quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Páginas do Diário

Fomos ao soberbo registo memorialistíco de Eugénio Lisboa, composto por sete volumes, para retirar do V volume as páginas que se seguem:
Páginas do Diário
por Eugénio Lisboa
"O meu diário, que interrompo mais uma vez, não regista o tempo que passámos em Cambridge, até ao regresso a Lisboa. A Manucha acabara de ser mãe, num parto um pouco complicado (perda temporária de visão), que levara a Antonieta a deslocar-se a Cambridge, por umas semanas.
Como era meu costume, durante as estadias em Cambridge, passeei-me pelas ruas daquele burgo de uma beleza singular. Banhada pelo rio Cam, bom para passeios e regatas, a cidade tem cerca de 125 000 habitantes, dos quais, 25 000 (1/5) são estudantes. Tem uma vida suave, apenas perturbada pelas hordas de turistas que costumam atropelar e poluir os locais sagrados que há pelo mundo. O icons mais citados são a famosa Capela do King’s College, o Laboratório Cavendish e a famosa Biblioteca da Universidade de Cambrdge. Há boas livrarias e tentadores alfarrabistas, além das chamadas “Bargain Bookshops”, onde se compram, pelo preço da uva mijona, as primeiras edições, em capa dura, por preços inferiores aos “paperbacks” dos mesmos livros, entretanto lançados no mercado. Ali me abasteci de livros preciosos, esportulando pouco…
No Trinity College, pude ver, com alguma emoção, manuscritos de Newton…
O encanto destas cidades inglesas, pequenas, bem cuidadas, aprazíveis e cheias de história, com o seu inevitável chá com scones, à tarde, é indiscutível. Não sei se seria capaz de viver numa delas, durante muito tempo. Há, naquela vida, sobretudo na universitária, algo de monacal, com o seu quê de docemente alienante… Bem sei que Londres está perto, com o seu carrocel de seduções… Mas… Tive sempre algum preconceito (muito instintivo) contra Oxford e Cambridge e, sobretudo, contra algum “contentismo” de quem lá vive e habita.
Em Cambridge, pululam os fantasmas dos grandes criadores de ciência e até cruzamos, ocasionalmente, algum ainda vivo: lembro-me de, atravessando um parque, quase ter acotovelado Stephen Hawking… E foi-me apontado o bar onde os descobridores do ADN lançaram o seu excitado Eureka. Em Cambridge, abriga-se, por debaixo daquela beleza tranquila e bem cuidada, muito tumulto.
Mas a visita chegou ao fim: a Manucha estabilizara, a Laura viera ao mundo, a vida deles, muito apoiada no Michael, marido impecável, iria seguir, com mais do que alguma inquietação resultante de uma doença que o parto teria ajudado a revelar-se.
Regressámos a Lisboa. Passa a falar, de novo, o meu diário.
 
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27.6.96 – Regressei a Lisboa há dias e recomeçou a dança. Compromissos cancelados por razões de força maior, almoços marcados e esquecidos, assim vai a nossa classe dirigente. Os melhores são iguais aos piores e todos se queixam de todos. País desorientado, sem valores – mas todos falam de valores. A retórica é cada vez mais gongórica e ensarilhada. Busca-se sempre o vocábulo menos óbvio [às vezes, diz-se “devolver” em vez de “retribuir”…], o mais arrebicado e o menos adequado (mais sonoro e, aparentemente, mais “chic”). Embebedamo-nos com palavras, com encontros, com “estudos”, com relatórios e com “comissões”. E não produzimos nada e, certamente, não produzimos riqueza. Haverá saída para isto? Haverá solução para um país com esta gente? [2014: previa bem. Agora, em 2014, vê.se bem o resultado de todo aquele palavriado sonoro e inconsequente…]
 
28.6.96, Lisboa – A lei do Totobola foi rejeitada no Parlamento. Não posso estar mais de acordo. Há necessidade, mais, há urgência de quebrar a espinal medula aos gangsters do futebol. Fazê-los engolir a arrogância e as ameaças. Fazê-los pagar e, não pagando, metê-los na cadeia… [eu sei que não há prisão por dívidas, mas seria bom haver uma lei de excepção, para esta máfia sinistra]. É assim que nascem as máfias e as camorras. Eles dizem que têm força e nós acatamos que eles a tenham. Corolário: passam mesmo a tê-la. É urgente acabar com o equívoco. Dizer-lhes que não os tememos. Que eles só existem, se nós deixarmos. Passarmos nós a ter a força.
 
Desde ontem, interessante colóquio sobre Participação Pública e Planeamento, no auditório da FLAD. O colóquio visa a “prática da democracia ambiental.” A minha dúvida é:mesmo aceitando que a prática da democracia ambiental é a melhor de que dispomos, será que este melhor é suficientemente bom? Se, como dizem os cientistas, se impõem soluções radicais, será a prática democrática produtora de radicalismo? Por outras palavras, estaremos nós “foutus”? Mas será que a saída da via democrática produz soluções melhores? Nesse caso, não haverá mesmo saída? Então, para què todos estes colóquios? Para morrermos lúcidos?
 
No regresso de Inglaterra, vim encontrar uma carta do Taborda de Vasconcelos, reagindo à minha Crónica dos Anos da Peste. Que foi, para ele, uma surpresa. Que os meus textos mais antigos já me mostravam adulto. Que não cresci: já apareci crescido. Acho que o problema é outro: fui crescendo, sem escrever. Quando peguei na caneta, já tinha lido e reflectido muito. Tinha escrito por dentro. A minha preocupação era compreender, não era escrever. Nunca me consumiu o furor de noircir du papier..
Eugénio Lisboa, in Acta Est Fabula- Memórias V (1995-2015),Editora Opera Omnia, Outubro de 2015 , pp.93-95

