sexta-feira, 10 de abril de 2026

Os livros da Editora Guerra & Paz no dia do 20º aniversário

 

Guerra e Paz faz 20 anos no dia 10 de Abril. A Gradiva fez 45 anos em Fevereiro. A Euforia fará 3 em Setembro.
Esta é a newsletter de aniversário. Com um abraço enternecido a quem tem a paciência de me ler. 
Manuel S. Fonseca, editor do Grupo Guerra e Paz

tanta guerra, tanta paz
    faz agora 20 anos
«O que eu gosto de si, senhora Dona Agustina!» Os leitores desta newsletter desculpar-me-ão o começo abrupto, mas há 20 anos, com Agustina, começava a Guerra a Paz editores. No Gólgota e na Buenos Aires, Porto e Lisboa, pedi e implorei que Agustina escrevesse sobre a história de Portugal, sobre essa manta de lealdades e traições, de mistérios e milagres em que se deita a nossa ingente identidade. Dividi a história de Portugal em 12 grandes períodos, elegi três episódios marcantes de cada período e Agustina, uma Agustina regina, escolheu um em cada três, convertendo esse episódio numa «ópera» e com as doze «óperas», a que depois acrescentou uma 13.ª, ofereceu-me a Fama e Segredo na História de Portugal, o primeiro livro da Guerra e Paz editores, a que logo juntei o mais comovente carteio de dois escritores portugueses, agora reeditado com o título Sophia-Sena: as Cartas.
Faz 20 anos no dia 10 de Abril. E o que começa com Agustina tinha de continuar com Agustina. Dizia-me António Lobo Antunes: «Manuel, o que eu gosto da Agustina. Ora ouça como ela escreve…» e dizia-a de cor, eludindo o tempo, a voz a tremer como se nos escutasse o ouvido de Agustina. E foi a esse ouvido perfeitinho que fui buscar o livro com que a Guerra e Paz comemora os seus 20 anos, o Apocalipse de Albrecht Dürer visto por Agustina Bessa-Luís. Foi Mónica Baldaque, filha de Agustina, depois com uma mão de Lourença, a neta, quem me chamou a atenção: Agustina escrevera sobre as xilogravuras de Albrecht Dürer, um texto visionário na forma de «ler e sentir arte», na linha do que para mim escreveria depois sobre Paula Rego, no célebre As Meninas. Livro há muito esgotado, é esse Apocalipse, renovado, que assinala os 20 anos da Guerra e Paz, numa edição enriquecida, grande formato, capa dura, papel de enternecer a mão, com o apoio da Fundação Gulbenkian, em cujo auditório 2, no dia 10 de Abril de 2006, às 18:30 nasceu a Guerra e Paz. Obrigado a todos por este reencontro.
E, já agora, Senhora Dona Agustina, veja se gosta dos livrinhos que juntei para fazerem companhia ao seu Apocalipse. Ora veja: o menino Marcel Proust vem de madalena com o seu Elogio da Leitura; tenho a certeza de que me aprova os arroubos místicos da singela Simone Weil em A Gravidade e a Graça; e, por certo, não lhe parece mal, pois não, trazer o recolhido contraponto oriental dos Ensinamentos Zen do Mestre Huang-Po; como estou seguro de que deitará um rabinho do olho às deambulações de Sir George James Frazer por rituais, sacrifícios, mortes de reis e deuses no volume 2, A Morte do Deus, de O Ramo de Ouro, Um Estudo Sobre Magia e Religião, um dos Livros Não se Rendem, que a Fundação Manuel António da Mota tanto têm apoiado. E nos próximos meses, para celebrar 20 anos, vem aí a publicação de Guerra e Paz, de Tolstoi (tinha de ser!) e um monumental O Dragão Chinês: uma Enciclopédia. Surpresas para meses a vir.
História do Catolicismo, de Yves Bruley, reforça a colecção A Minha Estante, e ainda em Abril, a Guerra e Paz, orgulhosa dos seus 20 anos, alia-se a João Pedro George dando voz às revelações do João sobre as relações de Fernando Pessoa com sua mãe e publica uma série de poemas inéditos da mãe do poeta. Minha Querida Mamã faz-nos entrar no que foi o ambiente em que, afinal, Pessoa foi criado e mimado.
E Abril fecha com dois romances portugueses, cada um seguindo uma tradição deferente. Raquel Fontão inscreve-se num género, o terror, e Nada Há a Temer cumpre com garbo, numa cabana e num espaço de animais e sombras, todos os requisitos do género.
Salvador Furtado, numa estreia prometedora, oferece-nos Entre a Loucura e a Graça, um romance que num notável equilíbrio de trama, narrativa, diálogos e personagens, consegue ainda, num périplo à Somerset Maugham, interrogar-se sobre o sentido da vida ou, como diria Agustina, sobre as estações da vida.
«Senhora dona Agustina, gosto muito da companhia que, há 20 anos, faz à Guerra e Paz editores. O seu Apocalipse é o sopro de que as 20 velinhas do nosso bolo de aniversário estavam mesmo a precisar!»
euforia
e a Rita a levá-la para o terceiro aniversário
Antes de fazer os 3 anos, que se cumprem a 26 de Setembro, a euforia não reconhece fronteiras… nem as da morte, como o romance da Cate Coelho, Unidos Além da Morte, não hesita em provar-nos. E antes de chegar à Netflix, Navessa Allen, autora do futuro, propõe que entremos Em Jogo. Jogam um homem e uma mulher, ele odeia aquela mulher, ela odeia aquele homem. É melhor que não ponham as mãos em cima um do outro.

