sábado, 18 de julho de 2026

A propósito do novo livro do poeta Manoel de Andrade

O poeta Manoel de Andrade publicou o livro " Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre  Cristianismo e Espiritismo ",que foi anunciado neste blog e  de que  já publicamos um pequeno excerto.
É um livro invulgar, diferente  do poeta de quem tantas páginas temos já publicadas neste espaço. Tem-nos honrado com a magia rica da sua poesia , habituando-nos a um deslumbre imersivo sempre que lemos ou relemos  os seus poemas. Do seu  longo labor literário , destaca-se também  o volumoso registo de memórias, ( "Nos rastros da Utopia") que traça, perante o leitor, o período em que o autor esteve em diáspora pela América Latina, pugnando pela liberdade, já que não lhe era permitido ser bardo livre no seu país . Nesse exílio,  escreveu um dos mais belos  gritos poéticos  " Poemas para a Liberdade", contra a tirania na América Latina.  
Aparece-nos , agora, com este novo  livro dedicado a outra causa que nos  faz pensar: o estudo aprofundado do Cristianismo e do Espiritismo. Uma obra que nos faz pensar porque, além do tema que não conhecemos , ou seja, não somos devidamente instruídos, nos questiona,  ao colocar  a premissa   " Em busca da verdade", no próprio título, que, nas primeiras páginas,  é abordado pelo autor da Apresentação da obra, Luiz Henrique da Silva, deste modo:
O que é a Verdade?
O sugestivo título deste livro, que atendendo ao honroso convite do autor temos o prazer de apresentar, propõe aos seus leitores a íntima procura de autoconhecer-se, porque a busca da verdade será sempre o mais belo ideal de um homem espiritualizado.
A noção de verdade varia significativamente entre distintas culturas, refletindo divergentes perspectivas sobre a natureza da realidade e do conhecimento.
É importante considerar o contexto em que a verdade é discutida, pois diferentes culturas -- sejam elas filosóficas, religiosas e científicas -- podem ter seus exclusivos pressupostos e valores. Cada doutrina, ciência ou credo tem sua própria abordagem para entendê-la e defini-la."

É nessa questão que se postula o desafio.  Como encontrar ou definir   a verdade nas suas diferentes asserções ?!
E o apresentador , Luiz Silva , prossegue para estabelecer o âmbito e finalidade da obra:

Entendemos que o rico conteúdo desta obra é um ponto de encontro entre o Cristianismo e o Espiritismo, trazendo expressivas reflexões sobre as memoráveis passagens do Evangelho e os relevantes temas sobre a Doutrina Espírita. Suas páginas marcam o roteiro de uma busca evangélica e doutrinária da verdade, através dos sublimes exemplos deixados por Jesus e dos conhecimentos revelados pelo Consolador. Que Jesus continue a inspirar todos que de uma forma ou de outra colaboraram na construção deste farol de luz, em especial nosso irmão e amigo Manoel de Andrade que com sua dedicação, trabalho e reflexão compartilhou através das páginas deste livro a Luz que estava embaixo do alqueire"

Entretanto, Manoel de Andrade  esclarece-nos sobre a rica e laboriosa  agenda de que emergiu  esta obra: 

A coletânea de reflexões que constam destas páginas exprime uma modesta interpretação dos roteiros agendados para as noites de estudos, e compartilhados, todas as terças-feiras, pelos nossos aplicativos de mensagens, visando motivar o grupo para o tema do dia. São singelos comentários sobre o assunto apresentado semanalmente e cuja ordem segue a mesma disposição dos sumários dos cinco livros do Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita (EADE). Considerei adequado reuni-los e ordená-los com o objetivo de deixar um duradouro registro destes luminosos anos de busca e de encontro com o conhecimento. Esperamos que estas despojadas anotações, caso venham a se transformar em livro, adicionem um quarto título ao catálogo de publicações da nossa Casa, como um testemunho do amor pelo estudo, que enaltece e distingue a história do Centro Espírita Luz da Caridade.
Bem quiséramos que o destino destas reflexões fosse além do grupo de estudos do nosso Centro, e pudesse, pela sua fraterna intenção, complementar os estudos do EADE em muitas outras casas espíritas. Entregamos aqui a nossa parte, rogando a Jesus que possa ser repartida com todosManoel de Andrade, Curitiba, outono de 2025.

