segunda-feira, 25 de maio de 2026

Celebrar o 96º aniversário de Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa (25 de Maio 1930 - 9 de Abril de 2024)

         Máquina de Assombros

Das humildes praias deste oceano,
te olhámos, cosmos: era o começo.
De aqui, assombros vimos: cada ano,
o milagre era um recomeço.
          Eugénio Lisboa, O Ilimitável Oceano

Talento é acertar um alvo que ninguém acerta. Genialidade é acertar um alvo que ninguém vê.
Arthur Schopenhauer

Eugénio Lisboa nasceu a 25 de Maio de 1930, na cidade de Lourenço Marques, actualmente Maputo. Completaria, hoje, 96 anos.
Recordar o seu aniversário é homenagear a Literatura Portuguesa. 
Poesia, Crítica , Ensaio, Crónica são alguns dos géneros literários cultivados por Eugénio Lisboa. Mestre da exigência e da perfeição produziu uma vasta obra que retrata um percurso brilhante e inovador.
Celebrar a vida de Eugénio Lisboa é celebrar a Cultura. Ano após ano, não cessou de surpreender pela beleza e largueza com que semeou Cultura. A sua obra é um repositório magnânimo e um manual precioso de como se deve fazer Cultura, em qualquer parte do mundo. Portugal tem nele o obreiro mais insigne e engenhoso da actualidade
Ler Eugénio Lisboa é descobrir a transcendente magia da Literatura; é viajar por um mundo cheio de inesperados assombros que nos deslumbra e desassossega. Conhecer Eugénio Lisboa é verificar como a simplicidade, a humildade vestem sempre um grande Homem. A sabedoria tem nele uma vantagem: a partilha. Dá-no-la em doses gigantescas , espalhando-a por sumptuosos ensaios, magníficas crónicas, extraordinárias intervenções, valiosos livros e na imperdível e rica obra memorialística, registada em sete volumes.
Todos os títulos das obras de Eugénio Lisboa são ricos e sugestivos. Requisita-os com argúcia e apropriação que só um espírito sagaz e culto sabe fazer.
" Acta Est Fabula " é o título da vasta obra onde a memória se estende. Dos idos tempos de Lourenço Marques a S. Pedro de Estoril, a voz de Eugénio Lisboa faz a narração de uma vida singular: a sua. Com ela ,atravessamos quase um século de descoberta e de encontros com vultos importantes da Literatura Nacional e Universal. Mas é Eugénio Lisboa que nos toca, que nos ensina como se constrói uma vida aberta à aprendizagem, ao conhecimento.
Eça de Queiroz, o notável autor de "Os Maias", afirmava: Não tenha medo de pensar diferente dos outros, tenha medo de pensar igual e descobrir que todos estão errados!
Eugénio Lisboa não teve medo de o fazer. Nunca pensou igual. Fê-lo diferente e proficuamente. A nós, cumpre agradecer-lhe por ter praticado a diferença ao produzir uma obra que nos faz mais felizes e igualmente mais sábios. 
O primeiro volume de "Acta est fabula" foi galardoado com o Grande Prémio da Literatura Biográfica APE, que lhe foi entregue em Março de 2015.
E, porque homenagear um autor é celebrar a sua obra, transcrevemos as comovidas palavras proferidas por Eugénio Lisboa, na cerimónia de entrega do Prémio, em Castelo Branco, que são o mais perfeito exemplo de como a simplicidade, a humildade vestiram sempre este grande Homem:

Exm.º Senhor Presidente da Câmara de Castelo Branco
Exm.º Presidente da APE
Exm.º Vice-Presidente da APE
Exm.ª Porta-Voz do Júri do Prémio
Exm.º Comendador Jorge Morão

