sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Anne Carson foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura de 2026


"Poeta, ensaísta e tradutora canadiana Anne Carson foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura de 2026, “pela sua obra audaz e inventiva que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.
A escritora, de 76 anos, é conhecida pelo estilo híbrido, que combina poesia e prosa, bem como narrativas contemporâneas com o mito antigo.
A Academia declarou: “Quase toda a sua produção literária se centrou na intersecção entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos sentidos. A própria autora identificou a etimologia das palavras como ponto de partida para todo o seu trabalho.”
Entre as obras mais conhecidas de Carson contam-se a estreia, em 1986, “Eros the Bittersweet”, uma análise do prazer e da dor do desejo na literatura grega antiga; a obra de 1998, muitas vezes apontada como a sua maior, “Autobiography of Red: A Novel in Verse”, um romance queer de passagem à idade adulta que reimagina um poema grego sobre Héracles; “The Beauty of the Husband: A Fictional Essay in 29 Tangos” (2001); e “Norma Jeane Baker of Troy” (2019), que aproxima Marilyn Monroe de Helena de Tróia.
O trabalho mais recente é “Wrong Norma”, publicado em 2024.
Com este prémio, Carson torna-se apenas na 19.ª mulher a receber o Nobel da Literatura; entre as vencedoras recentes contam-se Han Kang em 2024, Annie Ernaux em 2022 e Louise Glück em 2020.
Até hoje, o prémio de literatura foi atribuído pelo comité Nobel da Academia Sueca em 119 ocasiões, a um total de 123 laureados (quatro prémios de literatura foram partilhados entre vários vencedores).
O prémio de literatura é o quarto anunciado esta semana, depois dos Nobel de 2026 em medicina, física e química.
Cada prémio este ano inclui 12 milhões de coroas suecas (1,07 milhões de euros). Os laureados recebem ainda uma medalha de ouro de 18 quilates e um diploma.
O vencedor do Prémio Nobel da Paz será anunciado na sexta-feira e o último galardão, o Prémio Sveriges Riksbank em Ciências Económicas, será divulgado na segunda-feira.
As cerimónias de entrega dos Prémios Nobel realizam-se a 10 de dezembro, no aniversário da morte de Alfred Nobel, em 1896."
Euronews

Os livros de Outubro da Guerra & Paz e da Gradiva

Outubro, livros de tendência vulcânica
"Ali em cima, disse vulcânico, mas queria só dizer alegria. É a minha newsletter, que vos escrevo com a candura dos 73 anos e o gosto em contar-vos como amigos. Obrigado.
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva

