sábado, 7 de novembro de 2026

Prix Femina 2026

« Une épopée abrasive sur l’impossible métier d’enseignant. » France Info
« Un grand roman à la gloire de la transmission, de la beauté, un antidote contre le découragement et le spleen de la rentrée. » Augustin Trapenard, La Grande Librairie
« Ce roman n’est ni un cri d’alerte ni un manifeste. Juste l’histoire d’un élan, d’une foi mise à la rude épreuve de la réalité. TTT. » Télérama
« Yannick Haenel nous assène une claque magistrale et procure un bonheur de lecture infini avec ce roman hors norme. » Les Échos
« Le plus beau roman de la rentrée. » ELLE

Yannick Haenel
La solitude des professeurs est infinie
Collection Blanche
Gallimard
Parution
20-08-202
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Sinopse
Detalhes

"Jean Deichel, um jovem professor francês, está a fazer o seu estágio numa escola primária nos arredores de Paris. À noite, fica hospedado num clube de ténis em Deuil-la-Barre; durante o dia, descobre as dificuldades da profissão, bem como as suas profundas alegrias, a dureza do sistema escolar, bem como a sua beleza.
Jean é também um poeta embriagado pela aventura, atento a encontrar a luz da "vida real" no coração do quotidiano mais cinzento: em jardins reais ou imaginários, à beira de um lago, durante escapadelas para Pompeia e Tarquínia, mas sobretudo na frágil graça de uma aula bem-sucedida. Entre a realidade política e o mistério existencial, a vida dos professores é um romance."



Prix Femina Etranger 2026


« L’autrice virtuose de À Suspicious River et d'Esprit d’hiver signe un retour sensuel, cruel et mystérieux. » ELLE
«Époustouflant dans la manière dont ce roman se resserre, se rythme. Je l’ai refermé absolument émerveillée et avec l’envie de découvrir toute une oeuvre. » France Culture
« Laura Kasischke invente un genre, la satire poétique : une onde de choc dans le bleu du monde. » La Tribune Dimanche
« Un roman polyphonique éblouissant. TTT » Télérama
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Visão Geral
Detalhes
"Quem em Mission Hills poderia esquecer o dia 16 de julho de 1969? De manhã, todos os olhares estavam fixos nas primeiras imagens de um foguetão a ser lançado em direção à Lua. À tarde, o pequeno Richie Manning morreu afogado na nova piscina azul-turquesa do bairro, apinhada naquele dia escaldante. Havia uma nadadora-salvadora de serviço — uma estudante deslumbrante, com longos cabelos loiros e pernas perfeitamente bronzeadas. Mas por detrás dos óculos escuros, será que ela estava mesmo a observar os nadadores? Laura Kasischke examina implacavelmente cada detalhe daquele dia trágico que devastou uma família e toda uma comunidade, procurando captar todos os seus defeitos. Ela mergulha também na vida de testemunhas-chave, cujos caminhos se entrelaçam. Natação Supervisionada, uma leitura empolgante, marca o regresso triunfal da grande escritora americana."

Os livros de Novembro da Guerra & Paz e da Gradiva


Os livros de Novembro da Guerra & Paz e da Gradiva
"Estes são os meus livros de Novembro e esta é a newsletter que mando a quem gosto e respeito. É a última."
Manuel S. Fonseca
, editor da Guerra & Paz e da Gradiva


