terça-feira, 30 de junho de 2020

Há tantos amores ...

"Há tantos amores na vida de um homem! Aos quatro anos, ama-se os cavalos, o sol, as flores, as armas que brilham, os uniformes de soldado; aos dez, ama-se a menina que brinca connosco; aos treze, ama-se uma mulher de colo túrgido, porque me lembro de que o que os adolescentes amam loucamente é um colo de mulher, branco e mate, e como diz Marot:

Tetin refaict plus blanc qu'un oeuf
Tetin de satin blanc tout neuf.

 Quase me senti mal quando vi pela primeira vez os seios desnudados de uma mulher. Por fim, aos catorze ou quinze anos, ama-se uma jovem que vem a nossa casa, e que é um pouco mais que uma irmã, menos que uma amante; depois, aos dezasseis anos, ama-se uma outra mulher, até aos vinte e cinco; depois, talvez se ame a mulher com quem casamos. Cinco anos mais tarde, ama-se a dançarina que faz saltar o seu vestido sobre as suas coxas carnudas; por fim, aos trinta e seis, ama-se a deputação, a especulação, as honrarias; aos cinquenta, ama-se o jantar do ministro ou do presidente da câmara; aos sessenta, ama-se a prostituta que nos chama através dos vidros e a quem se lança um olhar de impotência, uma saudade do passado. Não será assim?
 Porque eu passei por todos esses amores; não todos, porém, porque não vivi todos os meus anos, e cada ano, na vida de muitos homens, é marcado por uma paixão nova, paixão das mulheres, do jogo, dos cavalos, das botas finas, das bengalas, das lunetas, das carruagens, da posição. Quantas loucuras há num homem! Oh! não há a menor dúvida de que os matizes de um trajo de arlequim não são mais variados do que as loucuras do espírito humano, e ambos chegam ao mesmo resultado: ficarem coçados e fazerem rir durante algum tempo, o público em troca do seu dinheiro, o filósofo em troca da sua ciência."
Gustave Flaubert,  in  Memórias de um Louco, Editorial Teorema

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Saudades

"Desde que deixei de filmar aconteceu-me sentir saudades de tudo e de todos. Compreendo então o que Fellini quer dizer quando afirma que fazer cinema, para ele, é um modo de viver. Também compreendo a historieta que ele costuma contar, passada com Anita Ekberg. A última cena que ela representou no filme La Dolce Vita tinha lugar num automóvel que estava estacionado no estúdio. Após ter sido filmada a cena e com isso concluída a película, Anita Ekberg começou a chorar, recusou-se a sair do carro, mantendo-se agarrada ao volante. E foi quase à força que tiveram de a levar para fora dos estúdios."
Ingmar Bergman, in Lanterna Mágica , Editora Caravela,1988

domingo, 28 de junho de 2020

Ao Domingo Há Música

Paremos de indagar o que o futuro nos reserva e recebamos como um presente o que quer que nos traga o dia de hoje.
                                                                         Heráclito

E o dia de hoje traz recordações. Vozes  que nos levam a Itália, um país de músicos e de música.  A Arte   marcou este país . Quem lá chega sente-se intemporal. A História dedicou-lhe incontáveis  páginas.

Andrea Bocelli  e Dua Lipa , em If Only (Backstage) . 

Vittorio Grigolo , em Bedshaped (Così) , ao vivo em Roma, Villa Adriana. Canção escrita por Tom Chaplin, Tim Rice‐Oxley, Richard Hughes, James Sanger.
Licenciado ao YouTube por UMG; BMG Rights Management, UMPG Publishing, ARESA, LatinAutor - UMPG, UMPI, CMRRA, BMI - Broadcast Music Inc., ASCAP, UNIAO BRASILEIRA DE EDITORAS DE MUSICA - UBEM, Abramus Digital, LatinAutor, LatinAutor - PeerMusic e 5 sociedades de direitos musicais.

Sergio Endrigo, em Canzone Per Te .

sábado, 27 de junho de 2020

Céu


CÉU

Tenho uma sede imensa,
mas não é de água…

Tenho uma sede imensa de beber
os soluços do Sol quando declina,
as carícias azuis do Luar de Agosto,
os tons rosa da Tarde que se fina…

É que eu seria poeta, se os bebesse…
Não mais seria o cego de olhos limpos;
esse que viu a água e a não tocou,
pelo estranho pudor da sua boca
que um dia blasfemou.

E, se eu pudesse beber
esses longes de mim que vejo e quero,
em espasmos havia de os mudar
e, num desejo nunca satisfeito,
iria possuir-te, ó Mar!

Havia de cair, num beijo sobre ti;
despir as minhas vestes de serrano,
tirar de mim aquilo que é humano,
E confundir-me em ti.

Gritem depois, embora, que eu morri;
alegre o Mundo o alívio do meu peso;
- que um dia o Sol há-de surgir mais cedo 
e o bom menino de olhos azuis,
de quem sou fraco arremedo,
há-de nascer, ó Mar, da nossa noite de Amor!

E tu, Menina que eu chamava,
Menina que eu chamava e encontrei
Mas abrasada no Amor divino
- tu hás-de ver então que o Céu que idealizas
É o olhar azul desse menino.

Sebastião da Gama (1924 – 1952), in “Serra - Mãe”, Ed. Ática ,1957

sexta-feira, 26 de junho de 2020

A Dor do Luto

"Há quase trinta anos, num romance, tentei imaginar o que seria para um homem de sessenta e tal anos  enviuvar. Escrevi:

Quando ela morre, de início não nos surpreendemos. Parte do amor  é preparação para a morte. Sentimos a confirmação do amor , quando ela morre. Tínhamos razão. Isso faz parte.
Depois vem a loucura. E depois  a solidão: não a solidão aparatosa que antevíramos, não o martírio singular da viuvez, mas solidão somente. Esperamos  uma coisa quase geológica - vertigem num desfiladeiro a pique - mas não é assim; é só infelicidade, regular como um emprego. [As pessoas dizem] vai sair deste estado... E saímos mesmo, é verdade. Mas não saímos como o comboio que sai do túnel e irrompe nas Downs para  luz do sol e para a descida veloz e estrepitosa até ao Canal; saímos como a gaivota que sai de uma maré negra; ficamos como a gaivota que sai de uma maré negra; ficamos  cobertos de alcatrão e penas para a vida inteira.

