domingo, 26 de abril de 2026

Ao Domingo Há Música


Amanhã 
Estas noites sempre iguais 
Duras de mastigar 
Entre dentes e punhais 
No vazio que por vezes me dás 

Noite o teu tempo 
É canto passageiro 
Fome de caminheiro 
Peça sem tabuleiro
 
Amanhã vivo mais cedo 
Amanhã lembro quem és 
Mais cedo que os nós 
Que demos à vida
 No amanhã que amanhece a teus pés

 Em noites frias
 De chuva na mão 
Atiras para a vala 
O meu coração 

Tempo de glória 
Dum amor livre 
Que conta uma história 
De quem sobrevive 

Na tua noite
 Lisa, suave 
Deitada rosa 
Num denso enclave
Descansa-me na tua brisa 
No amanhã que amanhece a teus pés

 Amanhã vivo mais cedo 
Amanhã lembro quem és 
Mais cedo que os nós 
Que demos à vida 
No amanhã que amanhece a teus pés
Ricardo Ribeiro

Neste Abril de 2026, em que tanto mundo se destrói em obscuras e sanguinárias lutas, em guerras que se prolongam para além da nossa compreensão, urge um amanhã novo que amanheça radioso e promissor de uma nova era. 
As vozes que nos trazem saudade e esperança talvez rasguem horizontes que nos permitam sonhar, neste domingo português de Abril. Se o homem se faz pelo sonho , sonhemos em funda comunhão. E se a utopia é sempre um sonho, escutemos as palavras de  Fernando Birri, citado por Eduardo Galeano, em ‘Las palabras andantes": A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.


Ricardo Ribeiro, em  Amanhã [ Official Music Video ].Letra e música de Ricardo Ribeiro.
Voz: Ricardo Ribeiro. Guitarra Portuguesa: Ângelo Freire. Contra Baixo: Rodrigo Correia. Viola: Bernardo Saldanha. Piano: Manuel Oliveira. Percussão: Alexandre Frazão. Iluminação: Pedro Leston. Produção Executiva: João Oliveira Produção: Sons em Trânsito Realização: Rafael Rodrigues e Joana Araújo. Edição: Tomás Moreira.
  
Ricardo Ribeiro feat. Ana Moura , em  Maré.
‘Maré’ é um tema de almas reunidas conscientes do mar, ora sereno ora revolto, da vida. Duas almas num canto que se salvam do quotidiano e do tempo que as atravessa. Mais do que uma canção, são versos de fraternidade e paciência com a vida e com tudo o que nos dá. Porque sabemos que nos podemos salvar uns aos outros com amor e empatia.”
Ricardo Ribeiro
 
Ricardo Ribeiro, em  Oração (Oficial Audio).
 

