segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Amazónia


Amazónia

Antes da pátria, eras úmida promessa...
semente primordial
árvore mãe
planta continental
arvoredo, floresta, selva palpitante.
Hoje canto tua estatura vertical
o mogno gigantesco, seu colossal diâmetro
canto essa caudalosa geografia
essa multidão de vidas que sustentas
canto o itinerário sazonal da seiva
e  essa infinita linfa...
parto de infinitas criaturas.
Canto teu verde planetário
e no teu imenso respirar,
canto o nosso pão de oxigênio...
Canto a ti... Amazônia
bosque inquietante da esperança...
e  eis porque denuncio esse machado cruel sobre  teu peito...
essa fruta milenar, dia a dia devorada.


Antes da grande nação...já eras tu...
a nação primogênita
filha dos filhos da mata.
A infância da pátria foste tu,
sílaba aborígine, idioma tupi
cerâmica, canoa e tacape
ritual, dança e canção.
Foste tu a raiz,  sangue ameríndio
o parto da nacionalidade.

Hoje canto os povos da floresta
e o desencanto dessa memória esquecida.
Falo de sobreviventes
de tribos desgarradas
de aldeias tristes
de sonhos desmatados
de segredos e tradições pirateadas
das águas lavadas na bateia do mercúrio.



Amazônia....Amazônia...
quem deterá o teu martírio
uma vida tão diversa num  adverso viver...
Falo dos teus hectares de sangue
da lâmina cruel, da pira ardente
dessa cartilha de serras, rifles e archotes
dessa morte plural
na diversidade de aves e primatas
roedores, felinos e serpentes.
Falo de uma terra de cepos
de raízes degoladas
de caules retalhados
de castanheiras preservadas... a morrer de solidão.
Falo da linha negra do fogo
e desse cemitério de troncos defumados.



Falo da floresta sitiada
por uma legião de máquinas assassinas
falo de estradas e picadas clandestinas
de súbitas clareiras
desse assalto interminável... lento e invisível.
Falo de grileiros, posseiros, garimpeiros, bandoleiros
e de terras demarcadas sob a mira das pistolas.
Falo de dragas e crateras
das águas manchadas e dos rios estropiados.
Falo da vida degradada pelas pastagens da ambição.


Amazônia...Amazônia...
com que verde vestiremos nosso mapa
acuados pelo apetite voraz das motosserras,
por uma fronteira incinerante que avança insaciável.
Acuados pelo gatilho mercenário da violência
e pelo estigma oficial da impunidade.

Passo a passo e esse avizinhar-se do colapso...
quantos fóruns se abrirão para “resolver” essa tragédia!?
Crimes silenciados na cumplicidade regional dos gabinetes...
gritos sem eco nas vozes da omissão...
acenos sem resposta nos protocolos renegados...
e o poder dos maiorais contra tudo o que respira.
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Deixaste ali teu heróico testemunho
teu seringal sagrado
teu rosto  solidário.
Contigo... caiu o tronco ensangüentado...
Tua alma...teu nome...Chico Mendes,
sobrevivem  em deslumbrante  hiléia,
na invisível bandeira das espécies
e na memória da pátria agradecida.

Depois chegaste tu...Dorothy  Stang
estrangeira, franzina e destemida
desafiando víboras e chacais
e defendendo a floresta com a paz do nazareno.
Em  Anapu  ergueram teu calvário
mas  hoje  ergo aqui,  no jardim humilde da poesia,
a tua estátua de missionária imperecível.

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Amazônia... Amazônia...
quantos ainda cairão para que sobrevivas?
com que vozes cantaremos a esperança
enlutados pela ausência dos que ousaram manter suas denúncias?

quem te fará justiça?
quem suspenderá esse cerco que te aperta lentamente?
como conter teu holocausto
e a agonia silenciosa das espécies?


E eis porque canto o desencanto da árvore secular que tomba
e essa sinistra paisagem de troncos decepados...
E falo da imensa copa baqueada...
seus frutos, seus aromas
remédios e resinas,
seus colares e adereços...
Falo de samambaias e orquídeas
de cipós e de bromélias agonizantes.
De garras, patas e plumagens...
de berços destroçados, de ninhos mortos
e dessa maternidade em lágrimas.

Falo do patrimônio ambiental da pátria
da grilagem descarada
de negociatas e falsos documentos.
Falo da destruição diária e sorrateira
de pastagens criminosas
de uma ingrata agricultura
e da natureza usada e abandonada.
Falo de uma terra arrasada
e de um deserto verde que cresce...dia a dia.

Eis tu...e eu te chamo legião...
o mundo te observa e nos pergunta: por quê???
e todos nos perguntamos: até quando???
os que irão nascer perguntarão quem foste tu e por que tanto desamor...
os céus vigiam teus passos,
rastreiam teus crimes
e a tua sombra imensa que avança para o norte...
Sabem de ti o rei e os seus vassalos...
conhecem teus látegos de aço
tua tocha incendiária
teus cúmplices, tuas vítimas
tuas mãos manchadas com o sangue da floresta...
Somos os que te acusamos
nessas sementes queimando
nessas pétalas feridas
nesses pássaros sem ninho...
somos os que assistimos, impotentes, esse indigesto banquete,
tua dieta vegetariana
e a euforia com que brindas o lucro e o bom negócio
nessa taça transbordante de cinzas, de sangue e de lágrimas... 


Amazônia... Amazônia... sem lei, sem testemunhas...
e essa  oficial improvidência...
Nada que te ampare...
nada...
Talvez um vento reverso
uma chuva perene que apague essa queimada.
Talvez um decreto impossível
uma lei implacável
a mão de Deus, quem sabe...
a espada da justiça pra sangrar os que te sangram...
algo que feche essa ferida
algo que estanque essa agonia.
Quem sabe, o refluxo imperdoável do teu próprio martírio...
uma malária cruel...
algo que empeste essa ganância...
antes... bem antes
que essa segunda geração de abutres choque também os seus filhotes.