Li esta passagem no funeral dela, com a neve de Outubro sobre o chão, a minha mão direita a segurar o livro aberto ( que lhe era dedicado). O meu viúvo de ficção tinha uma vida - e um amor - diferente do meu e uma viuvez muito diferente. Mas só tive de suprimir  algumas palavras de uma frase , e fiquei surpreendido com o que julguei ser a minha precisão. Só mais tarde  a dúvida própria do romancista se instalou: talvez , mais do que inventar a dor exacta da minha personagem de ficção, eu me tenha limitado a prever os meus sentimentos  prováveis - uma tarefa mais fácil.
Durante três anos , e mais,  continuei a sonhar com ela  da mesma maneira, segundo a mesma narrativa. Tive então uma espécie de metassonho, que parecia sugerir um fim  para este tipo de trabalho nocturno.  E , como todos os bons finais, não o vi aproximar-se. No meu sonho, estávamos juntos, a fazer coisas juntos , num espaço aberto , felizes - tudo da maneira a que me habituara - quando de repente ela agora sabia que estava morta.
Devia ficar satisfeito com este sonho? Porque esta é  a questão final, aflitiva e sem resposta: o que é ter "sucesso" no luto? Consiste em lembrar ou em esquecer ? Em estar parado ou seguir em frente? Ou nalguma combinação dos dois? A capacidade de continuar a viver como ela quereria que vivêssemos ( embora esta seja uma zona ardilosa, em que os pesarosos podem outorgar-se  livre-trânsito)? E depois? O que acontece ao coração - de que precisa e o que procura?  Uma forma de autossuficiência  que evita a neutralidade e a indiferença? Seguida de uma nova relação que tirará força à memória da que se perdeu? Isto é como pedir o melhor  de ambos os mundos - mas, visto que acabámos de aguentar o pior de um mundo só, podemos sentir que temos este direito. Mas o direito  - a crença num sistema de recompensa cósmica ( ou mesmo animal) - é outra ilusão, outra vaidade. Porque há de existir um padrão, logo aqui, neste lugar?
Há momentos que parecem indicar algum tipo de progresso. Quando as lágrimas  - as lágrimas diárias, inevitáveis - param.  Quando a concentração volta e um livro consegue ser lido como dantes.  Quando o terror  do foyer desaparece.  Quando conseguimos desfazer-nos de bens ( Orfeu , se as coisas tivessem corrido de outra maneira, teria dado aos pobres aquele vestido encarnado). E para além disto? Que esperamos, que procuramos? O tempo em que a vida sai da ópera  e volta à ficção realista. Quando a ponte sob a qual  ainda passamos  de carro, regularmente, volta a ser só uma ponte.  Quando anulamos retrospectivamente os resultados daquele exame em que alguns amigos passaram e outros reprovaram. Quando a tentação do suicídio desaparece finalmente - se é que alguma vez isso acontece. Quando o mundo  volta a ser "só"  o mundo e a vida parece outra vez normal, verdadeira.
Estes podem parecer indicadores claros, quadrados à espera  de um visto. Mas no meio de qualquer  triunfo há muito insucesso, muita recaída. Às vezes queremos continuar a amar a dor. E depois , para além disto, aparece outra questão bem delineada sobre a nuvem: o sucesso na dor, no luto, na mágoa é uma realização ou uma simples e dada condição que agora é nova? Porque aqui  a noção de livre-arbítrio parece irrelevante; a atribuição de virtude e finalidade - a ideia de recompensa pelo luto - parece deslocada. Pode ser que desta vez a analogia  com a doença seja válida. Estudos de doentes com cancro mostram que a atitude de espírito tem muito pouco efeito no resultado clínico. Podemos dizer que estamos a combater o cancro, mas é o cancro  que simplesmente nos combate; podemos pensar  que o derrotámos , e ele retirou-se para se reorganizar.  É só  o universo a fazer o seu trabalho e nós somos o trabalho de que ele é feito. E talvez seja igual com a dor. Imaginamos que lutámos contra ela, que fomos resolutos, superámos a mágoa, raspámos a ferrugem da nossa alma, mas o que aconteceu  foi que a dor se  mudou para outro lado, ganhou novo interesse.  Não fomos nós que mandámos vir as nuvens e não temos poder para as dispersar. Só aconteceu que de algum lado - ou de nenhum lado - uma brisa inesperada surgiu e estamos  de novo em movimento. Mas para onde nos leva?  Para Essex? Para o mar do Norte? Ou, se o vento for de norte, então talvez, com sorte para França.
                                                                                            J.B.
                                                              Londres , 20 de Outubro de 2012"

Julian Barnes, in Os Níveis da Vida, Quetzal Editores, Novembro de 2013,  pp. 106, 107, 108, 109

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Interlúdio Musical

A Contraprova
É preciso guardar
o recibo das andorinhas
quando reencontram,
tumultuosas , 
o ninho.
António Osório, " Décima Aurora"

Tumultuoso, HAVASI transporta para além do que compõe. Ei-lo num dos seus Concert Music  video.
Director: László Kriskó;Director de Fotografia: Zoltán Csincsi;Editor: Nándor Róth;Production Manager: Isván Balla;Producer: Csaba Marjai;Co-Produção: Zoltán Csincsi, László Kriskó , cameras: Thomson Grass Valley, Canon lenses


E In the Act of Creation,  interpretação e composição de HAVASI, no  Piano concert, em  Budapest acompanhado pela Dohnanyi Symphony Orchestra Budafok, com arranjos e direcção de  Peter Pejtsik.
Executive Producer and Creative Director: Csaba Marjai
Audio Post-production: Sandor Nyiri, Classic-Sound Studio, Budapest
Music Production Director: Miklos Lukacs DOP, Editor: Peter Graf / Grafpictures.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Drageias de suposta sabedoria

