sábado, 31 de outubro de 2026

Bonito luar…



Era uma noite de luar
por Rubem Braga
"O táxi ia rodando devagar pela rua mal iluminada, para que eu pudesse ir vendo os números das casas. Quando vi o 108, mandei parar. Tinha de ir ao 250 e perguntar por dona Judite. Era quase certo que não me seguiam; de qualquer modo não convinha parar o táxi diante da casa para não chamar a atenção. Tive, além disto, o cuidado de deixar o carro se afastar sem que o chofer pudesse ver a casa em que eu entrava. Naquele tempo vivíamos cercados de precauções. O menor descuido era a prisão – e as notícias que vinham lá de dentro eram de fazer tremer.
Andei pela calçada. Era uma rua sossegada, em um bairro onde antigamente viviam famílias ricas. Agora os ricos moravam em outras partes da cidade, e aqueles casarões envelhecidos, com seus parques de grandes árvores, pareciam dormir. Uma vez ou outra passava um auto; depois o luar aumentava o sossego da rua.
Apertei a campainha. Uma mulher gorda me disse que fosse pelo jardim, ao lado da casa; era uma porta que tinha uma escadinha nos fundos.Ao bater, ouvi um rumor lá dentro. Depois senti que alguém me espiava pela veneziana, sem dizer nada. Bati outra vez. Ouvi ainda uns rumores dentro do quarto e, por fim, uma voz nervosa:
– Quem é?
Marina não me havia reconhecido e com certeza estava inquieta. Tranquilizei-a:
– Sou eu, Domingos.
A porta abriu-se.
Tinha visto Marina poucas vezes, sempre em companhia do marido, na rua. Nunca havíamos trocado mais de duas ou três palavras. Não se podia dizer que fosse bonita, mas era agradável com seu ar um pouco seco, um pouco nervoso, e seu jeito de vestir-se com severidade. Agora estava diante de mim e não pude deixar de sorrir quando a vi metida em um macacão.
– Trago notícias do Alberto.
Dei o recado que um político solto no dia anterior havia trazido. Alberto mandava dizer que estava bem, que há muito tempo já não o interrogavam, e que não tinha nenhuma esperança de ser libertado tão cedo. Era bom que ela tentasse sair do Rio, onde podia ser presa a qualquer momento, e fosse para o Nordeste, onde morava sua família. A viagem de avião ou por mar seria impossível. O melhor era ir de trem até Belo Horizonte e seguir para Alagoas pelo São Francisco. Havia uma pessoa que podia arranjar uma parte do dinheiro, e um endereço em Belo Horizonte onde talvez conseguisse mais. Era preciso abrir o caixote de livros. e queimar um papel que estava dentro das Poesias de Olavo Bilac. Dei-lhe um número para onde devia telefonar.
– Acha que eles vão deixar o Alberto preso muito tempo?
Dei minha opinião com sinceridade. Alberto estava comprometido. Quando o pegou, a polícia não sabia grande coisa dele, mas lá dentro sua situação tinha piorado muito. Parece que tinham aparecido umas histórias velhas, de São Paulo…
– E você, como vai?
Ela fez um gesto desanimado. Podia continuar naquele quarto com direito a comida, mais uns oito dias. Já não tinha dinheiro nem para cigarros. Ofereci-lhe dos meus:
– Não sabia que você fumava.
Não fumava antes. Mas ali, obrigada a ficar dentro do quarto dias e dias, semanas e semanas começou a fumar. Há mais de três meses que não saía. Andava apenas pelo velho e pequeno parque, nos fundos da casa, quando não chovia. Havia lido todos os livros e estava cansada de ler.
– Isso aqui é pior do que prisão. Às vezes tenho vontade de sair, tomar um ônibus, andar por aí, ir a uma praia…
Arriscara-se a ir a um cinema do bairro, e quase morrera de medo. Na volta, um homem a seguiu. Teve certeza de que ia ser presa; quando estava perto de casa, o homem, mal-encarado, apertou o passo e a deteve, tocando-lhe o braço com a mão. Parou, trêmula, e logo saiu correndo e entrou em casa; jogou-se na cama chorando, num desabafo nervoso. O homem lhe havia feito uma proposta amorosa…
Contava essas coisas sentada na cama, um pouco excitada; e estava engraçada assim, metida no macacão do marido, com uma régua na mão, contando o seu susto. Rimos, mas logo ela se pôs a andar no quarto para um lado e outro, batendo com a régua na coxa.
– Que é que você acha que devo fazer?
Acendi um cigarro. Fazia calor. Na parede havia um quadro sem interesse, de um pintor amigo do casal. Ela pensava em procurar alguém que fosse amigo do governo. Talvez o doutor Antunes conseguisse…
– Também está preso.
– O doutor Antunes? Não é possível!
