terça-feira, 11 de agosto de 2026

Apressai ‑vos para o casamento

 
CAPÍTULO I
“Apressai ‑vos para o casamento”
por Elizabeth Gaskell 
"Cortejada, casada e… “Edith!”, disse Margaret, com gentileza, “Edith!” Mas, como Margaret já suspeitava, Edith adormecera. Tinha ‑se enroscado no sofá da sala de visitas das traseiras, na casa em Harley Street, mostrando‑se adorável no seu vestido de musselina branca e com as suas fitas azuis. Se alguma vez Titania se tivesse vestido com musselina branca e fitas azuis, e se tivesse adormecido num sofá de damasco em tons de carmesim numa sala de visitas das traseiras, confundir ‑se ‑ia por certo com Edith. Margaret voltava a espantar ‑se com a beleza da sua prima. Tinham crescido juntas, desde crianças, e desde sempre Edith havia sido por todos notada pelo seu encanto, excepto por Margaret; mas Margaret nunca tinha pensado nisto até há poucos dias, quando a perspetiva de se afastar em breve da sua companheira parecia atribuir uma nova força a cada doce qualidade e a cada encanto que Edith possuía. Tinham estado a conversar sobre vestidos de casamento, sobre cerimónias de casamento, sobre o capitão Lennox e sobre o que este tinha dito a Edith acerca da vida que partilhariam em Corfu, onde agora o regimento dele se encontrava; sobre a dificuldade em manter um piano bem afinado (dificuldade que Edith parecia considerar uma das mais terríveis que poderiam decorrer na sua vida conjugal), e acerca dos vestidos que ela preferiria nas suas viagens à Escócia, e que teriam lugar imediatamente após o seu casamento; mas o tom sussurrado da conversa tornara‑‑se mais lânguido; e Margaret descobriu, como aliás já calculava, após alguns minutos, que Edith, apesar do ruído que vinha da sala ao lado, se tinha enroscado toda até se assemelhar a uma bola muito leve de musselina, de fitas e de sedosos anéis de cabelo, e caído numa curta e tranquila sesta após o jantar. Margaret estava prestes a contar à sua prima alguns dos planos e ideias que ponderava quanto à sua vida futura no presbitério na província, onde a sua mãe e o seu pai viviam, e onde sempre passara as suas luminosas férias, ainda que nos últimos dez anos tivesse considerado a casa da tia Shaw como o seu lar. Mas, à falta de uma ouvinte, tinha de matutar acerca da mudança na sua vida tão silenciosamente como outrora. Tratava ‑se de um matutar satisfeito, ainda que com uns laivos de tristeza por se imaginar separada por um tempo indefinido da sua afável tia e da sua querida prima. Enquanto pensava na felicidade que seria ocupar a importante posição de única filha no presbitério de Helstone, chegaram aos seus ouvidos algumas partes da conversa na sala ao lado. A tia Shaw estava a conversar com as cinco ou seis senhoras que tinham jantado na sua companhia, e cujos maridos ainda ocupavam a sala de jantar. Eram as visitas habituais lá de casa, vizinhos a quem a Sra. Shaw chamava amigos, isto porque acontecia jantar com eles com uma maior frequência do que com quaisquer outras pessoas, e também porque se ela ou Edith precisassem de alguma coisa deles, ou eles de alguma coisa dela, não sentiriam a menor hesitação em visitar a casa uns dos outros um pouco antes da hora do almoço. Estas senhoras e os respetivos maridos tinham sido convidados, na sua qualidade de amigos, para se juntarem num jantar de despedida em honra do casamento vindouro de Edith. Por sua vez, Edith tinha ‑se oposto em grande medida a estes preparativos, já que o capitão Lennox era esperado nessa mesma noite, regressando num comboio tardio; mas, ainda que tivesse sido uma criança mimada, Edith era demasiado negligente e preguiçosa para ter uma vontade própria muito vincada, e acabou por ceder quando deu conta de que a sua mãe tinha encomendado aquelas delícias especiais da estação que são geralmente muito eficazes contra um sofrimento imoderado, propício nos jantares de despedida. Edith contentara ‑se em recostar ‑se na sua cadeira, somente brincando com a comida que tinha no prato e assumindo uma expressão solene e ausente, enquanto todos à sua volta iam apreciando os ditos espirituosos do Sr. Grey, o cavalheiro que ficava sempre à cabeceira da mesa nos jantares da Sra. Shaw e que tinha pedido a Edith para lhes tocar um pouco de música na sala de visitas. O Sr. Grey esteve especialmente afável durante este jantar de despedida, e os cavalheiros permaneceram no andar de baixo mais tempo do que era habitual. E fizeram eles muito bem, a julgar pelos fragmentos da conversa que Margaret ouviu por acaso. “Eu própria sofri demasiado; não que não me sentisse extremamente feliz com o meu pobre e querido general, mas, de facto, a diferença de idades é um inconveniente, algo que eu tinha decidido que Edith jamais teria de enfrentar. Claro que, e digo isto sem qualquer parcialidade maternal, tinha previsto que a adorável criança viesse a casar cedo; na verdade, dizia muitas vezes com toda a certeza que ela estaria casada antes de completar os dezanove. Tive uma sensação profética quando o capitão Lennox” — e aqui o tom da sua voz desceu até ficar somente um sussuro, ainda que Margaret tivesse conseguido colmatar facilmente a lacuna. No caso de Edith, o rumo do verdadeiro amor mostrara ‑se extraordinariamente pacífico. A Sra. Shaw tinha concedido um lugar ao seu pressentimento, como ela mesma dissera, e insistido bastante na realização do casamento, ainda que fosse abaixo das expectativas que muitos dos pretendentes de Edith tinham projetado para o seu caso, sendo ela uma jovem e atraente herdeira. Mas a Sra. Shaw afirmou que a sua única filha só casaria por amor, e depois suspirou de um modo enfático, como se o amor não tivesse constituído o motivo para se ter casado com o general. A Sra. Shaw apreciava muito mais o aspeto romântico do noivado em questão do que a sua filha. Não que Edith não estivesse profunda e verdadeiramente apaixonada; ainda assim, preferiria por certo uma residência de qualidade em Belgravia ao carácter mais pitoresco do estilo de vida que o capitão descrevera ao falar de Corfu. Edith fingia estremecer e arrepiar‑‑se exatamente com as mesmas partes da descrição que faziam Margaret ruborizar ‑se quando as escutava; Edith fazia isto, em parte, pelo prazer que sentia em ser aliciada pelo seu querido amante a abandonar o seu descontentamento, e em parte porque qualquer coisa que se relacionasse com uma vida de boémia ou de improviso lhe era verdadeiramente desagradável. Ainda assim, e mesmo que alguém surgisse na sua vida com a promessa tentadora de uma bela casa, uma excelente propriedade e um pomposo título de que pudesse tirar proveito, Edith continuaria a manter‑‑se fiel ao capitão Lennox durante todo o tempo em que essa tentação durasse; quando se dissipasse, é possível que ela acabasse por ter algumas pequenas dúvidas resultantes de um sentimento de tristeza mal disfarçada por o capitão Lennox não conseguir reunir na sua pessoa todas as particularidades que seriam desejáveis. Nesse aspeto, Edith era tal e qual a sua mãe, que, depois de ter casado diligentemente com o general Shaw, com nenhum outro sentimento mais caloroso que não fosse o de respeito perante o caráter e a situação social dele, lamentava constantemente, embora de um modo reservado, o