Carlos Drummond de Andrade
A um jovem 
Por  Carlos Drummond de Andrade

                                                                       Prezado Alípio:
"Ontem à noite, ao sair  de nosso apartamento, aonde fora em busca de sabedoria grega e só encontrou um conhaque e um gato por nome Crispim, assentei de reduzir a escrito o que lhe dissera. Aula de cepticismo? Não. Ele se aprende sozinho.
A única coisa que se pode remotamente concluir do que conversamos é: não vale a pena praticar a literatura, se ela contribuir para agravar a falta de caridade que trazemos do berço.
Por isso, e porque não adiantaria, não lhe dou conselhos. Dou-lhe anticonselhos, meu filho. E se o chamo de filho, perdoe: é balda de gente madura. Poderia chamar-lhe irmão, de tal maneira somos semelhantes, sem embargo do tempo e do pormenor físico: cultivamos ambos o real ilusório, que é um bem e um mal para a alma.
Pouco resta fazer quando não nascemos para os negócios nem para a política nem para o mister guerreiro. Nosso negócio é a contemplação da nuvem. Que pelo menos ele não nos torne demasiado antipáticos aos olhos dos coetâneos absorvidos por ocupações mais seculares.
Recolha pois estes apontamentos, Alípio, e saiba que eu o estimo:
I – Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.
II – Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo, e não exija de si tamanha proeza.
III – Se ficar indeciso entre dois adjectivos, jogue fora ambos, e use o substantivo.
IV – Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.
V – Leia muito e esqueça o mais que puder.
VI – Anote as ideias que lhe vierem na rua, para evitar desenvolvê-las. O acaso é mau conselheiro.
VII – Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom.
VIII – Mas se disserem que seu novo livro é pior do que o anterior, pode ser que falem a verdade.
IX – Não responda a ataques de quem não tem categoria literária: seria pregar rabo em nambu. E se o atacante tiver categoria, não ataca, pois tem mais que fazer.
X – Acha que sua infância foi maravilhosa e merece [ser] lembrada a todo momento em seus escritos? Seus companheiros de infância aí estão, e têm opinião diversa.
XI – Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com soberba. Às vezes nenhum deles vale nada, e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo, ainda que se trate de um escritor.
XII – O porteiro do seu edifício provavelmente ignora a existência, no imóvel, de um escritor excepcional. Não julgue por isso que todos os assalariados modestos sejam insensíveis à literatura, nem que haja obrigatoriamente escritores excepcionais em todos os andares.
XIII – Não tire cópias de suas cartas, pensando no futuro. O fogo, a humidade e as traças podem inutilizar sua cautela. É mais simples confiar na falta de método desses três críticos literários.
[Parte 2]
Mando-lhe aqui jovem Alípio, outras drageias de suposta sabedoria, completando assim a instrução que lhe ministrei.
XIV – Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito a presunção de genialidade exclusiva.
XV – Faça fichas de leitura. As papelarias apreciam esse hábito. As fichas absorverão o seu excesso de vitalidade e, não usadas, são inofensivas.
XVI – Se sentir propensão para o “gang” literário, instale-se no seio de sua geração e ataque. Não há polícia para esse género de actividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.
XVII – Não se julgue mais honesto que o seu amigo porque soube identificar um elogio falso, e ele não. Talvez seja apenas mais duro de coração.
XVIII – Evite disputar prémios literários. O pior que pode acontecer é  ganhá-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
XIX –A sua vaidade assume formas tão subtis que chega a confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.
XX – Seja mais tolerante com o cabotinismo de seu amigo; quase sempre esconde uma deficiência, e só impressiona a outros cabotinos.
XXI – Quanto ao seu próprio cabotinismo, ele esfriará se observar que, na hipótese mais cristã, é objecto de tolerância alheia.
XXII – Antes de reproduzir na orelha de seu livro a opinião do confrade, pense, primeiro, que ele não autorizou a divulgação; segundo, que a opinião pode ser mera cortesia; terceiro, que  não admira tanto assim o confrade.
XXIII – Procure ser justo com os outros; se for muito difícil, bondoso; na pior eventualidade, omisso.
XXIV – Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto. E proceda à revisão periódica de suas admirações
XXV – Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e será apanhado daqui a dez anos se ficar famoso; e se não ficar não terá valido a pena.
XXVI – Deixe-se fotografar à vontade, sem chamar os fotógrafos; não recuse autógrafos, mas não se mortifique se não os pedirem. Homero não deixou cartas nem retratos, mas Baudelaire deixou uns e outros. O essencial se passa com outros papéis.
XXVII – Tem um diário para explicar-se; é assim tão emaranhado? Para justificar-se: sua consciência anda meio turva? Para projectar-se no futuro: julga-se tão extraordinário?
XXVIII – Trate as corporações com cortesia, pois poderá vir a ingressar numa; com indiferença, pois o mais provável é não ingressar nunca.
XXIX – Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o seu. Por egoísmo poupe-se  a qualquer espécie de sofrimento.
XXX – Boa composição oral é a de orgulho e humildade; esta nos absolve de nossas fraquezas; aquele nos impede de cair em outras. Quanto aos santos-escritores, é de supor que foram canonizados apesar da condição literária.
XXXI – Seja discreto. É tão mais cómodo!"
                                                                                      [1953]
Carlos Drummond de Andrade, in  A bolsa & a vida [Crônicas]1,  ed. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962, pp. 115-118.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Sérgio Rubens Sossélla