                                                              Curitiba, Abril de 2006
Manoel de Andrade , in " Cantares ", Editora Escrituras, São Paulo, 2007, pp. 97-102

Manoel de Andrade
O poeta é um visionário . Vê para além de qualquer um  e regista o seu olhar  em palavras que cantam , sorriem ou choram. Talvez , por isso,  alguém tivesse ousado  dizer que seriam  os melhores legisladores do mundo.
Manoel de Andrade, poeta brasileiro, escreveu este longo e belo poema em 2006. Um poema que canta e chora uma Amazónia que deixou de sorrir às mãos de quem a sufoca, a mutila e incendeia. 
A ganância foi sempre o motor que gerou o crime. A hecatombe que dizima  esta enorme e magnifica floresta brasileira é ,actualmente, a dor  que está exposta aos olhos e coração de todos nós. 
Manoel de Andrade sentiu-a  e fê-la nossa, através deste comovente poema. 

domingo, 25 de agosto de 2019

Ao Domingo Há Música

Claustro do Convento de Santa Maria Novella, Florença
Jardins de Salzburgo
“ […] Acontece-me, por vezes, ao voltar de uma dessas curtas tréguas que nos deixa a luta comum, pensar em todos os recantos da Europa que conheço bem. É uma terra magnífica, feita de sacrifícios e de história. Revejo as peregrinações que fiz com todos os homens do Ocidente. As rosas nos claustros de Florença, as tulipas douradas de Cracóvia, o Hradschin com os seus paços mortos, as estátuas contorcidas da ponte Karl sobre Ultava, os delicados jardins de Salzburgo. Todas essas flores, essas pedras, essas colinas e essas paisagens onde o tempo dos homens e o tempo da natureza confundiram velhas árvores e monumentos! A minha memória fundiu essas imagens sobrepostas para delas formar um rosto único: o da minha pátria maior."
Albert Camus, in Cartas a um Amigo Alemão, Carta Terceira (Abril de 1944), Livros do Brasil, Lisboa
Praga, República Checa
Catedral de Milão, Itália
Uma Europa  que não pode  esquecer a beleza paisagística e a riqueza cultural como património distintivo de um humanismo  que se singularizou no  bem acolher a quem a visita e procura.
Li e ouvi, há alguns meses,  por causa do trágico incêndio de Notre Dame, que somos todos Paris. É tempo de reassumir que somos ,por excelência e por devir , todos Europeus.  Numa época de Brexit(s), de fundamentalismos  segregacionistas , de rejeição do outro que vem acossado pela servidão ,  pelo medo, compete a todos e a cada um fazer emergir a alma do acolhimento, da compaixão, da tolerância , da Liberdade - a alma europeia. 
E  porque é tempo de uma trégua mais prolongada de Livres Pensantes, deixamos, em jeito de um " Até sempre", algumas peças musicais de grandes compositores europeus, que se tornaram icónicas.
Assim é a Europa , pátria maior, que nos permite  apresentar génios   da Alemanha, da República Checa, da Áustria  e  de Itália.
Que nos una, nos comprometa e nos deleite.

De Ludwig  van Beethoven,Fantasia in C Minor, Op. 80, "Choral Fantasy": I. Adagio por Martha Argerich, sob a direcção do Maestro Seiji Ozawa e a Mito Chamber Orchestra.
Licenciado ao YouTube por WMG; UMPG Publishing e uma sociedade de direitos musicais.

Gautier Capuçon, em Song to the moon  de  Antonín Dvořák, em "Rusalka", no  Concerto de Paris , a  14 de  Julho de 2019 , na Tour Eiffel, com  Alain Altinoglu e a Orchestre National de France.
Filmado por  François Goethgebeur para a France2 TV / Stéphane Bern / ElectronLibreProduction
Khatia Buniatishvili interpreta Franz Schubert, em Impromptu No. 3 in G-Flat Major, Op. 90, D. 899.
Wolfgang  Amadeus  Mozart pela virtuosa Mitsuko Uchida  , em  Piano  Concerto K. 271, acompanhada pela Mozarteum Orchestra, regida pelo Maestro Jeffrey Tate, na Opéra de Berlim.

The Three Tenors,  José Carreras, Plácido Domingo e Luciano Pavarotti, em Brindisi ("Libiamo ne' lieti calici")-La Traviata, de Giuseppe Verdi, num Concerto de  1994.

sábado, 24 de agosto de 2019

Memórias de Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa tem 89 anos. É a voz maior da critica literária e um dos mais singulares escritores portugueses. Construiu uma obra volumosa que se estende em vários géneros: Ensaio, Crónica, Diário , Memórias  , Poesia . Todos são expoentes de um apurado sentido artístico. 
Dotado de uma inteligência viva e de uma cultura invulgar soube  tecer cada obra com o rigor , a clareza e a sabedoria que caracterizam as obras primas.  
Vário, intérprido e fecundo são esses os epítetos que fazem o título de um livro que, publicado em 2011, é uma homenagem a Eugénio Lisboa, promovida pelos colegas da Universidade de Aveiro  e inúmeros amigos. Foi com essa fecundidade que publicou,  entre 2012  e 2017 , sete volumes de Memórias: "Acta Est Fabula". Um magnum opus que  não cessamos de reler. 
Revisitámos o IV volume , no momento em que Eugénio Lisboa faz uma pausa para questionar a valia desta obra. 

"Faço um intervalo, para me questionar sobre o valor futuro deste livro que agora escrevo. Tem-me dado muito trabalho – de memória, que tento activar, de pesquisa, de selecção, de redacção (e de dactilografia!) – mas constantemente me pergunto: “Para quê? Para quem? Para durar quanto tempo nas memórias em que pouse?” Não são perguntas retóricas ou “coquettes”, são profundamente sentidas. Olho à minha volta e vejo uma ordem de gente que não lê ou, pelo menos, não lê o que eu leio, não tem sensibilidade cultural nem inteligência afinada pela cultura (por “esta” cultura). Vendem-se a granel, nos supermercados, trambolhos ultrajantes, obscenamente anunciados em grandes parangonas, como os “grandes” do momento… A poesia, da Sophia para trás, não existe, e o romance do Eça parece de fazer dormir em pé gente que devora as inépcias literárias dos senhores do petit écran. A grandeza reside toda no “ser muito visto”. Aparecer ou não aparecer na televisão, eis a questão. Entre o José Rodrigues dos Santos e o Alexandre Quintanilha, a escolha é fácil. Grandes figuras da nossa cultura humanista e científica são desprezadas, ou esquecidas ou simplesmente ignoradas. Reportagens feitas na rua para se avaliar o grau de conhecimentos culturais, até de estudantes universitários, dão resultados de nos tirar o sono. Que gente é esta? Que escolas, que pais, que cidadãos são estes? Olho para as listas de classificação de filmes feitas pelos ”especialistas” de jornais de referência e eriçam-se-me os cabelos. Que valores privilegia esta gente? O que os comove? O que os move? Que gente é esta ou, antes, que ando eu a fazer, no meio desta gente? Que mundo se desenha para depois de mim? É a esse mundo que vou legar estas memórias de coisas, estas lições de coisas, estas emoções, ideias, encontros – que me tocaram? Mas tocará isto mais alguém? haverá, dentro de pouco tempo, alguma coisa de comum entre “os meus amores” e aquilo que, para “eles”, é importante? Paul Valéry previa que algumas das obras-primas da literatura dita clássica só conseguiriam, no futuro, ser entendidas, atafulhando de “notas explicativas” o fundo das páginas: por exemplo, uma emoção simples, como o sentimento de fraternidade entre soldados em combate, teria de ser “explicada”, numa época futura de “guerra de premir botões a distância”, em que se não vê nem o rosto do inimigo nem o do camarada que está do seu lado. Presumo que aquilo que deu alegria à minha vida – a descoberta dos livros de papel, do amor casto enquanto se não torna menos casto, o calor da casa materna, a saudade dos bons momentos de uma praia, mesmo sem dinheiro para um bolo, o gozo de um bom almoço de família, ao domingo, mesmo numa casa sem frigorífico, nem telefone, nem telefonia, sem recursos para se ir ao outro cinema da terra – tudo isto será, num futuro próximo ou mesmo já no presente, difícil de partilhar com o leitor, de “explicar”, mesmo com abundantes notas de pé de página… Dizia Baudelaire que tinha memórias que chegavam para mil anos. Eu também! Mas qual a valia delas? O criador de Peter Pan dizia que Deus nos deu memória para podermos ter rosas em Dezembro. 
Seja então isso: as minhas memórias servir-me-ão, a mim, para ter rosas no Dezembro da minha vida. Já não é pouco. Mas fica a pergunta: e que ganham os outros com as rosas que só eu conheço? "
Eugénio Lisboa, in"Acta est fabula, Memórias -IV- Peregrinação: Joanesburgo. Paris. Estocolmo. Londres. (1976-1995)",Editora Opera Omnia,  Outubro de 2014, pp. 195-197

