segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Sobre a palavra



Sobre a palavra

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada

Interminavelmente

Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água",  Assírio & Alvim Editores , reimpressão: 02-2014

domingo, 25 de outubro de 2026

Ao Domingo Há Música


Somos na manhã

Somos na manhã
pássaros inquietos
contornando a luz 

e o tempo constroi-nos 
estátuas sufocadas de calma
   Lourenço de Carvalho, minha ave africana

Iniciar a manhã, com uma primorosa interpretação de um trecho musical de Piazzolla,   pode emprestar  ao dia uma outra cor e um tanto da magia que se busca.

Piazzolla: Oblivion, pela trompetista Lucienne Renaudin Vary,  acompanhada pela hr-Sinfonieorchester – Frankfurt Radio Symphony, sob a direccção do Maestro Alain Altinoglu,no Rheingau Musik Festival ∙ Kloster Eberbach, 20. 06 2026 ∙

sábado, 24 de outubro de 2026

Nos rastros da Utopia

Nos rastros da Utopia
Prólogo
por Manoel de Andrade
"Faltou muito pouco para que este livro não fosse escrito. Os primeiros capítulos dessas memórias, iniciadas em Santiago, no verão de 1972, foram abandonados por trinta anos, na solidão de uma gaveta. Em abril de 2002, quando iniciei os procedimentos para enviar ao Ministério da Justiça meu processo de anistia, resumi em 70 páginas a história de minha peregrinação pela América Latina, a fim de passar aos seus futuros relatores fatos que pudessem informá-los sobre as razões do pedido. Acabei não enviando o texto, por acreditar que não estavam ali, e sim nos documentos públicos anexados, as peças essenciais para legitimar o processo. Novamente engavetei minha breve história em face da luta pela sobrevivência familiar, que não deixava tempo nem motivação para reavivar meu velho sonho de escrevê-la. O projeto estava completamente esquecido, como esquecida esteve também, por trinta anos, a minha condição de poeta quando, na primavera de 2002, a inspiração bateu, súbita e magicamente em minha porta, e cinco anos depois seus frutos resultaram na publicação do livro Cantares. Finalmente, em 2009, meu primeiro livro, Poemas para la libertad, lançado em La Paz em 1970 e com outras sete edições no exterior, era publicado, numa edição bilíngue, no Brasil. Foi essa inesperada volta à Literatura e a persistente sugestão de parentes e amigos, que me fizeram voltar a escrever os fatos aqui relatados. 
A América Latina que conheci há quarenta anos vivia de joelhos, marcada por brutais desigualdades, regida por forças reacionárias, pela violência das instituições e um profundo abismo entre uma riqueza orgulhosa e a pobreza humilhada. A exploração desumana do trabalho no campo, as massas indígenas deserdadas e famintas, o êxodo rural, a exclusão urbana e a face inconsolável da miséria eram os seus traços vivos e chocantes, marcados pela sobrevivência do feudalismo e pela persistência dos privilégios colonialistas, que a Independência não modificou. Atravessei toda a região quando seu território era, literalmente, o “quintal” dos Estados Unidos e os interesses imperialistas dominavam os grandes “negócios” do continente. Era um tempo em que a direção dos nossos passos era determinada em Washington, e seu ritmo pelo poder político das burguesias urbanas e das oligarquias agrárias. Na década de 70 --- indelevelmente marcada pela Guerra Fria --- as esquerdas, em todo o continente, mobilizavam-se para reverter todo esse processo de pilhagem, dependência e marginalidade, preocupadas com a teoria e a prática revolucionárias, visando a conquista de soberania, justiça social e liberdade. Em torno dessa tese se discutia a natureza da revolução, dividida entre nossa excepcionalidade indo americana e a visão eurocêntrica do socialismo. Este anseio de liberdade foi um momento fascinante da história latino-americana e aqueles que puderam vivenciá-lo, quer como observador ou como um militante, jamais puderam apagar da alma as luzes das utopias que iluminaram aquele tempo. Fui um desses observadores e o que proponho, nestas páginas, é fazer um inventário não só daquela época, marcada por tanta diversidade e que prodigalizou as mais justas promessas, mas também uma revisão histórica dos conflitos sociais que marcaram os quinhentos anos das lutas libertárias do continente. Os rastros mais antigos e heroicos desses embates foram deixados pelos araucanos no Chile e pelas revoluções indígenas da Bolívia e do Peru. Seus exemplos de bravura e de martírio vivem até hoje nas imagens imperecíveis de Lautaro, Caupolicán, Túpac Katari e Túpac Amaru. Suas mensagens abriram, na década de 70, não apenas novas trincheiras através de todo o continente -- onde tantas vanguardas revolucionárias honraram seus Movimentos com o nome desses heróis -- mas também iluminaram poetas e prosadores, cujas obras se engajaram nessa saga libertária.
A década de 1970 foi uma época de contrastes. De luzes que ofuscaram o mundo e de sombras que abateram os povos. De ideais que incendiaram corações e de corações incendiados pelo ódio. Se é verdade que naqueles anos semeou-se tantos sonhos, também colheu-se profundas desilusões, cujas cicatrizes continuam abertas em quase todos os países da América. Compromisso, resistência e clandestinidade fizeram o contraponto com a repressão, o exílio e a morte.
Este não é um livro político e aqui não se discute as grandes teses que polarizaram o ideário daquela época. Ainda assim, hoje perguntamos: De que valeram o rigor das posições dogmáticas e tantos debates teóricos, ante o despojamento e o sacrifício daqueles que entregaram a vida por um sonho?
