domingo, 2 de agosto de 2026

Ao Domingo Há Música


Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.
 Miguel Torga , Orfeu Rebelde 

Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas cantar.
E a melodia
Que não havia.
Se agora a lembro,
Faz-me chorar.
Fernando PessoaCancioneiro

O canto ecoa diferentemente  em cada um de nós. Mas ecoa . Acorda.. Desafia. 
E há vozes que nos trazem memórias de um canto vivido . Um canto que se repercute e se estende com profunda  intensidade.
Esta  voz, que se apresenta,  tem essa capacidade. 
 
Lizz Wright e Kenny Banks Sr. interpretam The Nearness of You, nos Bell Choir Studios, do seu próximo álbum 'Nearness', com lançamento previsto para 25 de Setembro de 2026.  
A cantora confessa que "a presença de uma alma gémea pode mudar a forma como experienciamos o mundo, como nos vemos e como usamos os nossos dons. The Nearness of You é o segundo single do meu próximo álbum em duo com Kenny Banks Sr.."
.
Lizz Wright e Kenny Banks Sr. interpretam Soon I Will Be Done, nos Bell Choir Studios, do seu próximo álbum 'Nearness', com lançamento previsto para 25 de Setembro de 2026. 
"Soon I Will Be Done " é uma canção que a maioria associa à morte, ganha um novo significado e interpretação na voz de Wright. Ela observa: "Faz-me querer mergulhar mais fundo para desenterrar toda a minha força e descobrir o que significa para mim viver com o máximo de plenitude, amor e poder que puder. Viver com Deus, voltar para casa pode realmente significar viver em amor e lembrar-me de quem sou."
 

sábado, 1 de agosto de 2026

História da presença portuguesa em Ormuz


Quando Portugal dominou o Estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico 
Histórias Desconhecidas. 
"Hoje, o mundo fala diariamente do Estreito de Ormuz. A instabilidade no Médio Oriente e o conflito envolvendo o Irão voltaram a colocar este estreito no centro da geopolítica internacional. Por aqui, passa uma parte significativa do petróleo transportado por via marítima no planeta, e qualquer ameaça à navegação nesta passagem estratégica tem impacto imediato na economia mundial. Mas poucos sabem que, há cerca de cinco séculos, este mesmo estreito esteve sob o controlo de uma pequena potência europeia. Durante mais de um século, entre 1515 e 1622, Portugal dominou Ormuz, controlando a entrada do Golfo Pérsico e uma das rotas comerciais mais importantes do mundo. Neste vídeo exploramos a história da presença portuguesa em Ormuz: – a chegada de Afonso de Albuquerque ao Golfo Pérsico – a construção da fortaleza portuguesa na ilha – o papel de Ormuz no comércio do Oceano Índico – a vida dos portugueses naquele ambiente extremamente árido – e o dramático cerco que levou à queda da cidade em 1622. Numa pequena ilha quase sem água e exposta a um calor extremo, soldados, mercadores e administradores portugueses viveram durante décadas guardando uma das portas do comércio mundial. Uma história fascinante do Império Português no Oriente, que liga directamente o passado da expansão marítima portuguesa à importância estratégica que o Estreito de Ormuz continua a ter hoje. 
Se gosta de História de Portugal, história marítima ou das grandes rotas comerciais do mundo, este episódio mostra como uma fortaleza portuguesa conseguiu, durante mais de um século, controlar um dos pontos mais estratégicos do planeta."

sexta-feira, 31 de julho de 2026

AS RELIGIÕES NÃO CRISTÃS (1)

Manoel de Andrade

Transcrevemos do  aplaudido livro, Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre  Cristianismo e Espiritismo, do poeta Manoel de Andrade, algumas das primeiras  reflexões que enquadram a busca da  Verdade e revelam o profundo conhecimento dos temas em estudo. 

