LIVRES PENSANTES
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
domingo, 26 de abril de 2026
Ao Domingo Há Música
sábado, 25 de abril de 2026
Recordar Abril... O oitavo dia da semana
por José Manuel Mendes
“Eu estava lá. Posso-lhe dizer que não saberei como foi possível caber tanta gente numa só voz. Faço-me entender? Eram muitas as vozes, milhares e milhares, mas havia uma que vinha de todas elas e ficava a pairar. Uma revoada, uma música de mar. Cada um de nós a ouvia à sua maneira. Eu ouvia-a pensando no inverno de sessenta cinco, o meu tio preso, o meu tio tinha-se envolvido nas greves da margem sul, as nossas visitas a Caxias, o pavor e a revolta, imagine com que coração atravessávamos os portões!, o vento a varejar as árvores quando saíamos. Ouvia-a também por entre as imagens da guerra nas fotos dos amigos, contaram-me estórias de arrepiar, iguais decerto a todas as estórias de guerra, mas havia uma diferença, na Guiné ou em Angola morriam tipos do meu bairro, tipos que jogavam matraquilhos nos cafés onde ia tomar a bica, um desses foi abatido a meio de um sorriso, o horror a preto e branco, corpos desfeitos no capim, navios carregados largando o cais. E o silêncio depois. O silêncio da angústia, o silêncio do luto.
Estava lá, mesmo junto dos blindados. A barba por fazer, cigarro atrás de cigarro, duas maçãs nos bolsos. Vim para a rua a esfregar os olhos, cheio de sono, e corri para o Carmo. Como a cidade inteira, afinal. Ou antes, como os que esqueceram o medo. Porque a derrota ainda poderia surgir, claro. A ansiedade crescia, tornava-se clamor, tantas palavras inventávamos, nem calcula as palavras que acolá nasciam para andarem de boca em boca, a tropa nervosa, um braço no gatilho, outro na festa, uma festa com subterrâneos de dúvida, note que não faltavam agoiros, preces, gestos temerosos. E lágrimas, lágrimas. Lembro-me sempre da velhinha, atrás de mim, murmurando Jurem-me que é verdade, o rosário na mão, as contas caindo dos dedos até serem apenas cruz, murmurando e chorando, Jurem-me, um homem cortava presunto à navalha, oferecia aos militares, já o osso brandia no ar das palmas, dos punhos, das cantigas, alguém assomou a uma janela e pôs balões a subir, balões de feira, pombas de várias cores em viagem por cima dos telhados
E, a dada altura, os tiros. Segundos de respiração suspensa, barulho de água a precipitar-se, a multidão em sobressalto. Os rostos fitando a entrada do Quartel. Que se passaria além daqueles muros onde estrebuchavam quarenta e oito anos de ditadura? Que se passa, nosso cabo? Alguma novidade, senhor jornalista? Nada, conjecturas, rumores. Nada. No fundo da alegria sentíamos charcos, essa coisa pegajosa chamada angústia. O tal receio de um desaire. Pequeno e imenso receio, acredite. Entoámos o Hino Nacional. Gritámos Liberdade, Fascismo Nunca Mais, desejos assim. Desejos ou certezas, tudo se confundia. E Vitória, Vitória, quantos vês em movimento de onda sobre o dique entretanto derrubado?, chegou a notícia da rendição, chegavam cravos, vermelhos, brancos, cravos, cravos, na raiz do sangue e no cano das espingardas, pão, chouriço, cerveja, não te perguntarei o nome, soldado a quem estendo uma das maçãs camoesas, não te perguntarei por que caminhos irás, chegariam sustos e flores silvestres, transistores, ecos de um país amanhecendo, a História mudava de página, eu estava ali, percebe?, ali, uma criança trepara-me aos ombros para observar as varandas apinhadas, os carros de combate, o povo no Largo.
Creio que não, não chovia. De qualquer modo fazia sol, um sol de dentro, tão intenso como se o mundo começasse finalmente a conhecer a claridade. Sábado? Quarta-feira? Impossível recordar-me. Se calhar domingo, as pessoas desobrigadas do emprego, enchendo os passeios e as praças, Rossio, Chiado, Cais das Colunas. Os cacilheiros, as gaivotas do rio. E daí, deixe ver, os domingos são uma chatice, horas gastas de montra em montra, jardim em jardim, a remoer azedumes. Às vezes o cinema, sim. As praias na época do calor, o futebol. Domingo não, não podia ser. Teremos de imaginar um dia único, diferente dos sete dias da semana, um lugar para a dádiva e os abraços sem porquê, para o que jamais se repete, o insólito, o definitivo. Por exemplo, um oleiro no Terreiro do Paço. Um oleiro a tirar do barro crescentes de lua, flautas, placas à espera dos sinais por aprender. E, à volta, grupos a dançar. Dia único, garanto-lhe. A legenda de uma vida."