livros Gradiva
com o Guilherme por companhia

Quantas vezes o Guilherme Valente soprou as velas dos aniversários da Gradiva? Quarenta e cinco, digo eu. Soprou-as, em 45 Fevereiros, ao lado de Luís Portela, um autor reservado, como pede a espiritualidade que advoga em Da Ciência ao Amor; soprou-as ao lado do extraordinário historiador que é Luís Filipe Thomaz, autor de A Expansão Portuguesa; soprou-as, «julgo que foi em Macau, Guilherme, não foi?», ao lado do Umberto Eco de que agora voltamos a publicar O Nome da Rosa. Estes são três dos livros Gradiva que este mês voltam às livrarias portuguesas, com novas capas e novas edições.
E é assim também com Stephen Hawking, por que é sempre nova a interrogação sobre a origem e o destino do universo: A Teoria de Tudo é, por isso, a mais vertiginosa viagem que se pode fazer ao lado da mente brilhante de Hawking, uma viagem aos segredos dos buracos negros e do espaço-tempo. Para quem queira conhecer «a mente de Deus», disse Hawking.
Faço um parêntesis para falar de um livro que devia ser um clássico da gestão e leitura para todos os nossos ministros e primeiros-ministros, O Princípio de Peter, de Laurence J. Peter e Raymond Hull. Este é um livro que gerações e gerações, preocupadas com a competência e a incompetência, no privado e no público, deviam ler. Como todos os livros que são mesmo bons, O Princípio de Peter tem muito sentido de humor.
Nos livros da Gradiva deste Abril quase cega o esplendor de Expiação, de Ian McEwan – será o seu melhor romance? – uma das grandes ficções do século XXI. Romances e livros perdidos, tesouros de três milénios, é o que Oliver Tearle recolhe e disseca em Biblioteca Secreta, contando-nos através da história desses livros uma outra história do mundo.
E a Gradiva fecha o mês com talento português: a escrita é de Francisco Ramalheira e o romance chama-se O Último Espião do Reich, e nele, por um daqueles acidentes com que o cosmos nos intriga, se cruzam as vidas de Hitler no seu bunker de Berlim e a de um carteirista de Alfama que, em Janeiro de 1945, saca de bolso alheio a carteira errada. Ou será a carteira certa?
Da sua tão certa carteira é que os meus leitores vão mesmo precisar para terem a companhia de tantas obras-primas. Mas com os livros quem é que se atreve a não ser sumptuário?"
Manuel S. Fonseca, editor do Grupo Guerra e Paz
 A Guerra e Paz celebra vinte anos de histórias, encontros e páginas viradas. Duas décadas dedicadas aos livros, aos autores e aos nossos queridos leitores que nos acompanham ao longo deste percurso.
Para assinalar esta data tão especial, publicamos uma obra verdadeiramente única: Apocalipse de Albrecht Dürer. Em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, chega uma cuidada edição de luxo, em capa dura e a cores, que reúne o olhar singular de Agustina Bessa-Luís e as icónicas gravuras de Dürer, num diálogo artístico e literário de rara beleza.


