quinta-feira, 31 de agosto de 2023

A leitura é meu alimento

António Torres

"O escritor Antônio Torres, autor de romances como Essa terra e Um cão uivando para a lua, foi o convidado do Paiol Literário, projeto realizado na capital paranaense pelo Rascunho, em parceria com o Sesi Paraná. Numa conversa com o mediador do encontro, o escritor e jornalista José Castello, e o público que compareceu ao Teatro Paiol, Torres falou sobre a importância da literatura para a sua formação como cidadão, no interior da Bahia, analisou a onda de auto-ajuda que invadiu o mercado editorial mundial e discorreu acerca das muitas gerações de escritores brasileiros que leu e conheceu. Leia abaixo os melhores momentos do bate-papo.

. Eu queria ser Castro Alves
Acho que a literatura pode mudar as pessoas, sim. Há quem diga que não, que não muda nada. Cada um tem sua idéia. A mim, mudou. Acho impossível que alguém, um dia, não tenha sido mudado por Madame Bovary e por Crime e castigo. Impossível não ser mudado por Kafka ou Machado de Assis. Eu fui. Vim de um mundo rural, agrário e ágrafo. Vim do sertão. Quando descobri os livros, descobri outro mundo. E se me perguntassem o que eu queria ser quando crescesse, eu responderia: “Castro Alves”. O cara era bonito como um corno e dava muita sorte com as mulheres. Quem é que não queria ser Castro Alves? Chegou a Recife, onde havia uma guerra entre a polícia e os estudantes, e gritou: “Soldados, parai. A praça é do povo como o céu é do condor”. E os soldados pararam. Sabendo dessas histórias, como é que eu não quereria ser Castro Alves? Pois a literatura me mudou. Sempre que leio algo que me move, sinto que mudo. Mudo meu jeito de pensar. Li muito tardiamente um escritor francês chamado Boris Vian, autor de A espuma dos dias. E pensei: “Meu Deus, por que não li isso mais cedo?”. Eu seria outro escritor se tivesse lido aquilo mais cedo. Para mim, aquele livro é fantasticamente novo. Vendeu milhões em Paris. E vende até hoje. O cara morreu com 38 anos e ainda tocava trompete. É de matar de raiva: o cara escreveu A espuma dos dias e ainda tocava trompete. Então, a mim, a literatura não só mudou, mas acho que vem mudando. É um processo que segue com o tempo. Como todo escritor deve ser, sou essencialmente um leitor. A leitura é meu alimento.
Verdes mares do sertão
Tive uma professora que me ensinava a ler em voz alta. Lá no Junco (BA). Uma professora da escola rural, do primário. E essa mulher fez a oficina literária da minha vida. A gente estudava na escola para meninos e meninas da professora Serafina, uma escola sob a influência da Era Vargas, meio militarizada. E a professora, logo de cara, me botou na praça pública para recitar Castro Alves: “Auriverde pendão da minha terra…”. Um belo dia, à porta da escola, chegam uma senhora e sua filha. E a filha diz: “Dona Serafina, vim buscar os alunos”. Daí, dona Serafina falou: “Leve os meninos”. E nós saímos murchos. Que graça ia ter irmos a uma escola só de meninos, se uma das nossas maiores motivações era nos sentarmos ao lado de uma menina, quem sabe darmos um beliscão na perna dela, pegarmos na sua mão e tal? Pois aquela professora vinha inaugurar um novo prédio, todo padronizado. Tinha aqui a sala de aula, ali a casa da professora e a área do recreio. Era uma coisa do governo, feita para invadir os fundões do Brasil. E essa professora Tereza chegou, abriu as janelas, pegou um livrinho e mandou todo mundo fazer fila. Para mim, caiu o seguinte: “Ver-des ma-res bra-vios da mi-nha ter-ra na-tal on-de can-ta a jan-daia”. Na segunda vez em que li aquilo, eu já estava melhorzinho. Na terceira, na quarta, já estava lendo legal. Agora, vocês não imaginam o efeito disso sobre um menino que nasceu e que vivia em um lugar onde nem rio havia. O que era esse tal de verde mar? E no plural, “verdes mares”? O que era uma jandaia? Eu nunca tinha visto uma jandaia. O que era uma carnaúba? Isso era coisa lá do Piauí, do Ceará, de muito longe de onde eu estava. Coisa de um Nordeste aquoso. Não tinha água na minha terra. Quando chovia, o povo vestia terno branco e rolava na lama, de tanta alegria. Então, imagina: “verdes mares”?“Como todo escritor deve ser, sou essencialmente um leitor. A leitura é meu alimento.”
Em voz alta
Às vezes, escrevo e leio o que escrevi em voz alta, como se estivesse aqui, falando com vocês, falando esse texto para o meu leitor. Não quero perder essa oralidade que vem da infância, da escola rural. Sou produto dessa cultura rural e de uma cultura oral, também. Meu imaginário foi feito dentro disso. Das histórias que me eram contadas e cantadas, do cordel. O cordel vem dessa cultura oral, dessas histórias muito imaginosas, sem tempo nem espaço, que me influenciaram muito. Adoro isso de ler em voz alta. Nas oficinas literárias que faço, boto todo mundo para ler em voz alta.
• Meus monólogos
Acho que todos os meus livros são monólogos. Em Um cão uivando para a lua, por exemplo, vemos um cara internado. Minha idéia, ali, era escrever um conto sobre um doido batendo papo consigo mesmo. Dali a pouco, eu já tinha ultrapassado os limites de um conto e, oito meses depois, estava com um romance. E é isto: esse cara, depois de uma viagem de 36 horas de eletrochoques, começa a fazer uma viagem pelo país e por dentro dele mesmo. Quer dizer, faz umUm cão uivando para a lua,um personagem se chama A e o outro T. É bandeiroso: Antônio Torres, A e T. Esses dois perso monólogo. Eu imagino esse personagem falando alto, contando aquilo tudo para alguém. Em nagens são duas faces da mesma moeda. Na verdade, são um personagem só. Um está internado e outro está visitando. Um está na televisão, o outro é um repórter que pirou após uma viagem à Transamazônica — mas pirou mesmo por causa do LSD. Uma coisa da juventude dos anos 70. Uma parte dela estava na luta armada e a outra estava com Jimi Hendrix e Janis Joplin. E tome LSD! E eu pego esse personagem que explodiu e tento resgatá-lo pela consciência do louco. E também faço uma interrogação sobre onde fica a fronteira entre sanidade e loucura. É esse o jogo desse livro. É um monólogo."
Paiol, Temporada 3, Julho de 2008

