terça-feira, 30 de junho de 2026

 
 Abruzos

Inverno nos Abruzos
por Natalia Ginzburg

Deus nobis haec otia fecit
“Nos Abruzos há só duas estações: o Inverno e o Verão. A Primavera é nevada e ventosa como o Inverno, e o Outono é quente e límpido como o Verão. O Verão começa em Junho e termina em Novembro. Os longos dias ensolarados sobre as colinas baixas e abrasadas, a poeira amarela da rua e a disenteria das crianças acabam e o Inverno começa. As pessoas deixam então de viver nas ruas: os rapazes descalços desaparecem das escadas da igreja. Na aldeia de que falo, os homens desapareciam quase completamente após as últimas colheitas: iam trabalhar para Terni, para Sulmona, para Roma. Era uma aldeia de pedreiros: e algumas das casas eram construídas com graça, tinham terraços e colunazinhas como pequenas villas, e era surpreendente encontrar nelas, ao entrar, grandes cozinhas sombrias onde havia presuntos pendurados e grandes quartos desolados e vazios. O lume estava aceso nas cozinhas e havia lumes de várias espécies, havia grandes lumes de azinho, lumes de ramadas e folhas, lumes de galhos apanhados do chão um a um. Era fácil distinguir os pobres dos ricos vendo que lume acendiam; mais fácil do que vendo as casas e as pessoas, as roupas e o calçado, que eram sempre mais ou menos iguais. Quando cheguei à aldeia de que falo, nos primeiros tempos todos os rostos me pareciam iguais, todas as mulheres se assemelhavam umas às outras, ricas e pobres, novas e velhas. Tinham quase todas a boca desdentada: as mulheres ali perdiam os dentes aos trinta anos, devido às fadigas e à má alimentação, aos esforços dos partos e dos aleitamentos, que se seguiam sem trégua. Mas depois comecei pouco a pouco a distinguir a Vincenzina da Secondina, a Annunziata da Addolorata, e também a entrar em todas as casas e a aquecer ‑me aos seus diferentes lumes. Quando a primeira neve começava a cair, apoderava ‑se de nós uma lenta tristeza. Era um exílio, o nosso: a nossa cidade estava longe e estavam longe os livros, os amigos, as coisas várias e volúveis de uma verdadeira existência. Acendíamos a nossa estufa verde, com o seu tubo comprido que atravessava o tecto: reuníamo‑nos todos na divisão onde estava a estufa, e aí cozinhávamos e comíamos, o meu marido escrevia sentado à grande mesa oval, as crianças espalhavam os seus brinquedos pelo chão. No tecto da sala havia uma águia pintada: e eu olhava a água e pensava que era aquilo o exílio. O exílio era a águia, era a estufa verde que zumbia, era o campo silencioso e vasto e a neve imóvel. Às cinco soavam os sinos da Igreja de Santa Maria, e as mulheres iam à bênção, com os seus xailes pretos e o rosto vermelho. Todas as tardes o meu marido e eu dávamos um passeio: todas as tardes caminhávamos de braço dado, enterrando os pés na neve. As casas que ladeavam a rua eram habitadas por gente conhecida e amiga: e todos apareciam à porta e nos diziam: “Que tenham boa saúde.” Por vezes alguém perguntava: “Mas quando é que voltam para a vossa casa?” O meu marido dizia: “Quando a guerra acabar.” “E quando é que guerra acaba? Sabes tudo e és professor, quando é que ela acaba?” Chamavam ao meu marido “o professor”, não sabendo pronunciar o nome dele, e vinham de longe consultá‑lo sobre as coisas mais variadas, sobre a melhor época do ano para se tirarem os dentes, sobre os subsídios concedidos pelo município e sobre as contribuições e os impostos. De Inverno uma