Os meus livros de Novembro

Os livros da Guerra e Paz

"Esta é, nestes termos meio melosos e líricos, correndo desarvorada por entre os livros da Guerra e Paz e da Gradiva, a minha última newsletter. Para 2027, terei de descobrir outra forma de divulgação.
E estes são os novíssimos livros a chegar à livraria, as derradeiras edições deste ano. Para acabar lancei-me ao mar, acompanhando o biólogo marinho Henrique Cabral e o jornalista João Lopes Marques. A imersão não podia ser mais deliciosa: Calcem as Barbatanas!, Um Mergulho no Mundo Desconhecido das Criaturas Marinhas é um encontro, animal marinho a animal marinho, com a fauna dos nossos oceanos. Garanto-vos: ninguém se afoga e vão rir-se como perdidos com o que cada uma das criaturas vos vai dizer. É o segundo livro da colecção Pensar Português, que tem a Fundação Manuel António da Mota como mecenas exclusivo.
Já nadámos, pedalemos agora: de José Carlos Gomes chega-nos Pedalar o Destino, 40 Anos de Ciclismo na Roda de Delmiro Pereira, a história de um campeão contada com humor, que nos leva a vencer 54 corridas com Delmiro.
Na pré-história não havia bicicletas; a pé, pé ante pé, Jacques Jaubert reescreve e mapeia esse passado longínquo (afinal tudo começou há 2,6 milhões de anos) em mais um dos nossos Atlas Históricos, o Atlas da Pré-História: 70 mapas (ó que cartografia linda) e documentos inéditos num livro a cores, claro, como os Atlas devem ser.
A vantagem da História é podermos dar saltos gigantes e fazermos associações mais do que legítimas: em Os Lusíadas e a Visão Herética, juntamos Luís de Camões e Jorge de Sena. Em versão de capa mole, este livro reúne Os Lusíadas, de Camões e dois ensaios luminosos (soberbos de erudição) de Sena que oferecem uma visão heterodoxa, porventura a mais fidedigna, de análise do nosso épico.
Ana Paula Jardim, uma das poetas da nossa colecção nobre, quis fazer uma incursão romanesca pela prosa e desenhar um mais do que íntimo e velado retrato feminino em A Mulher do Véu. Uma memória entre silêncio e dor.
Fecho com uma monumental biografia. Deixem-me dizer assim: Miguel Pinheiro escreve Sá Carneiro. De «um bebé sem nome» a «depois da morte» Miguel Pinheiro examina ao microscópio e de forma sistemática uma vida turbulenta, uma acção política que se roçou pela glória e pela tragédia. São 768 páginas de rigor e notável informação.


Os livros da Euforia e Alquimia
As feminíssimas edições da Euforia e da Alquimia saem a grande velocidade e profusão das mãos da editora, Rita Fonseca, para as mãos das leitoras: em Novembro, Diabo de Sierra Simone, Tem Cuidado, de Tate James e Chuva de Sombras e Fins, de Melissa K. Roehrich são os perigosos títulos de tensão, mistério, erotismo e romance. Imbatíveis.