Os meus livros de Outubro
de tendência vulcânica, cuidado com a leitura

Guerra e Paz
Nos meus livros de Outubro deste ano da graça de 2026, há tudo o que de vulcânico é preciso para mover o mundo. E o que move o mundo? O ódio ou o amor, o ressentimento ou o perdão?
A Guerra e Paz editores começa com De Gaulle e com um embaixador português. O que teria acontecido se o rígido De Gaulle tivesse encontrado o nosso luxuriante embaixador? Bernard Phan decifra o labirinto que nos habituámos a conhecer pelo nome de Charles De Gaulle. António Luiz Cotrim, o nosso embaixador, leva-nos ao céu com as histórias de uma avó extravagante, com os seus socos a pides e a salvação de amigos estrafegados, no delicioso Memórias de Um Cidadão de 2.ª. Que alegria de livro e de episódios loucos! (Merece mesmo o pontinho de exclamação.)
«Não é o milagre que perturba o jovem poeta, mas a sua brusca e nunca pressentida ausência», escreveu o nosso poeta maior dos últimos 70 anos. Já não se pode chamar jovem poeta a João Moita. O seu A Deus, à Poesia mobiliza abismos sem prestidigitações, mergulha no crepúsculo de deuses e demónios, num íntimo e intratável buraco negro. Cuidado com a leitura.
Renovando os Clássicos da Guerra e Paz, chega Sensibilidade e Bom Senso, de Jane Austen. É um dos grandes romances dessa gente europeia a que chamam ocidentais, escrito no revelador anonimato de by a lady. Junta-se a Orgulho e Preconceito e Persuasão para dirimir as batalhas entre cabeça e coração, a que um certo Camilo juntaria o delicado estômago.
Proliferam enigmas em Outubro. E logo os de Natal, como este em que a nossa autora Alexandra Benedict se entretém a tricotar o intrigante e agathiano (sabem bem de quem estou a falar) Os Enigmas dos Crimes de Natal.
Num outro registo, o linguista Marco Neves estreia-se no thriller. Começa que parece quase o fim do mundo: «Tomás Cabral, o morto deste livro, foi encontrado carbonizado numa manhã do final da Primavera de 2025 por…» Leva por título Morte em 22 Letras e é um livro de uma invenção luzente. Ah, vê-se que há bom português nessa PJ que anda agora na boca dos jornais.
A renovada chancela Crisântemo oferece dois livros que são mesmo «pela sua rica saúde», A Arte de Habitar o Caos, Viver com a Cabeça Ligada à Ficha, relato pessoal de Patrícia Rebelo sobre a experiência de viver com PHDA – Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, e Os 7 Elementos da Felicidade, do psiquiatra António Sampaio, uma visão biopsicossocial do processo sempre em construção de uma vida que valha a pena ser vivida.
Não sei se a visão de Vitor Ramalho, meu kamba afro-luso, é biopsicossocial. Mas sei que o seu Portugal, a Democracia, o PS, Que Futuro? se inquieta com o cerne da questão: ainda poderemos salvar do pântano, em que já está pelo pescoço, esse centro político que edificou, mano a mano, a nossa democracia?
Igualmente salvífico é Sexo, Ciência e Censura: as verdades tabu da guerra de género, que Peggy Sastre e Leonardo Orlando escreveram, e eu juntei à minha colecção jimi hendrix, (hierarquias minhas, hey, joe): Os Livros Não se Rendem. Eu sei, genes, biologia, sexo, evidência científica, parecem coisas do passado, mas olhem que não. Se são, são coisas do futuro.
Guardei para o fim um romance de felicíssimo título: No Azul Que Nada Devolve. Escreveu-o Lara Ramos Alves, estreante que sabe tudo sobre mergulho, corais e peixes. Desse saber sacou um policial sufocante, quase irrespirável: mergulha-se e tem de se voltar aflitivamente à superfície. Há um crime. O crime só se resolve lá em baixo, no fundo do mar, no «deep blue sea», «blue» que nada devolve. É um azul de amor e morte. Azul talvez de redenção. Mas que primeiro romance. Primeiríssimo. 
 
Euforia & Alquimia
E aqui, entre Guerra e Paz e Gradiva, fica a nota destas duas chancelas que a Rita Fonseca mantém em estado de activa e pletórica matéria editorial. Na euforia publicam-se Ele Vê-te Enquanto Dormes, de Alta Hensley e Antes, Agora, Sempre, de Amanda Gayle. Na Alquimia, chancela que agora começou a gatinhar, Entre Nuvens e Ossos, de Ella Fields.
Três romances, num leque que vai do dark à fantasy, passando pelo sub-género second-chance. Eu posso não saber do que estou a falar, mas milhares de leitores sabem.
 