pneumonia levava algum velho, os sinos de Santa Maria dobravam a finados, e Domenico Orecchia, o carpinteiro, fabricava o caixão. Uma mulher enlouqueceu e levaram ‑na para o manicómio de Collemaggio, e a aldeia falou do caso durante algum tempo. Era uma mulher nova e asseada, a mais asseada de toda a aldeia: e disseram que aquilo lhe acontecera por causa do seu grande asseio. A Gigetto di Calcedonio nasceram duas gémeas, além dos dois gémeos que já tinha em casa, e ele armou um escândalo no município porque não queriam dar ‑lhe o subsídio, por ter já muitas terras e um pomar do tamanho de sete cidades. Uma vizinha cuspiu no olho de Rosa, a porteira da escola, e esta começou a andar com uma venda no olho para que lhe pagassem uma indemnização. “O olho é delicado, o cuspo é salgado”, explicava ela. E também do seu caso se falou durante algum tempo, até mais nada haver a dizer sobre ele. A nostalgia crescia em nós de dia para dia. Por vezes era até agradável, como uma companhia terna e ligeiramente inebriante. Chegavam cartas da nossa cidade, com notícias de casamentos e de mortes que nos excluíam. Por vezes a nostalgia fazia ‑se aguda e amarga, e tornava ‑se ódio: então odiávamos Domenico Orecchia, Gigetto di Calcedonio, Annunziatina, os sinos de Santa Maria. Mas era um ódio que mantínhamos escondido, porque o reconhecíamos injusto: e a nossa casa estava sempre cheia de gente, que vinha pedir favores e que vinha oferecê‑los. Por vezes a costureira vinha fazer ‑nos sagnoccole. Atava um pano à cintura e batia os ovos, e mandava Crocetta procurar na aldeia alguém que pudesse em prestar ‑nos um caldeirão bem grande. O seu rosto vermelho tinha uma expressão absorta e os olhos resplandeciam ‑lhe de uma vontade imperiosa. Teria sido capaz de deitar fogo à casa para que as sagnoccole lhe saíssem bem. Ficava com a roupa e os cabelos brancos de farinha, e, em cima da mesa oval onde o meu marido escrevia, iam sendo depositadas as sagnocolle. Crocetta era a nossa mulher a dias. A verdade é que não era uma mulher porque tinha catorze anos. Fora a costureira quem no ‑la descobrira. A costureira dividia o mundo em dois campos: os que se penteiam e os que não se penteiam. Devem evitar ‑se os que não se penteiam, porque natural mente têm piolhos. Crocetta penteava ‑se: e por isso ficou a servir ‑nos, e contava às crianças longas histórias de mortos e de cemitérios. Era uma vez um menino a quem a mãe morreu. O pai arranjou outra mulher e a madrasta não gostava do menino. Por isso matou ‑o enquanto o pai estava nos campos e fez com ele um cozido. O pai volta para casa e come, mas, depois de ter acabado de comer, os ossos que tinham ficado no prato põem ‑se a cantar:
Minha madrasta a maldita
cozeu ‑me numa marmita 
e depois de me cozer 
deu ‑me ao meu pai a comer.
Então o pai mata a mulher com a foice e pendura ‑a num prego na porta. Por vezes surpreendo ‑me a murmurar as palavras desta canção, e então toda a aldeia torna a aparecer diante de mim, juntamente com o sabor particular das suas estações, juntamente com o sopro gelado do vento e o som dos sinos Todas as manhãs eu saía com os meus filhos e as pessoas espantavam ‑se e desaprovavam ver ‑me expô‑los assim ao frio e à neve. “Que pecado fizeram estas criaturas?”, diziam. “Não está tempo para passeios, signò. Volta para casa.”