Apocalipse de Albrecht Dürer
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PRÉ-VENDA
ENTREGA A PARTIR DE 21 DE ABRIL
"Uma edição soberba de luxo, em capa dura, a cores, com o texto de Agustina e as gravuras de Dürer.
Agustina escreve sobre o Apocalipse cum figuris de Dürer, um conjunto de imagens em que pulsa o assombro e a angústia, porventura o terrível «silêncio do céu» perante o turbilhão dos conflitos da terra, turbilhão em que o temor da invasão otomana da Europa e da consequente devastação e catástrofe eram medos primordiais.
Quem leia e siga Agustina «não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» porque, entre os livros abertos, este livro que agora abrimos de Agustina é um livro aberto para a vida. A exuberância, a reeducação pela glória, a que a escrita de Agustina nos convida, com as suas caldeiras de azeite fervente, os seus milagres, forma de reviver e transcender o «espasmo de uma época» que as gravuras de Dürer representam, só têm igual no «grito duma águia solta pelo espaço». Eis, nos vinte anos da Guerra e Paz editores, o grito de águia e o voo imortal de Agustina. Para nos resgatarem de todos os apocalipses."
Manuel S. Fonseca, editor
«Divide-se o texto em quinze capítulos, e cada gravura é comentada por Agustina, contextualizando a época e os seus intervenientes, revelando um conhecimento profundo da História e da Alma. É impressionante o número de grandes textos lidos e anotados por Agustina, em que estuda as épocas que em todos os aspectos influem para o aparecimento desta linguagem de fábula.»
                          Mónica Baldaque

Nota de LP
À Guerra & Paz apresentamos gratas felicitações por nos permitir o inefável e renitente vício da leitura. Que prazer nos tem oferecido o editor Manuel S. Fonseca ao  rechear um catálogo, um repasto tentador , e, através de preciosa newsletter mensal ,  dar-nos conhecimento de tal iguaria. 
A nossa gratidão, Manuel S. Fonseca.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A saudade de Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa ( 25 Maio 1930 - 9 Abril 2024)

 

O narrador comum narra como qualquer coisa mais ou menos podia acontecer. O bom narrador faz acontecer qualquer coisa diante dos nossos olhos como se estivesse presente. O mestre narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo.
         Hugo von Hofmannnsthat 


Recordar Eugénio Lisboa, numa data evocativa da sua morte, 9 de Abril de 2024, é sempre um exercício doloroso para quem  teve o privilégio de  o conhecer. O vazio que deixou apenas fica menos opressivo pela leitura da sua obra. A sua voz retorna como se se infiltrasse nas páginas para nos fazer acreditar que não está ausente. A sua presença impõe-se tal é a magia da sua escrita transformando esse exercício  num exercício de extrema riqueza.
Eugénio Lisboa, num pequeno ensaio " O tal prazer da escrita", de 20 de Junho de 2023, afirmava o seguinte:

A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores. E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.

