terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Os poetas não morrem

Manoel de Andrade
Os poetas não morrem  
por Manoel de Andrade
     "Neste mês de janeiro (2015) comemora-se na Nicarágua os 45 anos da morte do poeta e combatente sandinista Leonel Rugama, e no Peru, os 73 anos do nascimento do poeta e guerrilheiro Javier Heraud. Mortos respectivamente aos 20 e 21 anos, Heraud e Rugama são os exemplos mais precoces, na América Latina, de poetas que caíram em combate, dando a vida por um sonho.
Leonel Rugama nasceu no Vale de Matapalos, em março de 1949, e aos 18 anos entra para a Frente Sandinista de Libertação Nacional, quando a Nicarágua vivia sob o tacão perverso da ditadura de Anastásio Somoza Debayle. Era o ano de 1967, quando os sandinistas declararam guerra aberta a Somoza e sob essa bandeira Leonel Rugama interna-se como combatente nas montanhas do país, onde escreve seus primeiros poemas.
     Ingressa depois na Universidade Nacional, passa a dar aulas de matemática e publicar o jornal El Estudiante. Publica seus primeiros versos no Diário La Prensa e seu poema La Tierra es un satélite de la Luna é um dos mais difundidos na poesia latinoamericana. O cineasta e escritor nicaraguense Ricardo Zambrana fez um curta-metragem com o nome do famoso poema, onde mostra os últimos momentos de resistência de Rugama e seus companheiros, antes de caírem, em 15 de janeiro de 1970, cercados e metralhados por um batalhão de elite da Guarda Nacional de Somoza. O grande poeta e sacerdote da Nicarágua Ernesto Cardenal retrata, poeticamente, a imagem de sua inquebrantável bravura e o transe de sua morte em "Reevaluación de Leonel Rugama". Honrou seu nome e a cidade de Manágua num poema chamado “Oráculo sobre Managua”, assim como gravou, declamando os versos de La Tierra es un salétite da la Luna.
   Javier Heraud
 
     Javier Heraud, nasceu em Lima, em 19 de Janeiro de 1942, e desde a juventude passou a tomar consciência de uma pátria ajoelhada ante os intereses imperialistas,  acumpliciados com as burguesias urbanas e as oligarquias agrárias. O avançado ideário político vivenciado na Universidade de San Marcus, o histórico das lutas coloniais marcados pelo heroísmo libertário e o martírio de Túpac Amaru, as massas indígenas sangradas pela usurpação de suas terras, pela servidão desumana do trabalho no campo, o êxodo rural e a marginalização urbana sobrevivendo na miséria e na desesperança foram os ingredientes que determinaram o seu engajamento pelas causas sociais.
     Heraud escreve seus primeiros versos aos 15 anos e aos 18 publica o primeiro livro: El Rio. Nesta mesma época seu segundo livro El Viaje, divide o primeiro prêmio com o poeta Cesar Calvo ao vencerem o concurso “El Joven Poeta del Peru”.
     Em 1961, é nomeado professor de literatura num importante colégio de Lima e no mesmo ano, a convite do Fórum Mundial da Juventude, viaja à União Soviética, estende seu roteiro por países da Ásia, chega à França onde visita o túmulo do poeta peruano Cesar Vallejo e tem um encontro com o jovem escritor Mario Vargas Llosa.
      Depois de passar pela Espanha, volta ao Peru, e no ano seguinte recebe uma bolsa para estudar cinema em Cuba. Nesta época já se encontravam em Havana os revolucionários peruanos que iriam comandar as quatro frentes guerrilheiras que abririam as grandes trincheiras da guerrilha peruana em 1965, entre eles Luis de la Puente Uceda,  Guillermo Lobatón, Gonzalo Fernández Gasco e Hector Béjar. Após percorrer os caminhos da Revolução Cubana pela Sierra Maestra, o grupo de 40 bolsistas, ao qual estava integrado Javier Heraud, decide preparar-se militarmente para voltar ao Peru como combatentes.
    No início de 1963, o grupo, sob o comando de Hector Béjar, deixa Havana e através de Praga e Paris chega ao Rio de Janeiro. No dia 19 de janeiro, Heraud comemora seus 21 anos na passagem clandestina por São Paulo rumo ao Peru, para unir-se às forças de Hugo Blanco no vale de La Convención, em Cusco. Foi durante essa longa caminhada durante cinco meses por cidades, vilarejos e pela selva peruana que o poeta, inspirado pela fé revolucionária e pelo sonho de redenção social dos indígenas e camponeses, secularmente explorados e humilhados em seu país, transforma em versos suas esperanças e sua entrega incondicional à causa revolucionária:
 
                             Porque minha pátria é formosa
                             como uma espada no ar
                             e tão grande agora e ainda
                             mais bela
                             eu canto e a defendo
                             como minha vida.(...)
 
     Em 14 de maio, a vanguarda tática à qual pertencia Javier Heraud chega a Porto Maldonado e lá são abordados pela polícia. Nesse enfrentamento a tiros, um sargento cai morto e os guerrilheiros se dispersam em varias direções. No dia seguinte, fugindo em direção ao rio Madre de Dios, Javier Heraud e Alaín Elías tentam escapar numa canoa, mas são alcançados por uma lancha militar que chega atirando. Ambos levantam as mãos, acenam a rendição com uma camisa, mas são abatidos pelas armas de grosso calibre dos militares e fazendeiros.
     Depois de sua morte, o Exército de Liberação Nacional do Peru (ELN) em que o poeta militava, passou a chamar-se Guerrilha Javier Heraud e retomou a luta em 1965, comandado por Hector Béjar. Laureado como ensaísta com o Prêmio Literário Casa de Las Américas e atualmente sociólogo, catedrático da Universidad de San Marcus e conferencista internacional, Béjar, referindo-se tempos depois ao poeta, declarou:
 (...)"Creio que Javier é um caso extraordinário em que a poesia e a revolução se entrelaçam com uma força sem precedentes na nossa história. Javier continuou a escrever até mesmo na guerrilha (...)
     Um mês depois da morte, em uma homenagem universitária em Lima, feita à memória do poeta, o grande escritor peruano José Maria Arguedas declarou:
(...) “E agora me permitam dizer algumas palavras sobre o puríssimo poeta Javier Heraud, cuja afeição ganhei honestamente.
     Tendo em conta a personalidade de Javier Heraud, apenas duas possibilidades lhe foram oferecidas no Peru: a glória literária, ou o martírio. Preferiu a mais árdua, a que não oferece as recompensas à que humanamente aspiram quase todos os homens. É raro que num país como o nosso  se apresentem  exemplos como este.
      Até o dia de hoje, os que têm a responsabilidade do governo e do destino do Peru, não permitiram um único campo de ação sequer para aqueles que anseiam a verdadeira justiça, ou seja, o caminho aberto para a igualdade econômica e social  que corresponda à igualdade da natureza humana;  esse caminho é o da rebelião, do assédio e o da morte. Javier o escolheu, mas não nos esqueçamos que ele foi forçado a escolher. Talvez tivesse agido de forma diferente em um país sem tanta crueldade para os despossuídos, sem a crueldade que se requer para manter as crianças escravas, "colonos" escravos e “barriadas” onde o cão sem dono e a criança abandonada comem o lixo, juntos.(...)
      Acho que Javier encontrou a imortalidade verdadeira, aquela que a poesia, por si só, quem sabe não lhe teria dado. Não o esqueçamos.” (...)
     No mês seguinte ao seu assassinato, Pablo Neruda escreveu à família do poeta:
 