Vi que estava mal informada do que acontecia, e lhe dei várias notícias. Nenhuma era alegre. Sentou-se novamente na cama, batendo com a régua no joelho. Ficamos em silêncio. Achei que devia me despedir, mas ela me deteve:
– Espere, quero saber de uma coisa…
Perguntou-me pelos Amaral, se era verdade que a mulher tinha se suicidado. Era boato, ou pelo menos, parecia. Havia quem dissesse que o casal estava no Paraguai; outros diziam que ele estava preso no norte do Paraná, em Londrina…
Surgiram outros nomes. Eu quase não podia dar informações sobre ninguém, e muitos eu não conhecia nem de nome nem de vista. Voltamos a falar de Alberto. Ela havia perdido o nervosismo; falava agora no seu tom habitual, um pouco seco, um pouco distante. Falava do marido e de si mesma como se estivesse examinando um problema alheio, com frieza e lógica. Tinha na gaveta um velho Guia Levi, e consultou preços de passagens e horários. Certamente deveria tomar o trem em alguma estação do estado do Rio, se resolvesse ir para o Norte.
– Vai?
– Isso é que estou pensando. Em Alagoas posso ficar na fazenda de minha tia, perto de São Miguel. Ali não haveria nenhum perigo, mas…
Voltou a perguntar se não haveria mesmo nenhum jeito de fazer alguma coisa pela libertação de Alberto. Talvez aquele ex-deputado, amigo do Amaral, pudesse…
Balancei a cabeça. A polícia não estava soltando ninguém. Prendera gente demais, inocentes e culpados, e enquanto não interrogava todo mundo, não apurava as coisas, não queria soltar ninguém. Uma ou outra pessoa conseguia sair quando tinha proteção muito forte e estava completamente inocente. Alberto já fora preso antes, era um elemento marcado. A única esperança estava na mudança que diziam que ia haver no Ministério. Mas estavam sempre dizendo essas coisas, e ninguém saía do governo. Dava a impressão de que ia ser assim eternamente…
– Que coisa!
Voltou a falar de Alberto, contou detalhes de sua prisão. Ela havia escapado por milagre. Mas estava ali, sozinha, sem poder sair de casa… Começou quase a lamentar-se e subitamente pareceu de novo tranquila. Os cabelos despenteados e o macacão lhe davam um ar ao mesmo tempo gracioso e cordial de rapazola. Devia ter uns trinta anos. Agora sua voz parecia ter cinquenta:
– A situação é esta: se não fosse por causa do Alberto eu poderia ter fugido para o Sul. Mas perdi a oportunidade. Mais tarde, na hora de alugar este quarto, estive quase resolvendo outra vez fugir. Mas queria esperar Alberto… Está visto que não posso ficar esperando a vida inteira. O senhor acha que há possibilidade…
Era engraçado que me chamasse de “senhor”, quando começara me tratando de “você”. Mas logo, na frase seguinte, com uma pequena hesitação na voz, voltou a me chamar de “você”.
Levantei-me e procurei com a vista um cinzeiro para pôr o cigarro. Não havia. Abri uma banda da janela para jogá-lo no jardim.
– Posso deixar a janela aberta? Está quente…
Sentada na cama, ela ficou em silêncio. Resolvi ir-me embora, e fiquei pensando se devia lhe dar o pouco dinheiro que tinha no bolso. Eu voltaria de ônibus. Tirei a nota do bolso. Ela aceitou secamente e me deu um aperto de mão rápido.
Sua voz era tranquila, quase fria.
– Obrigada. Se tiver alguma novidade estes dias, apareça outra vez. Meu nome aqui é Judite de Sousa.
– Sei. Tem telefone?
– Não. Ah, um momento! Pode pôr uma carta no correio para mim?
Tirou uma carta da gaveta, meteu-a em um envelope e começou a escrever o endereço. Junto à janela, lá fora, eu via as grandes árvores gordas, beijadas pelo luar, enquanto ouvia o ranger da pena no papel.
Comentei ao acaso:
– Bonito luar…
Ela acabara de escrever o endereço e respondeu, dando um olhar à janela:
– É.
Foi um “é” tão seco que me arrependi do que havia dito, como se tivesse sido alguma coisa inconveniente. Depois de fechar o envelope ela veio para junto da janela onde eu estava. Para ver melhor lá fora, abri o outro lado da janela e a lua apareceu, redonda, branca, entre as copas das árvores. Foi apenas um instante. Ela fechou os dois lados da janela com brutalidade:
– Não faça isso! Estúpido! Não vê que eu não posso com isso? Que estou sozinha desde que Alberto foi preso?
Ficou um momento diante de mim, pálida, os lábios trêmulos; eu não sabia o que dizer.
– Vá-se embora!
Lançou-se na cama, escondeu a cabeça nas mãos e começou a chorar. Os soluços agitavam seu corpo magro e nervoso sob o macacão azul."
Rubem Braga, in Melhores contos, Global Editora, 2013.

