sábado, 20 de julho de 2019

Há 50 anos a Terra visitou a Lua


"A 20 de Julho de 1969, cerca de 500 milhões de pessoas viram a história acontecendo diante de seus olhos quando Neil Armstrong deu seu "pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade", tornando-se o primeiro ser humano a pisar a superfície da Lua.
Neil Armstrong imortalizou a frase “That’s one small step for man, one giant leap for mankind” (“Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a Humanidade”) assim que pisou a lua pela primeira vez.  De acordo com o que contou ao escritor James R. Hansen, autor da biografia, não foi isso que disse naquele momento mas sim “That’s one small step for a man, one giant leap for mankind” que, traduzindo, significa qualquer coisa como “Este é um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade”.
Ainda que o astronauta seja uma das figuras mais icónicas da história da exploração espacial, a história sobre os eventos que lhe  permitiram ser o primeiro homem a pisar a Lua é bem menos conhecida pelo público. E são justamente esses os eventos explorados pelo filme O Primeiro Homem, interpretado por Ryan Gosling, no papel de  um jovem Armstrong com   todas as dificuldades passadas  para se tornar um astronauta. O filme é baseado no livro de mesmo nome, escrito por James Hansen, biógrafo oficial de Armstrong, há treze anos.
Com excepção de algumas cenas aprimoradas  por Hollywood para aumentar o drama, todos os eventos mostrados no filme são reais, inclusive a experiência de quase morte durante o treino e a morte de um amigo querido de Armstrong que também havia sido escolhido para a missão da Apollo.
Josh Singer, guionista do filme, passou quatro anos pesquisando a história de Armstrong para escrever o guião.
Separámos aqui 11 acontecimentos reais da vida de Armstrong que são retratados em O Primeiro Homem:
Estátua de Yuri Gagarin, primeiro homem
 a ser enviado para o espaço, erguida na cidade de Karaganda,
 no Cazaquistão (Imagem: NASA)
1) Até colocarem o homem na Lua, a União Soviética havia vencido todas as batalhas da Corrida Espacial que ocorreram durante a Guerra Fria. Os soviéticos foram os primeiros a colocar um satélite em órbita em 1957 (o Sputnik). Enviaram os primeiros seres vivos ao espaço em 1957 com a cadela Laika,  bem como  o primeiro homem (Yuri Gagarin, em 1961)  e a primeira mulher (Valentina Tereshkova, em 1963) para a órbita da Terra. Foram  também os responsáveis pelo primeiro astronauta a conduzir uma actividade extra-veicular no espaço, com o cosmonauta Alexei Lenov, em 1963.
Neil Armstrong e um jacto de testes
 da NASA (Imagem: NASA)
2) Neil Armstrong foi o primeiro civil a ser enviado para o espaço. Antes dele, todos os outros astronautas utilizados pela NASA eram militares. Mas, por conta da experiência de anos como piloto de testes da NASA, Armstrong foi o primeiro civil a ser escolhido pela agência para  as suas missões espaciais.

3) Armstrong entrou para o programa espacial por causa de uma tragédia pessoal: a sua filha havia desenvolvido um tumor cerebral ainda bebé, e morreu de pneumonia quando tinha apenas dois anos de idade. Durante o período de luto, Armstrong resolveu que queria se dedicar a uma causa que pudesse mudar o mundo, e foi isso que o fez  juntar-se ao programa espacial da NASA.

4) Durante os oito anos de pesquisas responsáveis pela missão que levou o homem à Lua (a Apollo 11), a NASA sofreu uma série de protestos de pessoas que consideravam que os U$ 24,5 biliões investidos pelo governo dos EUA nas missões Apollo eram um desperdício de dinheiro público. Gil Scott-Heron (jazzista e poeta mais conhecido por seu poema/canção A Revolução Não Será Televisionada) escreveu até uma canção sobre o assunto, na qual se pergunta se a miséria na Terra existe apenas porque alguém quer colocar um homem branco na Lua.
Neil Armstrong durante a missão Gemini 8 
(Imagem: NASA)

5) Antes de fazer parte da missão que chegou à Lua, Armstrong participou da Gemini 8, a primeira a conseguir acoplar duas aeronaves  em órbita -— algo fundamental para que a ida à Lua fosse bem sucedida. Apesar de ter dado tudo certo, a missão quase termina em tragédia: após a acoplagem, um dos propulsores da nave falhou, e o defeito fez com que a nave de Armstrong e David Scott, seu co-piloto, começasse a girar fora de controle, quase se perdendo para sempre no espaço sideral. Mas os dois conseguiram retomar o controle, e efectuaram uma amaragem  de emergência no oceano Pacífico, fazendo com que uma missão que inicialmente deveria durar três dias fosse finalizada após apenas 11 horas.
Tripulantes da primeira missão Apollo, que explodiuantes do lançamento.
 Da esquerda para direita estão os astronautas Gus Grissom, Edward White 
e Roger Chafee (Imagem: NASA)


6) Um ano depois, Armstrong se vê mais uma vez enfrentando o luto: durante o lançamento da primeira missão Apollo, uma das bases de lançamento acabou pegando fogo, matando os três tripulantes do foguete. Um dos astronautas era Ed White, vizinho e grande amigo de Neil Armstrong.

7) Um ano antes da viagem à Lua, Armstrong sofreu uma segunda experiência de quase morte: durante um teste do módulo lunar em Houston, o veículo começou a vazar e Armstrong perdeu o seu  controle, o que o obrigou a abandoná-lo a mais de 60 metros do solo. O problema foi investigado e logo resolvido pela NASA, e um mês antes da missão para a Lua o astronauta testou o equipamento novamente, dessa vez sem surpresas.
Armstrong participando de uma simulação do pouso na Lua (Imagem: NASA)

8) Armstrong treinou no solo todos os movimentos que iria fazer na superfície da Lua, incluindo subir e descer as escadas do módulo lunar utilizando o uniforme completo de astronauta.
9) Em 19 de Julho de 1969, Armstrong finalmente partiu numa missão de oito dias em direcção à Lua. O foguete tinha bem pouco espaço para os três tripulantes dividir, não havendo sequer um WC.
Foto de Neil Armstrong dentro do módulo lunar, tirada no momento 
que o equipamento pousou na superfície da lua (Imagem: NASA)
10) Quatro dias depois do lançamento, os tripulantes finalmente entraram no módulo lunar para a alunagem  na Lua. Apesar disso, apenas dois dos três tripulantes da missão (Neil Armstrong e Buzz Aldrin) entraram no módulo para descer em nosso satélite natural, tendo  Michael Collins, ficado na nave, aguardando o retorno de ambos. Apesar das dificuldades para chegar até ali, a alunagem ocorreu sem problemas. Ao ser entrevistado pela imprensa, Armstrong fez questão de não ficar com todo o crédito, deixando claro que a caminhada na lua só foi possível por causa das centenas de pessoas que participaram de todo o processo.
Os três astronautas já de volta à Terra, em foto tirada através da janela 
da câmara de contenção onde ficaram durante 21 dias (Imagem: NASA)
11) A volta para a Terra também ocorreu sem problemas, mas Armstrong não pôde simplesmente chegar e descansar: os astronautas ficaram 21 dias isolados em quarentena, para garantir de que não tinham trazido nenhum tipo de doença ou microorganismo do solo lunar. Armstrong conversou com o filho através de um telefone na cabine, e até comemorou o seu 39º aniversário  durante o período de confinamento. Foi apenas no dia 11 de Agosto que a tripulação foi libertada, e todos puderam voltar para  casa e aproveitar a fama recém adquirida, ficando conhecidos como os mais recentes heróis nacionais dos Estados Unidos naquela época — e, por que não, também de todo o mundo."
Rafael Rodrigues da Silva, Canal Tech, Fonte: Business Insider

Vencedores dos Prémios Gulbenkian 2019

Amin Maalouf 
"Amin Maalouf é distinguido na área dos Direitos Humanos e a APAV, o programa “90 Segundos de Ciência” e o Teatro Metaphora são os premiados nas áreas de Coesão, Conhecimento e Sustentabilidade, respectivamente.

