LIVRES PENSANTES
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Interlúdio Musical
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Fernando Pessoa e a Mensagem
Bellum Sine Bello
I. Os Campos
Primeiro / O dos Castelos
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar ’sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Segundo / O das Quinas
Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
II. Os Castelos
Primeiro / Ulisses
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
Segundo / Viriato
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
Nação porque reincarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Viajar por Portugal
Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,
Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;
Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!
E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!
Florbela Espanca, sonetos
domingo, 2 de agosto de 2026
Ao Domingo Há Música
Canto como quem usaOs versos em legitima defesa.Canto, sem perguntar à MusaSe o canto é de terror ou de beleza.Miguel Torga , Orfeu Rebelde
Ouvi-te e ouvi-aNo mesmo tempoE diferentesJuntas cantar.E a melodiaQue não havia.Se agora a lembro,Faz-me chorar.Fernando Pessoa, Cancioneiro
sábado, 1 de agosto de 2026
História da presença portuguesa em Ormuz
sexta-feira, 31 de julho de 2026
AS RELIGIÕES NÃO CRISTÃS (1)
Budismo
A outra grande expressão religiosa indiana é o Budismo, que nasceu na Índia e migrou para o Ceilão (hoje Sri Lanka), China e Japão, onde predomina, e para vários países do Ocidente, congregando, atualmente, uma das mais expressivas legiões de seguidores em todo o mundo.
Seu fundador era chamado Sidarta Gautama, também conhecido por Sakiamuni, um príncipe sábio nascido no povo Sakia, num reino na fronteira entre o Nepal e a Índia. Ao ver a miséria do seu povo, renunciou ao trono e saiu em busca das respostas para o sofrimento humano. Nesse caminho encontrou a iluminação, passando então a ensinar suas verdades, das quais nasceu o Budismo.
O Budismo, como uma religião contemplativa, surgiu na Índia entre os séculos VI e IV a.C. A essência da sua filosofia é superar o desejo como causa do sofrimento. Duas grandes escolas dividem seus ensinamentos: a Hinayana (Veículo Menor) e a Mahayana (Veículo Maior), e cada uma delas com diferentes filosofias espalhadas pelo mundo, com seus próprios conceitos sobre iluminação e libertação. O estado de libertação é o resultado da busca espiritual do ser humano para atingir o Nirvana, um estado eterno de graça pela superação do karma. Resulta de um longo caminho percorrido pela meditação, pela renúncia às ilusões do mundo e do aniquilamento de certos traços da personalidade como: o orgulho, o ódio, a inveja e o egoísmo.
Buda compreendeu que as dores humanas são causadas pela ignorância das leis que governam a vida e que só se alcança a felicidade e se abre o caminho para a iluminação quando o ser se liberta das distrações mundanas. Segundo ele os prolongados sofrimentos são causados por uma mente desgovernada. Ensinou que:
- "Tudo o que somos é resultado do que pensamos. A mente é tudo. O que pensamos, nós nos tornamos."
- "A paz vem de dentro. Não a busque fora."
- "A raiz do sofrimento é o apego."
- "A felicidade nunca virá para aqueles que não apreciam o que já têm."
- "Manter o corpo em boa saúde é um dever... caso contrário, não seremos capazes de manter a mente forte e clara."
- "Não viva no passado, não sonhe com o futuro, concentre a mente no momento presente."
- "Assim como uma vela não pode queimar sem fogo, os homens não podem viver sem uma vida espiritual."
- "Milhares de velas podem ser acesas com uma única vela, e a vida da vela não será encurtada. A felicidade nunca diminui ao ser compartilhada."
- "No final, apenas três coisas importam: o quanto você amou, o quão gentilmente você viveu e o quão graciosamente você abriu mão de coisas que não eram para você."(1)
Manoel de Andrade, in Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre Cristianismo e Espiritismo, Edição do Centro Espírita Luz da Caridade,Rua Mato Grosso, 145 – Água Verde, CEP: 80260-070 – Curitiba - Paraná, pp.33-36
(1)-https://www.revistaentreasanas.com.br/post/10-cita%C3%A7%C3%B5es-de-buda-para-voc%C3%AA-aprender-e-refletir-no-seu-dia-a-dia.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Um poema
Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...
Miguel Torga, in Diário XIII, Círculo de Leitores