Os livros da Gradiva
A vaga ficcional de Novembro na Gradiva é prodigiosa: regressa O Cemitério de Praga, Umberto Eco, berço de todas as conspirações; do Prémio Booker, o Ian McEwan da anti-noite de núpcias de Na Praia de Chesil. Tão belo como a ficção, n’ A Colecção Que Não Precisa de Nome, mais um Prémio Nobel, neste caso Kazuo Ishiguro, de quem oferecemos uma digressão confessional arrebatadora, A Minha Noite no Século XX e Outras Pequenas Descobertas.
Dois livros muito distintos de autores portugueses: Tudo se Desmorona e Tu Sorris é um romance de António Oliveira e Castro sobre os sonhos que História consome, e Sistemas Partidários: Reflexões Teóricas e Casos Práticos é um estudo inédito e raro de Conceição Pequito Teixeira que nos leva ao centro da vida democrática: como funcionam os sistemas partidários?
E peço-vos, não deixem que silenciem O Genocídio Ocultado, do historiador senegalês Tidiane N’Diaye: é um livro que dá voz e visibilidade à razia árabo-muçulmana que levou de 12 a 18 milhões de escravos de África. Como é possível que tanta gente, porventura legitimamente indignada, tente calar indignamente este crime?
E para que se não diga que não falei dessa flor chamada ciência, vejam bem os três livros que vos trago na colecção Ciência Aberta: do professor e químico João Paulo André, capa linda, texto delicioso, oferecemos aos leitores O Elogio da Batata, de A a Z o Tubérculo que Mudou o Mundo; do professor e físico Antonino Del Popolo, As Grandes Questões da Ciência faz perguntas – o que é a vida? estamos sozinhos? o que é um buraco negro? – e dá as respostas abrindo-nos as portas da ciência moderna; já Luísa Pereira, fazendo uso do seu doutoramento em genética populacional humana, vem guiar-nos na resposta a perguntas como «quem somos?» e «qual a nossa origem?» em O Património Genético Português Revisitado: a História Humana Preservada nos Genes Antigos e Actuais, um contraponto a muita desinformação que por aí prolifera.
Acabo com BD: de Eric H. Cline e Glynnes Fawkes, publicamos 1177 a. C. Uma História Gráfica do Ano em que a Civilização Colapsou. Uma aventura espectacular que nos mostra o desabar das civilizações do Mar Egeu e do Mediterrâneo Oriental.
Despeço-me. Mas só das newsletters. O grupo Guerra e Paz / Gradiva avança para 2027, depois de um excelente 2026 de consolidação e (franco e generoso) crescimento. Em 2027, aos catálogos das duas editoras vão juntar-se 40 autores e cerca de 60 títulos, que acolhemos vindos da Esfera dos Livros, editora que abandona em definitivo a actividade em Portugal. Os trabalhos prometem ser hercúleos, mas os livros e os autores são tão bons e estão sempre a reinventar-se. E a ressuscitar: afinal, mesmo os manuscritos do Mar Morto, a acreditar no senhor Umberto Eco, apareceram há pouco mais de meio século, exactamente o mesmo tempo de que, pela sua saudinha, as galinhas precisaram para aprender a não atravessar a estrada. Até para o ano, e anuncio-vos já que em Janeiro serei o autor de um novo livro, Marilyn: Citações e Algumas Excitações. Tem uma capa linda e sou eu a escutar, o tempo todo, a voz de Marilyn Monroe. Que voz!"
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva

A actualidade em cartoon

 
Henricartoon

Trump routed, Chappatte

Trump puts pressure on the midterms, Chappatte
             Donald Trump’s Morality, Chappatte

Le vignette di ItaliaOggi

Le vignette di ItaliaOggi

Riki Blanco: disociación, El País

Donald Trump, por Sciammarella, El País

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Uma interpretação ideológica de um soneto de Camões