fardo pesado que carregava por se ter casado com uma pessoa que não conseguia amar. “Não olhei a despesas quanto ao seu enxoval”, foram as palavras se- guintes que Margaret pôde ouvir. “Tem todos aqueles belíssimos xailes e lenços indianos que o general me deu, mas que nunca mais irei usar.” “É uma rapariga de sorte”, respondeu uma outra voz, que Margaret sabia ser a da Sra. Gibson, uma senhora que tinha um interesse redobrado pela conversa, já que uma das suas filhas tinha casado há poucas semanas. “A Helen queria muito ter um xaile indiano, mas, na verdade, quando me disseram o preço exorbitante que pediam, vi ‑me obrigada a não lhe fazer a vontade. Irá ficar por certo muito invejosa quando souber que a Edith tem xailes indianos. De que género são? Dos de Deli? Com aquelas franjinhas amorosas?” Margaret voltou a ouvir a voz da tia, mas desta vez era como se ela se tivesse erguido da sua posição meio reclinada e estivesse agora à espreita na sala de visitas das traseiras, que estava menos iluminada. “Edith! Edith!”, exclamava a tia; e depois voltou a afundar ‑se no seu lugar, como se esgotada pelo esforço. Margaret aproximou ‑se. “A Edith está a dormir, tia Shaw. É alguma coisa que eu possa fazer?” Todas as senhoras disseram ao mesmo tempo, “Coitadinha!”, ao tomarem conhecimento desta informação desoladora acerca de Edith; e o minúsculo cãozinho de colo, que estava nos braços da Sra. Shaw, começou a ladrar, como se excitado com esta explosão de piedade. “Chiu, Tiny!, sua menina mal comportada! Assim vais acordar a tua dona. Era só para perguntar à Edith se ela pedia à Newton que trouxesse até aqui os xailes: talvez pudesses ir tu lá, querida Margaret?” Margaret subiu ao antigo quarto das crianças, no cimo da casa, onde Newton se mantinha ocupada a arranjar algumas rendas que seriam necessárias para o casamento. Quando Newton se pôs a desembrulhar os xailes, não sem um resmungo feroz, pois já era a quarta ou quinta vez que naquele dia os mostrava, Margaret ficou a olhar em redor o interior do quarto. Tinha sido o primeiro quarto naquela casa com que ela se familiarizara, há nove anos, quando a trouxeram, toda bravia do bosque, para partilhar a casa, as brincadeiras e as lições com a sua prima Edith. Lembrou ‑se do aspeto escuro e sombrio do quarto de crianças em Londres, dirigido por uma ama austera e cerimoniosa que era terrivelmente exigente no que respeitava a mãos limpas e batas com rasgões. Recordou ‑se da primeira vez que tomara chá ali — longe do seu pai e da sua tia, que jantavam algures lá em baixo, nas infinitas profundezas a que as escadas conduziam, pois, a não ser que ela estivesse no céu (assim pensava a criança), eles deviam estar mesmo no fundo das entranhas da terra. Lá em casa (antes de Margaret ter ido morar para Harley Street), o quarto de vestir da sua mãe servira como quarto das crianças. Como tinham hábitos madrugadores no presbitério da província, Margaret habituara ‑se a partilhar a hora das refeições com o seu pai e a sua mãe. Oh! Como a alta e robusta rapariga de dezoito anos feitos se recordava tão bem das lágrimas derramadas com tamanho e descontrolado sentimento de tristeza pela menina de nove, quando esta foi esconder o rosto debaixo da roupa da cama nessa primeira noite; e de como a ama a mandou parar com a choradeira, pois iria perturbar a Menina Edith; e de como ela tinha depois chorado amargamente, ainda que de um modo silencioso, até a sua distinta e bonita tia, que vira ainda há pouco, subir mansamente ao quarto com o Sr. Hale para lhe mostrar a sua filhota adormecida. Então, a pequena Margaret sossegara os soluços de choro e tentara permanecer quieta, como se estivesse a dormir, com receio de que a sua dor deixasse o pai combalido, dor essa que ela não se atrevia a expressar perante a tia e que considerava, afinal de contas, imprópria, depois de todos os planeamentos, projeções e expectativas que tinham entretido em casa, em família, antes que o seu guarda‑‑roupa pudesse ser devidamente preparado para as grandiosas circunstâncias que a esperariam, e antes que o papá pudesse deixar a sua paróquia, pelo menos por alguns dias, para poder visitá‑la em Londres. Margaret achava ‑se agora a adorar o velho quarto das crianças, ainda que o mesmo não passasse agora de um quarto desarranjado; e continuava a olhar em redor, com uma espécie de pesar felino, pensando na ideia de daí a três dias ter de abandoná‑lo para sempre. “Ah, Newton!”, disse. “Acho que iremos ficar muito tristes por termos de abandonar este velho quarto.” “Eu cá não, menina. Na verdade, os meus olhos já não são o que eram, e a luz aqui é tão má que não consigo ver o suficiente para remendar as rendas, a não ser quando me ponho à janela, por onde passa sempre uma corrente de ar terrível, o suficiente para que uma pessoa morra de frio.” “Bom, parece ‑me que irás ter luz e calor suficientes em Nápoles. Até lá, terás de preservar as tuas habilidades de cerzidura. Obrigada, Newton, eu posso levá ‑los até lá abaixo, tu estás ocupada.” Então, Margaret desceu as escadas carregada de xailes, aspirando o seu aroma apimentado e oriental. Depois, a sua tia pediu ‑lhe que ficasse quieta, como uma espécie de silhueta móvel, sobre a qual ela pudesse dispor os xailes, já que Edith ainda estava a dormir. Ninguém imaginaria, mas a figura alta e bem ‑feita de Margaret, num vestido negro de seda que ela ainda usava pelo luto respeitante a um familiar distante da parte do seu pai, fez realçar as longas e bonitas dobras dos xailes deslumbrantes que teriam, pelo menos em parte, apagado a figura de Edith. Margaret ficou quieta, mesmo debaixo do lustre da sala, muito silenciosa e passiva, enquanto a sua tia ia ajustando os drapeados. De quando em vez, ao virar ‑se, Margaret via de relance a sua figura no espelho que se encontrava sobre a lareira, e sorria perante a sua aparição ali — os traços que lhe eram familiares no traje costumeiro de uma princesa. Tocava suavemen- te nos xailes que a cobriam, procurando o máximo de prazer ao sentir o toque macio e as cores brilhantes dos tecidos, e pensava como gostaria de poder vestir ‑se com todo aquele esplendor, apreciando tudo como faria uma criança, com um sorriso recatado de satisfação no rosto. Logo nessa altura, a porta entreabriu ‑se e anunciaram bruscamente a chegada do Sr. Henry Lennox. Algumas das senhoras sobressaltaram ‑se, como se tivessem ficado envergonhadas pelo seu interesse feminino no vestuário. A Sra. Shaw estendeu a mão ao recém ‑chegado; Margaret manteve ‑se absolutamente quieta, a pensar que talvez a sua presença fosse necessária para ocultar os xailes, mas depois olhou para o Sr. Lennox com um rosto luminoso e divertido, como se tivesse reconhecido a compreensão dele perante a sensação de absurdo que a acometera ao ter sido surpreendida deste modo. A sua tia estava muito empenhada em perguntar ao Sr. Henry Lennox (que não tinha conseguido comparecer no jantar) todo o género de questões relacionadas com o irmão deste, que era o noivo, e com a sua irmã, que era a dama de honor (e que tinha viajado de propósito da Escócia com o capitão para a ocasião), e outras a propósito de vários membros da família Lennox. Margaret percebeu que a sua presença como suporte de