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

A língua portuguesa que aprendi não é a língua em que agora se escreve



A língua portuguesa que aprendi não é a língua em que agora se escreve
por Eugénio Lisboa 
 
A principal virtude que a linguagem pode ter é a clareza e nada
 nos afasta tanto dela como o uso de palavras pouco familiares.
Hipócrates
 
"A leitura de muitas páginas dos nossos melhores jornais, bem como a visita de certos centros comerciais, é, para mim, o mesmo que visitar o lado obscuro da lua. A começar pelos títulos, nos jornais, não percebo rigorosamente nada: eles revelam, em condensado, toda a minha ignorância. Por exemplo, na página de CULTURA, do PÚBLICO, do dia 29 do corrente mês, deparo com este charabiá:
A PARTIR DE SÁBADO, a bienal BoCA CONVIDA AO PAUSE EM TEMPOS DE SWIPE E DE SCROLL.
Olho para isto e fico, como qualquer leitor medianamente informado: perplexo e quase em estado de choque. Será esta a minha língua? Estarei em Portugal? Terei morrido e terei entrado em qualquer departamento bizantino do Além?
Hoje em dia, quem não polvilhe os seus textos com uns pozinhos de inglês, não é gente que preste. E quanto mais obscuro o calão usado, melhor. É o CEO, é o SPREADING, é o BUSINESS SCHOOL, é o TOP10, a RENTRÉE (desta vez recorre-se a uma palavra francesa que os ingleses também usam, o que lhe dá um sabor novo), são os cantores portugueses que adoptam nomes ingleses, é o CHAIRMAN, o BOARD, o PORTUGAL CAFÉ, em vez de CAFÉ PORTUGAL, tal como em português, e por aí fora. É como se tivéssemos vergonha da nossa própria língua e precisássemos de a “enfeitar” com um cheirinho anglo-saxónico, usando palavras que têm o seu perfeito equivalente em português. É a piroseira, enfeitando-se de snobeira, no seu máximo esplendor. Aqui mesmo ao pé de casa, existe um sítio em que se servem bebidas, com este título prodigioso: LIQUID HALL. Não é mesmo chic? As lojas, nos grandes centros, são uma contínua homenagem à nossa língua-mãe: Zara Home, Stone by Stone, Silver Field, Body Cosmetics, Best Travel...Tão distinguished! Tão internacional!
Nesta Babel grotesca e provinciana, sinto-me como se deve ter sentido o falecido Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo, ao ver-se assim tratado, num país africano: “Fella belonging Mrs. Queen”. Estes utentes lusíadas da língua de Shakespeare fazem-me atrozmente lembrar aqueles utentes da língua urdu a definirem, em inglês,  o marido da falecida rainha do Reino Unido.
O grande Stuart Mill dizia, em pecado de flagrante optimismo, que a linguagem é a luz do espírito. Mas esta espécie de urdu anglo-saxónico, que por aí se espaneja, não ilumina, antes obscurece o espírito, fazendo da língua uma amostra de areia mijada.”
Eugénio Lisboa, em 30.08.2023

Por entre as memórias musicais

De quando em vez ou de vez em quando, acodem-nos vozes que  nos foram familiares e que, sem como nem porquê,  ficaram  no recanto dos "guardados". Sem nunca terem sido depositadas  nos "perdidos", recuperam, em qualquer momento, a devida   visibilidade.  
Eis uma delas, que serve de ilustração para este quente final de Agosto .

Emma Shapplin, em  Ira Di Dio, The Concert in Caesarea.
   
Emma Shapplin, em  Miserere, Venere, The Concert in Caesarea.
   
Emma Shapplin, in Cuor Senza Sangue, The Concert in Caesarea.
 

terça-feira, 29 de agosto de 2023

De gatos falemos!

De gatos falemos!
De que mais havíamos de falar?
 
O gato sabe o que é bom
e conhece os certos nichos.
Sabe não ser de bom tom
oporem-se aos seus caprichos.
O sítio que lhe convém
é aquele, as mais das vezes,
o que eu quero, também.
Se eu quero peixe à Menezes,
é isso o que o gato quer.
Se eu quiser escrever,
se para aí me der,
logo o gato vai escolher
dormir no computador!
Não faz isso por malícia,
nem por ser usurpador,
nem por mera estultícia.
Se o gato quer o que eu quero,
tenham Vocês paciência
- e falo sem exagero –
é por pura coincidência!
              29,08.2023
Eugénio Lisboa