O Prémio Calouste Gulbenkian 2019, no valor de 100 mil euros, será atribuído ao escritor líbano-francês Amin Maalouf. Jornalista, escritor, ensaísta, pedagogo humanista, reconhecido como um dos nomes mais influentes e respeitados do mundo árabe, Maalouf tem sido um incansável construtor de pontes, procurando mostrar o caminho das reformas necessárias para construir um mundo em paz, de acordo com um modo de vida mais justo e sustentável. Na sua mais recente obra – Le Naufrage des Civilizations – Amin Maalouf, que prossegue a sua análise sobre a crise do vivre ensemble, analisa as derivas e as feridas que se podem abrir nas civilizações modernas e apresenta pistas para que europeus e árabes possam cooperar na construção de um mundo melhor, no respeito pelo Estado de Direito e os Direitos Humanos.
Presidido por Jorge Sampaio e composto por Demetrios G. Papademetriou, Jody Williams, Leymah Gbowee, José Ramos Horta e Emílio Rui Vilar, o júri decidiu distinguir Amin Maalouf, homem que, tal como Calouste Sarkis Gulbenkian no seu tempo, pertence simultaneamente a dois mundos – o europeu e o árabe – e promove activamente a fluidez intercultural.
Já os Prémios Gulbenkian 2019, no valor de 50 mil euros cada,  APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, que se tem destacado na área da Coesão; ao programa radiofónico 90 segundos de ciência, que se tem distinguido na área do Conhecimento; e ao Teatro Metaphora – Associação de Amigos das Artes, na área da Sustentabilidade.

Prémio Gulbenkian Coesão
APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
O júri reconhece os excelentes resultados obtidos pela APAV, que desde 1990 tem apoiado um número cada vez maior de vítimas de crime, num universo estimado de mais de 270.000 pessoas.
Como única organização nacional de apoio a vítimas de todos os crimes, a APAV apoia, em média, 115 adultos por semana. A intervenção da APAV é essencial na recuperação e regresso das vítimas à rotina diária, através de um atendimento personalizado e qualificado, avaliando cada caso como único, numa perspectiva pluridisciplinar, promovendo uma intervenção ajustada às necessidades particulares.
O apoio é prestado às vítimas, seus familiares e amigos/as, através de 55 serviços de proximidade. A APAV tem uma rede de voluntariado com cerca de 280 voluntários/as – o principal capital de valor da organização.

Prémio Gulbenkian Conhecimento
90 Segundos de Ciência
O programa 90segundosdeciencia.pt é um programa de rádio diário de um minuto e meio, sem narração externa, em que um investigador diferente a cada dia explica um dos seus projectos. A escolha é feita para haver representatividade geográfica, científica e de género. Começou a ser emitido a 21 de Novembro de 2016 e é actualmente difundido duas vezes por dia na Antena 1, com quatro repetições na antena da RDP Internacional e RDP África. É ainda difundido através da internet, pela RTP Play, podcast e website dedicado, bem como nas redes sociais Facebook e Twitter. Tem chegado a cerca de 10 mil pessoas por mês, somadas as audiências da rádio, podcast e redes sociais.
A 5 de Maio de 2019 chegou aos 615 episódios divulgados. Em Portugal, é o primeiro programa deste género a atingir esta longevidade e com uma intenção digital e difusão pelas redes sociais. O programa não serve apenas para divulgação de ciência, mas também como repositório de projectos científicos desenvolvidos por investigadores portugueses na actualidade.

Prémio Gulbenkian Sustentabilidade
Teatro Metaphora – Associação de Amigos das Artes
Green Steps é o nome da iniciativa do Teatro Metaphora que, desde 2015, desenvolve diversos projectos artísticos, sempre aliados à sensibilização ambiental. O projecto envolve um grande número de cidadãos, na sua maioria jovens, sensibilizando-os para as questões ambientais.
O Green Steps transforma lixo em obras de arte. As instalações artísticas produzidas têm impacto reconhecido não só a nível local, mas também a nível internacional. Com o objectivo de consciencializar o público para o uso sustentável dos recursos, a Associação envolveu a comunidade local no seu processo criativo, uma comunidade (Câmara de Lobos, ilha da Madeira) caracterizada por diversas problemáticas sociais relacionadas com abandono e insucesso escolar, absentismo, violência doméstica, necessidades económicas, desemprego, gravidez na adolescência, famílias disfuncionais, abuso de menores, entre outras situações.
No primeiro ano de actividade, o projecto reutilizou cerca de 2600 garrafas PET e ainda CDs inutilizados, transformando-os em flores. Um ano depois, resgataram 133 tambores de máquina de lavar, que transformaram em candeeiros – uma instalação que já participou em prestigiados festivais e recentemente iluminou Amsterdão. Em 2017 e 2018, ilustraram enormes telas, utilizando como recurso cerca de 25000 latas de refrigerantes.

O três Prémios Gulbenkian distinguem projectos de relevo no âmbito das três áreas prioritárias de intervenção da Fundação Gulbenkian: Coesão, Conhecimento e Sustentabilidade. Presidido por António M. Feijó, o júri dos Prémios Gulbenkian é composto por Henrique Leitão, Miguel Tamen, João Ferrão, António Miguel, Teresa Mendes e Elisabete Figueiredo."FCG

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Sobre "As Ondas " de Virginia Woolf

 Virginia Woolf

Em Julho de 1931 , Virginia Woolf acabou o seu sexto romance "As Ondas".
Marguerite Yourcenar,  a sua tradutora francesa, descreveu-o assim: 
"As Ondas é um livro com seis personagens, ou melhor, seis instrumentos musicais, pois consiste unicamente em monólogos interiores, cujas curvas se sucedem e entrecruzam com uma segurança que lembra a "Arte da Fuga" de Bach. Nesta narrativa musical, os breves pensamentos de infância, as rápidas reflexões sobre os momentos de juventude e de confiante camaradagem desempenham o mesmo papel dos allegri nas sinfonias de Mozart, abrindo espaço para os lentos andantes dos imensos solilóquios sobre a experiência, a solidão e a maturidade. 
Tanto como uma meditação sobre a vida, As Ondas é um ensaio sobre a solidão. Trata-se de seis crianças, três raparigas, Rhoda, Jinny e Susan; e de três rapazes, Louis, Neville e Bernard, que vemos crescer, diferenciarem-se e envelhecer. Uma sétima criança, que nunca toma a palavra e que só conhecemos através das outras, é o centro do livro, ou melhor, o seu coração."
Revisitámos o "Diário " de  Virginia Woolf para extrairmos algumas  entradas relativas à conclusão desta obra. E, para completar o olhar sobre este romance, transcrevemos também as suas primeiras páginas.

JULHO 1931
Terça, 14 de Julho
" É agora meio-dia de 14 de Julho - e o ( Bob entrou, a pedir-me que assinasse um papel para se arranjar uma pensão ao Palmer(...).
Eu queria dizer  que acabei mesmo agora de corrigir a cena de Hampton Court. (É a última  correcção, se Deus quiser.)
Mas as contas de As Ondas são assim, acho eu:
Comecei a sério por volta de 10 de Setembro de 1929.
Acabei a primeira versão em 10 de Abril de 1930.
Comecei a segunda versão em 1 de Maio de 1930. 
Acabei a segunda versão em 7 de Fevereiro de 1931.
Comecei a corrigir a segunda versão em 1 de Maio de 1931.
Acabei em 22 de Junho de 1931.
Comecei a corrigir o que passei à máquina em 23 de Junho de 1931.
Hei-de acabar (espero) no dia « 28 de Junho»  18 de Julho.
E depois só faltam as provas.

