sexta-feira, 30 de setembro de 2022

FALAR DE RÉGIO

José Régio

Falo hoje, no Grémio Literário,
do escritor que não ia por ali:
dos seus livros, do seu itinerário,
dos mundos que nele procurei e vi.
 
Era um ser só, mas cheio de gente,
Inteligente e muito inquisitivo.
Focava uma luz não complacente,
em abismos de que era cativo.
 
Não oferecia aos homens certezas,
antes era amigo de perguntar.
Havia nas perguntas agudezas
 
capazes de nos desassossegar.
A sua pátria era a inquietação,
a sensibilidade, o seu brasão.
                              30.09.2022
Eugénio Lisboa

O País perdeu a inteligência e a consciência moral


                O riso é a mais antiga e mais terrível forma de crítica.
                                  Eça de Queirós

A Única Crítica é a Gargalhada
por Eça de Queirós
"Nós bem o sabemos: a gargalhada nem é um raciocínio, nem um sentimento; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma. E no entanto é o único comentário do mundo político em Portugal. Um Governo decreta? gargalhada. Reprime? gargalhada. Cai? gargalhada. E sempre esta política, liberal ou opressiva, terá em redor dela, sobre ela, envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, e cruel – a gargalhada! Política querida, sê o que quiseres, toma todas as atitudes, pensa, ensina, discute, oprime – nós riremos. A tua atmosfera é de chalaça.
(...) O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia.
Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha, A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro...(...)
Eça de Queiroz, in "Uma Campanha Alegre" de "As Farpas- 1º volume " , Lello & Irmão Editores, Porto, 1965

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Era um poema dedicado à minha mãe...

Pablo Neruda

O Meu Primeiro Poema
por Pablo Neruda
"Têm-me perguntado muitas vezes quando escrevi o primeiro poema, quando nasceu a minha poesia. Tentarei recordá-lo. Muito para trás, na minha infância, mal sabendo ainda escrever, senti uma vez uma intensa comoção e rabisquei umas quantas palavras semi-rimadas, mas estranhas para mim, diferentes da linguagem quotidiana. Passei-as a limpo num papel, dominado por uma ansiedade profunda, um sentimento até então desconhecido, misto de angústia e de tristeza. Era um poema dedicado à minha mãe, ou seja, àquela que conheci como tal, a angélica madrasta cuja sombra suave me protegeu toda a infância. Completamente incapaz de julgar a minha primeira produção, levei-a aos meus pais. Eles estavam na sala de jantar, afundados numa daquelas conversas em voz baixa que dividem mais que um rio o mundo das crianças e o dos adultos. Estendi-lhes o papel com as linhas, tremente ainda da primeira visita da inspiração. O meu pai, distraidamente, tomou-o nas mãos, leu-o distraidamente, devolveu-mo distraidamente, dizendo-me:
— Donde o copiaste?
E continuou a falar em voz baixa com a minha mãe dos seus importantes e remotos assuntos. Julgo recordar que nasceu assim o meu primeiro poema e que assim tive a primeira amostra distraída de crítica literária.
Entretanto, progredia no mundo do conhecimento, no desordenado rio dos livros, como um navegante solitário. A minha avidez de leitura não se saciava, nem de dia nem de noite. Na costa, no pequeno Puerto Saavedra, topei uma biblioteca municipal e um velho poeta, Augusto Winter, que se admirava com a minha voracidade literária. «Já os leu?», inquiria, passando-me um novo Vargas Vila, um Ibsen, um Rocambole. Como uma avestruz, eu engolia tudo sem discriminações.
Por aquela época, chegou a Temuco uma senhora alta, com vestidos bastante largos e sapatos de tacão raso. Era a nova directora do liceu feminino. Vinha da nossa cidade  austral, das neves de Magallanes. Chamava-se Gabriela Mistral.
Eu vi-a passar pelas ruas  da minha povoação com as vestes talares e tinha medo dela. Mas, quando me levaram a visitá-la, achei-a simpática. No seu rosto moreno, em que o sangue índio predominava como numa bela cântara araucana, os dentes branquíssimos despontavam num sorriso  largo e generoso que iluminava o aposento.
Eu era demasiado novo para ser seu amigo, era muito  tímido e calado . Vi-a poucas vezes - o suficiente para sair de cada vez com a oferta de alguns livros.  Eram sempre romances russos, tidos  por ela como a coisa mais extraordinária  da literatura mundial. Posso afirmar que foi Gabriela quem me lançou nessa série e terrível visão dos romancistas russos e que Tolstoi , Dostoievski, Tchekov, entraram desde ai  na minha mais profunda predilecção. E continuam a acompanhar-me. "
Pablo Neruda, in  Confesso que vivi, Memórias, Publicações Europa-América,1975,  pp. 23, 24.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Visão e coragem