"Estou aqui, hoje, em Castelo Branco, por onde passei, em Junho de 1977, numa atormentada viagem entre Estocolmo e Lisboa, estou aqui, dizia, para receber um Prémio. Melhor ainda: um Grande Prémio.
Há piores razões para se estar num lugar, embora as opiniões, no que respeita a galardões, se dividam. Os prémios, como tudo na vida, são matéria de controvérsia. Há reacções a eles, de todos os gostos e formatos.
Há quem os recuse liminarmente. Tolstoi, por exemplo, avisou a Academia sueca, em vias de lho atribuir, que o não fizesse, porque ele, Tolstoi, o autor insigne da Guerra e Paz e da Ana Karenina, se veria na obrigação de o recusar. George Bernard Shaw, o mais civilizado de todos os recusadores, aceitou o diploma e a medalha, mas rejeitou o alentado pacote de coroas suecas, que pouca falta lhe faziam: que o dessem, sugeriu ele, a um jovem e promissor escritor sueco, que mal não lhe faria; Jean-Paul Sartre, o pior dos três, recusou ostensivamente o Prémio, mas consta que mandou recado submarino ao embaixador sueco, dizendo que não queria o diploma nem a medalha, mas que se não importaria de ficar com o dinheiro. A elegância nunca tinha sido o seu forte e continuaria a não sê-lo de aí em diante. Jean Cocteau, o “enfant terrible” da literatura francesa do século passado, adoptou, a este respeito, a atitude mais radical, ao aconselhar: “Não só não deves aceitar um prémio, como não deves sequer merecê-lo.” Isto é, segundo o critério do autor de Orphée, no merecer um prémio já havia um indício de cedência ou conformismo…
O já citado e eminente dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw, talvez o maior dramaturgo em língua inglesa, depois de Shakespeare, via, na atribuição dos prémios, um projecto amaciador, quando dizia: “O objectivo real dos prémios que se dão nas escolas é o de encorajar as crianças a criarem o mínimo possível de turbulência.” Eu não creio, sinceramente não creio que os meus amigos que, por acaso, foram membros do júri, me tivessem atribuído este prémio para pacificarem quaisquer meus pruridos de turbulência.
Outra reacção típica dos recebedores de prémios reside em afectarem um ar recomendavelmente humilde, insinuando não merecerem eles o prémio que lhes foi atribuído, o qual deveria ter ido parar a terceiros, que, às vezes, até nomeiam. Foi o caso de Hemingway que, ao ser-lhe atribuído o Nobel, em 1954, se apressou a dizer que o laureado não devia ter sido ele, mas, antes, ou o escritor espanhol Pio Baroja ou a grande contista dinamarquesa Karen Blixen. O que, de modo algum, implicava que o laurel lhe não tivesse sabido bem. E até nem consta que tivesse dividido o seu valor monetário com aqueles dois alegadamente injustiçados. Fair-play, sim, mas devagar, como certamente recomendaria el-rei D. Sebastião.
Neste saboroso registo do “não sou eu quem merece o prémio”, o mais capitoso exemplo que conheço é o do grande cómico americano Jack Benny, com quem imparavelmente me ri, na minha infância e adolescência, o qual, no momento de lhe ser outorgado um galardão qualquer, reagiu nestes termos: “Eu não mereço este prémio, mas, se vamos a isso, também não mereço ter a artrite que tenho.” Por outras palavras, se tinha artrite, mesmo sem merecê-la, por que não haveria de ter um prémio, mesmo não o merecendo? Convenhamos que a lógica é irrespondível. É esta resposta do meu outrora admirado Jack Benny que me deixa relativamente confortável quanto à possibilidade – ou mesmo, alta probabilidade – de eu aqui estar a receber um galardão não irresistivelmente merecido. Que saiba, não tenho artrite, mas tenho 84 anos, que valem por não sei quantas artrites e mais um infindável número de outras desvantagens. Venha, pois, o prémio, mesmo com a dimensão de Grande Prémio, e aqui ficam os meus agradecimentos aos membros do júri, a quem deu para repararem no meu livrinho. Mentiria como um desbragado mentiroso, se dissesse que não fiquei feliz. Não sei se ficaria igualmente feliz com um prémio atribuído a qualquer outro livro meu (e sei do que falo, porque já os recebi). Mas o carinho e o investimento emocional que pus neste, em particular, quero dizer: neste primeiro volume das minhas sonhadas e arquitectadas memórias em 5 volumes, foi tão grande, que o reconhecimento a ele dado pelo júri me caiu fundo, no coração. É, para mim, um livro especial, como são e serão os restantes volumes da saga. Andei anos a magicá-lo, a sonhá-lo, a fruí-lo, antes de me meter a escrevê-lo. É que iria falar, nele – falar-vos, nele – de algo muito importante que me aconteceu, há muitos anos, em África: ter ali nascido e ter, para sempre, ficado espantado por isso me ter acontecido, a mim: ter nascido e ter nascido, ali. O meu livro – e os dois volumes que se lhe seguiram e os dois que se lhe hão-de seguir – falam o tempo todo – mesmo quando o não dizem claramente – desse espanto inaugural, que nunca mais me abandonou, ao longo do caminho da vida. O Alto Mahé, a Rua Norte, o Largo João Albasini, a Estrada do Zixaxa, o Cine-Variedades, onde se inventou o cinema, mesmo em frente à imponente Casa das Tias, a Rua Mendonça Barreto, no Alto Mahé, de onde eu via o mundo todo, nas páginas dos livros que devorava, o liceu, no outro extremo da 24 de Julho, o Cabo Submarino, as matinées do Scala – tudo marcas profundas que o espanto de as ter recebido, como dom dos deuses, sem bem saber porquê, gravou a fogo na minha memória. Ficaram cá, dentro de mim, e eu não gostaria de ficar egoistamente com elas, de as não partilhar convosco, antes de me ir embora para paragens de que não há nunca notícia.
Do corpo do texto deste 1º volume – o que foi premiado – transportei para a contra capa, uma significativa passagem que ilumina o fundo do meu propósito, ao empreender esta minha busca de um tempo (nunca) perdido: “Lanço, neste papel, memórias que me parecem importantes – a mim.
Escrever memórias é tentar imprimir a marca da eternidade a momentos para nós inesquecíveis e inesquecidos, intensos, mágicos, às vezes, quase insuportavelmente vivos… mas que serão, para outros, provavelmente despidos de interesse. Captar a atenção destes, a sua cumplicidade, atraí-los a esta narrativa de minúcias e convencê-los de que estes momentos foram realmente algo de especial – eis a tarefa gigantesca do memorialista. Tarefa impossível ou quase, mas que, de quando em quando – uma vez num milhão – resulta. Não vou meter-me a acreditar – sou paranóico, sim, mas devagar – que este meu empreendimento é esse “um num milhão”. Mas, como acontece com todos aqueles que pousam palavras no papel, gostaria muito que fosse. Como dizia o maluco chapado do Álvaro de Campos, “Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez”.
Fico, pois, feliz, com o Prémio, porque alguém reparou no meu livro e gostou dele – e um livro é um filho nosso. Não se leva a bem que o não achem bonito. Mas fiquei também feliz – e não pouco – por verificar que há instituições e autarquias que acreditam – bem hajam! – que a cultura é importante para a imagem que um país projecta, em todos os sectores da vida, que a cultura não é um mero adereço mais ou menos fútil e inócuo, que é parte subliminarmente vital do melhor que esse país tem a oferecer. Sem uma imagem culturalmente forte, ninguém vai ter muita fé na qualidade dos outros produtos que ele ostenta, sejam eles industriais ou agrícolas ou meros mas não insignificantes serviços.
Só mais uma observação: não creio que um prémio literário confira qualquer poder ao galardoado – nem sequer poder literário. Dizia esse grande sage americano que dava pelo nome de Oliver Wendell Holmes que “o único prémio acarinhado pelos poderosos é o poder. Para o general, o prémio não é uma tenda maior – o prémio é o comando.” O poder – mesmo o poder literário – foi algo que nunca visei e junto do qual sempre respirei mal. Não seria agora, nesta hora tardia do meu caminhar pela vida, que iria mudar o meu modo de estar no mundo. Este prémio deixa-me feliz e grato – mas intacto.
Resta-me agradecer à Câmara de Castelo Branco, que financiou o galardão e organizou, com cuidado e competência, a cerimónia da sua atribuição, à Associação Portuguesa de Escritores, cujo Presidente e meu Amigo, Dr. José Manuel Mendes, se dignou deslocar-se a esta cidade, assinalando, carinhosamente, o patrocínio intelectual do prémio, ao Dr. José Correia Tavares, que foi presidente do júri e se desmultiplicou nas árduas tarefas de logística e promoção, as quais não são de diminuta importância, e, por fim, à Professora Isabel Cristina Rodrigues, minha colega e amiga dos meus tempos na Universidade de Aveiro e porta-voz do júri, cujo voto e palavras aqui proferidas, comovidamente, assinalo, abrangendo, na minha gratidão os outros membros do júri: Doutora Teresa Martins Marques e o Doutor António Cândido Franco, também meus caros amigos.
Como diz o título das minhas memórias, ACTA EST FABULA.
A todos, mais uma vez, os meus sinceros agradecimentos. Bem hajam!"
Eugénio Lisboa (Castelo-Branco, 4 de Março de 2015)