Era o ponto culminante da ilha


"(...)Lembrava quase tanto um navio quanto uma casa.  Colocada ali para  resistir às tempestades, incrustava-se na ilha como se fosse parte integrante dela; mas de todas as janelas descortinava-se o mar e era muito arejada, de  modo que não se sentia calor nem nas noites mais quentes. Pintada de branco para ficar bem fresca no verão, podia-se avistá-la de longe, na Corrente do  Golfo. Era o ponto culminante da ilha, com exceção da extensa plantação de  altos pés de casuarina, a primeira coisa que se enxergava ao se acercar da ilha  por via marítima. Logo depois da mancha escura das casuarinas acima da  linha do horizonte, via-se o vulto branco da casa. Aí então, à medida que se  chegava mais perto, a ilha emergia inteira, com os coqueirais, as cabanas de madeira, a faixa branca da praia, e o verde da Ilha Sul se estendendo ao fundo. Thomas Hudson nunca avistava aquela casa na ilha sem que ficasse tomado por uma sensação de felicidade. Sempre a imaginava exatamente como um  barco. No inverno, quando soprava o vento norte e esfriava de fato, ela era  quente e confortável porque possuía a única lareira na ilha. Uma vasta lareira aberta onde Thomas Hudson queimava sarrafos lançados à praia pelas ondas.  
Guardava-os numa pilha enorme, encostados à parede do lado sul da casa. Estavam esbranquiçados de sol, cobertos de areia trazida pelo vento, e  afeiçoara-se tanto a vários pedaços que até sentia ódio de ter que queimá-los. Mas depois das grandes tempestades sempre surgiam outros na praia, e terminava achando divertido queimar mesmo os pedaços de que mais gostava. Sabia que o mar traria novos e nas noites frias sentava-se na ampla poltrona diante do fogo, lendo à luz do lampião pousado na grossa mesa de tábuas, interrompendo a leitura para escutar o noroeste soprando lá fora, o estrondo da rebentação, e contemplar os enormes sarrafos esbranquiçados a arder.  
Às vezes apagava o lampião e deitava-se em cima do tapete no chão, detendo-se a fitar as pontas coloridas que o sal marinho e a areia desenhavam nas chamas enquanto a lenha ardia. Deitado, os  olhos nivelavam-se com a altura da madeira que queimava, tornando nítida a linha de separação entre a chama e os sarrafos, o que o deixava ao mesmo tempo triste e alegre. Toda a madeira que queimasse o afectava desse modo. Mas os sarrafos trazidos pelo mar a arder ali no fogo causavam-lhe uma sensação que não conseguia definir. Achou que talvez fosse erro queimá-los, uma vez que gostava tanto deles; mas não tinha remorsos por causa disso.  
Ao deitar-se no chão sentia-se protegido contra o vento, embora, na realidade, o vento açoitasse até os cantos inferiores da casa, a relva  mais baixa da ilha, infiltrando-se pelas raízes da vegetação rasteira da praia, pelos carrapichos e pela própria areia. No chão, podia sentir a batida da rebentação tal como se lembrava de ter sentido o disparo de poderosos canhões quando se jogava por terra perto de uma peça de artilharia há muitos e muitos anos, quando ainda era menino.  
A lareira era uma coisa formidável; no inverno e durante todos os outros meses contemplava-a com carinho, imaginando como seria quando o inverno chegasse de novo. O inverno era a melhor de todas as estações na ilha, e aguardava-o com impaciência o resto do ano inteiro.”
                                   .........................................  "  ...............................
"(...)Lograra substituir quase tudo excepto os filhos, pelo trabalho e pela vida de actividade normal, regular, que edificara na ilha. Estava convencido de que conseguira com essa vida algo de perdurável que o fixaria. Agora, quando se sentia solitário e tinha saudades de Paris, lembrava-se de Paris em vez de ir até lá. Fazia o mesmo com toda a Europa, grande parte da Ásia e da África.
Lembrou do que Renoir dissera ao contarem-lhe que Gauguin fora para Taiti pintar. «Porque há-de ele ir gastar tanto dinheiro para ir pintar para tão longe quando se pinta tão bem aqui em Batignolles?» Em francês soava melhor: «quand on peint si bien aux Batignoiles», e Thomas Hudson concebia a ilha como o seu quartier no qual se instalara, travando conhecimento com os vizinhos e trabalhando tão assiduamente como trabalhara em Paris quando o jovem Tom era ainda bebé.
Algumas vezes deixava a ilha para ir pescar ao largo de Cuba ou visitar as montanhas no Outono. Mas arrendara o rancho que tinha comprado em Montana por, ali, a melhor época ser o Verão e o Outono, e agora era sempre no Outono que os rapazes tinham de voltar para a escola.
Ocasionalmente, via-se obrigado a ir a Nova Iorque para se avistar com o seu agente. No entanto, era mais frequente agora ser o seu agente a visitá-lo e a levar as telas para o norte consigo.
Tinha uma reputação bem firmada como pintor, e era respeitado tanto na Europa como no seu próprio país. Contratos de exploração de petróleo em terrenos que o avô possuíra garantiam-lhe proventos regulares. Esses terrenos tinham sido terras de pastagem, e ao serem vendidos retivera os direitos ao subsolo. Cerca de metade do rendimento era absorvido pela pensão que pagava às suas ex-mulheres, e o resto dava-lhe a segurança necessária para pintar conforme lhe apetecia sem quaisquer pressões de ordem comercial. Permitia-lhe também viver onde lhe dava na fantasia e viajar quando se sentia inclinado a isso.
Tivera êxito quase a todos os respeitos excepto na sua vida de casado, embora, na realidade o êxito nunca o houvesse preocupado muito. O que lhe interessava era a pintura e os filhos, e continuava apaixonado pela primeira mulher que despertara o seu amor. Amara muitas mulheres desde então e, por vezes, lá vinha uma ou outra ficar na ilha. Precisava de ver mulheres ao pé de si e acolhia-as bem durante algum tempo. Gostava de as ter ali, às vezes durante longo período. Mas, no final, ficava sempre satisfeito quando se iam embora, mesmo se gostava delas a valer. Disciplinara-se de forma a deixar-se de discussões com mulheres, e aprendera a arte de não se casar. Estas duas coisas haviam sido quase de tão difícil aprendizagem como instalar-se e pintar a um ritmo regular e bem ordenado. Mas aprendera a fazê-las, e a sua esperança era que essa aprendizagem tivesse sido permanente. Havia muito que sabia pintar, e estava convencido de que ia aprendendo sempre mais a cada ano que passava. Mas fora difícil aprender a assentar e a pintar disciplinadamente porque tinha havido na sua vida uma fase em que ele próprio não fora disciplinado. Nunca tinha sido verdadeiramente irresponsável, mas indisciplinado, egoísta e desapiedado, isso sim. Sabia-o agora, não por muitas mulheres lho terem dito, mas por o haver descoberto finalmente à sua custa. Resolvera então só ser egoísta na sua actividade de pintor, só ser desapiedado no seu trabalho, e disciplinar-se e aceitar a disciplina. "
Ernest Hemingway, in Ilhas na Corrente, Livros do Brasil
« Ilhas na Corrente, capítulo final na cronologia artística e humana de um grande escritor é, segundo a crítica, uma das obras mais invulgares que ficamos a dever ao autor de "Por Quem os Sinos Dobram", reunindo, num mesmo programa, alguns dos ingredientes que transformaram a arte narrativa de Hemingway numa das mais expressivas do nosso tempo. Roteiro da vida de um pintor desde os anos 30, sequelas trágicas do fim da segunda guerra mundial, centrado nas Caraíbas, é, afinal, um retrato do próprio autor já que une, numa trajectória única, as experiências do artista e do homem de acção, a exigência de disciplina íntima e de comportamento de um espectador da vida e de um interventor activo no que ela tem de mais trágico e absurdo. Algumas das personagens deste livro singular e belíssimo serão recordadas para sempre na galeria de caracteres que Hemingway nos legou. 
Começando na década de 1930, "Ilhas na Corrente" narra o destino de Thomas Hudson, as suas experiências como pintor nas ilhas da corrente do golfo de Bimini e as suas actividades anti-submarinas no litoral de Cuba durante a Segunda Guerra Mundial.»

