LIVRES PENSANTES
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Manoel de Andrade publica um novo livro
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Celebrar o 96º aniversário de Eugénio Lisboa
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| Eugénio Lisboa (25 de Maio 1930 - 9 de Abril de 2024) |
Máquina de Assombros
Das humildes praias deste oceano,te olhámos, cosmos: era o começo.De aqui, assombros vimos: cada ano,o milagre era um recomeço.Eugénio Lisboa, O Ilimitável Oceano
Talento é acertar um alvo que ninguém acerta. Genialidade é acertar um alvo que ninguém vê.
Arthur Schopenhauer
Exm.º Presidente da APE
Exm.º Vice-Presidente da APE
Exm.ª Porta-Voz do Júri do Prémio
Exm.º Comendador Jorge Morão
"Estou
aqui, hoje, em Castelo Branco, por onde passei, em Junho de 1977, numa
atormentada viagem entre Estocolmo e Lisboa, estou aqui, dizia, para receber um
Prémio. Melhor ainda: um Grande Prémio.
Há piores razões para se estar num lugar, embora as opiniões, no que respeita a
galardões, se dividam. Os prémios, como tudo na vida, são matéria de
controvérsia. Há reacções a eles, de todos os gostos e formatos.
Há quem os recuse liminarmente. Tolstoi, por exemplo, avisou a Academia sueca,
em vias de lho atribuir, que o não fizesse, porque ele, Tolstoi, o autor
insigne da Guerra e Paz e da Ana Karenina, se
veria na obrigação de o recusar. George Bernard Shaw, o mais civilizado de
todos os recusadores, aceitou o diploma e a medalha, mas rejeitou o alentado
pacote de coroas suecas, que pouca falta lhe faziam: que o dessem, sugeriu ele,
a um jovem e promissor escritor sueco, que mal não lhe faria; Jean-Paul Sartre,
o pior dos três, recusou ostensivamente o Prémio, mas consta que mandou recado
submarino ao embaixador sueco, dizendo que não queria o diploma nem a medalha,
mas que se não importaria de ficar com o dinheiro. A elegância nunca tinha sido
o seu forte e continuaria a não sê-lo de aí em diante. Jean Cocteau, o “enfant
terrible” da literatura francesa do século passado, adoptou, a este respeito, a
atitude mais radical, ao aconselhar: “Não só não deves aceitar um prémio, como
não deves sequer merecê-lo.” Isto é, segundo o critério do autor de Orphée,
no merecer um prémio já havia um indício de cedência ou conformismo…
O já citado e eminente dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw, talvez o maior
dramaturgo em língua inglesa, depois de Shakespeare, via, na atribuição dos
prémios, um projecto amaciador, quando dizia: “O objectivo real dos prémios que
se dão nas escolas é o de encorajar as crianças a criarem o mínimo possível de
turbulência.” Eu não creio, sinceramente não creio que os meus amigos que, por
acaso, foram membros do júri, me tivessem atribuído este prémio para
pacificarem quaisquer meus pruridos de turbulência.
Outra reacção típica dos recebedores de prémios reside em afectarem um ar
recomendavelmente humilde, insinuando não merecerem eles o prémio que lhes foi
atribuído, o qual deveria ter ido parar a terceiros, que, às vezes, até
nomeiam. Foi o caso de Hemingway que, ao ser-lhe atribuído o Nobel, em 1954, se
apressou a dizer que o laureado não devia ter sido ele, mas, antes, ou o
escritor espanhol Pio Baroja ou a grande contista dinamarquesa Karen Blixen. O
que, de modo algum, implicava que o laurel lhe não tivesse sabido bem. E até
nem consta que tivesse dividido o seu valor monetário com aqueles dois
alegadamente injustiçados. Fair-play, sim, mas devagar, como certamente
recomendaria el-rei D. Sebastião.
Neste saboroso registo do “não sou eu quem merece o prémio”, o mais capitoso
exemplo que conheço é o do grande cómico americano Jack Benny, com quem
imparavelmente me ri, na minha infância e adolescência, o qual, no momento de
lhe ser outorgado um galardão qualquer, reagiu nestes termos: “Eu não mereço
este prémio, mas, se vamos a isso, também não mereço ter a artrite que tenho.”
