terça-feira, 28 de julho de 2026

Viajar por Évora


Eugénio Lisboa registou, nos Diários, que foi escrevendo ao longo da sua vida, muitas páginas de grande relevância sobre viagens que realizou. Publicou algumas, em 2017 , num tomo único, a que deu o título " Diário de Viagens Fora da Minha Terra".
Hoje ,transcrevemos  páginas inéditas de uma viagem a Évora , acompanhado da sua mulher, Maria Antonieta.

Évora, 15.07.2005 – Pousada dos Lóios
por Eugénio Lisboa
"Há 3 dias em Évora, neste convento transformado em pousada. O convento, dizem os historiadores, foi mandado construir por D. Rodrigo de Melo, em 1481, logo após a morte de D. Afonso V (28 de Agosto desse ano), com quem andara à espadeirada aos mouros, no norte de África. Diz-se que o velho fidalgo se encontrava, por esta altura da sua vida, “entristecido e carregado de anos”. Não custa muito imaginar que uma juventude de matança, mesmo de “infiéis” e mesmo ao serviço de um rei de quem se é amigo e fiel servidor, conduza a uma velhice entristecida. Que imagens de corpos trespassados, de gritos de aflição sem resolução, de olhos espantados e devastados de surpresa nos podem dar à velhice uma aura de tristeza sem remédio? Estarei a especular? Penso que não. O facto de D. Rodrigo ter pedido que após a sua morte (sua mulher, D. Isabel fora à frente), se rezasse, no convento, “missa quotidiana por sua alma e de sua mulher” é sinal inconfundível de que os fantasmas (mesmo de infiéis) atormentavam, mais do que ligeiramente, os últimos anos do fidalgo.
Seja como for, mandou construir este magnífico convento, onde nos encontramos, eu e a Maria Antonieta, há três dias. Vamo-nos, de regresso a S. Pedro, daqui por três horas. O convento é magnífico, amplo e, nos claustros em que antes se ouvia o silêncio majestoso das meditações, agora come-se, profanamente, os requintados manjares que a Babette local, D. Francisca, congemina, para nosso deleite. Pode ser que se cozinhe tão bem, noutros lugares deste Portugalinho atraente e turístico. Melhor, duvido. Que riqueza, na simplicidade airosa (e capitosa!) dos menus! Não é de admirar que os empregados de mesa nos perguntem, não se tudo está bom, mas, antes, se tudo está óptimo! O “bom” seria uma litote ofensiva…
Os quartos que habitamos chamam-se “celas” porque foram as celas que os frades habitaram, nos tempos de convento que o convento já teve. Tudo é grande, amplo, generoso, neste convento que se originou numa grande vontade de redenção. D. Rodrigo de Melo não pensou pequeno: ele lá sabia as razões que tinha.
Uma piscina moderna – e muito a propósito para nos ajudar na luta contra o calor alentejano – dá um ar de saborosa profanação que se acrescenta ao capitoso ultraje de repastos sensuais a desflorar a paz mística dos claustros…
Não sei o que D. Rodrigo pensaria de tudo isto. Mas julgo que tudo isto nos leva, irresistivelmente, até ele – e a pensar nele. Não é uma forma de lhe preservar a presença, entre nós? Não é um modo de lhe garantir um modicum, ainda que modesto, de eternidade?
Em Évora, cidade património do Alto Alentejo, passámos, eu e a Maria Antonieta, três dias de revisitas a lugares vários (a catedral, a Igreja de S. Francisco, a Praça do Giraldo, a  Biblioteca Pública, a Igreja de S. João Evangelista – adjacente ao convento – etc.) Sempre sediados no convento, a que regressávamos, magneticamente atraídos pelos filtros mágicos da Babette eborense e para fins de restauro de forças, pelo sono celular…
Vamos agora deixar Évora e o Convento dos Lóios. Para voltarmos cá? Gostaria de pensar que sim!"
Eugénio Lisboa, in Aperto Libro III ( obra inédita)
 