Universidade do Chile
Ilha Negra, junho de 1963
    Li com grande emoção as palavras de Alejandro Romualdo sobre  Javier Heraud. Também o valioso exame de Washington Delgado, os protestos de Cesar Calvo, de  Reinaldo Naranjo, de Arturo Corcuera, de Gustavo Valcárcel. Também li o comovente relato de Jorge A. Heraud, pai do poeta  Javier.
       Sinto que uma grande ferida foi aberta no coração do Peru e que a poesia e o sangue do jovem caído seguem resplandecentes, inesquecíveis.
      Morrer aos vinte anos crivado de balas "desnudos e sem armas no meio do rio Madre de Dios, quando estava à deriva sem remos ...”  o jovem poeta morto ali, esmagado ali naquelas solidões  pelas forças das trevas. Nossa América escura, nosso tempo escuro.
       Não tive  a ventura de conhecê-lo. Pelo que vocês contam, pelo que choram, pelo que recordam, sua curta vida foi um deslumbrante relâmpago de energia e de alegria.
       Honra à sua memória luminosa. Guardaremos seu nome bem escrito. Bem gravado no mais alto e no mais profundo para que continue resplandecendo. Todos o verão, todos o amarão no amanhã, na hora da luz.
Pablo Neruda
 
     Vale a pena ampliar essa agenda para lembrarmos aqui de outros poetas que, na América Latina, também tombaram, executados cruelmente pelo arbítrio das ditaduras que mancharam com a mais refinada crueldade as trincheiras das lutas libertárias. Entre eles, vale citar os casos mais torturantes do poeta e guerrilheiro  guatemalteco Otto René Castillo e do poeta chileno Ariel Santibañez.
 
  Otto René Castillo
     Otto René Castillo nasceu em 1936, em Quetzaltenango, e pela sua precocidade revolucionária, aos 18 anos teve que asilar-se em El Salvador. Posteriormente, segue para  a Alemanha como bolsista para estudar Letras em Leipzig. Em 1964, volta à Guatemala, reinicia sua vida política e cultural, publica o livro Tecún Umán e é nomeado diretor do Teatro Municipal da cidade de Guatemala. Sofre novo exílio e é escolhido pelas organizações revolucionárias da Guatemala como representante do país, no Comitê Organizador do Festival Mundial da Juventude a realizar-se na Argélia. Com essa missão, percorre a Alemanha, Áustria, Hungria, Chipre, Argélia e Cuba.
      Em 1966, volta clandestinamente ao país e integra-se na luta armada. No ano seguinte, é preso em combate, barbaramente torturado e mutilado na base militar de Zacapa. Ante seu silêncio, seu rosto era cortado com lâmina de barbear, enquanto um capitão do exército da Guatemala recitava com deboche os versos de seu famoso poema Vamos patria a caminar. Seus torturadores, perplexos frente sua inalterável resistência, passaram a queimar seu corpo num inenarrável e mortal suplício, entre os dias 19 e 23 de março de 1967.  
    Seu nome hoje é uma referência histórica na Guatemala, quer pela beleza de sua poesia, quer pela imagem do seu comprometimento político, aureolado com a coroa do martírio. O poeta e ensaísta salvadorenho Roque Dalton descreveu com as seguintes palavras os últimos momentos de seu camarada:
 Seus próprios verdugos testemunharam sua coerência e sua coragem ante o inimigo, a tortura e a morte: morreu como um inquebrantável lutador revolucionário, sem ceder um milímetro no interrogatório, reafirmando seus princípios embasados no marxismo-leninismo, em seu fervente patriotismo guatemalteco e internacional, em seu convencimento de estar seguindo – por sobre todos os riscos e derrotas temporais – o único caminho verdadeiramente libertário para nossos povos, o caminho da luta armada popular.”
 Ariel Dantón Santibañez Estay 
     Ariel Dantón Santibañez Estay nasceu em 15 de novembro de 1948, em Antofagasta. Na adolescência panfletava seus poemas, bem como distribuía, na cidade,  um jornal que ele mesmo datilografava. Cursou Pedagogia, em língua castelhana, na Universidade do Chile, em Arica, onde dirigia a Revista Tebaida e participava politicamente da vida acadêmica e do ambiente literário que contagiava toda a cultura da cidade, no fim da década de 60.
     A partir de 1970, alguns de seus poemas começam a ter destaque internacional, publicados na Argentina pela revista Cormorán y Delfin,  bem como na revista Nuevo Mundo, em Paris. Dois poemas seus, “Ídolo roto” e “Esos viejos” aparecem na Road Apple Review, editada pela Universidade de Wisconsin, e a revista estudantil Oclae, de Havana, também publica seus versos.
     No início de 1973, está em Cuba passando por treinamento militar, como militante do MIR (Movimiento de Izquerda Revolucionario). Volta ao Chile antes do golpe sanguinário contra Allende e em novembro daquele ano, é detido por três dias e torturado em Antofagasta. Entra na clandestinidade e posteriormente é preso em Santiago. Em 22 de dezembro foi visto entre os prisioneiros da Villa Grimaldi, as sinistras dependências usadas para interrogatório e tortura pelos agentes da ditadura de Pinochet. Não é difícil imaginar o que aconteceu a Ariel Santibañez ante a cultura de terror e assassinatos que se instaurou no Chile. Ariel desapareceu para sempre aos 26 anos e a obstinação com que se levanta atualmente a sua memória de poeta e de mártir se compara ao trabalho de pesquisa com que se constrói, no Peru, a imagem do poeta guerrilheiro Javier Heraud, Em dezembro de 2009, o ex-general Manuel Contreras  recebeu a pena de cinco anos de prisão, em segunda condenação,  pelo sequestro e desaparecimento do poeta Ariel Santibañez, em 13 de novembro de 1974.
    
 Mariano Melgar: Mártir da Independência e o primeiro peruano na literatura indigenista
Conta-se que Arequipa nasceu sobre as ruínas de uma antiga cidade inca fundada em 1540 pelo próprio conquistador do Peru, Francisco Pizarro. Berço de notáveis nomes da política e da literatura peruana, nela nasceu Mario Vargas Llosa, no ano de 1936. Sua celebridade como escritor, coroada com o Nobel de Literatura, dispensa aqui qualquer comentário. Devo, entretanto, dizer que quando por lá passei, na virada da década de sessenta, o nome de Vargas Llosa, apesar de seus quatro livros já publicados, ainda não era tão comentado como o do poeta e mártir Mariano Melgar, um dos filhos mais queridos da cidade. Falo de um poeta que empenhou a vida pela independência do Peru, como intelectual e como comba­tente, e com o qual se inicia o Romantismo e o Indigenismo na literatura peruana. Tal como o nosso Castro Alves, também libertário pelo abolicionismo, morre aos vinte e quatro anos.
Mariano Lorenzo Melgar Valdivieso nasceu em Arequipa, em 10 de agosto de 1790 e por sua precocidade foi um verdadeiro prodígio intelectual. Aos três anos já lia e es­crevia, aos oito falava latim e aos nove anos dominava o inglês e o francês. Profundamente identificado com o povo na sua expressão indígena, encontrou no singelo lirismo das canções quechuas a motivação poética para grande parte de seus ver­sos compostos em forma de yaravís, gênero musical de origem incaica, de composição breve e com um caráter elegíaco, amo­roso e melancólico. É o que o poeta expressa neste seu poema chamado Yaraví”:

¡Ay, amor!, dulce veneno,

ay, tema de mi delirio,

 solicitado martirio

 y de todos males lleno.

¡Ay, amor! lleno de insultos,

 centro de angustias mortales,

 donde los bienes son males

 y los placeres tumultos.

           

¡Ay, amor! ladrón casero

de la quietud más estable

        

            ¡Ay, amor, falso y mudable!

              ¡Ay, que por causa muero!

 

¡Ay, amor! glorioso infierno

 y de infernales injurias,

león de celosas furias,

disfrazado de cordero.