Entre brisas e ventanias, muitos visionários, com seus ideais ou com seu sangue, construíram o barco da esperança para cruzar aquele mar tempestuoso em que se transformara o continente. Navegávamos sob um céu sombrio e sem a certeza de uma “terra prometida” onde pudéssemos aportar nosso destino. Por toda parte deparávamos com tensões sociais, com a imagem combativa das vanguardas guerrilheiras e estudantis e indignados ante um cotidiano de prepotência, espoliação e miséria. Em meus passos pelo continente, muitas vezes misturei minhas lágrimas com as lágrimas dos ofendidos, humilhados e excluídos. Compaixão e revolta foram os sentimentos que escreveram os versos daqueles poetas que comprometeram seu canto para denunciar as iniquidades e a opressão daqueles anos. 
Com este livro entrego o testemunho de um longo caminhar. Ao deixar o Brasil em março de 1969, meus passos cruzaram 16 países num prolongado auto-exílio pelo continente. A América Latina foi minha verdadeira universidade e nestas páginas palpita o espírito curioso de quem buscou saciar sua sede na leitura apaixonada da História, da Literatura e da Arte de tantos povos. Palpita o significado de experiências humanas vividas no convívio caloroso das grandes amizades, na tribuna combativa da poesia e nos amargos momentos da solidão dos cárceres. Palpita ainda um coração angustiado com os passos sem rumo, o olhar vazio e os gestos suplicantes dos filhos do calvário. Este livro é, sobretudo, o relato de um poeta itinerante, de um bardo errante, profundamente identificado com seu tempo e com sua condição de latino-americano. Um confidente solitário, comprometido com o resgate de uma América povoada de utopias e com a saga lendária daqueles que ousaram sonhar com um “admirável mundo novo”. 
Quando mergulhamos no nosso passado e no passado da História, é estimulante compreender que tudo começou muito antes dos nossos passos e que novos caminhos serão abertos pelos sonhadores do porvir. Para aqueles que não viveram no fascínio daqueles anos, que nasceram depois da tempestade, este livro traz uma consigna, uma mensagem, poeticamente resumidas na coragem de optar e no assombro de viver. Esse é o vinho mais capitoso, que nos embriaga e nos comove. “O sábio --- observou Gide --- é quem com tudo se espanta”, e eis porque parte do que sei e do que sou, segue guardado nas emoções que 
geraram estas lembranças.
Meu registro é tão somente uma mínima parte da memória esquecida dos anos 60-70 e que ainda está por ser escrita. Seus protagonistas foram aqueles que, entre as flores e os espinhos, construíram um ninho, um berçário de ideias e promessas que nem todos os sobreviventes que ascenderam ao poder souberam honrar nos atos e nos fatos. Nestes embates, a poesia rebelde ocupa uma honrosa galeria de mártires, lembrando dezenas de poetas que empenharam suas vidas e o encanto de suas metáforas para cantar a mística revolucionária pela lírica dimensão da poesia. Eis porque estas memórias contam também a aventura de um livro chamado Poemas para la libertad. Um livro que nasceu nas edições panfletárias de estudantes peruanos e cujos versos foram publicados em jornais, revistas, opúsculos, cartazes e em milhares de panfletos por todo o continente. Seus poemas foram ouvidos em universidades, teatros, galerias de arte, festivais de cultura, congresso de poetas, sindicatos, reuniões públicas, privadas e clandestinas e até no interior das minas de estanho da Bolívia. Suas edições se esgotavam rapidamente e seus exemplares percorreram a América Latina e o sudoeste dos Estados Unidos levados pelos mochileiros latino-americanos e pelos estudantes e intelectuais chicanos. Um livro proibido, confiscado e tendo que cruzar certa fronteira na bagagem de contrabandistas. Seus versos são filhos do sonho de liberdade que percorria o mundo. Alguns foram escritos no Brasil e nasceram silenciados pelo medo e 
pela impotência, numa pátria esmagada pela opressão. Outros foram se desfraldando ao longo de novas fronteiras, registrando os passos de uma imensa luta que incendiou a América há quarenta anos.
Enfim, estas páginas saem em busca de um passado nem sempre venturoso, e por isso sucedem-se, para contar, sobretudo, a história dos vencidos. Vivemos num tempo em que todos os sonhos foram despedaçados e se escrevo estas memórias, é para que se possa ouvir o eco dos hinos que ficaram tão distantes. Meu livro é, acima de tudo, a longa crônica de um poeta que sonhou com o impossível, e cruzou tantas fronteiras acreditando que pudesse mudar o mundo com seus versos. Passados quarenta anos, há entre o que fui e o que sou uma profunda fidelidade. Intactos estão a disposição de indignar-me com as injustiças, um coração solidário e um sentimento imperecível de gratidão..., aos amigos que ficaram, ao Bom Deus, que amparou meus passos, e à vida, por permitir que eu chegasse até aqui! Eis porque, caro leitor, convido-o a viajar comigo por caminhos e por um tempo fascinante, em que o sonho e a esperança comandavam os rumos da História. Ventura e desventura, encanto e desencanto são os sabores com que estão temperados os fatos que 
passarei a relatar."
Manoel de Andrade, in Nos rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina, nos anos 70, Escrituras Editora e Distribuidora de Livros, São Paulo , Brasil, 2014, pp 25-29

