quarta-feira, 15 de julho de 2026

Escrever e ler são formas de fazer amor

Seduzindo para o prazer de ler
por Rubem Alves
"Nietzsche estava certo: “De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo – ler um livro é simplesmente algo depravado…” É o que sinto ao andar pelos maravilhosos caminhos da Fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas. Procuro esquecer-me de tudo o que li nos livros. É preciso que a cabeça esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam ver. Aprendi isso lendo Alberto Caeiro, especialista inigualável na difícil arte de ver. Dizia ele que “pensar é estar doente dos olhos…”. Mas meus esforços são frustrados. As coisas que vejo são como o beijo do príncipe: elas vão acordando os poemas que aprendi de cor e que agora estão adormecidos na minha memória. Assim, ao não pensar da visão une-se o não pensar da poesia. E penso que o meu mundo seria muito pobre se em mim não estivessem os livros que li e amei. Pois, se não sabe, somente as coisas amadas são guardadas na memória poética, lugar da beleza. “Aquilo que a memória amou fica eterno”, tal como o disse Adélia Prado, amiga querida.
Os livros que amo não me deixam. Caminham comigo. Há os livros que moram na cabeça e vão se desgastando com o tempo. Esses, eu deixo em casa. Mas há os livros que moram no corpo. Esses são eternamente jovens. Como no amor, uma vez não chega. De novo, de novo, de novo…
Um amigo me telefonou. Tinha uma casa em Cabo Frio. Convidou-me. Gostei. Mas meu sorriso entortou quando ele disse: “Vão também cinco adolescentes…” 
Adolescentes podem ser uma alegria. Mas podem ser também uma perturbação para o espírito. Assim, resolvi tomar minhas providências. Comprei uma arma de amansar adolescentes. Um livro. Uma versão condensada da Odisseia, as fantásticas viagens de Ulisses de volta a casa, por mares traiçoeiros…Primeiro dia: praia; almoço; sono. Lá pelas cinco, os dorminhocos acordaram, sem ter o que fazer. E, antes que tivessem ideias próprias, eu tomei a iniciativa. Com voz autoritária dirigi-me a eles, ainda sob o efeito do torpor: “Ei, vocês… Venham cá na sala. Quero lhes mostrar uma coisa…” Não consultei as bases. Teria sido terrível. Uma decisão democrática das bases optaria por ligar a televisão. Claro. Como poderiam decidir por uma coisa que ignoravam? Peguei o livro e comecei a leitura. Ao espanto inicial seguiu-se silêncio e atenção. Vi, pelos seus olhos, que já estavam sob o domínio do encantamento. Daí para a frente foi uma coisa só. Não me deixavam. Por onde quer que eu fosse, lá vinham eles com a Odisseia na mão, pedindo que eu lesse mais. Nem na praia me deram descanso..
Essa experiência me fez pensar que deve haver algo errado na afirmação que sempre se repete de que os adolescentes não gostam da leitura. Sei que, como regra, não gostam de ler. O que não é a mesma coisa que não gostar da leitura. Lembro-me da escola primária que frequentei. Havia uma aula de leitura. Era a aula que mais amávamos. A professora lia para que nós ouvíssemos. Leu todo o Monteiro Lobato. E leu aqueles livros que se liam naqueles tempos: Heidi, Pollyanna, A ilha do tesouro. Quando a aula terminava, era a tristeza. Mas o bom mesmo é que não havia provas ou avaliações. Era prazer puro. E estava certo. Porque esse é o objetivo da literatura: prazer. O que os exames vestibulares tentam fazer é transformar a literatura em informações que podem ser armazenadas na cabeça. Mas o lugar da literatura não é a cabeça: é o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformações alquímicas que deseja realizar. Se não concorda, que leia Guimarães Rosa que dizia que literatura é feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano.
Quando minha filha estava sendo introduzida na literatura, o professor lhe deu como dever de casa ler e fichar um livro chatíssimo. Sofrimento dos adolescentes, sofrimento para os pais. A pura visão do livro provocava uma preguiça imensa, aquela preguiça que Barthes declarou ser essencial à experiência escolar. Escrevi carta delicada ao professor lembrando-lhe que Borges havia declarado que não havia razão para se ler um livro que não dá prazer quando há milhares de livros que dão prazer. Sugeri-lhe começar por algo mais próximo da condição emotiva dos jovens. Ele me respondeu com o discurso de esquerda, que sempre teve medo do prazer: “O meu objetivo é produzir a consciência crítica…” Quando eu li isso, percebi que não havia esperança. O professor não sabia o essencial. Não sabia que literatura não é para produzir consciência crítica.
O escritor não escreve com intenções didático-pedagógicas. Ele escreve para produzir prazer. Para fazer amor. Escrever e ler são formas de fazer amor. É por isso que os amores pobres em literatura ou são de vida curta, ou são de vida longa e tediosa… Parodiando as palavras de Jesus, “nem só de beijos e transas viverá o amor, mas de toda palavra que sai das mãos dos escritores…”.
Rubem Alves, in  A educação dos sentidos, Paidós, 2025