Évora, património da humanidade, partindo da zona monumental, chamada de acrópole, mostro um percurso pelo centro histórico, mostrando a Sé Catedral, Igreja do Convento dos Lóios, Palácio dos Duques de Cadaval, Cerca Velha, Universidade, Porta de Moura, Igreja da Misericórdia, Igreja do Convento da Graça, Igreja do Convento de S.Francisco, Praça de Giraldo, seu Chafariz e Igreja de Santo Antão, a Porta da Selaria, as ruas encostadas à antiga Cerca Velha, vendo as suas antigas Torres, o Aqueduto da Água de Prata, a Porta de D.Isabel, e a Cerca Nova ou muralha medieval.

domingo, 26 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música

Bicicleta de Recados

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
Pedalo nas palavras atravesso as cidades
bato às portas das casas e vêm homens espantados
ouvir o meu recado ouvir minha canção.
Manuel Alegre ,  A praça da canção, Coimbra , 1965 

Nem sempre a bicicleta traz o tal recado, mas há sempre canções  com muitos recados. São várias e chegam em tonalidades diferentes. O que importa é escutá-las,  em harmoniosa sintonia e deleite. 
Neste dia dos avós, fica o  recado de quem tem a suprema delícia de ser avó. Não tenham medo dos clichés porque ser avó é um dos maiores e sublimes prazeres desta vida , se não for o maior entre os maiores.  A memória dos afectos será sempre um dos seus legados.
Sejam felizes.


VOCES8 e Ringmasters interpretam Lux Aurumque, sob a direcção do compositor Eric Whitacre. O vídeo foi gravado no VOCES8 Centre e a faixa faz parte do novo álbum do grupo, 'Shall We Gather', com lançamento previsto para 24 de Julho de 2026.
Texto: 
 Lux,
 Calida gravisque pura velut aurum
 Et canunt angeli molliter
 modo natum. 
 Light,
 warm and heavy as pure gold 
and angels sing softly
 to the new-born babe. 
 Edward Esch, b.1970 (Traduzido para Latim por Charles Anthony Silvestri)
 
VOCES8 apresenta Salutaris Hostia,  de Ēriks Ešenvalds, no VOCES8 Centre, em Londres. Ēriks Ešenvalds é um dos mais celebrados compositores contemporâneos da Letónia, conhecido pelas suas obras corais que combinam a harmonia radiante com a ressonância espiritual. Esta obra musicou o antigo hino eucarístico de São Tomás de Aquino, uma oração que pede a Cristo, a "vítima salvadora", que fortaleça os fiéis nas suas lutas. A composição de Ešenvalds impressiona pela sua simplicidade e beleza: longas e arqueadas linhas de soprano elevam-se acima de texturas corais luminosas, desdobrando-se gradualmente até um momento de intensidade extática antes de regressar à devoção silenciosa. Em apenas alguns minutos, a peça capta tanto a intimidade da oração como a transcendência da fé
.  
VOCES8 apresenta May it Be (Enya/Lord of the Rings).
VOCES8 em "Enchanted Isle' , com  música de filmes, pop e tradição celta transporta-nos , em som sublime, através da paisagem das Ilhas Britânicas  , a  'Ilha Encantada'.
 

sábado, 25 de julho de 2026

A Floresta adormecida

EM TRÊS LINHAS
"Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões. Tinha ouvido a um oficial de marinha que a paisagem do arquipélago valia a do Japão. E talvez valha... Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nas leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos!... "
 1926. 
 R.B.(Raul Brandão)



A FLORESTA ADORMECIDA
por Raul Brandão

30 de Junho
As Flores e o Corvo erguem-se uma defronte da outra, separadas por um canal de quinze milhas, o Corvo espesso e nu, as Flores violeta e verde com rochas violetas e os cimos dum pasto delicado. Pelos altos das falésias povoações esparsas, o Monte, a Fazenda, Cedros, Ponta Ruiva, entre colinas arredondadas e renques de hortenses que dividem os campos. Lá para o fundo três pináculos escuros e mais longe alguns cerros de um azul quase negro. A costa vai-se aproximando com saliências e negrumes, e o verde tenro das ervas cada vez mais tenro, destacando-se da massa espessa, onde emergem os píncaros cada vez mais escuros. Um esguicho de sol cai de entre nuvens pesadas, ilumina e doira, desfaz-se em poeira sobre o primeiro piano, enquanto o outro se conserva esfumado. Mais pesada é a massa dos montes, o recorte dos penedos; só a água dum verde-claro estremece a meus pés. Entramos pelas rochas afiadas do porto de Santa Cruz. Duas ou três ruas muito limpas, a igreja, a praça, o convento, e logo por trás uma colina esmeralda de formas regulares e perfeitas como um seio túmido apontando o bico para o céu.