Sérgio Rubens Sossélla, poeta paranaense,
patrono da cadeira nº 2 da Academia
de Letras e Artes  de Paranavaí
Sérgio Rubens Sossélla *
por Manoel de Andrade
“Conheci o Sossélla em 1962, no primeiro ano de Direito da Universidade Federal do Paraná, mas foi somente no ano seguinte que nos aproximamos. Eu começava a escrever poesia e ele, crítica literária. Seu primeiro livro, publicado em 1962, chamou-se 9 artigos de crítica que ele autografou para mim, em 20 de Setembro de 1963, com as seguintes palavras: “Ao amigo e colega Manoel de Andrade, oferece o autor com abraços”. Tratava-se de textos que eu já tinha lido nos jornais de Curitiba. Na época, ele estava preparando seu segundo livro que se chamaria: Apontamentos de Crítica (1). Os 9 artigos de crítica falavam de música, literatura e cinema e começava ali a sua grande paixão pelo contista português Fialho de Almeida. Em suas páginas escreveu  indignado: [...] “Incrível o pouco caso manifestado por críticos, historiadores e editores portugueses ao genial cinzelador dos ‘Ceifeiros’. Um escritor que orgulharia qualquer povo, esquecido, completamente esquecido em sua pátria. O esquecimento voluntário é um crime.” Lembro-me de que uma vez o encontrei exultante. Trazia nas mãos dois amarrotados volumes de Os gatos, que havia achado num sebo (1). Era uma edição portuguesa do fim do século XIX. Nem ele mesmo acreditava que aqueles livros tivessem vindo parar em Curitiba. Só aqueles que amam os livros sabem o prazer de encontrar uma obra rara de um autor preferido.
Na década de 60, Sossélla escrevia semanalmente na coluna DP Domingo do jornal Diário do Paraná que fazia parte da grande rede dos Diários Associados. Trocávamos mútuas opiniões sobre os textos que escrevíamos. Lembro-me do primeiro poema que publiquei em 17 de Julho de 1963, no jornal Estado do Paraná. Chamava-se “Praias” e foi ele quem revisou o original, sugerindo-me pequenas modificações. Em fins de 1965, o Grémio Clóvis Bevilaqua, criado para organizar nossa formatura em 1966, passou a editar uma publicação académica chamada O Grêmio. Era um boletim informativo-cultural, cujo primeiro presidente foi o colega Fausto Luiz Sant’Ana e sua principal finalidade era organizar os fundos para a  graduação. O primeiro número saiu em Novembro de 1965. Na parte literária, trazia um trecho autobiográfico de Thomas Mann e um poema político meu chamado “Epinício”, que também passou pelo crivo do Sossélla. Creio que ele publicou alguns textos nos números seguintes. Ao término das aulas, saíamos quase sempre juntos e íamos directo para a Livraria Ghignone, a uma quadra e meia da Faculdade. Lá chegavam outros colegas de turma como o Alaor Galhardo, o José Arruda, também apaixonados por livros. Era ali que encontrávamos os intelectuais Nelson Padrela, o Jamil Snege, Walmor Marcelino e o Aristides Vinholes. O Sossélla, muito mais que eu, era literalmente um “rato de livraria”. Não era raro nos encontrarmos, também, nos poucos sebos que Curitiba tinha naquela época. No começo dos anos sessenta, o Concretismo estava dando as cartas na literatura e eu acabei entrando naquela “canoa furada”, onde a mera formalidade gráfica, a  visualidade e a própria eliminação do verso sacrificavam o real encanto e o lirismo da poesia. A nova cartilha passava pelo poema “Un coup de dés” de Mallarmé, o “Finnegans Wake”, de Joyce, os cantos de Ezra Pound e pelas experiências futuristas e dadaístas. O Sossélla, literalmente mais crítico que eu, não só passou imune por sua bizarra influência, mas mostrou a inadequada pretensão poética do movimento em seu terceiro livro Apontamentos de crítica (3). No texto “Concretismo: significação poética” ele argumenta que a poesia feita em São Paulo pelo grupo Noigandres atrofiava o significado da poesia, descontextualizando o sentido das palavras. Essa consciência crítica e essa visão antecipada da sua incoerência como expressão da poesia era já um prenúncio da fugaz existência literária que teve o Concretismo. Este era um assunto polêmico na época, um feudo intelectual, mas Sossélla teve a coragem e agudeza de colocar o dedo na ferida. O alerta contra o excessivo intelectualismo na poesia foi dado também pelo poeta Ferreira Gullar que se identificando com o momento histórico pelo qual passava o Brasil, desde o golpe de 1964, abandonou o formalismo concretista e retomou a linguagem poética, identificando-a com as causas políticas. Mas não foram muitos os poetas brasileiros que abandonaram o mero intelectualismo que então grassava não só no Concretismo, mas também na Poesia-práxis e no Poema/processo, para fazer esta opção pelo social e isso eu senti aqui, em Curitiba. Em 1965, quando o regime militar já era abertamente denunciado pelas prisões e torturas, participei da Noite da Poesia Paranaense, no Teatro Guaíra, e o único poema – declamado entre os 14 poetas participantes – que ousou encarar a ditadura chamava-se “A náusea”, onde eu perguntava:
[...] saberás conter essa indignação
 somente no lirismo dos teus versos,
 ou irás colar teu escarro no pátio sangrento
 dos quartéis? [...]
O Sossélla estava lá, mas como espectador, porque ele não trocara ainda a condição de crítico pela de poeta e seu primeiro livro de poesia, Sobrepoemas, somente seria publicado em 1966. Ele não era, ideologicamente, tão radical, mas ambos partilhávamos da mesma revolta contra a ditadura, embora ele nunca tenha expressado, pelo que eu li de sua poesia naqueles anos, qualquer engajamento nos seus versos. No começo de 1966, começou a ser publicada em Curitiba a Revista Forma, concebida pela genialidade gráfica de Cleto de Assis e a invejável intelectualidade de Philomena Gebran. A revista, ainda que de vida curta, foi um marco de requintada cultura. O Sossélla e eu tivemos nossos textos honrados pelos seus diretores. No primeiro número o Cleto ilustrou os versos do meu “Poema brabo” e no segundo, o  texto-montagem “My name is Orson Welles” do Sossela o qual passou a integrar o Conselho de Redação da Revista. Até aquele ano de 1966 convivíamos quase diariamente, já que cursávamos o último ano de Direito e partilhávamos culturalmente os mesmos caminhos. A partir de 1967, já não nos víamos com tanta frequência. Ele trabalhava na Biblioteca Pública e eu no Departamento de Estradas de Rodagem, lugares bem distantes, na geografia urbana daquela época. O golpe militar de 1964, à medida que os anos passavam, também começou a definir claramente os rumos a serem trilhados pelos intelectuais. Alguns optaram por colocar sua arte a serviço da luta contra a ditadura e essa foi minha opção como poeta. Em outubro de 1968, escrevi um poema chamado “Saudação a Che Guevara”, pregando a luta armada. Esse poema foi panfletado em universidades, centros acadêmicos e sindicatos e quando em dezembro veio o AI-5, passei a ser procurado pelo DOPS. As pessoas estavam sumindo e muitas delas jamais  reapareceram. Nesse contexto de terror e pânico, fugi do Brasil em março de 1969 e nunca mais vi o Sossélla.