A sensibilidade do poeta de Curitiba revela-se em muitas destas páginas. É a alma de um bardo que procura e sinaliza as palavras que devem compor as linhas da sua imersão no estudo dos textos religiosos , nas diferentes exposições, resultantes das abordagens que vai realizando ao longo do tempo,  nos mais variados e  afins  temas deste estudo.
O lírico  e  forte poder  das palavras  surge nesta Prece de Gratidão, constante das primeiras páginas do livro , para enquadrar o largo percurso da procura, do estudo :

Senhor e Mestre Jesus!
Chegamos hoje ao final da primeira etapa da nossa longa jornada de estudos do Cristianismo e este é o momento para agradecer a Deus, a ti Senhor Jesus, que és o nosso maior educador. Agradecer aos amigos espirituais que nos inspiraram e também a todos que participaram, como ouvintes ou como expositores, neste belíssimo itinerário marcado pela busca e pelo encontro com tantos novos conhecimentos.
Amado Mestre, no início dessa peregrinação estudamos as religiões não cristãs inspiradas pelos grandes iniciados que antecederam a tua chegada. Depois nossa busca descreveu a missão celestial de Maria e o teu nascimento naquele humilde estábulo de Belém. Estudamos tua infância em Nazaré e teu encontro com João Batista nas águas do Jordão, anunciando os primeiros passos de tua sublime missão no mundo.
Revimos tuas pegadas nos caminhos da Galileia, a escolha dos apóstolos, tuas curas, tuas pregações, teus passos sobre as águas, a pesca milagrosa, a multiplicação dos pães, a tua incomparável mensagem no Sermão da Montanha e o esplendor da tua imagem no Tabor, diante da presença espiritual de Moisés e de Elias.
Estas foram as partes mais belas do nosso estudo, quando buscamos contar a história viva dos teus atos até a chegada em Jerusalém, montado num jumentinho e saudado pelo povo na festa da Páscoa.
Depois, as tuas recomendações na Última Ceia, a promessa de um Consolador, tua humildade lavando os pés dos discípulos e o patético anúncio da traição. Ao final, tua presença no Jardim das Oliveiras, tua oração em lágrimas, o beijo de Judas, o julgamento mais iníquo da História, a coroa de espinhos, a via dolorosa e o martírio da crucificação.
Mas a noite passou e ressurgiste na aurora da ressurreição, no sepulcro vazio, nas tuas aparições aos discípulos, e na ascensão ao Mundo Maior.
Tudo isso estudamos, Senhor, para relembrar tua incomparável missão. Desde a manjedoura até o calvário e do calvário até tua volta ao Reino de Deus.
E depois que Tu partiste, pelo estudo dos Evangelhos passamos a expor com emoção os teus ensinamentos através das páginas de Mateus, Marcos, Lucas e João, contamos a história daqueles que, em Jerusalém, morreram por ti na glória do martírio. Contamos e recontamos sobre a vida e as obras do convertido de Damasco que, muito além da Palestina, saiu pelo mundo para pregar o teu Evangelho e cujas cartas falam do amor, da fé e da esperança, espalhando, até os confins da Terra os teus imperecíveis ensinamentos.
Mas isso não foi tudo, Mestre. Nossos estudos tiveram que apontar o surgimento de teologias que, nos primeiros séculos, desfiguraram a simplicidade dos tuas verdades, estabelecendo polêmicas estéreis e dogmáticas em torno da tua natureza espiritual; tivemos que recordar com tristeza os mártires que, honrando teu nome, caíram na Palestina e em Roma condenados pelo poder da intolerância; lastimar aqueles que renasceram com a missão de corrigir os desvios do Evangelho, mas traíram a promessa espiritual promovendo a violência e transviando-se do caminho. Aqueles que usaram teu nome para instigar as guerras santas e promover tantos desregramentos no seio eclesiástico do Cristianismo.
Hoje, ao encerrar esta primeira etapa, podemos te dizer o que Paulo disse a Timóteo: “Combatemos o bom combate, acabamos a carreira e guardamos a fé”. Por isso, creio que, neste momento, posso falar, com a permissão e em nome de todos aqui em oração, para juntos dizermos, muito obrigado, Mestre. Obrigado por estarmos um ano inteiro contigo, relembrando a cada sete dias teus exemplos e teus ensinamentos. Obrigado por termos cumprido uma tarefa tão auspiciosa, tarefa que aumentou nossa confiança nas tuas verdades e o significado de amar-nos como tu nos amas. Te agradecemos, mas também te rogamos que continues conosco inspirando o seguimento desses estudos para que, nos compromissos deste ano, possamos interpretar com bom ânimo e com a sabedoria do coração as páginas que nos esperam com teus ensinos e tuas parábolas.
Na magia e no encanto desta prece te enviamos a nossa imperecível gratidão. Obrigado, Mestre. Obrigado sempre. Assim seja.