Gradiva
Na Gradiva Publicações, a editora da Mimi, deixem-me começar pelas crianças.
A maravilhosa Lucy Pepper (que bem que o raio dessa nossa inglesa desenha) voltou a fazer, com novas receitas e novos desenhos, O Livro das Receitas Nojentas. O meu neto já viu: gritou de alegria, lambeu cada imagem, levou o tesouro para p jardim de infância e os pequenos selvagens «fizeram» o livro em pedaços. É a glória, querida Lucy, é a glória para uma autora e para um editor.
E para criar alguma simetria, publico também Um Natal Cheio de Neve, de Marc Bratcher e Korky Paul, os criadores da Mimi. É uma historinha de Santa Claus (o paizinho natal) e nunca pára de nevar. Logo cá que nunca neva: um encanto.
Tenho mais uma razão, não só para deixarem vir a mim as criancinhas, mas para vos transformar a todos, de novo, em pequeninos seres a andar de gatas. Para alegria do fundador Guilherme Valente e minha, seu sucessor, reeditámos, em fulgurante edição, o Cosmos de Carl Sagan. Corto já o meu paleio promocional para deixar ouvir a voz cantante e risonha do cientista que é Carlos Fiolhais: «Faz-nos sonhar. Poder-se-á pedir mais de um livro?»
Mando embora as crianças e junto as tropas. Dois generais, Alípio Tomé Pinto e João Vieira Borges, coordenaram um livro de grandes testemunhos e reflexões (como a de Ramalho Eanes) que dão corpo a 25 de Novembro de 1975 – 50 Anos Depois. O livro paira bem acima das rasas disputas ideológicas sobre uma data sem a qual, provavelmente, teríamos tido um cortejo de «a ferro e fogo, sangue e morte». Tivemos, e nesse dia ficou certo, a democracia.
Segue em busca de renovação a Ciência Aberta, esse prodígio de colecção que o Guilherme, meu velho colega de filosofia, criou, inspirado por Fiolhais, Buescu e Mariano Gago. O engenheiro Rui Manuel Barreira é a mais recente «aquisição». Escreveu O Clima Sem Mitos: como um engenheiro lê a crise.  Tem uma visão não catastrofista. No centro dessa visão, «uma convicção aprendida na água fria do Atlântico onde o autor mergulha desde criança: quase tudo o que nos assusta se enfrenta com anteparos e o clima, ao contrário do que dizem os manuais, não se resolve com um preço».
Termino de romance na mão. Uma das promessas que fiz ao Guilherme quando me «deu» a Gradiva foi a de manter-lhe a identidade. E a Gradiva trazia na cabeça uma tiara: a bela ficção literária. Ora bem, Ishiguro, McEwan, Eco e agora Michael Cunningham estão de volta. Também este Uma Casa no Fim do Mundo, com capa nova. Ah, as capas novas… Conto? Não conto? Ah, catano, conto mesmo.
Mr. McEwan – o próprio – depois de ver as novas capas mandou-nos este mimo: «They all look amazing, very powerful, striking and beautifully designed. I’m honoured.» Ainda estávamos a tentar descer à terra, quando chegou isto de Mr. Ishiguro: «I think the cubist-y concept crossed with comic-style illustration works really well.» Foi preciso atar o Ilídio Vasco, e também a Diana Trigo, a nossa equipa de designers, para não nos saírem a flutuar pela janela.
E eu? Eu estou capaz de beijar toda a gente. Só peço, e lá vou fazendo as minhas orações da noite, para que continuem a muito ler e, «por virtude do muito imaginar» se transformem de «amador em cousa amada».
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Pensamentos do dia

Aforismos de Henry de Montherlant
por Eugénio Lisboa
“O escritor francês Henry de Montherlant, um dos maiores do século XX francês – Valéry considerava-o o maior – foi, de um modo geral, mais falado e comentado do que real e profundamente lido, como a sua obra merecia e merece. Como prosador, insere-se na grande linha que vem de Bossuet, passa por Chateaubriand e Barrès e nele desagua. Acrescenta-lhes uma ironia felina e uma coragem de dizer “ce qui est”, própria de quem não tem frio nos olhos. Sobre ele, escreveram-se mais dislates do que os muitos que é normal debitar-se sobre os grandes escritores. Grande romancista, grande dramaturgo, grande poeta e ensaísta, não costuma ser referido como um dos mais notáveis pensadores aforistas, na linha dos maiores que a França produziu e a colocam num lugar ímpar, entre as nações.
Na sua obra de narrador, de dramaturgo, de ensaísta, mas, sobretudo, nos seus notabilíssimos CARNETS, os aforismos penetrantes e, às vezes, assassinos e bem dignos dos mais acutilantes antepassados, pululam. Deixo aqui, hoje, uma pequena amostra, para incitar o leitor a procurar mais.