Na tarde de terça-feira, 19 de abril de 2011, o artista gráfico e editor Cleto de Assis, o jornalista e escritor Hélio de Freitas Puglielli e eu participamos de um estudo em grupo, da obra de Jamil Snege. Comentei com ambos que me fora pedido um texto sobre o Sossélla e perguntei que relações tiveram com ele. O Hélio me disse que, no início da década de 60, foi surpreendido, nos corredores da antiga Secretaria de Viação e Obras Públicas, por um rapaz magro e de óculos, voz grossa, que lhe solicitou a publicação de “uma crônica hebdomadária” no jornal em que ele era o redator. Tratava-se do Sérgio Rubens Sosséla, que, nas palavras do Hélio “tornou-se um grande poeta, cuja obra ainda há de ser reconhecida como importante contribuição à literatura brasileira. Advirta-se que logo ele perdeu o hábito de arcaísmos, como o que usou para pleitear a publicação de uma crônica semanal.” Os arcaísmos a que se refere o Hélio devem-se, com toda certeza, à influência do estilo literário de Fialho de Almeida. Influência que ele perdeu por conselho de seu amigo, o escritor Ernani Reichmann. Já o Cleto de Assis preferiu me mandar um email onde afirma que
Minha amizade com Sérgio Rubens Sossélla foi daquelas que consideramos como de curta comunicação, mas de intensa voltagem. Lembro-me de sua figura franzina, ainda estudante mas já vestido como jurista, de gravata e pasta de couro, a procurar-me para tratar da edição de um ensaio seu sobre A Procissão de Eus, do escritor paranaense Milton Carneiro. Desde logo foi possível perceber que, diante de mim, estava um homem inquieto, imensamente interessado com a dinâmica literária. Seu pequeno livro tentava ler as entrelinhas do amigo intelectual mais idoso e sofrido, transformando o primeiro texto numa espécie de poema exegético em prosa. Aquela análise crítica, que logo iria ao prelo da pequena gráfica na qual eu tentava criar uma editora, em companhia de Philomena Gebran, seria o primeiro laço com o nascente escritor, crítico e poeta. A seu pedido, desenhei também a capa. Passamos a conviver nas tertúlias artísticas, a nos encontrar no cine-clube do Santa Maria, a dividir conversas longas e interessantes com amigos comuns. Mas foi rápida a nossa comunicação interpessoal, devido a diferentes geografias às quais fomos ejetados, nos anos  seguintes. Acompanhei, no entanto, a sua progressão profissional e artística, por meio de notícias de jornais e fala dos amigos, até seu exílio final no interior do Paraná, que não chegou a desvanecer a sua inquietude e a prolífera produção literária.
Quando por razões familiares, voltei ao Brasil, em meados de 1972, não encontrei mais o Sossélla em Curitiba. Soube que era juiz em Jacarezinho. A situação do país passava, politicamente, por sua fase mais tenebrosa. Era a época da Guerrilha do Araguaia e a ordem já não era mais prender os “subversivos”, mas executá-los. Embora no anonimato social e literário, alguns meses depois que cheguei, soube que os agentes do DOPS já estavam à minha procura. Isolei-me mais ainda. Muitas coisas mudaram nos meus interesses intelectuais e fiquei cerca de 30 anos longe dos contatos literários, voltando a escrever somente em 2002. Creio que foi no início daquele ano que consegui o telefone do Sossélla em Paranavaí. Tivemos quase duas horas de conversa. Eu falando de minha volta à poesia e ele comentando sua intensa vida literária e a centena de livros publicados. Ficamos de nos rever em Curitiba. Mas esse ansiado reencontro não aconteceu. Em 2003 dois grandes amigos mudaram-se para uma outra dimensão da vida. Em 16 de maio partiu o narrador e poeta Jamil Snege e em 18 de novembro seguiu o crítico e poeta Sérgio Rubens Sossélla. Os poetas habitam na aldeia da  esperança. Não morrem porque não deixam o sonho morrer. Eles vivem nas palavras que deixaram, na memória e na saudade dos amigos e dos amores, porque nada, segundo Shakespeare, separa aqueles que se amam.
Manoel de Andrade, in "Palavras no espelho", Editora Escrituras, São Paulo, Brasil, 2018, pp. 193-199
(1) - sebo corresponde a alfarrabista, em Portugal
 Nota
*- Estas informações sobre Sérgio Rubens Sossélla  foram-me solicitadas em Março de 2011, pela professora Gersonita Elpídio dos Santos, para sua dissertação de mestrado em Letras, pela Universidade Estadual de Maringá, que resultou no livro Silêncio, sombra e solidão na poesia de Sérgio Rubens Sossélla, publicado em 2013 pela Editora Massoni.
Breves notas biográficas sobre Sossélla
"Sérgio Rubens Sossélla foi um poeta, crítico e magistrado, nascido em Curitiba, no dia 27 de Fevereiro de 1942.  Graduado em Direito pela Universidade Federal do Paraná, actuou como juiz em alguns municípios do Estado, vindo a aposentar-se, a pedido, em 1986. Após o abandono  das actividades jurídicas, dedicou-se única e exclusivamente à literatura. Foi um dos poetas mais produtivos do Brasil, tendo produzido  para além de 300 publicações, a maioria editada pelo próprio autor. Aposentou-se em 1986 e,  em seguida, construiu a Vila Rosa Maria, na cidade de Paravanaí, uma biblioteca com mais de 25 mil livros, onde se dedicou à poesia e literatura integralmente até ao fim de sua vida, em 2003.
Faleceu no dia 18 de Novembro de 2003. Deixou um volumoso legado literário , com algumas obras  inéditas. "