Nós andávamos muito tempo pelo campo branco e deserto, e as raras pessoas que encontrava olhavam para os meus filhos com piedade. “Que pecado fizeram?”, diziam ‑me. Quando ali nasce uma criança no Inverno, não a tiram de dentro do quarto antes de ter chegado o Verão. Ao meio ‑dia o meu marido vinha ter comigo trazendo o correio, e voltávamos todos para casa. Eu falava aos meus filhos da nossa cidade. Eram muito pequenos quando a deixáramos, e não tinham recordação nenhuma dela. Eu dizia ‑lhes que lá as casas tinham muitos andares, e que havia muitas casas e muitas ruas, e muitas lojas bonitas. “Mas aqui também há o Girò”, diziam os meus filhos. A loja do Girò ficava mesmo em frente da nossa casa. O Girò ficava à porta da loja como um velho mocho, e os seus olhos redondos e indiferentes fixavam a rua. Vendia um pouco de tudo: produtos alimentares e velas, postais, sapatos e laranjas. Quando chegava a mercadoria e Girò descarregava os caixotes, os rapazes corriam a comer as laranjas podres que ele deitava fora. No Natal chegavam também o torrão, os licores, os rebuçados. Mas Girò não cedia um soldo nos preços. “És muito ruim, Girò”, diziam ‑lhe as mulheres. Ele respondia: “Quem é bom os cães o comem.” No Natal os homens voltavam de Terni, de Sulmona, de Roma, ficavam por uns dias e tornavam a partir, depois de matarem o porco. Nos dias seguintes não se comia senão torresmos e salsichas, e não se fazia senão beber: depois os grunhidos dos pequenos porcos novos enchiam a rua. Em Fevereiro o ar tornava ‑se húmido e mole. Vagueavam no céu nuvens cinzentas e pesadas. Houve um ano em que durante o degelo se romperam as caleiras. Então começou a chover dentro de casa e os quartos transformaram ‑se em verdadeiros charcos. Mas foi a mesma coisa em toda a al deia: não ficou enxuta uma só casa. As mulheres despejavam baldes de água pelas janelas e varriam a água para fora de casa pelas portas. Havia quem se deitasse na cama com um guarda ‑chuva aberto. Domenico Orecchia dizia que aquilo era castigo de algum pecado. Foi assim durante mais de uma semana: os últimos rastos de neve desapareceram por fim dos telhados, e Aristide reparou as caleiras. O fim do Inverno despertava em nós uma espécie de desassossego. Talvez viesse alguém visitar ‑nos: talvez acontecesse finalmente alguma coisa. Alguma vez o nosso exílio teria de acabar. Os caminhos que nos separavam do mundo pareciam mais curtos; o correio chegava com mais frequência. Todas as nossas frieiras se iam curando lentamente. Há uma certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. As nossas existências desenvolvem ‑se segundo leis antigas e imutáveis, segundo um seu ritmo uniforme e antigo. Os sonhos nunca se tornam verdade, e no momento em que os vemos despedaçados compreendemos de súbito que as maiores alegrias da nossa vida estão fora da realidade. A nossa sorte corre nesta alternância de esperanças e de nostalgias. O meu marido morreu em Roma na Prisão de Regina Coe li, poucos meses depois de termos deixado a aldeia. Perante o horror da morte solitária, perante as alternativas cheias de angústia que precederam a sua morte, pergunto ‑me se isto nos aconteceu a nós, a nós que comprávamos laranjas na loja de Girò e passeávamos na neve. Então eu tinha fé num futuro fácil e alegre, cheio de desejos satisfeitos, de experiências e de iniciativas comuns. Mas esse tempo era o melhor da minha vida, e só agora que me fugiu para sempre, só agora o sei.”
Natalia Ginzburg , in As Pequenas Virtudes, Relógio D’Água Editores, 22/06/2021, pp 23-28