 

¡Ay, amor!, pero ¿qué digo,

que conociendo quién eres,

abandonando placeres.

 soy yo quien a ti te sigo? 1

 

José Carlos Mariátegui, em seus Sete ensaios de inter­pretação da realidade peruana, ao analisar a poesia de Melgar ressalta inicialmente o “extremo centralismo” com que Lima dominou a literatura colonial, tida como um “produto urba­no”, e acrescenta:

[...] Por culpa dessa hegemonia absoluta de Lima, nossa literatura não pode se nutrir da seiva indígena. Lima foi primeiro a capital espanhola. Só foi a capital criolla depois. E sua literatu­ra teve essa marca. O sentimento indígena não careceu totalmen­te de expressão nesse período de nossa história literária. Quem primeiro o expressou com categoria foi Mariano Melgar. [...].2

É esclarecedor colocar aqui o exemplo da poesia de Melgar, para avaliar, em dado momento histórico, os dois la­dos com que a crítica peruana encara a sua própria literatura: uma do ponto de vista colonialista e culturalmente precon­ceituosa e outra do ponto de vista legitimamente peruano, ou seja, indigenista, explicitados por duas figuras tão emblemáti­cas na história da intelectualidade peruana, como Mariátegui e o historiador José de la Riva Agüero (1885-1944), com opi­niões tão diversas sobre a imagem literária de Melgar:

Para Riva Agüero, o poeta dos yaravíes não passa de “um momento curioso da literatura peruana”. Retifiquemos esse jul­gamento, dizendo que é o primeiro peruano dessa literatura.8

Comenta Mariátegui o desdém com que a crítica li­menha tratou a poesia popular e indigenista de Melgar, num arraigado preconceito colonial que, um século depois, atin­giria ainda, com o punhal da indiferença, o coração poético e indígena de Cesar Vallejo, a ponto de azê-lo abandonar o Peru para nunca mais voltar. Vallejo é hoje reconhecido como o maior poeta do Peru e, como poeta universal, divide com Pablo Neruda a grandeza da poesia hispano-americana. Mariano Melgar teve sua imagem poética e como prócer da Independência, reconhecida oficialmente pelo governo perua­no, somente em junho de 1964. Apenas nos dois casos aqui citados essa é uma justa, necessária e tardia penitência, mas perguntamos se a cultura limenha já limpou a alma desse an­tigo pecado, porque continua, até os dias de hoje, ditando suas sentenças culturais no exercício de sua explícita hegemonia in­telectual, em detrimento dos valores literários das províncias.

Mariátegui é o que melhor dá a dimensão do poeta de Arequipa, seja como mártir da independência, seja pela poten­cialidade de sua poesia, caso não houvesse morrido tão cedo. Abordando o lado romântico de Melgar, ressalta o grande des­pojamento do jovem poeta pela causa da Independência, com­parando-o ao cacique cusquenho Mateo Pumacahua, que em 1815 tornou-se um dos líderes da revolta contra os espanhóis, sendo preso e fuzilado pelas tropas coloniais.

Melgar é um romântico. Não apenas em sua arte, mas também em toda sua vida. O romantismo ainda não tinha ofi­cialmente chegado a nossas letras. Em Melgar, portanto, não é, como será mais tarde em outros, um gesto de imitação, é um impulso espontâneo. E esse é o dado de sua sensibilidade artísti­ca. Já se disse que se deve a sua morte heroica uma parte de seu renome literário. Mas essa valorização dissimula mal a desde­nhosa antipatia que a inspira. A morte criou o herói, frustou o artista. Melgar morreu muito jovem. E mesmo que seja sempre um pouco aventureira qualquer hipótese sobre a trajetória pro­vável de um artista prematuramente surpreendido pela morte, não é demais supor que Melgar, maduro, teria produzido uma parte mais purgada da retórica e do maneirismo clássicos e, por conseguinte, mais nativo, mais puro. [...]Os que se queixam da vulgaridade de seu léxico e de suas imagens partem de um preconceito aristocrático e academicista. O artista que escreve um poema de emoção perdurável na lin­guagem do povo vale, em todas as literaturas, mil vezes mais que aquele que, em linguagem acadêmica, escreve uma depurada peça de antologia. Por outro lado, como observa Carlos Octavio Bunge em um estudo sobre a literatura argentina, a poesia po­pular sempre precedeu a poesia artística. Alguns dos yaravíes de Melgar só vivem como fragmentos de poesia popular. Mas, com esse título, adquiriram substância imortal.

Não é diferente a opinião do crítico italiano Giuseppe Bellini, tido como o mais abalizado estudioso europeu da li­teratura hispano-americana. Comentando a poesia gauchesca do poeta da independência uruguaia Bartolomé José Hidalgo (1788-1822), Bellini anota que:

Junto con Hidalgo cabe recordar a Mariano Melgar (1791-1815), cultivador también de la poesía popular en los “yaravíes” y “palomitas”. El poeta peruano, sin duda más cul­to que Hidalgo, traductor e imitador de Horacio y de Virgilio, manifestó, tal vez por su carácter de mestizo, un profundo ape­go al elemento popular quechua y a la naturaleza, antecipan­do un indigenismo que dará resultados consistentes durante el Romanticismo y en el siglo XX.3

Mariano Melgar une-se às tropas do cacique Mateo Pumacahua, que no passado fora aliado dos espanhóis, mas que a partir de 1814 empunhou a bandeira da independência em Cusco. Vencidos na batalha de Umachiri, o poeta é apri­sionado e mantido em cativeito até o amanhecer do dia 12 de março de 1815, quando é executado. Ante o pelotão de fuzila­mento, Melgar escreveu um bilhete aos oficiais espanhóis, com as seguintes palavras:

Cubram seus olhos, já que vocês são os que necessitarão misericórdia porque a América será livre em menos de dez anos!

E assim aconteceu. Em 9 de dezembro de 1824, um exército de 6.879 patriotas de vários países hispano-ameri­canos, sob o comando do general venezuelano Antonio José Sucre, vence o exército espanhol de 10.000 soldados, selando em Ayacucho a independência do Peru e da América do Sul.

     Esta relação estaria incompleta se não nomeássemos também o poeta andaluz Federico Garcia Lorca, que aos 38 anos cai metralhado em Granada, como uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola e do célebre poeta inglês Lord Byron, que morreu em Missolonghi, aos 36 anos, quando lutava pela independência da Grécia.
 
     Os poetas não morrem jamais, seguem vivos no lirismo e na magia dos seus versos, na memória agradecida dos povos e nos registros indeléveis da História.
Manoel de Andrade, in As Palavras no Espelho, Escrituras Editora, São Paulo Brasil,2018, pp 73-86 
 
1 –Disponível em: <http://www.vivir-poesia.com/yaravi/>. Acesso em: 2 abr. 2011. Tradução do autor: “Ai, o amor!, doce veneno,/ ai, tema do meu delírio,/ meu ansiado martírio/ de todos os males pleno. // Ai, amor! cheio de insultos,/ centro de angústia mortal,/ onde o que é bem vira mal/ e os prazeres, tumultos. // Ai, amor! ladrão do lar/ da quietude mais estável/ Ai, amor, falso e mutável!/ Ai, que morro por te amar! // Ah, o amor! glorioso inferno/ e das infernais injúrias,/ leão de ciumentas fúrias/ disfarçado de cordeiro.// Ah, o amor!, mas o que digo?/ pois é por assim tu seres/ que abandonando os prazeres / sou eu quem a ti te sigo?”
2-  MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade   
3- BELLINI, Giuseppe. Nova historia de la literatura hispano-americana. Madrid: Editorial Castalia, 1997, p. 209.
“Junto com Hidalgo cabe recordar a Mariano Melgar (1791-1815), culti­vador também da poesia popular nos “yaravíes” y “palomitas”. O poeta pe­ruano, sem dúvida mais culto que Hidalgo, tradutor e imitador de Horácio e de Virgílio, manifestou, talvez por seu caráter mestiço, um profundo apego ao elemento popular quechua e à natureza, antecipando um indigenismo que dará resultados consistentes durante o Romantismo e no século XX.”  
 