 
Uma interpretação ideológica de um soneto de Camões
por Eugénio Lisboa
“Todos conhecem aquele belíssimo soneto de Camões, que começa assim: “Alma minha gentil que te partiste”, seguindo-se-lhe treze versos, cada um mais belo do que o anterior.
Tem havido o mais variado leque de interpretações deste poema, que vale uma literatura, incluindo a inevitável “interpretação” biografista, que vê, na “alma minha” uma alusão à amante chinesa, morta afogada , no célebre naufrágio na foz do rio Mekong. Nesse naufrágio, cujas circunstâncias, em pormenor, se desconhecem, Camões teria salvo, a nado, OS LUSÍADAS, mas não conseguiu salvar da morte a sua Dinamene. Até aqui, tudo bem. As teses biografistas têm  o interesse que têm, embora não sejam exactamente interpretações de um texto. Dizer que, sem o conhecimento biográfico deste episódio, o soneto ficaria incompreensível, é um rotundo disparate. O poema deve ser interpretado pelo que o poeta lá pôs e não pelas circunstâncias que estiveram na origem da sua escrita.
Mas, à luz de uma minha experiência recente, relacionada com o modo como alguns poemas meus têm sido “interpretados” por ideólogos superaquecidos, estranho que a mesma receita ideológica ainda não tenha sido aplicada ao imortal soneto de Camões. Uma coisa deste gosto: Camões era europeu, branco; Dinamene era chinesa, amarela. Amor, amor, raça aparte. Entre salvar uma inferior chinesa e OS LUSÍADAS, o bardo não hesitou, exibindo um conhecido preconceito racista: salve-se o manuscrito, pereça a chinesa. A partir daqui, o crítico ideológico esquecia os achados poéticos, as lindas metáforas, a linguagem poética de uma inventiva sem igual, e mergulhava, a fundo, nos malefícios das “descobertas”, do racismo, do colonialismo, da exploração do homem pelo homem, do capitalismo selvagem, dando Camões como um peão de forças malévolas e um precursor mal avisado do racismo do século XXI. Por que não? As redes sociais andam cheias deste tipo de sondagens. Vou terminar, contando uma história verdadeira, de que tomei conhecimento, no meu tempo de estudante de engenharia. Vivia na Av. Guerra Junqueiro, muito próxima do Instituto Superior Técnico. Frequentava então uma Pastelaria Mexicana, que ainda existe, a qual era também frequentada por um ideólogo da esquerda dura, obcecado com a ideologia e com Marx.  Conta-se que, na sua primeira noite de núpcias, quando finalmente se libertou dos amigos e se fechou no quarto com a noiva, depois de se meter na cama com ela, debruçou-se carinhosamente sobre a amada e perguntou-lhe: “Você já leu O CAPITAL, de Karl Marx?” Consta que o casamento durou poucos dias e até se percebe porquê. Aquela pergunta cabia tanto naquela circunstância, como o racismo cabia no imortal soneto de Camões.”
Eugénio Lisboa, em 14.08.2023

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Everything Must Change

Everything must change


Everything must change

Nothing stays the same

Everyone must change

No one stays the same

 

The young become the old

And mysteries do unfold

Cause that's the way of time

Nothing and no one goes unchanged

 

There are not many things in life

You can be sure of

Except rain comes from the clouds

Sun lights up the sky

And hummingbirds do fly

 

Winter turns to spring

A wounded heart will heal

But never much too soon

Yes everything must change

 

The young become the old

And mysteries do unfold

Cause that's the way of time

Nothing and no one goes unchanged

 

There are not many things in life

You can be sure of

Except rain comes from the clouds

Sun lights up the sky

And butterflies do fly


Rain comes from the clouds

Sun lights up the sky

And music

 

 Callie Day e Isaac Cates, em Everything Must Change.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Homenagear o 86º aniversário de Manoel de Andrade