sábado, 25 de abril de 2026

Recordar Abril... O oitavo dia da semana

 
O oitavo dia da semana
por José Manuel Mendes
 “Eu estava lá. Posso-lhe dizer que não saberei como foi possível caber tanta gente numa só voz. Faço-me entender? Eram muitas as vozes, milhares e milhares, mas havia uma que vinha de todas elas e ficava a pairar. Uma revoada, uma música de mar. Cada um de nós a ouvia à sua maneira. Eu ouvia-a pensando no inverno de sessenta cinco, o meu tio preso, o meu tio tinha-se envolvido nas greves da margem sul, as nossas visitas a Caxias, o pavor e a revolta, imagine com que coração atravessávamos os portões!, o vento a varejar as árvores quando saíamos. Ouvia-a também por entre as imagens da guerra nas fotos dos amigos, contaram-me estórias de arrepiar, iguais decerto a todas as estórias de guerra, mas havia uma diferença, na Guiné ou em Angola morriam tipos do meu bairro, tipos que jogavam matraquilhos nos cafés onde ia tomar a bica, um desses foi abatido a meio de um sorriso, o horror a preto e branco, corpos desfeitos no capim, navios carregados largando o cais. E o silêncio depois. O silêncio da angústia, o silêncio do luto.
 Estava lá, mesmo junto dos blindados. A barba por fazer, cigarro atrás de cigarro, duas maçãs nos bolsos. Vim para a rua a esfregar os olhos, cheio de sono, e corri para o Carmo. Como a cidade inteira, afinal. Ou antes, como os que esqueceram o medo. Porque a derrota ainda poderia surgir, claro. A ansiedade crescia, tornava-se clamor, tantas palavras inventávamos, nem calcula as palavras que acolá nasciam para andarem de boca em boca, a tropa nervosa, um braço no gatilho, outro na festa, uma festa com subterrâneos de dúvida, note que não faltavam agoiros, preces, gestos temerosos. E lágrimas, lágrimas. Lembro-me sempre da velhinha, atrás de mim, murmurando Jurem-me que é verdade, o rosário na mão, as contas caindo dos dedos até serem apenas cruz, murmurando e chorando, Jurem-me, um homem cortava presunto à navalha, oferecia aos militares, já o osso brandia no ar das palmas, dos punhos, das cantigas, alguém assomou a uma janela e pôs balões a subir, balões de feira, pombas de várias cores em viagem por cima dos telhados
E, a dada altura, os tiros. Segundos de respiração suspensa, barulho de água a precipitar-se, a multidão em sobressalto. Os rostos fitando a entrada do Quartel. Que se passaria além daqueles muros onde estrebuchavam quarenta e oito anos de ditadura? Que se passa, nosso cabo? Alguma novidade, senhor jornalista? Nada, conjecturas, rumores. Nada. No fundo da alegria sentíamos charcos, essa coisa pegajosa chamada angústia. O tal receio de um desaire. Pequeno e imenso receio, acredite. Entoámos o Hino Nacional. Gritámos Liberdade, Fascismo Nunca Mais, desejos assim. Desejos ou certezas, tudo se confundia. E Vitória, Vitória, quantos vês em movimento de onda sobre o dique entretanto derrubado?, chegou a notícia da rendição, chegavam cravos, vermelhos, brancos, cravos, cravos, na raiz do sangue e no cano das espingardas, pão, chouriço, cerveja, não te perguntarei o nome, soldado a quem estendo uma das maçãs camoesas, não te perguntarei por que caminhos irás, chegariam sustos e flores silvestres, transistores, ecos de um país amanhecendo, a História mudava de página, eu estava ali, percebe?, ali, uma criança trepara-me aos ombros para observar as varandas apinhadas, os carros de combate, o povo no Largo.
Creio que não, não chovia. De qualquer modo fazia sol, um sol de dentro, tão intenso como se o mundo começasse finalmente a conhecer a claridade. Sábado? Quarta-feira? Impossível recordar-me. Se calhar domingo, as pessoas desobrigadas do emprego, enchendo os passeios e as praças, Rossio, Chiado, Cais das Colunas. Os cacilheiros, as gaivotas do rio. E daí, deixe ver, os domingos são uma chatice, horas gastas de montra em montra, jardim em jardim, a remoer azedumes. Às vezes o cinema, sim. As praias na época do calor, o futebol. Domingo não, não podia ser. Teremos de imaginar um dia único, diferente dos sete dias da semana, um lugar para a dádiva e os abraços sem porquê, para o que jamais se repete, o insólito, o definitivo. Por exemplo, um oleiro no Terreiro do Paço. Um oleiro a tirar do barro crescentes de lua, flautas, placas à espera dos sinais por aprender. E, à volta, grupos a dançar. Dia único, garanto-lhe. A legenda de uma vida."
José Manuel Mendes, in Prelúdio de Outono, CCUM. Braga, 1988

O 25 DE ABRIL DE 1974 - 100 FOTOGRAFIAS

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Viajar pelas ruínas de Dara e Baalbek

 

 
The Ruins of Ancient Dara, Mardin, Turkey, pelos Amazing Places on Our Planet
"A antiga cidade de Dara tornou-se uma importante cidade-fortaleza durante o reinado do imperador bizantino Anastácio I, no início do século VI, na região norte da Mesopotâmia, na fronteira com a Pérsia. Os romanos do Oriente deixaram para trás túmulos escavados na rocha, cisternas impressionantes e igrejas. Hoje, as ruínas da antiga Dara estão localizadas na província de Mardin, no sudeste da Anatólia, quase na fronteira com a Síria. 
Gravado em Outubro de 2022 em 4K Ultra HD com Sony AX700 e DJI Pocket 2"
.  
The Roman Ruins at Baalbek, Lebanon [Amazing Places 4K], pelos Amazing Places on Our Planet.
"Baalbek era uma cidade fenícia, provavelmente batizada em homenagem ao deus fenício Baal. Nos tempos gregos e romanos, era também conhecida como Heliópolis. 
Baalbek atingiu o seu auge durante o período romano, quando, entre os séculos I e III, foram construídos no local templos colossais dedicados a Júpiter, Baco e outras divindades. É ainda um mistério como é que os maiores blocos de pedra conhecidos da antiguidade, com mais de mil toneladas, foram transportados para os locais dos templos. 
Baalbek está listada como Património Mundial da UNESCO, sendo um dos melhores exemplos da arquitectura imperial romana no seu apogeu. 
Gravado em Abril de 2022 em 4K Ultra HD com Sony AX700 e DJI Pocket 2."