SOBRE O LIVROrevistaprosaversoearte.com - 'Seduzindo para o prazer de ler', por Rubem Alves

POESIA, MÚSICA, PINTURA, ESCULTURA, DANÇA, TEATRO, CULINÁRIA: SÃO TODAS BRINCADEIRAS QUE INVENTAMOS PARA QUE O CORPO ENCONTRE A FELICIDADE.
"Em A educação dos sentidos , Rubem Alves  convoca-nos a redescobrir a educação como forma de arte, como um caminho sensível e poético para aprender a ver, ouvir, sentir e, acima de tudo, encantar-se com o mundo. Em cada crónica somos lembrados que ensinar não é apenas transmitir conhecimento, mas também abrir portas para o prazer da descoberta, tornando os sentidos instrumentos de amor e admiração pela vida. Com delicadeza e perspicácia, o autor desafia os modelos rígidos de ensino e propõe um olhar mais livre e amplo, em que a educação não se limita a fórmulas e regras, mas se expande em imaginação, brincadeira e beleza.
Inspirado nas próprias memórias, em reflexões filosóficas e referências literárias, Rubem Alves transforma o ensino numa experiência sensorial e afetiva. Nas páginas a seguir, seremos levados a questionar se educar é formar especialistas ou ensinar a olhar; entre ciência e poesia, lógica e sonho, observaremos uma visão inspiradora ser construída, na qual a busca pelo saber se confunde com o desejo de viver intensamente.
Mais do que um livro sobre Educação – assim, com inicial maiúscula –, esta obra é um presente para quem deseja resgatar a alegria do aprendizado e voltar a ver o mundo com olhos atentos e curiosos.

FICHA TÉCNICA
Título: A educação dos sentidos
Páginas: 144
Formato: 16 x 1 x 23 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 28/04/2025 (3ª edição)
ISBN: 978-8542233292
Selo: Paidós

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Semeador

Manoel de Andrade

Manoel de Andrade tem uma variada obra publicada. É um dos mais  notáveis poetas do Brasil . Este blog orgulha-se de o revisitar, com deliciosa frequência.  
Lançou no nono dia do passado mês de Junho,   um fecundo livro " Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre  Cristianismo e Espiritismo ". Neste último livro, este intelectual brasileiro transmite-nos, através de doutos comentários, os longos e profundos estudos que tem realizado sobre o Velho e o Novo Testamento.  "Muitas histórias sobre a vida de Jesus , de leitura e releitura  das obras básicas e complementares da Doutrina Espírita e de muitos anos  na busca da beleza e do conhecimento na História, na Filosofia, na Ciência , nas Religiões, na Arte e na Literatura."
É dessa obra que se extraiu o apontamento que se segue:

MÓDULO III - ENSINOS POR PARÁBOLA 
1                                                                  
O SEMEADOR
por Manoel de Andrade
     "A Parábola do Semeador é uma das mais preciosas pérolas do tesouro do Evangelho. Essa singela narrativa de Jesus, pela sua pedagógica importância, mereceu seu registro nos evangelhos sinóticos de Marcos, Mateus e Lucas e até no evangelho apócrifo de Tomé. É uma bela alegoria carregada de poético lirismo, metáforas de conteúdo moral e de profundos ensinamentos para a vida, dando-nos a entender que, espiritualmente, a colheita de hoje é o fruto do que plantamos no passado e, pelo que agora estamos semeando, podemos prever o que colheremos no futuro.
     A linguagem simbólica das sementes é uma das mais belas formas de se expressar a fé no futuro, nas expectativas do porvir, na promessa de flores e de frutos, porque pela mágica germinação de uma semente pode brotar um jardim, um pomar, um bosque ou uma floresta inteira, assim como alguns punhados de sementes podem encher de espigas um campo de trigo.
     Nos dias difíceis em que vivemos, ameaçados pelas ervas daninhas espalhadas pelos malefícios humanos, as sementes do amanhã, que a ciência planta em cada um de nós e em toda a humanidade, é a melhor promessa que podemos receber do real significado da vida. Além disso, a promissão de um mundo regenerado, de um homem novo, transformado moralmente, é o mais belo grão de esperança que poderemos semear em nossas almas.
     Há muitos anos, vivendo no exílio na América Latina e pensando no significado ideal da liberdade, escrevi um longo poema chamado O Sonho do Semeador, e hoje, pensando no mundo de regeneração que todos ansiamos, permitam-me compartilhar aqui, nos seus versos finais, uma parte daquele meu sonho de poeta:

Venham... esse é o tempo das sementes...
vamos cantar os grãos e as espigas
as flores e os frutos.
Vamos abrir com lirismo nossas almas
e lavrar a terra com as promessas da esperança.
Vamos declamar com coragem os nossos sonhos
e acreditar numa humanidade feita de irmãos e companheiros
Não importa se tivermos que morrer às vésperas desse alvorecer
mas o nosso canto há de sobreviver na alma
e nos lábios do homem novo.
Venham todos
vamos partir daqui,
desta canção.
Ela é apenas um primeiro passo...
oh... venham por favor...
é preciso que cada um faça sua parte
porque é imprescindível acreditar no amanhã.
Oh! eu sei..., eu sei...,
é tão pouco...
é quase nada o que pode a poesia no mundo dos homens,
mas é ela que fermenta o sonho
que contém a chave do coração e o segredo da beleza.
Grande e humilde
a poesia é tão misteriosa como uma semente...
e a semente é um sonho alucinante
porque promete a flor,
o fruto, a sombra
e a floresta deslumbrante."
Manoel de Andrade , in Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre  Cristianismo e Espiritismo, Centro Espírita Luz da Caridade, Curitiba, Brasil,  pp.175-176

domingo, 12 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música



Sem a música, a vida seria um erro.
    Friedrich Nietzsche

Para reiterar  o que  Nietzshe afirma, apresentámos, com ênfase impune, a selecção musical deste domingo. 
 
De Rachmaninoff Piano Concerto No. 2.,Khatia Buniatishvili interpreta  Adagio Sostenuto
"Em 1975, Eric Carmen ouviu esta melodia e transformou-a numa das canções pop mais famosas de sempre ("All by Myself"). Ele tinha razão. O Adagio sostenuto do Concerto para Piano n.º 2 , de Rachmaninoff contém uma das mais belas e comoventes melodias da história da música ocidental, uma linha tão completa, tão perfeitamente formada, que estava praticamente à espera de ser roubada. Mas antes da canção pop, antes das bandas sonoras dos filmes, antes de todos os clichés românticos que se apropriaram dela — havia isto. O original. A fonte. E, nesta interpretação de Khatia Buniatishvili com a Filarmónica do Teatro Regio Torino, ouve-se exactamente por que razão é que alguém não conseguiu deixá-la em paz. O andamento começa com um diálogo entre clarinete e flauta que soa como uma conversa entre duas pessoas que ainda não sabem que estão apaixonadas. Depois entra o piano e tudo muda. Buniatishvili interpreta o Adagio com uma liberdade improvisatória que faz com que a melodia soe como uma descoberta recente, em vez de uma repetição infinita. 
Este é o Adagio de Rachmaninoff  tal como deve ser sentido; não como um clássico, mas como um segredo."
.  
Céline Dion interpreta a canção de Eric Carmen All By Myself (Official Remastered HD Video).