Por outras palavras, se tinha artrite, mesmo sem merecê-la, por que não haveria
de ter um prémio, mesmo não o merecendo? Convenhamos que a lógica é
irrespondível. É esta resposta do meu outrora admirado Jack Benny que me deixa
relativamente confortável quanto à possibilidade – ou mesmo, alta probabilidade
– de eu aqui estar a receber um galardão não irresistivelmente merecido. Que
saiba, não tenho artrite, mas tenho 84 anos, que valem por não sei quantas
artrites e mais um infindável número de outras desvantagens. Venha, pois, o
prémio, mesmo com a dimensão de Grande Prémio, e aqui ficam os meus
agradecimentos aos membros do júri, a quem deu para repararem no meu livrinho.
Mentiria como um desbragado mentiroso, se dissesse que não fiquei feliz. Não
sei se ficaria igualmente feliz com um prémio atribuído a qualquer outro livro
meu (e sei do que falo, porque já os recebi). Mas o carinho e o investimento
emocional que pus neste, em particular, quero dizer: neste primeiro volume das
minhas sonhadas e arquitectadas memórias em 5 volumes, foi tão grande, que o
reconhecimento a ele dado pelo júri me caiu fundo, no coração. É, para mim, um
livro especial, como são e serão os restantes volumes da saga. Andei anos a
magicá-lo, a sonhá-lo, a fruí-lo, antes de me meter a escrevê-lo. É que iria
falar, nele – falar-vos, nele – de algo muito importante que me
aconteceu, há muitos anos, em África: ter ali nascido e ter, para sempre,
ficado espantado por isso me ter acontecido, a mim: ter nascido e
ter nascido, ali. O meu livro – e os dois volumes que se lhe
seguiram e os dois que se lhe hão-de seguir – falam o tempo todo – mesmo quando
o não dizem claramente – desse espanto inaugural, que nunca mais me abandonou,
ao longo do caminho da vida. O Alto Mahé, a Rua Norte, o Largo João Albasini, a
Estrada do Zixaxa, o Cine-Variedades, onde se inventou o cinema, mesmo em
frente à imponente Casa das Tias, a Rua Mendonça Barreto, no Alto Mahé, de onde
eu via o mundo todo, nas páginas dos livros que devorava, o liceu, no outro
extremo da 24 de Julho, o Cabo Submarino, as matinées do Scala – tudo marcas
profundas que o espanto de as ter recebido, como dom dos deuses, sem bem saber
porquê, gravou a fogo na minha memória. Ficaram cá, dentro de mim, e eu não
gostaria de ficar egoistamente com elas, de as não partilhar convosco, antes de
me ir embora para paragens de que não há nunca notícia.
Do corpo do texto deste 1º volume – o que foi premiado – transportei para a
contra capa, uma significativa passagem que ilumina o fundo do meu propósito,
ao empreender esta minha busca de um tempo (nunca) perdido: “Lanço, neste
papel, memórias que me parecem importantes – a mim.
Escrever memórias é tentar imprimir a marca da eternidade a momentos para nós
inesquecíveis e inesquecidos, intensos, mágicos, às vezes, quase
insuportavelmente vivos… mas que serão, para outros, provavelmente despidos de
interesse. Captar a atenção destes, a sua cumplicidade, atraí-los a esta
narrativa de minúcias e convencê-los de que estes momentos foram realmente algo
de especial – eis a tarefa gigantesca do memorialista. Tarefa impossível ou
quase, mas que, de quando em quando – uma vez num milhão – resulta. Não vou
meter-me a acreditar – sou paranóico, sim, mas devagar – que este meu
empreendimento é esse “um num milhão”. Mas, como acontece com todos aqueles que
pousam palavras no papel, gostaria muito que fosse. Como dizia o maluco chapado
do Álvaro de Campos, “Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez”.
Fico, pois, feliz, com o Prémio, porque alguém reparou no meu
livro e gostou dele – e um livro é um filho nosso. Não se leva a bem que o não
achem bonito. Mas fiquei também feliz – e não pouco – por verificar que há
instituições e autarquias que acreditam – bem hajam! – que a cultura é
importante para a imagem que um país projecta, em todos os sectores da vida,
que a cultura não é um mero adereço mais ou menos fútil e inócuo, que é parte
subliminarmente vital do melhor que esse país tem a oferecer. Sem uma imagem
culturalmente forte, ninguém vai ter muita fé na qualidade dos outros produtos
que ele ostenta, sejam eles industriais ou agrícolas ou meros mas não
insignificantes serviços.