domingo, 26 de abril de 2026

Ao Domingo Há Música


Amanhã 
Estas noites sempre iguais 
Duras de mastigar 
Entre dentes e punhais 
No vazio que por vezes me dás 

Noite o teu tempo 
É canto passageiro 
Fome de caminheiro 
Peça sem tabuleiro
 
Amanhã vivo mais cedo 
Amanhã lembro quem és 
Mais cedo que os nós 
Que demos à vida
 No amanhã que amanhece a teus pés

 Em noites frias
 De chuva na mão 
Atiras para a vala 
O meu coração 

Tempo de glória 
Dum amor livre 
Que conta uma história 
De quem sobrevive 

Na tua noite
 Lisa, suave 
Deitada rosa 
Num denso enclave
Descansa-me na tua brisa 
No amanhã que amanhece a teus pés

 Amanhã vivo mais cedo 
Amanhã lembro quem és 
Mais cedo que os nós 
Que demos à vida 
No amanhã que amanhece a teus pés
Ricardo Ribeiro

Neste Abril de 2026, em que tanto mundo se destrói em obscuras e sanguinárias lutas, em guerras que se prolongam para além da nossa compreensão, urge um amanhã novo que amanheça radioso e promissor de uma nova era. 
As vozes que nos trazem saudade e esperança talvez rasguem horizontes que nos permitam sonhar, neste domingo português de Abril. Se o homem se faz pelo sonho , sonhemos em funda comunhão. E se a utopia é sempre um sonho, escutemos as palavras de  Fernando Birri, citado por Eduardo Galeano, em ‘Las palabras andantes": A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.