Vivam os meus inimigos! Eles, ao menos, não me podem trair.

Depois de fazer amor, o primeiro a falar diz uma tolice.

Pode ferir-se o amor-próprio; matá-lo, nunca.

Morremos quando não há mais ninguém por quem tenhamos vontade de viver.

A felicidade nunca me aborrece.

Pode fruir-se tanta alegria em dar prazer a alguém, que, às vezes, quase nos sentimos na obrigação de lhe agradecer.

As épocas perturbadas fazem perder tempo. Só se pensa em salvar a cabeça e não há tempo para fazer mais nada.

A política é a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros.

Muitas coisas não merecem ser ditas e muitas pessoas não merecem que as outras coisas lhes sejam ditas. Isto faz muito silêncio.

Todo o grande homem age e escreve para desenvolver duas ou três ideias.

Tudo o que não é paixão tem um fundo de aborrecimento.

A infelicidade só se consola com a infelicidade dos outros.

Há dois momentos na sua vida em que todo o homem é respeitável: na sua infância e na sua agonia.
Eugénio Lisboa, 28.01.2022

domingo, 4 de outubro de 2026

Ao domingo Há Música


Cada passagem de uma composição musical actua sobre nós , quer queiramos quer não, por meio de uma expressão emocional.
             Milan Kundera

Quando se lançam , os sons espalham-se em concatenação harmoniosa como se fossem o acontecimento mais imperativo, mais urgente do momento. E tudo acaba e começa ali. É a Música que chega e toma o espaço de cada um. Abandonam-se. Entregam-se. Sem qualquer resistência. E cada um encontra o ritmo mágico do seu coração.
Assim acontece com este magnífico Adagio.

Adagio Re minor BWV 974 (Piano-Violoncello), de Johann Sebastian Bach.  
Esta versão é feita por Elise Robineau - Concerto en re mineur BWV974 - Adagio d'après Marcello - Piano & Cello.
 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

África

África 
Um continente de múltiplas surpresas. Quem o descobre acalentá-lo-á na memória. Memória que se construirá em muitas emoções: fortes, resplandecentes, gloriosas, chocantes, jubilosas, doloridas, mas sempre grandes à imagem da sua própria dimensão. Emoções imperecíveis que deixarão um rasto de ostensiva profundidade. Estive, em África, em diversas épocas por tempos diferentes. Tenho armazenadas imagens tão intensas que , por vezes, se tornam indizíveis, embora algumas já tenham sido registadas, neste espaço. E, como a memória é um veículo que nos transporta quando o desejamos, resolvi voltar a África para refruir alguns dos sons que sempre nos surpreendem pela sua beleza natural e genuína melodia. África é um imenso , belo e diverso continente. A grandiosidade da sua dimensão permite uma enorme riqueza de sons que muitos não conhecem. Há vozes que nos chegam ainda impregnadas da largueza das savanas e do doce marulhar dos mares.