SOBRE O LIVRO
Rubem Braga, o sabiá da crónica, o “poeta tão poeta que não precisa escrever versos” (Sérgio Milliet), “o primeiro a elevar a crônica ao nível da mais alta categoria literária” (Antonio Candido e José Aderaldo Castello), o lírico envolvente “cuja melhor performance ocorre sempre por escassez de assunto” (Manuel Bandeira), “o mestre no descobrir o lado significativo dos acontecimentos mais triviais” (José Paulo Paes), gostava também de surpreender os seus leitores com pequenos contos, poéticos, de alta categoria literária, líricos, quase sem assunto ou narrando acontecimentos triviais.
Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, em 1913, Rubem Braga iniciou as suas atividades de cronista em 1932, no Diário da Tarde, do Rio de Janeiro. No jornalismo trabalhou em vários jornais do Recife, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, e de outras cidades, ora redator, ora cronista, ora exercendo as duas funções. Durante o Estado Novo foi preso várias vezes. Em 1939, trabalhava em Porto Alegre quando foi encarcerado num navio. Cinco anos depois, desembarcava na Itália, como correspondente do Diário Carioca, para cobrir a Segunda Guerra Mundial. Solicitado por jornais e revistas, viajou por boa parte do mundo, em particular a Europa e as Américas.
FICHA TÉCNICA
Título: Melhores contos
Páginas: 208
Formato: 21 x 13.8 x 1.2 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 01/01/2012 (12ª edição)
ISBN: 978-8526001336
Selo: Global

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Viajar por Uttarakhand , Himalaias indianos

Uttarakhand Heaven, Tour Cinematográfico com Drone em 4K | Lagos, Templos e Montanhas Himalaias pelos Scenic 4k com Elian.

Uttarakhand é um dos estados mais belos da Índia, muitas vezes chamado de Dev Bhoomi – a Terra dos Deuses.
" Experimente a magia dos Himalaias indianos através de imagens aéreas cinematográficas e relaxantes em 4K feitas com drones. Do colorido Vale das Flores aos picos nevados de Auli, dos lagos tranquilos de Nainital, o encanto de Mussoorie, a energia espiritual de Rishikesh e Haridwar, as paisagens selvagens do Parque Nacional Jim Corbett e os templos sagrados de Kedarnath e Badrinath , este filme capta a verdadeira alma de Uttarakhand. Sente-se, relaxe e desfrute desta viagem aérea imersiva por um dos paraísos escondidos dos Himalaias indianos."

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Sobre a palavra



Sobre a palavra

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada

Interminavelmente

Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água",  Assírio & Alvim Editores , reimpressão: 02-2014

domingo, 25 de outubro de 2026

Ao Domingo Há Música


Somos na manhã

Somos na manhã
pássaros inquietos
contornando a luz 

e o tempo constroi-nos 
estátuas sufocadas de calma
   Lourenço de Carvalho, minha ave africana

Iniciar a manhã, com uma primorosa interpretação de um trecho musical de Piazzolla,   pode emprestar  ao dia uma outra cor e um tanto da magia que se busca.