MÓDULO I - ANTECEDENTES DO CRISTIANISMO
AS RELIGIÕES NÃO CRISTÃS (1)
por Manoel de Andrade 
"Foi no Oriente que se acenderam as primeiras lâmpadas para iluminar a alma humana. Foi de lá que migraram os primeiros passos do pensamento religioso e filosófico que enriqueceram a cultura do Ocidente. A China e a Índia foram os berços dos maiores pensadores da antiguidade que buscaram expressar a espiritualidade na sua mais pura essência.                    
Hinduísmo
O Hinduísmo surgiu há cerca de 3500 anos entre as antigas religiões das comunidades do norte da Índia e se tornou uma das mais poderosas forças culturais como expressão de modo de vida, marcadas pela não violência, pelo princípio da tolerância, a crença na reencarnação, pelo realce no progresso e na libertação espiritual. Suas orações, hinos e mantras, culturalmente santificados pelo povo, eram transmitidos oralmente de geração em geração e foram posteriormente compilados nos Vedas, formando a base ritual do Hinduísmo e tido como o primeiro livro sagrado da história.
Eis por que a formação do Hinduísmo clássico retrocede ao remoto período védico, época da transcrição das expressões orais que deram origem aos Upanishads, composição de hinos, diálogos e poemas considerados como o mais antigo tratado de filosofia que chegou quase intacto ao nosso tempo. O ponto alto da literatura clássica indiana são as epopeias, Ramayana, escrita há mais de 2000 anos e contendo os ensinamentos dos primeiros sábios hindus, e o grande poema filosófico Mahabhárata, com cerca de 100 mil versos. É a obra literária reconhecida como o maior poema épico da história da humanidade, dentro do qual o Bhagavad-Gita ocupa uma de suas partes e onde é chamado a “canção do bem-aventurado”. O Bhagavad-Gita é o livro sagrado do hinduísmo, a mais conhecida obra da literatura sânscrita, por conter a essência do conhecimento védico e tendo influenciado inumeráveis movimentos espiritualistas do mundo.
O Hinduísmo mantém o seu sistema de castas como uma expressão de “estágio” cármico, e eis por que o praticante do Hinduísmo encara religiosamente a vida como um rito de renúncia, não havendo separação entre o sagrado e o profano. Vive de acordo com o “dharma”, ou seja, em harmonia com o amplo significado da lei, com o caminho da justiça e da plena retidão moral.

Budismo
A outra grande expressão religiosa indiana é o Budismo, que nasceu na Índia e migrou para o Ceilão (hoje Sri Lanka), China e Japão, onde predomina, e para vários países do Ocidente, congregando, atualmente, uma das mais expressivas legiões de seguidores em todo o mundo.
Seu fundador era chamado Sidarta Gautama, também conhecido por Sakiamuni, um príncipe sábio nascido no povo Sakia, num reino na fronteira entre o Nepal e a Índia. Ao ver a miséria do seu povo, renunciou ao trono e saiu em busca das respostas para o sofrimento humano. Nesse caminho encontrou a iluminação, passando então a ensinar suas verdades, das quais nasceu o Budismo.
O Budismo, como uma religião contemplativa, surgiu na Índia entre os séculos VI e IV a.C. A essência da sua filosofia é superar o desejo como causa do sofrimento. Duas grandes escolas dividem seus ensinamentos: a Hinayana (Veículo Menor) e a Mahayana (Veículo Maior), e cada uma delas com diferentes filosofias espalhadas pelo mundo, com seus próprios conceitos sobre iluminação e libertação. O estado de libertação é o resultado da busca espiritual do ser humano para atingir o Nirvana, um estado eterno de graça pela superação do karma. Resulta de um longo caminho percorrido pela meditação, pela renúncia às ilusões do mundo e do aniquilamento de certos traços da personalidade como: o orgulho, o ódio, a inveja e o egoísmo.
Buda compreendeu que as dores humanas são causadas pela ignorância das leis que governam a vida e que só se alcança a felicidade e se abre o caminho para a iluminação quando o ser se liberta das distrações mundanas. Segundo ele os prolongados sofrimentos são causados por uma mente desgovernada. Ensinou que:

- "Tudo o que somos é resultado do que pensamos. A mente é tudo. O que pensamos, nós nos tornamos."
- "A paz vem de dentro. Não a busque fora."
- "A raiz do sofrimento é o apego."
- "A felicidade nunca virá para aqueles que não apreciam o que já têm."
- "Manter o corpo em boa saúde é um dever... caso contrário, não seremos capazes de manter a mente forte e clara."
- "Não viva no passado, não sonhe com o futuro, concentre a mente no momento presente."
- "Assim como uma vela não pode queimar sem fogo, os homens não podem viver sem uma vida espiritual."
- "Milhares de velas podem ser acesas com uma única vela, e a vida da vela não será encurtada. A felicidade nunca diminui ao ser compartilhada."
- "No final, apenas três coisas importam: o quanto você amou, o quão gentilmente você viveu e o quão graciosamente você abriu mão de coisas que não eram para você."
(1)