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

A criança e a vida


A criança e a vida
por Maria Rosa Colaço
"Companheira do sol e das raízes, cheguei à grande cidade.
Numa mão levava o diploma, na outra, o medo. O resto era a história antiga da minha solidão e da minha esperança…
A escola que me deram não era um desses poéticos lugares, brancos e cheios de flores com que sonhamos no fim do curso: era um velho primeiro andar, de uma rua suja de sal, pregões e humidade. Os rapazes que me deram, também não tinham nada de comum com esses meninos de bata branca, normais, dos primeiros dias de aula e que as mãezinhas nos entregam como se fossem de porcelana.
Lembro-me desse nosso primeiro encontro, tão comovidamente, que receio não encontrar a palavra exacta para o esboçar. Abri a porta e eles entraram. Eram quarenta e cinco e faltavam carteiras. Faltavam muitas carteiras, mesmo quando os sentei três a três e pus cinco na mesa que me destinaram para secretária.
O director chegou e disse: — Este é o seu reino e aqui tem os seus «meninos». E sorria. —Se tiver sarilhos – há-de tê-los, mas não estranhe –, a esquadra da polícia fica no fim da rua. E eu estou ao seu dispor. Para as necessidades imediatas, aqui tem isto. Tem de escolher desde o princípio: ou a Senhora ou eles. Sem complacências, se quiser sobreviver. Lamento dar-lhe a escória. Mas, paciência.
Desceu a escada.
E eu fiquei ali, face à nova aventura.
O silêncio que me envolveu era um silêncio pesado, expectante. E, no meio do silêncio, eles ali estavam, na manhã que nascia. Esculpidos em vento e mar.
Vinham dos barcos ancorados no cais, do bairro da lata, de sabe-Deus-donde. Traziam nas mãos, em vez de mala e livros – não sei porquê, mas traziam – folhas de plátano e ramos de amendoeira florida. O Outono dourava-lhes os cabelos.
Eram sementes vivas da mais autêntica liberdade e não sabiam nada de preconceitos, nem de palavras, nem de coisa nenhuma.
Olhei-os também em silêncio. Um por um. Longamente. Depois, peguei na régua que o director acabara de oferecer-me como apoio e dei-a ao que me pareceu mais velho: — Toma! Vai atirar fora. E depois, não sei que lhes disse.
Mas a fome de ternura era neles como o sol, a chuva e o desconforto. E como éramos primários, pobres e sozinhos, estabelecemos desde aquela hora um entendimento lúcido e discreto.
E foi assim que ficámos solidários e Amigos-Para-Sempre.
Aprendi então que a Verdade é uma palavra real.
E a lealdade, também.
Depois muitos vieram: da Europa, da África, das ilhas perdidas do Atlântico. Mas ali, na escola húmida e despojada, é que aconteceu o milagre que nunca mais se repetiria.
Tenho-me perguntado muitas vezes porquê. E cada vez vou tendo mais a certeza que o excesso de conforto destrói o Rosto Iluminado do Homem. Aqueles não tinham, não esperavam, nem pediam nada: por isso, estavam disponíveis para tudo. Os passeios que demos, as notícias que comentámos, os poemas que lemos, a vida que conscientemente os ajudei a desventrar, foram a sua primeira riqueza e fizeram crescer na «escória», uma branca flor de fraterna alegria.
Foi como se um vento de loucura nos tivesse perturbado a todos, e o mundo estivesse suspenso do que fizéssemos. E nas paredes sujas da sala, pintámos o sol e pássaros verdes. E nos buracos dos tinteiros partidos, nasceram flores. Eles eram a Terra quente e aprenderam a amá-la também. E a pobreza que os esboçava, começou a ser um pretexto, não para a sua derrota, mas para a sua dignidade e para a sua força.
A alegria daqueles rapazes contagiava os indiferentes e as pessoas, muitas, muitas: poetas, professores, pintores, operários, sentiam que junto deles as manhãs eram mais claras e a fome mais terrível. Hoje, alguns serão operários honestos, ardinas apressados, vendedores ambulantes; outros serão marinheiros, outros, sei lá o que serão! Sei lá o que a vida fez deles!
Estas páginas são uma homenagem que lhes devo. Guardei-as, dia após dia, ano após ano, até os perder nos novos caminhos que tive de pisar, como um testemunho. Oxalá alguns deles possam ler estas linhas e reencontrar-se nelas.
Não eram génios, nem poetas, nem meninos prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões-de-coisas… essenciais-ao-dia-a-dia. Moravam em casas com buracos e dormiam nos barcos, no vão das portas, nos degraus da doca, em qualquer sítio. Alimentavam-se de um bocadinho de pão, de um peixe assado e às vezes de água. Apenas.
Tinham oito, nove, dez, onze, quinze anos, mas conheciam as mil maneiras de escapar aos polícias, de viajar de borla, de sobreviver. Os dias eram-lhes duros e comprados com muita coragem e destemor. Por isso custei a entender – ENTENDI!? – como a Poesia foi para eles tão violenta e tão fácil. Pediam para fazer poemas, como quem pede o pão da fome. A princípio, a medo, ingénuos. Depois, a mergulharem na aventura da palavra com uma dor e uma lucidez já adultas.
Quando em 1960 expus a primeira colectânea de textos destes rapazes, ilustrados por alguns dos nomes mais válidos da nossa pintura, o ambiente que cercou a exposição, ao verem a idade dos autores, foi de suspeita e de dúvida. Quando eles apareciam, desgrenhados e sujos – a hilariedade era quase completa. Saí de lá muitas vezes a apetecer-me rebentar a cara das pessoas, como o Mário e o Zé rebentaram os vidros da casa de uma senhora que duvidara da autenticidade do que estava exposto. E eram eles que me confortavam, soberanos: — Senhora! Deixe lá. Têm a cabeça cheia de vento. Não percebem nada.
Entrava na escola e olhava para Cristo. Sorríamo-nos.
E ficava tudo certo, outra vez.
Mas ensinaram-me que, quando se é humilhado naquilo que em nós é claridade e certeza, aprende-se mais depressa o sentido exacto da liberdade, da paz, do ódio, do amor e do ridículo do quotidiano.
Eles revelaram-me que a miséria transforma as crianças, mais que os adultos, em anjos implacáveis de lucidez, e que a fome os ateia e lhes faz crescer, nos olhos, brancas e terríveis asas de sonho ou destruição. E há, nestes anjos de fogo, uma voz oculta e violenta em que é preciso, é urgente, meditarmos. Ela pode denunciar, construir ou semear, a alegria, a vergonha ou o remorso.
Ela pode ser a semente da Esperança, da Paz entre os homens.
Ela pode ser o ódio.
Ela pode ser o Amor”
Maria Rosa Colaço,  in A Criança e a Vida, Lisboa, Ed. Ulmeiro, 1996