O livro é um manancial de aprendizagem. Os temas são tão abrangentes que, de uma leitura atenta, resulta um outro conhecimento para aqueles  que , como nós , nunca aprofundámos ou dominamos estes ensinamentos  doutrinários. 
Enquanto obra literária  é um expoente de um notável  fluir encadeado , numa prosa clara e rica, que sabe prender o leitor e o obriga  a  explorar, com  aprazível atenção,  todas as páginas que compõem o livro.    A profusão de conhecimentos e a soberba cultura deste exímio poeta brasileiro, emergem desta  obra,  em consonante parceria.
Uma obra que merece e tem merecido  os aplausos e o interesse de todos os  que não perdem uma grande e enriquecedora  obra.
E , para fechar, usemos as palavras deste nosso aplaudido poeta, nas últimas páginas do livro :
Com os instrumentos da cultura, o homem é, ao mesmo tempo, criatura e criador que, através dos tempos, criou o seu “admirável mundo novo”, muito diferente do cenário tosco, inculto e primitivo que encontrou em sua origem ancestral. Esse é o supremo privilégio do homem: a sua capacidade de aperfeiçoar-se. Essa bela significação faz da cultura o nosso maior tesouro, nosso legado social herdado de muitas gerações e transmitida pela palavra falada e escrita. A linguagem é nosso mais belo e poderoso instrumento de expressão pessoal e da nossa interação cultural coletiva. “A minha pátria é a língua portuguesa”, escreveu o poeta Fernando Pessoa (1888-1935) e Martin Heidegger (1888-1976), um dos mais importantes filósofos de século XX, afirmava que “A língua é o solo comum da cultura de um povo”.
Se buscarmos a essência da cultura espírita encontraremos sua expressão na fé raciocinada, na existência de Deus, na imortalidade da vida, nas moradas do Universo, na relação com os Espíritos e na crença das vidas sucessivas. Tudo isso e muito mais revelam o diferenciado conteúdo cultural do Espiritismo: a bandeira da caridade, o impositivo da transformação moral, o perdão incondicional das ofensas, a missão de interpretar a mensagem do Consolador na vivência cotidiana do Evangelho, o dever de “amarmo-nos e instruirmo-nos”, e a certeza da imortalidade nos abrindo o caminho para a vida futura e o encontro com a família universal. Que mais elevada expressão de cultura poderia ter um habitante de um mundo de expiações e provas?

Obrigado, sempre, caro poeta.

Sobre o Livro:
"EM BUSCA DA VERDADE
Reflexões e Estudo aprofundado sobre o Cristianismo e Espiritismo
"

Redação e organização do texto
Manoel de Andrade

Diagramação
Odete Cachuba

Revisão ortográfica e gramatical
Neiva Terezinha Piacentini de Andrade

Capa
Cleto de Assis

CENTRO ESPÍRITA LUZ DA CARIDADE
Rua Mato Grosso, 145 – Água Verde
CEP: 80260-070 – Curitiba - Paraná

Toda a receita sobre a venda desta obra será integralmente creditada para o Centro Espírita Luz da Caridade.