Nota de Livres Pensantes 
Por termos a certeza da resposta , podemos afirmar que também  nós leitores ganharemos  essas rosas , frescas e brilhantes,  sempre que mergulharmos na leitura destas Memórias. 
Bem haja, Eugénio Lisboa.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Nápoles



Nada nos prepara para Nápoles
Por Bruno Ramos
"Nápoles agarra-nos pelas entranhas e cola-se a todos os sentidos com tremenda ferocidade. A meio de Agosto, o calor e a humidade acentuam esse abraço visceral da cidade, que faz cair sobre nós uma realidade sem concessões feita de ruas intrincadas, uma expressividade física que grita em todas as esquinas, um ritmo frenético que nos arremessa numa vertigem para logo nos amparar com a sua integridade e maneira muito própria de ser. É um organismo vivo que pulsa continuamente.Vamos já dizer as coisas como são: Nápoles não é o protótipo da cidade turística de postal. É feia, suja a roçar o infecto, esconsa, labiríntica e escura. Está também longe, muito longe, de encabeçar a lista de destinos facilmente visitáveis: é complicada, caótica, bruta e disfuncional. E no entanto transpira uma verdade de que todos, sem excepção, parecem comungar. Estende-nos uma genuína bondade do cimo da sua altivez só alcançável àqueles que nada escondem sobre o que são e para o que ali estão. Por debaixo do sarro assoma uma elegância e nobreza antigas. No meio das suas ruas de portas abertas acolhe-nos uma beleza despudorada.
Esta também não é a clássica reportagem que informa sobre os melhores hotéis, restaurantes e bares da cidade para turistas ready-made. Foi uma viagem de orçamento controlado, por isso alugámos um pequeno apartamento e poupámos nas refeições fora. Ao contrário de constituir uma lacuna, tanto para umas férias de Verão como para um artigo de viagens, acabou por ser o que nos abriu as portas de Nápoles e do seu dia-a-dia. Percebemos isso logo no primeiro momento: saímos de manhã para abastecer a casa de mantimentos e já o calor e a humidade abafavam a cidade, o clamor do trânsito zumbia por todos os lados e a fauna napolitana vociferava a plenos pulmões.
Em Nápoles, há nichos de santos por todo o lado

Devemos ter parecido perdidos e confusos com aquele primeiro impacto. De tal maneira que um senhor dos seus cinquenta e tal anos deu por nós e, com aquele jeito italiano de falar com gestos, que no caso dos napolitanos veste uma ginga de permanente desafio, adoptou-nos com esta simples frase: “Ma, cosa stai cercando? [O que estão à procura]?” Tomaso di Borbone, assim se apresentou (mais tarde viemos a encontrá-lo novamente e explicou-nos a origem do seu nome, que se mistura com a história da cidade) e assim também nos entregou o cartão de visita dos napolitanos: curiosos, disponíveis, orgulhosos e, principalmente, sociáveis. “I napoletani hanno un grande cuore! [Os napolitanos têm um grande coração!]”, rematou ele este primeiro encontro, batendo no lado esquerdo do peito com indisfarçável orgulho.
Feios, porcos e bons
Logo ali, além de ficarmos a saber onde comprar a melhor fruta e o peixe mais fresco, percebemos que estávamos a residir em La Sanità, considerado pela intelligentsia dos operadores turísticos um dos bairros perigosos e a evitar, numa cidade onde o alarme generalizado relativo à segurança ultrapassa claramente, e até de forma injusta, a realidade.
Futebol, Deus e Maradona
Em La Sanità embrenhámo-nos nos seus ritmos, conhecemos os vendedores e metemos conversa com os que se demoravam na rua no tal dolce far niente. Estabelecemos a nossa própria vida de bairro com a vizinhança. Ainda que por pouco tempo, fizemos parte de tudo aquilo. Em Nápoles é fácil que assim seja, pois parece que toda a cidade é habitada por uma única e alargada família. Todos falam e exprimem-se da mesma maneira. Nápoles é pobre e é popular.
A rua é onde tudo acontece e as casas são a sua extensão, sempre de portas abertas, numa proximidade que tanto raia a promiscuidade como nos faz sentir gratos e reverentes perante a ternura dos quadros que vislumbramos de soslaio. Os napolitanos não têm pejo nenhum em fazer-se notar e partilham com a comunidade os momentos mais importantes da vida. Afixam cartazes quando alguém morre e colocam fotografias dos falecidos nos inúmeros nichos religiosos kitsch espalhados pela cidade. Lançam valentes fogos-de-artifício de cada vez que alguém festeja um aniversário. Comunicam e insultam-se com papelinhos afixados no interior dos prédios e na rua. Penduram gigantes chupetas e laçarotes de peluche nos portões para celebrar o nascimento de mais um filho.
Na relação com as crianças – e há muitas! – percebe-se o treino familiar e comunitário de todo e qualquer napolitano. É também onde mais se revela a sua bondade. O carinho, o deslumbramento e o cuidado que todos partilham pelas crianças, omissos dos tiques exteriores de autoridade paternal ou até de exagerados protocolos de bom comportamento, fazem dos putos uns napolitanozinhos em potência, crescendo num caldo cultural que não poderia fazer deles outra coisa que não veri napoletani.
Salvar o colapso com fita-cola
Uma parte fundamental do treino para se vir a ser um verdadeiro napolitano é dominar uma scooter - diga-se, em abono da verdade, que devem ultrapassar largamente em número a população. Vimos crianças que ainda nem sequer gatinham a serem transportadas num braço enquanto o outro segura o guiador. É comum verem-se famílias inteiras de um lado para o outro: o pai à frente, o filho mais pequeno entalado entre ele e a mãe, e o mais velho atrás agarrado a esta. Mais frequente ainda é ver crianças de chucha na boca, em pé agarradas ao guiador e encostadas ao banco, enquanto o condutor ziguezagueia pelo trânsito. Há ainda a versão que transporta cães ou bandejas ou três e quatro caixas de pizzas equilibradas num braço. E, finalmente, a scooter de carga, em que mal se percebem as duas rodas por baixo das caixas e sacos. Tudo isto em vertiginosa velocidade, sem capacete, a falar ao telemóvel ou tagarelando de uma mota para outra. É por isso normalíssimo verem-se crianças de 12, 11 ou mesmo dez anos a guiarem estas motas com natural destreza - as scooters são uma extensão dos seus próprios corpos.
O trânsito em Nápoles é uma atracção turística de pleno direito, muito por causa das scooters que surgem de todos os lados (o único conselho que o funcionário do rent-a-car nos deu antes de nos desejar boa sorte foi simplesmente “olhem sempre para a direita”), mas também porque é uma manifestação da espontânea anarquia da cidade. Apesar disso, ou talvez por causa disso, não vimos nenhum engarrafamento ou acidente. Todos buzinam mas ninguém discute. Não há regras, mas todos respeitam o desrespeito. Ninguém liga às faixas de rodagem, as scooters não querem saber de semáforos ou sentidos proibidos e, se por acaso foste o primeiro a enfiar o carro naquele espacinho passando à frente de toda a gente, que bom para ti, devia ter sido eu a ver isso primeiro. O que em Portugal é considerado chico-espertice, em Nápoles é uma instituição tácita. Resta dizer que, quase de forma incongruente, há uma enorme condescendência para com os peões. Embora até estes tenham de se fazer à vida e atirar-se à estrada se não quiserem ficar o dia todo à espera de atravessar a rua, mesmo estando especados em cima de uma passadeira.
 