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Celebrar o Livro


 

Tudo no mundo existe para algum dia terminar num livro.
           Stéphane Mallarmé
Tenho para mim que sou essencialmente um leitor . Como sabem , eu me aventurei na escrita, mas acho que o que li é muito mais importante do que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta, porém não escreve o que gostaria de escrever e sim o que é capaz de escrever.
            Jorge Luís Borges

"O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril. Trata-se de uma data simbólica para a literatura, já que, segundo os vários calendários, neste dia desapareceram importantes escritores como Cervantes e Shakespeare, entre outros. A ideia da comemoração teve origem na Catalunha: a 23 de Abril, dia de São Jorge, uma rosa é oferecida a quem comprar um livro. Mais recentemente, a troca de uma rosa por um livro tornou-se uma tradição em vários países do mundo."
Celebrar o livro é celebrar a vida. Os leitores não vivem sem livros. Sou uma leitora "estabelecida" de tantos anos de exercício e de actividade constante. O livro é o fiel e inseparável companheiro que me tem acompanhado ao longo da vida. Cresci, fiz-me gente, deixei o chão pátrio, viajei , percorri mundo e levei sempre comigo os livros celebrados e amados que me fizeram cativa. No regresso, o acervo vinha permanente e singularmente maior. Creio que não há livraria, que se preze, que não tenha sido visitada, namorada e assediada por estes olhos que não cessam de cintilar perante os escaparates e as suas mais recônditas prateleiras. Não há enlevo maior do que aquele que nos é provocado por páginas mestras de grandes escritores. Todos eles me influenciaram. Todos eles me formaram. Todos eles me  enamoraram ao longo da vida.  E , por dever,  por gratidão e por inefável deleite , a voz que se escuta, neste dia  e neste espaço , é deles.

Do livro falemos

Um livro torna-me muito mais livre.
Um livro abre-me imensas portas.
Antes do livro, era semilivre.
Sem livro, as portas estavam tortas

e não abriam. Mas os livros abrem
portas, mesmo se tortas, porque sabem
endireitar tudo o que está torto
e ressuscitar tudo o que está morto.

Porque o livro tem vida e saber
e, muitas vezes, tem até sabor.
O saber dá-nos imenso poder

e o sabor dá-nos muito prazer!
O livro sabe, pode e contenta,
condimentado com sal e pimenta!
02.11.2022
Eugénio Lisboa, in Soneto , Modo de Usar, Editora Guerra & Paz, Abril de 2024, p 82


