maior educador. Agradecer aos amigos espirituais que nos inspiraram e também a todos que participaram, como ouvintes ou como expositores, neste belíssimo itinerário marcado pela busca e pelo encontro com tantos novos conhecimentos.
Amado Mestre, no início dessa peregrinação estudamos as religiões não cristãs inspiradas pelos grandes iniciados que antecederam a tua chegada. Depois nossa busca descreveu a missão celestial de Maria e o teu nascimento naquele humilde estábulo de Belém. Estudamos tua infância em Nazaré e teu encontro com João Batista nas águas do Jordão, anunciando os primeiros passos de tua sublime missão no mundo.
Revimos tuas pegadas nos caminhos da Galileia, a escolha dos apóstolos, tuas curas, tuas pregações, teus passos sobre as águas, a pesca milagrosa, a multiplicação dos pães, a tua incomparável mensagem no Sermão da Montanha e o esplendor da tua imagem no Tabor, diante da presença espiritual de Moisés e de Elias.
Estas foram as partes mais belas do nosso estudo, quando buscamos contar a história viva dos teus atos até a chegada em Jerusalém, montado num jumentinho e saudado pelo povo na festa da Páscoa.
Depois, as tuas recomendações na Última Ceia, a promessa de um Consolador, tua humildade lavando os pés dos discípulos e o patético anúncio da traição. Ao final, tua presença no Jardim das Oliveiras, tua oração em lágrimas, o beijo de Judas, o julgamento mais iníquo da História, a coroa de espinhos, a via dolorosa e o martírio da crucificação.
Mas a noite passou e ressurgiste na aurora da ressurreição, no sepulcro vazio, nas tuas aparições aos discípulos, e na ascensão ao Mundo Maior.
Tudo isso estudamos, Senhor, para relembrar tua incomparável missão. Desde a manjedoura até o calvário e do calvário até tua volta ao Reino de Deus.
E depois que Tu partiste, pelo estudo dos Evangelhos passamos a expor com emoção os teus ensinamentos através das páginas de Mateus, Marcos, Lucas e João, contamos a história daqueles que, em Jerusalém, morreram por ti na glória do martírio. Contamos e recontamos sobre a vida e as obras do convertido de Damasco que, muito além da Palestina, saiu pelo mundo para pregar o teu Evangelho e cujas cartas falam do amor, da fé e da esperança, espalhando, até os confins da Terra os teus imperecíveis ensinamentos.
Mas isso não foi tudo, Mestre. Nossos estudos tiveram que apontar o surgimento de teologias que, nos primeiros séculos, desfiguraram a simplicidade dos tuas verdades, estabelecendo polêmicas estéreis e dogmáticas em torno da tua natureza espiritual; tivemos que recordar com tristeza os mártires que, honrando teu nome, caíram na Palestina e em Roma condenados pelo poder da intolerância; lastimar aqueles que renasceram com a missão de corrigir os desvios do Evangelho, mas traíram a promessa espiritual promovendo a violência e transviando-se do caminho. Aqueles que usaram teu nome para instigar as guerras santas e promover tantos desregramentos no seio eclesiástico do Cristianismo.
Hoje, ao encerrar esta primeira etapa, podemos te dizer o que Paulo disse a Timóteo: “Combatemos o bom combate, acabamos a carreira e guardamos a fé”. Por isso, creio que, neste momento, posso falar, com a permissão e em nome de todos aqui em oração, para juntos dizermos, muito obrigado, Mestre. Obrigado por estarmos um ano inteiro contigo, relembrando a cada sete dias teus exemplos e teus ensinamentos. Obrigado por termos cumprido uma tarefa tão auspiciosa, tarefa que aumentou nossa confiança nas tuas verdades e o significado de amar-nos como tu nos amas. Te agradecemos, mas também te rogamos que continues conosco inspirando o seguimento desses estudos para que, nos compromissos deste ano, possamos interpretar com bom ânimo e com a sabedoria do coração as páginas que nos esperam com teus ensinos e tuas parábolas.
Na magia e no encanto desta prece te enviamos a nossa imperecível gratidão. Obrigado, Mestre. Obrigado sempre. Assim seja.