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

O homem, esse desconhecido

 
O homem, esse desconhecido
por Eugénio Lisboa
« O título é o de um livro célebre, da autoria do médico Alexis Carrel, que ganhou o Prémio Nobel de medicina, por ter congeminado uma técnica que permitiu as transfusões de sangue, numa altura em que ainda não havia anticoagulantes. O livro é fascinante e admiravelmente escrito, embora possa estar hoje já um tanto desactualizado. Mas não está desactualizado, na medida em que nos chama a atenção para a extrema complexidade desta máquina que é o ser humano. Máquina que muitos grandes escritores, da Antiguidade para cá, têm tentado, com êxito desigual, decifrar. A grande literatura serve para nos ajudar a resolver algumas das perplexidades e enigmas que o viver com os outros e com nós mesmos nos põe. Quantas vezes os nossos amigos ou simples conhecidos nos surpreendem, de repente, por um inesperado comportamento, que os revela, a uma luz nova e nem sempre favorável. Quanto tempo passamos, às vezes, junto de alguém, sem realmente o conhecermos. O ser humano é profundamente contraditório e isso pode tornar o convívio com ele um terreno minado.
Toda a obra do nosso escritor José Régio, especialmente os seus romances JOGO DA CABRA CEGA  e A VELHA CASA, mas, de um modo geral, toda a obra, são um dilacerante inventário dos mal-entendidos e dos obstáculos traiçoeiros, que, na nossa vida, se opõem a um convívio fluente e transparente. Mal-entendidos com os outros, com nós mesmos ou com um qualquer transcendente. A grande literatura ilumina os lugares mais recônditos da personalidade humana e, mostrando-nos a complexidade do ser humano, convida-nos a não sermos levianos ou simplistas, na avaliação dos outros. Ou também de nós. Mesmo as grandes figuras que admiramos – talvez, sobretudo, as grandes figuras – contêm venenos perigosos na composição dos seus organismos. Um Tolstoi, que nos legou, para sempre, as grandes construções romanescas, que são GUERRA E PAZ e ANA KARENINA,e nos deu o exemplo de uma vida de criação cheia, revelou-se, como homem, cheio de fragilidades e fanatismos perigosos. Este cristão e moralista agressivo, pregador impetuoso de uma castidade assanhada, não hesitou em exercer o seu droit de seigneur sobre, pelo menos, uma das suas escravas, o que talvez esteja na origem do seu belo romance RESSURREIÇÃO. O mesmo Tolstoi, que, na sua novela A SONATA A KREUTZER, propunha o exercício de uma alucinada castidade absoluta e terminal, inevitavelmente despovoadora do planeta, assaltava sexualmente a mulher, numa fúria insaciável de macho lascivo e assíduo, ou seja, faz o que eu digo e não o que eu faço. Rodeado de discípulos tão fanáticos como ele, transformou a vida da mulher num inferno, fazendo-a, enquanto, de modo insaciável , a assediava sexualmente, copiar, para o editor, a novela delirante na qual mandava para o inferno os não castos… O que estou a dizer ou a querer dizer, é que este gigante da arte literária, provavelmente o maior romancista do século XIX, podia também ser um dos mais perversos fanáticos que a Rússia conheceu. Isto é, toda a avaliação simplista, não poliédrica, de um ser humano, é necessariamente inepta, desfocada e injusta. O mesmo poderíamos dizer de Dostoiewsky: este admirável escafandrista dos mares infindáveis da alma humana, criador das figuras admiráveis de Aliocha Karamazov, do Príncipe Mitchkin ou da Sonia do romance CRIME E CASTIGO, foi também o criador das figuras demoníacas de Ivan Karamazov e do sinistro Stavroguine, da novela A CONFISSÃO DE STAVROGUINE. Esta novela, aliás, era simplesmente um capítulo que escrevera para o seu romance OS POSSESSOS, mas que não teve a coragem de nele inserir. Tratar-se-ia da confissão de um crime terrível cometido pelo próprio Dostoiewsky, que quis punir-se de o haver cometido, confessando-o ao escritor que mais detestava, o grande Ivan Turguenev. O autor de PAIS E FILHOS recebeu a confissão daquele horror, com irritante mutismo e frieza, tanto mais ofuscantes, quanto mais Dostoiewsky se autoflagelava e se lhe rojava aos pés. No fim, desesperado, com a falta de empatia de Turguenev, o autor de AS NOITES BRANCAS, furioso, saiu, impetuosamente, batendo portas. Conto estas coisas, apenas para mostrar como são contraditórios os seres humanos e neles coabitam grandezas e misérias.
Uma época que nunca deveremos esquecer é a do senador Joseph McCarthy e do terror instalado nos meios intelectuais e artísticos americanos, com a sua caça às bruxas, o qual via comunistas escondidos nos armários e debaixo das camas: bastava divergirem do credo vigente ou terem convivido com amigos comunistas. Neste reino do terror houve heróis (Arthur Miller, Kirk Douglas, Dalton Trumbo, Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Bette Davis, John Huston, entre outros) e vilãos (Adolphe Menjou, John Wayne, Elia Kazan, Edward Dmytryk, Lee J. Cobb, Edward G. Robinson, entre muitos outros ). Entre os vilãos, estavam estrelas de primeira grandeza do cinema americano, como Elia Kazan e o actor Lee J. Cobb, que, puxados ao limite da resistência humana, acabaram por ceder, tornando-se bufos. Mas talvez valha a pena meditar se os mais vilãos são os que cederam à chantagem ou os que a fizeram, criando um reino do terror conducente à revelação das maiores fragilidades humanas. Dou só um exemplo: o actor Lee J. Cobb, acusado de ser comunista, recusou-se a colaborar com os inquisidores, durante dois anos. Recusou-se a dizer se era comunista e a nomear outros comunistas. Foi perseguido de todas as maneiras e, por fim, admitiu ser comunista e denunciou 20 camaradas. Mais tarde, tendo sido indagado sobre o seu comportamento, respondeu assim: “Quando os poderes dos EUA se direcionam a uma pessoa, em particular, isso pode ser aterrador. A Lista Negra é apenas o começo – ficar privado de trabalho. O passaporte é confiscado. Isso não é muito importante. Mas não sermos capazes de nos movimentarmos, sem sermos seguidos é outra coisa. A partir de certo ponto, as ameaças implícitas tornam-se explícitas e as pessoas sucumbem. A minha mulher sucumbiu e foi internada numa instituição. O HUAC (House Un-American Activities Committee) fez um acordo comigo. Eu estava completamente nas lonas. Não tinha dinheiro e não tinha como pedi-lo emprestado. Tinha despesas com os meus filhos, (…) Precisava de arranjar trabalho.” Quem acha que pode, atire a primeira pedra. Por mim, prefiro orientar a minha artilharia na direcção de quem cria um universo, onde as fraquezas humanas se revelem e reduzam, para todo o sempre, a autoestima do que sucumbiu.
 
P. S. – Quem sugere, sob anonimato, que alguma vez eu tenha feito avaliações de mérito, por critérios ideologicamente enviesados, não passa de um vil caluniador ou de um ignorante. Se de alguma coisa me orgulho é de sempre ter feito uma crítica saudavelmente poliédrica e independente de ideologias. Visconti, um comunista, foi sempre um dos grandes cineastas do século XX e uma ostensiva admiração minha. E nunca escondi a minha admiração pela atitude que Marx teve em relação à liberdade dos artistas. Mas os ideólogos duros e insensíveis sempre tiveram dificuldade em entender estas coias. Até porque nunca leram Marx e apenas consultaram os seus “substitutos”.»
Eugénio Lisboa, 28.02.2024 

Stabat Mater

  
Stabat Mater dolorosa, de Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736), nas vozes dos contratenores Samuel Marino & Filippo Mineccia, acompanhados pela Orchestre de l’Opéra Royal de Versailles, sob a direcção da Maestrina   Marie van Rhijn, que está também no Órgão.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Desafios da filosofia no século XXI

  