A imagem de Buda como um mestre iluminado, a vida ascética nos mosteiros budistas, os princípios e práticas do seus ensinamentos, suas atividades sociais e expressões culturais pelo mundo, colocam o Budismo como a quarta maior religião da Humanidade, com mais de 520 milhões de seguidores. No Brasil, segundo o censo de 2010, residem aproximadamente 245 mil budistas."
Manoel de Andrade, in  
 Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre  Cristianismo e EspiritismoEdição do Centro Espírita Luz da Caridade,Rua Mato Grosso, 145 – Água Verde, CEP: 80260-070 – Curitiba - Paraná, pp.33-36

(1)-https://www.revistaentreasanas.com.br/post/10-cita%C3%A7%C3%B5es-de-buda-para-voc%C3%AA-aprender-e-refletir-no-seu-dia-a-dia.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Um poema

UM POEMA

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...
Miguel Torga, in  Diário XIII, Círculo de Leitores

terça-feira, 28 de julho de 2026

Viajar por Évora


Eugénio Lisboa registou, nos Diários, que foi escrevendo ao longo da sua vida, muitas páginas de grande relevância sobre viagens que realizou. Publicou algumas, em 2017 , num tomo único, a que deu o título " Diário de Viagens Fora da Minha Terra".
Hoje ,transcrevemos  páginas inéditas de uma viagem a Évora , acompanhado da sua mulher, Maria Antonieta.

Évora, 15.07.2005 – Pousada dos Lóios
por Eugénio Lisboa
"Há 3 dias em Évora, neste convento transformado em pousada. O convento, dizem os historiadores, foi mandado construir por D. Rodrigo de Melo, em 1481, logo após a morte de D. Afonso V (28 de Agosto desse ano), com quem andara à espadeirada aos mouros, no norte de África. Diz-se que o velho fidalgo se encontrava, por esta altura da sua vida, “entristecido e carregado de anos”. Não custa muito imaginar que uma juventude de matança, mesmo de “infiéis” e mesmo ao serviço de um rei de quem se é amigo e fiel servidor, conduza a uma velhice entristecida. Que imagens de corpos trespassados, de gritos de aflição sem resolução, de olhos espantados e devastados de surpresa nos podem dar à velhice uma aura de tristeza sem remédio? Estarei a especular? Penso que não. O facto de D. Rodrigo ter pedido que após a sua morte (sua mulher, D. Isabel fora à frente), se rezasse, no convento, “missa quotidiana por sua alma e de sua mulher” é sinal inconfundível de que os fantasmas (mesmo de infiéis) atormentavam, mais do que ligeiramente, os últimos anos do fidalgo.
Seja como for, mandou construir este magnífico convento, onde nos encontramos, eu e a Maria Antonieta, há três dias. Vamo-nos, de regresso a S. Pedro, daqui por três horas. O convento é magnífico, amplo e, nos claustros em que antes se ouvia o silêncio majestoso das meditações, agora come-se, profanamente, os requintados manjares que a Babette local, D. Francisca, congemina, para nosso deleite. Pode ser que se cozinhe tão bem, noutros lugares deste Portugalinho atraente e turístico. Melhor, duvido. Que riqueza, na simplicidade airosa (e capitosa!) dos menus! Não é de admirar que os empregados de mesa nos perguntem, não se tudo está bom, mas, antes, se tudo está óptimo! O “bom” seria uma litote ofensiva…
Os quartos que habitamos chamam-se “celas” porque foram as celas que os frades habitaram, nos tempos de convento que o convento já teve. Tudo é grande, amplo, generoso, neste convento que se originou numa grande vontade de redenção. D. Rodrigo de Melo não pensou pequeno: ele lá sabia as razões que tinha.
Uma piscina moderna – e muito a propósito para nos ajudar na luta contra o calor alentejano – dá um ar de saborosa profanação que se acrescenta ao capitoso ultraje de repastos sensuais a desflorar a paz mística dos claustros…
Não sei o que D. Rodrigo pensaria de tudo isto. Mas julgo que tudo isto nos leva, irresistivelmente, até ele – e a pensar nele. Não é uma forma de lhe preservar a presença, entre nós? Não é um modo de lhe garantir um modicum, ainda que modesto, de eternidade?
Em Évora, cidade património do Alto Alentejo, passámos, eu e a Maria Antonieta, três dias de revisitas a lugares vários (a catedral, a Igreja de S. Francisco, a Praça do Giraldo, a  Biblioteca Pública, a Igreja de S. João Evangelista – adjacente ao convento – etc.) Sempre sediados no convento, a que regressávamos, magneticamente atraídos pelos filtros mágicos da Babette eborense e para fins de restauro de forças, pelo sono celular…
Vamos agora deixar Évora e o Convento dos Lóios. Para voltarmos cá? Gostaria de pensar que sim!"
Eugénio Lisboa, in Aperto Libro III ( obra inédita)
 