Ricardo Ribeiro, em  Amanhã [ Official Music Video ].Letra e música de Ricardo Ribeiro.
Voz: Ricardo Ribeiro. Guitarra Portuguesa: Ângelo Freire. Contra Baixo: Rodrigo Correia. Viola: Bernardo Saldanha. Piano: Manuel Oliveira. Percussão: Alexandre Frazão. Iluminação: Pedro Leston. Produção Executiva: João Oliveira Produção: Sons em Trânsito Realização: Rafael Rodrigues e Joana Araújo. Edição: Tomás Moreira.
  
Ricardo Ribeiro feat. Ana Moura , em  Maré.
‘Maré’ é um tema de almas reunidas conscientes do mar, ora sereno ora revolto, da vida. Duas almas num canto que se salvam do quotidiano e do tempo que as atravessa. Mais do que uma canção, são versos de fraternidade e paciência com a vida e com tudo o que nos dá. Porque sabemos que nos podemos salvar uns aos outros com amor e empatia.”
Ricardo Ribeiro
 
Ricardo Ribeiro, em  Oração (Oficial Audio).
 

sábado, 25 de abril de 2026

Recordar Abril... O oitavo dia da semana

 
O oitavo dia da semana
por José Manuel Mendes
 “Eu estava lá. Posso-lhe dizer que não saberei como foi possível caber tanta gente numa só voz. Faço-me entender? Eram muitas as vozes, milhares e milhares, mas havia uma que vinha de todas elas e ficava a pairar. Uma revoada, uma música de mar. Cada um de nós a ouvia à sua maneira. Eu ouvia-a pensando no inverno de sessenta cinco, o meu tio preso, o meu tio tinha-se envolvido nas greves da margem sul, as nossas visitas a Caxias, o pavor e a revolta, imagine com que coração atravessávamos os portões!, o vento a varejar as árvores quando saíamos. Ouvia-a também por entre as imagens da guerra nas fotos dos amigos, contaram-me estórias de arrepiar, iguais decerto a todas as estórias de guerra, mas havia uma diferença, na Guiné ou em Angola morriam tipos do meu bairro, tipos que jogavam matraquilhos nos cafés onde ia tomar a bica, um desses foi abatido a meio de um sorriso, o horror a preto e branco, corpos desfeitos no capim, navios carregados largando o cais. E o silêncio depois. O silêncio da angústia, o silêncio do luto.
 Estava lá, mesmo junto dos blindados. A barba por fazer, cigarro atrás de cigarro, duas maçãs nos bolsos. Vim para a rua a esfregar os olhos, cheio de sono, e corri para o Carmo. Como a cidade inteira, afinal. Ou antes, como os que esqueceram o medo. Porque a derrota ainda poderia surgir, claro. A ansiedade crescia, tornava-se clamor, tantas palavras inventávamos, nem calcula as palavras que acolá nasciam para andarem de boca em boca, a tropa nervosa, um braço no gatilho, outro na festa, uma festa com subterrâneos de dúvida, note que não faltavam agoiros, preces, gestos temerosos. E lágrimas, lágrimas. Lembro-me sempre da velhinha, atrás de mim, murmurando Jurem-me que é verdade, o rosário na mão, as contas caindo dos dedos até serem apenas cruz, murmurando e chorando, Jurem-me, um homem cortava presunto à navalha, oferecia aos militares, já o osso brandia no ar das palmas, dos punhos, das cantigas, alguém assomou a uma janela e pôs balões a subir, balões de feira, pombas de várias cores em viagem por cima dos telhados
E, a dada altura, os tiros. Segundos de respiração suspensa, barulho de água a precipitar-se, a multidão em sobressalto. Os rostos fitando a entrada do Quartel. Que se passaria além daqueles muros onde estrebuchavam quarenta e oito anos de ditadura? Que se passa, nosso cabo? Alguma novidade, senhor jornalista? Nada, conjecturas, rumores. Nada. No fundo da alegria sentíamos charcos, essa coisa pegajosa chamada angústia. O tal receio de um desaire. Pequeno e imenso receio, acredite. Entoámos o Hino Nacional. Gritámos Liberdade, Fascismo Nunca Mais, desejos assim. Desejos ou certezas, tudo se confundia. E Vitória, Vitória, quantos vês em movimento de onda sobre o dique entretanto derrubado?, chegou a notícia da rendição, chegavam cravos, vermelhos, brancos, cravos, cravos, na raiz do sangue e no cano das espingardas, pão, chouriço, cerveja, não te perguntarei o nome, soldado a quem estendo uma das maçãs camoesas, não te perguntarei por que caminhos irás, chegariam sustos e flores silvestres, transistores, ecos de um país amanhecendo, a História mudava de página, eu estava ali, percebe?, ali, uma criança trepara-me aos ombros para observar as varandas apinhadas, os carros de combate, o povo no Largo.
Creio que não, não chovia. De qualquer modo fazia sol, um sol de dentro, tão intenso como se o mundo começasse finalmente a conhecer a claridade. Sábado? Quarta-feira? Impossível recordar-me. Se calhar domingo, as pessoas desobrigadas do emprego, enchendo os passeios e as praças, Rossio, Chiado, Cais das Colunas. Os cacilheiros, as gaivotas do rio. E daí, deixe ver, os domingos são uma chatice, horas gastas de montra em montra, jardim em jardim, a remoer azedumes. Às vezes o cinema, sim. As praias na época do calor, o futebol. Domingo não, não podia ser. Teremos de imaginar um dia único, diferente dos sete dias da semana, um lugar para a dádiva e os abraços sem porquê, para o que jamais se repete, o insólito, o definitivo. Por exemplo, um oleiro no Terreiro do Paço. Um oleiro a tirar do barro crescentes de lua, flautas, placas à espera dos sinais por aprender. E, à volta, grupos a dançar. Dia único, garanto-lhe. A legenda de uma vida."
José Manuel Mendes, in Prelúdio de Outono, CCUM. Braga, 1988