Visão e coragem
por Mário Soares 
"Desde o J’Accuse de Émile Zola que se discute a importância dos escritores na política, como mestres do pensamento e acção. No passado século, entre as duas grandes guerras, alguns escritores franceses – mas não só, alemães, ingleses, americanos, sul-americanos – apresentaram-se como “maîtres à penser” e tinham uma enorme influência nas escolhas políticas dos eleitores. Romain Rolland, o autor do “Jean Christophe” e de “L’Âme Enchantée”, pacifista e ”compagnon de route“ dos comunistas, foi dos escritores com mais influência política, tendo sido lido por toda a Europa, com paixão. Em Portugal pela geração de Bento de Jesus Caraça. Como Roger Martin du Gard, o célebre autor de “Les Thibault” – uma gesta do socialismo e do pacifismo nos seus primeiros tempos – e de um livro anti-clerical, que tanto me marcou, “O drama de Jean Barois”. Na guerra civil espanhola, que provocou uma crise de consciência na Europa, os espanhóis dividiram-se, irremediavelmente, entre anti-fascistas e pró-fascistas. Os primeiros muito mais densos, como escritores e artistas, e mais numerosos ou foram mortos na guerra, como Garcia Llorca, ou se exilaram como: Ortega y Gasset, Unamuno, que morreu sequestrado em Salamanca, Salvador de Madariaga e Dionísio Ridruejo, que conheci pessoalmente no exílio em Londres e em Paris, Cláudio Sánchez Albornoz, que chegou a ser embaixador da República em Lisboa, e Américo de Castro, os quais morreram exilados na Argentina e no México, salvo erro, ou Pablo Picasso, o genial pintor que chegou a ser director do Museu do Prado, durante a República e que se exilou em Paris. Mas não foram só os escritores espanhóis que tomaram partido nessa guerra cruenta e heróica, que preparou a segunda guerra mundial. Foram grandes escritores como Orwell, Artur Koestler, André Malraux, autor desse livro inconfundível “L’Espoir”, o americano Hemingway, de “Por quem os sinos dobram”, ou, para dar só um nome de um grande português: Jaime Cortesão, escritor, historiador e poeta. Os escritores russos na primeira fase da revolução foram extraordinários: como Massim Gorky, autor da “Mãe”. Mas após o estalinismo – e o exílio de Trotsky, ele próprio um extraordinário escritor – todos se tornaram escritores conformistas. Não sei como um escritor russo e judeu, protegido por Estaline, Illya Ehrenbourg, escreveu um livro apaixonante sobre a “Queda de Paris”... Vem isto a propósito do recente falecimento do grande escritor russo Alexander Isaevich Soljenitsin, prémio Nobel da Literatura, autor do “Arquipélago Goulag”, que teve que se exilar para o Ocidente, regressando à Rússia só em 1994. Soljenitsin foi um homem de extrema coragem que recusou sempre mentir. O que numa sociedade baseada na mentira era particularmente difícil. Foi quem, com a publicação em França do “Arquipélago Goulag” revelou no Ocidente o horror dos campos de concentração soviéticos, semelhantes aos nazis. Quando o fez já tinha ganho o prémio Nobel da Literatura e tinha outras obras como: “O Pavilhão dos Cancerosos” e talvez a sua obra-prima “Um dia na vida d’Ivan Denisovich”.  Foi na época em que era Secretário-Geral do PCUS, Nikita Kruschov – que teve a coragem de apresentar o célebre relatório ao XX Congresso, que denunciou a tirania de Estaline e do sistema – que Soljenitsin foi autorizado a publicar o seu livro. Mas com a época de Brejenev foi expulso da URSS e passou a dissidente, vilipendiado por todos os partidos comunistas do mundo. Lembro-me bem dessa fase, a seguir à Revolução dos Cravos, e como os comunistas portugueses nos injuriavam por defendermos Soljenitsin. Como mais tarde sucederia com Sakharov... Exilou-se no Ocidente, onde continuou a escrever a sua obra. Tranquilamente. Mas não se deixou convencer pelas “delícias” consumistas do Ocidente decadente. Regressou à sua Rússia, com Gorbachev. Era um herói da guerra, contra os nazis, mas isso não o impediu de ter estado preso num campo de concentração vários anos. Tinha, ao que parece, simpatia por Putin por ter restituído à Rússia um lugar de grande potência, que incontestavelmente é. A sua editora francesa (Fayard) vai publicar no corrente mês de Agosto um livro de Daniel J. Mahoney sobre as ideias do grande escritor. Será um livro importante. Ninguém mais do que Soljenitsin – a Hanna Arendt – mostraram a identidade dos totalitarismos, nazi e soviético. "
                Vau, 20 de Agosto de 2008
Mário Soares, in Textos Mário Soares, Arquivo & Biblioteca Fundação Mário Soares  
 
Pergunta de Livres Pensantes: Será que, para Alexander Isaevich Soljenitsin,  o sentido de restituição de grande potência à Rússia poderia albergar a presente insana e cruel guerra  de Putin contra a Ucrânia ou  eliminaria , de imediato, qualquer simpatia havida para com ele?

Outros Duetos que fizeram Sucesso


 

Eu ouço música
como um anjo doente
que não pode voar.
    Mario Quintana  

Andrea Bocelli, Kat McPhee, Celine Dion, Josh Groban & more, em SMILE.

   
Dua Lipa Pablo Alborán , em Homesick (Los 40 Music Awards - Directo).
 
Lady Gaga e Bradley Cooper , em  Shallow (From A Star Is Born/Live From The Oscars)
   
Andrea Bocelli, Ariana Grande , em  E Più Ti Penso
 
Sarah McLachlan / Josh Groban, em Angel (Live 2005).
   
Christina Aguilera, em A Great Big World - Fall On Me.
 
Luísa Sobral e Salvador Sobral, em  Só Um Beijo | Eléctrico | Antena 3.
  
Faouzia & John Legend , em Minefields (Official Music Video).
    

terça-feira, 27 de setembro de 2022

REINALDO FERREIRA (PASSAGEM DE CENTENÁRIO)

Reinaldo Ferreira

REINALDO FERREIRA
(PASSAGEM DE CENTENÁRIO)
 
No talento e também na bondade,
foste grande, e, até no desleixo,
grande vulnerabilidade,
ofereceste à tua vida um eixo:
 
frágil mas, em todo o caso, esbelto,
que, de ti, deixou belo testemunho.
Queimaste talento em pífio suelto,
perdido em trópicos de redemunho!
 