Piazzolla: Oblivion, pela trompetista Lucienne Renaudin Vary,  acompanhada pela hr-Sinfonieorchester – Frankfurt Radio Symphony, sob a direccção do Maestro Alain Altinoglu,no Rheingau Musik Festival ∙ Kloster Eberbach, 20. 06 2026 ∙

sábado, 24 de outubro de 2026

Nos rastros da Utopia

Nos rastros da Utopia
Prólogo
por Manoel de Andrade
"Faltou muito pouco para que este livro não fosse escrito. Os primeiros capítulos dessas memórias, iniciadas em Santiago, no verão de 1972, foram abandonados por trinta anos, na solidão de uma gaveta. Em abril de 2002, quando iniciei os procedimentos para enviar ao Ministério da Justiça meu processo de anistia, resumi em 70 páginas a história de minha peregrinação pela América Latina, a fim de passar aos seus futuros relatores fatos que pudessem informá-los sobre as razões do pedido. Acabei não enviando o texto, por acreditar que não estavam ali, e sim nos documentos públicos anexados, as peças essenciais para legitimar o processo. Novamente engavetei minha breve história em face da luta pela sobrevivência familiar, que não deixava tempo nem motivação para reavivar meu velho sonho de escrevê-la. O projeto estava completamente esquecido, como esquecida esteve também, por trinta anos, a minha condição de poeta quando, na primavera de 2002, a inspiração bateu, súbita e magicamente em minha porta, e cinco anos depois seus frutos resultaram na publicação do livro Cantares. Finalmente, em 2009, meu primeiro livro, Poemas para la libertad, lançado em La Paz em 1970 e com outras sete edições no exterior, era publicado, numa edição bilíngue, no Brasil. Foi essa inesperada volta à Literatura e a persistente sugestão de parentes e amigos, que me fizeram voltar a escrever os fatos aqui relatados. 
A América Latina que conheci há quarenta anos vivia de joelhos, marcada por brutais desigualdades, regida por forças reacionárias, pela violência das instituições e um profundo abismo entre uma riqueza orgulhosa e a pobreza humilhada. A exploração desumana do trabalho no campo, as massas indígenas deserdadas e famintas, o êxodo rural, a exclusão urbana e a face inconsolável da miséria eram os seus traços vivos e chocantes, marcados pela sobrevivência do feudalismo e pela persistência dos privilégios colonialistas, que a Independência não modificou. Atravessei toda a região quando seu território era, literalmente, o “quintal” dos Estados Unidos e os interesses imperialistas dominavam os grandes “negócios” do continente. Era um tempo em que a direção dos nossos passos era determinada em Washington, e seu ritmo pelo poder político das burguesias urbanas e das oligarquias agrárias. Na década de 70 --- indelevelmente marcada pela Guerra Fria --- as esquerdas, em todo o continente, mobilizavam-se para reverter todo esse processo de pilhagem, dependência e marginalidade, preocupadas com a teoria e a prática revolucionárias, visando a conquista de soberania, justiça social e liberdade. Em torno dessa tese se discutia a natureza da revolução, dividida entre nossa excepcionalidade indo americana e a visão eurocêntrica do socialismo. Este anseio de liberdade foi um momento fascinante da história latino-americana e aqueles que puderam vivenciá-lo, quer como observador ou como um militante, jamais puderam apagar da alma as luzes das utopias que iluminaram aquele tempo. Fui um desses observadores e o que proponho, nestas páginas, é fazer um inventário não só daquela época, marcada por tanta diversidade e que prodigalizou as mais justas promessas, mas também uma revisão histórica dos conflitos sociais que marcaram os quinhentos anos das lutas libertárias do continente. Os rastros mais antigos e heroicos desses embates foram deixados pelos araucanos no Chile e pelas revoluções indígenas da Bolívia e do Peru. Seus exemplos de bravura e de martírio vivem até hoje nas imagens imperecíveis de Lautaro, Caupolicán, Túpac Katari e Túpac Amaru. Suas mensagens abriram, na década de 70, não apenas novas trincheiras através de todo o continente -- onde tantas vanguardas revolucionárias honraram seus Movimentos com o nome desses heróis -- mas também iluminaram poetas e prosadores, cujas obras se engajaram nessa saga libertária.
A década de 1970 foi uma época de contrastes. De luzes que ofuscaram o mundo e de sombras que abateram os povos. De ideais que incendiaram corações e de corações incendiados pelo ódio. Se é verdade que naqueles anos semeou-se tantos sonhos, também colheu-se profundas desilusões, cujas cicatrizes continuam abertas em quase todos os países da América. Compromisso, resistência e clandestinidade fizeram o contraponto com a repressão, o exílio e a morte.
Este não é um livro político e aqui não se discute as grandes teses que polarizaram o ideário daquela época. Ainda assim, hoje perguntamos: De que valeram o rigor das posições dogmáticas e tantos debates teóricos, ante o despojamento e o sacrifício daqueles que entregaram a vida por um sonho?