 

domingo, 28 de janeiro de 2024

Em busca das palavras


Quem me dera encontrar palavras fortes,
recheadas de coisas e de sons,
tesouros ocultos em caixa-forte,
agrestes com suas cores e tons,
palavras sexuadas e gulosas,
capazes de fremir e de dar fruto,
palavras destemidas e afrontosas,
visando o relativo e o absoluto,
palavras cheias de escuro e de luz,
recheadas de amor e tempestade,
com passada que namora e seduz,
palavras que ocultam mais de metade,
mas dizem que baste para assustar,
palavras bem sedentas de tumulto,
feitas somente para magoar,
cheiinhas, para o caso, de insulto,
palavras que assassinam o canalha,
mas sabem abençoar S. Francisco,
palavras afiadas como navalha,
que, do pescoço infame, fazem petisco,
palavras que são fogo e que queimam,
palavras que ameaçam e cumprem,
palavras que desfloram e que teimam,
palavras que os lordes da guerra estuprem,
palavras fortíssimas, necessárias,
duras, fortes, doces, imprescindíveis,
palavras clássicas, bem centenárias,
que tornem os nossos sonhos possíveis!
                       28.01.2024
Eugénio Lisboa
 

Ao Domingo Há Música

 

 A mágoa é uma espécie de ferrugem da alma  e cada nova ideia, ao passar, ajuda  a limpá-la.
 Dr. Johnson
 
Sábio é aquele que com tudo se espanta.
André Gide 

Nem sempre o que conhecemos é um horizonte fechado, aliás nada está completo numa mente aberta. Nem a mágoa é definitiva nem a precariedade, que a define, resiste ao tempo. Tudo se modifica. Saber limpar a alma e dar um lugar ao espanto são caminhos para a felicidade e para a  sabedoria. 

God of War - Memories of Mother, do compositor Bear McCreary. Uma excelente interpretação de  Eivør , acompanhada pela Orquestra  Nacional Sinfónica da  Dinamarca e o Vocal Ensemble, sob a direcção do Maestro Henrik Vagn Christensen. Gravado no DR Koncerthuset, como parte do concerto VIKING, em Maio de 2023.

 .

sábado, 27 de janeiro de 2024

Páginas de um Diário Moçambicano


Do final do  capítulo "Notas de Viagem"(pag.410), de Acta Est Fabula IV,  de Eugénio Lisboa,  retirámos  as seguintes afirmações  , em jeito de introdução ao texto diarístico que se lhe segue:
Mas 1989 foi, para mim, sobretudo, o ano de Moçambique. Ao fim de treze anos de ausência, recebi um convite conjunto, da embaixada portuguesa e da Universidade, para proferir uma série de conferências (lições). Deixo ao vosso cuidado e à vossa imaginação conceberem a emoção com que aceitei o convite. Uma emoção de muitas componentes: o gosto de regressar, a curiosidade e o receio de ir encontrar uma cidade que já não coincidisse com aquela que estava dentro de mim
No dia 23 de Maio, de madrugada, partimos de Lisboa, a caminho da “minha” Lourenço Marques.
Lourenço Marques (vista aérea)

Páginas de um Diário Moçambicano
por Eugénio Lisboa

One may return to the place of his birth.
He cannot go back to his youth.
            John Burroughs
 
 
The Past is such a curious Creature
To look her in the Face
            Emily Dickinson 
 
 
23.5.89 – No ar, entre Luanda e Maputo. Demorámos cerca de hora e meia no aeroporto de luanda. À chegada, mal pisámos o asfalto, uma baforada de ar quente – a um mês do inverno oficial. O calor, a desaceleração dos trabalhadores… Estamos em África, não há dúvida. Os autocarros maltratados. O bar do restaurante mais ou menos limpo (excepto as janelas, cujo pó não é limpo desde a independência), e um horrível cheiro a urina, por todo o lado. Peço dois cafés: os dois empregados, corteses, simpáticos, dirigem-se à máquina e discutem, com lentidão e doçura, o funcionamento dela. Por fim trazem-me os dois cafés. Peço água, que servem logo, atenciosamente. À nossa volta, gente do Zaire, com camisas garridas e, nas costas, o retrato do presidente do Zaire, Mobutu Sese Seko. Penso: quando este cair, caem também as camisas. Investimento arriscado.
Daqui por 3 horas, estamos no Maputo. Vou a ler o Wodehouse: Leave it to Psmith.
 
24.5.89 – A chegada foi um misto de emoções confusas. Aguardava-nos o meu colega José Soares Martins, que me levou a uma sala de VIPs. No caminho, encontrei o Carvalhinho (Jorge Carvalho) da Minerva Central, com os cabelos todos brancos. Depois apareceram os repórteres da rádio e até um africano, de idade indefinida, que me disse lembrar-se de mim, de há vinte e tal anos, no Hotel Girassol. Viagem de carro até à embaixada, reconhecendo, aos poucos, os sítios. A baía. As palmeiras. O miradouro. Sensação de irreal. Regressa-se mas não se regressa. Tudo é e não é o mesmo. Os sítios ficaram mas nós não.
À noite, em casa do José Soares Martins, a baía, em frente, com a lua espelhando-se nela. E eu, vendo aquilo: mas quem é este “eu” que está aqui, usurpando o lugar de outro que, em tempos remotos, esteve aqui mesmo, vendo isto? Veio, depois do jantar, um velho amigo da Beira, o Álvaro Simões, casado agora com a Maria Helena, viúva do Joaquim Elias. Dos velhos tempos heróicos da Beira e de um grupo que ajudou a formar-se, ali, o primeiro cine-clube de Moçambique: o Noronha Marques, o Nunes Cordeiro, o Nunes de Carvalho, o Simões, o Elias… O Relias morreu, há muitos anos, num estúpido acidente de automóvel; o Nunes de Carvalho já morreu também; o Nunes Cordeiro está por pouco, com um cancro; e o Noronha Marques teve um acidente cardíaco e desintegra-se a olhos vistos. E assim morre e se volatiliza um tempo que a nós pareceu de magia e tocado de eternidade.
Ouve-se, felizmente, o ruído da cidade que acorda. Há mais movimento, mais tráfego do que eu supusera. A cidade não está morta. Mas ainda não vi, praticamente, nada.
 
