domingo, 20 de setembro de 2026

Ao Domingo Há Música


Tens os olhos de Deus,
E cada qual com os seus
Vê a lonjura que quer,
E quando me tocas por dentro
De ti recolho o alento 
Que cada beijo trouxer. 
E eu preciso de mais, 
Preciso de mais.
 Pedro Abrunhosa

O calor anda no ar. Traz dias longos e de grande azáfama . Nem sempre chegam para os sonhos que lhe pomos. E rodam, expandem-se em sonhos de ansiados tamanhos. Sonhos que são apenas sonhos para dar cor e mais luz aos dias.
As vozes, que se apresentam,  transformaram  momentos reais em momentos de inenarrável sonho.

Dulce Pontes, em Ondeia.  Música e Letra: Dulce Pontes.
Fotografias: Joana Constante - Coliseu do Porto 17 Janeiro 2015 / Montagem: Carlos José.
  
Mariza , em  Chuva , composição de  Jorge Fernando (Concerto em Lisboa).
   
Ana Moura, em  Tens os Olhos de Deus , composição de Pedro Abrunhosa ( Antena 3).
   
Carlos Do Carmo e Camané, em  Por Morrer Uma Andorinha.
   
  Amália Rodrigues, em Gaivota. Música de Alain Oulman e poema de Alexandre O´Neill.

sábado, 19 de setembro de 2026

O último poema

O último poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira, in  50 poemas escolhidos pelo autor, Ed. Cosac Naify – São Paulo, 2006, pág. 35.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Uma vergonhosa e hipócrita mentira


Não há boas maneiras nas guerras
por Eugénio Lisboa
“Quando se diz que, nas guerras, deve haver boas maneiras, códigos de conduta, separação de civis e combatentes, Cartas das Nações Unidas de 1945, sobre o genocídio, a Convenção de Genebra, de 1949, para tornarem as guerras mais “decentes”, mais “cuidadosas”, mais “cavalheirescas”, está-se simplesmente a vender uma vergonhosa e hipócrita mentira. Nas guerras, nunca há boas maneiras e os actuais e poderosíssimos meios de destruição, ao dispor dos exércitos de quase todos os países, não permitem finas distinções entre civis e combatentes, entre massacre e genocídio, entre guerra limpa e guerra suja. A segunda guerra mundial foi suja, a guerra do Vietnam foi suja, a guerra do Iraque foi suja, as guerras do Afeganistão foram sujas, as guerras coloniais foram sujas e a actual guerra israelo-palestiniana está a ser sujíssima. Dos dois lados. Sempre dos dois lados. Em todas elas se praticaram e praticam as maiores e desnecessárias atrocidades. Não dá para dizer quem tem razão. Quem mata, esteja de que lado for, não tem razão. Só tem razão quem morre e não devia morrer. As razões que se dão para uma guerra são sempre desrazões. A Batalha de Ourique, a Batalha de Aljubarrota, provavelmente, foram também sujas, embora em escala menor porque se matava menos e, nessas, não se confundia civis com combatentes. Mas TODA a guerra é inerentemente suja e infame. O recurso à guerra, nas sociedades modernas, deveria ser considerado crime e evitado a todo o custo.  Produzir uma espingarda, ou um canhão ou um caça, como disse Dwight Eisenhower, que era um general que ganhou uma guerra, é tirar pão a quem tem fome e é tirar aquecimento a quem tem frio. Ou se proíbem as guerras ou não se proíbem. Mas, enquanto se não proibirem, ninguém tem direito à boa consciência dos que inventam a história da carochinha das “leis da guerra”. Na guerra não há leis, a não ser a do mais forte, que é uma lei da selva. Permitir a um psicopata como Putin ou um autista perigoso, como Kim Jong Un a posse de armas nucleares  (e, em suma, a todos os que as possuem) é realmente andar a brincar à beira do abismo. Só uma total impotência internacional de pôr cobro a esta insensatez pode justificar que se tenha chegado a 2023, com guerras santas, apoiadas por um islamo-esquerdismo muito mau ou por um não menos mau israelo-direitismo. As finas distinções para salvar a face da barbaridade que é a guerra são meros eufemismos para serem usados pelos fautores da guerra, que querem dormir sossegados. Nas guerras, esses códigos nunca são respeitados, nem por atacantes nem por atacados. No Vietnam fizeram-se aos vietnamitas as maiores atrocidades e no Afeganistão, durante a invasão, os afegãos serravam as pernas e os braços aos prisioneiros soviéticos, o que não impede a actual love story entre o Islão e uma certa esquerda (o tal islamo-esquerdismo).
Meus caros senhores e senhoras, nada de hipocrisias, encarem a verdade de frente: as guerras, mesmo as “justas” são crimes abomináveis. Basta ver o rosto aterrado e emudecido de uma criança na faixa de Gaza. Culpado? HAMAS e ISRAEL. Os criminosos estão SEMPRE dos dois lados. Hitler poderia perfeitamente ter sido travado a tempo e a França até estava mais bem armada. E a primeira guerra mundial também foi tudo menos inevitável. A inevitabilidade das guerras é outra história da carochinha. Compre-a quem quiser.”
Eugénio Lisboa, 31.10.2023