Puliste versos de lirismo denso,
bebendo veneno em cabarés.
Viveste, alienado e intenso,
 
em terra de humidade e jacarés.
Foste grande, apesar de tudo,
tornando abismos motivo de estudo!
                                 27.09.2022
Eugénio Lisboa
 
Reinaldo Ferreira, filho do notório Repórter X, nasceu em Barcelona, em 1922 (faz agora cem anos) e morreu em Lourenço Marques (hoje, Maputo), em 1959, com 37 anos. Um dos grandes líricos da poesia portuguesa, logo reconhecido, em Portugal, por grandes fabros da linguagem poética, como José Régio e David Mourão-Ferreira e também  logo festejado no Brasil, Reinaldo Ferreira não deve ser esquecido neste ano do centenário do seu nascimento. Não ficava nada mal à Universidade portuguesa, sublinhar condignamente esta efeméride. Pôr os ovos todos no cestinho saramaguiano parece-me injusto e completamente inaceitável. Que diabo, um lírico desta dimensão e desta luminosidade de linguagem não aparece todos os dias nem todas as semanas nem todas as décadas nem todos os cinquenta anos. Há que assinalá-lo, quando isso acontece. Poetas de Portugal e de Moçambique, saiam do vosso casulo e da vossa autopromoção e abram a bolsa da vossa generosidade, dando alguma atenção a este grande poeta que pertence aos dois países.
E. L. 

O Reino da Estupidez

O diálogo com a estupidez
estraga a vida e corrói a alma.
Mesmo um estúpido de cada vez,
à doce paciência, leva a palma.

A estupidez é um muro de betão,
que fica diante de nós, teimoso:
não há argumento ou empurrão,
que mova um imbecil meticuloso.

O estúpido não sabe argumentar,
porque isso fica além das suas posses:
por isso, mais não faz do que alinhar

patetices, como se fossem doces.
A estupidez consome tempo e espaço
e, ao saber, prefere o estardalhaço!
                                   15.08.2022
Eugénio Lisboa

Cuántos amigos podemos tener a la vez?


Cuántos amigos podemos tener a la vez? ¿Cuántos perdemos a lo largo de los años? Estos son los números de la amistad
Diferentes estudios tratan de poner cifras al misterio de la amistad humana
Karelia Vázquez, EL País

"Dicen que los amigos se cuentan con los dedos de una mano. Sea cierta o no esta premisa, la ciencia parece obsesionada con hacer números con la amistad, medir su duración e intensidad y buscar una explicación a su tendencia menguante a lo largo de la vida. Estos son algunos de los números claves de la amistad.
150 conexiones
Quizás sea la cifra más conocida. La llaman número Dunbar, y es, según los cálculos del psicólogo y antropólogo de la Universidad de Oxford Robin Dunbar, la cantidad de relaciones “estables y significativas” que podemos mantener al mismo tiempo. 150 conexiones, e incluye a la familia y los amigos. El número fue publicado en un artículo de la revista Behavioural and Brain Sciences en 1993. Los estudios de Dunbar sostienen que las personas provenientes de familias numerosas tienen menos amigos porque dan prioridad a los miembros de su familia. La teoría del psicólogo evolucionista de la Universidad de Oxford organiza estas 150 conexiones en círculos concéntricos marcados por las diferencias cualitativas de las relaciones. Por ejemplo, limita el círculo de amigos cercanos a cinco, y el de íntimos a entre una y dos personas, esta cifra incluye a la pareja. El número es una aproximación, y las conexiones pueden variar entre 100 y 250. Pueden sonarnos familiares hasta 1.500 nombres y pueden parecernos conocidas hasta 5.000 caras. El número Dunbar ha sido puesto en cuestión por otros estudios, entre ellos uno dirigido por el profesor de la Universidad de Estocolmo Johan Lind, que sostiene que no hay límite numérico en las relaciones humanas.