É nesse universo prodigioso que qualquer dos seus leitores mergulha. As palavras certas  encontradas por este exímio escritor curam-nos pela alegria que nos dá ao encontrar o inefável salvífico.
Eugénio Lisboa tem uma obra plural . Volumosa e diversa. Em todos os géneros, em que ela se estende,  ressalta sempre o escritor profundamente culto, de uma  extraordinária erudição  que tem por trás o homem sensível, de uma extrema humanidade e de uma  simplicidade contagiante.
Entre mais de  meia centena de obras, publicou sete livros de Memórias sob o título "Acta Est Fabula" e não cinco como tinha planeado. Ao fazê-lo permitiu um novo fôlego às Letras Portuguesas. 
No Volume III de  Acta Est Fabula, Memórias -III - Lourenço Marques Revisited, informa  de que:

Escrever memórias, passados os oitenta, é um atrevimento. Planeá-las em cinco volumes é pura loucura. Ninguém me podia assegurar que viveria o tempo suficiente para os escrever todos. 
A razão de saltar do primeiro para o terceiro volume ( sem redigir o segundo) é simples: tenho 83 anos e nada me garante que terei vida para redigir os ambiciosamente sonhados 5 volumes. Gostaria em todo o caso, de poder deixar escritos os tomos que dizem respeito à minha vida em África. Foi lá que comecei, mesmo que não vá ser lá que acabo. Esses dois livros, eu devo-os à cidade de Lourenço Marques e ao espaço africano e ao mar africano e à luz africana. Faço questão de pagar essa dívida. O resto será feito se os deuses deixarem.  

Eugénio Lisboa é um prodigioso  mestre, "narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo." Pinta em palavras a sua África . Há uma  estranha coincidência de o dia do seu aniversário ( 25 de Maio de 1930) ser também, a partir de 1972, o Dia de África já que  Eugénio Lisboa  tem uma alma africana, embora  Homem de várias pátrias."
 
AQUELA ÁFRICA NÃO ACABAVA

A África, onde nasci, sobrava.
Era África por todos os lados,
olhava-se e nunca mais acabava,
nasciam pra sempre laços sagrados.

Nascer ali era ver o começo
de tudo: a areia da praia, o mar,
a chuva grossa, o sol quente, sem preço,
os mistérios do sexo a acenar.

A grandeza prometia grandeza,
os sonhos em nós não eram mesquinhos!
Visávamos grande, com a certeza

de irmos abrir bem novos caminhos!
Estar bem dentro daquele continente
não era dado a pequenina gente!
                             17.03.2024
Eugénio Lisboa

E recordar Eugénio Lisboa é reler a sua  obra. Nela está o poeta, o ensaísta , o singular crítico literário, o memorialista , o diarista, o cronista,  um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa dos séculos XX e XXI.
MEMENTO MORI

Este mar não vai desaparecer.
O que vai desaparecer sou eu.
Este mar vai continuar a ser.
Deixar de vê-lo é destino meu.

Continuará a espelhar o sol,
que, de mim, para isso, não precisa.
Estender-se-á como vasto lençol
o mar que tem grandeza por divisa.

O mundo existia antes de mim,
porque há ser que convive com não ser.
Haverá mundo, depois do meu fim

e ser que ignora o meu não ser.
Está bem assim porque é natural,
embora pareça demencial.
                      19.01.2023
Eugénio Lisboa
LE ROI SE MEURT

Ouvir o anúncio da minha morte
foi como ouvir uma língua estranha:
deram-me um esquisito passaporte,
sem dizerem se é pra vale ou montanha.

Pouco me vale reinar em qualquer Espanha,
a morte quer é haver-se comigo.
Porquê mostrar, a mim, sua gadanha,
achará que sou, pra ela, um perigo?

O que perturba é ela conhecer-me,
parecer saber, de há muito, quem sou,
andar atrás de mim a envolver-me!