Manoel de Andrade por Juarez Machado, 1964
Manoel de Andrade e Juarez Machado
"Manoel de Andrade nasceu em Rio Negrinho, SC, Brasil, em 1940. Mudou-se para Curitiba, onde permanece e se formou em Direito. Em 1965, recebe do Centro de Letras do Paraná, o 1º Prémio no Concurso de Poesia Moderna. Ainda em 1965, com Helena Kolody, João Manuel Simões , Paulo Leminski e outros participa na Noite de Poesia Paranaense, no Teatro Guaíra. Em 1968, a revista Civilização Brasileira publica a sua " Canção para os homens sem face" e junto com Dalton Trevisan (Prémio Camões 2012) e Jamil Snege é apontado, pela imprensa local, como um dos três destaques literários de 1968, no Paraná."
Começou muito cedo a laborar a palavra e a elevá-la ao patamar do sublime. Fez dela a musa, em qualquer género literário. É , no entanto, o grande poeta que soube e sabe  utilizar, com mestria, a plasticidade da palavra, quer no lirismo mágico quer no combate à injustiça que agrilhoa a condição humana. Foi o jogral itinerante na América Latina, quando o Brasil foi assaltado por uma ditadura militar. “Eu sou um jogral - afirmava Manoel de Andrade  -  Não busco a fama. Quero identificar-me com a dor do homem latino-americano”.
E acrescenta: - “O poeta, enquanto poeta  comprometido, deve ir ao mundo, captar sua essência e dá-la em canto. Deve fazer uma arte que caminhe. Que cante o continente por onde passa. "
Manoel de Andrade faz hoje 86 anos. É uma voz que não cessa de  se elevar em permanente actividade literária. Publicou inúmeras obras, tendo ainda no prelo, um valioso acervo de poemas que esperamos, com impaciência, descobrir . Poeta, ensaísta, jornalista, Manoel de Andrade é um  dos nomes mais  valorosos das Letras Brasileiras da actualidade.
De entre as suas obras , destacamos o livro de Memórias relativo à época de bardo errante pela América Latina, (Nos rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina, nos anos 70),  publicado em 2014, para o saudar neste dia do seu aniversário. 
Para Manoel de Andrade , este livro de Memórias é, acima de tudo, a longa crónica de um poeta que sonhou com o impossível, e cruzou tantas fronteiras, acreditando que pudesse mudar o mundo com seus versos. É também um convite a viajar por caminhos e por um tempo fascinantes, em que o sonho e a esperança comandavam os rumos da História. Um tempo em que se repartia a vocação solidária de um mundo melhor. Eis porque este livro é o quinhão da utopia que me resta.»
Ser poeta , nas palavras de Manoel de Andrade, é estar disposto a uma aventura imprevisível, uma viagem sem a certeza de um destino, porque o poeta é um ser desgarrado do mundo, vivendo no âmago de seu próprio desterro. Mas é também um processo de auto descobrimento. Um compromisso com o mundo, com a liberdade e o amor. Ser poeta é escavar na alma uma trincheira de esperança e conquistar o direito imperecível de sonhar.
Homenagear Manoel de Andrade é não deixar de relevar a sua poesia, o seu trajecto de homem justo, escondido atrás de uma poderosa voz de poeta indomável, face ao rosto do homem injustiçado.
Eis, pois, porque passamos a transcrever,  deste insigne memorialista,   um ilustrativo  trecho introdutório  e o  poema de amor à América.
O nosso mais profundo agradecimento, poeta, com as nossas mais vigorosas felicitações. 
Canção de amor a América
"Em meados de agosto (1970) escrevi em Quito o mais belo poema da minha fase latino-americana. É uma longa descrição de tudo o que já havia passado pelos caminhos da América. Cito-o também aqui como um lírico e comovente testemunho de uma experiência marcada pelo sentimento de indignação e da amargura em tantas paisagens humanas descoloridas pela miséria e pela injustica, pela verdade histórica que transformei em versos e pela imensa esperança que contagiava a tantos sonhadores como eu que perseveravam em acreditar numa utopia social que trouxesse a redenção dos oprimidos:

Canção de amor à América

Ai, América,
que longo caminhar!


Eu venho com o trigo do meu canto
minha ternura aberta
e o meu espanto;
e do fundo de mim e do meu assombro
e pelos meus lábios de vinho e gaivotas,
te trago o meu cantar de caminhante.


Para ti, amada minha,
para teu corpo de cansaço
e por tua fome
eu trago esse meu verso frutecido.


Eu venho com o rocio do amanhecer
sou o cantor da aurora
o que desperta
o que anuncia a vida e a esperança.
Eu sou o mensageiro destes anos
o cantor deste tempo e destas terras
eu sou daqui,
desde a Patagônia até o Rio Bravo
e daqui alço meu canto para o mundo.


Ai América,
que longo caminhar!


Eu sou como uma ave que passa
apenas um cantor errante,
mas se na minha voz há uma sinfonia delirante,
é para golpear-te, América,
para entoar teu grito emudecido.