Só mais uma observação: não creio que um prémio literário confira qualquer
poder ao galardoado – nem sequer poder literário. Dizia esse grande sage
americano que dava pelo nome de Oliver Wendell Holmes que “o único prémio
acarinhado pelos poderosos é o poder. Para o general, o prémio não é uma tenda
maior – o prémio é o comando.” O poder – mesmo o poder literário – foi algo que
nunca visei e junto do qual sempre respirei mal. Não seria agora, nesta hora
tardia do meu caminhar pela vida, que iria mudar o meu modo de estar no mundo.
Este prémio deixa-me feliz e grato – mas intacto.
Resta-me agradecer à Câmara de Castelo Branco, que financiou o galardão e
organizou, com cuidado e competência, a cerimónia da sua atribuição, à
Associação Portuguesa de Escritores, cujo Presidente e meu Amigo, Dr. José
Manuel Mendes, se dignou deslocar-se a esta cidade, assinalando,
carinhosamente, o patrocínio intelectual do prémio, ao Dr. José Correia
Tavares, que foi presidente do júri e se desmultiplicou nas árduas tarefas de
logística e promoção, as quais não são de diminuta importância, e, por fim, à
Professora Isabel Cristina Rodrigues, minha colega e amiga dos meus tempos na
Universidade de Aveiro e porta-voz do júri, cujo voto e palavras aqui
proferidas, comovidamente, assinalo, abrangendo, na minha gratidão os outros
membros do júri: Doutora Teresa Martins Marques e o Doutor António Cândido Franco,
também meus caros amigos.
Como diz o título das minhas memórias, ACTA EST FABULA.
A todos, mais uma vez, os meus sinceros agradecimentos. Bem hajam!"
Eugénio Lisboa (Castelo-Branco, 4 de Março de 2015)
domingo, 26 de abril de 2026
Ao Domingo Há Música
sábado, 25 de abril de 2026
Recordar Abril... O oitavo dia da semana
por José Manuel Mendes
“Eu estava lá. Posso-lhe dizer que não saberei como foi possível caber tanta gente numa só voz. Faço-me entender? Eram muitas as vozes, milhares e milhares, mas havia uma que vinha de todas elas e ficava a pairar. Uma revoada, uma música de mar. Cada um de nós a ouvia à sua maneira. Eu ouvia-a pensando no inverno de sessenta cinco, o meu tio preso, o meu tio tinha-se envolvido nas greves da margem sul, as nossas visitas a Caxias, o pavor e a revolta, imagine com que coração atravessávamos os portões!, o vento a varejar as árvores quando saíamos. Ouvia-a também por entre as imagens da guerra nas fotos dos amigos, contaram-me estórias de arrepiar, iguais decerto a todas as estórias de guerra, mas havia uma diferença, na Guiné ou em Angola morriam tipos do meu bairro, tipos que jogavam matraquilhos nos cafés onde ia tomar a bica, um desses foi abatido a meio de um sorriso, o horror a preto e branco, corpos desfeitos no capim, navios carregados largando o cais. E o silêncio depois. O silêncio da angústia, o silêncio do luto.