Monumento a San Genaro
Se é certo que não presenciámos nenhum acidente de trânsito, também é verdade que o estado do parque automóvel é revelador do estilo de condução dos napolitanos e da dificuldade de o fazerem naquelas intrincadas ruas. Não há um único carro ou mota sem mossas, raspões, um retrovisor pendurado, fios descarnados e outros componentes à beira do colapso. E assim seria, não fosse a fita-cola. Tudo ali se resolve com ela. Aliás, a própria cidade passa uma sensação periclitante e sustém-se não se percebe bem como. Com os seus prédios de arquitectura decadente, teias de fios emaranhados, ruas tão estreitas onde dificilmente entra o sol, e paredes que ameaçam ruir a qualquer o momento, toda ela só se mantém graças a uma inventiva engenhosidade: estendais amarrados de uma varanda à outra, rodas de bicicleta a fazer de roldanas puxando baldes com compras, vassouras armazenadas nas paredes exteriores e outras serventias seguras com fita-cola, sempre ela, dizem bem da panóplia de expedientes a que os napolitanos recorrem para resolver qualquer situação. E funciona!
Um golfo, um vulcão, seiscentas igrejas
Geograficamente, há dois factores que sempre marcaram a história da cidade: o golfo de Nápoles e o Vesúvio. Este ficou dramaticamente famoso por em 79 a.C., após uma violenta explosão, ter soterrado Pompeia, Herculano e outras vilas romanas circundantes sob cinzas incandescentes. Visitámos Pompeia à noite e a experiência é marcante, não tanto pela atracção voyeurista da tragédia que ali aconteceu, mas antes porque caminhamos por entre as ruas ainda calcetadas, casas, templos, lojas e outros locais que faziam da cidade o que ela era. É muito fácil imaginarmo-nos a fazer parte desse dia-a-dia. Se esquecermos que o Vesúvio é ainda um vulcão activo e um dos mais imprevisíveis (nesse aspecto pior do que o Etna, na Sicília), olhar Nápoles a partir do seu largo horizonte de terra em meia-lua por onde entram, calmas e cálidas, as águas do mar Tirreno e sobre as quais se ergue como um sentinela o imponente vulcão, já faz valer a viagem. É obrigatório descer ao fim do dia até à beira-mar de Chiaia e aí ficar a beber uma cerveja, Moretti, de preferência, enquanto o sol desliza no horizonte... e depois mergulhar ali mesmo no porto, ainda que só tenhamos trazido boxers vestidos.
 
Catedral de Santa Maria Assunta
Compreende-se, então, que a vantajosa localização da cidade tenha favorecido a fixação de povos e civilizações aqui desde muito cedo. Nápoles começou por ser grega e depois romana. Essa influência é ainda bastante evidente no desenho urbano da cidade. No centro histórico, os Decumani Maggiore e Inferiore são ruas que vêm da costa e irrompem rectilíneas pela cidade adentro. Uma delas, conhecida como Spaccanapoli (literalmente “Divide Nápoles”), é uma rua imensa e vertiginosa. São interligadas por uma numerosa teia de pequenas ruas chamadas Cardini. Percebe-se também, principalmente depois de visitar a costa Amalfitana, que os romanos encarassem esta localização maioritariamente como um local de ócio, aí instalando moradias para os seus momentos de prazer. Talvez por isso, no fabuloso Museu Arqueológico Nacional, além da estatuária e dos bem preservados mosaicos e frescos resgatados às cinzas de Pompeia e Herculano, exista também uma rica e variada colecção de artefactos e pinturas eróticas, isoladas na Sala do Segredo.
O centro histórico, Património da Humanidade da UNESCO, é o epicentro turístico por excelência, e onde a gincana se torna quase um acto de sobrevivência para nos desviarmos das scooters, da multidão e do vibrante comércio. É aqui que estão alguns dos monumentos mais emblemáticos de Nápoles, principalmente igrejas – houve quem nos asseverasse que a cidade tem 600 igrejas, o que, carecendo de comprovação, nos pareceu bastante plausível, tal é a religiosidade das suas gentes – e onde a vida nocturna se concentra à volta da Piazza Bellini.
Piazza Bellini