O 25 DE ABRIL DE 1974 - 100 FOTOGRAFIAS

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Viajar pelas ruínas de Dara e Baalbek

 

 
The Ruins of Ancient Dara, Mardin, Turkey, pelos Amazing Places on Our Planet
"A antiga cidade de Dara tornou-se uma importante cidade-fortaleza durante o reinado do imperador bizantino Anastácio I, no início do século VI, na região norte da Mesopotâmia, na fronteira com a Pérsia. Os romanos do Oriente deixaram para trás túmulos escavados na rocha, cisternas impressionantes e igrejas. Hoje, as ruínas da antiga Dara estão localizadas na província de Mardin, no sudeste da Anatólia, quase na fronteira com a Síria. 
Gravado em Outubro de 2022 em 4K Ultra HD com Sony AX700 e DJI Pocket 2"
.  
The Roman Ruins at Baalbek, Lebanon [Amazing Places 4K], pelos Amazing Places on Our Planet.
"Baalbek era uma cidade fenícia, provavelmente batizada em homenagem ao deus fenício Baal. Nos tempos gregos e romanos, era também conhecida como Heliópolis. 
Baalbek atingiu o seu auge durante o período romano, quando, entre os séculos I e III, foram construídos no local templos colossais dedicados a Júpiter, Baco e outras divindades. É ainda um mistério como é que os maiores blocos de pedra conhecidos da antiguidade, com mais de mil toneladas, foram transportados para os locais dos templos. 
Baalbek está listada como Património Mundial da UNESCO, sendo um dos melhores exemplos da arquitectura imperial romana no seu apogeu. 
Gravado em Abril de 2022 em 4K Ultra HD com Sony AX700 e DJI Pocket 2."

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Celebrar o Livro


 

Tudo no mundo existe para algum dia terminar num livro.
           Stéphane Mallarmé
Tenho para mim que sou essencialmente um leitor . Como sabem , eu me aventurei na escrita, mas acho que o que li é muito mais importante do que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta, porém não escreve o que gostaria de escrever e sim o que é capaz de escrever.
            Jorge Luís Borges

"O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril. Trata-se de uma data simbólica para a literatura, já que, segundo os vários calendários, neste dia desapareceram importantes escritores como Cervantes e Shakespeare, entre outros. A ideia da comemoração teve origem na Catalunha: a 23 de Abril, dia de São Jorge, uma rosa é oferecida a quem comprar um livro. Mais recentemente, a troca de uma rosa por um livro tornou-se uma tradição em vários países do mundo."
Celebrar o livro é celebrar a vida. Os leitores não vivem sem livros. Sou uma leitora "estabelecida" de tantos anos de exercício e de actividade constante. O livro é o fiel e inseparável companheiro que me tem acompanhado ao longo da vida. Cresci, fiz-me gente, deixei o chão pátrio, viajei , percorri mundo e levei sempre comigo os livros celebrados e amados que me fizeram cativa. No regresso, o acervo vinha permanente e singularmente maior. Creio que não há livraria, que se preze, que não tenha sido visitada, namorada e assediada por estes olhos que não cessam de cintilar perante os escaparates e as suas mais recônditas prateleiras. Não há enlevo maior do que aquele que nos é provocado por páginas mestras de grandes escritores. Todos eles me influenciaram. Todos eles me formaram. Todos eles me  enamoraram ao longo da vida.  E , por dever,  por gratidão e por inefável deleite , a voz que se escuta, neste dia  e neste espaço , é deles.

