sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Interlúdio musical

Sara Correia, em Dizer Não.
 
Gisela João, em Canção ao Coração.  
Cuca Roseta, em Também te Amo.
 
                                         Teresa Salgueiro, em Alegria .

Baiano é um estado de espírito

Baiano é um estado de espírito
 por Jorge Amado
"Baiano quer dizer quem nasce na Baía, quem teve este  alto privilégio, mas significa também um estado de espírito, certa concepção de vida, quase uma filosofia, determinada forma de humanismo. Eis por que homens e mulheres nascidos em outras plagas, por vezes em distantes plagas, se reconhecem baianos apenas atingem a fímbria desse mar de saveiros, as agruras desse sertão de vaquejadas e de milagres, os rastros desse povo de toda resistência e de toda gentileza. E como baianos são reconhecidos, pois de logo se pode distinguir o verdadeiro do falso. Aqui entre nós: tem gente que há vinte anos tenta obter seu passaporte de baiano e jamais consegue pois não é fácil preencher as condições e como diz o moço Caymmi, nosso poeta, “quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim”.
Pierre Verger, mestre francês de artes e de ciências, andou meio mundo, cruzou caminhos do Oriente e do Ocidente, mares e desertos, montanhas e arranha-céus; era um ser errante, um inquieto. Já duvidava da alegria quando de súbito a encontrou ao chegar às ladeiras da cidade do Salvador da Bahia de Todos-os-Santos. Viu realizado seu sonho antigo na civilização mestiça que aqui plantámos e construímos com a nossa democracia racial. Chegara à pátria de seu coração.
Foi reconhecido e confirmado e, em festa de dança e canto, no terreiro recebeu o nome de Oju Obá. As iaôs dançaram em sua honra, sentou-se Pierre entre os notáveis de Xangô, entre os notáveis da Bahia. Sábio de Paris, feiticeiro da África, baiano dos melhores.
Muitos são os baianos nascidos noutras terras que nos têm trazido a contribuição de seu trabalho criador. O pintor Henrique Oswald, tão cedo falecido, quando alcançava sua completa maturidade de artista. O poeta Odorico Tavares, intemerato defensor de cada pedra de nossa cidade. O gravador Karl Hansen, da Alemanha, que juntou ao seu nome o da terra prometida: hoje se chama Hansen Bahia. Mestre Rescala, a quem tanto devemos pois preservou e restaurou tesouros de arte ameaçados pelo tempo e pela insídia dos governantes.
Baianos nascidos na Amazônia, os poetas Carlos Eduardo da Rocha e seu irmão Wilson, o psiquiatra Rubim de Pinho; no Maranhão, o desenhista e pintor Floriano Teixeira; em Sergipe, Jenner Augusto e José de Dome, mestres pintores, o historiador José Calazans e os jornalistas João Batista de Lima e Silva e Junot Silveira. Vindos de Portugal, como o padre Vieira que aqui desembarcou ignorante e tapado, dura cabeça de pedra — apenas aspirou o ar baiano, deu-lhe um estalo na cabeça, a pedra virou talento, floresceu no padre mais inteligente do mundo — e Antônio Simões Celestino, flor dos Celestinos da Póvoa do Lanhoso. O mais baiano de todos os baianos é o pintor Carybé, nascido no mar, dos ilícitos amores de Iemanjá com um certo senhor h. j. p. de Bernabó, de duvidosa nacionalidade.
Baiano é um estado de espírito."
Jorge Amado, in  Bahia de todos-os-santos, Companhia das Letras, 2012

SOBRE O LIVRO
“Esse é bem um estranho guia”, diz Jorge Amado no “Convite” que abre Bahia de Todos-os-Santos. “Com ele não verás apenas a casca amarela e linda da laranja. Verás igualmente os gomos podres que repugnam ao paladar.” Essas palavras resumem o espírito deste livro sui generis sobre a cidade de Salvador. Escrito originalmente em 1944, no auge da luta antifascista, manteve em suas sucessivas atualizações a abordagem visceral que o transformou numa obra ao mesmo tempo de celebração dos esplendores da cidade e de denúncia de suas muitas mazelas. A versão definitiva só ficou pronta em 1986. Quem melhor do que Jorge Amado, que cantou em tantos livros a “cidade da Bahia”, povoando suas ruas com personagens inesquecíveis, para fazer esse retrato de corpo inteiro da capital baiana? Pelas páginas deste livro desfilam as belezas arquitetônicas da metrópole – suas igrejas, átrios e palácios, suas ladeiras e ancoradouros -, bem como seus encantos naturais – praias, matas, morros, lagoas -, mas também o lado miserável da cidade, seus cortiços malcheirosos, a falta de saneamento e infraestrutura, o desamparo e a doença. Aqui e ali, fotografias de Flávio Damm utilizadas na edição de 1961 pontuam o que vai sendo descrito. Não se trata de um guia preocupado apenas com a descrição do pitoresco, mas de uma narrativa múltipla sobre o cotidiano da cidade e suas transformações ao longo das décadas. Do dia a dia do trabalhador braçal às receitas de quitutes baianos, da arte dos mestres da capoeira ao misticismo dos terreiros de candomblé, dos pequenos crimes dos “capitães da areia” à dura poesia dos pescadores e mestres de saveiros, da universidade às festas religiosas e pagãs, a vida de Salvador pulsa a cada parágrafo. Moradores da cidade, ilustres ou anônimos, são evocados aqui com a mesma vitalidade e frescor dos personagens dos romances do autor, convertido em cicerone que abre as portas de sua grande casa aos leitores do mundo."