Entre brisas e ventanias, muitos visionários, com seus ideais ou com seu sangue, construíram o barco da esperança para cruzar aquele mar tempestuoso em que se transformara o continente. Navegávamos sob um céu sombrio e sem a certeza de uma “terra prometida” onde pudéssemos aportar nosso destino. Por toda parte deparávamos com tensões sociais, com a imagem combativa das vanguardas guerrilheiras e estudantis e indignados ante um cotidiano de prepotência, espoliação e miséria. Em meus passos pelo continente, muitas vezes misturei minhas lágrimas com as lágrimas dos ofendidos, humilhados e excluídos. Compaixão e revolta foram os sentimentos que escreveram os versos daqueles poetas que comprometeram seu canto para denunciar as iniquidades e a opressão daqueles anos. 
Com este livro entrego o testemunho de um longo caminhar. Ao deixar o Brasil em março de 1969, meus passos cruzaram 16 países num prolongado auto-exílio pelo continente. A América Latina foi minha verdadeira universidade e nestas páginas palpita o espírito curioso de quem buscou saciar sua sede na leitura apaixonada da História, da Literatura e da Arte de tantos povos. Palpita o significado de experiências humanas vividas no convívio caloroso das grandes amizades, na tribuna combativa da poesia e nos amargos momentos da solidão dos cárceres. Palpita ainda um coração angustiado com os passos sem rumo, o olhar vazio e os gestos suplicantes dos filhos do calvário. Este livro é, sobretudo, o relato de um poeta itinerante, de um bardo errante, profundamente identificado com seu tempo e com sua condição de latino-americano. Um confidente solitário, comprometido com o resgate de uma América povoada de utopias e com a saga lendária daqueles que ousaram sonhar com um “admirável mundo novo”. 
Quando mergulhamos no nosso passado e no passado da História, é estimulante compreender que tudo começou muito antes dos nossos passos e que novos caminhos serão abertos pelos sonhadores do porvir. Para aqueles que não viveram no fascínio daqueles anos, que nasceram depois da tempestade, este livro traz uma consigna, uma mensagem, poeticamente resumidas na coragem de optar e no assombro de viver. Esse é o vinho mais capitoso, que nos embriaga e nos comove. “O sábio --- observou Gide --- é quem com tudo se espanta”, e eis porque parte do que sei e do que sou, segue guardado nas emoções que 
geraram estas lembranças.
Meu registro é tão somente uma mínima parte da memória esquecida dos anos 60-70 e que ainda está por ser escrita. Seus protagonistas foram aqueles que, entre as flores e os espinhos, construíram um ninho, um berçário de ideias e promessas que nem todos os sobreviventes que ascenderam ao poder souberam honrar nos atos e nos fatos. Nestes embates, a poesia rebelde ocupa uma honrosa galeria de mártires, lembrando dezenas de poetas que empenharam suas vidas e o encanto de suas metáforas para cantar a mística revolucionária pela lírica dimensão da poesia. Eis porque estas memórias contam também a aventura de um livro chamado Poemas para la libertad. Um livro que nasceu nas edições panfletárias de estudantes peruanos e cujos versos foram publicados em jornais, revistas, opúsculos, cartazes e em milhares de panfletos por todo o continente. Seus poemas foram ouvidos em universidades, teatros, galerias de arte, festivais de cultura, congresso de poetas, sindicatos, reuniões públicas, privadas e clandestinas e até no interior das minas de estanho da Bolívia. Suas edições se esgotavam rapidamente e seus exemplares percorreram a América Latina e o sudoeste dos Estados Unidos levados pelos mochileiros latino-americanos e pelos estudantes e intelectuais chicanos. Um livro proibido, confiscado e tendo que cruzar certa fronteira na bagagem de contrabandistas. Seus versos são filhos do sonho de liberdade que percorria o mundo. Alguns foram escritos no Brasil e nasceram silenciados pelo medo e 
pela impotência, numa pátria esmagada pela opressão. Outros foram se desfraldando ao longo de novas fronteiras, registrando os passos de uma imensa luta que incendiou a América há quarenta anos.
Enfim, estas páginas saem em busca de um passado nem sempre venturoso, e por isso sucedem-se, para contar, sobretudo, a história dos vencidos. Vivemos num tempo em que todos os sonhos foram despedaçados e se escrevo estas memórias, é para que se possa ouvir o eco dos hinos que ficaram tão distantes. Meu livro é, acima de tudo, a longa crônica de um poeta que sonhou com o impossível, e cruzou tantas fronteiras acreditando que pudesse mudar o mundo com seus versos. Passados quarenta anos, há entre o que fui e o que sou uma profunda fidelidade. Intactos estão a disposição de indignar-me com as injustiças, um coração solidário e um sentimento imperecível de gratidão..., aos amigos que ficaram, ao Bom Deus, que amparou meus passos, e à vida, por permitir que eu chegasse até aqui! Eis porque, caro leitor, convido-o a viajar comigo por caminhos e por um tempo fascinante, em que o sonho e a esperança comandavam os rumos da História. Ventura e desventura, encanto e desencanto são os sabores com que estão temperados os fatos que 
passarei a relatar."
Manoel de Andrade, in Nos rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina, nos anos 70, Escrituras Editora e Distribuidora de Livros, São Paulo , Brasil, 2014, pp 25-29