Sexta,  17 de Julho
Sim. Esta manhã acho que posso dizer que acabei . Isto é , copiei mais uma vez , a décima oitava vez , as primeiras frases. o L. vai lê-lo amanhã e eu vou abrir este caderno para registar o seu veredicto. A minha opinião - valha-me Deus - é que se trata de um livro difícil. Não sei se alguma vez me senti tão extenuada. E estou nervosa, confesso, por causa do L. . Para já , ele vai ser honesto , mais honesto ainda do que é costume. E se calhar é um fiasco. E eu já não posso trabalhar mais . E quer-me parecer que o livro é bom; mas incoerente, espesso; em excessivos espasmos. Seja como for , tentei dar a minha visão , e se não atingir o alvo pelo menos não errei a direcção. Mas estou nervosa. Se calhar é pequeno, e pode dar um efeito afectado. Sei lá.  E, como eu dizia, e repito para forçar esta sensaçãozinha  bem desagradável no coração, hei-de estar nervosa até ouvir o que o L., terá para me dizer quando entrar amanhã à noite , por exemplo, ou no domingo de manhã, na minha sala do jardim, trazendo o manuscrito, e se sentar começando por um «ora bem!».

Domingo, 19 de Julho
«É uma obra-prima» , disse o L., ao entrar no pavilhão esta manhã. «É o teu melhor livro». Anoto isto; e acrescento que ele também acha  as primeiras cem páginas extremamente difíceis,  e não sabe até onde lerá o comum dos leitores Mas que que alívio, meu Deus! Para desentorpecer fui dar uma volta , à chuva até à Quinta dos Ratos, num júbilo, e quase me resignei aos factos : está a ser instalada uma quinta para criação de cabras, com a respectiva casa em construção, na encosta perto de Northease. "
Virginia Woolf, in "Diário- segundo volume 1927-1941", Bertrand Editora, pp.141,142, 143
As Ondas 
 "O Sol ainda não nascera. Era quase impossível distinguir o céu do mar, mas este apresentava algumas rugas, como se de um pedaço de tecido se tratasse. Aos poucos, à medida que o céu clareava, uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar. Então, o tecido cinzento coloriu-se de manchas em movimento, umas sucedendo-se às outras, junto à superfície, perseguindo-se mutuamente, sem parar.   Quando se aproximavam da praia, as barras erguiam-se, empilhavam-se e quebravam-se, espalhando na areia um fino véu de água esbranquiçada. As ondas paravam e depois voltavam a erguer-se, suspirando como uma criatura adormecida, cuja respiração vai e vem sem que disso se aperceba. Gradualmente, a barra escura do horizonte acabou por clarear, tal como acontece com os sedimentos de uma velha garrafa de vinho que acabam por afundar e restituir à garrafa a sua cor verde. Atrás dela, o céu clareou também, como se os sedimentos brancos que ali se encontravam tivessem afundado, ou se um braço de mulher oculto por detrás da linha do horizonte tivesse erguido um lampião e este espalhasse raios de várias cores, branco, verde e amarelo (mais ou menos como as lâminas de um leque), por todo o céu. Então, ela levantou ainda mais o lampião, e o ar pareceu tornar-se fibroso e arrancar, daquela superfície verde, chispas vermelhas e amarelas, idênticas às que se elevam de uma fogueira. Aos poucos, as fibras da fogueira foram-se fundindo numa bruma, uma incandescência que levantou o peso do céu cor de chumbo que se encontrava por cima, transformando-o num milhão de átomos de um azul suave. O mar foi, aos poucos, tornando-se transparente, e as ondas ali se deixavam ficar, murmurando e brilhando, até as faixas escuras quase desaparecerem. 
Devagar, o braço que segurava a lanterna elevou-se ainda mais, até uma chama brilhante se tornar visível; um arco de fogo ardendo na margem do horizonte, cobrindo o mar com um brilho dourado.   A luz atingiu as árvores do jardim, tornando, primeiro, esta folha transparente, e só depois aquela. Lá no alto, uma ave chilreou; seguiu-se uma pausa; mais abaixo, escutou-se outro chilreio. O sol definiu os contornos das paredes da casa, e, semelhante à ponta de um leque, um raio de luz incidiu numa persiana branca, colocando uma impressão digital azulada por baixo da folha da janela do quarto. A persiana estremeceu ligeiramente, mas lá dentro tudo se mostrava fosco e inconsistente. Cá fora, os pássaros cantavam uma melodia sem sentido.  
 - Vejo um anel - disse Bernard - suspenso por sobre mim. Está suspenso num laço de luz e estremece.   
- Vejo uma lâmina de um amarelo pálido - disse Susan -, espalhando-se até encontrar uma risca púrpura.  
 - Ouço um som - disse Rhoda -, piu, piu, piu, piu, a subir e a descer.  
 - Vejo um globo - disse Neville - suspenso numa gota que cai de encontro à encosta de uma enorme montanha.   
- Vejo uma borboleta escarlate - diss Jinny --, tecida com fios de ouro.  
 - Ouço cascos a bater - disse Louis. - Está preso um animal bastante grande. Bate os cascos,  bate e bate.   
- Reparem na teia de aranha ao canto da varanda - disse Bernard. - Está cheia de contas de água, de gotas de luz.   
- As folhas juntaram-se em torno da janela como se fossem orelhas pontiagudas - disse Susan. 
  - Há uma sombra no caminho -- disse Louis. - Parece um cotovelo dobrado.   - A erva está cheia de linhas luminosas - disse Rhoda. - De certeza que caíram das árvores.  
 - Nos túneis existentes entre as folhas, podem ver-se olhos brilhantes. São de pássaros - disse Neville. 
  - As hastes estão cobertas de pêlos curtos e duros - disse Jinny - e as gotas de água ficam presas neles. 
  - Uma lagarta enroscou-se e parece um anel de onde saem muitos pés verdes - disse Susan.  
 - Um caracol cinzento vem a descer o caminho, alisando as ervas atrás dele - disse Rhoda.  
 - E as luzes das janelas reflectem-se aqui e ali na relva - disse Louis. 
  - As pedras fazem-me ficar com os pés frios - disse Neville. - Sinto-as a todas, uma a uma, redondas e pontiagudas.  
 - Tenho as costas das mãos quentes - disse Jinny-, mas as palmas estão pegajosas e húmidas por causa do orvalho.  