O homem que lê

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa. 
Rainer Maria Rilke, in  O Livro das Imagens, Relógio D'Água
Manoel de Andrade, grande poeta brasileiro, recorda: Há alguns anos, numa entrevista que dei para Oscar Ambrosio, da UNESP (Universidade Estadual Paulista, ele me perguntou; "O que é ser poeta?' eu respondi:
Ser poeta ( ou escritor) é estar disposto a uma aventura imprevisível, uma viagem sem a certeza de um destino, porque o poeta é um ser desgarrado do mundo, vivendo no âmago de seu próprio desterro. É empunhar a bandeira da beleza num mundo cada vez mais cruel, marcado pela insensibilidade, pela irreverência, pelo hedonismo e por um consumismo alienante. Mas ainda assim é preciso encarar esse desafio. Para ser poeta é imprescindível ter sido bem amamentado pelo leite materno do idioma, para mergulhar no insondável oceano do conhecimento fazendo da leitura o seu pão de cada dia e assim descobrir o segredo das palavras, o poder mágico das metáforas, a estesia e o carinho do lirismo, e expressar este misterioso saber na sua criação literária.
Mas é também um processo de auto descobrimento. Um compromisso com o mundo, com a liberdade e o amor. Ser poeta é escavar na alma uma trincheira de esperança e conquistar o direito imperecível de sonhar.
A gente não se faz poeta, a gente nasce poeta e a poesia um dia surge misteriosamente neste mágico território do coração humano. O poema surge como uma brota uma semente, como uma inquietude íntima, no significado misterioso de uma palavra, de uma frase, e é como uma gestação, um filho que palpita no útero da alma, que nasce um dia no primeiro verso, e não nos larga mais. Fica conosco dia e noite, semanas e ate meses até que possa estar emancipado para cumprir sua missão no mundo. Só então ele está realmente pronto, legitimado pelo encanto e só então podemos nos libertar de seu próprio encanto
É assim que acontece comigo. Vivo e convivo intimamente com um poema, numa relação absoluta, mas só depois que ele realmente está pronto é que eu posso, finalmente, me libertar dele.
Os usos da Literatura
por Eugénio Lisboa
“A literatura instrui-nos, dá-nos prazer, educa-nos, abre-nos portas inesperadas para o mundo e para dentro de nós, torna-nos inquiridores e aventureiros, escuda-nos contra os pestilentos ratos de esgoto, mostra-nos que há tragédia mas, também, momentos de alegria sublime, expõe-nos aos mais diversos rostos do amor, desde a Assia, de Turguenev, por mim descoberta, na adolescência, passando pela Natasha ou pela Karenina, de Tolstoi, pela pequena Jane Eyre, frágil, mas firme, declarando, tremendo, a um portentoso Rochester: “We are equal!”, assim pisando, pela primeira vez, um feminismo forte, destemido e não perverso, ou pela inesquecível Gise, da grande saga francesa, de Martin du Gard, sem esquecer as imortais protagonistas de Stendhal, Mme de Rênal e a esplendorosa Sanseverina (e a Vanina Vanini?).
A literatura torna-nos fortes, quando, mergulhando-nos nos mais fundos abismos da condição humana, verificamos que, após tal mergulho, afinal, prevalecemos. Quando, com catorze ou quinze anos, verifiquei, pela pena do grande O’Neill, que a América triunfal e poderosa, se tornara herdeira dos grandes trágicos gregos e de um dilacerado Strindberg, percebi que atravessar tudo aquilo e continuar vivo era um milagre de força. Senti que valia a pena viver. O mesmo se passou com os grandes romances e novelas de Dostoiewsky. Fiodor Sologub iniciou-me, sem me destruir, nos mundos da loucura, por via do seu protagonista do perturbante romance O DEMÓNIO MESQUINHO (na tradução portuguesa, A LOUCURA DE PEREDONOV). Sally Salminen deu-me a vida inteira, num belo romance arrumado em ilhas escandinavas. Hemingway deu-nos heróis e heroínas inesquecíveis, os horrores da guerra e da guerra civil e a invencível fragilidade que se aninha nos peitos mais fortes. Mas tentou “salvar-nos”, com uma singular promessa: o homem pode ser destruído, mas não vencido.
Ler os trágicos gregos, a seguir à morte do meu irmão, purgou-me e salvou-me, em vez de me destruir. A tragédia lava e redime.
Os grandes cómicos, Molière ou Wodehouse, encheram-me de sol e de água fresca. O grande Pirandello fez-me rir, dilacerando-me e tornando-me desconfiado, isto é, prevenido.
Nesta altura do campeonato, estou a ouvir o sussurro de um qualquer rato de esgoto: “Este tipo quer-nos convencer de que leu tudo e mais alguma coisa.” Responderei, como respondeu D’Annunzio a Gide: sim, li tudo, na esperança de encontrar finalmente A OBRA-PRIMA.”
Eugénio Lisboa, em 17.07.2023
George Steiner (1929-2020). (Foto: Wikimedia Commons)