Évora, património da humanidade, partindo da zona monumental, chamada de acrópole, mostro um percurso pelo centro histórico, mostrando a Sé Catedral, Igreja do Convento dos Lóios, Palácio dos Duques de Cadaval, Cerca Velha, Universidade, Porta de Moura, Igreja da Misericórdia, Igreja do Convento da Graça, Igreja do Convento de S.Francisco, Praça de Giraldo, seu Chafariz e Igreja de Santo Antão, a Porta da Selaria, as ruas encostadas à antiga Cerca Velha, vendo as suas antigas Torres, o Aqueduto da Água de Prata, a Porta de D.Isabel, e a Cerca Nova ou muralha medieval.

domingo, 26 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música

Bicicleta de Recados

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
Pedalo nas palavras atravesso as cidades
bato às portas das casas e vêm homens espantados
ouvir o meu recado ouvir minha canção.
Manuel Alegre ,  A praça da canção, Coimbra , 1965 

Nem sempre a bicicleta traz o tal recado, mas há sempre canções  com muitos recados. São várias e chegam em tonalidades diferentes. O que importa é escutá-las,  em harmoniosa sintonia e deleite. 
Neste dia dos avós, fica o  recado de quem tem a suprema delícia de ser avó. Não tenham medo dos clichés porque ser avó é um dos maiores e sublimes prazeres desta vida , se não for o maior entre os maiores.  A memória dos afectos será sempre um dos seus legados.
Sejam felizes.


VOCES8 e Ringmasters interpretam Lux Aurumque, sob a direcção do compositor Eric Whitacre. O vídeo foi gravado no VOCES8 Centre e a faixa faz parte do novo álbum do grupo, 'Shall We Gather', com lançamento previsto para 24 de Julho de 2026.
Texto: 
 Lux,
 Calida gravisque pura velut aurum
 Et canunt angeli molliter
 modo natum. 
 Light,
 warm and heavy as pure gold 
and angels sing softly
 to the new-born babe. 
 Edward Esch, b.1970 (Traduzido para Latim por Charles Anthony Silvestri)
 
VOCES8 apresenta Salutaris Hostia,  de Ēriks Ešenvalds, no VOCES8 Centre, em Londres. Ēriks Ešenvalds é um dos mais celebrados compositores contemporâneos da Letónia, conhecido pelas suas obras corais que combinam a harmonia radiante com a ressonância espiritual. Esta obra musicou o antigo hino eucarístico de São Tomás de Aquino, uma oração que pede a Cristo, a "vítima salvadora", que fortaleça os fiéis nas suas lutas. A composição de Ešenvalds impressiona pela sua simplicidade e beleza: longas e arqueadas linhas de soprano elevam-se acima de texturas corais luminosas, desdobrando-se gradualmente até um momento de intensidade extática antes de regressar à devoção silenciosa. Em apenas alguns minutos, a peça capta tanto a intimidade da oração como a transcendência da fé
.  
VOCES8 apresenta May it Be (Enya/Lord of the Rings).
VOCES8 em "Enchanted Isle' , com  música de filmes, pop e tradição celta transporta-nos , em som sublime, através da paisagem das Ilhas Britânicas  , a  'Ilha Encantada'.
 

sábado, 25 de julho de 2026

A Floresta adormecida

EM TRÊS LINHAS
"Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões. Tinha ouvido a um oficial de marinha que a paisagem do arquipélago valia a do Japão. E talvez valha... Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nas leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos!... "
 1926. 
 R.B.(Raul Brandão)



A FLORESTA ADORMECIDA
por Raul Brandão

30 de Junho
As Flores e o Corvo erguem-se uma defronte da outra, separadas por um canal de quinze milhas, o Corvo espesso e nu, as Flores violeta e verde com rochas violetas e os cimos dum pasto delicado. Pelos altos das falésias povoações esparsas, o Monte, a Fazenda, Cedros, Ponta Ruiva, entre colinas arredondadas e renques de hortenses que dividem os campos. Lá para o fundo três pináculos escuros e mais longe alguns cerros de um azul quase negro. A costa vai-se aproximando com saliências e negrumes, e o verde tenro das ervas cada vez mais tenro, destacando-se da massa espessa, onde emergem os píncaros cada vez mais escuros. Um esguicho de sol cai de entre nuvens pesadas, ilumina e doira, desfaz-se em poeira sobre o primeiro piano, enquanto o outro se conserva esfumado. Mais pesada é a massa dos montes, o recorte dos penedos; só a água dum verde-claro estremece a meus pés. Entramos pelas rochas afiadas do porto de Santa Cruz. Duas ou três ruas muito limpas, a igreja, a praça, o convento, e logo por trás uma colina esmeralda de formas regulares e perfeitas como um seio túmido apontando o bico para o céu.