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Sobre um mundo em turbulência

Gente zangada
por Eugénio Lisboa

 

Se não formos autorizados a rir

 no Céu, não quero ir para lá.

Martinho Lutero


“Há gente, talvez bem intencionada, com bons propósitos de querer salvar o mundo, mas que está sempre zangada. Talvez por estarem zangados consigo próprios, não conseguem estar de bem com quase ninguém. O notável poeta e crítico inglês, do século XIX, Matthew Arnold, era por toda a gente considerado uma excelente pessoa, mas estava sempre zangado com tudo e com todos, de modo que se dizia, dele, que, boa pessoa que era, iria com certeza para o céu, mas que não iria gostar de Deus. São pessoas que, em vez de se rirem com uma boa piada, se zangam. Querem salvar o mundo e os homens, mas, no fundo, não gostam nem do mundo nem dos homens que querem salvar. Parafraseando o pérfido e brilhante Wilde, diria que é preciso termos um coração de pedra, para não desatarmos a rir com tanta zanga.
Lido com gente assim, há muito tempo. Visam a felicidade da Humanidade, mas são incapazes de a construir em casa. Não sabem rir, coisa perigosa. Mesmo, quando o fazem, como não foram formatados para isso, fazem-no com um rictus de sofrimento. Woody Allen dizia de si próprio: “A maior parte do tempo, não tenho muita graça. O resto do tempo não tenho graça absolutamente nenhuma.” Esta gente zangada de que falo vive sempre no resto do tempo de Woody Allen. Repito, são perigosos. Como não sabem rir, não são capazes de se rir de si próprios e, por isso, não sabem fazer autocrítica. Acreditam em projectos grandiosos, mas não são capazes de resolver pequenos problemas domésticos. Têm visões planetárias, mas tropeçam na primeira pedra que lhes saia ao caminho. E, normalmente, riem-se quando não devem. São gente para fazer grandes purgas, quando não se pensa como eles. Diga-se, de passagem, que “pensar” não é o seu forte. Não gostam de pensar e odeiam visceralmente quem pensa pela própria cabeça. Preferem receber “directivas” de autoridades reconhecidas. Bertrand Russell dizia, com imensa graça, que, quando nos cortam a cabeça, a nossa capacidade de pensar diminui consideravelmente. É o que se passa com esta gente zangada, que pulula nas redes sociais: andam por aí, dando pulos desorientados, como galinhas decapitadas.”
Eugénio Lisboa, 04.11.2023

Glosa sobre o fanatismo

O fanatismo embrutece
ou a estupidez fanatiza?
A burrice não me enternece
e o fanático barbariza.

O fanático tem certezas,
onde certezas não existem:
estão repletas de bichezas
que são nocivas e persistem.

A fé não é conhecimento,
pelo menos, até mais ver.
Transforma o mundo em turbulento
e estupora o bom viver.

Crê quem desiste de entender,
por isso o crente é perigoso:
quando não sabe convencer,
vira tirano afanoso.