Os Que Queimam os Livros
por George Steiner
"Os que queimam os livros, que proscrevem e matam os poetas, sabem rigorosamente o que fazem. O poder indeterminado dos livros é incalculável. É indeterminado precisamente porque o mesmo livro, a mesma página pode ter efeitos inteiramente díspares sobre os seus leitores. Pode exaltar ou aviltar; seduzir ou repelir; intimar à virtude ou à barbárie; expandir a sensibilidade ou banalizá-la. Em termos extremamente desconcertantes, pode fazer uma e outra coisa, quase no mesmo momento, num impulso de resposta tão complexo, tão rápido na sua alternância e tão híbrido que nenhuma hermenêutica, nenhuma psicologia poderá predizer ou calcular a sua força. Em diferentes momentos da vida do leitor, um livro despertará reflexos inteiramente diferentes. Não há na experiência humana fenomenologia mais complexa do que a dos encontros entre texto e percepção, ou, como Dante notou, entre as formas da linguagem que excedem o nosso entendimento e as ordens de compreensão frente às quais a nossa linguagem se revela insuficiente: la debilitate de lo’nielleto e la cortezza del nostro parlare.
(…) O encontro com o livro, como com o homem ou a mulher, que vai mudar a nossa vida, muitas vezes num instante de reconhecimento que se ignora , puro acaso talvez. O texto que nos converterá a uma fé, nos ligará a uma ideologia, dará à nossa existência um fim e um critério, podia estar à nossa espera nas prateleiras da estante de ocasião, dos livros desbotados ou dos saldos. Pode estar ali, poeirento e esquecido, numa prateleira de estante exactamente ao lado do volume de que andamos à procura. A sonoridade estranha das palavras impressas na capa envelhecida pode deter o nosso olhar: Zaratustra, Westoslicher Divan, Moby Dick, Horcynus Orca. Enquanto um texto sobrevive, algures à face da terra, ainda que num silêncio que nada vem quebrar, continua susceptível de ressureição. Walter Benjamin ensinava–o, Borges elaborou a sua mitologia: um livro autêntico nunca é um livro impaciente. Pode esperar séculos até despertar um eco vivificador. Pode estar à venda com cinquenta por cento de desconto numa estação de comboio, como o primeiro Celan que por acaso descobri e abri. A partir desse momento fortuito, a minha vida transformou-se, e eu tentei aprender “ uma língua a Norte do futuro”.
Trata-se de uma transformação dialéctica. As suas parábolas são as da Anunciação e da Epifania. Conhecemos tão mal a génese da criação literária! Não temos por assim dizer qualquer acesso à neuroquímica possível do acto de imaginação e dos seus procedimentos. Até mesmo o rascunho informe de um poema é já uma etapa muito tardia na viagem que conduz à expressão e ao gesto performativo. O crepúsculo , o “ antes da madrugada” e as pressões no sentido da expressão que se exercem no subsconsciente são para nós quase imperceptíveis. Mais concretamente: como é possível que alguns traços sobre uma tabuinha de argila, riscos de pena ou de lápis que muitas vezes mal chegam a ser legíveis num frágil pedaço de papel, constituam uma persona – uma Beatriz , um Falstaff, uma Anna Karenina- cuja substância, para um sem-número de leitores ou espectadores, excede a própria vida na sua realidade, na sua presença fenomenal, na sua longevidade social e encarnada? ( Este enigma da persona fictícia, mais viva, mais complexa do que a existência do seu criador e do seu “receptor” – que homem ou que mulher tem a beleza de Helena, a complexidade de Hamlet, ou é tão inesquecível como Emma Bovary? –tal é a questão decisiva, mas também a mais difícil, da poética e da psicologia.)
(…) O conceito de leitura, encarado como um processo que na sua raiz releva da colaboração , é convincente. O leitor sério trabalha com o autor. Compreender um texto , “ ilustrá-lo” no quadro da nossa imaginação, da nossa memória e da nossa representação combinatória, é, na medida dos nossos meios , recriá-lo. Os maiores leitores de Sófocles e de Shakespeare são os actores e os encenadores que dão às palavras a sua carne viva. Aprender um poema de cor é encontrá-lo a meio-caminho na viagem sempre maravilhosa da sua chegada ao mundo. Numa “ leitura bem feita” (Péguy), o leitor faz dele qualquer coisa de paradoxal: um eco que reflecte o texto, mas que lhe responde também com as suas próprias percepções, as suas necessidades e os seus desafios. As nossas relações de intimidade com um livro são, portanto, efectivamente dialécticas e recíprocas : lemos o livro, mas, mais profundamente talvez, é o livro que nos lê.” 
George Steiner, in  Os Logocratas, Relógio D’Água Editores