Os Amantes da Humanidade

 

Os Amantes da Humanidade

Os homens que amam a humanidade
detestam as pessoas, uma a uma.
Esse amor convive bem com crueldade
e vive, hirto, em penosa bruma.
 
O amor abstracto é confortável,
porque tem muito poucas exigências.
É um amor frio e pouco afável,
que não se desgasta em minudências.
 
É amor distante e algo sinistro,
incapaz de um orgasmo verdadeiro.
É um despacho seco de ministro,
 
um amor que ao amor é estrangeiro.
Amar a humanidade, em geral,
é um amor castrado e doutrinal.
Eugénio Lisboa, poesia inédita, 05.07.2023

 Grande Guerra


"Podes-me roubar o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come
Porém, como roubar a inextinguível Fome?

Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.

Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me , até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.

Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal...e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...

Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...

Podes cobrir-me o nome de impropérios; 
Tu , que és o senhor dos impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?

Podes tirar-me paz, saúde , e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.

Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos  sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?

És sempre o mesmo, tu, cujas razões supremas
São mordaças, grilhões, vendas. algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.

Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
" Filho , vem até mim!
" A História principia onde eles põem : fim."
José Régio, in " Grande Guerra de A Chaga do Lado ", Portugália Editora, 3ª edição: 1970, pp.115-119

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Quando não havia senão noite

Quando não havia senão noite 
por Mia Couto
“Antigamente,  e Deus pastoreava as estrelas no céu. Quando lhes dava mais alimento elas engordavam e a sua pança abarrotava de luz. Nesse tempo, todas as estrelas comiam, todas luziam de igual alegria. Os dias ainda não haviam nascido e, por isso, o Tempo caminhava com uma perna só. E tudo era tão lento no infinito firmamento!
Até que, no rebanho do pastor, nasceu uma estrela com ganância de ser maior que todas as outras. Essa estrela chamava-se Sol e cedo se apropriou dos pastos celestiais, expulsando para longe as outras estrelas que começaram a definhar.
Pela primeira vez houve estrelas que penaram e, magrinhas, foram engolidas pelo escuro. Mais e mais o Sol ostentava grandeza, vaidoso dos seus domínios e do seu nome tão masculino. Ele, então, se intitulou patrão de todos os astros, assumindo arrogâncias de centro do Universo. Não tardou a proclamar que ele é que tinha criado Deus.
O que sucedeu, na verdade, é que, com o Sol, assim soberano e imenso, tinha nascido o Dia. A Noite só se atrevia a aproximar-se quando o Sol, cansado, se ia deitar. Com o Dia, os homens esqueceram-se dos tempos infinitos em que todas as estrelas brilhavam de igual felicidade. E esqueceram a lição da Noite que sempre tinha sido rainha sem nunca ter que reinar.”
MIA COUTO, in “A confissão da leoa”Editorial Caminho, Abril de 2012

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Vozes de Bantu

Abel Selaocoe interpreta a  obra "Vozes de Bantu" que revela   o talento multifacetado de Abel Selaocoe no violoncelo, na voz e na improvisação: a sua abertura inspira-se na melodia de "Les Voix Humaines", do compositor barroco Marin Marais, antes de evoluir para algo completamente novo.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Escrever e ler são formas de fazer amor