O fanático não tolera
aquilo que não compreende:
torna-se logo uma fera,
filha bastarda de duende!
                    25.10.2023
Eugénio Lisboa, poema inédito

Dou isto à meditação dos actuais “iluministas”, totalmente embevecidos com os fanáticos que por aí proclamam, aos gritos, um óbvio desejo de hegemonização religiosa do planeta, para maior glória de um deus soturno e nada misericordioso, que veneram. Eles nem sequer escondem ao que vêm. E os “iluministas” acolhem-nos de braços abertos, decididos a serem, por eles, devorados. Já se tem visto e a História, afinal, repete-se.
O fanatismo e a ignorância militante são os maiores inimigos actuais deste pobre planeta. E o bem intencionismo enviesado dos “iluministas” dá à catástrofe uma boa ajuda.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Parabéns, querido pai

 A saudade , pai, é aquilo que nos fica de tudo o que deu peso e razão à vida. E hoje a nostalgia cresce em mim, com maior intensidade . Hoje, querido pai, festejava-se o seu aniversário. Era criança , quando o descobri. E nunca mais o deixei fugir. Todos os anos, surgia radioso porque era, apenas e tão só,  o  seu dia. Engalanava-se a casa e todos, (éramos muitos), se concertavam nessa festa de vida. 

Não sei como crescemos tão depressa. Num ápice, já não éramos filhos, mas também pais que traziam os filhos para a sua festa. E o dia era ainda maior e mais radioso. Um dia de muitos sorrisos, de muita memória viva. 

Hoje, pai, estou aqui à espera de um dia que não chega. O dia que foi sempre  seu. Um dia que vive no coração . Um dia que continuo a não deixar fugir. Mas um dia que dói de tanta saudade de si.

Parabéns, querido pai.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Era em Setembro


Que fazer sem ti?

Era em Setembro nos anfiteatros vazios,
na alameda que subia para onde nos devíamos encontrar,
e não estavas; era um outono que caía sobre
as árvores do estádio, empurrando-lhes
as folhas para cima da mesa da esplanada, onde está vazia a mesa em
que as minhas mãos deviam procurar as tuas; era
a tua ausência em todos os lugares em que eu sabia
que poderias estar à minha espera, e só a sombra
das nuvens me trazia a memória da tua passagem, como
se fosses a ave que parte quando o primeiro sopro
do inverno se anuncia.

Que fazer sem ti, nestes anfiteatros de bancos
vazios, nos corredores melancólicos que levam para
átrios e pátios, nesses relvados onde não vale a pena
sentar-me, perguntar-te se gostas do outono, ou dizer que
os teus olhos é que valem a pena, agora que vejo, neles,
as nuvens que correm para o sul? E tu, sem estares aqui,
dizes-me que não é preciso que eu me lembre de ti; que
estás para chegar, de trás das árvores do estádio, para
limpares de folhas a mesa da esplanada, e pedires-me que
pegue nas tuas mãos, como se o inverno
não estivesse para chegar.

Mas um cansaço antigo prende-me a estes bancos
de anfiteatro; uma indecisão de passos empurra-me por
corredores e salas, em busca de um bar que fechou
há muito; o vento varreu as folhas da mesa
da esplanada, tirando a única justificação para que venhas. Abro,
então, as gavetas do passado. Tiro cartas, fotografias,
poemas, o livro em que me escreveste a frase interrompida
do amor. Como se eu não soubesse que as nuvens encheram
de sombra todas as imagens; que os pássaros levaram
para o sul tudo o que tinhas para me dizer; que
as folhas no chão cobriram o teu corpo, antes que
o inverno tivesse de o fazer.
Nuno Júdice, in Cartografia de Emoções,   Publicações Dom Quixote, 2001
Gilbert Bécaud, em C'est en Septembre

domingo, 13 de setembro de 2026

Ao Domingo Há Música



De meu estado incerto, ou choro ou canto,
e temo e espero; e entre o suspiro e a rima,
alivio o meu fardo: e Amor me lima
o peito com tal força que me espanto.

Francesco Petrarca, Sonetos

É verdade, nós amamos a vida, não porque estamos acostumados à vida, mas porque estamos acostumados a amar. Há sempre alguma loucura no amor, mas há também sempre alguma razão na loucura.
Francesco Petrarca