 -Agora, o galo está a cantar e lembra um esguicho de água avermelhada numa corrente branca - disse Bernard. 
 - Os pássaros não param de cantar à nossa volta e por todo o lado - disse Susan.   - O animal bate as patas; o elefante com a perna presa; o enorme animal que está na praia bate os cascos - disse Louis.   - Reparem na casa - disse Jinny -, com todas as janelas e persianas brancas.  
 - A água fria começa a correr na torneira da cozinhadisse Rhoda -, caindo no peixe que está na bacia.   
- As paredes estão cheias de rachas douradas - disse Bernard -, e por baixo das janelas há muitas sombras azuis em forma de dedos.  
 -Agora, Mrs. Constable está a colocar as suas meias escuras e grossas - disse Susan. 
 - Quando o fumo se elevar na chaminé, o sono escapar-se-á pelo telhado como uma névoa muito fina - disse Louis.   
- Os pássaros começaram por cantar em coro - disse Rhoda. - Agora, a porta da cozinha já não está trancada. E lá vão eles a voar. E lá vão eles pelos ares como uma mão-cheia de sementes. Mesmo assim, há um que continua a cantar junto à janela do quarto.  
 - Formam-se bolhas no fundo da frigideira - disse Jinny - Depois, elevam-se, cada vez mais rápidas, até formarem uma cadeia prateada que chega ao topo.   - - - Agora, o Billy está a escamar o peixe com uma faca - disse Neville. 
  - A janela da casa de jantar é agora azul-escura - disse Bernard -, e o ar ondula por cima das chaminés. 
  - Uma andorinha está empoleirada no fio eléctrico - disse Susan. - E a Biddy poisou o balde com força nas lajes da cozinha. 
  - Aquilo era a primeira badalada do relógio da igreja - disse Louis. - A seguir vêm as outras; uma, duas; uma, duas. 
  - Olhem para a toalha, muito branca, a voar para cima da mesa - disse Rhoda. - Vêem-se, agora, os círculos de porcelana 
branca e faixas prateadas ao lado dos pratos.
  - De repente, uma abelha zumbe ao meu ouvido - disse Neville. - Está aqui; já se foi embora.  
 - Estou a ferver. Tenho frio - disse Jinny. - Ou estou ao sol ou à sombra.  
 - Já se foram todos embora - disse Louis. - Estou só. Foram para casa tomar o pequeno-almoço, e eu fiquei ao pé do muro, entre as flores. Ainda é cedo, falta muito tempo para ir para as aulas. As flores são como manchas incrustadas nas profundezas verdes. As pétalas são arlequins. As hastes erguem-se a partir de buracos negros. As flores, semelhantes a peixes luminosos, recortando-se contra um fundo escuro, nadam nas águas verdes. As minhas raízes chegam às profundezas do mundo; passam por terrenos secos e alagados; passam por veios de chumbo e prata. Nada mais sou que fibra. Tudo me faz estremecer, e a terra comprime-se contra os meus veios. Cá em cima, os meus olhos são como folhas verdes e não vêem. Cá em cima, sou um rapaz vestido de flanela cinzenta, com as calças apertadas por um cinto, com uma serpente de bronze. Lá em baixo, os meus olhos são como os das figuras de pedra existentes nos desertos junto ao Nilo: desprovidos de pestanas. A caminho do rio, vejo passar mulheres com as suas ânforas vermelhas; vejo camelos baloiçando-se e homens com turbantes. Ouço tropéis e tremores em meu redor.   
Cá em cima, o Bernard, o Neville, a Jinny e a Susan (mas não a Rhoda) passeiam pelos canteiros com as suas redes. Andam a caçar as borboletas que poisam nas flores. Estão a varrer a superfície do mundo. As redes estão cheias de asas esvoaçantes. "Louis! Louis! Louis!", gritam. No entanto, não  me podem ver. Estou do outro lado da sebe. Existem apenas alguns buraquinhos entre as folhas. Oh, meu Deus, eles que passem! Eles que estendam um lenço no cascalho e nele coloquem as borboletas. Eles que contem as suas borboletas com manchas pretas e amarelas, as suas vanessas e borboletas-da-couve, mas que não me vejam. Sou tão verde como um teixo à sombra da vedação. Criei raízes no meio da terra. O meu corpo é um caule. Carrego no caule. Uma gota corre por ele lentamente, e, aos poucos, vai-se tornando maior, cada vez maior. Agora, qualquer coisa cor-de-rosa passa pelo buraquinho. Agora, um olhar passa pela fenda. A luz que dele emana atinge-me. Sou um rapaz com um fato de flanela cinzenta. Ela encontrou-me. Toca-me na nuca. Beija-me. Tudo se desmorona. 
 - Logo a seguir ao pequeno-almoço - disse Jinny -, eu andava a correr. Vi as folhas mexerem-se através de uma abertura na sebe. Pensei: É um pássaro no ninho. Afastei os ramos e olhei, mas não vi pássaro nem ninho. As folhas continuaram a mover-se. Estava assustada. Passei a correr pela Susan, pela Rhoda, pelo Neville e pelo Bernard. Estavam todos a falar na arrecadação. Gritei enquanto corria, depressa, cada vez mais depressa. Que faria mexer as folhas? Qual a coisa que faz mexer o meu coração, as minhas pernas? Foi então que aqui cheguei e te vi, verde como um arbusto, como um ramo, muito quieto, Louis, com os olhos vítreos. Estará morto?, pensei, e beijei-te. Por baixo do vestido cor-de-rosa, o meu coração saltava, semelhante às folhas, que, e muito embora nada exista que as faça mexer, não param de oscilar. Agora, chega-me ao nariz o odor a gerânios; chega-me ao nariz o odor a terra vegetal. Danço. Ondulo. Deixo-me cair sobre ti como uma rede de luz. Deixo-me ficar deitada em cima de ti, a tremer. 
 - Vi-a beijá-lo através da fenda na sebe - disse Susan. - Levantei a cabeça do vaso das flores e espreitei por uma fenda 
da sebe. Vi-a beijá-lo. Vi-os, à Jinny e ao Louis, a beijarem-se. Agora, só me resta embrulhar a minha dor neste lenço. Vou amachucá-lo com força até ficar igual a uma bola. Antes das aulas, irei sozinha para o bosque das faias. Não me irei sentar à mesa, a fazer contas. Não me irei sentar ao lado da Jinny e do Louis. Vou levar a minha angústia e poisá-la nas raízes, por baixo das faias. "
Virginia Woolf, in "As ondas", Editor Relógio D'Água