Mas agora o momento chegou:
ser rei já muito pouco adianta,
quando a morte me aperta a garganta.
                         01.03.2024
Eugénio Lisboa

NOTA: LE ROI SE MEURT é o título de uma notabilíssima peça de teatro, de Eugène Ionesco, que vi, encenada em Paris. Como o título me convinha, roubei-lho. É assim que se faz.

Até sempre , Eugénio Lisboa. Que saudade, querido amigo!

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Pensamentos Sobre a Guerra

 

Mais Pensamentos sobre a Guerra
 
Toda a gente, quando a guerra anda no ar, aprende a viver com um novo elemento: a mentira.
Jean Giraudox
 
Temos o poder de fazer, desta, a melhor geração da humanidade, na história do mundo – ou fazer, dela, a última. 
John F. Kennedy
 
Mas, na guerra moderna… morrerás como um cão, por razão nenhuma.
 Ernest Hemingway
 
A guerra existirá até ao momento em que o objector de consciência gozar da mesma reputação de que goza hoje o guerreiro.
John F. Kennedy
 
Eu lancei a frase – “A guerra para pôr fim a todas as guerras” – e esse não foi o menor dos meus crimes.
H. G. Wells
 
Desejamos lei mundial, na idade da autodeterminação – rejeitamos guerra mundial, na idade da maciça exterminação.
John F. Kennedy
 
A maneira de ganhar uma guerra atómica é fazer com que ela nunca comece. 
General Omar Bradley
 
A paz é não só melhor do que a guerra, mas infinitamente mais árdua.
George Bernard Shaw

O que há de pior, logo a seguir a uma batalha, é uma batalha ganha.
Duque de Wellington (vencedor de Napoleão em Waterloo)
 
Seleccionados e traduzidos por
Eugénio Lisboa, 07.11.2023

terça-feira, 7 de abril de 2026

Uma história exemplar

Augustus John em Guilhermina Suggia, 
acervo da Tate Gallery
UMA HISTÓRIA EXEMPLAR
por Eugénio Lisboa
“Quando, em 1978, fui para Londres, na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada, contaram-me uma história que nunca mais esqueci. Foi-me contada pelo chanceler, Fernando Mendes, homem competentíssimo, de quem me viria a tornar amigo.
Fora trabalhar, na embaixada, ainda muito novo e logo a seguir ao fim da segunda guerra mundial, quando, em Inglaterra se vivia num regime de muito severo racionamento de tudo, incluindo bens alimentares. Passava-se ali uma “fome de rabo”. Fernando Mendes dava-nos pormenores impressionantes da forma como se vivia mal, naqueles tempos de frugalidade. E, como era costume com os ingleses, a frugalidade era para todos, incluindo ministros e até para a família real, no Palácio de Buckingham.
Para ilustrar isto, de forma impressiva, contou-me a história da ida da nossa famosa violoncelista, Guilhermina Suggia, a Londres, nesse período de austeridade, para ali dar um concerto. Tendo ficado hospedada, no Palácio de Buckingham, como convidada da família real, ali comia as suas refeições. Depois de um jantar frugalíssimo, como era de regra, Suggia foi dar o concerto, a meio do qual, desmaiou… de fome. Sim, que o violoncelo exige um grande dispêndio de energia! Isto é um exemplo do espírito de cidadania democrática, que, nessa altura, em muito contrasta com o que se passa nas democracias ditas populares, nas quais o povo passa a tal fome de rabo, enquanto os senhores do poder e adjacentes passam a viver em palácios sumptuários, como aconteceu, por exemplo, em Budapeste, ou em condomínios de luxo, onde nada falta. Vi isso em Moçambique, no princípio da independência, quando os Senhores do poder popular, se recusavam a beber os melhores vinhos a não ser em copos de cristal, surripiados “alfandegariamente” e “legitimamente” a portugueses que dali partiam, sem saberem para que destino e com uma mão à frente e outra atrás. E afirmavam, alto e bom som, que “tinham direito”, um direito que, curiosamente, se não estendia ao resto do povo. Isto passou e passa-se, de resto, em todas as democracias populares, sem excepção. Mas não se passava, e não por acaso, na decadente e burguesa democracia inglesa. Os regimes julgam-se por actos e decisões e não por palavreado sonoro e oco. Não há maiores depredadores do que os indivíduos cheios de razão histórica e de legitimidade ideológica. Para eles, vale tudo, até o massacre em massa dos adversários políticos, como foi o caso de um dos piores poetas que já existiram e que se chamou Agostinho Neto.”
Eugénio Lisboa, em 22.06.2022

