Os homens que amam a humanidade
detestam as pessoas, uma a uma.
Esse amor convive bem com crueldade
e vive, hirto, em penosa bruma.
O amor abstracto é confortável,
porque tem muito poucas exigências.
É um amor frio e pouco afável,
que não se desgasta em minudências.
É amor distante e algo sinistro,
incapaz de um orgasmo verdadeiro.
É um despacho seco de ministro,
um amor que ao amor é estrangeiro.
Amar a humanidade, em geral,
é um amor castrado e doutrinal.
Eugénio Lisboa, poesia inédita, 05.07.2023
Grande Guerra
"Podes-me roubar o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come
Porém, como roubar a inextinguível Fome?
Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.
Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me , até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.
Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal...e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...
Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...
Podes cobrir-me o nome de impropérios;
Tu , que és o senhor dos impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?
Podes tirar-me paz, saúde , e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.
Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?
És sempre o mesmo, tu, cujas razões supremas
São mordaças, grilhões, vendas. algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.
Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
" Filho , vem até mim!
" A História principia onde eles põem : fim."
José Régio, in " Grande Guerra de A Chaga do Lado ", Portugália Editora, 3ª edição: 1970, pp.115-119