1 de Julho
Hoje, outro dia enevoado. Com este tempo turvo, amanhece tudo cheio de orvalho, as árvores, os milhos, o trevo em flor, as fitas prateadas da erva, cujas hastes estremecem e não podem com o peso. Olho num espanto a volúpia do monte verde cortado por sebes azuis de hortenses, com uma grande nuvem cor de chumbo em cima; a falésia monstruosa em roxo e verde, a luz carregada de humidade com clarões esbranquiçados de nevoeiro, que alastram e se desfazem em névoa peneirada e fina; o Corvo ao longe, desaparecendo na humidade e reaparecendo, quando a cortina se descerra – a fisionomia estranha da terra, a vida efémera da água, da chuva e do tempo fantasmagórico. O carácter desta paisagem é a serenidade com uma pontinha de tristeza... Sempre. enevoada e fresca, húmida, como aquele monte voluptuoso ao fundo, é uma paisagem casta, que se oculta e revela, uma paisagem feminina no momento único em que se desnuda com pudor. A chuva é leve, as névoas molhadas não passam de orvalho doirado que o sol ilumina e atravessa. E quando cai (cai muitas vezes), é em borrifos que vêm lá de cima de uma brancura, sobre o calor abafado. De repente aparece o Sol – de repente tudo muda à vista, como um cenário, tornando-se difuso e turvo. As nuvens nos Açores têm uma vida extraordinária, uma vida que não percebo bem! Hoje uma sobre o Corvo lembra uma auréola magnética. Amontoam-se no horizonte, surgem outras em bando, esguias nas extremidades, a que chamam baleotes e que indicam mudança de tempo. Há-as escuras com claridades extraordinárias pelo lado de trás; há-as que viajam no céu com importância de deuses... Tenho a impressão de que há nas Flores a luz mais delicada dos Açores, a luz vaporizada que se sensibiliza a todos os momentos. É talvez da cor, que é única, do pó roxo, do verde dos pastos sempre tenro e uniforme – é talvez da mistura dos nervos do mar, da chuva de Verão, do sol que se desfaz em oiro sobre tudo isto, e destas nuvens mágicas que interceptam a luz ruborizando-se como grandes velários de cor – para logo se desfazerem diante de meus olhos em arabescos, em fios ténues, em farrapos... Todas as cores se fundem e acabam por se apagar em cinzento, deixando só resquícios na atmosfera húmida. Nunca assim vi ambiente tão rico em prestigio, sempre diverso e sempre em movimento. É o cinzento que predomina – mas um cinzento colorido onde bóiam cores húmidas, principalmente o verde e o violeta –jorrando, atabafando em pardo e violeta montes verdes a escorrer. É o que dá prestigio a esta terra molhada, onde o próprio sol parece molhado – molhado e doirado, tão leve que mal trespassa o cinzento... Então, um momento iluminado, o panorama respira, arfa devagarinho como um seio, ainda orvalhado do banho e aquecido pelo Verão, ruborizado e sorrindo por ter de despir a camisa diante da gente. Outras vezes tudo desaparece ou toma proporções fantasmagóricas e a água goteja doirada. Água, ar e bruma intimamente se casam para produzirem esta impressão casta e cinzenta ou toda violeta como a obra de arte de uma individualidade estranha."
Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas, Quetzal Editores

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Acorda-me a tua voz


Contigo

Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.

As mãos afagam a luz,
prolongam o dia breve.

Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.

Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.

Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada.
Eugénio de Andrade, in " Até amanhã", Assírio& Alvim

Começar o dia com as palavras de Eugénio de Andrade e a voz de Sissel é um dos tais  prazeres a não perder. Poesia e Música um casamento perfeito.

Sissel, em   If You Go Away.
 
Sissel, em Crying in the chapel.
 
Sissel, em The First Time Ever I Saw Your Face.
 