Sobre a autora:
"Virginia Woolf nasceu em Londres a 25 de Janeiro de 1882, filha de Sir Leslie Stephen, escritor e historiador ilustre da Inglaterra vitoriana. Desde cedo ligada a grupos de intelectuais, casou em 1912 com Leonard Woolf e com ele fundou a editora Hogarth Press, responsável pela revelação de autores como Katherine Mansfield e T. S. Eliot e pela publicação das suas próprias obras. Reconhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo britânico, destacam-se entre os seus trabalhos os romances Mrs Dalloway (1925), Orlando (1928) e As Ondas (1931), assim como o ensaio Um Quarto que Seja Seu (1929). Após sucessivas crises depressivas e não suportando o isolamento provocado pelo agravar da Segunda Guerra Mundial, suicida-se a 28 de Março de 1941, em Lewes."

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Eu nunca vi uma coisa tão bárbara

Extradição de militar torturador
por Manoel de Andrade
"Passar a limpo tudo isso é só uma questão de tempo. Na história das lutas políticas e sociais, mais tarde ou mais cedo, sempre são revelados os nomes dos heróis e dos bandidos, das vítimas e dos algozes. 
Este Major Cordeiro, acusado de tortura e desaparecimento de militantes de esquerda e do sequestro de uma criança de 10 anos, em 1976, teve muita sorte de escapar dos tribunais revolucionários dos Montoneros e do ERP (Ejército Revolucionario del Pueblo), na Argentina. Não foi esta a sorte de Dan Mitrione julgado e executado pelos Tupamaros em agosto de 1970, Uruguai.
Agente da CIA, o norte-americano Daniel Mitrione, na década de 70, operou na América Latina como “o mestre da tortura”. No Brasil deixou muitos discípulos com as “experiências práticas” de tortura usando mendigos e indigentes presos e ensinando nossos agentes da repressão a torturar sem deixar marcas. Em 1969 foi para o Uruguai disfarçado de funcionário da Embaixada Americana e lá os Tupamaros encerraram a sua carreira “diplomática”. 
O torturador Juan Manuel Cordeiro teve uma carreira semelhante na ditadura mais sanguinária da América e está para a repressão argentina como Sergio Paranhos Fleury, Carlos Alberto Brilhante Ustra, José Paulo Burnier e muitos outros, não tão “ilustres”, estão para a ditadura brasileira. 
No Chile os torturadores de Pinochet já estão indo para a cadeia. O General Manuel Contreras, chefe da DINA, Polícia Secreta da Ditadura Chilena, foi condenado, há um mês, a três anos de prisão pelo sequestro qualificado do poeta Ariel Santibañez em novembro de 1974. Ariel, na época editor da prestigiosa Revista Tebaida, onde pontificam os grandes poetas da geração sessenta , era membro do MIR (Movimiento de Izquierda Revolcionaria) e foi torturado até a morte. Me regozijo com a justiça feita ao seu carrasco porque partilhávamos os mesmos sonhos e tive, com Ariel, belos momentos em Arica, em agosto de 1969. Durante muito tempo trocamos cartas ao longo de minha viagem pela América Latina. 
A memória desses crimes no Brasil está sendo revelada, não ainda pelos arquivos oficiais, mas pela publicação em livros, entrevistas etc..., dos depoimentos dos sobreviventes e herdeiros da dor dos mortos e desaparecidos.
 Acabo de ler o livro Virgílio Gomes da SilvaDe retirante a guerrilheiro, escrito pelos historiadores cariocas Edson Teixeira e Edileuza Pimenta e publicado pela Plena Editorial. Conta a história de um homem que deixa o sertão do Rio Grande do Norte e vem para São Paulo, se politiza na luta sindical, entra para o Partido Comunista e depois para a Aliança Libertadora Nacional (ALN), comandada por Marighella. Com o codinome de “Jonas”, comandou, no Rio, em 4 de setembro de 1969, o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, trocado por quinze presos políticos. Aprisionado uma semana depois em São Paulo, e resistindo ao interrogatório sem entregar os quadros da organização, Virgílio foi cruelmente torturado até a morte na OBAN (Operação Bandeirantes) pela equipe do capitão Benone de Arruda Albernaz. Em nenhum momento se intimidou e mesmo morrendo, cuspia na cara dos torturadores. Acredita-se que seja o caso mais cruel de tortura de um preso político durante a ditadura. A repressão mascarou e escondeu a sua morte, dando-o como desaparecido (o primeiro desaparecido da ditadura) e somente em 2004, pela pesquisa datiloscópica é que se pode comprovar a tutela do Estado quando de sua morte. 
Há uma parte do livro que diz o seguinte: “Um delegado do DOPS, doutor Orlando Rozande, contou, chorando, para o doutor Décio, o seguinte: 
— A cena que eu assisti, nunca assisti em canto nenhum, em todos esses anos de delegado: os olhos do Virgílio tinham saltado como dois ovos de galinha, o pênis dele estava no joelho, de tanto pisarem em cima dele. Eu nunca vi uma coisa tão bárbara como aquela.” 
Os leitores interessados que não tiverem acesso ao livro poderão encontrar parte da história de Virgílio, na página 104 do livro Direito à memória e à verdade – Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, editado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos."
Manoel de Andrade ,  in "As palavras no espelho"Escrituras Editora e Distribuidora de Livros Ltda, São Paulo, Brasil,. 211-213

terça-feira, 16 de julho de 2019

El cante jondo "de aqui ao lado"

Cante jondo
Numa noite sem lua o meu amor morreu
Homens sem nome levaram pela rua
Um corpo nu e morto que era o meu
Sophia de Mello Breyner Andresen , em  "Antologia" | Círculo de Poesia Moraes Editores, 3ª. edição, 1975, p 146
Miguel Poveda, Moraito Chico y Carrasco Family, em Alfileres de colores.
Miguel Poveda Real , em  Qué Disparate! ( Buleria de Cai )

Miguel Poveda, em  La Leyenda del tiempo - Starlite 2014
Niña Pastori  com Antonio Orozco, em Válgame Dios.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Pelas ruas da amargura

Pelas ruas da amargura
por Eugénio Lisboa
                                                          O primeiro dever de um autor
                                                          é deixar o seu país pelas ruas
                                                          da amargura. 
                                                                      Brendan Behan
Eugénio Lisboa