Desafios da filosofia no século XXI: ciência e sabedoria
por Ivan Domingues 
"Ao juntar filosofia, ciência e sabedoria numa oportunidade como esta, por ocasião das festividades da entrega do Prêmio Fundep e no contexto da aula inaugural da FAFICH, duas coisas que me tocaram fundo e muito me honraram, minha intenção é celebrar as humanidades (afinal, fui premiado na área de humanidades e artes) e, no interior delas, destacar a situação da filosofia (pois, é a área da qual eu venho e à qual devo tudo ou quase tudo). Eu digo celebrar, porque as velhas humanidades, tais como elas surgiram do medievo, passaram pela renascença e chegaram à modernidade, reuniam a filosofia, a ciência e a sabedoria num só campo de conhecimento. Trata-se de uma época em que as distinções dos campos disciplinares eram mais elásticas, as especializações mais fluidas e a filosofia moral garantia a ligação da filosofia e da ciência com o mundo da ação, ligação requerida por toda a sabedoria que se preze, do Oriente e do Ocidente. Ora, é justamente esse liame da filosofia, da ciência e da sabedoria que se rompeu no curso da modernidade, gerando a conhecida situação de uma ciência sem filosofia e sem sabedoria, bem como de uma filosofia sem sabedoria e sem ciência. Minha tentativa ao longo da conferência, uma vez convencido de que esse estado de coisas não pode persistir, sob pena de pôr tudo a perder, será justamente a de restabelecer as pontes entre a filosofia, a ciência e a sabedoria (bem entendido: a sabedoria não é uma disciplina, mas um olhar e uma atitude), tendo por foco a filosofia contemporânea e por eixo os grandes desafios do pensamento no século XXI.
Passemos à filosofia e examinemos sua situação. Vista no mundo antigo como a rainha do saber, a filosofia perdeu o privilégio na idade média para a teologia, assim como na modernidade para a física, depois de um breve interregno em que recuperou o antigo status e exerceu a primazia nos séculos XVI e XVII. Passado mais um lapso de tempo, ao se chegar ao século XX e à curva do XXI, a situação mais uma vez mudou, tendo a física cedido o posto para a biologia (ou alguém duvida de que a bola da vez é a biologia?) e ficando a filosofia cada vez mais à margem: espécie de rainha da Inglaterra, nobre porém inútil, como todo roi fait-néant das monarquias constitucionais. Todavia, paralelamente à perda de status, o problema que me preocupa não é a questão pragmatista dos serviços da filosofia, se ela é útil, se ela serve ou não serve para alguma coisa, como se fosse um martelo ou uma outra ferramenta, mas algo diferente. Ou seja, junto com a perda de status, o que me preocupa e o que eu gostaria de compartilhar com vocês é a perda de relevância da filosofia, questão bem mais grave, pois quando isso acontece, quando algo perde a relevância e ninguém dá mais a mínima, o melhor que alguém pode fazer, como viu Bill Gates, é fechar o boteco e trancar as portas. A meu ver, essa é a situação a que chegou a filosofia no século XX, com o fim da cultura humanista e o ocaso das humanidades, dando lugar a uma cultura pragmatista e ao império das tecno-ciências, ao qual voltarei daqui a pouco.
Um sinal eloqüente da perda da importância, se não da irrelevância da filosofia, malgrado os grandes ícones como Husserl na primeira metade do século e Heidegger e Wittgenstein na segunda, é o Prêmio Nobel. Criado em 1901, há Nobels de física, de química, de medicina (ou fisiologia), de literatura, de paz e de economia (este, desde 1969), e nenhum de filosofia. Em quatro ocasiões, não a filosofia, mas quatro filósofos foram honrados com o Prêmio: um certo Rudolf Eucken, em 1908, de linhagem espiritualista, mestre de Max Scheller, bastante influente na Suíça e na Alemanha da época, e hoje um ilustre desconhecido; Henri Bergson, em 1927, então no auge de sua carreira; Bertrand Russell, em 1950, lógico brilhante e renomado pacifista; Jean-Paul Sartre, em 1964, que declinou do Prêmio. A nota curiosa é que todos eles, inclusive Sartre, ganharam o Prêmio Nobel de literatura, sem dúvida um lugar menos inóspito para acolhê-los do que a física, a química ou a medicina, porém, ao que parece, mais em virtude de seus talentos literários (patente em Bergson, duvidoso em Eucken) do que propriamente filosóficos. Haveria outras coisas a considerar dos três premiados e da recusa de Sartre, mas vou ficando por aqui. Sob esse aspecto, aliás, a situação da filosofia não difere muito da sociologia, lingüística, história e outras disciplinas das ciências humanas, que também não têm Prêmio Nobel. Tal foi durante algum tempo o caso da matemática: na época em que a Academia da Suécia criou a honraria, a velha ciência partilhava o mesmo teto com a física e foi deixada de lado como área do conhecimento, o que não quer dizer que matemáticos não tenham sido premiados ... como físicos. A situação vai ser alterada depois, com a hiper-especialização da irmã física e sua crescente tecnologização, motivando os matemáticos a criarem o seu prêmio, longe de Estocolmo, a Medalha Field. Tal não é o caso da filosofia: além de estar excluída do prêmio famoso, não tem uma medalha como a da matemática.
Para avaliar a situação, com a intenção tanto de fazer o diagnóstico dos males que afligem a filosofia (a falta de relevância) quanto de indicar a terapêutica e encontrar-lhe os remédios, eu proponho que voltemos mais uma vez os olhos ao séc. XX e procuremos sondar, nas águas movediças de Chronos, o que nos aguarda no séc. XXI. Eu disse antes, ao tentar situá-la no sistema do saber, que a filosofia, tendo ocupado o posto de rainha das ciências, foi destronada primeiro pela teologia, na idade média, e depois pela física, ciência que no início dos tempos modernos – acrescento eu agora – trocou a filosofia pela matemática. Disse também que esta situação foi alterada no século XX – eu preciso agora, na segunda metade do século XX –, quando foi a vez de a física ser destronada, ao ceder o posto de rainha do saber para a biologia, mais precisamente a genética, a qual deverá ocupar toda a cena do conhecimento ao longo do séc. XXI. Voltando a essas duas afirmações, com a intenção de pensar o lugar da filosofia, a qual vai aparecer junto com as artes em muitos filósofos (Sartre, Heidegger, Rorty, Bergson), eu direi que nada é mais certo e, também, nada é mais inexato do que esses pensamentos. Mais certo, porque de fato houve esses deslocamentos e troca de posições no ranking do saber. Mais inexato, porque nos dá uma idéia parcial do que de fato sucedeu no séc. XX: simplesmente, o século XX instala o império das tecno-ciências e leva ao destronamento da ciência pela tecnologia ou das ciências básicas pelas ciências aplicadas, que passam a ocupar toda a cena, para desconforto do físico e do biólogo. Desde então, se não é errado dizer que os séculos XVIII-XIX assistiram à assunção da física, que passou a ser a rainha do saber, não é menos inexato que o século XX foi o século da física e da engenharia, ao passo que o século XXI será o século da biologia e das biotecnologias, ao patrocinar a fusão da engenharia e da genética. Os resultados desse processo são bastante conhecidos: junto com a instauração do império das tecno-ciências, foi todo um novo modo de produzir conhecimento que veio ao mundo (laboratórios em rede, fusão da ciência com a indústria, taylorização do trabalho intelectual etc) e todo um mundo que foi posto de ponta-cabeça, ao trocar as incertezas do saber empírico e as substâncias da natureza pelos engenhos da tecnologia e os artifícios do aparato técnico. E as conseqüências, extraordinárias: nunca foi gerado tanto conhecimento e se produziu tantos cientistas e engenheiros como no século XX; nunca, também, se engenhou tanto e se criaram tantas engenhocas; nunca a técnica foi tão pródiga e tão grande seu raio de ação, desde as tecnologias materiais, ao colocar à disposição dos humanos as substâncias das matérias junto com as forças ocultas da natureza, passando pela agro-indústria (engenharia de alimentos etc), até chegar ao homem e ao mundo humano, primeiro ao corpo, depois às instituições, enfim à mente, modificando-os, re-engenhando-os e potencializando-os (dispositivos, chips etc); nunca o sonho prometeico foi tão longe: da conquista do cosmo infinito à imortalidade do homem – tudo é uma questão de labor e de tempo. Em contraste com as promessas e as realizações da técnica no século XX – de alcance e impacto tão extraordinários quando os engenhos surgiram, e ao mesmo tempo tão domesticados e tão banais ao se instalarem em nossos lares e escritórios: nunca saberemos agradecer todas as potencialidades e comodidades da vida que devemos aos engenheiros! –, em contraste com tudo isso, nunca se matou tanto quanto no século XX (as duas guerras mundiais, as guerras civis na Rússia e na China, as guerras civis cotidianas nos quatro cantos do planeta etc...) e nunca houve no Ocidente uma crise de valores tão profunda e de efeitos tão devastadores: nihilismo moral, deserção do social, abandono da política. Ora, o que aconteceu, justamente nesse ponto e num quadro desolador como esse, em que a filosofia é chamada e em que o filósofo tem algo a dizer, foi justamente o encapsulamento da filosofia e o recolhimento do filósofo – a filosofia, ao trocar a companhia da ciência e da técnica pela arte, ela mesma nihilista, como em Heidegger, que a julgou imunizada contra o mal, ou então pelo senso comum e o silêncio místico, como no segundo Wittgenstein; o filósofo, vítima de uma vertigem abissal e tomado de um sentimento de impotência invencível, virou as costas ao mundo, encastelou-se em sua mente ou então nos textos e se refugiou em tecnicidades. Não obstante, Heidegger e Wittgenstein foram filósofos genuínos, e eu mesmo já tive a ocasião de celebrar em artigos a grande importância do austríaco e do alemão na filosofia contemporânea.
Tal é, pois, o quadro e a situação da filosofia no séc. XX. Dos grandes filósofos, daqueles considerados gênios ou gigantes, Husserl foi o último a colocar a filosofia em compasso com a ciência, ao pensar o fundamento das matemáticas, bem como a tentar pôr a filosofia em sintonia com seu tempo, ao pensar a crise da civilização européia – porém, quem se lembra dele hoje? e quem se há de lembrar depois que Weber, melhor do que ele, pensou o destino do Ocidente n'A ética protestante e o espírito do capitalismo? Heidegger, por seu turno, continuou a trilhar a senda do idealismo alemão ao trocar a metafísica pela ontologia e, sem ter o que dizer a respeito da ciência, depois de juntar filosofia e arte, refugiou-se em sua cabana na Floresta Negra e lá ficou à espera do clarão e do chamado, quer dizer, como Schopenhauer e Wittgenstein, agarrou-se à saída mística. Quanto à Wittgenstein, ao que parece, ao trocar o cristal puro do Tractatus pela antropologia cultural difusa das Investigações filosóficas, deixou intocado o silêncio místico. Não os wittgensteinianos, que trocaram a mística pelo pragmatismo, muitas vezes um pragmatismo ralo, cuja consistência e maior densidade vão buscar no culturalismo e relativismo das inúmeras visões de mundo disponíveis no mercado das crenças de Londres, Nova York e São Francisco. Lá, como alhures, em São Paulo, em Berlim e em Nova Delhi, os wittgensteinianos – não todos, evidentemente –, continuarão, despreocupados e seduzidos, a reverenciar as extravagâncias do indivíduo incomum e a cultuar a mente divina do mestre, sem se darem conta de que os sociólogos, antropólogos e lingüistas, além de melhor aparelhados, estão mais bem aquinhoados nesse terreno, eu digo, o terreno da cultura e da história.
Nos últimos anos, em artigos e conferências venho chamando a atenção dos colegas e alunos para esse estado de coisas, e hoje volto novamente ao ponto. O ponto, a meu ver, é que tudo isso aconteceu depois que o idealismo alemão, tendo rompido o liame da filosofia com a arte, a ciência e o mundo da vida e da ação, encastelou a filosofia na mente do filósofo e passou a fazer filosofia – com a intenção de fundar uma super-ciência, o saber absoluto – entregando-se de corpo inteiro aos atos puros do pensamento, sem dar a mínima para a experiência e fiando-se tão-só nas virtudes especulativas da mente. O resultado foi uma floresta de idéias, cujas sandices e impertinências foram impiedosamente atacadas por A. Humboldt, depois de ler a filosofia da história de Hegel. E mais – perdoem-me os colegas hegelianos, por eu falar desse jeito, mas sou forçado (é Hegel que me obriga, e eu mesmo já fui hegeliano, ou quase) – junto com a floresta de idéias, uma arrogância intelectual nunca vista antes. Arrogância evidenciada ao propor um saber absoluto acima da arte, da religião e da ciência, capaz de desprezar Newton (o idiota da atração universal) e de rebaixar as matemáticas (nem propedêutica é: trata-se de um cálculo mecanizável). Arrogância associada a uma atividade mental desmesurada e uma especulação sem peias (pois a dialética das idéias e o poder especulativo da mente são vistos como as credenciais da filosofia e as ferramentas do filósofo), deixando como herança, além das extravagâncias do filósofo (como o "eu metafísico" distinto da consciência e do sujeito, de Fichte), o legado tenebroso e chauvinista da filosofia moral (sacralização do estado, virilidade dos teutos, pan-germanismo, hegemonismo alemão). Ora, foi justamente contra esse estado de coisas que se insurgiram Marx, Nietzsche, Feuerbach, Kierkegaard, Schopenhauer, Heidegger, dando origem ao processo de dissolução do idealismo alemão, iniciado no séc. XIX, continuando no séc. XX e que está longe de ter-se encerrado.
Entendo que uma das tarefas mais importantes da filosofia ao longo do séc. XXI será justamente aprofundar e levar até o fim o processo de dissolução do idealismo alemão. Outra tarefa, não menos importante, será levar adiante o fim da virada lingüística na filosofia, depois de ter cumprido a missão de franquear à reflexão filosófica o mundo ruidoso da linguagem – até então paradoxalmente, salvo poucas exceções, reduzido ao silêncio – e motivada pela necessidade – verdadeira urgência – de livrar a filosofia contemporânea da inflação de linguagem e de filosofias da linguagem. Junto com a desinflação, o desafio será disponibilizar à reflexão filosófica um outro lugar onde inscrever a mente, para além da linguagem, da frase, do signo, do pragma e do arqui-traço da filosofia analítica, da hermenêutica pós-romântica, do neo-pragmatismo, do pós-estruturalismo e do pensamento da desconstrução. Tendo-se esgotada a filosofia analítica e convertida numa espécie de escolástica, como bem viu Richard Rorty, ao dizer que aquela corrente acabou e que o sinal disso é que há décadas ela perdeu seu império nos dois lados do Atlântico, há quem esteja à espera de uma nova virada. Não de uma nova virada lingüística, que já se esgotou e já disse a que veio, ao percorrer todos os caminhos possíveis e dimensões da linguagem, com a guinada adquirindo um tríplice viés sintático, semântico e pragmático em diferentes correntes filosóficas, mas da virada cognitivista, que colocaria a filosofia a mercê dos programas do cérebro das agências americanas, bem como de inteligência artificial do CALTECH e do MIT. Porém, por mais que procure, a filosofia não encontrará a mente na cuba de formol, nem na tela do computador. Ao apresentar minhas reservas em relação à filosofia da mente, não quero dizer que a questão da mente seja trivial ou que esteja resolvida. Além de não estar decidida, estou convencido de que a questão entrará cada vez mais na agenda da filosofia no séc. XXI, que terá diante de si a tarefa difícil de incorporar os resultados das neurociências, as quais, alheias às disputas filosóficas, estão puxando o carro neste terreno.
Por isso, ao pensar a situação atual da filosofia, as tarefas em curso e os desafios a serem vencidos, minha proposta é límpida em seu propósito e metodologicamente bastante simples em sua operacionalização: em vez de procurar uma arché para o pensamento ou um lugar privilegiado onde inscrever o pensamento ou a célula originária ou a matriz do real e do pensamento (como a Mente, a Imaginação, a Vontade, a Linguagem, o Desejo etc), trata-se de tomar a filosofia como o lugar da reflexão e da experiência do pensamento, vale dizer do pensamento reflexivo, de sorte que se a filosofia perdeu a relevância e se esterilizou é porque o filósofo, entregue às tecnicidades, renunciou ao pensamento e não quis mais pensar. Esta tomada de posição, que nada tem de arrogante e de misteriosa – pois, como é sabido, o cultivo do logos define a atividade da filosofia e o ethos do filósofo desde os gregos –, levará a recolocar a relação da filosofia com o real em novas bases, bem como a delimitar o espaço próprio onde vão se delinear e inscrever as relações da filosofia com a sabedoria e a ciência. A idéia que eu vou sustentar é que o lugar da filosofia e o locus do pensamento filosófico não é exatamente o real ou o empírico, mas o abstrato e o virtual. Vem a ser, o lugar do questionamento, da desestabilização e da crítica, e como tal a um tempo conectado com o real (porém, o virtual, como aliás o pensamento, é real, e o real, virtual), perguntando por mundos possíveis, abrindo-se a fantasias e utopias, e resistindo enquanto pode às solicitações do cotidiano. Daí, a exemplo do artista e à diferença do cientista, o filósofo não ter compromisso com a realidade, no sentido de realidade factual ou de real empírico, e no exercício de suas funções ser um a-polis, termo que vem do historiador grego Luciano e que quer dizer um intelectual apátrida, desterrado de seu país e um verdadeiro cidadão do mundo, sem habitar qualquer país em particular. Todavia, essa a-topia a marcar a conduta e o pensamento do intelectual universal, junto com a resistência ao paroquial e ao chauvinismo local, em busca de horizontes mais largos, não afasta a necessidade de dar aos pensamentos o quadro e às ações o contexto, como no meu caso ao indagar pela situação e os desafios da filosofia no séc. XXI, e nesta tarefa todo cuidado é pouco."
Conferência ( excerto) de Ivan Domingues (Professor titular de filosofia da UFMG- Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil ) 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Rimas desoladas para guitarra