Los pilares de la amistad
Un estudio de 2016 fija en seis o más los amigos necesarios para que nuestra vida sea un poco mejor. Otro de 2020, desarrollado por Suzanne Degges-White, profesora de la Northern Illinois University, asegura que las mujeres de mediana edad solo necesitan tener tres o más amigos para elevar sus niveles de satisfacción general.
7 factores determinan que un conocido acabe convirtiéndose en un amigo. En su último libro Friends: Understanding the Power of Our Most Important Relationships, Robin Dunbar fija en siete los pilares de la amistad. Entre estos factores está que la persona elegida se parezca mucho a uno, con un sentido del humor similar que les permita reírse de las mismas cosas. Los otros son hablar la misma lengua o dialecto, crecer en el mismo lugar, tener una trayectoria educativa similar, tener los mismos hobbies e intereses, compartir la misma visión de la moral, religión o política, y tener gustos musicales parecidos.
6 fuerzas alimentan la amistad, según los resultados de la investigación Friendships files, una serie de entrevistas de la periodista Julie Beck publicada en The Atlantic. A saber: la acumulación (número de horas pasadas juntos en espacios comunes como la escuela, el trabajo, la iglesia, o practicando algún deporte o afición); la atención para no dejar pasar a quienes podrían convertirse en grandes amigos; la intención para tomar la iniciativa.; los rituales para mantenerse haciendo cosas juntos, como cenas regulares, un club de lectura, jugar un partido de futbol los domingos, o incluso mantener vivo un grupo de WhatsApp; la imaginación que impida limitar la amistad a terrenos socialmente permitidos (Beck entrevistó a amigos que compartían una hipoteca, iban juntos a terapia, o educaban a medias al hijo de uno de ellos). Y la última fuerza es algo que Julie Beck llama grace, pero que aquí llamaremos cintura o flexibilidad para perdonar algunas cosas y seguir adelante.
2 son los amigos que se pierden cuando te enamoras. Dunbar pone ese precio al cambio de intereses y de círculo social que genera el ensimismamiento en una sola persona y el deseo de compartir todo tu tiempo con ella. Dunbar lo llama efecto dominó y lo explica así en su libro. “Cuando conoces a alguien, te enamoras y te casas estás invirtiendo mucho tiempo y energía mental en una relación, y según nuestros datos, lo haces a costa de sacrificar a dos personas. Con el nuevo favorito ya serían seis en el círculo de los amigos íntimos y uno tendría que salir. Pero como esta nueva relación consume el equivalente de la energía dedicada a dos amigos, son dos las personas que salen expulsadas al siguiente círculo concéntrico de las relaciones”.
200 horas es el tiempo que hay que invertir para que un conocido termine siendo un amigo. Un estudio del genetista y cronobiólogo Jeffrey Hall considera crucial para la amistad el tiempo que las personas pasan juntas. Unos datos que coinciden con los cálculos de Dunbar que advierte de que los amigos cercanos son caros en términos de inversión de tiempo. Unas horas que los investigadores consideran orientativas (que nadie se ponga a contar los minutos que pasa con sus amigos), pero el mensaje general es que la amistad requiere esfuerzo y trabajo. Otro estudio habla de una inversión de entre 40 y 100 horas para que un extraño acabe entrando al círculo de los amigos más cercanos.
15 cigarrillos diarios es la cifra que da un conocido y muy citado metanálisis de 2010 dirigido por la profesora Julianne Holt-Lunstad de la Brigham Young University en Utah que midió la implicación que tiene para la salud la falta de amigos y el aislamiento. Su conclusión es que la soledad tiene un impacto sobre la salud equivalente al de fumar 15 cigarrillos al día.
40 razones encontraron los autores de este estudio para explicar por qué cuesta tanto hacer amigos en la edad adulta. Las razones se dividieron en tres grupos que los autores llamaron: Desconfianza, Falta de Tiempo, e Introversión. Se encontraron diferencias significativas por sexo, pues las mujeres se mostraron más desconfiadas que los hombres a la hora de hacer nuevos amigos. Estas razones parecen explicar que a veces la vida social se intente reconstruir intentando recuperar relaciones de otras épocas. Lo que se llama tirar de agenda.
1,5: Si tienes una vida larga acabarás con uno o dos amigos en tu círculo más cercano (1,5 dicen los cálculos de Dunbar), el resto se quedará en el camino. Con los años la vida social suele reducirse y los círculos concéntricos de relaciones más débiles o casuales se evaporan. Los conocidos que se sitúan en la periferia de nuestra vida social son más importantes para nosotros de lo que solemos pensar. Es esa red que te proporciona un descanso de la intensidad de las relaciones más cercanas, las conexiones ligeras que nos informan, nos hacen reír y nos ponen en el mundo. El sociólogo estadounidense Mark S. Granovette lo contó en el ensayo La fuerza de los lazos débiles, donde demostró que muchas personas encontraban trabajo gracias a esas conexiones superficiales. Esos amigos periféricos fueron justo los que se perdieron durante la pandemia y también los que van desapareciendo a lo largo de la vida. Perder o ganar amigos depende de circunstancias vitales como las mudanzas, los cambios de colegio, o la emigración a otro país. Dunbar cree que el número de amigos se estabiliza en torno a los 30 años, cuando vuelve a caer si llegan los hijos que son, según el antropólogo, los killers de la vida social.

¿Cuentan los amigos virtuales?
Esta investigación que utiliza datos de una gran encuesta canadiense se hizo esa misma pregunta. Es decir, si los amigos online tienen los mismos beneficios para nuestra salud que los amigos llamémosles analógicos. El estudio confirmó una vez más la importancia de los amigos reales en la sensación de bienestar, pero no puedo establecer una equivalencia con las conexiones online. Este trabajo muestra que los solteros que salen con alguien son significativamente más felices que los que no, y que el valor de los amigos es mayor para los que no están casados que para los que sí lo están o viven en pareja. De lo que se deduce que los cónyuges brindan beneficios similares a los amigos.

Los “amigos” que no sientan bien
Otro trabajo analiza el impacto en la salud cardiovascular de las relaciones tóxicas encubiertas, esos amigos ambivalentes, hipercríticos y competitivos. En sus experimentos, los participantes mostraban mayores cifras de tensión arterial diastólica y una frecuencia cardiaca más alta en reposo cuando discutían con un amigo de este tipo que cuando lo hacían con un amigo más comprensivo y de más confianza. Los autores concluyeron que las personas no se relajan completamente en presencia de amigos “ambivalentes”, y advierte de que no son útiles para ayudar en una situación de estrés."
Karelia VázquezEL PAÍS Salud y Bienestar  , 24.09.2022

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

ELOGIO DO DISPARATE PROFUNDO

Se o sol se movesse e a terra não,
as leis do universo iam ao chão,
mas a um místico doido e sabichão,
só o contrassenso lhe dá tesão.
 
Há quem ache profundo o disparate,
melhor até com molho de tomate!
Feito à medida, por alfaiate,
o disparate sabe a chocolate.
 
Um bom disparate tem grande venda,
porque, bem servido, ele desvenda
profundidades que nem de encomenda!
 