FICHA TÉCNICA
Título: Bahia de todos-os-santos
Páginas: 400
Formato: 21 x 13.6 x 2.4 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 17/08/2012 (1ª edição)
ISBN: 978-8535921373
Selo: Companhia das Letras

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O poema

Herberto Helder (1930-2015) “O poema, VII” in «A Colher na Boca» (1961) 
Dito pelo próprio num disco Vinyl, editado pela Philips, 
para a série Poesia Portuguesa (1968). 

O poema
VII

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
.
É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

– Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
.
– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
Herberto Helder, in  Poemas completos. Série Grandes Escritores, Rio de Janeiro: Editora Tinta-da-China, 2016 – p. 39.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Até sempre, Jorge Palma!

Jorge Palma

A gente vai continuar

Tira a mão do queixo não penses mais nisso O que lá vai já deu o que tinha a dar Quem ganhou ganhou e usou-se disso Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar E enquanto alguns fazem figura Outros sucumbem á batota Chega a onde tu quiseres Mas goza bem a tua rota Enquanto houver estrada pra andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada pra andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar Enquanto houver ventos e mar Todos nós pagamos por tudo o que usamos O sistema é antigo e não poupa ninguém Somos todos escravos do que precisamos Reduz as necessidades se queres passar bem Que a dependência é uma besta Que dá cabo do desejo A liberdade é uma maluca Que sabe quanto vale um beijo Enquanto houver estrada pra andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada pra andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Jorge Palma
 
Camané em A gente vai continuar
Morreu Jorge Palma. Aos 76 anos partiu, deixando uma obra espalhada por muitas vozes e acentuada e diferentemente por ele próprio. Dono de um timbre especial, era único na interpretação de tudo o que compunha.
Um cultor e perfeccionista do piano embora ágil em outros instrumentos musicais, tinha um conhecimento musical superior que o conduziu à vasta composição de canções que vão perdurar .
Obrigada Jorge Palma. Até sempre!

Citações do dia

CITAÇÕES DO DIA

Se quiseres brilhar como o sol, terás, em primeiro lugar, que queimar, como ele.
Eu uso a emoção para muitos e reservo a razão para poucos.
Só aquele que domina a juventude domina o futuro.
Ao vencedor, nunca lhe será perguntado se disse a verdade.


Recolhi, para boa reflexão dos entusiásticos participantes do congresso do CHEGA, estes pensamentos, que foram motores de arranque de uma das maiores calamidades que assolaram a Humanidade. Tentem arrefecer as emoções e façam bom uso da razão.
O autor destes aforismos incendiários e que andam por aí, na ordem do dia, chamou-se ADOLFO HITLER.

Recolha de
Eugénio Lisboa, 14.01.2024

terça-feira, 22 de setembro de 2026

A gratidão em poesia, num Simpósio de Medicina

 Manoel de Andrade e Edson Gomes Tristão
no 7º Simpósio da Associação Médico Espírita do Paraná

O poeta Manoel de Andrade foi convidado para o 7º Simpósio da Associação Médico Espírita do Paraná, um importante encontro de médicos, com uma vasta e valiosa programação. Evento organizado   e coordenado   pelo Dr. Edson Gomes Tristão, Médico especializado em Ginecologia e Obstetrícia, Mestrado e doutorado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Professor titular de Obstetrícia UFPR e Presidente da Associação-Médico Espírita do Paraná
Manoel de Andrade, o ilustre poeta de Curitiba , encerrou o Simpósio, lendo um longo e belo  poema de gratidão  . Para justificar a escolha,  declarou que, como criatura, há três formas de nos dirigirmos a  Deus: Pedindo ou rogando alguma coisa, agradecendo por tudo o que recebemos ou louvando a Deus pela sua beleza, pela sua magnitude. Perante tudo o que foi apresentado  neste Simpósio, o poeta optou por agradecer.

Prece de gratidão

Eu te agradeço, Senhor,
ser filho do Teu amor
e herdeiro do Universo.
Ser cantor dessa beleza,
ter um lugar nessa mesa,
pelo sabor do meu verso.

Senhor, muito obrigado,
pelos pais bons e honrados
e pelas lições da pobreza.
Pelo café com farinha,
por tudo que eu não tinha
e que fez minha riqueza

Pelo meu corpo perfeito,
pela poesia em meu peito
e os anos da minha idade.
Por todo dever cumprido,
pelo amparo recebido
e o céu da imortalidade.