sábado, 11 de julho de 2026

Sobre o beijo


O beijo na boca tem muito mais milhões de anos do que pensávamos
por Sergio Parra
"Uma nova análise sugere que o beijo na boca, longe de ser uma invenção cultural moderna, pode ter surgido há mais de 21 milhões de anos entre os primeiros ancestrais dos grandes símios.
De acordo com um estudo de 2007, um único beijo apaixonado promove a transferência de até mil milhões de bactérias de uma boca para outra, juntamente com cerca de 0,7 miligramas de proteína, 0,45 miligramas de sal, 0,7 microgramas de gordura e 0,2 microgramas de "compostos orgânicos variados", ou seja, restos de comida. Mas porque existe o beijo? Não é uma fonte de infecções?
Existem gestos humanos que parecem tão profundamente pessoais e culturais que é fácil esquecer a sua dimensão evolutiva. De acordo com um novo estudo publicado na revista Evolution and Human Behavior, o beijo na boca não é uma invenção recente nem exclusivamente humana, mas um comportamento com profundas raízes biológicas que pode remontar à linhagem comum dos grandes símios, há entre 21,5 e 16,9 milhões de anos.
Esta descoberta, que desafia a ideia de que o beijo evoluiu como um gesto exclusivamente cultural, baseia-se numa extensa análise filogenética de dados observacionais sobre o comportamento social em primatas. Investigadores do Departamento de Biologia da Universidade de Oxford, liderados pela bióloga evolutiva Matilda Brindle, reuniram evidências de interacções orais não agressivas em chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas, concluindo que esse tipo de contacto já estava presente nos ancestrais comuns a essas espécies.

O que é um beijo?
O beijo é definido nesta investigação como um acto não violento de contacto entre bocas, com movimento, mas sem transferência de alimento. Esta definição evita abordagens antropocêntricas e permite identificar comportamentos semelhantes em diferentes espécies. O problema é que este tipo de interacções não deixa vestígios fósseis. Por isso, a equipa optou por uma reconstrução filogenética, utilizando modelos bayesianos e milhões de simulações para rastrear probabilidades evolutivas.
Os resultados desta abordagem não só situam a origem do beijo muito antes do que se pensava, como também apoiam a hipótese de que os neandertais e outros hominídeos extintos podiam praticá-lo e até partilhá-lo com o Homo sapiens durante os períodos de hibridização entre espécies.
Apesar da surpreendente descoberta, o estudo também deixa muitas questões em aberto. Entre elas, a mais intrigante: porque nos beijamos? Embora o beijo possa fortalecer os laços sociais, servir como prelúdio sexual ou ajudar a avaliar possíveis parceiros através de sinais químicos, continua a ser um comportamento que implica riscos, como a transmissão de doenças. Em termos evolutivos, não está claro se os seus benefícios superam esses custos.

Uma parte cultural
Nesta linha, os investigadores apontam que o comportamento do beijo não é universal nem entre os primatas nem entre os humanos. Estudos antropológicos indicam que apenas 46% das culturas humanas documentadas praticam o beijo romântico. Essa variabilidade sugere que, embora possa haver uma base biológica para o beijo, a sua expressão depende em grande parte do contexto social e cultural.
Além disso, as informações sobre esses comportamentos em animais selvagens ainda são limitadas. Grande parte dos dados provém de observações em zoológicos e santuários, onde o ambiente controlado pode influenciar os comportamentos. Por isso, os investigadores sublinham a necessidade de mais estudos em populações selvagens e em espécies fora do grupo dos grandes símios, para compreender melhor como o beijo pode ter surgido e se transformado ao longo de milhões de anos.” in Revista National Geographic

Entretanto , fomos para além destas formulações. Demos voz à   música, onde tudo é mais simples. Harmonioso. Nela, o beijo  é mote de muitas canções. Encantámo-nos e  seleccionámos   algumas, cantadas em português. 
 