Descrição completa:
Entre 1944 e 1962, Natalia Ginzburg escreveu um conjunto de onze ensaios de pendor autobiográfico. São textos essenciais, o legado de uma das mais importantes escritoras do século XX, que viveu retirada no campo com o marido durante o governo de Mussolini e nos anos 60 se deslocou para Londres.
Por eles, passam as suas impressões sobre a juventude e a idade adulta, as consequências da guerra, o medo, a pobreza e a solidão, as recordações de Cesare Pavese e a experiência de ser mãe e mulher quando se é escritora.
São páginas de uma perturbadora beleza, lúcidas, plenas de sabedoria, testemunho de uma escrita capaz de transformar objectos e experiências quotidianos em assuntos de grande significado sobre os quais o tempo parece não passar.
 
SOBRE A AUTORA:
Natalia Levi, que viria a adoptar o apelido Ginzburg do seu primeiro marido, nasceu em Palermo a 14 de Julho de 1916. Passou grande parte da vida em Turim, para onde o pai, professor universitário de Anatomia, foi transferido em 1919. Tanto ele como os irmãos de origem judaica foram presos e acusados devido às suas ideias antifascistas. Apesar de a sua mãe ser católica, Natalia teve como toda a família uma educação laica. Estudou no liceu Alfieri, e publicou o seu primeiro livro de contos, I bambini, aos dezassete anos. Cinco anos mais tarde casou com Leone Ginzburg, professor de Literatura Russa. O casal manteve relações de amizade com Cesare Pavese e Carlo Levi, entre outros escritores. Em 1940, exilaram-se em Pizzoli. Sob o pseudónimo Alessandra Tornimparte, Natalia publicou, em 1942, O Caminho da Cidade, que seria reeditado em 1945 já com autoria assumida.
O marido foi detido e torturado até à morte na Prisão de Regina Coeli em 1944. Depois de libertada, nesse mesmo ano, Natalia deslocou-se para Roma, começando a trabalhar na editora Einaudi, aí publicando os seus livros. Em 1947, surgiu o seu segundo romance, Foi assim, que obteve o Prémio Tempo. Em 1950, casa com Gabriele Baldini, especialista em literatura inglesa, de quem terá dois filhos. Em 1961, publica As Vozes da Noite, que será adaptado ao cinema. Dois anos depois, sai Léxico Familiar, uma novela autobiográfica. Interpreta o papel de Maria de Betânia em Evangelho segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini. A partir do final da década de sessenta, publica vários livros, todos eles abordando relações familiares. Natalia Ginzburg foi também autora de várias comédias teatrais e tradutora de Proust, Flaubert e Maupassant. Foi eleita para o parlamento italiano em 1983. Morreu a 7 de Outubro de 1991.

domingo, 28 de junho de 2026

Ao Domingo Há Música




HOJE, AMANHÃ

Hoje é o passado de amanhã.
O que hoje está aqui, tão vivo
recordar-se-á, depois, num divã,
suave tesouro, já mal cativo.

Hoje, é tudo cheio de luz bem clara,
iluminando todos os recantos.
O hoje está cheio de vida rara,
onde tudo são vibrantes espantos!

Amanhã, um suave apagar
irá colocar um mui fino véu,
no que hoje está a fulgurar.

Amanhã, já será um novo céu,
a cobrir uma outra realidade
e os sortilégios de nova cidade!
            15.04.2023
Eugénio Lisboa

 O autor deste poema , Eugénio Lisboa, no Prefácio  do  seu livro " Soneto, modo de usar" confessa    que com o uso e o tempo , fui-me sentindo cada vez mais em casa , no soneto. 
E nós concordamos e aceitamos. Sentimo-nos em casa.  
É com ele que damos início ao registo musical deste domingo. Recordar um hoje ido  para  amanhã  um outro hoje iniciar.
Que vos agrade.

Aida Garifullina & Rolando Villazón, na célebre canção de Ernest di Curtis: Non ti scordar di me, acompanhados pela  Junge Sinfonie Berlin,  sob a direcção do Maestro Elias Grandy.
 
Tamara Radjenovic, soprano, e Vasa Stajkic, barítono, na famosa canção   Dime Que Sí, de Alfonso Esparza Otero (arrangement Bojan Mladenovic), acompanhados pela Belgrade classic symphony orchestra & Choir ‘’ Beli Anđeo’’, sob a direcção do Maestro  Darko Butorac.
   