Agora venho cantar-te
e meu canto é como o dia e como a água
para que me entenda sobretudo o homem humilde.
Agora venho cantar-te
mas em teu nome, América,
eu só posso cantar com a voz que denuncia.
Eu não venho cantar o esplendor de Machu Picchu,
a Grande Cordilheira e a neve eterna;
não venho cantar esta América de vulcões e arquipélagos
esta América altiplânica da lhama esbelta e da vicunha;
venho em nome de uma América parda, branca e negra,
e desde Arauco a Yucatán,
venho em nome desta América indígena agonizante.
Eu venho sobretudo em nome de uma América proletária,
em nome do cobre e do estanho ensanguentado.


Eu hoje não venho cantar um continente de paisagens,
não venho cantar o mar que amo,
os lagos escondidos na montanha,
nem os rios que correm ao fundo dos vales florescidos.
Não, eu não venho cantar este trigo que se nega a quem semeia;
eu venho por uma história mais sincera,
venho falar do homem que vi e ouvi pelos caminhos.


Ai América,
que longo caminhar!


Eu venho falar do camponês
de seu poncho roto e o seu colchão de terra,
de sua resignação e o seu misterioso silêncio,
de seu gesto incontido que em alguma parte se levanta,
de sua fome saciada com o sangue dos massacres.


Eu venho falar do mineiro e sua morte prematura,
de uma vida vivida na penumbra tumular dos socavões,
da silicose escavando dia a dia os pulmões dos operários jovens.
Venho contar das mulheres de Yanuni, Catavi e Siglo Veinte
das palhiris bolivianas com quem falei um dia,
dessas desamparadas viúvas do mineiro massacrado ou soterrado,
que buscam no lixo do estanho
o pão diário dos seus filhos.

Eu não venho cantar o encanto colonial destas cidades,
os altares espanhóis recobertos com o ouro dos Incas,
as grandes praças onde se erguem as estátuas dos libertadores.
Venho cantar as favelas, barriadas e tugúrios,
as povoações calhampas e as vilas-misérias,
Venho denunciar a tuberculose e o frio,
venho em nome dos meninos sem pão e chocolates,
em nome das mães e de suas lágrimas.
Eu venho falar por toda voz que se levanta,
por uma geração reprimida com fuzis,
venho falar das universidades fechadas
e com a marca das tiranias encravada nas paredes.


Eu venho denunciar falsas revoluções
e o oportuno pacifismo,
venho denunciar um tempo de desterros e de torturas,
eu venho alertar sobre um terror que cresce uniformizado
e sobre estes anos em que cada promessa de paz é uma mentira.


Ai América,
eu venho em nome do homem e sua agonia,
em nome de uma infância sem doçura.
E por isso eu venho falar de outra colheita
e de um vale semeado na montanha.
Eu venho anunciar o mel e a espiga
e a terra fértil e doce e repartida.


Ai América,
em nome de uma América americana,
eu venho convocar-te para a luta.
Eu canto para isso, amada minha,
para pronunciar um tempo já chegado entre nós todos,
para dizer-te destes punhos que amadurecem em cada gesto,
e destes rifles que disparam em cada peito.


Ai América,
que longo caminhar!


Rumo ao norte
ao sul
a leste ou a oeste,
eu avanço atravessando essas nações.


Oh caminhar, caminhar...
e saber sentir-se um caminhante!
Pois é tão triste morrer a cada dia,
morrer com os punhos abertos e o coração vazio.
Morrer distante do homem e sua esperança
morrer indiferente ao mundo que morre
morrer sempre,
morrer pequenamente
quando a vida é um gesto de amor desesperado.


Oh caminhar, caminhar...
mas caminhar como caminha o rio e a semente,
conhecendo a completa plenitude em seu destino.
Oh caminhar!
Caminhar
e saber-se um dia fruto.
Caminhar
e sentir-se um dia mar.


Ai América,
que não exista a dúvida em meu caminho,
que somente esta paixão de justo me enamore.
Fui prisioneiro,
mas outra vez sou pássaro,
outra vez um caminhante,
e volto a abrir a alma com meu canto.


Hoje me detenho aqui...
levanto minha voz, minha acusação, meu juízo.
Declamo minha bandeira de sonhos,
proclamo minha fé,
recolho meu testemunho e me vou.