xailes já não era requisitada, por isso dedicou ‑se ao entretenimento das outras visitas, que a sua tia tinha momentaneamente esquecido. Edith apareceu quase logo a seguir, vinda do quarto de visitas das traseiras, a pestanejar muito face àquela luz mais intensa, atirando para trás os seus caracóis desgrenhados, e no geral assemelhando ‑se a uma Bela Adormecida que tivesse acordado estremunhada dos seus sonhos. Mesmo durante o seu descanso, ela sentira instintivamente que a presença de um Lennox era merecedora do esforço de se levantar, e além disso tinha um sem‑‑número de perguntas para lhe fazer acerca da querida Janet, a sua futura (e ainda desconhecida) cunhada, por quem tinha confessado tanta afeição que Margaret, se não fosse tão orgulhosa como de facto era, poderia ter sentido ciúmes da sua adversária exponencial. Enquanto Margaret ia deslizando a pouco e pouco para segundo plano e a sua tia tomava um lugar preponderante na conversa, reparou que Henry Lennox apontava o olhar para um lugar vago ao pé dela; e sabia muito bem que, assim que Edith o libertasse do interrogatório que lhe estava a fazer, ele iria tomar posse daquela cadeira. Não havia estado muito certa, de acordo com o relato bastante confuso da sua tia sobre os compromissos dele, de que ele iria visitá ‑los naquela noite; tinha sido quase uma surpresa encontrá ‑lo ali, e agora tinha a certeza de que aquele seria um serão agradável. Ele gostava das mesmas coisas que ela gostava, com poucas exceções. O rosto de Margaret iluminou ‑se, exibindo um brilho evidente e genuíno. Ele foi ‑se aproximando aos poucos. Ela recebeu ‑o com um sorriso que não mostrava qualquer traço de timidez ou de inibição. “Bom, suponho que estejam totalmente embrenhadas nas profundezas dos vossos assuntos — assuntos de senhoras, quero eu dizer. Muito dife- rentes dos meus assuntos, que na verdade constituem o verdadeiro ofício da Lei. Brincar com xailes é um ofício bastante diferente do dos acordos jurídicos.”
“Ah, bem sabia que iria ficar encantado quando nos encontrasse tão ocupadas a admirar estes berloques. Mas, de facto, os verdadeiros xailes indianos são, no seu género, coisas muitíssimo requintadas.” “Não tenho dúvidas nenhumas disso. Os preços deles são também muito requintados. Nada a apontar.” Aos poucos, começaram a chegar os outros cavalheiros, e os murmúrios e o ruído subiram de tom. “Este é o seu último jantar de convidados, não é? Não haverá mais nenhum até quinta ‑feira?”
“Não. Parece ‑me que depois desta noite poderemos finalmente descansar, o que na verdade já não me acontecia há muitas semanas; pelo menos, esse tipo de descanso em que as mãos não têm mais nada para fazer, quando todos os preparativos estão prontos para um acontecimento que deverá ocupar tanto a mente como o coração. Ficarei feliz por ter tempo para pensar, e tenho a certeza de que a Edith também ficará.”
“Não teria tanta certeza quanto a ela, mas acredito que a Margaret ficará feliz. Das vezes em que a vi, nos últimos tempos, percebi que estava constantemente a ser levada por um turbilhão de tarefas que diziam respeito a outra pessoa.”
“É verdade”, disse Margaret, bastante abatida, lembrando ‑se das intermináveis perturbações por insignificâncias que andavam a arrastar ‑se já há mais de um mês: “Pergunto a mim mesma se um casamento deve ser sempre precedido por aquilo a que chama um turbilhão, ou se em alguns casos não deverá existir um período de tempo tranquilo e pacífico mesmo antes do acontecimento.”
“Com a madrinha da Cinderela a encomendar o enxoval e o pequeno‑‑almoço de núpcias, a endereçar também os convites para o casamento, por exemplo”, disse o Sr. Lennox a rir. “Mas serão todos estes incómodos realmente necessários?”, perguntou Margaret, olhando ‑o diretamente nos olhos, à espera de uma resposta. Uma indescritível sensação de cansaço acometeu ‑a nessa altura, resultante de todos os esforços que tinham sido necessários para um efeito final elegante, e para o qual Edith tinha sido reconhecida como autoridade suprema durante as últimas seis semanas; e agora Margaret precisava mesmo de que alguém a pudesse animar com algumas ideias agradáveis e serenas associadas à noção de casamento.
“Oh, claro que sim”, respondeu o Sr. Lennox com uma mudança no tom de voz, agora mais ponderada. “Existe toda uma série de procedimentos e cerimónias pelos quais se deve passar, não tanto para uma pessoa sentir satisfação, mas mais para calar a boca do mundo, até porque não haveria grandes motivos de satisfação se ela não se calasse. Mas que preparativos faria para um casamento?”
“Oh, nunca pensei muito sobre isso; gostaria apenas que se proporcionasse numa magnífica manhã de verão; e gostaria de caminhar na direção da igreja através da sombra das árvores; gostaria que não houvesse assim tantas damas de honor, e não queria ter um pequeno ‑almoço nupcial. Atrevo ‑me a dizer que estou absolutamente contra as mesmas coisas que me deram mais trabalho nestes últimos tempos.”
“Não, não acho que esteja. A ideia de uma simplicidade pomposa harmoniza bastante bem com o seu caráter.” Margaret não apreciava muito este tipo de discurso; retraía ‑se agora mais quando o escutava, ao recordar ocasiões passadas em que o Sr. Lennox tentara levá ‑la a discussões (em que ele assumira a parte lisonjeira) acerca do caráter dela e da sua forma de viver. Margaret interrompeu o discurso com prontidão, dizendo ‑lhe: “Parece ‑me muito natural que eu pense na igreja de Helstone e no passeio que se faz até lá chegar, em vez de pensar em ir de carruagem até uma igreja em Londres que fica a meio caminho de uma rua pavimentada.”
“Fale ‑me mais sobre Helstone. Nunca me descreveu essa localidade. Acho que gostaria de ter uma ideia melhor acerca do sítio para onde vai viver, quando o número noventa e seis de Harley Street ficar lúgubre e sujo, chato e mudo. Em primeiro lugar: Helstone é uma aldeia ou uma cidade?”
 “Oh, apenas uma aldeola, não acho que se lhe pudesse chamar uma aldeia. Existe apenas a igreja e perto dela umas quantas casas — casinhas de campo, vá — com rosas que crescem em redor.”
“E que florescem durante todo o ano, especialmente pela altura do Natal — tem de fazer o quadro completo”, disse ‑lhe ele.
“Não”, respondeu Margaret, algo aborrecida, “não estou a fazer quadro nenhum. Estou apenas a tentar descrever Helstone tal e qual como é. Não devia ter dito isso.”
“Já estou arrependido”, disse ‑lhe o Sr. Lennox. “Só o disse porque a descrição se parecia mais com uma descrição de uma aldeia de fábula do que com uma aldeia da vida real.”
 “E assim é, de facto”, respondeu Margaret, com avidez. “Todos os outros locais que eu já tive oportunidade de visitar em Inglaterra me pareceram vulgares e rudes quando comparados com New Forest. Helstone é como uma aldeia num poema — num dos poemas de Tennyson. Mas também não vou tentar descrevê‑la mais nenhuma vez. Rir ‑se ‑ia na minha cara se eu me pusesse a dizer o que acho dela — como ela é, de facto.”
“Claro que não ia rir ‑me. Mas parece ‑me que está bastante decidida a esse respeito. Ora, então conte ‑me sobre o que eu gostaria ainda mais de saber, ou seja, como é o presbitério.”
Elizabeth Gaskell, in Norte e Sul , Relógio D’Água Editores, 01/04/2026,   pp.9-16