Embrulhe-se, muito bem embrulhado,
um disparate bem condimentado
e sirva-se em dia bem aprazado!
                                       26.09.2022
Eugénio Lisboa
 

domingo, 25 de setembro de 2022

O GRANDE ORÁCULO

 
 
Ele ouvia vozes que mais ninguém
ouvia. Eram vozes de além,
que perturbavam o seu doce harém
e não deixavam que dormisse bem.
 
Ele escrevia os segredos que ouvia,
em livros duros que ao mundo servia.
Por todo o mundo ele distribuía
o que uma pitonisa lhe dizia!
 
Aquilo era obscuro e sem sentido,
sendo, porém, por todos pressentido
que havia ali segredo escondido.
 
A obscuridade do que dizia,
por ser obscura, é que seduzia
a muita gente que a ele afluía.
                             25.09.2022
Eugénio Lisboa

Uma colheita na seara de Bertrand Russell

Bertrand Russell

Uma colheita na seara de Bertrand Russell
a bem da saúde mental
por Eugénio Lisboa
“Tem havido alguma reacção civilizada, mas visivelmente incomodada, às impertinências brincalhonas que publiquei, a propósito de uma entrevista dada por Gonçalo M. Tavares ao JL. Queria no entanto esclarecer que o facto de usar um tom brincalhão não significa que não estivesse a visar um objectivo muito sério.
A verdade é que grassa pelo nosso milieu cultural uma vaga de irracionalismo, que vê génio em tudo o que é obscuro e vagamente misterioso e oracular. Um exemplo desse “génio” que fabrica apocalipses portentosos, usando frequentemente um português trôpego e macarrónico, como quem bebe copos de água, é o escritor Gonçalo M. Tavares, louvado, galardoado, traduzido (à custa de generosos subsídios), canonizado por tudo quanto é poder literário. O aplauso frenético e altamente abrangente que lhe é dado indicia um elevado grau de iliteracia funcional, em grande parte atribuível ao nosso sistema educativo, que tem patrocinado os projectos e filosofias mais delirantes. Sim, é sempre uma educação deficiente que explica estas vagas de obscurantismo sebastianista. A este respeito, apetece-me abonar-me na mente sempre cristalina e destemida de Bertrand Russell: “Deparamos com o facto paradoxal de que a educação se tornou um dos principais obstáculos à inteligência e à liberdade de pensamento.”
Foi-me um dia argumentado que a minha falta de entusiasmo pela obra do oráculo GMT era uma de dissidência em um milhão de aclamadores. Como se isto fosse resposta com algum sustento filosófico. A certa altura da história da humanidade, quase toda a gente tinha a certeza de que a Terra era plana, que o Sol girava à volta da Terra e que os antípodas andavam de cabeça para baixo. E, no entanto, tudo isto era falso. Como observava Russell (sempre ele!), “o facto de que uma opinião tem sido largamente partilhada não evidencia de maneira nenhuma que não seja completamente absurda”.
Em suma, o meu objectivo é solicitar que olhem para estas coisas com um mínimo de apetite crítico e se não deixem arrastar por um entusiasmo que pode ser da ordem das coisas mórbidas.
Para vos pôr em boa onda, deixo-vos aqui algumas pérolas colhidas na farta e lúcida seara de Bertrand Russell:
 
Do not fear to be eccentric in opinion; every opinion now accepted was once eccentric.

Many people would sooner die than think; in fact they do so.
 
It has been said that man is a rational animal. All my life I have been searching for evidence that would support that.
 
One of the symptoms of an approaching nervous breakdown is the belief that one’s work is terribly importante.
 
Even when the experts all agree, they may well be mistaken.
 
E, já agora, em comentário suave ao carão sempre apocalipticamente fechado de GMT:
 
A smile happens in a flash but its memory can last a lifetime.”

Eugénio Lisboa, 25.09. 2022

Ao Domingo Há Música


A música transporta-me para um mundo no qual a dor não cessa de existir,
mas solta-se e tranquiliza-se.
                                      Marguerite Yourcenar

Neste primeiro domingo de  Outono , o desafio musical traz-nos extraordinárias  vozes que se agregam em magníficas interpretações de árias de sucesso. 
Mattinata,  de Ruggero Leoncavallo, nas vozes de  Lawrence Brownlee & Jungwon Choi.

 
Give Me My Song ,  de Benny Andersson, por Bryn Terfel & Sissel
 

sábado, 24 de setembro de 2022

O gato, esse desconhecido


Para a Otília, de quem
é bom ser gato
 
Há que tempos não faço um poema
dedicado aos tão belos gatinhos!
Ora eles são mesmo o grande tema,
os domésticos e os dos caminhos.
 
Os domésticos e mesmo os vadios,
tudo são bichos de grande desenho:
são caprichosos mas não são frios,
donos de um esbelto desempenho!
 
Os gatinhos descobrem gestos novos
e inventam graças intrometidas.
Insinuam-se entre gentes e povos
 
com caprichos e ideias atrevidas!
As patinhas despertas dos gatinhos
São hábeis e malandros cacetinhos!
                                  24.09.2022
Eugénio Lisboa 

Soneto

 

SONETO
resumindo uma entrevista
a
Gonçalo M.Tavares
 
Gonçalo não escreve com a cabeça,
escreve, diz ele, só com as mãos:
a cabeça, bons deuses, não interessa,
as mãos e os pés são bons artesãos.
 
“Escrever” sem complemento directo
é sempre a marca de um grande génio:
para estes, o acto predilecto
é tirar ao cérebro o oxigénio
 
porque, dele, nada que preste vem.
A si mesmo, escreve-se bem o texto
e as mãos sabem fazê-lo também.
 