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A perda da Memória

A perda da Memória
por Edgar Morin
"Como todas as coisas do universo, a memória sofre a degradação e a desintegração, o que para ela se chama esquecimento. Como qualquer coisa informacional, ela é submetida à doença que ataca a informação: o boato, que confunde, encobre e entorpece. A diminuição da memória é ininterrupta. A própria memória tende a tornar-se lacunar, incorrecta, enganadora. Além disso(...) sofre profundamente o efeito das forças de recalcamento, que expulsam a recordação incómoda, e das forças de transfiguração e mitologização, que legendarizam a recordação.
A perda de memória torna-nos imbecis. A imbecilidade contemporânea, isto é, própria deste tempo fixo no presente, que esquece o passado e receia o futuro é o nosso esquecimento do que caracterizou o último século(...)
Devemos lutar contra a desmemorização e contra a memória imobilizada(...) Devemos regenerar constantemente a memória . A regeneração da memória parte justamente das necessidades vivas do presente."
Edgar Morin, in " As grandes questões do nosso Tempo", Editorial Notícias, Abril de 1999 ‧

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Alguns Pensamentos sobre Poesia


Alguns Pensamentos sobre Poesia

Ler um poema é ouvi-lo com os nossos olhos; ouvi-lo é vê-lo com os nossos ouvidos. 
Octavio Paz

Não há dinheiro na poesia, mas também não há poesia no dinheiro. 
Robert Graves

Se Galileu tivesse dito em verso que a Terra não se move, a Inquisição tê-lo-ia deixado em
paz.
Thomas Hardy

Nenhum poema durará muito tempo se for escrito por uma pessoa que só bebe água. 
Horácio

A poesia são pensamentos que se respiram e palavras que queimam. 
Thomas Gray

A poesia é um negócio de alegria e dor e deslumbramento, com uma pitada de dicionário.
Khalil Gibran