Eu Te agradeço também
pela semente do bem
plantada no meu pomar.
Pela doçura desse fruto
não ter me tornado um bruto
e ter aprendido a amar.

Pela água da minha fonte,
pela linha do horizonte
e um sonho de marinheiro.
Pelo meu mar de criança
e o meu barco de esperança
percorrendo o mundo inteiro.

Pelo pão, pelo abrigo,
pelo abraço do amigo,
por Teu carinho invisível.
Agradeço-Te com veemência
esta paz na consciência
e a minha fé invencível.


Pela luz que me ilumina
desde a antiga Palestina
na alegria e na dor.
Por quem sou, pelo que sei,
por Moisés trazendo a Lei,
por Jesus trazendo o amor.

Senhor, eu Te agradeço
pela dor e o tropeço
quando ensinam uma lição.
Ninguém paga sem dever
e a Lei obriga a colher
o efeito da nossa ação.

Pela sapiência contida
no pergaminho da vida,
na magia e na razão.
Agradeço-Te a minha parte,
pela ciência, pela arte
e pela Grécia de Platão.

Por Cabral no rumo certo,
pelo Brasil descoberto,
pela pátria e o cidadão.
Pelo herói da Inconfidência,
o Grito da Independência
e a bênção da Abolição.

Pelas lições da História,
pelo povo e a sua glória
na busca da liberdade.
E pela Humanidade inteira,
quando erguer sua bandeira
pela paz e a verdade.

Grato sou por ter um sonho,
sonhar com um mundo risonho
numa paz contagiante.
Ver este Brasil fecundo,
como o coração do mundo,
em um porvir deslumbrante


Agradeço o bom combate,
e ter encarado esse embate,
com o coração despojado.
Com Tua luz nos meus passos,
a fraternidade em meus braços
e o meu sonho preservado.

Contigo, Senhor, sou forte,
tenho um fanal, tenho um norte:
amor, sensibilidade.
Eu moro na melodia,
na música, na poesia
e no farol da verdade.

Muito obrigado, Senhor
pelo trabalho e o suor,
pelo que dei e recebi.
Quando chegar meu momento,
se eu tiver merecimento,
me leva pra junto de Ti.
Curitiba, Dezembro de 2002
Manoel de Andrade, in As palavras no Espelho, Editora Escrituras, São Paulo, Brasil, 2018, pp. 255-258

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

“Eis a péssima notícia: estamos perdidos, irremediavelmente perdidos. Estamos perdidos, mas temos um tecto, uma casa, uma pátria. É a nossa pátria, o lugar de nossa comunidade de destino de vida e morte. O evangelho dos homens perdidos diz-nos que devemos ser irmãos, não porque seremos salvos, mas porque estamos perdidos”
Edgar Morin, in Terra-Pátria, Edições Piaget, Abril 2001
Sinopse do livro:
"Este é o quinto século da era planetária. A irrupção de forças obscuras e bárbaras convive com a mundialização do desejo de vida, de uma qualidade de vida superior.
Os indícios de morte e de vida confundem-se. Esta situação agónica não resulta apenas de novas crises que vêm avolumar os conflitos tradicionais. É, antes, um todo que vive de ingredientes conflituais, críticos problemáticos e que encerra em si o principal dos problemas: a impotência da humanidade para se tornar humanidade. A presente obra propõe uma reformulação de pensamento que nos permita conceber todas as coisas no seu contexto e no todo planetário, uma definição das nossas finalidades, enquanto seres terrestres. Privados da certeza da salvação podemos, no entanto, enunciar um evangelho da perdição. A tomada de consciência, por parte da comunidade humana, em relação ao seu destino no planeta Terra deverá constituir o acontecimento-chave do fim do milénio. Estamos solidários neste e com este planeta. É a nossa Terra-Pátria."

domingo, 20 de setembro de 2026

Ao Domingo Há Música


Tens os olhos de Deus,
E cada qual com os seus
Vê a lonjura que quer,
E quando me tocas por dentro
De ti recolho o alento 
Que cada beijo trouxer. 
E eu preciso de mais, 
Preciso de mais.
 Pedro Abrunhosa

O calor anda no ar. Traz dias longos e de grande azáfama . Nem sempre chegam para os sonhos que lhe pomos. E rodam, expandem-se em sonhos de ansiados tamanhos. Sonhos que são apenas sonhos para dar cor e mais luz aos dias.
As vozes, que se apresentam,  transformaram  momentos reais em momentos de inenarrável sonho.

Dulce Pontes, em Ondeia.  Música e Letra: Dulce Pontes.
Fotografias: Joana Constante - Coliseu do Porto 17 Janeiro 2015 / Montagem: Carlos José.
  
Mariza , em  Chuva , composição de  Jorge Fernando (Concerto em Lisboa).
   
Ana Moura, em  Tens os Olhos de Deus , composição de Pedro Abrunhosa ( Antena 3).
   
Carlos Do Carmo e Camané, em  Por Morrer Uma Andorinha.
   
  Amália Rodrigues, em Gaivota. Música de Alain Oulman e poema de Alexandre O´Neill.