 Só um beijo, por Luísa Sobral com Salvador Sobral -  | Eléctrico | Antena 3
   
  Solta-se o beijo, por Ala dos Namorados & Sara Tavares & Nuno Guerreiro. 
   
Beijo de Saudade, por  Mariza e Tito Paris.
Beijo, por  Pedro Abrunhosa  e Os Bandemónio.
Primeiro beijo, por Rui Veloso .

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Os livros de Julho da Guerra & Paz e da Gradiva

"Esta é a newsletter que mando a quem gosto e a quem faz a Guerra e Paz e a Gradiva, autores, tradutores, revisores. Mas é sobretudo a vontade de receber abraços amigos de todos os que gostam de livros."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra e Paz e da Gradiva.

Os meus livros Guerra e Paz


"Será Julho um mês orgástico? Dir-me-ão que lá venho eu com as obscenidades do costume! Pois bem, deixo só um aviso: corre um abaixo-assinado na selva para cancelar o primeiro dos meus livros de Julho. 30 Milhões de Orgasmos, A Vida Sexual dos Animais, o saboroso e voluptuoso texto de Minh Tran Huy, com imagens deliciosas de Jul, actual ilustrador de Lucky Luke, corre o véu da sexualidade animal, do pénis perfurador do percevejo ao clitóris-falo da hiena, passando pelo comportamento sexual hippie do bonobo, esse primata nosso primo. O livrinho, a cores, é um deleite visual, uma tela aberta ao espanto e ao permanente sorriso. Genial.
Cleópatra, de Christian-Georges Schwentzel, é mais do que uma biografia dessa última rainha do Egipto, que subiu ao trono com 18 anos. Para quem pensa que já sabia tudo, oh, que audácias e que argúcia estratégica nos revelam as últimas descobertas arqueológicas! Será este livro, da colecção A Minha Estante, uma adaga espetada no coração do mito-Cleópatra? Lê-se depressa: duas noites com Cleópatra. Quem resiste?
Pequena História da Matéria e do Universo é um livro do maior dos astrofísicos, Hubert Reeves, com oito amigos: os amigos são Étienne Klein, Nicholas Prantzos e mais seis franceses, todos astrofísicos também. São nove dos humanos que no mundo mais sabem sobre a física de partículas, sobre a matéria escura e sobre física quântica e escreveram juntos um livrinho: 106 páginas luminosas sobre o Universo, a sua história e os seus componentes. Da colecção A Minha Estante, tudo explicado com a simplicidade de quem sabe e quer que mesmo uma criança de cinco anos fique também a saber.
Às vezes esquecemo-nos de quem somos e do bem que tantos pensaram e fizeram para chegarmos aqui. Carta de Amor de Um Imigrante ao Ocidente lembra-nos com ternura o que andamos todos os dias a esquecer. Konstantin Kisin, o autor, vem de fora, cresceu nas brumas de uma União Soviética sinistra, sem conforto, direitos ou liberdade. Comeu o pão que o sacana do diabo amassou. Vê neste nosso Ocidente a doce terra de leite e mel que os nossos olhos, tapados por uma certa abundância, não querem, de tanta jeremiada e cepticismo, aceitar que é o «melhor». Este livro vem dizer-nos ao ouvido: «Acreditem em mim – o Ocidente é o melhor!» Às vezes, é preciso ouvir quem as amargou. Para ler em Julho, mês de tanta luz que só pode ser, também, mês de amor.