Eu sou o jogral maldito
e bem amado.
Meu canto é um grito de combate
e eu não canto por cantar.
Eu parto deixando sempre uma inquietude,
deixando numa senha a certeza de uma aurora.


Eu sou o cantor clandestino e fugitivo,
aquele que ama a solidão imensa dos caminhos.
Passo despercebido de cidade em cidade,
em algum lugar público eu vou dizer meus versos
e ali conheço amigos e inimigos.
Mas sempre pude encontrar o grande companheiro,
o homem novo,
aquele que traz a face da esperança,
aquele que se aproxima em silêncio
e com um gesto inconfundível me saúda.


Ai América,
que longo caminhar!


Eu venho amada América,
para iluminar com meu canto este caminho.
Trago-te meu sonho imenso, latino e americano
e meu coração descalço e peregrino.
Mas quando sinto meu sangue escorrendo-se nos anos
e a vida se me acabe antes de ver-te amanhecida;
Quando penso que é tão pouco, amada minha,
o que eu posso dar-te em um poema;
Ai, quando penso nessas flores de sangue que murcharam,
nestes iluminados corpos que tombaram,
e que ainda não pude fazer por ti quanto quisera;
Ai, se com o tempo eu descobrir
que este lírico fuzil que empunho não dispara,
ai América...
quem dirá que a intenção que tive foi sincera."
Manoel de Andrade, in  NOS RASTROS DA UTOPIA, uma memória crítica da AMÉRICA LATINA, nos anos 70,  Escrituras Editora e Distribuidora de Livros, S.Paulo, Brasil, 2014, pp.546-551

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O amor não é mundano

O amor é a mais poderosa força antipolítica
por Hannah Arendt
“O amor, em virtude de sua paixão, destrói o ‘entre’, esse espaço que nos relaciona com outros e nos separa deles. Enquanto dura seu encanto, o único ‘entre’ que pode inserir-se no meio de dois amantes é a criança, o próprio produto do amor. A criança, esse ‘entre’ com que os amantes agora estão relacionados e mantêm em comum, é representativa do mundo onde ela também os separa; é uma indicação de que eles inserirão um novo mundo no mundo existente. Por meio da criança, é como se os amantes retornassem ao mundo do qual seu amor os expeliu. Mas essa nova mundanidade, resultado e único final possíveis de um caso de amor, é, num certo sentido, o final de um amor, que deve superar novamente os padrões ou ser transformado em outro modo de estar juntos. O amor por sua natureza não é mundano, e é por isso — não por raridade — que é não apenas apolítico, mas antipolítico, talvez a mais poderosa de todas as forças antipolíticas humanas.”
Hannah Arendt, in A Con­dição Hu­mana, Relógio D' Água Editores

domingo, 1 de novembro de 2026

Ao Domingo Há Música

Estátua de Mozart em Mozartplatz, Salzburg, Austria

MOZART

O génio musical no estado puro.
Como se a música fosse só ele,
dando, sem esforço, o mais fino apuro,
com notas que lhe saíam da pele.

Criador abundante, a qualidade,
nunca ferida pela quantidade,
quase parecia uma maldade,
aos que a não sofriam com humildade.

A música dele pode ser sublime
ou deliciosamente faceira,
mas nunca por nunca ela deprime,

fluindo airosa e feiticeira.
Meteoro breve da criação,
mostrou-nos a via da perfeição.
           26.06.2022
Eugénio Lisboa, in  Poemas em tempo de guerra suja, Guerra & Paz Editores, Setembro de 2022, p110

Se o mundo se dispusesse a  ouvir música e dela fizesse a sua bandeira , talvez a face da Terra voltasse a sorrir e a dar espaço a outros meteoros deliciosamente sublimes .

Herbert von Karajan, em  Mozart Piano Concerto No.21 K467. II. Andante "Elvira Madigan".