25.5.89 – Ontem, primeiras impressões sobre a cidade: poucas e confinadas à área da Polana. A degradação é evidente, dolorosa, embora, nesta área, não dramática. Visita da Fernanda Durão e marido (André) e da Paula Santa-Rita. Conversa, à noite, com o Lopo Vasconcelos. A revolução começa a ser arrumada numa gaveta. O marxismo também. A corrupção grassa. A maior ostentação de riqueza, ao lado das maiores dificuldades de sobrevivência. Transportes públicos, quase não há. Por todo o lado, os particulares improvisam camionetas, que atafulham de gente: cem meticais por viagem. São chamados os “chapa cem”. Salários de 40 000 meticais, para um quilo de tomates a 1500 e um quilo de camarão a 3000. Roupas caríssimas. Professores universitários ganham o equivalente a 200 dólares mensais, ao lado dos cooperantes italianos a usufruírem 16000 e mais benefícios marginais. Toda a gente arranja, como pode, algumas divisas estrangeiras (dólares e Rands). Os funcionários que saem, em viagem de serviço, guardam os 3 dólares diários, de ajudas de custo, para depois poderem comprar, na loja franca, aquilo que não encontram no mercado corrente.
  No entanto, julgava vir encontrar uma cidade com menos tráfego automóvel. Já foi assim, mas não é neste momento. Daqui, do 10º andar do edifício da embaixada, poderia dizer, sem muito exagero, que o tráfego, lá em baixo, não me deixa sossegado. A vinda do FMI operou milagres: trouxe dinheiro e corrupção. O idealismo revolucionário faleceu. Ninguém está disposto a sacrificar-se.
Contrapartida: muito maior abertura de opinião. As pessoas falam sem receio. Os estudantes fizeram uma greve ordeira mas firme e ganharam. Não houve, em momento nenhum do processo, qualquer tentativa de intimidação. Os jornais noticiam, sem medo, o tumulto que vai pela China. Vim convidado a falar na Universidade e ninguém me fez qualquer recomendação. Direi literalmente o que me apetecer. Há 13 anos, isto era impensável. Verdade que, com mordaça, também não aceitava o convite… 
Há poucos minutos, visita inesperada do nosso antigo empregado, o Arão. Comovi-me, ao vê-lo. Perguntou logo pelas meninas, dizendo-se cheio de saudades. É um traço comovente destas gentes: a afeição e o respeito pela integridade das crianças, a quem nunca batem. No decorrer da conversa, volta sempre às meninas. Passou grandes dificuldades, viveu um ano no Xai-xai. Quando a mãe lhe morreu, voltou ao Maputo. É empregado em casa de um secretário de embaixada francês, que o trata bem. Paga-lhe metade do vencimento em dólares e mandou vir, para ele, chapas de zinco, da Suazilândia. Com elas, o Arão irá construir uma casa nos subúrbios, para ficar a viver mais próximo da “terra”: “machamba”, capoeira, a fuga à selva citadina. O Arão…Diz que anda há um mês a coligir informações sobre a minha chegada, para não nos perder. Hoje, feriado português, com a embaixada fechada e tudo, apareceu-me aí. O Arão… O nosso último empregado doméstico, antes da partida, em 1976!
 
27.5.89 – Continua a visita às origens. Ontem saímos com a Paula Santa-Rita, a pé. Fomos almoçar ao Cardoso, no último andar. A vista deslumbrante da baía, que já era minha conhecida. Restaurante em bom estado, comida cara, para “cooperantes”, diplomatas e gestores de grandes empresas estrangeiras. Tudo pago em dólares: os locais não têm acesso. Depois do almoço, saímos a pé, descendo a antiga Miguel Bombarda. Passamos o cabo Submarino, com o Liceu ao lado. Dizem-nos que, nas salas, não há carteiras nem secretárias: foi tudo levado, como lenha, para casa. Pela Miguel Bombarda fora, as casas apresentam-se sujas e degradadas. Crianças negras aos molhos, deitadas pelo chão, algumas estendidas nos passeios, a fazerem trabalhos escolares. De vez em quando, um rato morto. Não vejo gatos (terão sido comidos?) Atravessamos o Jardim ex-Vasco da Gama e saímos pelo portão que fica em frente do cinema Gil Vicente. No larguinho à frente do portão, obras de construção de uma estátua ao Samora Machel. A Avenida D. Luís, agora Av. Samora Machel, pareceu-me terrivelmente degradada. Perdeu, para mim, todo o encanto. Faço um esforço de imaginação, quase até doer, para me lembrar daquilo, no tempo de antigamente. Vejo o antigo Restaurante Vitória, agora fechado, isto é, não ao ar livre, como antes, e considerado de luxo. Entramos: luxo piroso. Pratos a 9000 e 12000 meticais (há ordenados de 20 e 30 mil meticais). Não resisto e espreito a Empresa Moderna, em que pontificava, muito vivaço, palrador e ignorante, o Lãzinha: livros técnicos (russos) e livros de propaganda política. Um fantasma. Em frente, a Av. da República: é ela e já não é ela. Não se regressa nunca. Não se regressa nunca. Compro jornais, entramos no Café Continental, antigo ponto de reunião da tertúlia da esquerda: não se regressa. Saio e vou à Académica (da D. Ivette) e à Minerva  (da Teresa Arroz e da lindíssima D. Leopoldina): simplesmente espectral. É patético como se pode propor uma escolha de livros daquelas. É uma total inexistência bibliográfica: o deserto. Na Minerva, uma rapariga africana esbelta e desembaraçada toca-me no braço, aberta num sorriso e diz-me: “É o Sr. Engenheiro Lisboa?” Digo-lhe que sim e identifica-se: é a Serafina, filha do Bomba. Que bom! Pergunto-lhe pelo pai. Havemos de nos encontrar.
Voltamos à embaixada, a pé. As ruas completamente esburacadas. As casas vão-se desintegrando e escurecendo. A cidade de cimento foi invadida por uma população que a não entende nem respeita. À chegada a casa, encontramos o Armando Monteiro, que vem tomar uma bebida e nos leva a jantar à Costa do Sol. A proprietária, uma grega já idosa, ali se encontra desde há milénios. Comemos camarões, à la recherche du temps perdu. Tentamos: mas há alguma coisa que não se recupera. É o mesmo sítio, mas nós não somos os mesmos e as pessoas em volta de nós também não. O rio de Heráclito foi-se, entretanto, movendo."
Eugénio Lisboa, in Acta Est Fabula , Memórias -IV- Peregrinação: Joanesburgo. Paris. Estocolmo. Londres (1976-1995, Editora Opera Omnia,Outubro de 2014, pp 410-414

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Ditos do mundo


"O rio, quando esquece onde nasce, seca e morre”.
Provérbio Africano

“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
Provérbio português

“Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto.” 
Provérbio português

"Cada um sabe onde o sapato aperta."
Provérbio brasileiro

"Se a tua aspiração é fraca, não basta, mas se é exagerada, trar-te-á demasiados sofrimentos."
Provérbio Budista

"É melhor calar-se e ser do que falar e não ser."
Provérbio cristão

"As dificuldades são como as montanhas. Elas só se aplainam quando avançamos sobre elas."
Provérbio Japonês

"A reputação de mil anos pode ser determinada pelo comportamento de uma única hora."
Provérbio Japonês

"A palavra é prata, o silêncio é ouro."
Provérbio árabe

"Se queres a paz, prepara-te para a guerra."
Ditado romano

O amor faz passar o tempo; o tempo faz passar o amor.
Provérbio italiano

"A gente todos os dias arruma os cabelos: por que não o coração?"
Provérbio chinês

"O lobo pode perder os dentes, porém a sua natureza jamais."
Ditado romeno

"Não importa o quanto  foi longe no caminho errado. Volte para trás."
Ditado turco

"O melhor travesseiro é a consciência limpa."
Provérbio francês

"Se sua casa pegar fogo, aproveite para se aquecer."
Provérbio espanhol

"Conhece-se o coração de um homem pelo que faz, e a sua sabedoria pelo que ele diz."
Provérbio persa

"Saber demasiado é envelhecer precocemente."
Provérbio russo

"Muitas opiniões também afundam o barco."
Provérbio grego

"A quem mais amamos, menos sabemos falar."
Provérbio inglês

"Quando acertamos, ninguém se lembra. Quando erramos, ninguém se esquece."
Ditado irlandês

"Na juventude nós aprendemos, na velhice nós entendemos."
Ditado mexicano

"Um bom descanso é metade do trabalho."
Provérbio jugoslavo

"Quando morre um idoso, perde-se uma biblioteca."
Provérbio indiano

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Mahler por Leonard Bernstein