 
Em dias de morrinhanha,
nada apetece fazer.
A alma fica tacanha
e nada nos dá prazer.
 
Que o mundo pereça ou não,
não me tira a mim o sono:
que venha outro Adão
que faça menos carbono.
 
Entre o hoje e o amanhã.
pouca diferença faz:
se o hoje não é titã,
o amanhã não tem gás.
 
Fica-se a olhar pró ontem,
na falta de haver hoje:
por mais coisas que me contem,
nada há que não enoje.
 
Em dias assim cinzentos,
mais valia não estar cá,
mas mesmo havendo bons ventos,
quem diz que o bem virá?
                     26.02.2024
Eugénio Lisboa

A avaliação redutora


A avaliação redutora
por Eugénio Lisboa
“Os ideólogos absolutos simples têm o hábito nefasto de avaliar o talento e as obras de escritores, artistas e cientistas, não por esse talento, mas por razões em tudo exteriores ao valor intrínseco dessas obras. Um cientista não é válido porque é judeu, um escritor é descartável porque é de direita ou porque é de esquerda ou porque não “se compromete”. Outro é lançado ao inferno porque tem vícios sexuais. Por dá cá aquela palha, lança-se o labéu de “fascista” a gente que simplesmente “se acomodou” como se acomodaram tantos que se dizem de esquerda. É uma avaliação assanhada, intolerante, a preto e branco, como se um grande artista tivesse de ser, ao mesmo tempo, uma virgem impoluta em busca de canonização.
Do que estes robespierres se esquecem é de que, a utilizar esta escala de valores, muito do património cultural da humanidade vai pelo esgoto abaixo, porque, afinal, os heróis eram também vilãos. Os exemplos abundam e temos de viver com eles. Jean-Jacques Rousseau, que nos legou duas joias literárias – LES CONFESSIONS e RÊVERIES D’UN PROMENEUR SOLITAIRE – foi o mesmo que pôs cinco filhos na roda. Voltaire, destemido combatente pelos direitos humanos e notabilíssimo ficcionista, poeta, dramaturgo, historiador, e excepcional epistológrafo, que pagou as suas ousadias com a Bastilha e com o exílio, praticava desavergonhadamente a agiotagem. O grande Camilo, em muitas das acções da sua vida, não foi flor que se cheirasse. André Gide era pedófilo. Proust sabujava aristocratas, a quem escrevia intermináveis cartas soporíferas. Hemingway, o grande mestre do conto moderno, era um irredimível misógino e um bom sacana. O grande Faulkner, um dos maiores romancistas que a América produziu, tomou, em relação aos negros, atitudes que lhe valeram o epíteto de “racista silencioso”. Wagner foi o monstro que se sabe. Pirandello, um dos grandes dramaturgos do século XX e não menor contista, vestiu a camisa preta dos fascistas. D’Annunzio foi abertamente fascista. O grande Ibsen, autor de algum do melhor teatro do mundo, era perdido e achado por condecorações e ficava muito zangado quando lhas não davam ou lhas davam de pouco valor. Picasso, como ser humano e cidadão, estava longe de ser flor que se cheirasse. Sartre, durante a ocupação, recusou-se a integrar a Resistência e acomodou-se menos mal com os ocupantes. Céline pactuou abertamente com os nazis e, no final da guerra, para não ser fuzilado, fugiu para o norte brumoso. Que fazer da obra de toda esta gente e de outra que eu aqui não citei? Mandá-la para a lixeira? Os ideólogos, provavelmente, acham que sim. O que prova apenas uma coisa: eles nunca foram realmente capazes de compreender nem apreciar as grandes obras nem o preço alto que se paga a produzi-las.”
Eugénio Lisboa, 26.02.2024

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Mete travões à tua ambição

 
Quererás tu, porventura, ser gato?
Não ponhas muito alto a fasquia!
Sê apenas humano e pacato
e. não aqueças muito a fantasia.
 
O gato veio ao mundo, já perfeito,
ignorando as leis da evolução.
O homem, hélas!, nasceu imperfeito,
tendo já sido feio macacão.
 
Querer ser gato é pífia ambição,
de quem vê castelos que não estão lá!
Querer possuir estatuto de cão,
 
enfim, não precisa de alvará.
Mas querer ser o bichano que mia
é querer fugitiva iguaria!
                  24.02.2024
Eugénio Lisboa

Observa o gato


Observa com muita atenção o gato.
Vê como se concentra a lavar-se.
Repara na elegância do acto.
Em tudo que faz ele tenta elevar-se.
 