Umhlabathi – Ancient Zulu Earth Spirit Chant | African Tribal Music for Healing & Energy Cleansing
Breath of Life – Ancient African Ritual Music | Sacred Zulu Chant for Deep Sleep & Meditation

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Há 479 nascia Miguel de Cervantes Saavedra




Nascia o escritor , Miguel de Cervantes
29 Setembro 1547
"Miguel de Cervantes (1547-1616) é para muitos o autor do primeiro romance moderno e uma das obras-primas da literatura universal.
Soldado, prisioneiro, cobrador de impostos, escritor de sucesso… Qualquer das três definições se adequam à figura de Miguel de Cervantes. Pouco mais se pode acrescentar à sua biografia, já que muito poucas informações documentais foram preservadas relativas aos seus primeiros anos de vida, havendo grandes lacunas que nunca vieram a ser preenchidas quanto à sua trajectória biográfica. A História, na sua sabedoria, terá querido ensombrar o escritor para, desta forma, iluminar melhor a sua obra.
Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em 1547, em Alcalá de Henares (Madrid), precisamente quando a vitória de Mühlberg assinalava o auge da glória de Carlos V e tinham acabado de começar as sessões do Concílio de Trento. Foi o terceiro dos cinco filhos vivos do casamento de Rodrigo de Cervantes com Leonor de Cortinas. A fidalguia do pai e a sua profissão de barbeiro-cirurgião não eram garantia de consideração social ou de património relevante. Pelo contrário, as dificuldades económicas eram muito habituais na casa dos Cervantes, e o pai, impelido pela necessidade, iniciou uma contínua peregrinação que começou em Valladolid e prosseguiu por Córdova e Sevilha. Lamentavelmente, só encontrou acusações por dívidas que acabaram por levá-lo à cadeia.
“Dom Quixote” é um dos personagens mais famosos da literatura ocidental. Miguel de Cervantes é o principal nome da literatura espanhola. Com “Dom Quixote de la Mancha”, uma sátira aos romances de cavalaria, torna-se o precursor do realismo na Espanha.
Miguel Cervantes  tem disputada por sete cidades a sua naturalidade. A maioria dos historiadores concorda que o poeta nasceu em Alcalá de Henares, cidade universitária de Castela. Filho do cirurgião Rodrigo e Leonor de Cortinas. Tinha seis irmãos. Em 1563, a família muda-se para Sevilha, onde estuda gramática e latim, com padres jesuítas.
Como pajem a serviço de Felipe II, foi para Roma. A viagem serviu para fortalecer seu talento, diante das grandes obras do renascimento. Em 1571, em Messina, como soldado, junto com seu irmão Rodrigo, sob o comando de João da Áustria, participou da Armada dos Cristãos, preparada para barrar o avanço dos turcos nas águas do Lepanto. Serviu ainda na companhia do capitão Manuel Ponce de Leon, e depois sob o comando de Dom Lope de Figueroa, em viagens que o levou a conhecer toda a Itália.
Em 1575, no regresso para a Espanha, é preso por piratas argelinos e passa cinco anos em Argel. Em 1580 é resgatado por sua família e por padres trinitários. Passa mais quatro anos como soldado, conhece Portugal e em 1584 volta para a Espanha. Em Madrid edita em 1585, sua primeira novela “La Galatea”. Mantém contacto com Luís de Gongora e com Lope de Vega, importantes literatos da época. Escreve os poemas dramáticos “Los Tratos de Argel” e “La Mumancia”
Em 1605, foi publicada a primeira parte do livro “Dom Quixote”, que foi sucesso imediato e teve seis edições no mesmo ano do lançamento. Escrevendo e tratando de negócios, Cervantes leva uma vida próspera em sua casa em Valladolid, junto com sua família. Em 1606 muda-se par Madrid. Em 1613 publica “Novelas Exemplares” e “El Viaje del Parnaso”. Em 1614 surge uma falsa segunda parte de Dom Quixote assinada por Avellaneda. Mas em 1615 Cervantes publica a segunda parte de Dom Quixote “Delingenioso Cavallero Dom Quixote de La Mancha”.
O poder narrativo da figura e das aventuras de Dom Quixote de la Mancha provocou uma autêntica enxurrada de representações desde que, há quatro séculos atrás, o engenhoso fidalgo começara a aventura que o levaria a tornar-se numa referência da cultura universal. A força da obra de Cervantes alimentou, década atrás de década, o interesse de artistas de todo o tipo, muito distantes entre si, tanto no tempo como na concepção da sua arte: bastará citar os nomes de Francisco de Goya, Gustavo Doré, Ignacio Zuloaga ou Salvador Dalí, emergindo entre uma imensa plêiade de iluministas. Em baixo, Dom Quixote armado cavaleiro (c. 1720), óleo de Valero Iriarte (Museu do Prado, Madrid).