Mas o cérebro é só um pretexto
e a linguagem vive só de si própria,
porque “querer dizer” é coisa imprópria.
                           24.09.2022
Eugénio Lisboa

Estranha é a vida

“Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais… A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino…”
Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio & Alvim

A vida humana 
"A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou nisso. Pois essa impressão também me acompanha por toda a parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades activas e investigadoras do homem, e como todo o nosso trabalho visa apenas a satisfazer as nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objectivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranquilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua cela… tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo." 
Johann Wolfgang von Goethe,  in " Werther", Livraria Civilização, 1958

Estranho é o Sono que não te Devolve

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.
Daniel Faria, in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"
, Fundação Manuel Leão

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

APELO A UM SOCIÓLOGO DA LITERATURA

Meu Caro João Pedro George,
 
“Venho fazer-lhe um apelo e dar-lhe uma dica que definitivamente lhe poderá dar um lugar único (e merecido) na história da sociologia da literatura. Você tem mostrado ser um destemido escafandrista das águas pantanosas do nosso milieu literário. Além de destemido, é bem informado, escreve admiravelmente e é inteligente. Por isso lhe dou uma dica de enorme magnitude e assustadora dificuldade. E muito trabalho.
Trata-se de desvendar um caso altamente intrigante de sucesso literário mundial, de dimensões pantagruélicas. Embora eu seja um leitor treinado e muito dado a leitura compulsiva, desta vez, desisto de compreender e peço-lhe que me ajude. Não, repare, que me ajude a compreender a obra assim catapultada aos mais remotos sítios do mundo. Essa, quanto a mim, distribui-se por quatro tabuleiros distintos: o do provincianismo douto, o do pretensiosismo parolo, o da infantilidade embevecida e o da imbecilidade inconsciente. Não, repito. Não me ajude a compreender a obra, nem esse é o seu ofício. Ajude-me, simplesmente, a compreender os mecanismos do mercado que assim catapultaram a dita obra para destinos que nem os muito traduzidos Pessoa e Ferreira de Castro sonharam. Não se ponha a salivar, já lhe digo de que obra se trata. De resto, Você, como adestrado sociólogo da literatura, já percebeu a quem me refiro, porque não pode ser outro. SIMPLESMENTE NÃO HÁ OUTRO. Desde que Portugal é Portugal, nunca se viu coisa assim. E suponho que, nos próximos mil anos – se a vida no planeta durar mil anos – não se verá nada como o êxito literário de que estamos a falar. É d’arromba! É uma coisa tão desmedida, que se não percebe o carão fechado, ressumando amargura existencial desvairada, do autor da obra : sempre com o ar de lhe ter sido revelado um segredo sinistro por uma pitonisa que só fala com ele! Falo, claro está, de Gonçalo Joyce Tavares, também conhecido como Gonçalo M. Tavares e dos cinquenta e tal livros que já publicou, traduzidos em 43 línguas e 71 países. Tudo isto publicado em vinte anos por um homem com pouco mais do que cinquenta anos. Só Balzac! Mesmo assim, convém não exagerar: não consta nenhuma edição nas ilhas Maurícias (que se devem contentar com a edição francesa) nem num atol desabitado do Pacífico. (Também não consta nenhuma tradução feita nas Ilhas Desertas).
Seja como for, meu caro sociólogo, peço-lhe que investigue a máquina promotora deste singular caso de promoção literária. Ele é prémios, ele é traduções, ele é viagens, ele é fotos (sempre de carão fechado), ele é autógrafos, desmaios de admiração, qualquer dia é o Prémio Nobel. Então, a sociologia, diante disto tudo, está calada? Para que diabo serve ela se não se deixa deslumbrar por aquele mapa a duas páginas, que mostra, no último JL, a esmagadora geografia de Gonçalo? Gonçalo fecunda todo o globo. Não há sítio decente e habitado que não acolha Gonçalo. Gonçalo é mais conhecido do que a vaquinha do presépio! Meu caro João Pedro George, medite bem nisto. Camões e Pessoa são, ao lado de Joyce Tavares, aprendizes de escritor. Salve a honra da sociologia e mostre à pátria lusa como um filho seu chegou a mares nunca dantes navegados! Dê à sociologia o que é da sociologia, para que se perceba finalmente como é que o que é de Tavares é também do mundo! Tavares é o mundo e o mundo é de Tavares. Parafraseando o embirrento Almada, eu diria que Tavares é que é, o resto é caca!”
                                                           22.09.2022
Eugénio Lisboa,
aguardando resposta!

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Contraluz

Abrimos o livro de Paul Celan, Arte poética, e deparamo-nos com estes preciosos pensamentos, compostos em marcha inversa, ou seja, à contraluz . Paul Celan (1920-1970)  usa uma técnica surrealista que inclui elementos da realidade (racional), mas compondo-os de tal maneira que entram em conflito com as expectativas e, portanto, parecem absurdos, repletos de paradoxos.

 Contraluz 1

" O coração ficou escondido no escuro e duro como a pedra filosofal."

" Era Primavera , e as árvores voaram para os seus pássaros."

" Ela virou as costas ao espelho, pois detestava a vaidade do espelho."

" Fala-se em vão de justiça enquanto o maior dos navios não se despedaçar contra a fronte de um afogado."
(...)

" O abraço dela durou tanto que o amor desesperou deles."

" Tinha chegado o dia do juízo e, para se procurar a maior das infâmias, a cruz foi pregada em Cristo."

" Enterra a flor e põe o homem sobre esta campa." 

" A hora saltou do relógio, pôs-se à frente dele e ordenou-lhe que andasse certo."
(...)