Tamara Radjenovic & Vasa Stajkic, na popular canção   Quizas, Quizas, Quizas Quizas, Quizas, Quizas, de Osvaldo Farrés ( Arrangement Konstantin Blagojevic), acompanhados  pela Belgrade classic symphony orchestra & Choir ‘’ Beli Anđeo’’ sob a direcção do Maestro Darko Butorac.
 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O tal prazer da escrita

O tal prazer da escrita
por Eugénio Lisboa
“A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores. E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.
A escrita é a melhor arma de defesa e de ataque de que dispomos. Nenhuma nos defende tão bem de uma ferida ou faz, nos outros, uma ferida tão perene.
A escrita foi inventada por alguém que precisava muito dela, para registar informações. Assim, começou por ser útil e passou a ser agonicamente necessária. Escrevo, logo existo. Mas também: escrevo, logo não sofro. Quando escrevo, falo de um sofrimento que já foi, mas que deixa de o ser, no momento em que o escrevo. A funda alegria de o escrever mata o sofrimento que já se sentiu, mas se apaga ante o fulgor da escrita. Como dizia Montherlant, o escritor é aquele ser peculiar, que sofre, não sofrendo.
O Camões que escreveu o “Alma minha” não sentia, no momento em que a invocava, saudades da morta, sua amada. O que ele sentia, no momento da escrita, era a alegria de escrever uma saudade, que sentira, antes de a escrever, mas que não podia sentir, no momento em que a escrevia. O escritor é um monstro que mata, sem escrúpulos, no momento de o celebrar, o mais profundo sentimento que antes o afligira, para melhor o poder glosar, com os utensílios da sua arte. A alegria de escrever, o tal prazer da escrita tem muito de inumano. O grande escritor é, na sociedade em que vive, um suspeito a vigiar, porque pode ser perigoso. Por isso, o escritor Tonio Kröger, da famosa novela de Thomas Mann, ao regressar um dia, no tarde da sua vida, coberto de glória, à sua terra natal, torna-se suspeito, aos olhos da polícia local, que o toma por um malfeitor…
Não nos esqueçamos de que o grande William Faulkner declarou um dia que seria capaz de matar meia dúzia de velhinhas, se isso lhe permitisse escrever a belíssima ODE A UMA URNA GREGA, do poeta John Keats. Um poeta é capaz de tudo, mesmo de vender a alma ao diabo, para acertar um verso ou colocar uma vírgula no lugar certo. Quem não compreende isto não compreende nada deste ofício nem dos seus oficiantes.”
Eugénio Lisboa, em 20.06.2023

 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Viajar pelo Sahara

O desejo de partilhar uma experiência que julgamos valiosa não se deve perder.
                 George Orwell, Porque escrevo

Sahara: Uma viagem pelas Montanhas Hoggar, no sul da Argélia pelos Amazing Places 4K.
Explore a região das Montanhas Hoggar (Ahaggar), no sul da Argélia, e descubra a paisagem desértica de altitude com as suas dramáticas formações vulcânicas e graníticas, picos irregulares, estruturas basálticas erodidas e vastos planaltos rochosos. Locais apresentados no vídeo: O Monte Ilamane é um dos picos mais icónicos e visualmente impressionantes das Montanhas Hoggar, perto de Tamanrasset, no sul da Argélia. É um proeminente remanescente vulcânico no maciço de Atakor. Assekrem (Planalto de Assekrem) é, sem dúvida, o destino mais icónico e espiritualmente impactante das Montanhas Hoggar. Trata-se de um planalto vulcânico elevado e o ponto alto de qualquer expedição ao Sahara/Hoggar. Guelta Afilal consiste em piscinas naturais em rochas que albergam água permanente, uma raridade neste ambiente árido, bem como flora única e até pequenos peixes — entre as últimas espécies de peixes sobreviventes no Sahara. O sítio arqueológico de Tagmart Tan Afella é conhecido pelos seus antigos petróglifos gravados nas rochas graníticas.
0:00 Mount Ilamane; 2:15 Road to Assekrem; 3:44 Assekrem; 5:15 Guelta Afilal; 6:08 Desert Camp with petroglyphs; 7:44 Archaeological Site Tagmart Tan Afella.
Música por  JaySound. Design, Rawvibrations / Pond5
Sobre Amazing Places on Our Planet: Vídeos de alta qualidade de destinos turísticos incríveis de todo o mundo. Mergulhe nos lugares mais belos do planeta sem a distracção das palavras. Filmado e editado por Milosh Kitchovitch (contacto comercial: ). YouTube: Site: Facebook: Instagram: Todos os vídeos no mapa 4K. More Amazing Places em 4K.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A Mulher Adúltera

A mulher adúltera é um poema do  poeta brasileiro Manoel de Andrade que acaba de ser  musicado por Gustavo Lencin.