O bairro espanhol, outro dos situ non grato à noite para qualquer guia de viagem, merece bem uma visita sem destino ou mapa na mão, não só porque se torna praticamente impossível destrinçar a apertada malha urbana, mas porque o que verdadeiramente importa em Nápoles é deixarmo-nos levar ao sabor do espanto. E ele torna-se estranhamente constrangedor quando percebemos que este bairro, dos mais pobres da cidade, vive paredes meias com a Via Toledo, onde estão instaladas algumas das lojas de marca mais caras. Desembocar subitamente de uma quelha recolhida e íntima do bairro espanhol para o mar de glamour e cacarejo social desta via exige um exercício de estômago que dificilmente se apazigua. Ajuda continuar a descer essa rua e vermo-nos surpreendentemente desafogados na enorme Praça do Plebiscito, aceitando então que Nápoles também é isto, esta crueza bruta de contrastes que nos deixa rendidos ao seu charme de ser outra coisa que nunca vivemos até aqui termos chegado. 
Praça do Plebiscito
Futebol, Deus e Maradona 
Ao fim do terceiro dia a dizermos que éramos portugueses sem nunca surgir o maior desbloqueador internacional de conversas – Cristiano Ronaldo – indicava que algo estava podre no reino napolitano. Foi só quando vimos as paredes garatujadas com impropérios cabeludos à Juventus e rolos de papel higiénico decorados com a cara de CR7 é que percebemos de onde vinha o cheiro. O ódio à Juventus só é ultrapassado pelo amor ao Nápoles e a Maradona, que, tal como Deus e os santos, merece inúmeros nichos de verdadeira devoção religiosa espalhados um pouco por todo o lado.
 
A costa Amalfitana tem praias de postal ilustrado
A que horas fecha a praia A costa Amalfitana merece todos os elogios que lhe possamos dispensar, pela sua íngreme beleza, pelo permanente namoro entre o mar e o céu, pelo prazer de conduzir nas suas serpenteantes estradas costeiras, enfim, pela promessa de praias recônditas e únicas. E o problema é mesmo esse: fica-se maioritariamente pela promessa. Em Agosto o trânsito é impraticável, o estacionamento inexistente, tudo se paga, até a entrada nas praias, e há mesmo aquelas que têm horário de abertura e fecho. Restou-nos um daqueles momentos em que a divina providência iluminou um casal carregando toalhas de praia que saltava um muro no meio da estrada. Foi encostar o carro de imediato, saltar o mesmo muro e descer muitas dezenas de degraus até ao paraíso. Não, não se pagava. E não, também não vamos dizer qual o nome dessa praia, cada um tem de procurar e merecer o seu próprio momento de sonho 
O favor

Só falta mesmo falar do elefante na sala. Quando toca a Nápoles, é impossível não pensar imediatamente na Camorra, nome dado à máfia na região de Campania. Escondida a violência e remetida ao folclore no imaginário de qualquer não italiano, o que se sente de forma subliminar nas conversas com os napolitanos é uma tendência indelével e inata para uma hierarquia baseada no favor. Até o arrumador de carros à beira de uma praia, que nos arranjou um lugar e nos deu algumas dicas, fez questão de demonstrar o seu ascendente sobre nós fazendo-nos anunciar de forma bem audível aos rapazes que guardavam a concessão da praia: “Ó fulano, está tudo bem, estes estão comigo!”, disse-lhes. São estas e outras pequenas solicitudes, tão espontâneas naquela maneira de evidenciar o domínio sobre alguém ou uma situação, que fazem subentender onde se funda a pirâmide."Bruno Ramos(Texto e Fotos), Público, 09.02.2019

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A Vida

                 
                       As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.
                                                                Victor Hugo

Mas há tempestades que não arrastam palavras: levam-nos.  Enchem o horizonte, num desafio de  sedução e magnificência. Sem armas , capturam-nos em deslumbramento , permitindo à emoção ser parte de uma nova tempestade.  
E de tempestade em tempestade, de bonança em bonança, reerguemo-nos numa eufonia que não cessa de se transformar e a que chamamos  VIDA.
Antonio Vivaldi, (Veneza, 4 de Março de 1678 — Viena, 28 de Julho de 1741),  teceu "The Storm" ( Four seasons), uma peça magnifica.
Ei-la , numa brilhante  interpretação de  The Divertissement Chamber Orchestra. A direcção é de  Lesya Melnik. No Violino solo  está  Ilya Ioff. 
O registo foi realizado por  A.Polagaev e o  som por  A.Barashkin.