A 7 de Abril de 1805

Gustavo Dudamel - Beethoven: Symphony No. 3 - Mvmt 1 (Orquesta Sinfónica Simón Bolívar)
A  7 de Abril de 1805 ,Ludwig van Beethoven estreou a sua Terceira Sinfonia, em Viena. 
Foi a primeira apresentação pública que teve lugar no  Teatro an der Wien, em Viena, no dia 7 de Abril de 1805, com o compositor na condução
A Sinfonia n.º 3, Em Mi Bemol (E♭) Maior (Op. 55)  (conhecida como Eroica que em italiano significa "heroica") é uma obra musical, por vezes citada como marco do fim da Era Clássica e o começo da Era Romântica.


domingo, 5 de abril de 2026

No Domingo de Páscoa também há Música

Hans Rottenhammer, Ressurreição de Cristo [Detalhe],quarto trimestre
do sec.XVI, domínio público, Wikimedia Commons

Neste Domingo de Páscoa, o domingo  da nova Esperança , ficam as palavras de um grande poeta , num longo poema , que dão ao dia o seu verdadeiro significado.
Para todos,  desejamos uma Feliz Páscoa .

CRISTO


Quão grandioso és Tu, Senhor,
transfigurado no alto do Tabor!
Evocas no infinito a Elias e Moisés,
numa epifania divina e inescrutável,
revelando Teu poder irrefutável
diante de Pedro, João e Tiago aos Teus pés!

Canto o Teu triunfo no alto do Calvário,
ante os zombadores e ali tão solitário,
dizendo ao mundo e aos anais da História:
Pai, por misericórdia, perdoa Meus algozes.
É o Teu amor, sob as dores mais atrozes,
que erige ali o panteão da Tua glória.

E no injusto tribunal dos opressores,
Teu amor invencível vence os “vencedores”.
Vence a imensa ingratidão do mundo,
vence a justiça de Pilatos e a Lei dos sacerdotes,
perdoa a patética traição de Iscariotes
e deixas na Via Crucis Teu rastro mais profundo.

Teu sacrifício, Teu exemplo, Tua dor,
revelam a personificação do Teu amor.
São Teus lábios perdoando o bom ladrão,
é Tua inocência sangrando no madeiro,
manchando de vergonha o mundo inteiro
e entregando a Deus Teu coração.

E depois da fúnebre travessia,
Tu ressurgiste no terceiro dia,
anunciando o sol da imortalidade.
E dizes, mostrando Tuas chagas a Tomé,
põe aqui teu dedo, e revive a tua fé,
Eu estou vivo. Sou a prova da verdade.

E só então subiste para além do horizonte.
Ficou Tua imagem, meu sustento, minha fonte,
Teu Evangelho a iluminar meus passos.
Ficou Tua figura tão bela e tão serena,
Teus cabelos repartidos na forma nazarena,
e se Te busco em prece, me sinto em Teu regaço.

O vértice da verdade, és Tu Senhor
És a ponte, o caminho para o Criador,
e ante a tempestade, és a certeza da bonança.
És o Mestre dos saberes mais profundos,
És Tu que acendes o farol do mundo,
És o sacrário da fé e o templo da esperança.