Sobre o livro:
"A acção de Norte e Sul decorre em meados do século XIX, narrando o percurso da protagonista desde o ambiente tranquilo mas decadente de uma Inglaterra sulista até um norte vigoroso mas turbulento.
Neste romance, Elizabeth Gaskell fala-nos de um amor incomum, para mostrar o modo como a vida pessoal e a pública se entrelaçavam numa sociedade recentemente industrializada.
Esta é uma história de triunfos conquistados com enorme esforço, onde o pensamento racional é mais valorizado do que o preconceito e o lado humano se sobrepõe ao respeito cego pela atividade económica.
Os leitores do século XXI irão sentir-se absorvidos, à medida que a trama deste romance vitoriano os transporta até às origens de problemas e possibilidades que ainda hoje, cento e cinquenta anos mais tarde, subsistem: a complexidade das relações, públicas ou privadas, entre homens e mulheres de diferentes classes sociais."

«Uma história admirável.» [Charles Dickens]
«Gaskell viu as realidades emocionais e económicas da vida comum com grande honestidade.» [The Times]


SOBRE A AUTORA:
Elizabeth Gaskell nasceu em Chelsea, Londres, em 29 de Setembro de 1810, sendo a mais nova de oito filhos de William Stevenson e Elizabeth Holland. A sua mãe morreu quando ela tinha treze meses, pelo que Elizabeth foi criada por uma tia materna em Knutsford, cidade que haveria de inspirar o romance Cranford.
O seu futuro era incerto, já que não herdara qualquer riqueza e não tinha residência fixa, tendo o seu pai casado de novo em 1814 e tido dois filhos.
Em 1832, Elizabeth casou com William Gaskell, um padre protestante e mais tarde professor de História, Literatura e Lógica. Ambos se interessavam por literatura e pelas novas ideias científicas, e o casal instalou-se em Plymouth Grove, em Manchester, cidade de cujo processo de industrialização Elizabeth se tornaria crítica.
Dilacerada pela morte de um dos filhos em 1845, começou a escrever, tendo publicado anonimamente Mary Barton em 1848, um romance elogiado por Charles Dickens, que chamou à autora a sua “querida Xerazade”, convidando-a a colaborar no seu jornal.
Foi nessa época que Elizabeth conheceu Charlotte Brontë, quando passava férias nos arredores de Windermere. Tornaram-se amigas e Elizabeth Gaskell escreveu The Life of Charlotte Brontë (1857), que permanece uma das mais importantes biografias da literatura inglesa.
Publicado em 1855, Norte e Sul completou Mary Barton numa das mais impressivas descrições literárias da Revolução Industrial no século XIX.
Entre os romances principais de Elizabeth Gaskell, estão ainda Sylvia’s Lovers (1863) e Cousin Phillis (1864). A sua última obra, Wives and Daughters, permaneceu inacabada devido à morte da autora em 1865.”