A Mulher Adúltera

Jesus chegara ao nascer do dia,
e ali, no Templo, ensinava o povo.
Falava a todos sobre um reino novo
e o caminho do amor a todos anuncia.

Chegam depois escribas e fariseus,
trazendo uma mulher por adultério
e citando a Lei, por tamanho vitupério,
apedrejada devia ser entre os judeus.

Que dizes tu? perguntam provocando,
para acusá-lo, se desse o seu perdão.
E vendo-o sereno a escrever no chão,
os acusadores persistem interrogando.

Ergue-se Jesus, ao ser tão provocado
e ante a pobre mulher ali prostrada,
Diz-lhes: Que dê a primeira pedrada
o que dentre vós estiver sem pecado.

E ouvindo isto, saem eles de mansinho,
o orgulho humilhado pela sapiência,
seus pecados na própria consciência
e a hipocrisia buscando outro caminho.

E no meio de todos que lá estavam
compadecido da mulher por seus errores
pergunta-lhe: Onde estão teus acusadores?
Não te condenaram os que te denunciavam?

Ninguém, Senhor, disse ela ante os demais.
Pois também eu, mulher, não te condeno,
disse com compaixão o meigo nazareno.
Vai, e de agora em diante não peques mais.

Curitiba, 24 de janeiro de 2026
Manoel de Andrade

domingo, 21 de junho de 2026

Ao Domingo Há Música

  
Quando ouço música, a minha imaginação compraz-se muitas vezes com o pensamento de que a vida de todos os homens e a minha própria vida não são mais do que sonhos de um espírito eterno, bons e maus sonhos, e de que cada morte é o despertar.
                        Arthur Schopenhauer

A música tem,  para todos nós,  a capacidade de,  em qualquer momento, nos libertar , nos levar para lá daquilo que nos apouca e , por vezes, nos atormenta. Se o sonho  liberta , a música  transforma. E quando a sentimos , o mundo engalana-se de todas as cores, em  eufónico brilho ,   conforme o desejo de cada um.
Hoje, apostamos em duetos de composições que nos agradam e ficaram na memória. As vozes souberam dar-lhe a forma que chega ao coração e faz reviver a magia que nos invadiu.

Céline Dion Luciano Pavarotti , em  I Hate You Then I Love You (Live).

   
Chris Stapleton Lady Gaga, em  When A Man Loves A Woman (2026 AI Music Video)  

Bárbara Bandeira  e Carminho , em  Onde Vais (feat. Carminho) [Official Music Video].
 
Sinéad O'Connor e Roger Waters, em Mother.
Jimmy Barnes  e Tina Turner , em  (Simply) The Best (Official Video).
  
Mary J. Blige U2, em  One (Official Music Video).
 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Rico e vário