terça-feira, 20 de agosto de 2019

Um mundo sem fronteiras

A ideia de um mundo sem fronteiras 
Por Achile Mbembe
"A utopia da livre circulação entre os países é hoje solapada pelo reforço das restrições de movimento que reproduzem e intensificam a vulnerabilidade de grupos estigmatizados e mais marcados racialmente
A capacidade de decidir quem pode mover-se, quem  pode  estabelecer-se onde e sob quais condições, ocupa cada vez mais o centro de lutas políticas por soberania, nacionalismo, cidadania, segurança e liberdade. Com a expansão colonial do ocidente, e de modo mais decisivo com o advento do capitalismo, a raison d’être da fronteira  relaciona-se a questões­-chave como: a quem pertence a terra? Quem tem o direito de reivindicar partes dela e os vários seres que nela habitam? Quem determina a sua distribuição ou divisão? Ao enquadrar a questão da fronteira dessa forma, estou a tentar mostrar que o poder da fronteira está na capacidade de regular as múltiplas distribuições das populações – humanas e não humanas – sobre o corpo da terra, e, assim, afectar as forças vitais de todos os tipos de seres.
No século XXI, torna-­se evidente um desejo global renovado dos cidadãos e de seus respectivos Estados por um controle mais rígido da mobilidade. Para onde quer que se olhe, o impulso é em direcção ao cerco ou, em todo caso, a uma dialéctica mais intensa de territorialização e desterritorialização, de abertura e fechamento. Ganha força a crença de que o mundo seria mais seguro se ao menos os riscos, as ambiguidades e as incertezas pudessem ser controladas, se ao menos as identidades pudessem ser fixadas de uma vez por todas. Técnicas de gestão de risco estão se tornando, cada vez mais, um método para governar a mobilidade. Sobretudo na medida em que a fronteira biométrica se expande para múltiplos domínios, não apenas na vida social, mas também no corpo, o corpo que não é meu.
Gostaria de prosseguir nessa linha de argumentação sobre a redistribuição da terra. Não apenas por meio do controle dos corpos, mas do controle do movimento em si e de seu corolário, a velocidade, pois é a isso que as políticas de controle migratório estão de facto relacionadas: controlar os corpos, mas também o movimento. Mais especificamente, quero investigar se, e sob quais condições, poderíamos reengendrar a utopia de um mundo sem fronteiras, e, por extensão, reengendrar um mundo sem fronteiras, uma vez que, pelo que sei, a África é parte do mundo. E o mundo é parte da África.
É importante levar em consideração que a questão de um mundo sem fronteiras é uma intenção obviamente utópica. Desde a sua origem, o “movimento”, ou mais precisamente “a ausência de fronteiras”, tem sido central para várias tradições utópicas. O próprio conceito de utopia refere-­se ao que não tem fronteiras, a começar pela imaginação em si. O poder da utopia consiste na capacidade de representar a tensão entre a ausência de fronteiras, o movimento e o lugar, uma tensão – se observarmos com cuidado – que marcou as transformações sociais na era moderna. Essa tensão continua nas discussões contemporâneas sobre processos sociais baseados no movimento, especialmente a migração internacional, as fronteiras abertas, o transnacionalismo e até o cosmopolitismo. Nesse contexto, a ideia de um mundo sem fronteiras pode ser um recurso poderoso, embora problemático, para o social, o político e até mesmo para a imaginação estética. Por causa da actual atrofia da imaginação utópica, o espírito do nosso tempo foi colonizado por imaginários apocalípticos e narrativas de desastres cataclísmicos e futuros desconhecidos. Mas que política as visões do apocalipse e da catástrofe engendram, se não uma política da separação, em vez de uma política da humanidade, de espécies começando a existir plenamente? Porque nós herdamos uma história em que a norma é o sacrifício recorrente de algumas vidas para a melhoria de outras, e porque estes são tempos de medos profundamente enraizados, incluindo o medo de um planeta dominado por outras pessoas de raças diferentes; por tudo isso, a violência racial está amplamente codificada na linguagem da fronteira e da segurança. Como resultado disso, as fronteiras contemporâneas correm o risco de se tornarem lugares de reforço, reprodução e intensificação da vulnerabilidade para grupos estigmatizados e desrespeitados, para os mais marcados racialmente, cada vez mais dispensáveis, aqueles que, na era do desamparo neoliberal, pagam o preço mais alto pelo período em que mais se construíram prisões em toda a história humana. Aqui me refiro à prisão, às paisagens carcerárias de nosso mundo, precisamente como a antítese do movimento, da liberdade de se mover. Não há oposição mais dramática à ideia de movimento do que a prisão. E a prisão é uma característica-­chave da paisagem dos nossos tempos.
Ao propor um reexame da questão de uma África sem fronteiras e de um mundo sem fronteiras, gostaria de manter distância dos tratamentos dominantes que esse assunto tem recebido. Isto é, sob o signo de Kant e a  sua promessa de um cosmopolitismo sem limites, e sob o signo de um individualismo liberal visto como antídoto para os impulsos fascistas arraigados na governança e na burocracia europeias. Embora pareçam dois mundos diferentes, ambas as abordagens são articuladas em torno do conceito das quatro liberdades.

AS QUATRO LIBERDADES DE MOVIMENTO
No pensamento liberal clássico, existem três liberdades fundamentais: antes de tudo, a liberdade de ir e vir. Dentro da liberdade de ir e vir, existe a liberdade de movimentação do capital, a maior prioridade. Mas, uma vez que não há capital sem bens, existe a liberdade de movimentação dos bens. A terceira é a dos serviços, e, especialmente nestes nossos tempos, a liberdade de movimento daqueles que podem prestá-­los. Essas são as três liberdades fundamentais; a quarta é a liberdade de movimento das pessoas. Os compromissos tradicionais com a ideia de um mundo sem fronteiras visavam precipitar o advento dessa quarta liberdade. De acordo com essa configuração, num mundo sem fronteiras haveria liberdade de movimento para: o capital, os bens, os serviços e as pessoas. Essa movimentação, essa liberdade de movimento não seria restrita ao núcleo de países ou Estados economicamente ricos, como é o caso actualmente. O Tratado de Schengen,1 por exemplo, inclui apenas um núcleo de países europeus. De facto, se  tem um passaporte americano, basicamente pode ir aonde quiser. O mundo pertence-lhe. Mas não é assim que funciona para todo habitante do nosso planeta. Na configuração que mencionei, a quarta liberdade, a capacidade de se mover pelo planeta, não estaria mais restrita a europeus e americanos. Seria um direito radical que todos os indivíduos teriam pelo simples facto de serem humanos. Um direito estendido aos pobres da terra. Voltamos sempre à questão da terra. Não haveria vistos, em algumas instâncias da quarta liberdade de movimento não haveria cotas, e nenhuma categoria bizarra na qual se enquadrar. Seria possível simplesmente pegar a estrada, um avião, um trem, um barco, uma bicicleta. O direito de não ser discriminado seria estendido a todos. Nos Camarões, até o início dos anos 1980, era possível viajar para a França apenas com o cartão de identidade. A maioria das pessoas ia à França e voltava. Não iam porque queriam se estabelecer lá. A maioria das pessoas quer viver no lugar ao qual “pertence”. Mas querem poder ir e vir. E é mais provável que vão e venham quando as fronteiras não são hermeticamente fechadas. Logo, o mundo sem fronteiras imaginado pela quarta liberdade de movimento é baseado em duas premissas: o direito à não discriminação e os arranjos circulatórios e pendulares de migração.
Para elucidar ou apresentar de modo diferente as questões de um mundo sem fronteiras é preciso contrastar dois paradigmas. Examinar a ideia liberal de um mundo sem fronteiras por meio do conceito de liberdade de movimento, e contrapô-­la aos modos como se compreendia a movimentação no espaço da África pré­-colonial. O contraste entre esses dois paradigmas nos dará, espero, recursos conceituais para expandir o projecto utópico de um mundo sem fronteiras.