1. Enlouquecido pelas suas leituras dos romances de cavalaria, Dom Quixote sai de sua casa em busca de glória e aventuras e, quando encontra uma humilde estalagem pelo caminho, toma-a por um castelo.

2. Dom Quixote acredita que o estalajadeiro é um castelhano de linhagem nobre e este, pensando que o seu hóspede viaja com bom dinheiro, decide entrar no jogo perante o seu pedido de que o armasse cavaleiro.

3. Ataviado com uma velha armadura, o engenhoso fidalgo dispõe-se a receber a investidura que o irá converter em cavaleiro andante e levar a cabo todas as heróicas façanhas que surjam no seu caminho.

4. Convertidas pela febril imaginação de Dom Quixote em altas damas e esforçados cavaleiros, as participantes no ridículo carnaval divertem-se burlando o fidalgo.
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De regresso a Espanha

Tudo indica que, de regresso a Espanha, Cervantes estivesse confiante de que os seus méritos militares o recompensariam com um cargo público, mas, na verdade, não foi isso que aconteceu. Existe apenas evidências de que, em 1581, foi a Oram, em missão desconhecida e de seguida a Lisboa para dar contas da mesma ao governo de Filipe II. No entanto, a literatura deveria congratular-se com esta negativa. À falta de um emprego oficial, Cervantes dedicou-se por completo às letras, frequentou os círculos literários de Madrid e dedicou o seu tempo a escrever La Galatea, que publicou em Alcalá de Henares, em 1585. Além disso, decidido a conquistar um lugar nos ambientes teatrais, escreveu, segundo as suas próprias palavras, “cerca de vinte comédias ou trinta”. Uma delas, El trato de Argel, permitiu reconstituir parte do seu cativeiro argelino.
Por estes anos, o amor surgiu na sua vida. De facto, é a única aventura amorosa que se conhece do autor de Dom Quixote: os seus amores com Ana de Villafranca, ou Ana Franca de Rojas, esposa de um taberneiro madrileno de quem, no Outono de 1584, teve Isabel, a sua única filha. Poucos meses antes do nascimento da criança, em Dezembro, viajou para Esquivias, em Toledo, onde conheceu Catarina de Salazar, filha de um fidalgo do lugar, recém-falecido, com quem se casou em Dezembro desse mesmo ano. Um casamento eventualmente de conveniência, pois a jovem esposa (tinha 19 anos e Cervantes contava já com 37) acabava de herdar terras e vinhedos. Ali estabelecido, não perdeu o contacto com os meios literários da corte. Além disso, apesar do casamento, enquanto a sua mulher continuava em Esquivias, não tardou em prosseguir com a sua vida aventureira. Pouco depois, em 1586, a morte do seu pai obrigou-o a tomar conta da sua mãe e das suas irmãs, e, talvez por isso, tenha insistido em conseguir um cargo oficial, que acabou por concretizar em Maio de 1587, quando lhe foi confiado o de comissário real de aprovisionamento para a Armada Invencível.
Chegada a este ponto, a biografia de Cervantes transmite a imagem de uma personagem em permanente fuga. Um desejo que provavelmente nascia de um espírito aventureiro, mas também de uma certa insatisfação perante um ambiente no qual ainda não encontrara o seu lugar. Nessa louca corrida para fugir de si mesmo e do que o rodeava, aceitou a tarefa de cobrar os impostos em atraso na Andaluzia, o que implicava uma vida errante por terras andaluzas que o levou a Écija, Castro del Río, Cabra, Úbeda, Estepa, sem conseguir mais do que a mera compreensão dos que o recebiam, várias denúncias por apropriação indevida e alguns encarceramentos. Em contrapartida, desta experiência retirou um conhecimento de lugares e pessoas que, a longo prazo, se reflectiu na sua obra literária. Na verdade, apesar dos seus diversos empregos, Cervantes nunca deixou de escrever.