Sou rico – e vário
por Eugénio Lisboa
"Tem havido quem estranhe que eu, saído de Moçambique, tenha depois dedicado tão pouca da minha atenção às literaturas africanas de língua portuguesa. Como de costume, a estranheza é que é estranha. Nascido em Moçambique e aí tendo vivido um total de 38 anos, terei sido um dos primeiros – mas não seguramente o primeiro – a dedicar alguma atenção crítica e não pouco carinho a textos importantes de uma emergente literatura africana. Mas a minha cultura, como a de quase todos os europeus residentes em África, era uma cultura fundamentalmente portuguesa, europeia e universal no melhor sentido. Nunca me inculquei – porque nem era verdade, nem era a minha verdadeira vocação – como especialista de literatura moçambicana. Estudei-a, sim, e até muito antes de outros que depois se lhe dedicaram em exclusividade. Mas tive, desde muito novo, outras apetências, outros alimentos a que nunca soube, nem quis fugir. Se a África me está no sangue, no imaginário e no coração, a Europa e as Américas não o estão menos. Aluno de engenharia, em Lisboa, a partir de 1947, a minha curiosidade insaciável por nomes como Camões, Pessoa, Vieira, Sá-Carneiro, Eça, Garrett, Camilo, Régio, Gide, Proust, Montaigne, Montherlant, Thomas Mann, Racine, Stendhal, Balzac, Shakespeare, Dickens, George Eliot, Shelley, Wordsworth, Pessoa, Sá-Carneiro, Régio, Lorca, Unamuno, Ortega y Gasset, T.S. Eliot, Sherwood Anderson, Edgar Poe, Hemingway, Faulkner, Pirandello, D’Annunzio, Huxley, Bertrand Russell, Bernard Shaw, o inimitável Oscar Wilde, Tolstoi, Tcheckov, Dostoiewsky ou Fiodor Sologub, [a minha curiosidade por todos estes nomes] nunca cessou de me devorar e estimular no melhor sentido. Se estudei Craveirinha, Luis Bernardo Honwana, Rui Knopfli, Rui Nogar ou Glória de Sant’Ana, que em Moçambique viveram (e, alguns, nasceram, e outros, ainda, nasceram e morreram), se o fiz com um cuidado e uma imparcialidade crítica que nem sempre se tem votado às literaturas africanas, não me senti por isso obrigado a jugular aquelas outras apetências que eram, para mim, vitais. De nada disto me sinto com vontade de pedir desculpa ao povo de Moçambique. Porque o povo de Moçambique tem a grandeza de Moçambique e deve portanto saber alcançar o que está para além de Moçambique. O melhor do que é particular é também universal. Foi para mim um privilégio inconcebível, uma permanente fonte de assombro – e é o assombro que leva a todas as descobertas – ter nascido em Moçambique: aqui descobri os afectos, os saberes, o respeito sagrado pelas crianças e pelos velhos, o Oceano Índico, as praias como não há outras, o amor, a leitura, a ciência, o calor, os mais bonitos outonos e invernos do universo, mas aprendi também – e assim é a humanidade – que se é muitas vezes feliz e cumulado de riquezas no meio de outros que são menos felizes e bem menos municiados pelos alimentos terrestres. Aprendi que existe a injustiça que fere como um espinho que nunca se arranca. E aprendi que a nossa simpatia para com o sofrimento dos injustiçados nos pode marginalizar numa sociedade que se construiu sobre a injustiça e teme a justiça como o fim de privilégios que se habituara a ter como bens de direito divino. Aprendi a sofrer, também, aqui, em Moçambique. E aprendi a deixar de ser feliz daquela maneira inocente de ser feliz que me visitara a infância e a adolescência, mas que a idade adulta foi desassossegando como quem mina fundações que pareciam tão sólidas. Moçambique. Dei-lhe o que podia, sendo eu quem sou. Não lhe dei, talvez, tudo quanto devia. Repito: tenho raízes em mais do que um quintal. Sou rico – e vário. Ao fim de cinquenta anos de escrever e publicar, agora que se aproxima o fim da minha aventura, agradeço do coração a todos os que me enriqueceram com o seu convívio, com as luzes que em mim acenderam, com os acordes que me encantaram os ouvidos. Moçambicanos ou não, o meu temperamento não se dá nem com a rejeição, nem com a exclusão. Dizia Montaigne – e melhor conselheiro do que ele não há! – que a diversidade é a qualidade mais universal que há no mundo. Com ela me dei sempre bem, ao seu calor me aqueci, com o seu estímulo, caminhei. E, aqui, neste Moçambique que visito provavelmente pela última vez e onde descobri, com assombro inextinguível, o milagre de estar vivo e de estar vivo com outros um pouco diferentes de mim, aqui me despeço de vós, com quem aprendi, entre outras coisas, aquilo que há muitos séculos fora já descoberto por um escravo chamado Terêncio: que, sendo humano, a nada do que é humano sou alheio.” 
Eugénio Lisboa, inTexto lido na Escola Portuguesa de Moçambique, em 7 de Junho de 2007

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Viajar pelo Irão

Foi sempre com a legenda que se construiu a vida.
                                     Raul  Brandão
 
Irão em 4K - paisagens  incríveis com música relaxante, por Adnan Akhtar.