domingo, 9 de agosto de 2026

Ao Domingo Há Música

Joni Mitchell

O talento revela-se exactamente porque esconde a sua perfeição.
     William Shakespeare

Um grande artista revela-se sempre. Não se torna vulnerável ao tempo. A erosão não o afecta, quando o talento o sustenta.
Joni Mitchell valida as palavras de Shakespeare. 
Nascida Roberta Joan Anderson, 82 anos (7 de Novembro de 1943) é uma cantora, compositora, artista plástica e poetisa canadiana cuja obra atravessa folk, jazz, pop e rock, marcada por letras poéticas e afinações inovadoras de guitarra. Reconhecida como uma das maiores compositoras do século XX, influenciou gerações com álbuns como Blue (1971) e Court and Spark (1974), ganhou múltiplos Grammys e integra o Rock and Roll Hall of Fame.
Há quem tenha escrito que há nela, "com todas as suas introspeções e metafísicas, um extraordinário amor à vida e à música. Não espanta: em função da poliomielite [na adolescência], Joni Mitchell não desistiu da guitarra e, com problemas no braço esquerdo, desatou a inventar afinações próprias para poder tocar.
É, muitas vezes, referida como a melhor das mulheres guitarristas de sempre – e isso não é dizer pouco. Quanto aos tempos mais recentes, é comovente – depois de ter perdido a fala e de ter ficado paralisada – voltar a ouvi-la cantar e tocar como só ela sabe: sempre muito bem.”

Joni Mitchell,  em  Both Sides Now (Live at the Newport Folk Festival 2022) [Official Video]
Joni Mitchell surpreendeu o público do Newport Folk Festival no verão de 2022, com uma actuação surpresa – a primeira em 20 anos – num espetáculo emocionante, em parceria com Brandi Carlile e um elenco notável de músicos e amigos que formaram os The Joni Jam. Este regresso triunfal aos palcos a 24 de Julho de 2022  foi apresentado num novo álbum ao vivo, AT NEWPORT. Disponível a 28 de Julho de 2023 e produzido por Brandi Carlile e Joni, Joni Mitchell. 
Both Sides Now (Live at Newport Folk Festival 2022) [Vídeo Oficial]Angariação de fundos.

  .
E , em 1971, muitos anos antes, Joni Mitchell brindou o mundo com  A Case of You,  do quarto Álbum " Blue".

sábado, 8 de agosto de 2026

"À espera de Godot" subiu ao palco há 74 anos

 

que faria eu sem este mundo sem rosto sem contenda
onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
se verte no vazio no esquecimento de ter sido
sem esta onda onde por fim
corpo e sombra juntos se consomem
que faria eu sem este silêncio onde murmúrios se despenham
ofegantes fogosos rumo ao amparo rumo ao amor
sem este céu que se eleva
acima da poeira do seu lastro

que faria eu faria como ontem como hoje
quando busco pela minha vigia um outro como eu
vagueio na corrente longe de toda a vida
num espaço viciado sem voz entre as vozes fechadas comigo .
Samuel Beckett, Poema originalmente escrito em francês, do período entre 1947-49, correspondente à escrita de À Espera de Godot, in Selected Poems: 1930-1989. Faber and Faber, 2009.

À espera de Godot peça emblemática do teatro do absurdo, em que a espera indefinida de Godot simboliza a condição humana de incerteza e expectativa, subiu ao palco há 74 anos.
 espera de Godot, (En Attendant Godot), de Samuel Beckett foi escrita em francês, em 1948 e representada pela primeira vez, em 8 de Agosto de 1952, em Paris.  Beckett conseguiu dar forma ao vazio neste seu livro. O vazio que invadiu a vida, e expurgou toda a beleza depois da segunda guerra mundial. É uma história que não está situada no tempo e no espaço. O cenário é qualquer cidade devastada, qualquer chão sujo por aí. E o que vai por dentro das personagens é só o vazio e o horror. E a história…Que história? A história é sobre o nada, sobre o que sobrou depois da mortificação da arte.
Beckett é considerado um dos principais autores do teatro do absurdo, influenciando gerações de escritores e dramaturgos.  A sua obra é traduzida para mais de trinta línguas e continua sendo encenada mundialmente, mantendo relevância tanto no teatro quanto na literatura contemporânea."

Samuel Bckett
(Dublin, 13 de Abril de 1906 — Paris, 22 de Dezembro de 1989)

"Samuel Beckett (1906-1989) nasceu perto de Dublin. Estudou francês e italiano no Trinity College de Dublin, foi professor em Paris, conheceu Joyce, regressou à Irlanda em 1931, voltou a Paris quando rebentou a guerra, fez parte da Resistência. É no pós-guerra que vive o período mais intenso da sua produção literária, com a escrita, em francês, das peças “À Espera de Godot” e “Fim de Partida”, além de uma trilogia de romances composta por "Molloy", "Malone Morre" e "O Inominável". Começa a traduzir os seus textos para inglês e volta a escrever também nesta língua. Constrói assim uma obra bilingue, cada vez mais depurada. Recebe o Nobel em 1969, distribuindo o dinheiro pelos amigos."