Lidando com a justiça

Os problemas decorrentes do seu trabalho como cobrador de impostos em atraso deram, no entanto, um fruto inesperado. Em 1597, depois da queda do banco onde depositava os valores cobrados, acusado de apropriação indevida, é preso em Sevilha. Foi ali, atrás dos muros da prisão, onde nasceu o Dom Quixote. A fatalidade, entretanto, instalou-se no seio da sua família. Em 1593, morreu a sua mãe e, em 1600, faleceu também o seu irmão Rodrigo. Pouco tempo depois, em 1604, enquanto ultimava a redacção do Dom Quixote, instalou-se em Valladolid com as suas irmãs Andrea e Magdalena, a sua filha Isabel e uma criada chamada María de Ceballos. Um ano mais tarde, no início de 1605, quando as necessidades económicas do escritor eram mais elevadas, publicou na gráfica madrilena de Juan de la Cuesta El ingenioso Hidalgo don Quijote de la Mancha. O sucesso foi imediato. Em poucos meses, perante a existência de várias edições-pirata, Juan de la Cuesta teve de imprimir uma segunda edição, algo insólito para a época, tendo em conta que a tiragem inicial foi de 1.600 exemplares.
Cervantes a escrever a referida dedicatória ao conde de Lemos,
numa gravura de Capuz, a partir da pintura de Eugénio Oliva Rodrigo (1883).

Com o pé “encaixado no estribo”

Em 1606, face ao êxito de Dom Quixote, Cervantes instalou-se comodamente no bairro madrileno de Atocha. Nesse mesmo ano, a sua filha Isabel casou-se com Diego Sanz. Um efémero casamento – Isabel enviuvou dois anos depois – do qual nasceu a única neta do escritor, Isabel Sanz. Mas Cervantes não parecia ter nascido para ser feliz. Num ano e meio, morreram as suas irmãs Andrea e Magdalena e a sua única neta, Isabel Sanz.
O escritor, afundado na dor, decidiu encontrar consolo na religião e ingressou na congregação dos Escravos do Santíssimo Sacramento de Olivar, o que, embora lhe permitisse expiar os supostos pecados da sua aventureira vida anterior, impunha-lhe também umas estritas regras que compreendiam o jejum e a abstinência nos dias prescritos, a assistência diária aos ofícios, a realização de exercícios espirituais e a obrigação de realizar visitas regulares aos hospitais. Quatro anos depois, a sua inquietação mística levou-o a professar como noviço na Ordem Terceira de São Francisco, na qual já o tinha feito a sua esposa. Ao mesmo tempo, o sucesso de Dom Quixote provocou uma autêntica avalancha de publicações: em 1613, as Novelas ejemplares; um ano depois, a Viaje del Parnaso, as Ocho comedias y ocho entremeses nuevos nunca representados e, em 1615, a Segunda parte del ingenioso Caballero don Quijote de la Mancha. Esta última em resposta ao surgimento de um apócrifo Segundo tomo del ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, publicado em 1614 em Tarragona por um tal Alonso Fernández de de Avellaneda, uma falsa identidade sobre a qual pairam as mesmas brumas que sobre o autêntico criador da personagem.
Estes últimos anos são os que estão mais bem documentados sobre a vida de Miguel Cervantes. Vivia retirado na sua casa, dedicado à oração e à literatura e mais próximo da sua mulher do que alguma vez tinha estado. Em Abril de 1616, doente com hidropisia, sentiu que estava a morrer. No dia 19 desse mesmo mês, gravemente doente, dedicou ao conde de Lemos o seu último livro, Los trabajos de Persiles y Sigismunda, tornando seus os versos: “Puesto ya el pie en el estribo, / con las ansias de la muerte, / gran señor, esta te escribo”.
O prólogo ao Persiles foi o seu testamento literário. Morreu quatro dias depois, durante a noite de 22 de Abril. Foi sepultado no dia seguinte com o rosto descoberto e o hábito franciscano, no convento das Trinitárias Descalças da Rua de Cantarranas (actual Lope de Vega). A falta de recursos obrigou os confrades da Venerável Ordem Terceira de São Francisco a pagar o funeral do escritor. Meses mais tarde, Catarina, sua viúva, geriu a publicação do Persiles.
Miguel de Cervantes Saavedra morre em Madrid, Espanha, no dia 23 de Abril de 1616