Do livro falemos

Um livro torna-me muito mais livre.
Um livro abre-me imensas portas.
Antes do livro, era semilivre.
Sem livro, as portas estavam tortas

e não abriam. Mas os livros abrem
portas, mesmo se tortas, porque sabem
endireitar tudo o que está torto
e ressuscitar tudo o que está morto.

Porque o livro tem vida e saber
e, muitas vezes, tem até sabor.
O saber dá-nos imenso poder

e o sabor dá-nos muito prazer!
O livro sabe, pode e contenta,
condimentado com sal e pimenta!
02.11.2022
Eugénio Lisboa, in Soneto , Modo de Usar, Editora Guerra & Paz, Abril de 2024, p 82


O homem que lê

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa. 
Rainer Maria Rilke, in  O Livro das Imagens, Relógio D'Água
Manoel de Andrade, grande poeta brasileiro, recorda: Há alguns anos, numa entrevista que dei para Oscar Ambrosio, da UNESP (Universidade Estadual Paulista, ele me perguntou; "O que é ser poeta?' eu respondi:
Ser poeta ( ou escritor) é estar disposto a uma aventura imprevisível, uma viagem sem a certeza de um destino, porque o poeta é um ser desgarrado do mundo, vivendo no âmago de seu próprio desterro. É empunhar a bandeira da beleza num mundo cada vez mais cruel, marcado pela insensibilidade, pela irreverência, pelo hedonismo e por um consumismo alienante. Mas ainda assim é preciso encarar esse desafio. Para ser poeta é imprescindível ter sido bem amamentado pelo leite materno do idioma, para mergulhar no insondável oceano do conhecimento fazendo da leitura o seu pão de cada dia e assim descobrir o segredo das palavras, o poder mágico das metáforas, a estesia e o carinho do lirismo, e expressar este misterioso saber na sua criação literária.
Mas é também um processo de auto descobrimento. Um compromisso com o mundo, com a liberdade e o amor. Ser poeta é escavar na alma uma trincheira de esperança e conquistar o direito imperecível de sonhar.
A gente não se faz poeta, a gente nasce poeta e a poesia um dia surge misteriosamente neste mágico território do coração humano. O poema surge como uma brota uma semente, como uma inquietude íntima, no significado misterioso de uma palavra, de uma frase, e é como uma gestação, um filho que palpita no útero da alma, que nasce um dia no primeiro verso, e não nos larga mais. Fica conosco dia e noite, semanas e ate meses até que possa estar emancipado para cumprir sua missão no mundo. Só então ele está realmente pronto, legitimado pelo encanto e só então podemos nos libertar de seu próprio encanto
É assim que acontece comigo. Vivo e convivo intimamente com um poema, numa relação absoluta, mas só depois que ele realmente está pronto é que eu posso, finalmente, me libertar dele.
Os usos da Literatura
por Eugénio Lisboa
“A literatura instrui-nos, dá-nos prazer, educa-nos, abre-nos portas inesperadas para o mundo e para dentro de nós, torna-nos inquiridores e aventureiros, escuda-nos contra os pestilentos ratos de esgoto, mostra-nos que há tragédia mas, também, momentos de alegria sublime, expõe-nos aos mais diversos rostos do amor, desde a Assia, de Turguenev, por mim descoberta, na adolescência, passando pela Natasha ou pela Karenina, de Tolstoi, pela pequena Jane Eyre, frágil, mas firme, declarando, tremendo, a um portentoso Rochester: “We are equal!”, assim pisando, pela primeira vez, um feminismo forte, destemido e não perverso, ou pela inesquecível Gise, da grande saga francesa, de Martin du Gard, sem esquecer as imortais protagonistas de Stendhal, Mme de Rênal e a esplendorosa Sanseverina (e a Vanina Vanini?).
A literatura torna-nos fortes, quando, mergulhando-nos nos mais fundos abismos da condição humana, verificamos que, após tal mergulho, afinal, prevalecemos. Quando, com catorze ou quinze anos, verifiquei, pela pena do grande O’Neill, que a América triunfal e poderosa, se tornara herdeira dos grandes trágicos gregos e de um dilacerado Strindberg, percebi que atravessar tudo aquilo e continuar vivo era um milagre de força. Senti que valia a pena viver. O mesmo se passou com os grandes romances e novelas de Dostoiewsky. Fiodor Sologub iniciou-me, sem me destruir, nos mundos da loucura, por via do seu protagonista do perturbante romance O DEMÓNIO MESQUINHO (na tradução portuguesa, A LOUCURA DE PEREDONOV). Sally Salminen deu-me a vida inteira, num belo romance arrumado em ilhas escandinavas. Hemingway deu-nos heróis e heroínas inesquecíveis, os horrores da guerra e da guerra civil e a invencível fragilidade que se aninha nos peitos mais fortes. Mas tentou “salvar-nos”, com uma singular promessa: o homem pode ser destruído, mas não vencido.
Ler os trágicos gregos, a seguir à morte do meu irmão, purgou-me e salvou-me, em vez de me destruir. A tragédia lava e redime.
Os grandes cómicos, Molière ou Wodehouse, encheram-me de sol e de água fresca. O grande Pirandello fez-me rir, dilacerando-me e tornando-me desconfiado, isto é, prevenido.