Até a comer, ele mostra esbelteza.
Oculta-se para actos mais íntimos.
O seu objectivo é sempre a beleza.
Os seus olhos indicam alvos últimos.
 
Mas o modo como ocupa o tempo
é o seu manual de sabedoria:
ele contorna qualquer contratempo
 
que lhe tire, da soneca, a harmonia.
Pra evitar que o trabalho o disforme,
o gato, mui convictamente, dorme!
                                24.02.2024
Eugénio Lisboa

Ao Domingo Há Música

 

A música é capaz de reproduzir, em sua forma real,a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria.
                Ludwig van Beethoven
 
Abençoados os corações flexíveis, pois nunca serão partidos. 
                   Albert Camus

Haja ou não haja frutos pelo sonho é que vamos , acrescenta o poeta. A beleza deste trecho de Beethoven é  um etéreo  convite à  magia.
- Partamos, pois! Vamos. Somos.

Anne-Sophie Mutter, Daniel Barenboim, Yo-Yo Ma, em  Triple Concerto in C Major, Op. 56 No.  2, de Ludwig van Beethoven.

  

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Nos 97 anos de David Mourão-Ferreira


1989, Eugénio Lisboa com David Mourão-Ferreira

David Mourão Ferreira nasceu há 97 anos, no dia 24 de Fevereiro de 1927.Faleceu a 16 de Junho de 1996.  Foi uma das figuras  mais marcantes das nossas Letras. 
Recuperámos um belíssimo texto de outro grande escritor, Eugénio Lisboa, para homenagear o poeta, o crítico literário , o ensaista, o romancista , o professor de quem fui privilegiadamente aluna.   

David  Mourão-Ferreira: 
Memórias de uma amizade
por Eugénio Lisboa
“Conheci David Mourão-Ferreira, nos primeiros meses de 1955, quando lhe fui apresentado por José Régio, que viera, por poucos dias, a Lisboa. Eu acabara o serviço militar em Portalegre, em fim de Fevereiro desse ano, a mesma Portalegre em que o próprio David fora oficial aspirante miliciano poucos anos antes.
David era um príncipe solar, aberto, sorridente e infinitamente propiciador. Régio olhava-o, por então, de soslaio, obviamente seduzido, mas desconfiado. Não gostara de um ou outro gesto do David mas não apreciava, sobretudo, a desenvoltura com que o seu jovem amigo se movimentava na selva literária de Lisboa, que o autor de A Velha Casa tinha por corruptora, no mais alto grau.
Literariamente, eu simplesmente não existia a não ser pelo facto de o Régio me ter por essa altura convidado para fazer uma antologia da sua poesia – coisa a haver -, sem qualquer meu currículo anterior que sustentasse o convite. Principescamente, o David passou por cima disso, ignorando o facto óbvio de poder – e dever – ter sido ele o convidado: jovem autor que por então era, com um punhado de textos críticos e ensaísticos que o chumbavam, desde logo, à nossa história literária, e dois livros de poesia publicados que, de imediato, indiciavam nele um lírico de nome a reter. Mas, como disse, o David, criador genuíno, tinha a generosidade dos que têm para dar e vender. Acompanhou-me, deu-me informações às carradas, falou-me de autores que me poderiam interessar e emprestou-me um punhado de livros em que figuravam algumas admirações comuns: Thomas Mann, por exemplo, de que saíra, em francês, por essa altura, Le Mirage, livro que viria a ser traduzido para português, por Domingos Monteiro, com o título de O Cisne Negro.
Eu ia partir, dentro de muito pouco tempo, para Moçambique: tinha três estágios de engenharia a completar, com os respectivos relatórios a submeter e tinha, sobretudo, que organizar e prefaciar a antologia regiana, com todos os anexos da praxe. Ainda por cima, para uma colecção dirigida pelo João Gaspar Simões, que era um homem susceptível e a quem o Régio impusera o meu nome, isto é, o de um desconhecido. Tudo, em vésperas de partida para um futuro profissionalmente desconhecido e depois de, desenvoltamente, ter recusado uma boa oferta de emprego para uma grande indústria em Alverca. Há atrevimentos que só a leviandade da juventude ajuda a explicar. A manhã em que meti no correio,  para  Portalegre, o manuscrito da antologia, seguiu-se a várias noites sem dormir, a toque de muita anfetamina. Parti dias depois.
Durante os vinte e um anos que passei em Moçambique, os contactos com o David não foram nunca epistolares: o David, como é de todos sabido, não era dado a amizades epistolares: amizade, sim, epistolografia, não. Homem de muita e diversificada escrita, ele não sentia a atracção da epístola. Ainda assim, como eu vinha com alguma periodicidade a Lisboa, quando isso acontecia, lá estava o David a receber-nos galhardamente, a mim e a minha mulher, em sua casa (ou em suas casas), ou a sós, ou com alguns amigos, como o saudoso José Palla e Carmo – grande crítico e ensaísta que a banca e a doença cedo devoraram -, enchendo-me de novidades, de ideias, de seduções, de pistas, de ofertas, de contactos, de luz e de calor. Saía destas visitas revigorado e estimulado, com energias renovadas para ir cumprir o meu fado humilde mas iluminado, nas paragens longínquas de uma Lourenço Marques bonita, animada e intelectualmente longe de ser desprezível. O David ficava-me, em Lisboa, como referência que eu guardava dentro de mim até nova visita. Foi ele, é só um exemplo, que me chamou a atenção para um daqueles livros que muito me impressionaram e que comprei em Londres, logo a seguir a tê-lo visto recomendado pelo David, numa visita que fiz à sua casa na Rua dos Ferreiros: o volume de ensaios, editado pela Penguin, The Triple Thinkers, do grande ensaísta americano, de extracção marxista, Edmund Wilson.
Quando, em 1957, vivia eu então na Beira, a minha antologia regiana veio finalmente a lume, a recensão crítica feita pelo David foi das poucas que dedicaram ao livrinho simpatia e perspicácia: fazendo, com delicadeza, um ou outro justo reparo, o autor de Hospital das Letras “lera” sem dúvida o meu livro e compreendera o esforço de sondagem, em profundidade, que eu ali tentara – com achegas que eram novas e às quais o próprio Régio fora sensível. Já agora – e porque vem a talhe de foice – outro dos que “repararam” no livro foi o neo-realista António Ramos de Almeida, que não me conhecia, e dedicou ao meu labor crítico palavras de calorosa simpatia e generosa compreensão.
Fiquei a dever ao autor de Um Amor Feliz imensas dádivas dos mais diversos teores. Mas fiquei a dever-lhe, sobretudo, os dezassete inesquecíveis anos que passei em Londres, como conselheiro cultural na nossa embaixada. Encontrando-me em Estocolmo, em 1977, a leccionar na Universidade, vim a Lisboa, nas férias de verão , num carro comprado em 5ª mão e vertendo todo o óleo que tinha ao longo dos milhares de atormentados quilómetros entre a Escandinávia e o extremo ocidental da Ibéria. Como trazia um recado do Ministério da Cultura sueco para o Secretário de Estado da Cultura, David Mourão-Ferreira, fui vê-lo, no edifício da Avenida da República, ao pé do Restaurante Galeto. Era verão e o compromisso da universidade sueca comigo terminava em Dezembro. Eu não fazia a mínima ideia do que iria fazer a seguir, com família a sustentar – uma filha a entrar na universidade -, mãe a regressar, viúva, de uma África em delírio de prec local e duas irmãs de meu pai, também  regressadas de décadas africanas, sem meios, sem profissão, sem reformas-a-haver, e sem idade para começar vida, sem nada, para falar curto e certeiro.
Mal tinha transmitido ao David o meu recado oficial, que recebeu sem comentários, e antes que a conversa pudesse derivar para fofoquices literárias – eu nunca me atreveria a glosar, para o David, as minhas angústias pessoais – perguntou-me se me agradaria a ideia de ir ser conselheiro cultural na embaixada de Portugal, em Londres. A sugestão juntava o útil – salvar-me da débâcle – ao agradável – ir trabalhar naquilo de que gostava – e, mesmo, ao inimaginável: ir viver para Londres, o único sítio onde me via viver, em alternativa à vida que, durante 38 anos, tivera em Lourenço Marques. Sempre pensara que, se tivesse um dia que sair de África, era Londres e não Paris ou Lisboa que me atraía... E o David, como boa fada propiciatória e divinatória, ali estava a fazer-me a mais improvável das propostas. Temi que os deuses se estivessem a divertir comigo e perguntei, atarantado, se aquilo era apenas uma hipótese remota ou era mesmo a sério. O David, sorridente, deu logo pormenores e logo ali se ofereceu para telefonar – e telefonou! – ao embaixador Albano Nogueira, então Secretário Geral, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, recomendando-lhe o meu nome, o qual foi prontamente aceite. Deixo de lado pormenores que aqui não interessam, mas terei que referir que a recomendação oficial, por escrito, que se juntou ao processo e trazia a assinatura do Secretário de Estado, David Mourão-Ferreira, era muito menos o produto das minhas capacidades culturais do que da inesgotável solidariedade e generosidade do poeta de Do Tempo ao Coração.
Dizia Henry Adams, professor em Harvard e celebrado autor da autobiografia The Education of Henry Adams, que “um amigo no poder é um amigo perdido”, mas o David, no poder ou fora dele, era sempre um amigo com quem se podia contar. O número de pessoas que poderia corroborar esta minha afirmação é muito elevado e não poucos estarão ainda vivos. Um conhecido primeiro ministro britânico gabava-se de ter tido os melhores amigos que já alguém teve. Mais modesto mas, ainda assim, infinitamente feliz, eu direi que tive apenas “alguns dos melhores” e não “os melhores” amigos. De entre esses, sobressai, sem dúvida, o autor de Órfico Ofício. Que nunca exerceu o poder como forma de arrogância, antes sempre o usou com o infalível instinto de fazer bem .
Enquanto conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Londres, tive ocasião, por mais de uma vez, de convidar David a ir proferir conferências em Londres, Oxford, Cardiff e Leeds. Foram ocasiões memoráveis: o nome do autor de Gaivotas em Terra era sempre um chamariz infalível: as salas enchiam-se e, falando de Pessoa, de Teixeira Gomes ou de Cesário, o grande ensaísta cativava, com o seu verbo bem colocado e musicalmente impecável, uma audiência que se deixava enfeitiçar pela claridade da exposição e pela arquitectura inatacável da construção. David era, a um tempo, audaciosamente inovador e clássico, iluminando e desassossegando, emitindo luz mas deixando que se suspeitasse da existência de sombras...
Nunca soube como pagar tanta dádiva, tanta generosidade, tanta luz e tanto calor. Em vida do David, escrevi sobre ele, dois únicos  textos: um, publicado no nº 61 da Colóquio/Letras, de Maio de 1981 e intitulado “Uma Claridade de Sombras e de Luzes: a «Obra Poética» de David Mourão-Ferreira”; o outro, sobre o ensaísta David Mourão-Ferreira, publicado no Jornal de Letras, como protesto sibilino contra uma inqualificável atitude do Secretário de Estado da Cultura, Santana Lopes.  Escrevi outros, depois do seu falecimento. Mas creio, tentando ser objectivo, que foi aquele texto, publicado há 25 anos, na Colóquio, a melhor homenagem que, dentro do que me limita, eu poderia ter dedicado à complexa riqueza do autor de Matura Idade. Porque faço nele uma sondagem que se não quis nem superficial, nem conformista com uma certa imagem-cliché que se tem vindo a construir em torno da sedutora figura de David Mourão-Ferreira: um príncipe solar, um predador dos alimentos terrestres, um cantor interminável do Eros e suas adjacências, um emissor de luz que nenhuma sombra desassossegou...Foi isto David? O seu canto é isto? Resume-se a isto? Rejeita ele o que não é isto? Acho que não, até porque os textos contam outra história, dizem outra coisa, como o dizia de resto a conversa e o comportamento quotidiano do amigo com quem muitos de nós privaram. Havia nele um óbvio rio subterrâneo de sombra e de funda angústia existencial que nenhuma solaridade demitia e muito menos apagava. Chego a pensar – e aqui coloco-me à beira do ultraje – que David foi, em muitos casos, bastante apreciado na proporção de não ter sido devidamente compreendido. Dizia Chamfort, um pensador aforista que David por certo admirou, que “muitos homens e mulheres gozam de estima popular, não porque são  conhecidos, mas sim porque são desconhecidos.”  A solaridade de David, o contentismo erótico de David têm sido pano para muita manga que lhe não assenta tão bem como se tem querido supor. Há no discurso criador do autor de In Memoriam Memoriae um indiscutível débito solar, mas trata-se de um sol, por isso mesmo que é sol, que exibe um perturbante teor de manchas ...solares. Toda a luz pressupõe treva e , como diz Eliot, na sua tragédia, Murder in the Cathedral, “a treva declara a glória da luz”. Muita da luz que o texto davidiano exibe é uma luz que a treva pressupõe e ostensivamente declara, quando é preciso. Assim como muita da treva que o seu texto faz explodir no nosso rosto é uma treva que a luz pressupõe e inequivocamente declara.
Neste mundo em que nada se perde ou ganha e tudo se transforma, até o inverno do nosso descontentamento, como dizia sibilinamente o Ricardo III de Shakespeare, se transforma em verão glorioso pela acção do sol de Iorque. Do mesmo modo que toda esta luz se despenhará no turvo e negro massacre que leva, primeiro, ao triunfo e ao poder, e depois, à derrota e à morte. Julieta, na peça do mesmo Shakespeare, é, como se sabe, o sol. E contudo...
Quando, no poema “Do tempo ao Coração”, nos diz:
 