Um poema nunca fica acabado, apenas abandonado.
 Paul Valéry

A poesia é apenas o testemunho da vida. Se a nossa vida estiver a arder como deve, o poema
é apenas as cinzas.
Leonard Cohen

Se não consegues ser o poeta, sê o poema.
David Carradine

A pintura é poesia silenciosa e a poesia é pintura que fala.
Plutarco

A poesia é um eco a pedir a uma sombra para dançarem. 
Carl Sandburg

A poesia está mais próxima da verdade vital do que a História.
Platão

Um poeta consegue sobreviver a tudo, menos a uma gralha.
Oscar Wilde

O poeta é um mentiroso que diz sempre a verdade. 
Jean Cocteau

Quando o poder leva o homem à arrogância, a poesia lembra-lhe os seus limites.
Quando o poder estreita a área das preocupações do homem, a poesia lembra-lhe a riqueza
e diversidade da existência.
Quando o poder corrompe, a poesia limpa.
John F. Kennedy
Eugénio Lisboa, que selecionou e traduziu, em 29.09.2023.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Interlúdio musical

Casa onde nasceu Chopin, em Zolazowa ( Polónia), que se converteu em Museu.
 
A simplicidade é a conquista final. Depois de ter tocado uma quantidade de notas e mais notas, é a simplicidade que emerge como a recompensa coroada da arte.
Põe toda a tua alma nisso, toca da maneira como sentes a música!
                                   Frédéric Chopin

Chopin foi um virtuoso do piano. Punha-lhe a alma e fazia da simplicidade uma obra de arte. 
Escutá-lo é imergir nesse mundo raiado pelo encanto para um incondicional e deleitoso abandono. 
Nocturne, op 27 no 2, de Frédéric François Chopin, numa brilhante interpretação de Maria João Pires, no Jardin Musical. O estúdio Jardin Musical é um espaço de gravação de áudio e vídeo no coração de Bruxelas, dedicado a músicos e artistas.
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O adeus a Moçambique