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A perda da Memória

A perda da Memória
por Edgar Morin
"Como todas as coisas do universo, a memória sofre a degradação e a desintegração, o que para ela se chama esquecimento. Como qualquer coisa informacional, ela é submetida à doença que ataca a informação: o boato, que confunde, encobre e entorpece. A diminuição da memória é ininterrupta. A própria memória tende a tornar-se lacunar, incorrecta, enganadora. Além disso(...) sofre profundamente o efeito das forças de recalcamento, que expulsam a recordação incómoda, e das forças de transfiguração e mitologização, que legendarizam a recordação.
A perda de memória torna-nos imbecis. A imbecilidade contemporânea, isto é, própria deste tempo fixo no presente, que esquece o passado e receia o futuro é o nosso esquecimento do que caracterizou o último século(...)
Devemos lutar contra a desmemorização e contra a memória imobilizada(...) Devemos regenerar constantemente a memória . A regeneração da memória parte justamente das necessidades vivas do presente."
Edgar Morin, in " As grandes questões do nosso Tempo", Editorial Notícias, Abril de 1999 ‧

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Alguns Pensamentos sobre Poesia


Alguns Pensamentos sobre Poesia

Ler um poema é ouvi-lo com os nossos olhos; ouvi-lo é vê-lo com os nossos ouvidos. 
Octavio Paz

Não há dinheiro na poesia, mas também não há poesia no dinheiro. 
Robert Graves

Se Galileu tivesse dito em verso que a Terra não se move, a Inquisição tê-lo-ia deixado em
paz.
Thomas Hardy

Nenhum poema durará muito tempo se for escrito por uma pessoa que só bebe água. 
Horácio

A poesia são pensamentos que se respiram e palavras que queimam. 
Thomas Gray

A poesia é um negócio de alegria e dor e deslumbramento, com uma pitada de dicionário.
Khalil Gibran

Um poema nunca fica acabado, apenas abandonado.
 Paul Valéry

A poesia é apenas o testemunho da vida. Se a nossa vida estiver a arder como deve, o poema
é apenas as cinzas.
Leonard Cohen

Se não consegues ser o poeta, sê o poema.
David Carradine

A pintura é poesia silenciosa e a poesia é pintura que fala.
Plutarco

A poesia é um eco a pedir a uma sombra para dançarem. 
Carl Sandburg

A poesia está mais próxima da verdade vital do que a História.
Platão

Um poeta consegue sobreviver a tudo, menos a uma gralha.
Oscar Wilde

O poeta é um mentiroso que diz sempre a verdade. 
Jean Cocteau

Quando o poder leva o homem à arrogância, a poesia lembra-lhe os seus limites.
Quando o poder estreita a área das preocupações do homem, a poesia lembra-lhe a riqueza
e diversidade da existência.
Quando o poder corrompe, a poesia limpa.
John F. Kennedy
Eugénio Lisboa, que selecionou e traduziu, em 29.09.2023.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Interlúdio musical

Casa onde nasceu Chopin, em Zolazowa ( Polónia), que se converteu em Museu.
 
A simplicidade é a conquista final. Depois de ter tocado uma quantidade de notas e mais notas, é a simplicidade que emerge como a recompensa coroada da arte.
Põe toda a tua alma nisso, toca da maneira como sentes a música!
                                   Frédéric Chopin

Chopin foi um virtuoso do piano. Punha-lhe a alma e fazia da simplicidade uma obra de arte. 
Escutá-lo é imergir nesse mundo raiado pelo encanto para um incondicional e deleitoso abandono. 
Nocturne, op 27 no 2, de Frédéric François Chopin, numa brilhante interpretação de Maria João Pires, no Jardin Musical. O estúdio Jardin Musical é um espaço de gravação de áudio e vídeo no coração de Bruxelas, dedicado a músicos e artistas.