domingo, 27 de agosto de 2023

Ao Domingo Há Música


Quand il me prend dans ses bras
Qu'il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Mais moi, ça me fait quelque chose
Il est entré dans mon cœur
Une grande part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est lui pour moi, moi pour lui dans la vie
Il me l'a dit, l'a juré pour la vie
Et dès que je l'aperçois
Alors je sens en moi
Mon cœur qui bat.

Pretty Yende, em La vie en rose de Edith Piaf, acompanhada pela Orchestre National de France sob a direcção do Maestro Cristian Macelaru, no  Concerto de Paris 2023.

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Ermonela JahoLudovic Tézier, no  « duo final », da ópera  Thaïs, de Jules Masssenet, acompanhados pela Orchestre National de France sob a direcção do Maestro Cristian Macelaru, no  Concerto de Paris 2023.

sábado, 26 de agosto de 2023

Aviso por causa da moral, do bom senso e da legalidade

Casa de Eça de Queirós, Tormes

Aviso por causa da moral,
do bom senso e da legalidade
por Eugénio Lisboa
 
"Quem alguma vez tenha lido A cidade e as serras, não terá dúvida nenhuma de que Eça preferiria ficar sepultado em Tormes a ser trasladado para o panteão. Também não duvidará de que Eça detestaria a ideia de ir para o panteão. Bastava conhecer um bocadinho a obra e a maneira de estar no mundo do autor de Os Maias. Mas, a um senhor que hoje é ministro, ocorreu a ideia macabra de fazer essa trasladação, sem consultar os herdeiros, que são os únicos a poderem, legalmente, dar autorização para uma tal trasladação. E estes, tanto quanto se saiba, não a deram nem a darão. A Assembleia da República tem o poder de autorizar a operação, mas não tem o poder de a impor. O que se pretende fazer em Setembro é ilegal, afrontoso e próprio de quem nunca leu a sério uma só linha do grande escritor. E é próprio de quem está mais interessado em pôr-se em bicos de pés do que em servir a memória do nosso maior romancista. Convida-se o maior número de pessoas e instituições culturais a manifestarem-se contra este sinistro atentado. Bastaria, de resto, colocar-se uma simples lápide no panteão, deixando os ossos do grande homem em paz, onde ele sempre gostou que ficassem! Estas iniciativas devem sempre partir de gente culturalmente equipada para as tomar e não de políticos ansiosos por fazerem currículo. Bons deuses,  há limites para o dislate!"
                                                                                                  26.08.2023
Eugénio Lisboa,
que pede a todos os que leiam estas palavras e com elas concordem o favor de as divulgar.