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O conceito de “católica e apostólica" na igreja cristã primitiva

Basílica de S. Pedro, Vaticano, Roma, Itália
Igreja ortodoxa

23
IGREJA CATÓLICA APÓSTOLICA ROMANA E ORTODOXA
por Manoel de Andrade
"O conceito de “católica e apostólica”, na igreja cristã primitiva, foi usado, textualmente, no ano 325 d.C., no Concilio de Niceia, como parte do conteúdo do credo nicênico, que é a oração conhecida como o “Creio em Deus Pai”, quando expressa, em seu último parágrafo: “Cremos na santa Igreja Católica e Apostólica (...)” O termo “católico” é de origem grega e significa “universal” ou “aquilo que é conforme o todo”. Segundo a história da Igreja, a palavra foi usada pela primeira vez no início do século II por Inácio de Antioquia, um dos mais antigos pais da Igreja, martirizado pelas feras no Coliseu de Roma, no governo do Imperador Trajano. Já o conceito de “romana” surgiu como contraponto à Reforma Protestante, no final do século XVI. Por outro lado, desde o Grande Cisma de 1054, a Igreja Católica Apostólica Romana, em consequências de suas diferenças culturais, teológicas e políticas, e segundo suas origens, foi dividida, geográfica e nominalmente, em duas partes. No Ocidente, por sua ascendência latina, foi designada como Igreja Católica Romana, com sua sede em Roma, e no Oriente, por sua origem grega, foi adjetivada como Igreja Ortodoxa do Oriente, com sede em Constantinopla, atual Istambul. Ambas se baseiam na Bíblia e no Evangelho de Jesus, mas diferem doutrinariamente na sua liturgia e na organização hierárquica: A Igreja Católica segue o Papa e a igreja Ortodoxa, o Patriarca.

A Igreja Católica
O Édito de Milão, promulgado em 313 pelo imperador Constantino, abriu ao culto cristão, e a todas as outras religiões, as portas da liberdade religiosa e, posteriormente, em 380, pelo Édito de Tessalônica, promulgado pelo imperador Teodósio, o Cristianismo foi designado como a religião oficial do Império Romano. Foi a partir daí que o grande crescimento do Cristianismo deu à Igreja Católica seu importante papel na história mundial.
Após a queda do Império Romano, o Reino Ostrogodo abarcou toda a península itálica, e o reinado de Teodorico, o Grande (454-526), foi marcado por uma grande tolerância com a Igreja Católica. Na Gália, Clovis I (466 – 511) o primeiro rei da França, unificou todas as tribos francas e com outras tribos bárbaras se converteu ao catolicismo. Foi o primeiro rei bárbaro a se tornar católico depois da queda do Império Romano, e sua conversão teve grande repercussão na história europeia, consolidando os elos de dois séculos entre a dinastia merovíngia e a Igreja Católica. Foi a partir dessa aliança entre a monarquia e a Igreja que, já nos primeiros séculos da Idade Média, o domínio do catolicismo cresceu sempre mais, assim como a corrupção na sua hierarquia religiosa. Por outro lado, a Igreja passou a ter todo o monopólio do conhecimento, maculando as bases primitivas do Cristianismo e condicionando a cultura medieval pelo dogmatismo, pela fé cega e pelo poder do papa. Foi nesse contexto que surgiu a Inquisição e seu rastro de horrores.
Mas a Igreja trouxe, também, sua grande cota de saberes para a Humanidade. Suas grandes universidades e mosteiros foram os principais centros de cultura da época. Toda a imensa literatura da antiguidade greco-romana foi preservada da destruição sendo guardada e copiada pelos monges copistas nas bibliotecas dos inumeráveis mosteiros.
Foi no início do século XIII que surgiram os primeiros sinais de mudança e renovação na Igreja Católica, trazidos pelos votos de pobreza e vivência incondicional do Evangelho, por Francisco de Assis. Com seus testemunhos e exemplos incomparáveis fundou uma ordem de pregação itinerante que procurou levar ao mundo os mais belos princípios do Cristianismo.
Posteriormente, ao longo dos séculos XV à XVII, os missionários católicos se espalharam pelo mundo, levando a verdadeira mensagem do Evangelho. Os monges franciscanos e dominicanos evangelizaram o México. As missões católicas portuguesas e espanholas evangelizaram parte da Ásia e toda a América do Sul e Central.
O jesuíta espanhol Francisco Xavier, (1506-1552) celebrizado como o “Apóstolo do Oriente”, evangelizou na Índia portuguesa, na China e no Japão. Afirmam seus biógrafos que ele converteu mais pessoas ao Cristianismo do que qualquer outro missionário desde Paulo de Tarso.
Os jesuítas portugueses Manuel da Nóbrega (1517-1570) e José de Anchieta (1534-1597) foram os pioneiros na introdução do Cristianismo no Brasil.
O frade dominicano espanhol Frei Bartolomeu de Las Casas (1484-1566) foi o grande defensor dos indígenas na América Central, pregando o Evangelho na Venezuela, na Nicarágua e na Guatemala, onde cristianizou grande parte dos povos originários da região.
Essa galeria de missionários católicos é imensa e não cabe nos limites desta reflexão. Mas não poderíamos esquecer de dois gigantes, um francês e outro italiano que, no século dezenove, espalharam pelo mundo a educação evangelizadora para a juventude: Marcelino Champagnat e Dom Bosco.
Muitos outros exemplos que dignificaram a história da Igreja Católica poderiam ser aqui nominados, mas essa relação seria interminável. Ainda assim, é indispensável registrar a memória de duas freiras católicas que fizeram da própria vida um modelo de misericórdia e a mais bela personificação da caridade: Madre Tereza de Calcutá, na Índia e Irmã Dulce, no Brasil.

(...)