José Manuel Mendes, in Prelúdio de Outono, CCUM. Braga, 1988
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Viajar pelas ruínas de Dara e Baalbek
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Celebrar o Livro
Tudo no mundo existe para algum dia terminar num livro.Stéphane MallarméTenho para mim que sou essencialmente um leitor . Como sabem , eu me aventurei na escrita, mas acho que o que li é muito mais importante do que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta, porém não escreve o que gostaria de escrever e sim o que é capaz de escrever.Jorge Luís Borges
Um livro torna-me muito mais livre.
Um livro abre-me imensas portas.
Antes do livro, era semilivre.
Sem livro, as portas estavam tortas
e não abriam. Mas os livros abrem
portas, mesmo se tortas, porque sabem
endireitar tudo o que está torto
e ressuscitar tudo o que está morto.
Porque o livro tem vida e saber
e, muitas vezes, tem até sabor.
O saber dá-nos imenso poder
e o sabor dá-nos muito prazer!
O livro sabe, pode e contenta,
condimentado com sal e pimenta!
02.11.2022
Eugénio Lisboa, in Soneto , Modo de Usar, Editora Guerra & Paz, Abril de 2024, p 82
Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
Rainer Maria Rilke, in O Livro das Imagens, Relógio D'Água
quarta-feira, 22 de abril de 2026
No Dia Mundial da Terra
terça-feira, 21 de abril de 2026
Poesia e Música
Mariza, em "Há uma música do povo
Há uma música do povo
Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado —
Que ouvindo-a há um chiste novo
No ser que tenho guardado...
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...
E ouço-a embalado e sozinho...
É essa mesma que eu quis...
Perdi a fé e o caminho...
Quem não fui é que é feliz.
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração...
Se uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acaba com um sentido!
9-11-1928
Fernando Pessoa, in Poesias Inéditas (1919-1930).. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).
Fado Português
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'
segunda-feira, 20 de abril de 2026
No reino do ditador
depois de constante bombardear,
aquele cadáver frio que procria,
sem sabedoria nem alegria,
onde se tortura com arrogância,
e se mata irmão ou filho, que importa,
é preciso é desamparar a porta,
até aí, imóvel, caminhar,
imparável e ameaçadora besta,
outra floresta, até aí quieta,
em direcção a Macbeth, como seta!
11.05.2023
Eugénio Lisboa
| 133- Putin caricature stock illustrations |
Nero recomendava o suicídio
ou mandava a guarda pretoriana
ou também usava o matricídio,
querendo livrar-se de algum sacana.
O melhor modo de fazer calar
um adversário muito eloquente
é, sem mais, fazê-lo assassinar,
de modo rápido e eficiente.
Navalny foi agora “afastado”,
porque incomodava muita gente.
Putine, naturalmente agastado,
disse: “Quem me livra deste demente?”
Os seus assessores compreenderam
e, muito prestamente, procederam.
16.02.2024
Eugénio Lisboa SONETO MUITO GAUCHE PARA USO DOS
OPRESSORES DO MOMENTO
Os ditadores usam a cartilha
normalmente usada por quem oprime.
O opressor percebe bem que trilha
inocentes e que nada o redime.
A razão do opressor é a força,
já que outra razão não tem.
Porém a força a razão reforça
e a razão faz da força seu refém.
A sabedoria dos opressores
é o contrário de saber viver:
o uso constante dos seus terrores
é sementeira que fará colher
os tais destemidos frutos da ira,
que atira os restos da força à pira!
25.02.2022
Eugénio Lisboa, in Poemas em tempo de guerra suja , Editora Guerra & Paz , Setembro de 2022, p 17
domingo, 19 de abril de 2026
Ao Domingo Há Música
Música é a expressão perfeita de um Mundo Ideal que nos é comunicado através da harmonia. Esse mundo existe não a um nível superior ou inferior ao mundo real, mas paralelamente a este.Albert Camus, escritos de juventude.



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