 Sissel, em  Down | Live at Lindmo.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Da Descoberta do Mundo




A DESCOBERTA DO MUNDO é um excelente  livro de crónicas, de Clarice Lispector, de onde foram extraídas estas apropriadas reflexões:

❝ Não, quem tem razão é este meu coração indireto, mesmo que os fatos me desmintam diretamente.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a es- perança.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝Ser às vezes sangra.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020 

❝ Nem sempre esmiuçar demais dá certo.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020  

❝ Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil -, fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ O que não será jamais elucidado é o meu destino.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020  

❝ Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Estou habituada a não considerar perigoso pensar.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020  
❝ Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Como vão vocês? Estão na carência ou na fartura?
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ […] milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

Ir para
Esta noite um gato chorou tanto que tive uma das mais profundas compaixões pelo que é
vivo. Parecia dor, e, em nossos termos humanos e animais, era. Mas seria dor, ou era “ir”, “ir para”?
Pois o que é vivo vai para.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

O processo
– Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou
aguentando viver.
– Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o
desespero é uma luz, e um amor.
– E depois?
– Depois vem a Natureza.
– Você está chamando a morte de natureza?
– Não. Estou chamando a natureza de Natureza.
– Será que todas as vidas foram isso?
– Acho que sim.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

Sim
Eu disse a uma amiga:
– A vida sempre super exigiu de mim.
Ela disse:
– Mas lembre-se de que você também super exige da vida.
Sim.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ … os dias seguintes eram a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

Medo do desconhecido
"Então isso era a felicidade. E por assim dizer sem motivo. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa
desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

❝ Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020

"É preciso parar
Estou com saudades de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim – enfim, mas que medo – de mim mesma.
—  Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco,2020

❝ Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade” refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020  

Não entender
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo. Rocco, 2020

Entre aspas
"Quando mexo em papeis antigos, isto significa exteriormente alguma poeira, e interiormente raiva de mim mesma: porque, nunca me convencendo que tenho má memória, copio entre aspas frases ou textos e depois, passado um tempo, como não anotei, pensando que não esqueceria, o nome dos autores, já não sei quem os disse. Por exemplo:
“Vemos que aqui na terra os opostos se misturam, que um valor positivo se compra ao preço de um valor negativo. E, talvez, a experiência metafísica a mais profunda – a que vem quando o ser toma consciência do absoluto, o que lhe dá estremecimento do sagrado e deixa-o entrever a felicidade, aquela que lhe permite o acesso ao sobrenatural – talvez essa experiência só seja possível quando a alma está tão deslocada que não lhe é mais possível reerguer-se de sua ruína.”
“O que parece incoerente à fria análise pode às vezes estar carregado de sentido para o coração, e este o entende.”
“Não se saberia adquirir o conhecimento intuitivo de um outro universo sem sacrificar uma parte do entendimento que nos é necessário no mundo presente.”
Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
Sobre o Livro
Sinopse
"Este livro reúne as crónicas de Clarice Lispector, publicadas no Jornal do Brasil de 1967 a 1973. Permitem compreender melhor a escrita da autora que se consagrou como uma das maiores escritoras do Brasil. Se nos contos e romances o mistério de uma narrativa envolve o leitor num processo quase que iniciático, nas crónicas esse mistério vai aos poucos sendo desvendado, revelando o mundo pessoal e subjetivo da autora enigmática que viveu no Leme, próximo às areias e ao mar de Copacabana, que tanto apreciava.
Ao aceitar o convite do JB para escrever uma coluna aos sábados, Clarice Lispector sente a estranheza entre ser escritora e jornalista: "Na literatura de livros permaneço anónima e discreta. Nesta coluna, estou de algum modo me dando a conhecer", comenta na crónica de 21 de setembro de 1968.
Género leve, ameno, de leitura mais fácil, a crónica traz quase sempre a interpretação de um fato conhecido por todos, investido pela subjetividade de quem comenta o assunto, dando um sabor novo ao acontecido. Com a sua despretensão, a crónica quebra o monumental, o extraordinário, celebrando o cotidiano, o dia a dia e mostra belezas insuspeitáveis através da argúcia, da graça, do humor de quem a escreve. A informalidade investe de leveza uma linguagem cuja densidade busca revelar o segredo das coisas mais simples, o cotidiano transfigurado pelo olhar de Clarice, que redescobre nas Macabéas de todo dia a luminosidade de uma presença estelar. Entre flanelas e vassouras, mulheres simples e humildes se transformam em personagens que se eternizam. Aninha, Jandira, Ivone ou Aparecida são algumas dessas estrelas que saem de suas vidas apagadas para serem reveladas pelo olhar atento e sensível, onde escapa, por vezes, um leve e sorrateiro toque de humor, como no caso da empregada que fazia análise, ou da "mineira calada", que gostava de ler livros complicados."
Sobre a autora
"Clarice Lispector foi uma das mais importantes escritoras da literatura brasileira do século XX. Nascida em 10 de dezembro de 1920, na aldeia de Tchetchelnik, na Ucrânia, e falecida em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, ela se destacou por uma produção literária marcada pela introspecção, pela investigação da consciência humana e por uma linguagem altamente original.
Embora tenha nascido na Europa Oriental, Clarice chegou ao Brasil ainda criança e construiu toda a sua trajetória intelectual, literária e profissional em território brasileiro. Sua obra ocupa lugar central na literatura em língua portuguesa, especialmente por renovar a forma narrativa e por explorar experiências interiores, conflitos subjetivos e questões existenciais com grande intensidade.
Uma escritora decidida a desvendar as profundezas da alma. Essa é Clarice Lispector, que escolheu a literatura como bússola em sua busca pela essência humana.
Sua tentativa de transcender o cotidiano revela-se em personagens na iminência de um milagre, uma explosão ou uma singela descoberta. Todos suscetíveis aos acontecimentos do dia a dia.
Vidas que se perdem e se encontram em labirintos formados por uma linguagem única, meticulosamente estruturada. E é por essa linguagem que Clarice Lispector constrói uma obra de caráter tão profundo quanto universal."