A Igreja Ortodoxa
O que dividiu o Catolicismo em duas Igrejas começou muito antes do Cisma do Oriente, em 1054. Historicamente sua causa remota foi a mudança, no ano 330, da sede do Império Romano para Constantinopla e a partir de então os cristãos orientais não mais aceitaram a autoridade do Papa em Roma.
Na Igreja Ortodoxa, não existe uma autoridade central como o Papa em Roma, coordenando o catolicismo em todo o mundo. O Patriarca de Constantinopla coordena a interlocução entre as várias igrejas ortodoxas, mas não tem autoridade para impor decisões e doutrinas sobre elas. Cada Igreja, seja ela russa, romena, sérvia, búlgara ou grega, tem seu próprio patriarca, como a autoridade espiritual da sua jurisdição. O Patriarca de Constantinopla é personificado como um símbolo de identidade religiosa e liderança espiritual do Cristianismo Oriental.
Com relação às duas Igrejas, muitas foram as diferenças de liturgia que as dividiram. No Ocidente as missas eram rezadas em latim e no Oriente em grego e hebraico. Ao contrário dos católicos, os ortodoxos não reverenciam as imagens dos santos. Os católicos usam o calendário gregoriano e os ortodoxos o calendário juliano, comemorando o Natal em 7 de janeiro. Na igreja Ortodoxa se reza de pé e na Romana, de joelhos A cruz ortodoxa tem três barras horizontais e a cruz católica tem apenas uma. Quando ao casamento, sua permissão é concedida apenas para os padres. O celibato é obrigatório somente nas altas posições da hierarquia patriarcal.
O que caracterizou historicamente suas grandes divergências com a Igreja Católica foi sua negação da autoridade e infalibilidade papal e a adoração de imagens, assim como as grandes discussões em torno da condição de Maria como mãe de Deus ou de Cristo e da natureza de Jesus como divina e humana.
Um aspecto espiritualmente relevante entre os ortodoxos é a feição mística e contemplativa da sua religiosidade na expressão pessoal da criatura glorificando o Criador, como a busca de um caminho, através da oração contínua e a purificação da mente e do coração, procurando a íntima união com Deus."
Manoel de Andrade, in Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre Cristianismo e Espiritismo, Edição do Centro Espírita Luz da Caridade, Rua Mato Grosso, 145 – Água Verde, CEP: 80260-070 – Curitiba - Paraná, pp. 131, 132, 133, 137,138

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A difícil arte de admirar


A difícil arte de admirar
por Eugénio Lisboa
Aquele que deseja a rosa
deve respeitar o seu espinho
  André Gide
 
“A admiração é algo de nobre, mas esconde compartimentos sombrios. Num deles, habitam, encafuados, a inveja e o ciúme, que precedem a frustração e o rancor. A admiração pode ser ou parecer que é motor de arranque para uma emulação construtiva. É, por exemplo, o caso do grito dado muito cedo por Victor Hugo: “Quero ser Chateaubriand ou nada!” Isso levou-o aos píncaros de ser Victor Hugo, o maior poeta da língua francesa. Mas o querer ser alguém que se admira pode implicar uma alquimia produtora de vinagre ou mesmo de veneno. Admirar está cheio de armadilhas. A pior é a do amor supostamente não correspondido. O “Quero ser Chateaubriand ou nada” descamba, não raro, no ódio vesgo a Chateaubriand. Não foi o caso de Hugo, ou o de Barrès ou o de Montherlant, que terão tido esse sonho: porque, tinham eles próprios, génio de sobra. Mas foi, no século passado, nos anos trinta, quarenta, cinquenta, o caso do “Eu quero ser Régio”, anseio de tantos jovens que, depois, não se cansaram de denegri-lo, de persegui-lo, de odiá-lo… de invejá-lo, tanto mais e tanto mais zangadamente, quanto mais ele se mostrava insubornável e admiravelmente independente. Que os novos acrescentadores de poesia ou de ficção se crispassem e o farpeassem – merece uma certa compreensão e atenuante: os que lavram o mesmo território, tendem a não se verem com particular carinho uns aos outros. Wilde, com a finíssima perspicácia que o caracterizava, observou que os deuses, ao correrem nas suas carroças, fazem tanta poeira para os lados, que se não conseguem ver uns aos outros. Claudel não via Gide, Gide não via Proust, Tolstoi não via Shakespeare e o sereno, ponderado e objectivo Martin du Gard não via Balzac (este, felizmente, viu Stendhal). Mas isto diz respeito aos que metem a mão na massa, isto é, aos criadores de arte. Mas que, por essa mesma altura, críticos, ensaístas encartados, professores, gente a quem compete outra objectividade, outra capacidade de perspectiva, gente que devia ver-se como verdadeiros guardiães do património, que gente desta sacudisse para o caixote do lixo uma grande e invulgar figura como o autor de MAS DEUS É GRANDE, de O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO, de A CHAGA DO LADO, de JACOB E O ANJO, de HISTÓRIAS DE MULHERES, de A VELHA CASA, de EM TORNO DA EXPRESSÃO ARTÍSTICA, de ENSAIOS DE INTERPRETAÇÃO CRÍTICA, que um autor de uma obra vasta e de invulgar quilate fosse assim levianamente descartado, como imprestável, pergunto: que país é este? Que clercs são estes? Somos assim tão ricos que possamos dar-nos ao luxo de desprezar pepitas destas? Dizia Malraux que “uma das mais altas qualidades de um homem que não é um animal é ser capaz de admirar”. Infelizmente, entre nós, a capacidade de admirar merece sério escrutínio: quem se admira, como se admira, por que se admira e por que se deixa de admirar, para passar a desprezar e atacar. Observava um não muito conhecido escritor francês que “há no homem, quase sempre, duas vozes que falam simultaneamente: a admiração e a inveja”. À mínima suspeita de amor mal correspondido, a primeira torna-se na segunda, com particular rancor incluído… Vi isso acontecer, em muitos casos, com o grande escritor de Vila do Conde e de Portalegre. Jovens escritores, ambiciosos e gulosos de glória, cedo concluíam que o sóbrio e muito ocupado escritor, professor, jornalista, colecionador de antiguidades e cuidadoso e muito requisitado epistológrafo, além de assíduo frequentador de salas de cinema, não tinha disponível, para eles e para a promoção deles, todo o tempo e energia a que se julgavam com direito: receita infalível para o amor se transformar em azedume de má catadura. Vi, quando, na casa do escritor, em Vila do Conde, passei a pente fino as cartas que religiosamente guardara, a adulação ali manuscrita pela mão de jovens e empertigados autores que, depois, se passaram, com armas e bagagens, para o outro lado: o da denegrição.
A admiração que visa ser escada de acesso a uma promoção do admirador não traz felicidade. Os poetas, às vezes, dizem-no melhor e de maneira mais curta: “O segredo da felicidade reside em admirar sem desejar” (Carl Sandburg, poeta americano).”
Eugénio Lisboa, 21.01.2024