domingo, 21 de junho de 2020

Ao Domingo Há Música

Is that anyway for a man to carry on?
Do you think that I want my loved one gone?
I love you more than you'll ever know
I said, "I love you, I love, I love you"
Don't want nobody else but you
Gary Moore

Neste domingo , recorda-se o virtuosismo de Gary Moore na guitarra  , em The Prophet, composição de Gary Moore.
Licenciado ao YouTube por WMG (em nome de Castle Communications); LatinAutor, Rumblefish (Publishing), BMI - Broadcast Music Inc. e 15 sociedades de direitos musicais.


E  Gary Moore, em  I Love You more than You'll ever Know .
Licenciado ao YouTube por UMG (em nome de Eagle Rock); Warner Chappell, CMRRA, BMI - Broadcast Music Inc., PEDL, UNIAO BRASILEIRA DE EDITORAS DE MUSICA - UBEM, LatinAutor, LatinAutor - Warner Chappell e 7 sociedades de direitos musicais


sábado, 20 de junho de 2020

Restamos solamente nosotros

Pablo Neruda e Jorge Amado 
Bahia , 1966  - aeroporto

" No aeroporto  Zélia e eu aguardamos Neruda que, estando  no Brasil, vem passar o fim de semana connosco  na Bahia, matar saudades. Esbaforido  aparece  Ariovaldo Matos (1), a quem eu dera a informação. Ariovaldo publica um semanário, tem dificuldades de dinheiro e de censura , vive entre a redacção e a cadeia.
Pablo viajara ao Brasil para a cerimónia de inauguração em São Paulo do monumento em memória de Garcia Lorca.  Obra de Flévio de Carvalho, menos de uma semana  após a solenidade, o monunento foi destruído pelos esbirros  da ditadura militar, as forças armadas não estimam os poetas.
Acompanhado por Matilde , Pablo desce do avião, nos abraçamos peito contra peito, face contra face, faz tempo que não nos vemos. Tendo vindo para o júbilo do reecontro fraterno na cidade predilecta - o casario, a música , a capoeira, o vatapá, os camarões e as lagostas -  e não para a masturbação dos funerais , Pablo sussura-me ao ouvido, a voz magoada:
- No me perguntes  por nadie, compadre, se morieron  todos. Restamos solamente nosotros.
Sob a batuta  de Ariovaldo , as bahianas cercam o poeta , atam-lhe ao pulso a fita do Bonfim, a branca , a de Oxalá dão-lhe as boas -vindas."
Jorge Amado, in Navegação de Cabotagem, Apontamentos para um Livro de Memórias que jamais escreverei,  Publicações Europa-América, 1992, pp. 195,196