Seduzindo para o prazer de ler
por Rubem Alves
"Nietzsche estava certo: “De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo – ler um livro é simplesmente algo depravado…” É o que sinto ao andar pelos maravilhosos caminhos da Fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas. Procuro esquecer-me de tudo o que li nos livros. É preciso que a cabeça esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam ver. Aprendi isso lendo Alberto Caeiro, especialista inigualável na difícil arte de ver. Dizia ele que “pensar é estar doente dos olhos…”. Mas meus esforços são frustrados. As coisas que vejo são como o beijo do príncipe: elas vão acordando os poemas que aprendi de cor e que agora estão adormecidos na minha memória. Assim, ao não pensar da visão une-se o não pensar da poesia. E penso que o meu mundo seria muito pobre se em mim não estivessem os livros que li e amei. Pois, se não sabe, somente as coisas amadas são guardadas na memória poética, lugar da beleza. “Aquilo que a memória amou fica eterno”, tal como o disse Adélia Prado, amiga querida.
Os livros que amo não me deixam. Caminham comigo. Há os livros que moram na cabeça e vão se desgastando com o tempo. Esses, eu deixo em casa. Mas há os livros que moram no corpo. Esses são eternamente jovens. Como no amor, uma vez não chega. De novo, de novo, de novo…
Um amigo me telefonou. Tinha uma casa em Cabo Frio. Convidou-me. Gostei. Mas meu sorriso entortou quando ele disse: “Vão também cinco adolescentes…” 
Adolescentes podem ser uma alegria. Mas podem ser também uma perturbação para o espírito. Assim, resolvi tomar minhas providências. Comprei uma arma de amansar adolescentes. Um livro. Uma versão condensada da Odisseia, as fantásticas viagens de Ulisses de volta a casa, por mares traiçoeiros…Primeiro dia: praia; almoço; sono. Lá pelas cinco, os dorminhocos acordaram, sem ter o que fazer. E, antes que tivessem ideias próprias, eu tomei a iniciativa. Com voz autoritária dirigi-me a eles, ainda sob o efeito do torpor: “Ei, vocês… Venham cá na sala. Quero lhes mostrar uma coisa…” Não consultei as bases. Teria sido terrível. Uma decisão democrática das bases optaria por ligar a televisão. Claro. Como poderiam decidir por uma coisa que ignoravam? Peguei o livro e comecei a leitura. Ao espanto inicial seguiu-se silêncio e atenção. Vi, pelos seus olhos, que já estavam sob o domínio do encantamento. Daí para a frente foi uma coisa só. Não me deixavam. Por onde quer que eu fosse, lá vinham eles com a Odisseia na mão, pedindo que eu lesse mais. Nem na praia me deram descanso..
Essa experiência me fez pensar que deve haver algo errado na afirmação que sempre se repete de que os adolescentes não gostam da leitura. Sei que, como regra, não gostam de ler. O que não é a mesma coisa que não gostar da leitura. Lembro-me da escola primária que frequentei. Havia uma aula de leitura. Era a aula que mais amávamos. A professora lia para que nós ouvíssemos. Leu todo o Monteiro Lobato. E leu aqueles livros que se liam naqueles tempos: Heidi, Pollyanna, A ilha do tesouro. Quando a aula terminava, era a tristeza. Mas o bom mesmo é que não havia provas ou avaliações. Era prazer puro. E estava certo. Porque esse é o objetivo da literatura: prazer. O que os exames vestibulares tentam fazer é transformar a literatura em informações que podem ser armazenadas na cabeça. Mas o lugar da literatura não é a cabeça: é o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformações alquímicas que deseja realizar. Se não concorda, que leia Guimarães Rosa que dizia que literatura é feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano.
Quando minha filha estava sendo introduzida na literatura, o professor lhe deu como dever de casa ler e fichar um livro chatíssimo. Sofrimento dos adolescentes, sofrimento para os pais. A pura visão do livro provocava uma preguiça imensa, aquela preguiça que Barthes declarou ser essencial à experiência escolar. Escrevi carta delicada ao professor lembrando-lhe que Borges havia declarado que não havia razão para se ler um livro que não dá prazer quando há milhares de livros que dão prazer. Sugeri-lhe começar por algo mais próximo da condição emotiva dos jovens. Ele me respondeu com o discurso de esquerda, que sempre teve medo do prazer: “O meu objetivo é produzir a consciência crítica…” Quando eu li isso, percebi que não havia esperança. O professor não sabia o essencial. Não sabia que literatura não é para produzir consciência crítica.
O escritor não escreve com intenções didático-pedagógicas. Ele escreve para produzir prazer. Para fazer amor. Escrever e ler são formas de fazer amor. É por isso que os amores pobres em literatura ou são de vida curta, ou são de vida longa e tediosa… Parodiando as palavras de Jesus, “nem só de beijos e transas viverá o amor, mas de toda palavra que sai das mãos dos escritores…”.
Rubem Alves, in  A educação dos sentidos, Paidós, 2025