A TRADIÇÃO LIBERAL INDIVIDUALISTA
Falar em pensamento clássico liberal, sabemos, é extremamente complicado. Estou propondo um arquétipo, que precisa ser desconstruído adequadamente. E aqui vou me referir em especial a uma obra recente, Movement and the Ordering of Freedom, de Hagar Kotef, uma académica israelita que lecciona na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres. Pode usar a imaginação e adivinhar por que uma israelita está interessada nisso. O que Kotef demonstra nessa obra é como o pensamento político liberal, ao imaginar a possibilidade de um mundo sem fronteiras, carregou sempre uma contradição. Seu argumento é que essa contradição decorre da forma como o pensamento liberal compreende o movimento. Ela mostra que, de facto, dentro do pensamento liberal clássico, duas configurações dominantes de movimento entram constantemente em conflito, de modo que, às vezes, uma anula a outra. O movimento aqui é visto, ao mesmo tempo, como manifestação das liberdades e como interrupção, ameaça à ordem. Uma das funções do Estado é, portanto, fabricar conceitos de ordem, estabilidade e segurança que possam ser conciliados com seus conceitos de liberdade e movimento. Essa é a contradição. Kotef argumenta que o Estado liberal clássico é inimigo das pessoas que circulam incansavelmente. Essas pessoas se tornam um outro inassimilável. Não se pode assimilá-­los. Eles estão em movimento constante. Em tudo isso, há uma repercussão colonial. O maior problema do Estado colonial no continente africano, do século XIX em diante, era garantir que as pessoas ficassem no lugar. Foi difícil. Elas circulavam constantemente. Eram “incapturadas”.
Portanto, o negócio do Estado é conseguir capturá-­los. Sem isso, a soberania não significa nada. Soberania significa capturar um povo, capturar um território, delimitar fronteiras. Isso, por sua vez, permite que se exerça o monopólio do território, claro, o monopólio sobre as pessoas nos termos do uso legítimo da força e, o que é muito importante – porque todo o resto depende disso –,   o monopólio sobre a cobrança de impostos. Não se pode cobrar impostos de quem não tem endereço. O Estado vê essas pessoas como inimigas – tanto da liberdade, porque eles não a exercem dentro dos limites, quanto da segurança e da ordem. Não se pode construir uma ordem com base no que é instável.
O mesmo Estado é amigo do movimento autorregulado. Porquê? Porque a liberdade nesse caso é entendida como uma questão de moderação, de autorregulação. Não está associada ao excesso – o movimento excessivo imediatamente invoca problemas de segurança. Kotef então mostra que o movimento não só precisa ser contido por um aparato de mecanismos disciplinares, como deve ser reconciliado com a liberdade e, em certa medida, com o autocontrole. Mas não se supõe que todos os sujeitos tenham capacidade de controlar ou regular a si mesmos. Nem todo mundo consegue se conter. Portanto, alguns movimentos são rotulados como liberdade, e outros são considerados impróprios e percebidos como uma ameaça. Essa é a bifurcação que existe no pensamento clássico liberal. É o espectro que assombra os Estados liberais clássicos, desde aquela época até agora. Ainda não nos livramos desse espectro.
Os Estados liberais clássicos tentaram resolver essa contradição pelo gerenciamento da mobilidade, que está de volta à pauta agora na Europa e até na África do Sul, onde tenho feito alguns trabalhos com o Departamento de Assuntos Internos a respeito da regulação de migrações interafricanas. O conceito-­chave é “mobilidade gerenciada”. Então, no quadro da mobilidade gerenciada, certas categorias da população são vistas o tempo todo como possível ameaça, não apenas para si mesmas e sua própria segurança, mas também para a segurança dos demais. Acredita-­se que essa ameaça pode ser reduzida se os movimentos dessas pessoas forem limitados e se elas forem domesticadas e submetidas a algum tipo de reforma.

O MODELO AFRICANO
No modelo clássico liberal, segurança e liberdade passam a ser definidas como um direito de exclusão. A ordem, nesse modelo, diz respeito à garantia de uma organização desigual das relações de propriedade. Assegurar as fronteiras da nação acompanha a afirmação dos limites da raça. Agora, redefinir os limites da raça nesse modelo exige uma definição apropriada dos limites do corpo; a centralidade do corpo nos cálculos de liberdade e de segurança.
Antes de mais nada, devo dizer que a África pré­-colonial pode não ter sido um mundo sem fronteiras, pelo menos não no sentido em que as temos definido; as fronteiras existentes sempre foram porosas e permeáveis. A função de uma fronteira, na realidade, é ser cruzada. É para isso que elas servem. Não há fronteira concebível fora desse princípio, a lei da permeabilidade. Como atestam as tradições de comércio de longa distância, a circulação era essencial. Era fundamental na produção de formas culturais, arranjos políticos, configurações económicas, sociais e religiosas. O veículo mais importante para a transformação e a mudança era a mobilidade. Não era a luta de classes, no sentido em que a compreendemos. A mobilidade era o motor de qualquer tipo de transformação social, económica ou política. Aliás, era o princípio indutor por trás da delimitação e da organização do espaço   e dos territórios. Assim, o princípio primordial da organização espacial era o movimento contínuo. E isso ainda é parte da cultura hoje. Parar é correr riscos. Precisa de estar em constante movimento. Sobretudo em situações de crise, essa é a própria condição da sobrevivência. Se  não se move, as chances de sobreviver diminuem. Logo, o domínio sobre   a soberania não era expresso exclusivamente por meio do controle de território, marcado fisicamente com fronteiras. Como era, então? Se não se controla um território, como se pode exercer a soberania? Como se pode extrair qualquer coisa, uma vez que, pelo que sabemos, o poder se expressa também, se não essencialmente, por meio de alguma forma de extracção?
Tudo isso era representado pelas redes. Redes e encruzilhadas. A importância das redes e das encruzilhadas na literatura africana é impressionante. Leia Soyinka, leia Achebe, leia Tutuola.2 Estradas e cruzamentos estão por toda parte na literatura deles. As encruzilhadas, os fluxos de pessoas e os fluxos da natureza, ambos em relações dialécticas, porque nessas cosmogonias as pessoas são impensáveis sem o que chamamos de natureza. Isto posto, enquanto a virada do Antropoceno parece uma novidade em parte do nosso mundo hoje, nós sempre vivemos assim. Não é nenhuma novidade. Porque não se pode pensar nas pessoas sem pensar nos não humanos. Leia Tutuola, é um mundo de humanos e não humanos interagindo, agindo uns com os outros. Não quero exagerar. Espaços geográficos fixos, como cidades e vilas, existiam. Pessoas e coisas poderiam estar concentradas num local específico. Esses lugares podiam até se tornar a origem do movimento, e havia ligações entre eles, como estradas e rotas de voo, mas os lugares não eram descritos por pontos ou linhas. O mais importante era a distribuição do movimento entre os lugares. O movimento era a força motriz da própria produção de espaço e deslocamento, se acreditarmos em algumas daquelas cosmogonias. Tenho agora em mente a cosmogonia Dogon, que foi estudada particularmente por Marcel Griaule, ou outras cosmogonias na África Equatorial analisadas por antropólogos e historiadores como Jan Vansina, John M. Janzen e outros. O movimento em si não era necessariamente relacionado ao deslocamento. O mais importante era o quanto os fluxos e suas intensidades se cruzavam e interagiam com outros fluxos, as novas formas que estes poderiam assumir quando se intensificavam. O movimento, especialmente entre os Dogon, poderia levar a desvios, conversões e intersecções. Isso era mais importante do que pontos, linhas e superfícies, que, como sabemos, são as referências cardeais na geometria ocidental. Logo, o que temos aqui é outro tipo de geometria, da qual derivam conceitos próprios de fronteiras, poder, relações e separação.
Se quisermos captar recursos alternativos, como um vocabulário conceitual, para imaginarmos um mundo sem fronteiras, eis aqui uma fonte. Não é a única. Mas queremos reunir os arquivos do mundo em geral, não apenas os documentos ocidentais. Na verdade, os arquivos ocidentais não nos ajudam a desenvolver a ideia de um mundo sem fronteiras. O arquivo ocidental está baseado na cristalização da ideia de fronteira.
Nessa configuração, riqueza e poder, ou a riqueza nas pessoas, digamos assim, sempre superou a riqueza nas coisas. Há duas formas de riqueza. Pode ser rico de acordo com a sua capacidade de aglutinar em torno de si clientes, familiares etc. Ou pode ser rico simplesmente por ter acumulado uma quantidade imensa de coisas. Eis aqui uma dialéctica de quantidades e qualidades. E múltiplas formas de associação sempre estiveram disponíveis. Como alguém se tornava parte de algo? Através de qual janela se pode entrar na casa? Havia muitas formas de associação, não classificações rígidas de que se é ou um cidadão ou um forasteiro. Entre um e outro havia todo um repertório de formas alternativas de associação – construir alianças por meio de negócios, casamento ou religião, incorporar aos regimes existentes novas relações comerciais e pessoas refugiadas ou em busca de asilo – essa era a regra. A dominação se dava por meio da integração dos forasteiros. Todo tipo de forasteiros. E a noção de povo – não a de nação – incluía não apenas os vivos, mas também os mortos, os não nascidos, os humanos e os não humanos. A comunidade era impensável sem algum tipo de dívida fundadora, com duas formas principais de endividamento. Existe a dívida expropriatória, como alguns de nós estamos devendo para bancos. Mas, nessas constelações, há um tipo diferente de dívida que constitui a própria base da relação. É o tipo de dívida que abrange não só os vivos, o presente, mas também aqueles que vieram antes e os que virão depois de nós e com quem também temos obrigações – a corrente de seres que inclui, mais uma vez, não apenas humanos, mas também animais e o que chamamos de natureza.