(1) Ariovaldo Matos ( 1926/1988) , escritor e jornalista

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A Música é como o Vento



La musique est comme le vent, elle ne s'arrête jamais ; c'est nous qui arrêtons d'écouter.
                                                                         Alain Damasio

De Ottorino Respighi, Concerto Gregoriano per violino e orchestra (P. 135) (1921)com a excelente interpretação de Andrea Cappelletti no  violino e da Philharmonia Orchestra, sob a direcção do Maestro  Matthias Bamert.
I. Andante tranquillo
II. Andante espressivo [09:14]
III. Finale: Alleluja, Allegro energico [19:47]

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Entrevista inédita a Jorge Luís Borges

Borges em sua casa. Uma entrevista de Mario Vargas Llosa
O escritor argentino conversou com o futuro Nobel em 1981 diante das câmaras de televisão. A conversa, que permanecia inédita, faz parte do novo livro do autor peruano: ‘Medio siglo con Borges’. A editora espanhola Alfaguara irá publicá-lo na próxima semana
Entrevista a Jorge Luís Borges
por Mario Vargas Llosa
Se precisasse nomear um escritor de língua espanhola de nosso tempo cuja obra irá perdurar, deixará uma marca profunda na literatura, citaria esse poeta, contista e ensaísta argentino que emprestou seu sobrenome a Graciela Borges, Jorge Luis Borges.
O punhado de livros que escreveu, livros sempre breves, perfeitos como um anel, onde se tem a impressão de que nada falta e sobra, tiveram e têm uma enorme influência nos que escrevem em espanhol. As suas histórias fantásticas, que ocorrem no Pampa, em Buenos Aires, na China, em Londres, em qualquer lugar da realidade e da irrealidade, mostram a mesma imaginação poderosa e a mesma formidável cultura que seus ensaios sobre o tempo, o idioma dos vikings... Mas a erudição em Borges nunca é algo denso, académico, é sempre algo insólito, brilhante, divertido, uma aventura do espírito da qual nós leitores saímos sempre surpreendidos e enriquecidos.
A entrevista, que Borges nos deu, ocorreu no modesto apartamento do centro de Buenos Aires em que mora, acompanhado de uma empregada que também lhe serve de guia, já que Borges perdeu a vista há anos, e de um gato angorá batizado com o nome de Beppo porque, nos disse, era o nome do gato de um poeta inglês que admira: Lord Byron.
MARIO VARGAS LLOSA. Impressionei-me muito ao ver a sua biblioteca e não encontrar livros seus, não há um sequer. Por que não tem seus livros em sua biblioteca?
JORGE LUIS BORGES. Tenho muito cuidado com minha biblioteca. Quem sou eu para me comparar com Schopenhauer...
MVLL. E não há livros sobre o senhor, vejo que não há nenhum livro dos que foram escritos sobre o senhor.
JLB. Eu li o primeiro que foi publicado durante a ditadura, em Mendoza.
MVLL. Qual ditadura, Borges? Porque infelizmente foram tantas...
JLB. A daquele..., de cujo nome não quero me lembrar.
MVLL. Nem mencioná-lo.
JLB. Não, também não. É bom evitar algumas palavras. Bom, foi publicado o livro Borges, Enigma y Clave, escrito por Ruiz Díaz, um professor de Mendoza, e por um boliviano, Tamayo. E eu li esse livro para ver se encontrava a solução, já que conhecia o enigma. Depois não li mais nenhum. Alicia Jurado escreveu um livro sobre mim. Eu agradeci-lhe, disse: “Sei que é bom, mas o assunto não me interessa ou talvez me interesse muito, portanto não vou lê-lo”.
MVLL. O senhor também não leu a volumosa biografia publicada por Rodríguez Monegal.
JLB. E o que me diz, é muito boa?
MVLL. Pelo menos muito documentada e feita realmente com uma grande reverência, um grande afecto pelo senhor e um grande conhecimento, acho, de sua obra.
JLB. Sim, somos amigos. Ele é de Melo, não? Da República Oriental (Uruguai).
MVLL. Sim, além disso aparece num de seus contos como personagem.
JLB. De Melo , lembro-me de uns versos muito bonitos de Emilio Oribe, que começam de maneira trivial e depois se exaltam, se alongam: “Eu nasci em Melo, cidade de coloniais casas”... Bom, isso não está muito... “coloniais casas”, “casas coloniais” ligeiramente diversas... “Eu nasci em Melo, cidade de coloniais casas, em meio à terrível planície interminável”, e agora se engrandece, “em meio à terrível planície interminável e próxima ao Brasil”. Como o verso vai crescendo, não? Como vai se ampliando.
MVLL. Principalmente da maneira em que o senhor diz.
JLB. Não, mas... “Eu nasci em Melo, cidade de coloniais casa” não é nada; “em meio à terrível planície interminável e próxima ao Brasil”, e já vê um império no final do verso. É lindíssima. Emilio Oribe.
MVLL. É muito bonito. Diga-me, Borges, quero  perguntar-lhe uma coisa há muitos anos. Eu escrevo romances, e sempre me senti magoado por uma frase sua belíssima, mas muito ofensiva a um romancista, uma frase que é mais ou menos a seguinte: “Desvario empobrecedor o de querer escrever romances, o de querer explicar em quinhentas páginas algo que pode ser formulado numa só frase”.
JLB. Sim, mas é um erro, um erro inventado por mim. A indolência, não? A incompetência.
MVLL. Mas o senhor foi um grande leitor de romances e um maravilhoso tradutor de romances.
JLB. Não, não. Eu li muito poucos romances.
MVLL. Os romances, entretanto, aparecem em sua obra, são mencionados e até inventados.
JLB. Sim, mas fui derrotado por Thackeray. Por outro lado, gosto muito de Dickens.
MVLL. Achou Vanity Fair (A Feira das Vaidades) muito maçante.
JLB. Pendennis eu consegui ler, fazendo um esforço, com Vanity Fair não, não pude.
MVLL. Conrad, por exemplo, que é um autor que o senhor admira, não se importa com os romances de Conrad?
JLB. Mas claro que sim, por isso lhe digo que com escassas excepções. Por exemplo, o caso de Henry James, que era um grande contista e um romancista, digamos, de outro calibre.
MVLL. Mas, entre os autores mais importantes para o senhor, não há nenhum romancista?
JLB. ...
MVLL. Mencionaria algum romancista entre os autores que considera mais importantes ou são principalmente poetas e ensaístas?
JLB. E contistas.
MVLL. E contistas.
JLB. Porque não acho que As Mil e Uma Noites seja um romance, não? Uma infinita antologia.
MVLL. A vantagem do romance é que tudo pode ser romance. Acho que é um género canibal, que traga todos os géneros.
JLB. A propósito de “canibal”, o senhor conhece a origem da palavra?
MVLL. Não, não conheço, qual é?
JLB. Muito linda. Caribe, que deu caribal, e canibal.
MVLL. Ou seja, é uma palavra de origem latino-americana.
JLB. Bom, sem “latino”. Eram uma tribo de índios, os caribes, uma palavra indígena, e daí surgiu canibal e Caliban, de Shakespeare.
MVLL. Curiosa contribuição da América ao vocabulário universal.
JLB. Há tantas. Chocolate, que era xocoatl, creio, não? O tl se perdeu, infelizmente. Papa (batata), também.
MVLL. Qual foi a melhor contribuição da América ao campo da literatura em sua opinião? De toda a América: América espanhola, portuguesa... Algum autor, algum livro, algum tema?
JLB. Eu diria que o modernismo em geral. Era obra da literatura em língua castelhana, e isso surge deste lado, como demonstra Max Henríquez Ureña. Falei com Juan Ramón Jiménez e ele me disse da emoção com que recebeu um exemplar de Las Montañas del Oro (As Montanhas de Ouro), ano 1897. E seu influxo em grandes poetas na Espanha. Mas isso surge deste lado. E curiosamente, aqui estamos — não geograficamente— muito mais perto da França do que os espanhóis. Eu me dei conta em Espanha que podia elogiar a Inglaterra, elogiar a Itália, elogiar a Alemanha, elogiar até mesmo a América do Norte, mas se falava da França sentiam-se incomodados.
MVLL. O nacionalismo é algo muito difícil de erradicar em qualquer parte.
JLB. Um dos grandes males de nossa época.
MVLL. Gostaria de falar um pouco disso, Borges, porque... Posso lhe falar com toda a franqueza, suponho.
JLB. Sim, e quero lhe dizer que é um mal que corresponde à direita e à esquerda.
MVL. Algumas declarações políticas suas me desconcertaram, mas há um aspecto que, quando o senhor fala, merece toda a minha admiração e todo meu respeito, e é o assunto do nacionalismo. Acho que o senhor sempre falou com grande lucidez sobre esse tema ou, melhor dizendo, contra o nacionalismo.
JLB. E, entretanto, eu caí nele.
MVLL. Mas agora, nesses últimos...
JLB. O facto de ter falado das margens de Buenos Aires, o facto de ter conhecido payadores (na Argentina, cantor popular que, com o violão e geralmente acompanhado por outro, faz improvisos), de ter conhecido cuchilleros (espécie de bandoleiros urbanos da Argentina), de tê-los usado em minha literatura. Eu escrevi milongas (contos, histórias)... Tudo é digno da literatura, por que não também os temas vernáculos?