“De milhões e milhões que rebentam com fome
Ao dom do caviar para abrir o apetite
Do canto gregoriano à música electrónica
Dos berros da oração ao silêncio de um grito
 
“De tanto a muito mais. De tudo a quase nada
Só não sei que tecido oscila entre os extremos
Se apenas o amor Se o vulto da amada
Se trevas Se uma luz Se o tempo em que vivemos,
 
David está a insinuar um desassossego entre luz e treva que, por muito outro lado, a sua obra revisita: “A lira é com certeza a mão esquerda de Orfeu / Mas é a mão direita que revolve o lodo”, diz um outro poema, intitulado, significativamente, “Ars Poetica”.  “Segredar num soneto a área do remorso” é o antepenúltimo verso do soneto “Interior” e peço licença para não ver aqui indícios ofuscantes da tal solaridade que tão frequentemente nos é sugerida. No centro do sol davidiano, explodem, de quando em quando, trevas como esta:
 
As noivas dos abetos vestiram-se de luto
As aias dos abutres caminhavam de rojo
Das trinta e nove amantes que me roubaram tudo
Trezentas e noventa desfizeram-se em lodo
 
Ou como esta:
 
Habita-me na sombra a luz de uma gaivota
Fulgura-te na luz a sombra de um espadarte
 
Textos que pedem a consagração de uma medalha, que podemos ir buscar ao melhor dos patronos, o Milton de Samson Agonistes:
 
“O dark, dark, dark, amid the blaze of noon”
(“Ó treva, treva, treva, no meio do fulgor do meio-dia”
 
É para esta treva que habita com força no fulgor do meio-dia do discurso poético e ficcional de David Mourão-Ferreira que eu hoje gostaria de chamar aqui – e de novo – a vossa atenção e a vossa devoção. “O próprio sol não passa de um simulacro e a luz é apenas a sombra de Deus”, dizia Sir Thomas Brown, oferecendo-nos esta óbvia epígrafe para a riqueza perturbada e perturbante que vivifica – com tónicos e venenos – o tecido sedutor, mas também intrigante, de todo o opus davidiano.”
Eugénio Lisboa