" Ele pôs na balança virtudes e vícios, culpa e inocência, boas e más qualidades, porque queria certezas antes de se julgar a si próprio. Mas os pratos da balança , com tais pesos, mantinham-se à mesma altura.
Como queria a todo o custo chegar a uma conclusão, fechou os olhos e andou vezes sem conta à volta da balança ou num sentido ou no outro, até já não saber em qual dos pratos estava este ou aquele peso. Depois colocou, às cegas, num dos pratos a sua decisão de se julgar a si próprio.
Quando voltou a abrir os olhos , um dos pratos tinha, na verdade, baixado, mas já não era possível reconhecer qual dos dois, se o prato da culpa, se o da inocência.
Isso deixou-o zangado, recusou-se a ver nisso uma vantagem e pronunciou a sua sentença, sem, contudo, poder evitar a sensação de estar eventualmente a cometer uma injustiça."

" Não te iludas: não é esta última candeia que dá mais luz- foi a escuridão em redor que se aprofundou mais em si mesma."
(...) 

" Ela virou as costas ao espelho, pois detestava a vaidade do espelho."

" Ele ensinava as leis da gravidade, produzia prova sobre prova, mas só encontrava orelhas moucas. Elevou-se então nos ares e ensinou as leis , pairando - agora já acreditavam nele, mas ninguém se admirou quando ele não regressou do ar."
Paul Celan, in Arte Poética - O Meridiano e outros textos, Edições Cotovia, Lda, Lisboa 1969
    
1) Publicado  no Jornal Die Tat, de Zurique, em 12 de Março de 1949

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Ode à Diferença e O desterro dos poetas

Ode à Diferença
Felizmente.
Somos todos diferentes. Temos todos
o nosso espaço próprio de coisinhas
próprias, como narizes e manias,
bocas, sonhos, olhos que vêem céus
em daltonismos próprios. Felizmente.
Se não o mundo era uma bola enorme
de sabão e nós todos lá dentro
a borbulhar, todos iguais em sopro:
pequenas explosões de crateras iguais.
Assim e felizmente somos todos Poemas. Poesia. 
diferentes. Se não a terapia
em grupo era um sucesso e o que é certo
é sermos mais felizes a explorar
solitários o nosso próprio espaço
de manias, de traumas, de unhas dos pés
invaloradas pela nossa cultura
(que lá no Oriente o pé é o caso sério,
motivo sensual e explorativo).
Começa por aí: o mundo di-
vidido por atávicos ritmos
— e outras coisas somenos como guerras
ou fomes (Note Bem: a criatura
é céptica e tem um gosto péssimo,
mas veja-se outros textos que redimem
em sério o que aqui diz. Cf. por ex.
o que quiser, mas deixe a criatura
regalar-se por se pensar — coitada —
incómoda e sonora). Prova evidente
de que somos diferentes, felizmente.
Começa por aí: no mundo divi-
dido — e continua em raças e
raízes. Nós somos portugueses,
tão felizes, com tanta história atrás
e tantos feitos, tantas coisinhas próprias
de delícia: o mar que nos gerou,
e o resto tudo, são bolas pequeninas
de sabão a atestar da diferença
do nosso irmão do lado, esse infeliz
cheio de recalques de tradições e línguas,
paella e calamares. Tem boca como
nós: não canta o fado. Tem pernas como
nós: não dança o vira. Contenta-se
— coitado — com flamencos chorados
e falanges doridas. Somos todos
diferentes, felizmente (Note Bem:
[se a sua paciência ainda não
fugiu despavorida — é sem dê,
mas ela insiste em respeitar
o ritmo —]: isto que a criatura
repete e reafirma, quando em quando,
não deve ser tomado em ligeireza
como sinal senil [aliterou!],
mas como tentativa suicida
de oferecer unidade ao que o não tem,
moralizar o texto a pouco e pouco,
dar-lhe uma ideia igual, ser um mote
formal a contrabalançar a tal
prova evidente. Que de diferenças
estamos todos cheios e isto
pretendia-se uma ode e não foi).
Felizmente.
Ana Luisa Amaral, in Minha Senhora de Quê, Quetzal Editores 

O desterro dos poetas

Nada vos quisera dizer que sonegasse o encanto
mas transito por um mundo sombrio
e por caminhos degradados.
Já não vejo flores nas campinas
nem lírios à beira das estradas,
já não ouço o cantar dos pássaros
nem o murmúrio das fontes.
Restou-nos a paisagem decepada e nua,
de quando em quando, pequenos bosques solitários
e o sibilar melancólico do vento.
 
Viandantes milenares da estesia e do mistério,
hoje somos seres desgarrados e silentes.
Nossas imagens foram abatidas,
nossos símbolos calcinados,
globalizaram as metáforas,
plastificaram as rosas,
poluíram as estrelas.
 
Restaram-nos o espanto e os pressentimentos,
e, nessa patética realidade,
entre rimas e a paixão pelo lirismo,
a poesia mendiga descalça pelo mundo,
trajando seu rosário de versos encolhidos.
Nossas páginas já não são abertas,
já não publicam nossos livros,
declamamos num palco de figurantes,
e ante os versos desse drama,
não há público nem aplausos…
Versejar é uma vocação solitária,
uma chama delirante que se apaga no coração dos homens.
 
Apesar de tanto desencanto,
nada vos direi que sonegue a esperança,
mas digo que os poetas jamais silenciarão seu canto,
porque ninguém poderá desterrar o sonho e a beleza
e porque sempre haverá um poema de amor a ser escrito.
Os poetas cantam desde a aurora dos tempos,
pela glória de Aquiles e pela paixão por Beatriz.
 