MVLL. Eu me referia ao nacionalismo político.
JLB. Isso é um erro, porque se alguém gosta de uma coisa em detrimento de outra é porque não gosta dela realmente. Por exemplo, se eu amo a Inglaterra em detrimento da França é um erro, preciso amar os dois países, dentro de minhas possibilidades.
MVLL. O senhor fez muitas declarações contra toda a possível ruptura de hostilidades entre a Argentina e o Chile.
JLB. Ainda mais. Eu actualmente, apesar de ser neto e bisneto de militares e mais remotamente de conquistadores, que não me interessam, sou pacifista. Acho que toda guerra é um crime. Além disso, se se admitem guerras justas, que sem dúvida existiram —a guerra dos Seis Dias, por exemplo—, se admitimos uma guerra justa, só uma, isso já abre as portas a qualquer guerra e nunca faltarão razões para justificá-la, principalmente se são inventadas e prendem como traidores os que pensam de outro modo. De antemão, eu não havia percebido que Bertrand Russell e Gandhi e Alberdi e Romain Rolland tinham razão ao se opor à guerra, e talvez seja preciso mais coragem agora para se opor à guerra do que para defendê-la e até participar dela.
MVLL. Aí concordo com o senhor. Acho que é muito exacto o que diz. Qual é o regime político ideal para o senhor, Borges? O que gostaria para seu país e a América Latina? Qual regime lhe parece o mais adequado para nós?
JLB. Eu sou um velho anarquista spenceriano e acho que o Estado é um mal, mas por enquanto é um mal necessário. Se eu fosse ditador renunciaria a meu cargo e voltaria a minha modestíssima literatura, porque não tenho nenhuma solução a oferecer. Eu sou uma pessoa desconcertada, acovardada, como todos os meus conterrâneos.
MVLL. Mas o senhor se considera um anarquista, basicamente um homem que defende a soberania individual contra o Estado.
JLB. Sim, mas não sei se somos dignos. Em todo caso, não acho que este país seja digno da democracia e da anarquia. Talvez em outros países possa existir, no Japão e nos países escandinavos. Aqui evidentemente as eleições seriam maléficas, nos trariam outro Frondizi e outros..., etc.
MVLL. Esse cepticismo não está em desacordo com algumas declarações suas optimistas que faz sobre a paz, justamente contra a guerra, ultimamente contra as torturas e toda forma de repressão.
JLB. Sim, eu sei. Mas não sei se isso pode ser útil. Fiz essas declarações por motivos éticos, mas não acho que sejam prestativas, não acho que possam ajudar alguém. Podem me ajudar a tranquilizar minha consciência, nada mais. Mas se eu fosse governo, não sei o que faria, estamos num beco sem saída.
MVLL. Eu  entrevistei-o há quase um quarto de século em Paris e uma das coisas que lhe perguntei...
JLB. Quarto de século... Pare. Que tristeza se vamos falar de quarto de século...
MVLL. ...uma coisa que lhe perguntei foi o que opina da política, e o senhor sabe o que me respondeu? “É uma das formas do tédio”.
JLB. Ah, bom, está bem.
MVLL. É uma bonita resposta e não sei se a repetiria agora: continua pensando que é uma das formas do tédio?
JLB. Bom, eu diria que a palavra tédio é um pouco dócil. Em todo caso chateação, digamos. Tédio é muito... É um understatement (eufemismo)...
MVLL. Há algum político contemporâneo que o senhor admira, que respeita?
JLB. Eu não sei se é possível admirar políticos, pessoas que se dedicam a concordar, a subornar, a sorrir, a se fazer retratar e, os senhores me desculpem, a ser populares...
MVLL. Quais tipos de humanos o senhor admira, Borges? Aventureiros...
JLB. Sim, os admirei muito, mas agora não sei. Precisam ser aventureiros individuais.
MVLL. Qual, por exemplo. Lembra de algum aventureiro que gostaria de ser?
JLB. Não, eu não gostaria de ser outra pessoa.
MVLL. O senhor está contente com o destino de Borges.
JLB. Não, não estou contente, mas sei que com outro destino seria outra pessoa. E como diz Spinoza, “cada coisa requer a solidão de seu ser”. Eu insisto em ser Borges, não sei porquê.
MVLL. Lembro de uma frase sua: “Muitas coisas li e poucas vivi”, que por um lado é muito bonita e por outro parece nostálgica...
JLB. Muito triste.
MVLL. Parece que o senhor a deplora.
JLB. Eu escrevi isso quando tinha trinta anos e não me dava conta de que ler também é uma forma de viver.
MVLL. Mas não há uma nostalgia no senhor de coisas não feitas por ter dedicado tanto tempo à vida puramente intelectual?
JLB. Acho que não. Creio que ao longo do tempo se vive essencialmente todas as coisas e o importante não são as experiências, e sim o que se faz com elas.
MVLL. Suponho que isso lhe deu um grande desprendimento pelas coisas materiais. Isso se vê ao chegar a sua casa. O senhor vive praticamente como um monge, sua casa é de uma enorme austeridade, seu quarto parece a cela de um trapista, realmente é de uma sobriedade extraordinária.
JLB. O luxo me parece uma vulgaridade.
MVLL. O que o dinheiro significou em sua vida, Borges?
JLB. A possibilidade de livros e de viagens e de elaborá-los.
MVLL. Mas o dinheiro nunca lhe interessou, o senhor nunca trabalhou para ganhar dinheiro?
JLB. Bom, se o fiz parece que não consegui. Evidentemente a prosperidade é melhor, superior à indigência, principalmente num local pobre, em que se é obrigado a pensar em dinheiro o tempo todo. Uma pessoa rica pode pensar em outra coisa. Eu nunca fui rico. Meus pais foram, tivemos fazendas e as perdemos, foram confiscadas, enfim, não acho que isso tenha maior importância.
MVLL. O senhor sabe que boa parte dos países dessa terra hoje em dia vivem em função do dinheiro, a prosperidade material é seu estímulo.
JLB. É natural que seja assim, sobretudo se há essa pobreza. Em que outra coisa pode pensar um mendigo a não ser em dinheiro e comida. Se você é muito pobre precisa pensar em dinheiro. Uma pessoa rica pode pensar em outra coisa, mas um pobre, não. Da mesma forma que um doente só pode pensar na saúde. A pessoa pensa no que lhe falta, não no que tem. Quando eu tinha vista não pensava que isso era um privilégio, por outro lado daria qualquer coisa para recobrar minha vista e não sairia dessa casa.
MVLL. Borges, uma coisa que me surpreendeu na modesta casa em que o senhor mora, principalmente em seu austeríssimo quarto, é ver que um dos poucos objectos que existem no quarto é a condecoração da Ordem do Sol que o Governo peruano lhe deu.
JLB. Essa condecoração voltou à família após quatro gerações.
MVLL. Como assim, Borges?
JLB. Meu bisavô a obteve, o coronel Suárez, que liderou uma carga de cavalaria peruana em Junín, obteve essa Ordem e foi promovido de capitão a coronel por Bolívar. Depois essa Ordem se perdeu na guerra civil. Ainda que minha família fosse unitária e eu sou parente distante de Rosas —bom, todos somos parentes nesse país quase desabitado—. Voltou após quatro gerações, por razões literárias, e eu fui com minha mãe a Lima e ela chorou porque lembrava de ter visto essa condecoração nos retratos de meu bisavô e agora a tinha nas mãos e era para seu filho. Estava muito, muito emocionada.
MVLL. Ou seja, a relação do senhor com o Peru se remonta a muitas gerações.
JLB. Sim, a quatro gerações. Não, é anterior, vou lhe dizer, eu estive... Ah, não, não, espere... Sim, eu estive em Cuzco e vi uma casa com um escudo com cabeça de cabra, e daí saiu Jerónimo Luis de Cabrera há quatrocentos anos para fundar uma cidade que se chama Ica, que não sei onde fica, e a cidade de Córdoba, na República Argentina. Ou seja, é uma velha relação.
MVLL. Então o senhor, de alguma maneira, também é peruano.
JLB. Sim, claro que sim.
MVLL. Que ideia fazia do Peru antes de ir a Lima?
JLB. Uma ideia muito vaga que acho que estava baseada principalmente em Prescott.
MVLL. Na História da Conquista do Peru de Prescott. Quando leu essa história?
JLB. Devia ter sete ou oito anos, talvez. O primeiro livro de história que eu li em minha vida. Depois li História da República Argentina de Vicente Fidel López, e depois as histórias romanas e gregas. Mas o primeiro livro que eu li, throughout, ou seja, do começo ao fim, foi esse.
MVLL. E que ideia fazia do Peru, a de um país talvez mítico?
JLB. Um pouco mítico, sim. E depois eu fiquei muito amigo de um escritor esquecido entre vocês, o peruano Alberto Hidalgo, de Arequipa.
MVLL. Que viveu muito tempo na Argentina, não é verdade?
JLB. Sim, e ele me mostrou um poeta de quem eu sabia muitas composições de memória." Jornal El País, 14.06.2020