terça-feira, 21 de julho de 2026

Eugénio Lisboa, uma voz presente

Eugénio Lisboa, (1930- 2024)

Eugénio Lisboa,  um dos intelectuais mais eruditos  destes dois últimos séculos da nossa Literatura, estará sempre presente neste espaço. 
Recordamos um texto que compõe o magnifico livro de homenagem, Eugénio Lisboa, vário, intérprido e Fecundo - Uma Homenagem, organizado por Otília Martins e Onésimo Teotónio Almeida, aquando dos seu oitenta anos.

EUGÉNIO LISBOA
- UMA VOZ PRESENTE

por Guilherme D’Oliveira Martins
“Eugénio Lisboa é um ensaísta singularíssimo. Ao longo da sua vida tem sido um incansável estudioso do segundo modernismo português e da nossa cultura, com especial atenção para José Régio. Contudo, é um escritor multifacetado, com luz própria, com uma sensibilidade e uma argúcia dignas de referência especial. Com inteligência fina, tem sabido aliar a grande erudição à capacidade de compreender a realidade literária, cultural e social, distinguindo o que tem valor do que não tem. Percebe-se bem que Eugénio Lisboa apreende, com grande lucidez, os valores seguros, isto é, o que tem condições para ficar para além do sucesso efémero e passageiro. Há dias, falando de lusofonia, perguntavam-me sobre as grandes referências da literatura de Moçambique – e não tive dúvidas em referir, com Craveirinha e Mia Couto, o magistério fundamental de Eugénio Lisboa e de Rui Knopfli. E se me lembrei da relevância literária de ambos , nomes de primeira grandeza na idiossincrasia moçambicana , não me esqueci ainda da memória saudosa de Fernando Gil, filósofo relevante no panorama contemporâneo , nado e criado no cadinho moçambicano