Nesta altura do campeonato, estou a ouvir o sussurro de um qualquer rato de esgoto: “Este tipo quer-nos convencer de que leu tudo e mais alguma coisa.” Responderei, como respondeu D’Annunzio a Gide: sim, li tudo, na esperança de encontrar finalmente A OBRA-PRIMA.”
Eugénio Lisboa, em 17.07.2023
George Steiner (1929-2020). (Foto: Wikimedia Commons)
Os Que Queimam os Livros
por George Steiner
"Os que queimam os livros, que proscrevem e matam os poetas, sabem rigorosamente o que fazem. O poder indeterminado dos livros é incalculável. É indeterminado precisamente porque o mesmo livro, a mesma página pode ter efeitos inteiramente díspares sobre os seus leitores. Pode exaltar ou aviltar; seduzir ou repelir; intimar à virtude ou à barbárie; expandir a sensibilidade ou banalizá-la. Em termos extremamente desconcertantes, pode fazer uma e outra coisa, quase no mesmo momento, num impulso de resposta tão complexo, tão rápido na sua alternância e tão híbrido que nenhuma hermenêutica, nenhuma psicologia poderá predizer ou calcular a sua força. Em diferentes momentos da vida do leitor, um livro despertará reflexos inteiramente diferentes. Não há na experiência humana fenomenologia mais complexa do que a dos encontros entre texto e percepção, ou, como Dante notou, entre as formas da linguagem que excedem o nosso entendimento e as ordens de compreensão frente às quais a nossa linguagem se revela insuficiente: la debilitate de lo’nielleto e la cortezza del nostro parlare.
(…) O encontro com o livro, como com o homem ou a mulher, que vai mudar a nossa vida, muitas vezes num instante de reconhecimento que se ignora , puro acaso talvez. O texto que nos converterá a uma fé, nos ligará a uma ideologia, dará à nossa existência um fim e um critério, podia estar à nossa espera nas prateleiras da estante de ocasião, dos livros desbotados ou dos saldos. Pode estar ali, poeirento e esquecido, numa prateleira de estante exactamente ao lado do volume de que andamos à procura. A sonoridade estranha das palavras impressas na capa envelhecida pode deter o nosso olhar: Zaratustra, Westoslicher Divan, Moby Dick, Horcynus Orca. Enquanto um texto sobrevive, algures à face da terra, ainda que num silêncio que nada vem quebrar, continua susceptível de ressureição. Walter Benjamin ensinava–o, Borges elaborou a sua mitologia: um livro autêntico nunca é um livro impaciente. Pode esperar séculos até despertar um eco vivificador. Pode estar à venda com cinquenta por cento de desconto numa estação de comboio, como o primeiro Celan que por acaso descobri e abri. A partir desse momento fortuito, a minha vida transformou-se, e eu tentei aprender “ uma língua a Norte do futuro”.
Trata-se de uma transformação dialéctica. As suas parábolas são as da Anunciação e da Epifania. Conhecemos tão mal a génese da criação literária! Não temos por assim dizer qualquer acesso à neuroquímica possível do acto de imaginação e dos seus procedimentos. Até mesmo o rascunho informe de um poema é já uma etapa muito tardia na viagem que conduz à expressão e ao gesto performativo. O crepúsculo , o “ antes da madrugada” e as pressões no sentido da expressão que se exercem no subsconsciente são para nós quase imperceptíveis. Mais concretamente: como é possível que alguns traços sobre uma tabuinha de argila, riscos de pena ou de lápis que muitas vezes mal chegam a ser legíveis num frágil pedaço de papel, constituam uma persona – uma Beatriz , um Falstaff, uma Anna Karenina- cuja substância, para um sem-número de leitores ou espectadores, excede a própria vida na sua realidade, na sua presença fenomenal, na sua longevidade social e encarnada? ( Este enigma da persona fictícia, mais viva, mais complexa do que a existência do seu criador e do seu “receptor” – que homem ou que mulher tem a beleza de Helena, a complexidade de Hamlet, ou é tão inesquecível como Emma Bovary? –tal é a questão decisiva, mas também a mais difícil, da poética e da psicologia.)
(…) O conceito de leitura, encarado como um processo que na sua raiz releva da colaboração , é convincente. O leitor sério trabalha com o autor. Compreender um texto , “ ilustrá-lo” no quadro da nossa imaginação, da nossa memória e da nossa representação combinatória, é, na medida dos nossos meios , recriá-lo. Os maiores leitores de Sófocles e de Shakespeare são os actores e os encenadores que dão às palavras a sua carne viva. Aprender um poema de cor é encontrá-lo a meio-caminho na viagem sempre maravilhosa da sua chegada ao mundo. Numa “ leitura bem feita” (Péguy), o leitor faz dele qualquer coisa de paradoxal: um eco que reflecte o texto, mas que lhe responde também com as suas próprias percepções, as suas necessidades e os seus desafios. As nossas relações de intimidade com um livro são, portanto, efectivamente dialécticas e recíprocas : lemos o livro, mas, mais profundamente talvez, é o livro que nos lê.” 
George Steiner, in  Os Logocratas, Relógio D’Água Editores