1 de Julho
Hoje, outro dia enevoado. Com este tempo turvo, amanhece tudo cheio de orvalho, as árvores, os milhos, o trevo em flor, as fitas prateadas da erva, cujas hastes estremecem e não podem com o peso. Olho num espanto a volúpia do monte verde cortado por sebes azuis de hortenses, com uma grande nuvem cor de chumbo em cima; a falésia monstruosa em roxo e verde, a luz carregada de humidade com clarões esbranquiçados de nevoeiro, que alastram e se desfazem em névoa peneirada e fina; o Corvo ao longe, desaparecendo na humidade e reaparecendo, quando a cortina se descerra – a fisionomia estranha da terra, a vida efémera da água, da chuva e do tempo fantasmagórico. O carácter desta paisagem é a serenidade com uma pontinha de tristeza... Sempre. enevoada e fresca, húmida, como aquele monte voluptuoso ao fundo, é uma paisagem casta, que se oculta e revela, uma paisagem feminina no momento único em que se desnuda com pudor. A chuva é leve, as névoas molhadas não passam de orvalho doirado que o sol ilumina e atravessa. E quando cai (cai muitas vezes), é em borrifos que vêm lá de cima de uma brancura, sobre o calor abafado. De repente aparece o Sol – de repente tudo muda à vista, como um cenário, tornando-se difuso e turvo. As nuvens nos Açores têm uma vida extraordinária, uma vida que não percebo bem! Hoje uma sobre o Corvo lembra uma auréola magnética. Amontoam-se no horizonte, surgem outras em bando, esguias nas extremidades, a que chamam baleotes e que indicam mudança de tempo. Há-as escuras com claridades extraordinárias pelo lado de trás; há-as que viajam no céu com importância de deuses... Tenho a impressão de que há nas Flores a luz mais delicada dos Açores, a luz vaporizada que se sensibiliza a todos os momentos. É talvez da cor, que é única, do pó roxo, do verde dos pastos sempre tenro e uniforme – é talvez da mistura dos nervos do mar, da chuva de Verão, do sol que se desfaz em oiro sobre tudo isto, e destas nuvens mágicas que interceptam a luz ruborizando-se como grandes velários de cor – para logo se desfazerem diante de meus olhos em arabescos, em fios ténues, em farrapos... Todas as cores se fundem e acabam por se apagar em cinzento, deixando só resquícios na atmosfera húmida. Nunca assim vi ambiente tão rico em prestigio, sempre diverso e sempre em movimento. É o cinzento que predomina – mas um cinzento colorido onde bóiam cores húmidas, principalmente o verde e o violeta –jorrando, atabafando em pardo e violeta montes verdes a escorrer. É o que dá prestigio a esta terra molhada, onde o próprio sol parece molhado – molhado e doirado, tão leve que mal trespassa o cinzento... Então, um momento iluminado, o panorama respira, arfa devagarinho como um seio, ainda orvalhado do banho e aquecido pelo Verão, ruborizado e sorrindo por ter de despir a camisa diante da gente. Outras vezes tudo desaparece ou toma proporções fantasmagóricas e a água goteja doirada. Água, ar e bruma intimamente se casam para produzirem esta impressão casta e cinzenta ou toda violeta como a obra de arte de uma individualidade estranha."
Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas, Quetzal Editores

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Acorda-me a tua voz


Contigo

Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.

As mãos afagam a luz,
prolongam o dia breve.

Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.

Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.

Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada.
Eugénio de Andrade, in " Até amanhã", Assírio& Alvim

Começar o dia com as palavras de Eugénio de Andrade e a voz de Sissel é um dos tais  prazeres a não perder. Poesia e Música um casamento perfeito.

Sissel, em   If You Go Away.
 
Sissel, em Crying in the chapel.
 
Sissel, em The First Time Ever I Saw Your Face.
 
 Sissel, em  Down | Live at Lindmo.