SOBRE O LIVROrevistaprosaversoearte.com - 'Seduzindo para o prazer de ler', por Rubem Alves

POESIA, MÚSICA, PINTURA, ESCULTURA, DANÇA, TEATRO, CULINÁRIA: SÃO TODAS BRINCADEIRAS QUE INVENTAMOS PARA QUE O CORPO ENCONTRE A FELICIDADE.
"Em A educação dos sentidos , Rubem Alves  convoca-nos a redescobrir a educação como forma de arte, como um caminho sensível e poético para aprender a ver, ouvir, sentir e, acima de tudo, encantar-se com o mundo. Em cada crónica somos lembrados que ensinar não é apenas transmitir conhecimento, mas também abrir portas para o prazer da descoberta, tornando os sentidos instrumentos de amor e admiração pela vida. Com delicadeza e perspicácia, o autor desafia os modelos rígidos de ensino e propõe um olhar mais livre e amplo, em que a educação não se limita a fórmulas e regras, mas se expande em imaginação, brincadeira e beleza.
Inspirado nas próprias memórias, em reflexões filosóficas e referências literárias, Rubem Alves transforma o ensino numa experiência sensorial e afetiva. Nas páginas a seguir, seremos levados a questionar se educar é formar especialistas ou ensinar a olhar; entre ciência e poesia, lógica e sonho, observaremos uma visão inspiradora ser construída, na qual a busca pelo saber se confunde com o desejo de viver intensamente.
Mais do que um livro sobre Educação – assim, com inicial maiúscula –, esta obra é um presente para quem deseja resgatar a alegria do aprendizado e voltar a ver o mundo com olhos atentos e curiosos.

FICHA TÉCNICA
Título: A educação dos sentidos
Páginas: 144
Formato: 16 x 1 x 23 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 28/04/2025 (3ª edição)
ISBN: 978-8542233292
Selo: Paidós

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Semeador

Manoel de Andrade

Manoel de Andrade tem uma variada obra publicada. É um dos mais  notáveis poetas do Brasil . Este blog orgulha-se de o revisitar, com deliciosa frequência.  
Lançou no nono dia do passado mês de Junho,   um fecundo livro " Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre  Cristianismo e Espiritismo ". Neste último livro, este intelectual brasileiro transmite-nos, através de doutos comentários, os longos e profundos estudos que tem realizado sobre o Velho e o Novo Testamento.  "Muitas histórias sobre a vida de Jesus , de leitura e releitura  das obras básicas e complementares da Doutrina Espírita e de muitos anos  na busca da beleza e do conhecimento na História, na Filosofia, na Ciência , nas Religiões, na Arte e na Literatura."
É dessa obra que se extraiu o apontamento que se segue:

MÓDULO III - ENSINOS POR PARÁBOLA 
1                                                                  
O SEMEADOR
por Manoel de Andrade
     "A Parábola do Semeador é uma das mais preciosas pérolas do tesouro do Evangelho. Essa singela narrativa de Jesus, pela sua pedagógica importância, mereceu seu registro nos evangelhos sinóticos de Marcos, Mateus e Lucas e até no evangelho apócrifo de Tomé. É uma bela alegoria carregada de poético lirismo, metáforas de conteúdo moral e de profundos ensinamentos para a vida, dando-nos a entender que, espiritualmente, a colheita de hoje é o fruto do que plantamos no passado e, pelo que agora estamos semeando, podemos prever o que colheremos no futuro.
     A linguagem simbólica das sementes é uma das mais belas formas de se expressar a fé no futuro, nas expectativas do porvir, na promessa de flores e de frutos, porque pela mágica germinação de uma semente pode brotar um jardim, um pomar, um bosque ou uma floresta inteira, assim como alguns punhados de sementes podem encher de espigas um campo de trigo.
     Nos dias difíceis em que vivemos, ameaçados pelas ervas daninhas espalhadas pelos malefícios humanos, as sementes do amanhã, que a ciência planta em cada um de nós e em toda a humanidade, é a melhor promessa que podemos receber do real significado da vida. Além disso, a promissão de um mundo regenerado, de um homem novo, transformado moralmente, é o mais belo grão de esperança que poderemos semear em nossas almas.
     Há muitos anos, vivendo no exílio na América Latina e pensando no significado ideal da liberdade, escrevi um longo poema chamado O Sonho do Semeador, e hoje, pensando no mundo de regeneração que todos ansiamos, permitam-me compartilhar aqui, nos seus versos finais, uma parte daquele meu sonho de poeta:

Venham... esse é o tempo das sementes...
vamos cantar os grãos e as espigas
as flores e os frutos.
Vamos abrir com lirismo nossas almas
e lavrar a terra com as promessas da esperança.
Vamos declamar com coragem os nossos sonhos
e acreditar numa humanidade feita de irmãos e companheiros
Não importa se tivermos que morrer às vésperas desse alvorecer
mas o nosso canto há de sobreviver na alma
e nos lábios do homem novo.
Venham todos
vamos partir daqui,
desta canção.
Ela é apenas um primeiro passo...
oh... venham por favor...
é preciso que cada um faça sua parte
porque é imprescindível acreditar no amanhã.
Oh! eu sei..., eu sei...,
é tão pouco...
é quase nada o que pode a poesia no mundo dos homens,
mas é ela que fermenta o sonho
que contém a chave do coração e o segredo da beleza.
Grande e humilde
a poesia é tão misteriosa como uma semente...
e a semente é um sonho alucinante
porque promete a flor,
o fruto, a sombra
e a floresta deslumbrante."
Manoel de Andrade , in Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre  Cristianismo e Espiritismo, Centro Espírita Luz da Caridade, Curitiba, Brasil,  pp.175-176

domingo, 12 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música



Sem a música, a vida seria um erro.
    Friedrich Nietzsche

Para reiterar  o que  Nietzshe afirma, apresentámos, com ênfase impune, a selecção musical deste domingo. 
 
De Rachmaninoff Piano Concerto No. 2.,Khatia Buniatishvili interpreta  Adagio Sostenuto
"Em 1975, Eric Carmen ouviu esta melodia e transformou-a numa das canções pop mais famosas de sempre ("All by Myself"). Ele tinha razão. O Adagio sostenuto do Concerto para Piano n.º 2 , de Rachmaninoff contém uma das mais belas e comoventes melodias da história da música ocidental, uma linha tão completa, tão perfeitamente formada, que estava praticamente à espera de ser roubada. Mas antes da canção pop, antes das bandas sonoras dos filmes, antes de todos os clichés românticos que se apropriaram dela — havia isto. O original. A fonte. E, nesta interpretação de Khatia Buniatishvili com a Filarmónica do Teatro Regio Torino, ouve-se exactamente por que razão é que alguém não conseguiu deixá-la em paz. O andamento começa com um diálogo entre clarinete e flauta que soa como uma conversa entre duas pessoas que ainda não sabem que estão apaixonadas. Depois entra o piano e tudo muda. Buniatishvili interpreta o Adagio com uma liberdade improvisatória que faz com que a melodia soe como uma descoberta recente, em vez de uma repetição infinita. 
Este é o Adagio de Rachmaninoff  tal como deve ser sentido; não como um clássico, mas como um segredo."
.  
Céline Dion interpreta a canção de Eric Carmen All By Myself (Official Remastered HD Video).