A euforia e os dark sports

O Jogador Errado, C. R. Jane: O futebol americano não é bem o nosso futebol. Neste romance, mordem-se ombros e há pernas que se abrem. Não necessariamente em campo. As leitoras vão descobrir que o «dark sports romance» é um género literário bastante sacudido, valha-me Deus. É o livro de Verão da euforia, a chancela que soma bestsellers.

Os meus livros Gradiva

Na Gradiva, começo Julho pelo magnífico exercício de nostalgia e por esse pequenino ressentimento que sucede à agonia do amor longamente silenciado, a que o Nobel da Literatura Kazuo Ishiguro chamou Os Despojos do Dia. E será que, hoje, alguém consegue ler este romance, também vencedor do Booker Prize, sem sentir que se lhe vêm sentar ao colo Anthony Hopkins e Emma Thompson? Como é que se chega – como chegou Ishiguro – ao prodígio de uma escrita embalada a dúbia dignidade, desconsolo e dorida delicadeza? (e peço desculpa pela involuntária aliteração…)
Nunca nos deixaremos de interrogar sobre a arte, sobre a sua ancilar funcionalidade ou sobre a sua sublime inutilidade: é o que faz Lev Tolstoi em O Que É a Arte?, mas é também o que faz Paula Cristina Cunha em Entre a Arte e o Algoritmo - Criadores portugueses confrontam a Inteligência Artificial, à conversa com Gonçalo M. Tavares, Pedro Abrunhosa, Sam the Kid, Helena Amaral, Rita Redshoes e José Jorge Letria entre outros. Pode a máquina ter os devaneios de imaginação e sensibilidade que julgávamos um exclusivo desses bípedes que se passeiam pelo planeta como humanos. A Sociedade Portuguesa de Autores é nosso co-editor e merece a nossa vénia.
Outra arte foi a que o Mestre Wei Liao descreveu num dos grandes clássicos militares chineses, A Arte Militar, obra que roça ombros com a célebre Arte da Guerra, de Sun Tzu. A Arte Militar, de Wei Liao é o livro que o nosso primeiro-ministro bem poderia ler, tão actual é o seu sentido de organização. A versão que publico, feita a partir do inglês, francês, espanhol e italiano, bem como o respectivo enquadramento e notas, vem assinada por um tal Manuel S. Fonseca. É provável que seja eu próprio.
Qual o papel da irreverência na ciência? Nada como deixar falar o Prémio Nobel da Medicina e da Fisiologia, James Watson, no seu A Dupla Hélice, um clássico da literatura científica e da colecção Ciência Aberta. Watson tinha 24 anos quando descobriu, com outros investigadores, a estrutura em dupla hélice do ADN, a molécula que contem o código da hereditariedade. Eis o que permitiu à ciência conhecer a transmissão genética e a forma como, de geração em geração, se organiza a vida, esta nossa vida às vezes infeliz, mas tantas vezes feliz.
E é sobre a vida, a vida no cosmos, que versa o novíssimo livro da Ciência Aberta. Com prefácio de Nuno Crato, é da autoria do professor Luís M. Aires, formado em biologia, física e química. Além da Terra, a astrobiologia e a busca de um sentido cósmico para a vida interroga a possibilidade da vida «lá para cima», fora do nosso planeta. Faz perguntas simples: o que é a vida? Como surge? Como transforma mundos? As respostas fazem-nos olhar de outra maneira para o cintilante universo em que, erectos, caminhamos.

São os meus livros de Julho, prendas que para mim mesmo reservei – perto do fim do mês a Marilyn (a Monroe) talvez me cante «happy birthday» – e que partilho com os leitores da Guerra e Paz e da Gradiva."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra e Paz e da Gradiva.

OBLÍVIO

 OBLÍVIO

O esquecimento é o que nos espera.

Haverá mal em sermos esquecidos?

Termos sido, alguma coisa altera

a tantos destinos não cumpridos?


Há tantos que ficaram por lembrar!

Tantos que não chegaram a cumprir-se!

Não há futuro que dê para guardar

a memória, mesmo de grão-vizir.