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Pôr a questão

Pôr a questão
por George Steiner
" As virtudes da democracia são teoricamente irrefutáveis. O próprio despotismo presta a sua homenagem hipócrita à palavra. Os seus méritos são os da existência de liberdades assentes na constituição , nas leis e no sufrágio. O exercício do poder é partilhado e limitado pela necessidade de uma aprovação baseada na participação.  Os ideais democráticos tornam possível não só o desenvolvimento das potencialidades individuais de cada um, mas ainda, nas sociedades materialmente bem equipadas , um progresso sem precedentes nos níveis de vida e na criatividade científica e tecnológica.  A dinâmica da mobilidade social, do investimento na educação e dos avanços da medicina constituem o " drama silencioso" - para evocar uma passagem das Leis de Platão - da democracia. Independentemente dos recuos parcelares, o elevador das oportunidades aumenta o nível de vida de geração para geração. Amanhã, por comparação com hoje,  a condição do homem comum será mais próspera , mais segura, mais contemplada por oportunidades de escolha.  «A felicidade é vivermos esta aurora», declarava  Wordsworth  quando a Revolução Francesa eclodiu. Quem negaria que persistem problemas graves? Que as realidades sociais ficam muitas vezes imensamente aquém da promessa democrática? Na própria  América, há milhões de pobres e são muitos os excluídos dos mecanismos  de protecção elementar na doença.  As eleições são  com demasiada frequência sombras espectrais.  Um terço do eleitorado disponível bastou para escolher um presidente norte-americano. A candidatura a cargos políticos requer um grau de riqueza escandaloso. A actividade política não se abre  senão a muitos poucos e, com demasiada frequência, aos que de entre eles são mais susceptíveis de corrupção. As anomalias sádicas multiplicam-se no interior do sistema legal: depois de passar mais de vinte anos no corredor da morte , um acusado cego e mutilado é vítima de uma execução solene. O igualitarismo pode, como já sustentei, reduzir a educação de massa a uma impostura. No interior das democracias parlamentares, tanto na Europa como nos Estados Unidos , as tensões e discriminações raciais revelam-se quase intratáveis. Todavia , no quadro do funcionamento democrático, estes males podem ser enfrentados, livremente criticados, potencialmente corrigidos. Nenhuma outra teoria ou prática política comporta intrinsecamente meios constitucionais  que promovam assim a transformação positiva. A escravatura foi abolida e, do mesmo modo, em muitas das nações democráticas, também o foi a pena capital. A democracia honra em termos incomparáveis as esperanças do homem. Só um imbecil o ignora ou não lhe atribui um valor fundamental. 
E no entanto. Talvez certas contradições entre a democracia e a excelência na vida do espírito  sejam de ordem intrínseca. A democracia, que se compromete com uma exigência maioritária, aclama o homem comum. Cujo Deus é, em boa parte do planeta, o futebol. O credo das Luzes, o « melhorismo»  do século XIX, que via no ensino de massa a via segura  do progresso  cultural,  revelaram-se  em boa parte  ilusórios.  A promoção  da justiça  social  recuou.  Até mesmo  sob o feroz  regime  estalinista , persistiram  o prestígio do  saber e de uma  cultura  quase talmúdica , a par da afirmação, por vezes brutal e traumática, da supremacia das ideias nos assuntos humanos.  Hoje, nas democracias de consumo  e de comunicação  de massa do Ocidente  e do mundo  em vias de desenvolvimento , deixou de ser possível  separar o liberalismo político e o governo representativo do capitalismo.  Houve esforços  ardentes na busca de uma «terceira via». Um capitalismo humanizado e socializado obteve triunfos esporádicos em certas regiões bucólicas como a Escandinávia e a Suíça. Mas nas democracias pluralistas maduras é o dinheiro que impera. No sentido neutro e próprio  do termo, as relações de poder são as de uma plutocracia mais ou menos dissimulada. O dinheiro exulta  na sua omnipotência grosseira. Introduz-se em todas as frestas da existência pública  e privada. O culto do futebolista , a idolatria da vedeta pop  e a ostentação do magnate  ecoam bem a sua riqueza desvairada.  Ao mesmo tempo,  o desprezo e a indiferença perante as paixões  e a criação intelectuais quando estas não são rentáveis condizem na perfeição  com a hierarquia financeira. O pintor é lavado a sério quando o clamor mediático atrinui à sua obra um valor monetário. 
(.. ) A coerção  que o Estado policial  exerce sobre o pensamento  e sobre as artes  é efectivamente aterradora. (...) A democracia , sob a sua versão populista  e tecnocrática , transformou-se no direito de fazer dinheiro  e sempre mais dinheiro para além de toda a necessidade racional  e de toda a dignidade  humana. Daí o desencanto muitas vezes  violento dos jovens e a atitude  de abstenção crescente  que adoptam  em relação ao exercício da cidadania. Lenine pelo menos sabia que o melhor uso que se podia dar ao ouro era fazer com ele assentos de sentina.
As minhas posições políticas são a defesa da intimidade e da obsessão intelectual. Atendem à imemorial  injunção que Dante pronuncia por meio da voz de Ulisses:« Não fomos feitos para viver  como brutos , come bruti, mas para seguir a virtude  e o conhecimento, onde quer  que nos levem , e seja qual for  o seu custo pessoal e social.». É possível  que semelhante convicção  seja,  sob certos aspectos , patológica  e autocomplacente. O pensamento  sem concessões , a absorção  na ciência  e na arte são, talvez cancros do espírito. Fazem da justiça social «uma justiça pequena. » Muitas vezes sentem-se como em sua casa nas trevas da nossa condição.  Ao mesmo tempo, parecem-me justificar o homem, engendrar  o que por vezes  o arranca ao inumano. Tudo o que espero de qualquer regime político é que ele conceda um espaço respirável para o que possa não ser utilitário ou colectivamente benéfico. E que respeite a dissidência,  ainda que em relação ao dinheiro. Espero que possa ser algum modo salvaguarda do tumulto a intimidade do «partido de um só». Que todas as portas possíveis se abram ao talento. No melhor dos casos, concebo-me  como um anarquista platónico.
Não é uma aposta rentável."
George Steiner, in Os livros que não escrevi, Gradiva Publicações, pp.280-285

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Falar futebol

 
Falar futebol
por Eugénio Lisboa
“Quando eu era rapaz, o futebol era sobretudo para se jogar. Íamos ver jogar e isso abria-nos o apetite de jogar também. Jogávamos mal, mas íamos aprendendo a jogar melhor. Como disse, tratava-se, acima de tudo, de jogar. Porém, o mundo é feito de mudança, como avisara o nosso grande bardo renascentista. Hoje, muito mais do que jogar futebol – e joga-se muito! – fala-se futebol. Por cada hora e meia de jogo, temos, garantidamente, alongadas dezenas de horas de falatório sobre o dito jogo, em todos os canais. Escalpeliza-se cada golo, cada não golo, cada falta cometida ou não cometida, o comportamento do treinador, do árbitro, a bola na trave, um canto desperdiçado, etc., como se não tivéssemos visto isso tudo, no desenrolar do jogo. Sobretudo, começo a suspeitar que nem é bem de jogar que se gosta de falar: perora-se gulosamente de “mercados”, de compras, de vendas, de transferências, de cotações, de coisas que parecem ter pouco que ver com jogar. Atingem-se mesmo altitudes proustianas, como foi o caso de se gastar quatro horas de falatório para se escrutinar, em profundidade, o significado metafísico do abraço de Sérgio Conceição a Pinto da Costa. Nem a célebre passagem relativa à “madeleine”, do romance de Proust, mereceu tanta glosa minuciosa. A literatura já deu o que tinha a dar. Agora é a vez do futebol, que exige os seus Sainte-Beuves, equipados até aos dentes, para roerem até ao osso cada precioso minuto do jogo a analisar. É a altura de se congeminar uma boa “teoria do futebol” que torne a leitura deste desporto unicamente acessível aos iniciados na nova CIÊNCIA. Que de mestrados e doutoramentos a haver! Dentro de pouco tempo, só poderá ser comentador de futebol quem tenha preparação científica, ao nível de mestrado ou doutoramento. Será o fim dos amadores e dos impressionistas. Acontecerá aqui o que já tinha acontecido na literatura: a história repete-se.”
Eugénio Lisboa, 22.02.2024

Majestic Africa

Ah, ouvidos e olhos cansados de desolação
e de europas sem mistério
provai  a incógnita saborosa
deste fruto verde ,
destes espaços  frondosos ou abertos,
destes rios antigos de África nova,
correndo em seu ventre ubérrimo
e luxuriante.
Rios, seiva, sangue ebuliente,
veias, artérias vivificadas
dessa viagem morena e impaciente
minha terra, nossa Mãe.
Rui Knopfli, in Antologia Poética,Editora ufmg,2010, p.41

Majestic Africa , Enduring Hope por  Daniel Deuschle

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Fernanda Melchor vence Prémio Literário Casino da Póvoa


"21 Fevereiro, 2024
O livro Temporada de Furacões, da escritora mexicana Fernanda Melchor, é o grande vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros.
O júri constituído por Ana Gabriela Macedo, Carlos Vaz Marques, Isabel Lucas, Isabel Pires de Lima e José Mário Silva destacou a “escrita torrencial marcada pela coloquialidade” e a “narrativa polifónica que exacerba a existência de personagens, elas próprias restos na periferia da periferia”.
Trata-se de uma obra que caracteriza o “lado mais sombrio da natureza humana, numa comunidade dominada pela violência mais extrema e pela luta entre cartéis de droga”. Tudo isto, segundo o júri, conduz o leitor por uma “experiência de vertigem, isenta de qualquer tentação moralista”.
Nascida em 1982, em Veracruz, no México, Fernanda Melchor é autora de um volume de contos e de três romances, que lhe granjearam o reconhecimento da crítica internacional e um lugar de destaque na atual literatura sul-americana e internacional.
Acompanhe todas as notícias relativas ao Correntes d’Escritas aqui e consulte o programa completo aqui. A entrada é livre."CMPV

As vantagens de inventar

 
As vantagens de inventar
(Sátira para uso de quem quiser)
 
Dizia Almada que os humanos,
cansados de se chatear na terra,
ao longo de muitos milhões de anos
e tendo já chegado ao finisterra,
 
inventaram então o submarino,
para se poderem ir chatear,
dentro desse brinquedo bizantino,
não na terra, mas no fundo do mar.
 