UMA VOZ INDEPENDENTE
Eugénio desde sempre afirmou-se como uma voz independente, não vulnerável a tendências ou modas. Sendo engenheiro de formação, soube ligar um sentido prático da vida à consideração da cultura como o modo mais sublime de dominar a natureza. Não há, pois, dois compartimentos na vida do intelectual – o engenheiro e o escritor completam-se naturalmente. Conheci-o em Londres e depressa percebi que nos iríamos dar muito bem, o que de facto tem acontecido. Temo-nos encontrado muitas vezes (desde a UNESCO às batalhas da cultura e da cidadania, passando pelos amigos comuns) e a empatia é natural, por convergência de valores e preocupações, de atitude e de obrigação crítica. Desconfio das torres de marfim, e Eugénio Lisboa também. As suas conferências, os seus ensaios, as suas críticas têm sempre algo de muito especial e próprio. Cada citação, cada referência corresponde à ênfase necessária e adequada de um sentido crítico. Nunca vi em Eugénio Lisboa uma concessão ao fácil, ao imediato ou à tendência do momento. E em momentos cruciais, usufruímos do seu acutilante sentido crítico, em termos que conduzem a que o tempo lhe dê razão, apesar das perplexidades imediatamente sentidas. No fundo, é um justo, que procura dizer o que pensa e o que sente, mesmo que não seja compreendido no curto prazo ou surpreenda pela rispidez da crítica. E o certo é que a sua fidelidade a José Régio e à “Presença” tem correspondido a um equilíbrio sábio entre o reconhecimento da importância dessa plêiade e a capacidade para perceber quer fragilidades ou limitações quer a força inovadora e a perenidade desse grupo que tornou possível a projecção universal do “Orpheu” e de Fernando Pessoa. Hoje, é natural sentirmos que o primeiro modernismo português se afirmou por si, graças à genialidade do poeta dos heterónimos e à relevância dos seus companheiros, no entanto a qualidade dos animadores da “Presença” permitiu a compreensão (e a projecção) da riqueza excepcional do grupo do “Orpheu”. Eugénio Lisboa entendeu-o bem – pondo a tónica na continuidade e na descontinuidade dos dois modernismos: continuidade no assumir da modernidade, descontinuidade na tensão entre os diferentes caminhos dos dois grupos. De facto, a vida é sempre feita do que flui e do que se interrompe , do que segue e do que se transforma. E manda a verdade que se diga que o primeiro modernismo , valendo por si, e pela força vulcânica , ganhou novo impulso com o segundo movimento que teve Régio como epicentro.

UMA ATITUDE SERENA
A propósito da célebre consideração de Eduardo Lourenço sobre o alegado «contra-revolucionarismo» de Régio, Eugénio Lisboa usa com rigor a " broca de análise" e não se deixa arrastar por qualquer simplificação cutânea. E se fala de simplificação do ensaísta de “Labirinto da Saudade”, demarca-se de João Gaspar Simões numa certa obsessão de desagravo, já que para uma polémica ser interessante e rica é preciso que os argumentos sejam sólidos, em lugar de uma interpretação nominalista, mais baseada em supostas intenções do que na exigência crítica… Hoje sabemos que Eduardo Lourenço não quis dar um sentido político (em sentido lato) à sua apreciação, mas quis porventura salientar a diferença entre o carácter radicalmente inovador do “Orpheu” e um sentido de revisitação e de projecção da “Presença”.
A «contra-revolução» é nitidamente metafórica ou literária, sem o alcance pejorativo que Gaspar Simões julgou. E Eugénio Lisboa entendeu-o com clareza, defendendo, assim, muito mais eficazmente José Régio. “Comparando o ‘Orpheu’ e a ‘Presença’, (diz Eugénio Lisboa) poderíamos resumir o confronto numa fórmula talvez sumária mas com algo de verdadeiro: o primeiro modernismo foi um momento de convulsão e o segundo um momento de reflexão e consolidação” («José Régio ou a Confissão Relutante», s.d., 1988). Depressa percebemos que é fundamental não misturar planos nem ferver em pouca água.
A convulsão e a consolidação são diferentes , disso não há dúvidas, mas uma e outra ligam-se e completam-se, mesmo que a distância seja grande. E se ligarmos o ‘Orpheu’ e a ‘Presença’, temos de dizer , sem grandes hesitações , que as síntese são muito ricas.