sábado, 11 de julho de 2026

Sobre o beijo


O beijo na boca tem muito mais milhões de anos do que pensávamos
por Sergio Parra
"Uma nova análise sugere que o beijo na boca, longe de ser uma invenção cultural moderna, pode ter surgido há mais de 21 milhões de anos entre os primeiros ancestrais dos grandes símios.
De acordo com um estudo de 2007, um único beijo apaixonado promove a transferência de até mil milhões de bactérias de uma boca para outra, juntamente com cerca de 0,7 miligramas de proteína, 0,45 miligramas de sal, 0,7 microgramas de gordura e 0,2 microgramas de "compostos orgânicos variados", ou seja, restos de comida. Mas porque existe o beijo? Não é uma fonte de infecções?
Existem gestos humanos que parecem tão profundamente pessoais e culturais que é fácil esquecer a sua dimensão evolutiva. De acordo com um novo estudo publicado na revista Evolution and Human Behavior, o beijo na boca não é uma invenção recente nem exclusivamente humana, mas um comportamento com profundas raízes biológicas que pode remontar à linhagem comum dos grandes símios, há entre 21,5 e 16,9 milhões de anos.
Esta descoberta, que desafia a ideia de que o beijo evoluiu como um gesto exclusivamente cultural, baseia-se numa extensa análise filogenética de dados observacionais sobre o comportamento social em primatas. Investigadores do Departamento de Biologia da Universidade de Oxford, liderados pela bióloga evolutiva Matilda Brindle, reuniram evidências de interacções orais não agressivas em chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas, concluindo que esse tipo de contacto já estava presente nos ancestrais comuns a essas espécies.

O que é um beijo?
O beijo é definido nesta investigação como um acto não violento de contacto entre bocas, com movimento, mas sem transferência de alimento. Esta definição evita abordagens antropocêntricas e permite identificar comportamentos semelhantes em diferentes espécies. O problema é que este tipo de interacções não deixa vestígios fósseis. Por isso, a equipa optou por uma reconstrução filogenética, utilizando modelos bayesianos e milhões de simulações para rastrear probabilidades evolutivas.
Os resultados desta abordagem não só situam a origem do beijo muito antes do que se pensava, como também apoiam a hipótese de que os neandertais e outros hominídeos extintos podiam praticá-lo e até partilhá-lo com o Homo sapiens durante os períodos de hibridização entre espécies.
Apesar da surpreendente descoberta, o estudo também deixa muitas questões em aberto. Entre elas, a mais intrigante: porque nos beijamos? Embora o beijo possa fortalecer os laços sociais, servir como prelúdio sexual ou ajudar a avaliar possíveis parceiros através de sinais químicos, continua a ser um comportamento que implica riscos, como a transmissão de doenças. Em termos evolutivos, não está claro se os seus benefícios superam esses custos.

Uma parte cultural
Nesta linha, os investigadores apontam que o comportamento do beijo não é universal nem entre os primatas nem entre os humanos. Estudos antropológicos indicam que apenas 46% das culturas humanas documentadas praticam o beijo romântico. Essa variabilidade sugere que, embora possa haver uma base biológica para o beijo, a sua expressão depende em grande parte do contexto social e cultural.
Além disso, as informações sobre esses comportamentos em animais selvagens ainda são limitadas. Grande parte dos dados provém de observações em zoológicos e santuários, onde o ambiente controlado pode influenciar os comportamentos. Por isso, os investigadores sublinham a necessidade de mais estudos em populações selvagens e em espécies fora do grupo dos grandes símios, para compreender melhor como o beijo pode ter surgido e se transformado ao longo de milhões de anos.” in Revista National Geographic

Entretanto , fomos para além destas formulações. Demos voz à   música, onde tudo é mais simples. Harmonioso. Nela, o beijo  é mote de muitas canções. Encantámo-nos e  seleccionámos   algumas, cantadas em português. 
 
 Só um beijo, por Luísa Sobral com Salvador Sobral -  | Eléctrico | Antena 3
   
  Solta-se o beijo, por Ala dos Namorados & Sara Tavares & Nuno Guerreiro. 
   
Beijo de Saudade, por  Mariza e Tito Paris.
Beijo, por  Pedro Abrunhosa  e Os Bandemónio.
Primeiro beijo, por Rui Veloso .