Cada um chateia-se como pode,
se chatear-se é tudo que resta.
Se, para viver, nada mais acode
 
chateemo-nos , nesta nossa gesta,
inventando brinquedos e berloques,
que nos façam titilações e choques.
                         21.02.2024
Eugénio Lisboa

O Enigma da Poesia

 
O Enigma da Poesia
por Jorge Luis Borges
“Ao começar, gostaria de vos advertir quanto ao que há a esperar — ou melhor, a não esperar — de mim. Vejo que cometi um deslize logo no título da minha primeira palestra. O título é, se não estamos em erro, «O Enigma da Poesia» e o sublinhado vai, evidentemente, para a primeira palavra, «enigma». Portanto, podem pensar que o enigma é que é importante. Ou, o que seria ainda pior, podem pensar que eu criei a ilusão de ter de algum modo descoberto a verdadeira solução do enigma. A verdade é que não tenho revelações a oferecer. Passei a minha vida a ler, a analisar, a escrever (ou a tentar escrever) e a divertir‑me. Acho que esta última coisa é a mais importante. «Bebendo» poesia cheguei a uma conclusão final sobre ela. Na verdade, sempre que se me depara uma página em branco sinto que tenho de redescobrir a literatura por mim. Mas o passado não me vale de nada. Portanto, como disse, tenho apenas as minhas perplexidades para vos oferecer. Aproximo‑me dos setenta anos. Dediquei a maior parte da minha vida à literatura e só dúvidas posso oferecer‑vos. O grande escritor e sonhador inglês Thomas de Quincey escreveu — em alguma dos milhares de páginas dos seus catorze volumes — que descobrir um problema novo é de facto tão importante como descobrir a solução para um problema velho. Isso, porém, não posso eu oferecer‑vos: só posso oferecer‑vos perplexidades de longa data. Mas, para que hei de preocupar‑me com isto? O que é a história da filosofia, senão uma história das perplexidades dos Hindus, dos Chineses, dos Gregos, dos Escolásticos, do bispo Berkeley, de Hume, de Schopenhauer, e por aí fora? Pretendo apenas partilhar convosco estas perplexidades. Todas as vezes que mergulhei em livros de estética tive a sensação desconfortável de ter estado a ler livros de astrónomos que nunca olharam para as estrelas. O que quero dizer é que escrevem sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa e não o que realmente é: uma paixão e uma alegria. Por exemplo, li com grande respeito o livro de Benedetto Croce sobre estética e foi‑me dada a definição de que a poesia e a linguagem são uma «expressão». Ora, se pensarmos na expressão de alguma coisa, vamos cair no velho problema da forma e da matéria; e se pensarmos na expressão de nenhuma coisa em particular, não dá realmente nada. Portanto, recebemos essa definição com todo o respeito e a seguir voltamo‑nos para outra coisa. Voltamos à poesia; voltamos à vida. E a vida é, tenho a certeza, feita de poesia. A poesia não nos é alheia — a poesia espreita, como veremos, a cada esquina. Pode saltar‑nos em cima a qualquer momento. Agora estamos prontos para cair numa confusão vulgar. Pensamos, por exemplo, que, se estudarmos Homero, ou a Divina Comédia, ou Frei Luis de León, ou Macbeth, estamos a estudar poesia. Mas os livros são apenas ocasiões para a poesia. Acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. E esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas. Por falar no bispo Berkeley (o qual, deixem‑me recordar‑ vos, foi um profeta da grandeza da América), lembro‑me de que ele escreveu que o sabor da maçã não está na própria maçã — a maçã não se saboreia a si própria — nem na boca de quem a come. Requer um contacto entre as duas. O mesmo sucede a um livro ou a uma colecção de livros, a uma biblioteca. Na verdade, o que é um livro em si? Um livro é um objeto físico num mundo de objetos físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo, e as palavras — ou melhor, a poesia por trás das palavras, pois as palavras em si são meros símbolos — saltam para a vida e temos uma ressurreição da palavra. Recordo agora um poema que todos conhecem de cor; mas talvez nunca tenham reparado como é estranho. Porque as coisas perfeitas em poesia não parecem estranhas; parecem inevitáveis. E por isso não chegamos a agradecer ao poeta o seu esforço. Estou a pensar num soneto escrito há mais de cem anos por um jovem em Londres (em Hampstead, creio), um jovem que morreu de doença dos pulmões, John Keats, e no seu famoso e talvez banalizado soneto «Ao primeiro olhar sobre o Homero de Chapman». O que este poema tem de estranho — e só pensei nisto há três ou quatro dias, quando estava a refletir sobre esta palestra — é o facto de ser um poema escrito sobre a própria experiência poética. Conhecem‑no de cor, no entanto gostaria que ouvissem uma vez mais o impulso e o estrondo dos seus versos finais:
 
Then I felt like some watcher of the skies
 When a new planet swims into his ken:
Or like stout Cortez when with eagle eyes
 He stared at the Pacific — and all his men
 look’d at each other with a wild surmise-
 Silent, upon a peak in Darien.
 
 [Sinto‑me um observador dos céus
 Quando um novo planeta entra no seu campo;
Ou o audaz Cortez mirando com olhos de águia
 O Pacífico — e todos os seus homens
 se entreolhando com tremendo espanto —
 Em silêncio, num cume de Darien.]
 
Temos aqui a experiência poética em si. Temos George Chapman, o amigo e rival de Shakespeare, morto e subitamente regressado à vida quando John Keats leu a sua Ilíada ou a sua Odisseia. Creio que era em George Chapman (mas não posso ter a certeza, pois não sou um shakespeariano) que Shakespeare pensava quando escreveu: «Foi a orgulhosa vela enfunada do seu grande poema / A ti, ao mais que precioso, por prémio destinada …?»
Há uma palavra que me parece muito importante: «Ao primeiro olhar sobre o Homero de Chapman.» Este «primeiro» pode, creio, revelar‑se‑nos muito útil. Ao mesmo tempo que revia estes poderosos versos de Keats ia pensando que talvez estivesse apenas a ser fiel à minha memória. Talvez a real emoção que tirei dos versos de Keats permaneça nesse momento distante da minha infância, em Buenos Aires, quando pela primeira vez ouvi o meu pai lê‑los em voz alta. E quando o facto de a poesia, a linguagem, não ser apenas um meio de comunicação, mas poder ser também paixão e alegria — quando isto me foi revelado, não creio ter compreendido as palavras, mas senti que qualquer coisa me acontecia. Acontecia não apenas à minha inteligência, mas a todo o meu ser, à minha carne e ao meu sangue.
 Voltando às palavras «Ao primeiro olhar sobre o Homero de Chapman», não sei se John Keats sentiu essa emoção depois de ter percorrido os muitos capítulos da Ilíada e da Odisseia. Penso que a primeira leitura de um poema é uma leitura verdadeira e que depois nos iludimos na crença de que a sensação, a impressão se repete. Mas, como ia dizendo, pode ser mera lealdade, uma mera partida pregada pela memória, uma mera confusão entre a paixão e a paixão que outrora sentimos. Por isso podemos dizer que a poesia é uma experiência nova a cada vez. De cada vez que leio um poema, sucede a experiência. E isso é poesia.
Li uma vez que o pintor americano Whistler estava num café em Paris e as pessoas discutiam a maneira como hereditariedade, ambiente, estado político dos tempos, etc. influenciam o artista. Então Whistler disse: «A arte acontece.» Ou seja, há algo de misterioso na arte. Gostaria de dar às suas palavras um novo sentido. Direi: A arte acontece de cada vez que lemos um poema. Ora isto parece afastar a noção já antiga dos clássicos, a ideia dos livros eternos, de livros onde podemos sempre encontrar beleza. Mas espero estar enganado. Talvez deva traçar um breve panorama da história dos livros. Tanto quanto me lembro, os Gregos não viam grande utilidade nos livros. Na verdade, é facto que a maior parte dos grandes mestres da humanidade não foram escritores, mas oradores. Pensem em Pitágoras, Cristo, Sócrates, no Buda e por aí fora. E já que falei de Sócrates, gostaria de dizer alguma coisa sobre Platão. Lembro‑me de que Bernard Shaw dizia que Platão foi o dramaturgo que inventou Sócrates, até que os quatro evangelistas foram os dramaturgos que inventaram Jesus. Talvez seja ir demasiado longe, mas há nisto alguma verdade. Num dos diálogos, Platão fala de livros num tom algo depreciativo: «O que é um livro? Um livro, tal como um quadro, parece um ser vivo; e, contudo, se lhe perguntarmos alguma coisa, não responde. Vemos então que está morto.»  Para tornar o livro uma coisa viva, inventou — felizmente para nós — o diálogo platónico, que enuncia as dúvidas e perguntas do leitor. Mas poderíamos também dizer que Platão tinha saudades de Sócrates. Depois da morte de Sócrates, diria para consigo: «Ora, que teria dito Sócrates a esta particular dúvida minha?» E então, para ouvir uma vez mais a voz do mestre que amava, escreveu os diálogos. Em alguns destes diálogos, Sócrates defende a verdade. Em outros, Platão dramatizou os seus humores variáveis. E alguns desses diálogos não chegam a qualquer conclusão, porque Platão ia pensando à medida que escrevia: não sabia qual seria a última página ao escrever a primeira. Deixava o seu espírito vaguear e teatralizava esse espírito em muitas pessoas. Suponho que o seu principal objetivo seria a ilusão de que, a despeito de ter bebido a cicuta, Sócrates continuava junto dele.”
Jorge Luís Borges, in Este Ofício de Poeta, Relógio D’Água Editores, pp.9-13