És o poeta das aves e dos lírios.
És o altar de todos os martírios,
e o fermento da humana devoção.
Bendito sejas, Divino Missionário,
Governador da Terra, celeste relicário,
e modelo da suprema perfeição.

Em verdade, nenhum poeta deste mundo,
cantou ditos tão belos e tão profundos
como a Tua sapiência no Sermão do Monte.
Onde, na beleza das Bem-Aventuranças,
Tu espalhaste as sementes da esperança
nas dimensões do tempo e do horizonte.

Rabi da escola terrestre,
Tu és o mestre dos mestres,
o Redentor e a luz do mundo.
Teu Evangelho simboliza a verdade,
é a cartilha de amor à humanidade
e o testamento dos princípios mais profundos.

Tua profecia derrubou o santuário
e dividiste as datas do nosso calendário.
Que poder é esse que encanta o mundo?
Caiu o Templo e nada restou do Império.
Restou Tua imagem no sudário e no mistério
e ninguém mais deixou exemplos tão profundos.

E desde então dois mil anos são passados,
e a humanidade ainda ostenta seus pecados.
Hoje somos nós que rogamos o Teu perdão,
pelas fogueiras que acendemos em Teu nome,
pela desventura de tantos que têm fome
pelas trincheiras em guerra e os bazares da ilusão.

Na magia da fé e nos mares do encanto,
numa nave celestial que esperamos tanto,
tu, ó Cristo, navegas revelando a profecia.
Estás no leme do veleiro da esperança,
no rumo do porvir, da Terra da bonança,
para nos abrir, no amanhã, um novo dia.
                           Curitiba, 29 de março de 2026
Manoel de Andrade, poema inédito

 
Leonard Bernstein em  LSO -  Gustav Mahler: Symphony No. 2 in C Minor "Resurrection", V. Finale (Excerpt)

sábado, 4 de abril de 2026

Uma súplica pungente

 

Lacrymosa ,  Messa Requiem, de Guiseppe Verdi
Este registo foi realizado  no Scala de Milão. O  Maestro  Daniel Barenboim dirigiu  a Orquestra,  os Coros do  Téatro alla Scala, a soprano  Anja Harteros , a  Mezzo Soprano Elina Garanca , o tenor Jonas Kaufmann e o baixo  René Pape.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O resgate de Jesus

 
O resgate de Jesus
 
Depois do seu passamento,
no mais ingrato momento,
Jesus foi abandonado.
Apenas dois fariseus,
sacerdotes entre os judeus,
honraram o crucificado.
 
Foi José de Arimateia
que teve a sublime ideia,
do resgate de Jesus.
Rogou a Poncio Pilatos
que autorizou com seus atos
descer seu corpo da cruz.
 
Pelo Evangelho, sabemos,
que ele com Nicodemos
retiraram do madeiro
o corpo do mestre amado,
que depois foi perfumado
para seu ato derradeiro.
 
E foi nesse triste cenário,
que ali perto do Calvário
foi um sepulcro encontrado.
E a Arimateia, bendigo,
por ceder o seu jazigo,
onde Jesus foi sepultado.
 
Ninguém sequer imagina
que foi por inspiração divina
o resgate de Jesus.
O que teria se passado
com seu corpo abandonado,
e ali pregado na cruz.
 
Pois pela lei do Império,
não se dava cemitério
para os réus crucificados.
Por condenações tão graves,
eram pasto para as aves,
suspensos e ali deixados.
 
E a lei do judaísmo,
com um cruel extremismo,
os destinava ao vexame.
Depois de ser despregado
era o corpo do condenado
jogado num vale infame.
 
Por ironia e por Deus,
devemos a dois fariseus
o resgate de Jesus.
Gratidão a Nicodemos
e a Arimateia não menos
por tirarem o Mestre da Cruz.
            Curitiba, 14 de março de 2026
Manoel de Andrade