A agitada vida de Cervantes

1547 | Nasce em Alcalá de Henares.

1571 | Participa na batalha de Lepanto e é ferido na mão esquerda.

1575-1580 | É feito prisioneiro e passa cinco anos em cativeiro em Argel.

1584 | Estreia em Madrid de El trato de Argel e Elcerco de Numancia. Casa-se com Catarina de Salazar.

1585 | Publica La Galatea.

1587 | É designado comissário real de aprovisionamento em Sevilha.

1605 | Surge a primeira parte de El ingenioso Hidalgodon Quijote de la Mancha.

1613-1614 | São publicados as Novelas ejemplares e a Viaje a lParmaso.

1615 | Publicação de Comedias y entremeses, e da Segunda parte del ingenioso caballero don Quijote de la Mancha.

1616 | Morre em Madrid. No ano seguinte, é publicado Los trabajos dePersilesy Sigismunda."
Texto construído com base em consultas e artigos do NGP

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Viajar e conhecer Istambul

Na viagem ; um homem tem de levar consigo saber, se quer trazer saber.
   Samuel Johnson, em James Boswell, Life of Johnson.
 
Istambul, Turquia em 4K - Cenas Incríveis e Tesouros Escondidos por Adnan.
"Neste vídeo, vou mostrar-lhe a bela cidade de Istambul, a capital da Turquia, revelando alguns dos seus segredos mais bem guardados e lugares mais icónicos. Visitei muitos locais imperdíveis, incluindo... 
• Hagia Sophia Grand Mosque 
• Galata Tower • Grand Bazaar
• Suleymaniye Mosque 
• Sultanahmet Square
• Rumeli Fortress
• Maiden's Tower 
• Taksim Square
• Beylerbeyi Palace • Bosphorus Bridge 
• Dolmabahçe Palace
• Basilica Cistern 
• Galata Bridge 
• Aqueduct of Valens
• Ortaköy Mosque (Büyük Mecidiye Camii) 
E muitos outros."
 
Istanbul Turkey 4K Drone Footage | Hagia Sophia, Bosphorus & Istanbul Aerial View
"Explore Istambul, na Turquia, com imagens aéreas deslumbrantes em 4K Ultra HD feitas por drones. Este vídeo cinematográfico mostra os melhores locais de Istambul, incluindo a Hagia Sophia, a Mesquita Azul, a Torre de Gálata, o Estreito de Bósforo, a Ponte do Bósforo, o Palácio Topkapi, a Torre da Donzela, a Praça Sultanahmet, o Corno de Ouro e o horizonte histórico de Istambul. Istambul é uma das mais belas cidades do mundo e a única grande cidade localizada em dois continentes, a Europa e a Ásia. Desfrute de vistas aéreas de cortar a respiração dos famosos pontos turísticos, da arquitetura, das margens do rio, das mesquitas, dos palácios, das pontes e do horizonte moderno de Istambul."