Symphony No 3, de Gustav Mahler, pelo Maestro  Leonard Bernstein, em  1972, dirigindo  Christa Ludwig, mezzo-soprano , o Coro da Ópera Estatal de Viena, o Coro de Meninos de Viena e a  Filarmónica de Viena. 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Um amanhecer com vistas ou as vistas de um amanhecer







 





Vista de Ferragudo e Rio Arade

Momento único. Momento em que o branco desmaia e em que a luz do luar e a luz do Sol se entranham ou misturam. O grande manto branco escorre sobra as águas e já o nascente lhe ilumina a esfera mágica, que estremece toda .(...) Aumenta e alastra a claridade. (...) Panorama a vermelho.
Mas o nascente ,num triunfo, enche tudo de luz.
                      Raul Brandão, Os Pescadores

Não sei se é mais fabulosa esta vista,  se a Vista de Delft, de Joahnnes Vermeer , em 1660-1661. Não sei. Há quase 500 anos de intervalo. O que sei e não duvido tem os meus olhos por testemunha, enquanto Vermeer tinha o talento e a arte. O tempo trouxe imaculada aquela esplêndida tela , um dos quadros mais conhecidos da História da Pintura, tido como o "primeiro quadro impressionista da pintura europeia".  Marcel Proust considerava-o " o quadro mais belo do mundo".
Mas esta esplendorosa sequência de vistas, que me deslumbra pelo alvorecer,  a cada invasão do astro Rei Sol, é o mais belo quadro que os meus olhos podem enxergar , neste Algarve de Portugal. É a ele que meu coração se rende, pela manhã. Enche-se de beleza e de espanto. Acrescentar quaisquer outras legendas   a  este registo de  vistas assombrosas  seria uma inutilidade , incapaz de  reflectir  a  magnitude  de uma natureza tão pródiga.

Vista de Delft, de Joahnnes Vermeer , ( 1660-1661)

Joahnnes Vermeer,( Delft , 1632-1675), foi pioneiro no seu tempo. Imortalizou a sua cidade , que descreveu primorosamente, "apresentando a iluminação natural , num determinado momento do dia e toda a sensação atmosférica da paisagem urbana holandesa. Ao reluzir do outro lado das águas , a cidade oferece profunda variedade na mistura simples de telhados e torres , igrejas e casas, zonas ensolaradas e faixas encantadoramente sombreadas. A pequena faixa de edifícios espelha-se na superfície da água , em reflexos calmos e nebulosos. A intensidade luminosa das nuvens brancas do plano de fundo esconde o horizonte , criando a distância que desprende a cidade do céu. As relações exactas entre o vigor das cores e o efeito da luz sobre formas coloridas , tanto directo como reflectido, cria uma unidade rigorosa em todo o quadro. Todos os elementos estão colocados no espaço com indiscutível correcção."
Madeleine & Rowland Maistone, in O Barroco e o Século XVII, História da Arte, Universidade de Cambridge, Círculo do Livro

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Nos 500 anos de Camões

​“Não, mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.”
Luís de Camões, in “ Lusíadas, Canto X- Est. 145

Que me quereis, perpétuas saudades?

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
e se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos para um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
que quási é outra cousa; porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.
Luis de Camões, in “ Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”, Porto Editora

Alguns dos meus poetas eleitos souberam cantar Camões . Entrego-lhes a voz. Camões merece ser bem cantado, neste provável dia do seu nascimento , em 1524. Há 500 anos. E se , em  Portugal, a comemoração é  sem  aparato e quase inaudível, ficam ,pois, as  sonoras vozes de aqueles que  sempre souberam reconhecer o nosso vate maior , com magnânima sabedoria e   soberba originalidade:

"Macau, 9 de Junho de 1987 - Era preciso que um poeta português viesse aqui falar nesta hora final , para que ela não tivesse fim. E vim eu. ( Miguel Torga)
CAMÕES
"Evocar Camões em Macau tem , pelo menos, um perigo: o de parecer que se dá como certa a lenda de que ele pisou este chão. Era ponto assente na minha selecta de quarta classe que aqui teria sido provedor-mor dos defuntos e ausentes, e até uma gravura celebrava a gruta , com um busto à entrada , onde o épico se refugiara para dar largas à inspiração. Ora, nenhum documento coevo, nem qualquer investigador idóneo confirmam tais asserções, e o mais provável é que nunca tenha aportado em carne e osso a estas paragens. O que não aquenta, nem arrefenta. Nunca me meteram medo as ratoeiras da tradição.
(...) Sim, Camões esteve aqui e é daqui, porque aqui chegou o espírito de todo um povo que, como ninguém, consubstancia na vida e na obra , a legitimar-nos o impulso errático, a curiosidade, a ousadia, a tenacidade, a sabedoria e as ambições na América, na África , na Ásia, e na Oceania. Génio ímpar que o mundo memoriza e honra mas não conhece, a nossa própria pedagogia caseira no-lo ensinou, e creio que ensina ainda, erradamente. Na escola do meu tempo, d'Os Lusíadas aprendia-se tudo, menos o que importava. Os mestres de então como que profiavam em os tornar odiosos à nossa compreensão e sensibilidade juvenis. Para além da gramática e da genealogia das ninfas , nada nos diziam da beleza sem par da poesia que faísca a cada passo dos trâmites da narrativa, da erudição que subjaz a cada estrofe, da imaginação que flumina cada episódio e o emblematiza, e, sobretudo, da significação universal da obra , a mais actual e objectiva epopeia de quantas se conhecem. A história mental da humanidade regista outras igualmente famosas. A de Gilgamesh, a Ilíada, a Odisseia, a Eneida e a própria Divina Comédia, que é uma epopeia de almas. Mas nenhuma como Os Lusíadas cantou a natureza com tanta naturalidade e flagrância, exprimiu o homem tão de acordo com o entendimento que ele hoje tem de si mesmo, e celebrou com igual justiça e perenidade um esforço civilizacional colectivo. Tudo se encontra nesse prodigioso relato da insatisfação moderna a vencer as trevas da ignorância , a arredondar a concepção do mundo e a antever-lhe a harmonia futura.O homem é, finalmente, não mais um adorador limitado, mas um interrogador ilimitado. Duvida, congemina, verifica. O próprio poeta, em vários passos da obra , confirma esse vezo de uma mentalidade nova.
A verdade que eu canto, nua e pura
vence toda a grandíloqua escritura.

Ou ainda:
Se os antigos filósofos , que andaram
Tantas terras por ver segredos delas,
As maravilhas que eu passei, passaram,
A tão diversos ventos dando as velas,
Que grandes escrituras que deixaram!
Que influição de sinos e de estrelas,
Que estranhezas, que grandes qualidades!
E tudo sem mentir, puras verdades.
(...) O poema é ao mesmo tempo um hino de exaltação nacional e uma exegese inexorável da realidade. Ainda hoje impressiona o verismo com que a tromba marítima ou o escoburto nos são descritos no canto quinto.
" (...) O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida . A paixão tolda-nos a vista. Daí a espécie de obscura inocência com que actuamos na História. A poder e a valer , nem sempre temos consciência do que podemos e valemos. Hipertrofiamos provincianamente as capacidades alheias e minizamos maceradamente as nossas , sem nos lembrarmos sequer de que uma criatura só não presta quando deixou de ser inquieta. E nós somos a própria inquietação encarnada. Foi ela que nos fez transpor todos os limites espaciais e conhecer todas as longitudes humanas.
Quatrocentos anos depois de a termos alargado até este Extremo Oriente, estamos aqui a despedir-nos de um recanto da pátria e a evocar Camões. Não, como disse em termos formais, mas em termos factuais. É uma definitiva meta cronológica que irrevogavelmente assinalamos. E, numa circunstância tão significativa, tudo quanto disséssemos e fizéssemos à revelia do maior de todos os portugueses seria lamentavelmente negativo. Sem a benção dos seu nome e o critério da sua universalidade , nem daríamos um penhor válido de nós, nem poderíamos ter a certeza de voltar. De voltar eternamente."
Miguel Torga , in " Diário XV - Diário ( volumes XII a XVI)", pp 1466,1467,1468,1474, Círculo de Leitores

CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
                       1963
Jorge de Sena,in Metamorfoses,  Edições 70, Lisboa, 1988



CAMÕES
(450 ANOS)

Grão poeta da condição humana,
exímio acrescentador da língua,
cultor da vida sagrada e profana,
soube viver e morrer sempre à míngua

de excesso, como fazem os poetas
enormes, contra ventos e marés,
indiferentes às normas obsoletas,
andando sempre com os próprios pés!

grão lírico, antigo e moderno,
a sua grandeza é a sua vanguarda
que nos visita em abraço fraterno,

vivamos em palácio ou mansarda.
Meu irmão legítimo ou bastardo,
és para sempre nosso eterno bardo!.
01.02.2022
Eugénio Lisboa
Jorge de Sena

Discurso proferido na cidade da Guarda, por Jorge de Sena, durante as comemorações do “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no dia 10 de Junho de 1977 — o primeiro depois da “Revolução dos Cravos”. Além de Jorge de Sena, foi orador Vergílio Ferreira, na presença do Presidente Ramalho Eanes, de altas autoridades e de enorme plateia.
Discurso_da_Guarda
por Jorge de Sena
É para mim uma honra insigne o ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões em 1975, e do dedicar-se do Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões, e de residente no estrangeiro, que eu sou. Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento solene, a três anos de distância do 4o. centenário da morte do maior português de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém.
Quanto a ser um residente no estrangeiro, vai para dezoito anos que o sou, o que, curiosamente, é mais ou menos o tempo que o próprio Camões viveu fora de Portugal, desde que dele partiu para as Índias [em 1553, até que regressou,]* em 1570, tão pobre como partira, mas com Os Lusíadas no bolso ou na bagagem, para publicá-los. Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar – aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte, míseros e mesquinhos, ou ascendidos e triunfantes, muitas vezes, os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta. Por dezassete anos, recordemos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia ainda saber o génio que ele era. Reatando: eu não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi escrita para Portugal ou em Portugal publicada. Seja o que seja, continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959: um escritor português que vive no estrangeiro e que mantém um permanente contacto com Portugal, até por obrigação profissional: catedrático de Literatura Portuguesa, que é um dos meus títulos e deveres, não tenho outro remédio senão estar a par do que se publica. Por outro lado, a minha fidelidade a Portugal – e fidelidade é uma das palavras-chave da minha pessoa e da minha obra, como liberdade é outra – nunca me permitiu livrar-me de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os desalentos e as esperanças de Portugal. Permitam-me ainda um esclarecimento. Na melhor das intenções, vária imprensa anunciou ou referiu que eu falaria aqui como representante dos luso-americanos. Se alguém pensou que eu tal faria, mais que num plano meramente simbólico de partilhar com eles o viver nos Estados Unidos, enganou-se redondamente. Primeiro que tudo, eu não sou um luso-americano: esta palavra significa não o português que vive na América, mas ou o que adquiriu a cidadania americana, ou o que descende de portugueses e já nasceu americano: luso-americanas são duas filhas minhas, por naturalização, e um neto meu que o é nato, como brasileiro por naturalização eu sou, e dois filhos meus o são natos, enquanto minha mulher e outros cinco filhos mantiveram a nacionalidade portuguesa. E, em segundo lugar, que é o primeiro de todos, eu não recebi dos luso-americanos nenhum mandato eleitoral para falar em nome deles, embora esteja certo de que mo teriam dado, se a eles o tivesse pedido, por saberem que os respeito e estimo, sem distinção de credo ou cor (porque há luso-americanos de cor, idos de Cabo Verde para lá, por exemplo). Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. Também dos limites da ordem social e dos deveres do homem para consigo mesmo e a sociedade de que faz parte foi Camões um mestre. Assim, aqui, no âmbito de celebrações que são camoneanas e do Portugal disperso pelo mundo desde que o país existe e desde que, no estrangeiro, comunidades portuguesas ou de lusa origem se formaram ou mantiveram, eu não represento luso-americanos, e não falo em nome deles ou de ninguém no largo mundo. Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado, proporcionalmente, tanta gente como este.
Sejamos francos e brutais. Há neste momento, milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O país pensa neles, e deseja recordar-se deles. Mas o país, pura e simplesmente, na situação económica que herdou e em que se encontra e toda a gente sabe desastrosa, não pode prescindir do dinheiro deles, ou do dinheiro que eles costumam enviar para a santa terrinha, ao contrário do que faziam e fazem portugueses do território nacional, que mandavam o seu dinheiro para o anonimato dos bancos da Suíça. Deste modo, celebrar as Comunidades Portuguesas no dia do santo nacional que celebrou a expansão imperial do país é, ao mesmo tempo, um belo ideal e um cálculo muito prático. Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral. O celebrar-se no presente e no passado em sua gente, o homenagear essa gente e recordá-la aonde quer que viva ou tenha vivido é um imperativo imarcescível da dignidade humana, num dos aspectos que a representa: o pertencer-se directa ou indirectamente a um povo, uma história, uma cultura, que como no caso de Portugal, foi, é e será capaz de diversificar-se em outras. Nenhum internacionalismo que se preze de ter os pés na realidade e na matéria de que somos feitos, pode negar ou ignorar essas realidades tremendas que são uma língua ou muitas, uma raça ou várias, uma cultura por mais adaptável ou capaz de absorção que ela seja, que se identificam com um nome secular – Portugal no nosso caso, aqui e agora.
Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. Isto é, condenamos a vera ideia de “Resistência” que, modernamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer e corajosamente praticar. E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Mas o restituir a quem o podia ler e o podia sentir mais fundamente um pouco de confiança em horas difíceis, é um acto de caridade, essa virtude que não é só cristã porque é, desde antes do cristianismo, a própria essência da civilização: a solidariedade humana quando a dor nos fere. E o ter sido usado, manipulado e treslido como Camões o foi, ou denegrido como também foi desde a publicação do seu poema, é um dos preços que a grandeza paga neste mundo. Camões e a sua obra têm pago esse preço como todos os outros. Deixem-me todavia recordar-vos que o grande aproveitacionismo de Camões para oportunismos de politicagem moderna não foi iniciado pela reacção. Esta, na verdade, e desde sempre, mesmo quando brandindo Camões, sentia que as mãos lhe ardiam. Aqueles oportunismos foram iniciados com o liberalismo romântico e com o positivismo republicano. E se o Estado Novo tentou apoderar-se de Camões, devemos reconhecer que ele era o herdeiro do nacionalismo político e burguês, inventado e desenvolvido por aquele liberalismo e aquele positivismo naquelas confusões ideológicas que os caracterizavam e de que Camões não tem culpa: tê-la-iam por exemplo dois homens que merecem o nosso respeito: Almeida Garrett e Teófilo Braga. E quanto à reacção mais recente em face de Camões, eu lembro apenas dois pequenos exemplos em que a censura o proibiu, se não estou em erro: o caso do jornal de Vila do Conde, em que um tio de José Régio usava publicar os clássicos, citando-os convenientemente, e o da revista Vértice, de Coimbra, que fazia o mesmo. E isto para não falarmos de crimes literários e socio-morais de mais largo alcance, de que Camões era vítima nas escolas, parecendo até que nós éramos as vítimas dele. Porque, para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, que nem uma nem outro eram para Camões o que eram para o Dr. Salazar, o poeta não servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida: o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler. E há mais e pior: quando, no liceu, líamos Os Lusíadas, éramos proibidos de ler (e não estudávamos) as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados que fingem lamentavelmente possuir a virtude que não têm, e vivem a perseguir ou reprimir os pecados alheios. Claro que nós todos íamos logo ler as passagens “proibidas” e lendo-as assim, com olhos libidinosos, perdíamos a grandeza delas: a majestade do sexo e do amor, a magnitude da liberdade e da tolerância, a inocência magnífica do prazer físico e da paixão erótica, que, acima de tudo, Camões cantava e celebrava nessas passagens com uma abertura de espírito e uma audácia espantosas. Será possível que os frades o tenham feito alterar algumas coisas antes de publicar Os Lusíadas. Mas, em face de algumas daquelas que lá ficaram, temos de reconhecer que, mais do que aquilo, só um poema francamente pornográfico, incompatível com a dignidade e o decoro da grande epopeia que Camões desejou escrever e escreveu.