Estava lá, mesmo junto dos blindados. A barba por fazer, cigarro atrás de cigarro, duas maçãs nos bolsos. Vim para a rua a esfregar os olhos, cheio de sono, e corri para o Carmo. Como a cidade inteira, afinal. Ou antes, como os que esqueceram o medo. Porque a derrota ainda poderia surgir, claro. A ansiedade crescia, tornava-se clamor, tantas palavras inventávamos, nem calcula as palavras que acolá nasciam para andarem de boca em boca, a tropa nervosa, um braço no gatilho, outro na festa, uma festa com subterrâneos de dúvida, note que não faltavam agoiros, preces, gestos temerosos. E lágrimas, lágrimas. Lembro-me sempre da velhinha, atrás de mim, murmurando Jurem-me que é verdade, o rosário na mão, as contas caindo dos dedos até serem apenas cruz, murmurando e chorando, Jurem-me, um homem cortava presunto à navalha, oferecia aos militares, já o osso brandia no ar das palmas, dos punhos, das cantigas, alguém assomou a uma janela e pôs balões a subir, balões de feira, pombas de várias cores em viagem por cima dos telhados
E, a dada altura, os tiros. Segundos de respiração suspensa, barulho de água a precipitar-se, a multidão em sobressalto. Os rostos fitando a entrada do Quartel. Que se passaria além daqueles muros onde estrebuchavam quarenta e oito anos de ditadura? Que se passa, nosso cabo? Alguma novidade, senhor jornalista? Nada, conjecturas, rumores. Nada. No fundo da alegria sentíamos charcos, essa coisa pegajosa chamada angústia. O tal receio de um desaire. Pequeno e imenso receio, acredite. Entoámos o Hino Nacional. Gritámos Liberdade, Fascismo Nunca Mais, desejos assim. Desejos ou certezas, tudo se confundia. E Vitória, Vitória, quantos vês em movimento de onda sobre o dique entretanto derrubado?, chegou a notícia da rendição, chegavam cravos, vermelhos, brancos, cravos, cravos, na raiz do sangue e no cano das espingardas, pão, chouriço, cerveja, não te perguntarei o nome, soldado a quem estendo uma das maçãs camoesas, não te perguntarei por que caminhos irás, chegariam sustos e flores silvestres, transistores, ecos de um país amanhecendo, a História mudava de página, eu estava ali, percebe?, ali, uma criança trepara-me aos ombros para observar as varandas apinhadas, os carros de combate, o povo no Largo.
Creio que não, não chovia. De qualquer modo fazia sol, um sol de dentro, tão intenso como se o mundo começasse finalmente a conhecer a claridade. Sábado? Quarta-feira? Impossível recordar-me. Se calhar domingo, as pessoas desobrigadas do emprego, enchendo os passeios e as praças, Rossio, Chiado, Cais das Colunas. Os cacilheiros, as gaivotas do rio. E daí, deixe ver, os domingos são uma chatice, horas gastas de montra em montra, jardim em jardim, a remoer azedumes. Às vezes o cinema, sim. As praias na época do calor, o futebol. Domingo não, não podia ser. Teremos de imaginar um dia único, diferente dos sete dias da semana, um lugar para a dádiva e os abraços sem porquê, para o que jamais se repete, o insólito, o definitivo. Por exemplo, um oleiro no Terreiro do Paço. Um oleiro a tirar do barro crescentes de lua, flautas, placas à espera dos sinais por aprender. E, à volta, grupos a dançar. Dia único, garanto-lhe. A legenda de uma vida."
José Manuel Mendes, in Prelúdio de Outono, CCUM. Braga, 1988
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Viajar pelas ruínas de Dara e Baalbek
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Celebrar o Livro
Tudo no mundo existe para algum dia terminar num livro.Stéphane MallarméTenho para mim que sou essencialmente um leitor . Como sabem , eu me aventurei na escrita, mas acho que o que li é muito mais importante do que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta, porém não escreve o que gostaria de escrever e sim o que é capaz de escrever.Jorge Luís Borges
Um livro torna-me muito mais livre.
Um livro abre-me imensas portas.
Antes do livro, era semilivre.
Sem livro, as portas estavam tortas
e não abriam. Mas os livros abrem
portas, mesmo se tortas, porque sabem
endireitar tudo o que está torto
e ressuscitar tudo o que está morto.
Porque o livro tem vida e saber
e, muitas vezes, tem até sabor.
O saber dá-nos imenso poder
e o sabor dá-nos muito prazer!
O livro sabe, pode e contenta,
condimentado com sal e pimenta!
02.11.2022
Eugénio Lisboa, in Soneto , Modo de Usar, Editora Guerra & Paz, Abril de 2024, p 82
Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
Rainer Maria Rilke, in O Livro das Imagens, Relógio D'Água
quarta-feira, 22 de abril de 2026
No Dia Mundial da Terra
terça-feira, 21 de abril de 2026
Poesia e Música
Mariza, em "Há uma música do povo
Há uma música do povo
Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado —
Que ouvindo-a há um chiste novo
No ser que tenho guardado...
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...
E ouço-a embalado e sozinho...
É essa mesma que eu quis...
Perdi a fé e o caminho...
Quem não fui é que é feliz.
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração...
Se uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acaba com um sentido!
9-11-1928
Fernando Pessoa, in Poesias Inéditas (1919-1930).. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).
Fado Português
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'




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