Fantasmas na casa

Já, então, escondíamos segredos:
não eram só coisas que nós fazíamos.
Os adultos também tinham enredos
e, ao sabê-los, estarrecíamos!
 
Casas eram armazéns de fantasmas,
esqueletos fechados em armários,
uma atmosfera onde havia miasmas,
os prazeres, às vezes, adversários!
 
A alegria cedo profanada,
a inocência algo conspurcada,
a esperança algum tanto ardida,
 
algum gosto perdido na corrida.
Poder-se assim minar o paladar,
de quem tanto podia vir a dar!
                            26.08.2023
Eugénio Lisboa

A melhor Biblioteca Pública de 2023 e o livro " Falar à moda do Porto"

 
A melhor Biblioteca Pública do ano tem nome de Prémio Nobel 
"Uma biblioteca de Barcelona, batizada com o nome de Gabriel García Márquez, foi declarada Biblioteca Pública do Ano. O Prémio Nobel viveu na cidade durante quase uma década, entre 1967 e 1975. Especializada em literatura latino-americana, esta biblioteca fica no bairro operário de Sant Martí e, segundo a Monocle, foi descrita como "uma maravilha arquitetónica e funcional" pela Federação Internacional das Associações e Instituições de Bibliotecários (IFLA). Num evento em Roterdão, a federação elogiou a biblioteca pela flexibilidade dos seus espaços e serviços, pela sua interacção com o ambiente e a cultura local e pelo seu compromisso com a aprendizagem. Inaugurado em 28 de Maio de 2022, o edifício foi concebido para se assemelhar a uma pilha de livros. A biblioteca tem seis andares, com uma estrutura de madeira exposta de quase 4.000 m². O equipamento incorpora estratégias sustentáveis que lhe permitiram obter a certificação Gold LEED, um sistema internacional de certificação de edifícios sustentáveis que se baseia na incorporação no projecto de aspectos relacionados com a eficiência energética, a utilização de energias alternativas, a melhoria da qualidade interior ambiente, a eficiência do consumo de água, a selecção de materiais, entre outros. Até Julho de 2023, a biblioteca recebeu mais de 300 mil visitas, uma média de mais de mil pessoas por dia, e realizou quase 200 mil empréstimos. Durante o primeiro ano, foram feitos mais de 6.000 novos cartões." Sapo

"FALAR À MODA DO PORTO". DEZ INSULTOS "PRA MENINOS E NEM TANTO"
"Para quem não nasceu no Porto, eis o livro que contém tudo o que sempre quis saber, mas nunca teve coragem de perguntar. Com este "berdadeiro prontuário do falar portuense, passa a ser muito mais fácil entender a linguagem dos tripeiros". O SAPO24 publica em exclusivo dez das expressões incluídas na obra "Falar à moda do Porto", de João Carlos Brito, editada pela Ideias de Ler. Nas livrarias a 7 de Setembro
1. Calhau com dois olhos
Estúpido, acéfalo. Aplica-se para desqualificar completamente alguém, comparando-o com um calhau, uma pedra, que é desprovida de inteligência. O animismo com dois olhos aumenta, sem dúvida, o efeito pretendido, pois a verdade é que o facto de acrescentar a visão a um mineral não lhe confere qualquer vantagem. É como se visse as coisas, mas não percebesse nada.
2. Cara de cu à paisana
Feio, antipático. Expressão utilizada para referir alguém, conhecido ou desconhecido, de quem não se gosta. A associação é feita de duas maneiras: primeiro a referência ao rosto, nada agradável, que mais parece um traseiro; e depois o facto de andar dissimulado, à paisana, numa alusão implícita às autoridades policiais, que também são vistas por muita gente com desconfiança.
3. Cu d’arroba
Anafado, que tem nádegas muito volumosas em relação ao resto do corpo. Aqui, o tripeiro andou sempre muito à frente. Antes da moda do traseiro‑camião, ao estilo Kardashian, era inestético e motivo de gozo o facto de alguém ter as nádegas avantajadas. A alcunha mais vulgar era a de cu d’arroba, ou seja, como que a dizer que só o traseiro pesava 15 quilos (uma arroba).
4. Lambão
Guloso. Egoísta. Ora aqui temos um termo que no Porto ganha especial sentido, sendo, de resto, uma das palavras mais tripeiras. Se, por um lado, o lambão é aquele que se lambuza quando come (comilão, lambareiro), por estes lados aplica-se igualmente ao indivíduo que quer tudo só para si, que não quer repartir com ninguém. Isto pode acontecer na culinária, num jogo de futebol, enfim, em qualquer situação.
5. Lambe-cricas
Homem muito fraco, a quem falta virilidade e que anda sempre à volta das senhoras, mas para procurar companhia, e não sexo, o que era extremamente reprovável em termos sociais! Tido em fraca conta pelos homens ditos “a sério”. Aponta para a incapacidade de ter uma relação sexual como “debe de ser”. Quando muito, alude ao sexo oral. Do grego krikos, anel, a crica é, por associação visual, o órgão sexual feminino. No Porto, também se chama lambe-cricas a um cão de pequeno porte.
6. Lavajão
Porco, sem asseio. Diz-se do que come qualquer coisa e qualquer tipo de mistura. O prato de um lavajão é inqualificável, bem como o espaço que o rodeia, onde reina a lavajice. Come sem aprumo, sem quaisquer critérios e literalmente tudo e por qualquer ordem. Virá de lavagem, que era a comida (constituída por restos, alguns já em estado de putrefação) que se dava aos porcos. Também existe a expressão boca de lavagem, que descreve alguém desbocado ou intriguista.
7. Manguela
Preguiçoso, calão, malandro. O que não gosta de trabalhar. Possivelmente, provirá do gitano mangar, de raiz sânscrita, que significa pedir, mendigar e, num outro sentido, iludir, enganar, mantendo um ar sério, características que cabem direitinho no nosso manguela. O verbo será responsável pela criação dos neologismos manguelarmanguelice e, claro, manguela.
8. Morcão
Lorpa, estúpido. Pessoa lenta, lerda de ideias. Insulto que pretende comparar o visado com o bicho larvar da fruta, na medida em que é desprovido de inteligência. Morcón é também um enchido de carne magra, da região espanhola da Extremadura, feito com intestino grosso de porco.
9. Nhonhinha
Atado, palerma. Pessoa pouco desenrascada. Abreviatura de panhonha, lorpa, ou possível corruptela de choninha, por efeito exagerado de onomatopeia em nh, que pretende ironizar a forma nada eloquente de falar de um nhonhinha – alguém de poucas convicções, apalermado e nada firme nas suas opiniões e atitudes.
10. Trambalazana
Ou trombalazanatrambalazanastrombalazanas. Desajeitado, homem apalermado, alto e corpulento, mas de uma forma desengonçada. A palavra refere também um individuo mal-encarado, rude, sendo sinónimo do popular trombudo. A explicação poderá estar na medicina popular, pois o termo, em certas regiões do Norte, designa também um ataque súbito, uma doença repentina e que pode deixar marcas."
Sapo, 24 de Agosto