Tem-se dito que o grande protagonista da epopeia é o povo português, e na verdade o povo aparece, segundo as tradições clássicas, representado apenas pelos seus heróis, aqueles que Camões seleccionou para o efeito, à excepção dos marinheiros anónimos que acompanhavam Vasco da Gama ou os seus guerreiros anónimos sem os quais não haveria a magnificente descrição da batalha de Aljubarrota ou análogos momentos. Aqueles marinheiros, como o próprio Vasco, são deificados, ou transfigurados epicamente na Ilha dos Amores, em condições sem dúvida moralmente impróprias de quem deixara família em Portugal, mas altamente consentâneas, se me permitem a rudeza, com a promiscuidade sexual notória do povo português, ao mesmo tempo que de acordo com as convenções épicas e mitológicas pelas quais os heróis se dignificavam no conhecimento (que aqui uso no sentido intelectualmente neo-platónico e no sentido obscenamente público) das entidades divinas. Já se disse que as personagens mais vivas e activas de Os Lusíadas são os deuses pagãos, e não as criaturas históricas, mais pálidas e incaracterísticas do que elas. Até certo ponto, isto é verdade. E é-o por algumas razões camonianamente importantes. Antes de mais, na filosofia que Camões assume e torna extremamente pessoal, os deuses pagãos possuem, como atributos do Deus supremo, invisível e silencioso, e como seus intermediários agentes, uma realidade autêntica que a criação artística faria necessariamente mais palpável e concreta. E é assim que nós vemos tão nitidamente Vénus, a Afrodite originária e primeva, um dos deuses anteriores a tudo, e também a deusa do amor que este sim, é todo poderoso – como a não veríamos? Ela é a amante, a esposa, a mãe, tudo o que o princípio feminino significa dentro e fora da nossa humanidade, naquelas complexidades psico-sexuais a que Camões se compraz em aludir, servindo-se de alusões mitológicas que parecem meros ornamentos ao longo da epopeia inteira. E como não veríamos Baco ou Diónisos, receoso de ser castrado da sua lendária glória de conquistador da Índia? Se, como descendentes de Luso, descendemos dele, e ele é o nosso pai receoso do triunfo e da liberdade dos filhos? Como não veríamos Júpiter, se ele é de certa maneira a providência divina, sempre disposta a sucumbir, mesmo incestuosamente, às atracções do amor? Estes deuses, na dialéctica camoniana, sem a qual Camões se não entende, são ao mesmo tempo as emanações do princípio divino que desce à terra, e são a nossa humanidade ascendida e divinizada. E é neste mesmo sentido que as referências a Cristo devem ser entendidas nos contextos camoneanos: ele é, supremamente, para Camões, o princípio divino que, como um fogo de vida, desce a encarnar-se humanamente, mas é também o homem, o herói humano que, pelo seu sacrifício, ascende ou regressa ao divino. E é este heroísmo do apostolado e do sacrifício o que, em toda a sua epopeia, Camões propõe continuamente pela referência ou pela narrativa. Até Inês de Castro, a grande matriarca do poema, ascende à glória épica pelo seu sacrifício de amor. Porque para o amor, para todas as formas de amor, Camões arranja sempre uma desculpa, um louvor, ou a suprema divindade, porque esse amor é, para ele, a todos os níveis, a realidade última, e a realidade sempre presente. Sem amor, não há heróis, nem há homens dignos desse nome. E amor, mesmo numa epopeia que transborda de feitos bélicos e de acções guerreiras, não existe sem uma infinita e total tolerância, um respeito pelos outros povos, as outras raças, as outras culturas, as outras religiões, ao ponto de, como já tenho chamado a atenção, o conceito de santidade ou a palavra santo se aplicar a todos, sem distinção alguma, cristãos, muçulmanos, brâmanes, etc., e até – não o esqueçamos – a uma ninfa que se deixa possuir, por bem requestada, na Ilha dos Amores. Este Camões de amor e tolerância permeia Os Lusíadas. Mas já se disse que, além e acima de tudo e todos, a principal personagem da epopeia é Camões ele-mesmo, não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta, e o qual constantemente interrompe a narrativa para invectivar com o maior desassombro (lembremo-nos de que as ordens daquele D. Sebastião a quem o poema é dedicado, dirigidas aos seus imperiais governadores, chamando-os à virtude e à dignidade, não tinham de tom diverso senão a diferença que vai de uma carta oficial a uma poesia de génio). E há nisso de Camões ser central uma enorme e profunda verdade que é o Camões-homem e o Camões-poeta. Não só ele se colocou, nos seus cálculos arquitectónicos do poema, nessa posição, e assim se colocando, se apresenta como a culminação da aventura portuguesa que ele conta, como o herói que o é por ser quem transforma Portugal numa obra de arte, acima das contingências históricas e da mesquinhês humanas. O Camões que na epopeia espreita ou se mostra a cada momento, roubando mesmo alguma realidade estética a tudo e todos, nós conhecêmo-lo e entendêmo-lo de outro volante do políptico que é a sua obra: o grande poeta lírico que é também um grande pensador, e que, na obra lírica como na épica, se apresenta como resumo e epítome da humanidade mesma, e não só do povo português. Ele é o homem em si, aquele ser que se busca continuamente e ao amor que o projecta para dentro e para fora de si mesmo, e é, como Luís de Camões, o predestinado para ser, ao mesmo tempo, o poeta-herói supremo que realiza, isto é, torna real para a eternidade da poesia, a história de Portugal, e a embarca nos navios de Vasco da Gama para unir o Ocidente ao Oriente. Ao mesmo tempo, este poeta-herói-épico, e o poeta-homem, exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças , e – ao contrário do que sucede ou sucedeu a alguns – regressar com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa das mais prodigiosas construções jamais criadas, desde que o mundo é mundo. E essa construção ele trazia, reunindo o Portugal disperso, para o que ele deixara a vida, como disse, pelo mundo em pedaços repartida. Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o “bicho da terra tão pequeno” contra o qual se encarniçam os poderes do mal.
Haverá ainda quem diga que esse homem cantou a expansão imperial, apesar de tudo, as conquistas imperiais do Oriente, e está portanto fora do nosso tempo e do nosso espaço históricos, e a sua epopeia ofende a consciência das Ásias e das Áfricas. Mas ele cantou a expansão portuguesa, na medida em que considerava que esta expansão era ou deveria ser a civilização ocidental levada a toda a parte, no que tinha de moralmente digno e de socialmente responsável. Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África. Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos. Isso Camões cantou: e vendo-o no seu tempo, e na visão do mundo que ele teve, sabemos que devemos relê-lo atentamente para saber, que ele, tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências, se fosse em vida nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou, para glória máxima de uma língua falada e escrita ou recordada em todos os continentes. O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição, e a dúvida do predestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida."
Jorge de Sena, 10 de Junho de 1977