ORIGINALIDADE E SINCERIDADE
Eugénio Lisboa procura ser fiel (com inteligência e sem cedências quanto à independência crítica) a uma preocupação de Régio, bem patente no citadíssimo artigo de fundo do primeiro número da “Presença” (“Literatura Viva”) – “pretendo aludir (…) a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhe esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade”. Enquanto a originalidade tem a ver com “dizer aquilo que nós realmente pensamos”, a sinceridade é um corolário dessa atitude fundamental, em nome da coerência entre pensamento e arte.
E manda a verdade que se diga que Eugénio Lisboa é um mestre da clareza, ( valor fundamentalíssimo, num tempo em que tanta gente se esquece das ideias claras e distintas), que nos ensina e ler e a dizer o que se pensa do que se leu, em vez de fazer exercícios de estilo («acrobacias neogongóricas ou sistemáticos estupros») para dissimular ou esconder – porque se não leu, ou porque não se compreendeu. E os dois vícios, contra os quais Eugénio Lisboa se tem erguido, são muito mais comuns do que se possa julgar. Por isso, a primeira lição do mestre, parte do que dizia Spitzer – a regra de ouro da análise crítica é “ler, ler e ler” - «ler com atenção despreconcebida. Ler aguardando, sem a malícia de um programa prévio» (in Pórtico de «As Vinte e Cinco Notas do Texto», INCM, 1987).
E este entendimento é fundamental, uma vez que através de Eugénio Lisboa sabemos com o que contamos. Sabemos que é um leitor criterioso, que nos dá a sua perspectiva, exigindo que ao lermos sejamos fiéis a um sentido crítico pessoal e próprio. Percebe-se, pois, porque insisto que não há dois Eugénios, escritor e engenheiro, há uma personalidade coerente e rigorosa, em que o engenheiro e o homem de cultura formam um só carácter.
E sobre essa coerência ( que tanto preza , e nós nele) oiçamo-lo ainda: “há hoje uma espécie de receio neurótico da clareza, que anda, penso eu, a pedir diagnóstico. Dizia Vauvenargues que a clareza é a boa fé dos filósofos, que é como quem diz: quem não deve não teme. Eu diria, com maior atrevimento, que o desejo da clareza é a pedra de toque da boa fé de quem quer que se exprima” (Idid.).
E António Sérgio vem à baila, com a conhecida afirmação de pedagogo: “Não confundamos. Um eclipse do sol é uma escuridão; mas a teoria dos eclipses é uma doutrina clara”… Se o poeta pode ser obscuro, o crítico tem de ser claríssimo. E neste mês em que assinalamos os cem anos da morte de Tolstoi, podemos citar o escritor russo: “Não alcançamos a liberdade, buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”. O ofício de ler é a grande exigência de Eugénio Lisboa, que o tempo tem revelado como lição perene e necessária. Insistir em ler é, contudo, pedir o essencial, para que a rama não ocupe o âmago da vida. E que melhor ensino podemos tirar de um mestre senão o culto das ideias claras e distintas? Muitos parabéns Querido Amigo! "
Lisboa, Janeiro de 2010
Guilherme d'Oliveira Martins
Texto publicado, em Eugénio Lisboa, vário, intérprido e Fecundo - Uma Homenagem, organização de Otília Martins e Onésimo Teotónio Almeida, Editora Opera Omnia, Outubro de 2011, pp.151-155

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Viajar pelas Ilhas Guadalupe

O que é longe é sempre o Bem,
por mais que a alma se mude.
   Reinaldo Ferreira, Poemas

 
Guadeloupe: A Scenic Caribbean Escape [Amazing Places 4K] 
As Ilhas de Guadalupe, um arquipélago das Caraíbas, são uma região ultramarina de França, conhecida pela sua deslumbrante beleza natural, paisagens diversas e cultura vibrante. As duas ilhas principais, Basse-Terre e Grande-Terre, oferecem florestas tropicais exuberantes, cascatas impressionantes, picos vulcânicos, praias virgens e encantadoras vilas crioulas.

domingo, 19 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música

A música é o verbo do futuro.
   Victor Hugo

A música é ruido pensante.
   Victor Hugo

 

A Música. Ai,  a Música é sempre o verbo . Com ela, esquecemos, sonhamos, reinventamo-nos. Podem ser apenas pequenas fracções de um tempo que não deixa de crescer, mas o suficiente para que qualquer ruido se transforme.
A voz, que se apresenta, transformou muitos dos nossos momentos. 

Dulce Pontes & E. Morricone , em  La Luz Prodigiosa
Música: Maestro Ennio Morricone. Letra: Federico García Lorca.
 
Dulce Pontes & Ennio Morricone , em  Cinema Paraíso ( tema de amor de Cinema Paradiso). 4k (letra).
   
Dulce Pontes, em  Amor a Portugal. Música: Maestro Ennio Morricone. Letra: Dulce Pontes/Carlis Vargas.