    «Eça de Queirós, ao malhar no país, sem piedade e com a celebrada bengalada do homem de bem, seja n’Os Maias, seja n’O Conde d’Abranhos, n’A Capital, n’O Primo Basílio, em Uma Campanha Alegre ou n’A Relíquia, causa, nos reaccionários quimicamente puros, crispações de recuperação lenta e difícil. Invoca-se, em geral e para o caso, o patriotismo de que ele teria estado malignamente deficitário. Ele e toda a sua geração de campeadores melhoristas, gente sem sentimentos de boa cepa tradicionalista... Por mim, reajo sempre de modo diferente: só quem ama se indigna. Os grandes escritores que amam muito o seu país sofrem profundamente quando ele não vive à altura das mais exigentes expectativas. Montherlant descobriu um dia que devia amar muito a França, visto que nunca a poupava – e com que eloquente virulência! – nos momentos em que ela descia abaixo dos padrões de avaliação mais elevados. Fiz uma consulta rápida ao que vários grandes autores das mais diversas épocas tiveram a dizer do “patriotismo” e não encontrei um só que não fosse acidamente escarninho para com o “patriotismo” e os “patriotas”. Henry Fielding, o grande romancista inglês, é sucinto:  “Patriota: candidato a um lugar. Política: a arte de o conseguir”.    Desde o famoso aforismo de Samuel Johnson (“O patriotismo é o último refúgio dos patifes”), passando por Wilde (“O patriotismo é a virtude dos viciosos”), até George Bernard Shaw (“Patriotismo é a nossa convicção de que este país é superior a todos os outros por termos nascido nele”), o requisitório é interminável e uniformemente contundente, Nenhum conceito, à partida, venerável se desgastou tanto, com o tempo e com o uso, ao ponto de se tornar suspeito e mesmo repulsivo. Paul Léautaud, o autor do famoso Journal e das não menos famosas e ferinas críticas de teatro, pôs a cereja no cocuruto do bolo, ao afirmar: “O amor produz parvos, o casamento cornudos e o patriotismo sacanas imbecis”.
    Foi esta capacidade de indignação, ao serviço de um extraordinário talento para a observação e para a caricatura, que fez de Eça o extraordinário “poeta satírico”, como, com justeza e justiça, lhe chamou Régio. Vem tudo isto a propósito de uma atraente “antologia ilustrada” de Os Maias, da responsabilidade de Rui Campos Matos, que a Parceria A.M. Pereira, em boa hora, editou.
    Rui Campos Matos é arquitecto, no Funchal, e divide-se entre esta vocação e outra de ilustrador de livros (já se distinguiu, nesta última capacidade, com a Clepsydra, de Pessanha, e com O Mandarim, de Eça). Ao ilustrar o autor de O Primo Basílio, Rui C. Matos é naturalmente atraído para o traço caricatural, umas vezes mais benigno, muitas outras, mais contundente. E digo que é atraído, naturalmente, porque Eça é, acima de tudo, não um grande escritor romântico, ou realista ou trágico, mas sim, como já indiquei, um grande escritor satírico. E, neste ponto, seja-me permitida uma observação: no belo prefácio de Pedro Larsen, faz-se referência à “qualidade fundamental do grande romance [Os Maias]”, como sendo “o estupendo, profundo humorismo (...) que percorre e tempera de ponta a ponta o seu carácter pessimista(...)”. Ora eu não creio que Eça possa, correctamente, ser caracterizado como “humorista”. Eça é antes, como lhe chamou Régio, um grande “poeta satírico”, na linha de Swift ou Evelyn Waugh. A sátira, ao contrário do humorismo (mais benigno), é sempre acutilante, contundente, malévola... – pretende ferir, deixar mossa, fazer mal, porque o autor se indigna com um determinado estado de coisas, que pretende modificar. Voltaire, o autor de Candide, observava que “a gargalhada [se] origina sempre numa disposição alegre, absolutamente incompatível com o desprezo e a indignação”, assim aludindo ao humorismo e ao cómico benigno e não à sátira, que é sempre um ataque contundente, incisivo e indignado, prenhe de desprezo pelo objecto visado. A humilhação do Dâmaso (dada em traços acerados, pelos desenhos das pp. 112 a 116) não provoca em nós uma gargalhada alegre e salutar, pelo contrário, deixa-nos abatidos e nauseados, por estarmos a assistir a um penoso espectáculo de degradação humana. Spinoza e Hegel fizeram observações análogas, indicando bem a linha de separação entre o humor e a sátira. Hegel observava, por exemplo, que “na mais elevada espécie de comédia, o espectador ri-se com o actor e não do actor.” Ora nós rimo-nos não com o Dâmaso, mas do Dâmaso; não com o Eusebiozinho, mas do Eusebiozinho.
    Esta distinção entre o contundente da sátira e a quase benevolência do humorismo vem já de muito longe, pelo menos, da antiguidade clássica. Já então se fazia uma distinção clara entre a sátira horaciana (amena, sorridente), que não era bem sátira, e a sátira juvenaliana, que era acutilante e cheia de indignação e desprezo. Juvenal (60 – 140 D.C.) fez uma pintura viva e até brutal da Roma decadente em que vivia, o que o não tornou benquisto do imperador Domiciano. Chegaram-nos, dele, ao todo, dezasseis sátiras e, numa delas, indica, com ironia, quão difícil era não as escrever, numa sociedade que estava mesmo “a pedi-las”: “Difficile est saturam non scribere” (“O difícil é não escrever sátiras”). É claro que não era insensível ao incómodo causado ao imperador e o receio ter-lhe-á, alguma vez, inclinado a mão – mas a indignação provou ser, com frequência, mais forte: “Si natura negat, facit indignatio versum” (“Mesmo que a natureza [o medo] diga não, a indignação obriga a fazer versos”). Também, em Eça, a indignação terá superado o receio perante os poderes vigentes (era diplomata). Mas à negação da “natura” (o medo que guarda a vinha), sobrepôs-se sempre a força da “indignatio” (e mais ainda o gosto de dar livre curso à sua verve satírica, sugeriria Régio...).
    Uma observação: na página quinze, R. C. Matos fala, e bem, nos “dois registos essenciais d’Os Maias: o cómico e o trágico”, embora eu preferisse “o satírico e o trágico”, concedendo, no entanto, que há, no livro, algumas cenas cómicas que não atingem o estatuto do “satírico”. De resto, o artista fala, cautelosamente, nos “dois registos essenciais”, não dizendo que sejam únicos. Há de facto vários personagens que não são caricaturas (sátira), nem, de modo algum, personagens cómicas: Afonso da Maia, Maria Eduarda, Carlos, etc. Nenhuma delas convida à sátira do escritor, nem à caricatura do ilustrador. São, quando muito, aquilo a que E. M. Forster chama “personagens planas” ou a duas dimensões, por oposição às “redondas” ou a três dimensões. Algumas das personagens planas do canon queirosiano chegam mesmo a ser “típicas” (Acácio, Steinbroken).
    É aqui que toda a arte de Campos Matos usa dos seus notáveis recursos: o traço caricatural forte, acerado, ofensivo, que nos as manas Silveiras, o Eusebiozinho, o Ega, o Gouvarinho, o Dâmaso (gordo, gorduroso, de perna curta), a baronesa e o barão Craben, a Carmen Filósofa, o Alencar...; por outro lado, o traço mais comedido e equilibrado, embora suavemente deformante (um claro “recuo” em relação à sátira sangrenta) com que nos figuras menos caricaturáveis (Afonso, Carlos etc), O Alencar, situá-lo-ia, até, num meio-termo: um cómico mais benigno, embora com laivos de sátira (rimo-nos dele mas também com ele). A minha ilustração favorita seria, porém, a do Sousa Neto, personagem secundaríssimo, não exactamente ao alcance da sátira juvenaliana, mas o tipo acabado do asno pomposo, ignorante, vazio, solene e palrador (pp. 96/97). Rui C. Matos deu-nos aqui uma rica, comedida e complexa caricatura que é verdadeiramente de mestre. Eça era dotado de uma poderosa força caracterizadora, sempre atento ao pormenor excessivo e revelador de um gesto, de uma careta de uma sobrancelha ou de um vestuário de que a precisão e minúcia divertidas nos encantam. Rui C. Matos “aproveita” gulosamente estas “indicações” do romancista e transporta-as, com eficácia, para o seu texto pictórico. Ambos cumprindo “o primeiro dever de um autor” que é, segundo Behan, “deixar o seu país pelas ruas da amargura”... » Eugénio Lisboa, em Crónica publicada no JL.                                                         