Francesco Petrarca, (Arezzo, 20 de Julho de 1304 — Arquà, 19 de Julho de 1374), foi um intelectual, poeta e humanista italiano, famoso, principalmente, devido ao seu romanceiro. O soneto mesmo, como forma poética, é uma invenção de Petrarca., pois foi ele quem o sintetizou e lhe imprimiu as marcas principais que se conservam intactas até hoje . É, por tal,  considerado o inventor do soneto, poema composto de 14 versos.
No século XVI, Petrarca inspirou e tornou-se  a matriz da lírica de outros poetas geniais como Camões e Shakespeare.
Apenas, como introdução à selecção musical deste domingo, fica a referência ao grande vulto das letras italianas. Foi considerado um dos precursores do Humanismo Renascentista, o ilustre Francesco Petrarca, pai do soneto, essa forma tão laboriosa de fazer poesia.
Em 1327 , ano em que conheceu a aristocrata "Laura de Noves", por quem nutriu um amor platónico, passou ,ininterruptamente, a dedicar-lhe os melhores poemas de seu “Canzoniere”.
A poesia é a expansão da alma. E, quando se junta à Música, a obra de arte transforma-se em transcende magnificência.
Os italianos têm na sua História uma vasta e rica tradição musical que , para além da Música Clássica ou da Ópera , tem grandiosos intérpretes até na designada música ligeira .
Hoje, o tema assenta na saudade de temas vibrantes do nosso  passado distante.
São vozes e composições que nos tocaram e ficaram na memória, quando na Europa e no mundo se cantava em italiano e em francês.


Sergio Endrigo, em Canzone per te
Com esta canção, composta em parceria com Bacalov e Bardotti, Sergio Endrigo venceu o Festival de Sanremo em 1968. O prémio de Endrigo foi, em parte, um reconhecimento póstumo da arte de Luigi Tenco, que tinha tirado a sua própria vida no ano anterior, durante o Festival. Sergio Endrigo, protagonista e vencedor do Festival de Sanremo, é recordado como um dos mais exemplares representantes da música italiana. Ao longo dos anos, conciliou a sua produção a solo com uma série de colaborações com poetas e escritores como Pier Paolo Pasolini, Giuseppe Ungaretti e Vinicius de Moraes. Na companhia do compositor vencedor de um Óscar, Luis Bacalov, interpretou também inúmeras canções infantis, incluindo a famosa "Ci vuole un fiore", baseada nos versos de Gianni Rodari. Neste concerto de 1981 na Rádio e Televisão Suíça Italiana, Endrigo reapresenta e interpreta alguns dos seus maiores êxitos, juntamente com canções do álbum “…e noi amiamoci” (1981), como “Mille Lire”, “Se il primo maggio a Mosca” e “Trasloco”.
 
Lucio Dalla, em Felicità.
 
Bobby Solo, em  Se piangi se ridi
   
Ornella Vanoni, em Mi Sono Innamorata Di Te. Compositor: Luigi Tenco·Maestro: Pino Calvi.
  
Mario Biondi e Amalia Grè , em Amami per sempre. Sanremo 2007.
 

sábado, 12 de setembro de 2026

AS BEM-AVENTURANÇAS


MÓDULO II - ENSINOS DIRETOS DE JESUS
                                                                           
1
AS BEM-AVENTURANÇAS
por Manoel de Andrade
     " As beatitudes são o que de mais belo, poético e profético há no Sermão da Montanha. Belo e poético pelo lírico sabor moral das palavras e profético porque anunciam aos que sofrem a plena libertação e a verdadeira felicidade no mundo espiritual.
     Esta passagem de Mateus e Lucas foi tão estudada e comentada ao longo dos tempos que vale aqui fazer uma singela reflexão lembrando de dois fatos tão significativos na história do cristianismo. Moisés subiu a uma montanha para receber os Mandamentos da Lei e Jesus subiu a um monte para nos enviar os mandamentos do coração. Entre tantas referências, por certo a mais expressiva foram as palavras de Mahatma Gandhi (1869 – 1945) quando, numa de suas reflexões, afirmou que “Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade e só se salvasse O Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” (1) Essa sábia dedução de um homem tão iluminado como Ghandi indica que essa marcante passagem do Evangelho resume todo o fundamento moral do Cristianismo. Santo Agostinho escreveu o livro “Sobre o Sermão do Senhor na Montanha” onde analisa em profundidade cada detalhe da mensagem incomparável de Jesus. Martinho Lutero (1483 – 1546) dedicou ao texto vários sermões em Wittenberg, publicados em 1532 e Francois Mauriac (1885 – 1970), o grande mestre do romance francês, que descreveu Jesus em seu livro O Filho do Homem e foi laureado com o prêmio Nobel de Literatura de 1952, comentando o mais belo discurso do Divino Mestre, afirmou: "Quem nunca leu o Sermão da Montanha, não é capaz de saber o que é o cristianismo". E mesmo diante de tanta reverência, no Ocidente, essa mensagem sublime de Jesus foi deformada pela poderosa tutela “teocrática” que tinha a Igreja sobre a consciência das pessoas. A vigilância pela pureza dogmática mantida pela intolerância do Santo Ofício negava todo o elevado significado da compaixão, da caridade e do perdão que marcaram indelevelmente as palavras de Jesus. Nascida à sombra arbitrária da cura pontifícia e do trono imperial, a Inquisição marcou o desprezo absoluto pelo significado da fé, do amor e da esperança contida no Sermão da Montanha, restando às vítimas do poder eclesiástico, o desespero, a ruína e a crença na perdição irreparável da salvação da própria alma.
     Finalmente, é indispensável acrescentar que no Sermão da Montanha, contido no Evangelho de Mateus, está descrito o nosso mais belo “caminho” para nos dirigir a Deus. É lá que Jesus nos ensina a orar com humildade e respeito ao Criador, proferindo a mais perfeita e a única prece que nos ensinou: o Pai Nosso."
...............................................................
(1)https://www.pensador.com/frase/MjYzMDEyOA