Cantam para gestar uma “Ode Triunfal”,
para compor “Uma Canção Desesperada”,
ou para erguer uma bandeira libertária.
Cantam para denunciar os calvários de chumbo que
                                            [sangraram tantas pátrias 
e para que o esquecimento não sepulte a história dos
                                                                      [vencidos.
Cantam para acusar os tiranos e consagrar os mártires,
e para reunir na memória os punhos da bravura.
Os poetas sempre haverão de cantar,
enquanto a luz parir a vida, eles cantarão…
cantarão para abrir as janelas do infinito
e para semear novos sonhos nos herdeiros do amanhã.
 
Machucado por tanto desamor,
por esses acordes tolos e nocivos a malhar meus tímpanos,
e perante essa estética do absurdo,
a essa irreverência que empesta os ares
e proscrito por um tempo que confunde os nossos passos,
saio em busca do Eldorado
Quero um cântaro de luz para beber a vida,
um sol de abril para iluminar meu rumo.
Quero meu veleiro, meu farol, meu porto, minha aldeia,
e “onde estiver meu coração, sei que lá estará o meu tesouro”.
 
“Vou-me embora pra Pasárgada”
levando minhas ternuras e uma fé inabalável.
Minhas velas vão rasgando o desencanto,
navegando nas lágrimas do mundo
e nesses mares de naufrágios.
Sei que quando o impasse se acabar,
as flores repovoarão os campos
uma rosa purpurina se abrirá no teu canteiro
e a estrela da manhã surgirá num novo céu.
E eis que uma aurora de luz há de beijar a Terra,
o amor abraçará os filhos da esperança,
e só então a paz será um eterno banquete festejando a vida.
Vos digo que num só “idioma” se entenderão os povos,
que a música renascerá na melodia,
que uma nova literatura deslumbrará a alma
e que o nosso canto, sedutor e palpitante, reviverá no coração
 [dos homens.
                        Curitiba, 20 de agosto de 2014
Manoel de Andrade , in As Palavras no Espelho, Editora Escrituras, São Paulo, Brasil, pp.251-253

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Os romances são escritos para serem lidos


Os romances são escritos para serem lidos
por Eugénio Lisboa
 
Os que escrevem com clareza têm leitores,
os que escrevem obscuramente têm comentadores.
                             Albert Camus
 
"Os romances começaram por ser histórias para serem contadas oralmente a uma grande variedade de pessoas que gostavam de as ouvir e, para isso, não precisavam de conhecimentos especiais. Depois, foi evoluindo por aí fora e apareceram duas grandes categorias de romancistas: aqueles que, não confundindo complexidade com complicação, escreviam os seus romances para serem lidos pelo maior número de pessoas possível (Dickens, Charlotte Bronte, Dostoiewsky, Tolstoi, Tcheckov, Balzac, Camilo, Eça, Conrad, Colette, Stendhal, etc.); e aqueles que escreviam os seus romances, para serem sobretudo “comentados” ou “estudados” nas universidades, uma das muitas formas de fazer ou ajudar a fazer curriculum (Joyce e seus discípulos).
Quando os docentes universitários começaram a tomar de assalto a grande imprensa não académica, para se tornarem os críticos sistemáticos com tribuna regular, e, depois, se tornaram também poetas e ficcionistas, armados até aos dentes com as teorias cada vez mais abundantes, ao seu dispor, teorias muitas vezes mal digeridas mas usadas como artilharia terrorista, o universo da ficção começou a perverter-se. Muitos não escreviam para serem lidos, mas para serem “vistos”, citados e comentados. Um romance tornava-se uma alínea pimpona do CV. O novo Joycinho olhava com desprezo o simplório que contava histórias (Simenon, por exemplo, que foi um dos maiores génios do século XX, sem que isso o tornasse universitável). O romancista, para poder decentemente exercer a sua profissão e ser levado a sério, tinha de obter carta de alforria da Ordem dos Romancistas, afecta à Universidade. Ajudava muito à obtenção desta carta, se o candidato juntasse uma declaração, com assinatura reconhecida pelo notário, de que não achava necessário que o romance contasse uma história. Esta necessidade de carteira profissional e de bênção universitária começou a aterrar alguns notáveis  romancistas, como Carlos de Oliveira, que confessou ao seu amigo Alexandre Pinheiro Torres ter escrito o ilegível FINISTERRA, porque andava com medo de não ser levado a sério pela crítica universitária (que era mais “científica” do que a outra). Começaram então a aparecer os Joycinhos lusíadas, que eram tão maus romancistas como o Joyce original, mas escreviam um português muito inferior ao inglês do autor de ULISSES. Grandes escritores, que eram também notabilíssimos espíritos críticos, como Jorge Luís Borges; George Bernard Shaw ou Virginia Woolf, não mediram as palavras, a demolir  o irlandês catapultado aos cornos da Lua, nas universidades, que sempre gostaram mais de “comentar” do que de verdadeiramente “ler”. Os Joycinhos escrevem uns para os outros, os romancistas propriamente ditos escrevem para serem lidos por todo o amante de leitura. Livros como os que Joyce escreveu, com excepção da colectânea de contos, DUBLINERS, são mais do domínio da patologia literária do que da literatura. Escrevem-se romances que estão muito  mais preocupados com o “fazer romance” do que com “ser romance”. Não tem mal, pelo contrário, o romance mostrar curiosidade pelo “fazer”, desde que se não esqueça de o “ser”. Um Joyce com talento de romancista, seria oiro sobre azul. Mas Joyce sem romance dentro dá para ser “estudado” mas é intragável para ser lido. Mas só há uma coisa pior do que ser Joyce: é ser discípulo de Joyce."
Eugénio Lisboa, 20.09.2022