domingo, 14 de julho de 2019

Ao Domingo Há Música

Prise da La Bastiile, de Jean-Pierre Hoüel (1789)
Oh, je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis
En ce temps-là la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Tu vois, je n'ai pas oublié
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Les souvenirs et les regrets aussi.

Et le vent du Nord les emporte,
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois je n'ai pas oublié,
La chanson que tu me chantais...

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Les souvenirs et les regrets aussi,
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie.
Jacques Prévert

O dia 14 de Julho, em França, é um dia de celebração nacional. 
A canção francesa tem um lugar importante na nossa memória musical. Fomos revisitar algumas das canções desse tempo que falava francês. Quase todas  ficaram icónicas ,  suportadas pelas vozes maiores dos seus intérpretes. 
Eis a nossa  selecção:  
A voz de Yves Montand em Les Feuilles Mortes.

A inconfundível Edith Piaff,  em L'hymne à l'amour

Charles Aznavour, em Bohème.

Juliette Greco, em Parlez-moi d`Amour
Gibert Bécaud, em Quand il est mort le poète.
Alain Barrière, em Elle était si jolie.

sábado, 13 de julho de 2019

O TEMPO


O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Mario Quintana, in Esconderijos do Tempo, Editora JPM

sexta-feira, 12 de julho de 2019

A Lei das oito horas de trabalho

HISTÓRIA
 (1919)
A LEI DAS OITO HORAS DE TRABALHO
"Em 1919, a medida laboral com mais impacto social foi o decreto das oito horas de trabalho, que foi uma das principais reivindicações operárias da época.
No início de Dezembro de 1918, uma análise realista feita ao sindicalismo português não poderia deixar de concluir que a sua situação era de grande debilidade. O ano tinha sido particularmente duro, sobretudo a partir de Abril/Maio, com o regime sidonista a reprimir greves, a proibir comícios, a assaltar e encerrar sedes sindicais, e a prender e enviar para o degredo para cima de um milhar de activistas operários, tudo isto num quadro de agravamento geral das condições de vida e de uma gravíssima epidemia de gripe pneumónica. Porém, a partir do momento em que, no serão do dia 14 de Dezembro, Sidónio Pais tombou na Estação do Rossio, tudo iria mudar, e 1919 inauguraria o triénio da Primeira República no qual o movimento operário conheceria maior vigor e dinamismo reivindicativo.1
Diversos factores contribuíram para que tal sucedesse. Desde logo, o espaço de oportunidade surgido nos meses em que decorreu o processo de retorno à ordem constitucional pré-1918, após a dominação da ameaça monárquica e o afastamento definitivo dos sidonistas do poder. Enquanto o Partido Democrático, beneficiando do enfraquecimento e desunião da direita republicana, procura reconstituir o seu poder na «rua» e no aparelho de Estado, o movimento operário aproveita para se reorganizar. É assim que, no campo da propaganda, nasce o jornal diário A Batalha, que em pouco tempo se tornará num dos mais vendidos no país. A rede de secções sindicais também cresce significativamente, tal como as adesões de sindicalizados, e, já mais tarde, em Setembro, é fundada a Confederação Geral do Trabalho. Em simultâneo, há que ter em conta a conjuntura internacional favorável, com a formação da Terceira Internacional, com a Rússia e a Hungria em pleno processo revolucionário, e vários outros países europeus a conhecerem um assinalável crescimento da força do movimento operário, quando não, mesmo, tentativas revolucionárias. Inevitavelmente, este contexto transmitia ao operariado português confiança e optimismo, alicerçados também no papel determinante que este tinha tido no debelar da revolta monárquica em Lisboa, quando participara no assalto ao Monsanto ao lado das milícias e dos militares republicanos. Finalmente, refira-se, também, que a principal motivação da luta operária, o aumento dos salários, se tinha tornado uma necessidade ainda mais premente devido aos efeitos nefastos da Grande Guerra nas finanças e economia nacionais.2
Consequentemente, no início de Abril irrompem greves nos mais diversos sectores da indústria e serviços: no Barreiro, os operários da Companhia União Fabril (CUF) e os corticeiros; em Lisboa, os estofadores, metalúrgicos, cesteiros, alfaiates, bombeiros, funcionários da Carris e da Companhia das Águas, bem como de outros serviços da Câmara; no Porto, metalúrgicos, corticeiros, e funcionários da Câmara. Outras zonas do país que não as tradicionalmente com maior população operária, tanto a Norte, como a Sul, são igualmente afectadas. Toda esta agitação social e demonstração de força por parte das organizações sindicais leva a que os republicanos percebam que, se querem conter o movimento operário e mantê-lo do seu lado, têm que fazer cedências. Um primeiro passo nesse sentido já havia sido dado quando Augusto Dias da Silva se tornara no primeiro ministro do Partido Socialista num Governo republicano, o Executivo liderado por José Relvas, tendo a seu cargo a pasta do Trabalho. Quando, no final de Março, Relvas foi substituído pelo democrático Domingos Pereira, Dias da Silva manteve-se no elenco governativo. É certo que a influência dos socialistas no movimento sindical era muito diminuta, mas a sua linha moderada e a tendência maioritária dos seus membros para aceitarem a participação no jogo político-partidário fazia com que aparecessem aos olhos dos republicanos como os parceiros ideais no objectivo de acalmar e controlar os ímpetos mais radicais de um operariado em que imperavam as ideias anarquistas, conquistando-o para soluções reformistas. O entendimento entre republicanos e socialistas conduziria, mesmo, a que o Partido Socialista conseguisse oito deputados nas eleições legislativas de 11 de Maio, graças, sobretudo, ao auxílio da máquina eleitoral do Partido Democrático. Mas a mais importante cedência republicana foi permitir que Dias da Silva legislasse, de facto, enquanto Ministro do Trabalho, e que o fizesse com genuíno espírito reformista. Desse modo, no início de Maio, ainda antes das eleições, foi promulgado um conjunto de medidas inovadoras no âmbito social e laboral: o estabelecimento das oito horas de trabalho diário, a construção de bairros sociais em Lisboa, a criação de Bolsas de Trabalho, e a instituição de seguros sociais obrigatórios em caso de invalidez, velhice, sobrevivência, doença e acidentes de trabalho.3
A medida com mais impacto social foi, sem dúvida, o decreto (com valor de lei) das oito horas de trabalho, que tinha constituído uma das principais reivindicações operárias nos meses de Março e Abril. Os sindicalistas tinham promovido uma intensa campanha de pressão para a adopção das oito horas, culminando, no 1.º de Maio, num comício com cerca de 30 000 pessoas no Parque Eduardo VII, enquanto que, em paralelo, o patronato reagira negativamente à possibilidade do Governo avançar com a lei.4 Os protestos iriam ter o seu efeito junto do Governo, mas não no imediato, e a lei foi mesmo aprovada em Conselho de Ministros. Segundo o seu texto,5 o período máximo de trabalho diário dos «trabalhadores e funcionários do Estado, das corporações administrativas e do comércio e indústria» não poderia ultrapassar as oito horas diárias, nem as quarenta e oito horas semanais, com excepção dos «empregados de estabelecimentos de crédito, de câmbio e de escritórios», cujo limite máximo de trabalho se ficava pelas sete horas diárias. No caso do trabalho em ambientes «insalubres ou tóxicos», previa-se, ainda, a redução do número de horas por «decreto devidamente fundamentado». Para precaver retaliações ou transgressões do patronato, proibia-se a diminuição dos salários vigentes como reacção às disposições da nova lei e concebia-se um sistema de fiscalização da sua aplicação, com as infracções a serem penalizadas com multas. O trabalho extraordinário deveria ser pago a dobrar nos sectores do comércio e indústria, e estabelecia-se a obrigatoriedade de organizar turnos e períodos de descanso em trabalhos que, pela sua especificidade assim o exigissem.
Na altura da sua promulgação, a 7 de Maio, já o tempo de Dias da Silva no Governo tinha chegado ao fim. O ministro socialista apresentara a demissão por discordar com a forma como o seu colega António Maria Baptista, ministro da Guerra, tinha ordenado a perseguição e prisão indiscriminada de operários sob a acusação de serem os responsáveis por um incêndio de grandes dimensões que havia deflagrado no edifício das Encomendas Postais, no Terreiro do Paço, no dia 2.6 Por essa razão não é o nome de Dias da Silva que figura entre os assinantes do decreto, mas o do Ministro da Agricultura, Jorge Nunes, homem da direita republicana, que passou a substituí-lo interinamente na pasta do Trabalho e, desse modo, subscreveu o diploma numa dupla condição. Esta alteração terá facilitado a decisão do Governo de, na véspera das eleições de 11 de Maio, decretar a suspensão da lei por trinta dias, de modo a que pudesse ser devidamente regulamentada. Entre as justificações apresentadas estava o reconhecimento de que o prazo estabelecido para a entrada em vigor da lei era demasiado apertado.7 Porém, o motivo fundamental era bem claro: as insistentes reclamações das associações patronais. Um mês depois, o Governo voltava a adiar a regulamentação da lei por mais trinta dias, invocando as «reclamações constantes que continuam a afluir a este Ministério por parte das classes interessadas» e a dificuldade em reunir a comissão encarregada da tarefa.8
A verdade é que, terminada a nova prorrogação do prazo, nada fora feito, e a regulamentação só chegaria no final de um verão marcado por uma enorme agitação social. Até lá, os protestos e ameaças de boicote por parte do patronato continuariam. Em Julho, a Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, através do seu boletim, afirmava que era impossível qualquer acordo acerca do regime das oito horas, visto considerá-lo «fundamentalmente inaceitável».9 Já antes, a Associação Industrial Portuguesa elaborara uma proposta de alteração, mas a boa vontade escondia, na realidade, uma maneira hábil de contornar o limite das oito horas diárias.10 Na Câmara dos Deputados, Dias da Silva e António Maria Baptista reavivavam o conflito que os opusera quando eram colegas de Governo, com o último a desabafar «que muitos desses operários que reclamam oito horas de trabalho, nem quatro horas, muitas vezes, se dispõem a trabalhar. Fazem o que querem! Não têm ordem; não têm disciplina!». Dois dias depois, o Deputado socialista Manuel José da Silva declarava: «Decretou-se há pouco no nosso país a lei das 8 horas de trabalho; porém o que não se decretou foram medidas acessórias para tornar praticável e viável essas leis na mesma forma como existe na Inglaterra, na América, e actualmente na Suécia, isto é, por meio de contratos colectivos de trabalho, medida sem a qual a lei das oito horas de trabalho não pode ser eficaz. Em Portugal nada disso se tem feito; não se removeram os obstáculos que poderiam surgir e dificultar a lei, de maneira que temos as oito horas de trabalho decretadas, mas não tendo na presente ocasião a menor exequibilidade [sic]». E, no início de Setembro, o então Chefe do Governo, Alfredo Ernesto de Sá Cardoso, numa intervenção a propósito da crise de bens de primeira necessidade, mostrava que, no seio dos republicanos, não havia unanimidade em relação aos benefícios da lei das oito horas: «eu devo dizer que também o aumento de salários e a diminuição das horas de trabalho são factores que contribuem para a crise que atravessamos. Ninguém quer trabalhar, mas todos querem ganhar mais! Nas oito horas de trabalho, não se faz quase nada. Trabalha-se hoje menos nas oito horas do que dantes se trabalhava numa hora; e os governos também têm tido algumas culpas neste assunto.»
O regulamento, assinado pelo novo Ministro do Trabalho, José Domingues dos Santos, seria finalmente promulgado a 23 de Setembro, embora, pelo seu carácter experimental, tivesse uma validade de apenas seis meses. Apesar do preâmbulo referir que haviam sido «ouvidas todas as entidades e classes interessadas no assunto e devidamente ponderados os seus alvitres e reclamações»,11 o decreto foi mal recebido pelo patronato. Talvez por isso, a execução do regulamento foi suspensa até 1 de Novembro. Em Outubro, foi enviada uma representação ao Parlamento, assinada por meia centena de associações industriais e comerciais, pedindo a reformulação da lei do horário de trabalho. A sua voz na Câmara dos Deputados foi António Aboim Inglês, do recém-criado Partido Republicano Liberal, então presidente da Associação Industrial Portuguesa, que apresentou um requerimento na tentativa de levar a discussão da revisão da lei ao Parlamento. No seu discurso, recorreu a um dos pontos principais da argumentação habitualmente usada pelo patronato para atacar a lei, a de que esta seria destrutiva para a economia nacional e desencadearia um enorme «desarranjo social». O requerimento foi rejeitado, e a lei e o seu regulamento passariam mesmo a vigorar pelos seis meses seguintes.