África do Sul: o adeus a Moçambique
por Eugénio Lisboa
"Os últimos dois anos, em Moçambique, tinham sido anos de emoções intensas e contraditórias: exaltação, receio, decepção, medo, rejeição… Vivêramo-los com intensidade, mesmo os sentimentos negativos e as amargas desilusões. O mundo ruíra, mas, mesmo o desmoronar, fora intenso e ocupara espaço emotivo dentro de nós. A paz que agora desfrutávamos contrastava demasiado com esse viver intenso, tornando-se desmobilizadora. O descanso tornava-se uma espécie de vazio. O sossego enfim alcançado era uma espécie de morte. Começávamos a experimentar uma estranha saudade: a saudade do perigo e da ameaça… No “hotel President” foi só o tempo de tratarmos de algumas pequenas coisas (papéis, dinheiro) e logo partimos para umas necessitadas e merecidas férias na Europa. Ia ser uma viagem, desde a partida, já sem o sabor das anteriores; nessas, partia-se de casa (Lourenço Marques) e regressava-se a casa: aos familiares e amigos. Agora, partíamos de terra estranha e regressaríamos a terra estranha, sem ter a quem contar, com alegria, o que tínhamos vivido na mítica Europa. Toda a magia da viagem tinha desaparecido.(…)
O tempo foi passando mas, em Junho, começou novo sobressalto. Mais ou menos em meados deste mês, minha mãe telefonou-me de Lourenço Marques, dizendo-me que iam enviar o meu pai, de avião, para Joanesburgo. A arteriosclerose tomara conta dele, de forma profunda, tivera um AVC e encontrava-se suficientemente mal para ter que vir a Joanesburgo ser visto e tratado como devia ser (o estado em que se encontrava o “hospital Miguel Bombarda”, depois da precipitada, absurda e criminosa “nacionalização” dos serviços de saúde, não era compatível com o tratamento decente que o estado do meu pai requeria.(…)
O meu pai ficou ali cerca de uma semana, com momentos de lucidez e grandes períodos de confusão. Teve visitas de amigos e familiares, nessa altura a viverem em Joanesburgo, e, por momentos, animava-se a conversar e mesmo a galhofar. O Dr. Alberto Reis Costa, que acompanhava o caso, dizia-me que o coração se encontrava muito dilatado, mas que estava optimista quanto ao resultado. Meu pai falava em partir para Portugal, o que me parecia uma boa solução, embora quase inconcebível: o meu pai adoptara África muito mais profundamente do que eu, que lá nascera e a considerava minha, não pensando, nunca, em de lá sair… Depois de um domingo, com muitas visitas e bastante conversa bem disposta, já à noite, regressámos a casa, na hengilcon Avenue. Levávamos boas esperanças, depois da conversa com o Dr. Alberto Reis Costa. Deitámo-nos, descansados, embora, no fundo, sempre um pouco apreensivos. O que iria ser a vida dos meus pais, naquele Portugal desarrumado e inquieto, uma terra em que eles nunca tinham concebido viver? Onde? A reforma permitir-lhe-ia viver com um mínimo de conforto? Como poderia eu ajudá-los? Acabei por adormecer. Mas o sono não foi longo: de madrugada, acordou-me a campainha do telefone. Quase me parou o coração: àquela hora, numa terra em que eu conhecia tão pouca gente que me telefonasse, aquele toque de campainha era ominoso. Levantei o telefone, sentindo-me esvaziar por dentro: era alguém, do hospital, a anunciar o falecimento do meu pai. Ataque cardíaco. Porque o coração estava grande demais? Era, em qualquer dos casos, para mim, a confirmação de que prosseguia a débacle: primeiro, a desagregação do nosso mundo, em Lourenço Marques, agora, o desaparecimento daquela força da natureza, que fora o meu pai. Ele estivera sempre perto, prestável, mesmo quando eu estivera ausente, em Portugal, durante mais de sete anos. Era um apoio óbvio, forte, omnipresente. Podia-se contar com ele. Estava lá, sempre. Mas afinal, quebrara, partira, cedera, não aguentara mais. O meu pai, afinal, não era imortal! Enterrámo-lo em Joanesburgo – a ele, que vivera quase toda a sua vida em Moçambique, de norte a sul, de fora para dentro… Um enterro simples, acompanhado por quase ninguém – ele, que ajudara tanta gente, uns agora mortos, outros dispersos, outros a tratarem simplesmente da sua própria sobrevivência.Em Joanesburgo, improvavelmente, ficou. No estado em que estava tudo,em Moçambique, incluindo uma burocracia sufocante, incompetente e desconfiada, não quis sujeitar o caixão e o corpo do meu pai a humilhações desnecessárias
(…)Os dias que se seguiram ao falecimento de meu pai foram dias sombrios. Pouco depois, fui a Lourenço Marques, com o fim de dar apoio a minha mãe e ver como estavam as coisas com ela,(...)As ruas eram as mesmas, mas já não eram as mesmas: tudo me parecia parado, inanimado, caricatura triste do que tinha sido bulício, noutro tempo. O poeta, romancista e contista Ernest Dowson, representante de um decadentismo literário, ficou célebre sobretudo por um verso e a metade de outro. O verso que, melancolicamente, gostaria de aqui recordar é este: “They are not long the days of wine and roses” (o meio verso – “gone with the wind” – seria aproveitado para título do romance de Margaret Mitchell, que o cinema celebrizaria). O verso que citei exprime, de modo agudo e de grande beleza sonora, o que eu senti, nesses três ou quatro dias em que divaguei pelas ruas de Lourenço Marques: “Não duram muito os dias de vinho e rosas”. E o meio verso – “gone with the wind” – diz o resto: tudo tinha ido com o vento, após um breve, ainda que intenso fulgor. Tinha de facto sido tudo tão bom e tão breve (o título do livro de Dowson, a que o verso pertence, é: Vitae Summa Brevis). Os dias de convívio, os dias de anos e de festa, os dias de criação literária, de praia, de amor e de amizade, os dias de vinho e rosas – tudo tinha fugido tão depressa, levado por um vento desatento e indiferente! E ali estava aquela carapaça grotesca, feita de casas desabitadas, de cariz cinzento, mortiço, despido de vida… Revi alguns amigos, algumas das minhas alunas, a Maria de Lourdes Cortez, o Adrião Rodrigues. Mas já nada sabia ao mesmo, porque já nada era o mesmo. Se, ao menos, os desapossados de antes, estivessem agora a trincar o seu justo quinhão e a serem finalmente livres e felizes… Mas estaria a ser assim? Apertados naquele espartilho ideológico, de um hediondo puritanismo? Enfim, tudo flui, nada permanece, dissera-o já o velho heráclito. A minha própria vida passara já por muita mudança, alguma dela, profundamente dolorosa – como foi o caso da minha mudança, de Lourenço Marques para Lisboa, em 1947. Mas, agora, fora tudo muito brusco, muito brutal, muito desarrumador. E eu já não tinha dezassete anos, tinha feito, havia pouco, quarenta e seis e as “bases” não estavam intactas: o meu pai morrera (inconcebível) e a minha tia Maria (outro pilar) acusara, nos últimos tempos, fragilidades de saúde. Os “avisos” estavam por todo o lado. Para onde iria a minha mãe, com a pensão de viúva ainda a resgatar da infernal teia burocrática, que se assarapantava no Consulado português, em Maputo? O processo acabaria por se extraviar, entre o Maputo e Lisboa… E a tia Maria, nossa mãe sempre mais à mão, a envelhecer a olhos vistos… E o meu irmão? E as tias, sem vencimento, sem reforma e sem nada de material a que se agarrarem? (A casa do Alto Mahé, literalmente construída, pedra a pedra, degrau a degrau, pelo Tio Tropa, grande artista da madeira, que morreu pobre, fora, como tudo, “nacionalizada” – rima com “roubada” e rima com fundamento). Era o fim desordenado e feio de um mundo! De tudo isto ia congeminando, para arrumos e soluções que, não demoraria muito, haveria que tomar. E nós, numa África do Sul, no cú do mundo, e assente num vulcão, que não parava de emitir avisos… Estive, como disse, com algumas das minhas alunas de eleição, com a Maria de Lourdes, com a minha mãe e com a minha cidade, que deixara de ser minha! E regressei a Joanesburgo, desconsolado e com uma terrível sensação de perda irrecuperável.”
Eugénio Lisboa, in  Acta est fabula, Memórias IV Peregrinação: Joanesburgo. Paris. Estocolmo.Londres. (1976-1995), pp. 19,20,35-41, Editora Omnia Opera, Outubro de 2014