quarta-feira, 22 de abril de 2026

No Dia Mundial da Terra

Earth 4K - Featuring Every Country In The World
Terra em 4K - Apresentando todos os países do mundo
O Dia da Terra é considerado um dos acontecimentos ambientais mais importantes do mundo, sendo celebrado anualmente em vários países do mundo, incluindo Portugal a 22 de Abril.
O nosso planeta Terra é realmente um lugar incrível! Desfrute deste filme relaxante em 4K com paisagens deslumbrantes de todos os países do mundo! Das maravilhas e da vida selvagem de África às paisagens encantadoras da Europa, há beleza em cada canto do planeta! " 
As guerras estão a ameaçá-lo e a destruir a harmonia que sustentava a coabitação  dos povos e a respectiva existência. Se o homem não o acarinhar e continuar a devastá-lo,  toda esta beleza vai ser reduzida  a  um lúgubre  jazigo .

terça-feira, 21 de abril de 2026

Poesia e Música

Mariza, em "Há uma música do povo

Há uma música do povo

Há uma música do povo,

Nem sei dizer se é um fado —

Que ouvindo-a há um chiste novo

No ser que tenho guardado...

Ouvindo-a sou quem seria

Se desejar fosse ser...

É uma simples melodia

Das que se aprendem a viver...

E ouço-a embalado e sozinho...

É essa mesma que eu quis...

Perdi a fé e o caminho...

Quem não fui é que é feliz.

Mas é tão consoladora

A vaga e triste canção...

Que a minha alma já não chora

Nem eu tenho coração...

Se uma emoção estrangeira,

Um erro de sonho ido...

Canto de qualquer maneira

E acaba com um sentido!

                        9-11-1928

Fernando Pessoa, in Poesias Inéditas (1919-1930).. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).

Sara Correia, em Fado Português, poema de José Régio, música de Alain Oulman

Fado Português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'

segunda-feira, 20 de abril de 2026

No reino do ditador

Le vignette di Italia Oggi

Macbeth na Rússia
 
Depois de matar e incendiar,
depois de constante bombardear,
aquele cadáver frio que procria,
sem sabedoria nem alegria,
 
Vladimir Putin, feio czar da Rússia,
onde se tortura com arrogância,
e se mata irmão ou filho, que importa,
é preciso é desamparar a porta,
 
Putin, dizia, vai ver a floresta,
até aí, imóvel, caminhar,
imparável e ameaçadora besta,
 
como se viu, em Dunsinane, andar
outra floresta, até aí quieta,
em direcção a Macbeth, como seta!
                           11.05.2023
Eugénio Lisboa

 
          133- Putin caricature stock illustrations

Na morte de Navalny

Nero recomendava o suicídio
ou mandava a guarda pretoriana
ou também usava o matricídio,
querendo livrar-se de algum sacana.

O melhor modo de fazer calar
um adversário muito eloquente
é, sem mais, fazê-lo assassinar,
de modo rápido e eficiente.

Navalny foi agora “afastado”,
porque incomodava muita gente.
Putine, naturalmente agastado,

disse: “Quem me livra deste demente?”
Os seus assessores compreenderam
e, muito prestamente, procederam.
                             16.02.2024
Eugénio Lisboa


SONETO MUITO GAUCHE PARA USO DOS
OPRESSORES DO MOMENTO


Os ditadores usam a cartilha
normalmente usada por quem oprime.
O opressor percebe bem que trilha
inocentes e que nada o redime.

A razão do opressor é a força,
já que outra razão não tem.
Porém a força a razão reforça
e a razão faz da força seu refém.

A sabedoria dos opressores
é o contrário de saber viver:
o uso constante dos seus terrores

é sementeira que fará colher
os tais destemidos frutos da ira,
que atira os restos da força à pira!
                           25.02.2022
Nota do autor – Quem não tem cão caça com gato. Quem não tem espingarda dispara soneto mal-amanhado.
Eugénio Lisboa, in Poemas em tempo de guerra suja , Editora Guerra & Paz , Setembro de 2022, p 17