                                                        
 2
DISCÍPULOS: SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO
por Manoel de Andrade
    " Este belo título nos traz muitas reflexões sobre a grandeza espiritual de Jesus, como sábio e como poeta. Além das maravilhas morais das Bem-aventuranças, há outros tantos e tão belos recantos nos Evangelhos, onde o Mestre deixou as marcas de sua indelével sensibilidade, trazendo metáforas que se imortalizaram pelo fascinante lirismo das imagens ao falar dos lírios dos campos, das aves do céu, do pão da vida, da candeia, das sementes e do joio e do trigo.
     Vós sois o sal da terra”, disse Jesus aos seus discípulos. O que levou o Mestre fazer esta rara analogia, comparando os seus discípulos ao sal da terra? 
      Na antiga cultura judaica o sal é o símbolo da eterna aliança entre Deus e o povo de Israel. É uma alegoria com profunda significação religiosa, presente já nos primórdios dos rituais de oferendas a Deus como se lê nas primeiras páginas do Levítico: “Salgarás toda a oblação que ofereceres e não deixarás de pôr na tua oblação o sal da aliança com teu Deus; a toda oferenda juntarás uma oferenda de sal ao teu Deus.” (Lv, 2:13).  Em Ezequiel (16:4), os recém-nascidos eram purificados com o sal. No segundo livro de Reis, o profeta Eliseu purifica com o sal as águas do rio Jordão que banhava Jericó: (2 Rs, 2:20-22).
     Além do significado religioso que o sal tinha entre os hebreus, o que Jesus buscou, na sua comparação, foi associar as propriedades puras e incorruptíveis do sal, como uma substância química que tudo preserva, com as qualidades morais dos seus discípulos. Seu desejo era imaginá-los cristalinos como o sal, como um exemplo perfeito da preservação e da pureza. Como o elemento que nada corrompe e conserva tudo o que toca. O símbolo incorruptível do sal como um componente preservador da dissolução moral. Um caráter que não se contamina e que jamais se corrompe. Uma alma imune às impurezas e aos equívocos ilusórios do mundo.
     Além do “sal da terra” os discípulos foram chamados de a “luz do mundo”, porque eram investidos como os arautos da Boa Nova, trazendo acesa no Evangelho a candeia do conhecimento e da verdade. Nada se revela sem a luz. E a luz que ilumina o mundo é o Cristo. Sem ele caminhamos na penumbra.  Se buscamos, como seguidores do Mestre, ser a luz do mundo, deixemos que o amor, a verdade e a justiça brilhem em tudo o que fazemos e compartilhamos. Ser a luz do mundo significa viver com a consciência crística da verdade, porque a consciência é a lâmpada da alma, a bússola divina, iluminando nosso caminho na imortalidade."
Manoel de Andrade , in  Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre Cristianismo e Espiritismo, Edição do Centro Espírita Luz da Caridade, Rua Mato Grosso, 145 – Água Verde, CEP: 80260-070 – Curitiba - Paraná, pp.159 - 162