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Tudo isso excede este rigor

A antiga canção

A antiga canção,
Amor, renova agora.
Na noite, olhos fechados, tua voz
Dói-me no coração
Por tudo quanto chora.
Cantas ao pé de mim, e eu ‘stou a sós.


Não, a voz não é tua
Que se ergue e acorda em mim
Murmúrios de saudade e de inconstância,
O luar não vem da lua
Mas do meu ser afim
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.


Não, não é teu o canto
Que como um astro ao fundo
Da noite imensa do meu coração
Chama em vão, chama tanto...
Quem sou não sei... e o mundo?...
Renova, amor, a lembrada canção.


Cantas mais que por ti,
Tua voz é uma ponte
Por onde passa, inúmero, um segredo
Que nunca recebi —
Murmúrio do horizonte,
Água na noite, morte que vem cedo.


Assim, cantas sem que existas.
Ao fim do luar pressinto
Melhores sonhos que estes da ilusão.
            01.01.1920
Fernando Pessoa, in Poesia  1918-1930, 
Assírio e Alvim, [ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine], 2005.                                                                        
A criança que ri na rua

A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo —
Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo
            04.10.1934
Fernando Pessoa, in Poesia 1931-1935, Assírio e Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005.

A luz que vem das estrelas

A luz que vem das estrelas,
Diz — pertence-lhes a elas?
O aroma que vem da flor,
É seu? Dize, meu amor.


Problemas vastos, meu bem,
Cada cousa em si contém.
Pensando claro se vê
Que é pouco o que a mente lê
Em cada cousa da vida,
Pois que cada cousa, enfim,
É o ponto de partida
Da estrada que não tem fim.


Perante este sonho eterno
Falar em Deus, céu, inferno…


Ah! dá nojo ver o mundo
Pensar tão pouco profundo.
            15.11.1908
Fernando Pessoa, in Poesia 1902-1917, Assírio e Alvim, [ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine], 2005.