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Interlúdio Musical

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Waloyo Yamoni (We Win the Wind), do álbum "The Drop That Contained the Sea". Interpretada ao vivo pelo duas vezes vencedor de um Grammy, Christopher Tin, pelo Coro Bel Canto de Vilnius (direcção artística de Milda Švelnienė), pela Orquestra Sinfónica Estatal da Lituânia (direcção artística de Gintaras Rinkevičius), pelos solistas Jamal Moore (EUA) e Evita Rudžionytė (LT) e pelo coro sueco A Scalpella (direcção artística de Rasmus Krigström). Gravada ao vivo no concerto "Open to the World ’24", na Sala de Concertos da Orquestra Sinfónica Estatal da Lituânia, em Vilnius, a 9 de Dezembro de 2024.
REGENTE | COMPOSITOR: Christopher Tin. Produtores: Audrius Valatkevičius (Coro Bel Canto de Vilnius), Meg Davies e Claire Long (Music Productions). 
CORO BEL CANTO VILNIUS Director Artístico e Maestro: Milda Švelnienė, Mestres de Coro: Raminta Gocentienė e Povilas Vanžodis, Treinadores Vocais: Eglė Stundžiaitė e Eimantas Bešėnas. Sopranos: Agnė Juodvalkė, Audinga Mielkutė Jurgelevičienė, Benita Buragaitė-Staponkienė, Elena Salamandič-Alijošienė, Gabrielė Špejeraitė-Barutė, Karolina Brazdauskytė, Lauryna Kriščiūnaitė-Kirjanovė, Milda Balakina, Sandra Vaičė, Viktorija Ivanauskienė, Žaneta Matušinskaitė. Contraltos: Aistrida Latvėnė, Donata Sekonaitė, Eglė Sonata Padagaitė, Emilė Indrašiūtė, Gerda Valiukonytė, Gintarė Butkutė, Jenny Holm, Jūratė Paurytė, Jurgita Steponavičienė, Kristina Pažusytė, Laura Timinskaitė, Viktorija Pinine. Tenores: Daumantas Kikutis, Evaldas Stulgaitis, Gediminas Tamašauskas, Julijonas Beconis, Justas Pocius, Justinas Stanevičius, Mindaugas Rumšas, Mikas Vasiliauskas, Pranas Cirtautas, Vilius Lukauskas, Vilius Mickūnas. Barítonos/Bases: Adomas Jurkevičius, Aidis Jakimavičius, Andrius Gailiūnas, Arnoldas Dapkus, Brian Sutton, Dovydas Braukyla, Dovydas Jurgelevičius, Martynas Vaitkevičius, Mykolas Vitkus, Simas Bačiulis, Simas Martinkus, Simonas Girdzijauskas, Vytenis Šalkauskis. 
CORO DE SCALPELLA Diretor Artístico e Maestro: Rasmus Krigström. Sopranos: Aline Rådestad, Amanda Hjertman, Elin Hermansson, Ellen Thunberg, Freja Bagge, Isabelle Pano, Julia Ren Liu, Kina Lagneskog, Minna Westerberg Ekman, Nora Hedin, Pille-Riin Kurrikoff, Rebecka Nienkerk, Shih-Ying Chen. Contraltos: Ella Larsson, Felicia Kvarfordt, Graziella Tabacaru, Ida Lindholm, Izabelle Brattås, Karolina Martinsen, Klara Meurk, Lee Ann Madissoon, Mikaela Lindstedt, Sara Jaeger. Tenores: Emil Olofsson, Hendrik Vija, Jared Knutti, Julius Jernberg, Ludvig Siljeholm, Orgil Jargalsaikhan, Oskar Rune, Vidar Fors, William Osika. Barítonos/Baixos: Daniel Eriksson, Eyvind Bache Blix, Felix Westin, Gustav Lundberg, Perikles Nalbantis, Philip Brandin, Rasmus Engblom Strucke, Tomáš Hart. 
ORQUESTRA SINFÓNICA DO ESTADO DA LITUÂNIA Director Artístico e Maestro: Gintaras Rinkevičius.
SOLISTAS Jamal Moore, Evita Rudžionyte.
PRODUÇÃO DE VÍDEO E ÁUDIO Produtores de gravação: Vilius Keras e Aleksandra Kerienė (Baltic Mobile Recordings). Realizador de vídeo: Jonas Juozapaitis. Directora de Edição: Justina Dovydaitytė. Director de Gravação: Vilius Keras. Director de Fotografia: Deividas Nutautas. Videógrafos: Jonas Burnickis, Deimantas Kučinskas, Deivis Nutautas, Edvinas Urnikas, Giedrius Ilgūnas, Mindaugas Bagdonas, Mykolas Alekna, Skirmantas Jankauskas. Engenheiro de vídeo: Skirmantas Bajoras. Produtor de vídeo dos bastidores: Kipras Štreimikis. Engenheiros de som: Giedrius Ūsas e Donatas Kielius. 
PROJECTO DE ILUMINAÇÃO Aurimas Vilda (Serviço de Produção do Báltico).

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Fernando Pessoa e a Mensagem


Fernando Pessoa (1888-1935)
A "Mensagem" de Fernando Pessoa 
 "O meu livro "Mensagem" chamava-se primitivamente "Portugal". Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar — a observação era por igual patriótica e publicitária — que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia. «Quer V. pôr o título do seu livro em analogia com "portugalize os seus pés?"» Concordei e cedi, como concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador. Pus-lhe instintivamente esse título abstracto. Substituí-o por um título concreto por uma razão... E o curioso é que o título "Mensagem" está mais certo — àparte a razão que me levou a pô-lo — de que o título primitivo. Deus fala todas as línguas, e sabe bem que o melhor modo de fazer-se entender de um selvagem é um manipanso e não a metafísica de Platão, base intelectual do cristianismo. Reservo-me porém o direito de pensar que tal forma da religião é uma forma inferior. É sem dúvida necessário que haja quem descasque batatas, mas, reconhecendo a necessidade e a utilidade do acto descascador, dispenso-me de o considerar comparável ao de escrever a "Ilíada". Não me dispenso porém de me abster de dizer ao descascador que abandone a sua tarefa em proveito da de escrever hexâmetros gregos. "
Fernando Pessoa , in Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979

BRASÃO

Bellum Sine Bello

I. Os Campos

Primeiro / O dos Castelos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar ’sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.

Segundo / O das Quinas

Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.

II. Os Castelos

Primeiro / Ulisses

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

Segundo / Viriato

Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.

Nação porque reincarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
Fernando Pessoa, in Mensagem, Editora Assírio & Alvim

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Viajar por Portugal

O teu Olhar

Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

Florbela Espanca, sonetos



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