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Patagonia

 
Patagonia é uma das regiões mais belas do mundo. Diversa e rica de paisagens,surpreende-nos a cada momento. Este filme 4K Scenic Relaxation,   de Man And Drone, é um hino a essa beleza. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Louvar um ex-amigo morto

Putin e Prigozhin
 
O ex-amigo de Putin ardeu,
enquanto voava para Moscou.
Embora se saiba quem o abateu,
vai ser chorado por todo o bom povo.
 
Até o assassino o vai louvar,
agradecendo os serviços prestados.
E até o vai, talvez, condecorar,
postumamente, de olhos turvados.
 
É o duro fardo de quem governa,
queimar o amigo que incomoda;
ter, tantas vezes, de passar a perna
 
a quem tanto sabia da poda!
Amigo morto é amigo afastado,
ficando o Estado mais sossegado.
                            24.08.2023
Eugénio Lisboa

A poesia é como a pintura

A poesia é como a pintura
  Horácio, A Arte Poética


"Há no mundo uma conjura geral e permanente contra duas coisas, a poesia e a liberdade; as pessoas de gosto encarregam-se de exterminar uma, tal como os agentes da ordem de perseguir a outra .”
Gustave FlaubertCorrespondência

“Interrogamo-nos acerca da poesia? Desejaríamos saber o que pretende ela, aquilo que pretende de nós. É que muitas vezes não nos diz nada. Palavras, fragmentos de frases, balanceadas, hesitantes, versáteis, palavras que não conseguimos reter.
Refrões de cançonetas, talvez? Mas então onde está a música?
Talvez músicas silenciosas, tocadas no fundo da água, a cem braças de profundidade.
Os outros poemas, todos os poemas célebres, organizados, compostos, exércitos em armas que marcham a passo certo. Não estamos lá quando passam. Viramos a cara, vamos procurar noutro lado […]
Agora, depois de Iniji, já não interrogamos. Há uma certeza. Viu-se qualquer coisa, seguiu-se essa coisa, como se a gente estivesse a fazê-la, como se tivesse encontrado ouvidos para escutar a música do fundo da água.
Não é como os outros, este poema, não distrai, não se esquiva. Na verdade não está escrito, encontra-se ali na página por acidente, e deve estar também algures, gravado numa árvore, por exemplo, ou inscrito na terra seca, ou tatuado então na pele humana. Claro que não está apenas escrito. Passou pelo tremor da escrita, foi assim que apareceu primeiro. Mas não existe somente nesse tremor, não existe somente para os olhos. Existe algures, em volta, no ar, nas nuvens, na folhagem das árvores vistas à distância, no mar, na erva calcada de uma pista. E nas ruas de uma grande cidade, entre as paredes dos prédios acompanhando o movimento dos automóveis, os cláxons, as luzes, a multidão.
Deve estar lá há muito tempo pois, quan“do o lemos, reconhecemo-lo imediatamente.
Não o procurávamos, nem procurávamos sequer o nome de um autor. Íamos ao seu encontro sem saber, e ele vinha ao nosso encontro seguindo o seu curso de cometa que se aproxima, roça e desaparece. […]
O poema veio de longe, assim, tranquilo, com os seus gestos, a sua vida, para nos reencontrar.
Insensato, móvel, penetra em nós e escuta-nos. Ou éramos nós que não tínhamos corpo, e temos agora o corpo e Iniji. Não sabíamos falar. […] Longe deste poema, a vida era surda, sussurrada, pois todas as palavras da linguagem normativa (a linguagem das teses e das antíteses, a linguagem das análises, dos juízos e proclamações solenes) eram unicamente um lento nevoeiro roçando a face da matéria. Era possível que nos confundissem com os torrões e calhaus.
[…] Como é possível? Onde nos encontrávamos então, antes, antes de Iniji? […]
Iniji não existe. Cada vez que dela nos apercebemos, a língua estala e a palavra morre. Interrompida antes de entrar no mundo. Reflexos, talvez, porquanto as suas palavras não são palavras. Se retemos um nome, felizes por saber aquilo que surgirá, ele rebenta. Não há nomes, só bolhas. Balbuceios de bebé, Iniji, Ananiá, Inji, Djã dã dã, Irritilili. […]”
J.M.G. Le Clézio, De Um poema (Iniji) que não é como os outros
Herberto Helder, in As magias : poemas mudados para português , Assírio &Alvim

"A verdadeira poesia mantém a mesma distância da insensibilidade e do sentimentalismo."
Hugo Von Hofmannsthal O Livro dos Amigos

"O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há verdadeiro poema que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para além daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia."
José Tolentino MendonçaA noite abre meus olhos

"Um dos méritos da poesia, que muita gente não percebe, é que ela diz mais que a prosa e em menos palavras que a prosa."
Voltaire , Miscelânia de Filosofia

"Nunca ninguém foi um grande poeta sem ter sido ao mesmo tempo um grande filósofo."
Samuel Coleridge, Biographia Literária

Arte Poética
"A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça.
Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulos da janela, ressonâncias das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. […]
Se um poeta diz “obscuro”, “amplo”, “barco”, “pedra” é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida."

Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética  

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Encantamento

ENCANTAMENTO: "É nisso precisamente que reside um dos elementos de sedução da música: ela representa a perfeição de uma maneira suficientemente fluida e ligeira para podermos prescindir do esforço." 
Albert Camus,"Escritos de Juventude" 

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Ri de ti próprio

 
Ri de ti próprio
 
Aqueles que não sabem
rir de si próprios deixam
o trabalho para os outros.
     Babamail
 
Há pessoas que estão sempre sérias:
não foram formatadas para rir.
São gente que não gosta de ir de férias,
porque não sabem para onde ir.
 
Nem de si próprias elas sabem rir,
porque se tomam a si muito a sério.
Rirem-se de si seria trair
a sua aura de grande mistério.
 
Então, fica pra outros o trabalho
de se rirem deles o necessário,
que melhor se consegue com chocalho.
 

Ser sério é alegria ao contrário,
é não beber água se se tem sede,
fechar a vista com feia parede.
                        22.08.2022
Eugénio Lisboa

Sobre o livro


"É verdade que os livros legitimaram acontecimentos terríveis, mas também sustentaram os melhores relatos, símbolos , saberes e invenções que a humanidade construiu no passado. Na Íliada contemplamos a lancinante aproximação entre um idoso e o assassino do seu filho; nos versos de Safo descobrimos que o desejo é uma forma de rebeldia; nas Histórias de Heródoto aprendemos a procurar a versão do outro; na Antígona vislumbramos a existência da lei internacional; em As Troianas enfrentamos a própria barbárie; numa epístola de Horácio encontramos a máxima " atreve-te a saber"; em A Arte de Amar de Ovídio fizemos um curso intensivo de prazer; nos livros de Tácito compreendemos a ditadura; e na voz de Séneca ouvimos um primeiro grito pacifista. Os livros legaram-nos algumas ideias dos nossos antepassados que não envelheceram muito mal: a igualdade entre os seres humanos , a possibilidade de escolher os nossos dirigentes, a intuição de que talvez as crianças estejam melhores na escola do que a trabalhar, a vontade de usar - e diminuir - o tesouro público para cuidar dos doentes , dos idosos e dos mais fracos. Todas estas invenções foram descobertas dos antigos, esses aos quais chamamos clássicos , e chegaram até nós por um caminho incerto. Sem os livros , as melhores coisas do nosso mundo teriam caído no esquecimento."
Irene Vallejo, in O Infinito num junco, a invenção do livro na Antiguidade e o nascer da sede de leitura, Bertrand Editora, Lisboa 2021, p 401.

domingo, 20 de agosto de 2023

Os velhos sabem pouco e pesam muito no orçamento

 

Não sou suficientemente novo
pra me dar ao luxo de saber tudo,
dizia Wilde, sem ir a Moscovo,
onde, de resto, ficaria mudo.
 
Os velhos sabem todos quase nada:
com o tempo, esqueceram o que sabiam.
Mas, nos jovens, o saber sobrenada
e, com tal saber, tudo alumiam!
 
Quanto menos se sabe mais se sabe,
é o farol que guia a juventude;
não há, de facto, saber que acabe,
 
se a ignorância é cheia de atitude.
Sabem tudo os jovens que nada sabem,
por isso é bom que os velhos acabem!
                            20.08.2023
Eugénio Lisboa
 
Nota: Por enquanto, é só uma cantiga de escárnio e maldizer. Mas lá chegaremos, lá chegaremos, e não vai ser preciso esperarmos muito. A aceleração para o pior é cada vez maior. Não tarda muito, os velhos vão ser os principais culpados de tudo. Há por aí muito monte, para onde os levar, dando-se-lhes uma manta.

Ao Domingo Há Música


Madrigal  
A minha história é simples.
A tua, meu Amor
é bem mais simples ainda:

"Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta..."

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois).
Sebastião da Gama, 'Antologia Poética'

Um dia, um encontro e a vida desenrola-se durante vinte anos...
"One day", o filme baseado no livro "Um dia", de David Nicholls, com banda sonora composta por Rachel Portman.

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sábado, 19 de agosto de 2023

Dez pérolas de Oscar Wilde para ler antes de dormir

 
Não quero ir para o céu. Nenhum dos meus amigos está lá.
 
Um verdadeiro amigo apunhalar-te-á sempre pela frente.
 
Tu gostarás sempre de mim. Eu represento, para ti, todos os pecados que nunca terás a coragem de cometer.
 
Eu não sou suficientemente novo, para já saber tudo.
 
Uma coisa não é necessariamente verdadeira, só porque um homem morre por ela.
 
A verdadeira essência do romance é a incerteza.
 
O homem é o menos possível ele mesmo, quando fala de si. Dá-lhe uma máscara e dir-te-á a verdade.
 
Deus, ao criar o homem, de certo modo exagerou a Sua própria capacidade.
 
Perdoa sempre aos teus inimigos. Nada os irrita tanto.
 
Viver é a coisa mais rara no mundo. A maior parte das pessoas limita-se a existir.
 
Boa e  suave dormida!
Eugénio Lisboa, 19.08.2023