quarta-feira, 22 de abril de 2026

No Dia Mundial da Terra

Earth 4K - Featuring Every Country In The World
Terra em 4K - Apresentando todos os países do mundo
O Dia da Terra é considerado um dos acontecimentos ambientais mais importantes do mundo, sendo celebrado anualmente em vários países do mundo, incluindo Portugal a 22 de Abril.
O nosso planeta Terra é realmente um lugar incrível! Desfrute deste filme relaxante em 4K com paisagens deslumbrantes de todos os países do mundo! Das maravilhas e da vida selvagem de África às paisagens encantadoras da Europa, há beleza em cada canto do planeta! " 
As guerras estão a ameaçá-lo e a destruir a harmonia que sustentava a coabitação  dos povos e a respectiva existência. Se o homem não o acarinhar e continuar a devastá-lo,  toda esta beleza vai ser reduzida  a  um lúgubre  jazigo .

terça-feira, 21 de abril de 2026

Poesia e Música

Mariza, em "Há uma música do povo

Há uma música do povo

Há uma música do povo,

Nem sei dizer se é um fado —

Que ouvindo-a há um chiste novo

No ser que tenho guardado...

Ouvindo-a sou quem seria

Se desejar fosse ser...

É uma simples melodia

Das que se aprendem a viver...

E ouço-a embalado e sozinho...

É essa mesma que eu quis...

Perdi a fé e o caminho...

Quem não fui é que é feliz.

Mas é tão consoladora

A vaga e triste canção...

Que a minha alma já não chora

Nem eu tenho coração...

Se uma emoção estrangeira,

Um erro de sonho ido...

Canto de qualquer maneira

E acaba com um sentido!

                        9-11-1928

Fernando Pessoa, in Poesias Inéditas (1919-1930).. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).

Sara Correia, em Fado Português, poema de José Régio, música de Alain Oulman

Fado Português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'

segunda-feira, 20 de abril de 2026

No reino do ditador

Le vignette di Italia Oggi

Macbeth na Rússia
 
Depois de matar e incendiar,
depois de constante bombardear,
aquele cadáver frio que procria,
sem sabedoria nem alegria,
 
Vladimir Putin, feio czar da Rússia,
onde se tortura com arrogância,
e se mata irmão ou filho, que importa,
é preciso é desamparar a porta,
 
Putin, dizia, vai ver a floresta,
até aí, imóvel, caminhar,
imparável e ameaçadora besta,
 
como se viu, em Dunsinane, andar
outra floresta, até aí quieta,
em direcção a Macbeth, como seta!
                           11.05.2023
Eugénio Lisboa

 
          133- Putin caricature stock illustrations

Na morte de Navalny

Nero recomendava o suicídio
ou mandava a guarda pretoriana
ou também usava o matricídio,
querendo livrar-se de algum sacana.

O melhor modo de fazer calar
um adversário muito eloquente
é, sem mais, fazê-lo assassinar,
de modo rápido e eficiente.

Navalny foi agora “afastado”,
porque incomodava muita gente.
Putine, naturalmente agastado,

disse: “Quem me livra deste demente?”
Os seus assessores compreenderam
e, muito prestamente, procederam.
                             16.02.2024
Eugénio Lisboa


SONETO MUITO GAUCHE PARA USO DOS
OPRESSORES DO MOMENTO


Os ditadores usam a cartilha
normalmente usada por quem oprime.
O opressor percebe bem que trilha
inocentes e que nada o redime.

A razão do opressor é a força,
já que outra razão não tem.
Porém a força a razão reforça
e a razão faz da força seu refém.

A sabedoria dos opressores
é o contrário de saber viver:
o uso constante dos seus terrores

é sementeira que fará colher
os tais destemidos frutos da ira,
que atira os restos da força à pira!
                           25.02.2022
Nota do autor – Quem não tem cão caça com gato. Quem não tem espingarda dispara soneto mal-amanhado.
Eugénio Lisboa, in Poemas em tempo de guerra suja , Editora Guerra & Paz , Setembro de 2022, p 17

domingo, 19 de abril de 2026

Ao Domingo Há Música


 Música é a expressão perfeita de um Mundo Ideal que nos é comunicado através da harmonia. Esse mundo existe não a um nível superior ou inferior ao mundo real, mas paralelamente a este.
               Albert Camus,  escritos de juventude.

Nesse mundo para onde a Música nos pode transportar, a realidade seria  a expressão perfeita do sonho de cada cada um , em comunhão eufónica.
Para que a desejada harmonia se possa concretizar, o talento e a voz de Nick Cave com Warren Ellis enchem de promessas este espaço.

Nick Cave & Warren Ellis, em  Push the Sky Away , num espectáculo ao vivo na  Sydney Opera House, Austrália.
Nick Cave e Warren Ellis interpretam uma versão triunfante de "Push the Sky Away", gravada no seu concerto de música para cinema, em Dezembro de 2019, com a Orquestra Sinfónica de Sydney e os Coros da Filarmónica de Sydney. Acompanham  Nick Cave e Warren Ellis  Julie Lea Goodwin, soprano; Nicholas Buc, maestro; Orquestra Sinfónica de Sydney e Coros da Filarmónica de Sydney.
   
 Nick Cave & Warren Ellis, em   We Are Not Alone  para o filme (La Panthère des Neiges).
     
Nick Cave & The Bad Seeds & Else Torp, em  Distant Sky ,(Live in Copenhagen).