O livro é um manancial de aprendizagem. Os temas são tão abrangentes que, de uma leitura atenta, resulta um outro conhecimento para aqueles  que , como nós , nunca aprofundámos ou dominamos estes ensinamentos  doutrinários. 
Enquanto obra literária  é um expoente de um notável  fluir encadeado , numa prosa clara e rica, que sabe prender o leitor e o obriga  a  explorar, com  aprazível atenção,  todas as páginas que compõem o livro.    A profusão de conhecimentos e a soberba cultura deste exímio poeta brasileiro, emergem desta  obra,  em consonante parceria.
Uma obra que merece e tem merecido  os aplausos e o interesse de todos os  que não perdem uma grande e enriquecedora  obra.
E , para fechar, usemos as palavras deste nosso aplaudido poeta, nas últimas páginas do livro :
Com os instrumentos da cultura, o homem é, ao mesmo tempo, criatura e criador que, através dos tempos, criou o seu “admirável mundo novo”, muito diferente do cenário tosco, inculto e primitivo que encontrou em sua origem ancestral. Esse é o supremo privilégio do homem: a sua capacidade de aperfeiçoar-se. Essa bela significação faz da cultura o nosso maior tesouro, nosso legado social herdado de muitas gerações e transmitida pela palavra falada e escrita. A linguagem é nosso mais belo e poderoso instrumento de expressão pessoal e da nossa interação cultural coletiva. “A minha pátria é a língua portuguesa”, escreveu o poeta Fernando Pessoa (1888-1935) e Martin Heidegger (1888-1976), um dos mais importantes filósofos de século XX, afirmava que “A língua é o solo comum da cultura de um povo”.
Se buscarmos a essência da cultura espírita encontraremos sua expressão na fé raciocinada, na existência de Deus, na imortalidade da vida, nas moradas do Universo, na relação com os Espíritos e na crença das vidas sucessivas. Tudo isso e muito mais revelam o diferenciado conteúdo cultural do Espiritismo: a bandeira da caridade, o impositivo da transformação moral, o perdão incondicional das ofensas, a missão de interpretar a mensagem do Consolador na vivência cotidiana do Evangelho, o dever de “amarmo-nos e instruirmo-nos”, e a certeza da imortalidade nos abrindo o caminho para a vida futura e o encontro com a família universal. Que mais elevada expressão de cultura poderia ter um habitante de um mundo de expiações e provas?

Obrigado, sempre, caro poeta.

Sobre o Livro:
"EM BUSCA DA VERDADE
Reflexões e Estudo aprofundado sobre o Cristianismo e Espiritismo
"

Redação e organização do texto
Manoel de Andrade

Diagramação
Odete Cachuba

Revisão ortográfica e gramatical
Neiva Terezinha Piacentini de Andrade

Capa
Cleto de Assis

CENTRO ESPÍRITA LUZ DA CARIDADE
Rua Mato Grosso, 145 – Água Verde
CEP: 80260-070 – Curitiba - Paraná

Toda a receita sobre a venda desta obra será integralmente creditada para o Centro Espírita Luz da Caridade.

Os Amantes da Humanidade

 

Os Amantes da Humanidade

Os homens que amam a humanidade
detestam as pessoas, uma a uma.
Esse amor convive bem com crueldade
e vive, hirto, em penosa bruma.
 
O amor abstracto é confortável,
porque tem muito poucas exigências.
É um amor frio e pouco afável,
que não se desgasta em minudências.
 
É amor distante e algo sinistro,
incapaz de um orgasmo verdadeiro.
É um despacho seco de ministro,
 
um amor que ao amor é estrangeiro.
Amar a humanidade, em geral,
é um amor castrado e doutrinal.
Eugénio Lisboa, poesia inédita, 05.07.2023

 Grande Guerra


"Podes-me roubar o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come
Porém, como roubar a inextinguível Fome?

Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.

Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me , até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.

Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal...e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...

Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...

Podes cobrir-me o nome de impropérios; 
Tu , que és o senhor dos impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?

Podes tirar-me paz, saúde , e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.

Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos  sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?

És sempre o mesmo, tu, cujas razões supremas
São mordaças, grilhões, vendas. algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.

Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
" Filho , vem até mim!
" A História principia onde eles põem : fim."
José Régio, in " Grande Guerra de A Chaga do Lado ", Portugália Editora, 3ª edição: 1970, pp.115-119

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Quando não havia senão noite

Quando não havia senão noite 
por Mia Couto
“Antigamente,  e Deus pastoreava as estrelas no céu. Quando lhes dava mais alimento elas engordavam e a sua pança abarrotava de luz. Nesse tempo, todas as estrelas comiam, todas luziam de igual alegria. Os dias ainda não haviam nascido e, por isso, o Tempo caminhava com uma perna só. E tudo era tão lento no infinito firmamento!
Até que, no rebanho do pastor, nasceu uma estrela com ganância de ser maior que todas as outras. Essa estrela chamava-se Sol e cedo se apropriou dos pastos celestiais, expulsando para longe as outras estrelas que começaram a definhar.
Pela primeira vez houve estrelas que penaram e, magrinhas, foram engolidas pelo escuro. Mais e mais o Sol ostentava grandeza, vaidoso dos seus domínios e do seu nome tão masculino. Ele, então, se intitulou patrão de todos os astros, assumindo arrogâncias de centro do Universo. Não tardou a proclamar que ele é que tinha criado Deus.
O que sucedeu, na verdade, é que, com o Sol, assim soberano e imenso, tinha nascido o Dia. A Noite só se atrevia a aproximar-se quando o Sol, cansado, se ia deitar. Com o Dia, os homens esqueceram-se dos tempos infinitos em que todas as estrelas brilhavam de igual felicidade. E esqueceram a lição da Noite que sempre tinha sido rainha sem nunca ter que reinar.”
MIA COUTO, in “A confissão da leoa”Editorial Caminho, Abril de 2012