O DIREITO À MORADIA
Gostaria de concluir apresentando uma ideia que retirei da constituição de Gana. Ela desenvolveu um conceito que não encontrei em nenhum outro lugar. É um novo direito fundamental que eles chamam de “direito à moradia” e que querem incluir na lista dos direitos humanos tradicionais. A ideia desse direito à moradia me parece a pedra fundamental para qualquer tentativa de reimaginar a África como um espaço sem fronteiras. Em um nível histórico profundo, os africanos e as lutas diaspóricas pela liberdade e pela autodeterminação sempre estiveram entrelaçados à aspiração de se mover sem amarras. Seja em condições de escravidão ou sob domínio colonial, a perda de nossa soberania resultou automaticamente na perda de nosso direito à livre circulação. Essa é a razão pela qual o sonho redentor de uma nação africana livre e poderosa tem sido ligado de modo inextrincável à recuperação do direito de ir e vir sem obstáculos ao longo de nosso continente colossal. De facto, a nossa história na modernidade tem sido, em grande medida, de constante deslocamento e confinamento, migrações coagidas e trabalhos forçados. Pense no sistema de plantation nas Américas e no Caribe. Pense nos Black Codes e Pig Laws,3 ou no status de vagabundagem depois do fracasso da reconstrução dos Estados Unidos em 1887. Pense nas chain gangs,4 trabalhando em empreitadas como construção de estradas, escavação de valas, demolição e desmatamento. Pense no Code de l’indigénat,5 pense nos Bantustões,6 nas reservas de trabalho no sul da África e na indústria de complexos carcerários hoje nos Estados Unidos. Em cada exemplo, ser africano e ser negro significa ser relegado a um entre os muitos espaços de confinamento que a modernidade inventou.
A corrida para a África no século XIX e a demarcação de suas fronteiras de acordo com as linhas coloniais transformaram o continente num enorme espaço carcerário e fizeram de cada um de nós um imigrante ilegal em potencial, impedido de circular salvo sob condições cada vez mais punitivas. Na realidade, o aprisionamento se tornou a precondição para a exploração do nosso trabalho, e por isso as lutas pela emancipação racial e por melhorias das condições de vida dos negros são tão entrelaçadas às lutas pelo direito de circular livremente. Se quisermos concluir o trabalho de descolonização, precisamos derrubar as fronteiras coloniais em nosso continente e transformar a África num vasto espaço de circulação para os africanos, para seus descendentes e para todos aqueles que quiserem ligar seus destinos ao nosso continente."
Achille Mbembe , em ensaio publicado na Revista Serrote nº 31. Tradução de Stephanie Borges
  1. Tratado que criou uma zona de livre circulação de cidadãos entre países europeus, na qual os controles de fronteira foram abolidos, salvo em casos excepcionais. Começou com cinco países, em 1985, e hoje reúne 26 Estados. [N. da T.]
  2. O autor se refere a três dos principais autores da literatura nigeriana do século XX: Wole Soyinka (1934), premiado com o Nobel de Literatura em 1986; Chinua Achebe (1930-­2013); e Amos Tutuola (1920­-1997). [N. da T.]
  1. Black Codes eram leis discriminatórias promulgadas após o fim da guerra civil nos EUA, que permitiam a pessoas negras o direito à propriedade privada, mas as proibiam de votar, testemunhar contra brancos ou servirem como jurados. As leis que criminalizavam o desemprego como vagabundagem e puniam pessoas negras por roubo de comida ficaram conhecidas como Pig Laws. [N. da T.]
  2. Com o fim da Guerra Civil e da escravidão nos EUA, os estados do Sul passaram a usar o trabalho forçado de prisioneiros, na maioria negros, em obras de infraestrutura. Os grupos eram conhecidos como chain gangs por serem acorrentados pelos pés para evitar fugas. [N. da T.]
  3. Leis coloniais francesas que restringiam os direitos da população muçulmana da Argélia em 1881, extintas apenas depois da guerra de independência argelina, em 1962. [N. da T.]
  4. Territórios onde os povos bosquímanos foram segregados pelo apartheid em territórios supostamente autónomos dentro da África do Sul. [N. da T.


O camaronês Achille Mbembe (1957) é professor de história e ciência política da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e na Duke University, nos EUA. É um dos mais originais pensadores contemporâneos nas questões relacionadas à descolonização, à escravidão e ao racismo. É autor de Crítica da razão negra e Necropolítica, ambos publicados no Brasil pela n-­1. Este ensaio foi apresentado em Março de 2018 como parte da tradicional série Tanner Lectures on Human Values, na Universidade Yale.
Figura ascendente na arte africana contemporânea, Serge Alain Nitegeka (1983) nasceu no Burundi, mas ainda na infância se viu forçado ao exílio com a família devido a conflitos políticos locais. Passou por vários países africanos até se instalar em Joanesburgo, na África do Sul, onde vive desde 2003. As obras aqui publicadas pertencem à série Ode To Black, cortesia da galeria Stevenson (Cidade do Cabo e Joanesburgo).