No entanto, os deputados socialistas logo constataram que a existência de uma lei e a sua real aplicação no quotidiano eram duas coisas bem diferentes. Logo a 10 de Novembro de 1919, Dias da Silva questionava Sá Cardoso: «Como pode um operário sustentar a sua família com o salário que hoje ganha e que em média não excede 1$50? E se isto é assim, se o operário não ganha para comer, como se pode admitir que esses mesmos operários, exaustos de energia por falta de alimentação, tenham de trabalhar como forçados, 10, 12 e 14 horas por dia? Nestas condições como se pode admitir que havendo uma lei das 8 horas de trabalho não se cumpra? Dessa lei ri-se a indústria não a cumprindo. Pode S. Ex.ª dizer que ignora o que se passa na província, o que não se pode admitir é que ignore o que se passa em Lisboa onde essa lei é constantemente desrespeitada porque o próprio Governo é cúmplice, porque até hoje não se tem interessado pelo seu cumprimento, como se não tem interessado pelo desenvolvimento da indústria, porque não se tem interessado para que duma vez para sempre termine a escravatura branca que existe neste país. […] Não se pode admitir que a toda a hora, a todo o momento essa lei seja desrespeitada. A lei tem de se cumprir.»
O epílogo desta história conta-se em poucas linhas. No ano e meio que se seguiu, os socialistas confrontaram repetidamente os vários Governos, quer com o facto de muitos patrões não estarem a respeitar a lei, quer com a aparente falta de vontade, ou capacidade, em pôr cobro a tais práticas, quer ainda com a ambiguidade legal que se criara a partir do momento em que o período experimental terminara e nada fora feito. Isso explica que, em Maio de 1921, Manuel José da Silva ainda tenha sentido a necessidade de interpelar Domingues dos Santos, entretanto regressado ao cargo de Ministro do Trabalho, para tentar perceber se a lei ainda vigorava, ou não. Por fim, em Julho de 1922, o Governo de António Maria da Silva promulgou a aprovação definitiva da lei das oito horas, introduzindo, todavia, algumas modificações que flexibilizavam o regulamento no comércio e indústria, e permitiam, desse modo, que o patronato tivesse margem legal para escapar ao limite diário estipulado no diploma.12 Com efeito, segundo a historiadora Ana Catarina Pinto, «na prática, o cumprimento da lei nunca foi uniforme, dependendo, em larga medida, da força do operariado organizado em cada sector de actividade e região do país».13 O Estado Novo, em decreto de Agosto de 1934, manteria o limite das oito horas de trabalho,14 e, em 1962, seria obrigado a estendê-lo, também, ao trabalho nos latifúndios do Sul, após uma longa luta de cinco anos por parte dos trabalhadores agrícolas do Alentejo e Ribatejo.15"
Ricardo Revez,  in Revista ComunicAR, Julho 19
 1 - Para este parágrafo, cf. António José Telo, Primeira República II – Como Cai um Regime, Lisboa, Editorial Presença, 2011, pp. 52-59; cf. João Freire, «A Contestação ao Regime Republicano durante a Primeira República», in A República Ontem e Hoje, (coordenação científica de António Reis, Lisboa, Edições Colibri / Fundação Mário Soares / Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, 2002, p. 68.
 2 - Para este parágrafo, cf. João Freire, op. cit., p. 69; cf. António José Telo, Decadência e Queda da I República Portuguesa, vol. 1, Lisboa, A Regra do Jogo, 1980, pp. 143-146; cf. Fernando Medeiros, A Sociedade e a Economia Portuguesas nas Origens do Salazarismo, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978, p 158; cf. Ana Catarina Pinto, A Primeira República e os Conflitos da Modernidade (1919-1926): a Esquerda Republicana e o Bloco Radical, Casal de Cambra, Caleidoscópio, 2011, p. 57.
 3 - Para este parágrafo, cf. António José Telo, Decadência e Queda da I República Portuguesa, vol. 1, pp. 146-147, 149, 178-179; cf. Fernando Medeiros, op. cit., p. 163; cf. Ana Catarina Pinto, A Primeira República e os Conflitos da Modernidade (1919-1926)…, pp. 57-58; cf. David Pereira, As Políticas Sociais em Portugal (1910-1926), tese de doutoramento em História Económica e Social Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa, outubro de 2012, p. 331.
 4 - Cf. Fernando Medeiros, op. cit., p. 163; cf. António José Telo, Decadência e Queda da I República Portuguesa, vol. 1, p. 150.
 5 - Cf. Decreto n.º 5516, in Diário do Governo, 1.ª Série, n.º 95, 7 de maio de 1919, pp. 750-751.
 6 - Cf. David Pereira, op. cit., p. 331; cf. Maria Máxima Vaz, Augusto Dias da Silva. O Sonho e a Obra, Loures, Câmara Municipal de Loures, s. d., p. 29.
 7 - Cf. Decreto n.º 5634, in Diário do Governo, 1.ª série, suplemento ao n.º 98, 10 de maio de 1919, pp. 1023-1024.
 8 - Cf. Portaria n.º1837-A, in Diário do Governo, 1.ª série, 7.º suplemento ao n.º 114, 16 de junho de 1919.
 9 - Ana Catarina Pinto, A Primeira República e os Conflitos da Modernidade (1919-1926)…, p. 58, em que se cita o Boletim da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, 4.ª série, n.º 1, Julho de 1919, pp. 4-5.
 10 - Cf. Ana Catarina Pinto, A Luta de Classes em Portugal (1919-1926): a Esquerda Republicana e o Bloco Radical, tese de doutoramento em História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade de Lisboa, novembro de 2016, pp. 76-77.
 11 - Cf. Decreto n. º 6121, in Diário do Governo, 1.ª série, n.º 193, 23 de setembro de 1919, pp. 2014-2019
 12 - Cf. David Pereira, op. cit., pp. 357-358.;
 13 - Ana Catarina Pinto, A Luta de Classes em Portugal (1919-1926): a Esquerda Republicana e o Bloco Radical, p. 79. font-family: Montserrat, sans-serif; font-size: 15px; margin-bottom: 1rem;">
14 - Cf. João José Abrantes, «O Direito do Trabalho do Estado Novo», in Cultura. Revista de História e Teoria das Ideias, vol. 23, 2006, p. 29. font-family: Montserrat, sans-serif; font-size: 15px; margin-bottom: 1rem;">
15 - Cf. António Gervásio, «A Conquista das 8 Horas pelo Proletariado Agrícola do Sul em 1962», in AA. VV., De Pé Sobre a Terra. Estudos sobre o Trabalho e o Movimento Operário em Portugal, (org. de Bruno Monteiro e Joana Dias Pereira), 2013, pp. 1217-1221.