O esquecido não sabe que é esquecido,

não lhe doendo, pois, o esquecimento:

tanto lhe faz ter ou não ter nascido,


porque o não ser não causa tormento.

Esquecer é apagar definitivamente

o que na vida houve de indigente.

Eugénio Lisboa, 29.10.2023

terça-feira, 7 de julho de 2026

Lisboa no dia de Todos os Santos de 1755

O dia de Todos os Santos de 1755 produziu em Lisboa um grande terramoto que foi seguido, uma hora depois, por um maremoto gigantesco e um conjunto de incêndios que acabaram por destruir a cidade e provocar comoção por toda a Europa. Nos lamentos posteriores a esta destruição, os encantos e riquezas de Lisboa eram colocados ao mesmo nível de Paris ou Londres.
José Antonio González Alcantud , Abril , 2020
 
Assim era LISBOA em 1700: Antes do terramoto. Mudou para sempre (reconstrução con IA), por Max Reconstruye La Historia.
Assim era Lisboa no século XVIII: uma das cidades mais ricas e influentes da Europa, aberta ao Atlântico e ligada a rotas comerciais que chegavam até à Ásia e África. Nesta visita guiada, reconstruímos o seu porto, os seus bairros, as suas igrejas, o seu quotidiano e o enorme poder que detinha antes do grande desastre. Mas este vídeo mostra também o ponto de viragem que mudou a sua história para sempre: o terramoto de Lisboa de 1755, o tsunami subsequente e o incêndio que devastou a cidade. Verá como era Lisboa antes da sua queda, o que realmente perdeu e como o Marquês de Pombal liderou uma reconstrução que a transformou numa nova cidade. Lisboa antes do sismo: Palácio da Ribeira, Praça do Comércio, Alfama, Rossio, Belém , Baixa, o  comércio global e a vida quotidiana. O terramoto de 1755 e a reconstrução pombalina.

domingo, 5 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música

Canção para os homens sem face

E canto as crianças que brincam nos parques
      e pulam corda nas calçadas
e os que vão ao palco representar o drama dos outros homens.
Eu canto para todos os homens...
meus irmãos em todas as raças, nacionalidades e crenças,

canto além de todas as fronteiras
porque sob a bandeira da paz eu canto;
e pela fé que me ilumina
e por essa canção escrita no meu peito,
eu canto a humanidade inteira.
Manoel de Andrade, Poemas para a Liberdade

Neste nosso mundo, o único que nos acolhe, há poetas que cantam a circunstância  de cada homem. Não escolhem , não se restringem. É um  canto global. E, ao cantar, geram um apelo universal , a misericórdia de  todos para  qualquer um. 
Há, também,  as vozes que se agrupam para dar forma a muitos apelos que podem dar ao mundo esse outro rosto, essa  nova face.
A todos eles escutamos e , com infindo prazer, os divulgamos.

EL CICLO DE LA VIDA. El Rey León, de  Elton John - Tim Rice , pelas Voces para la Paz (Músicos Solidarios). Maestro: Andrés Salado.  Solistas: María Ayo y Ryan Borges. "Voces para la Paz" , Concerto 2024.
Graças aos concertos organizados por “Voces para la Paz” desde 1998,  construíram-se estradas, pontes, escolas, bibliotecas, clínicas de saúde, orfanatos, poços de água, sistemas de irrigação e muitos mais foram construídos em países de África, Ásia e América Latina. “Vozes pela Paz”: O Poder da Música para um Mundo Mais Justo. 
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ALEGRÍA. Cirque du Soleil. Circo del Sol, de  René Dupéré. Arranjos de  Pedro Vilarroig,   pelas Voces para la Paz (Músicos Solidarios). Maestro: Oscar Navarro. Concerto 2024.
   
E a belíssima canção Miss Sarajevo (Live) , nas vozes de  Luciano Pavarotti, Brian Eno, Bono, The Edge, acompanhados pela  Orchestra Filarmonica Di Torino, sob a direcção do Maestro  Michael Kamen. 
Álbum :Pavarotti & Friends Together ForThe Children Of Bosnia.