sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Interlúdio musical

Sara Correia, em Dizer Não.
 
Gisela João, em Canção ao Coração.  
Cuca Roseta, em Também te Amo.
 
                                         Teresa Salgueiro, em Alegria .

Baiano é um estado de espírito

Baiano é um estado de espírito
 por Jorge Amado
"Baiano quer dizer quem nasce na Baía, quem teve este  alto privilégio, mas significa também um estado de espírito, certa concepção de vida, quase uma filosofia, determinada forma de humanismo. Eis por que homens e mulheres nascidos em outras plagas, por vezes em distantes plagas, se reconhecem baianos apenas atingem a fímbria desse mar de saveiros, as agruras desse sertão de vaquejadas e de milagres, os rastros desse povo de toda resistência e de toda gentileza. E como baianos são reconhecidos, pois de logo se pode distinguir o verdadeiro do falso. Aqui entre nós: tem gente que há vinte anos tenta obter seu passaporte de baiano e jamais consegue pois não é fácil preencher as condições e como diz o moço Caymmi, nosso poeta, “quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim”.
Pierre Verger, mestre francês de artes e de ciências, andou meio mundo, cruzou caminhos do Oriente e do Ocidente, mares e desertos, montanhas e arranha-céus; era um ser errante, um inquieto. Já duvidava da alegria quando de súbito a encontrou ao chegar às ladeiras da cidade do Salvador da Bahia de Todos-os-Santos. Viu realizado seu sonho antigo na civilização mestiça que aqui plantámos e construímos com a nossa democracia racial. Chegara à pátria de seu coração.
Foi reconhecido e confirmado e, em festa de dança e canto, no terreiro recebeu o nome de Oju Obá. As iaôs dançaram em sua honra, sentou-se Pierre entre os notáveis de Xangô, entre os notáveis da Bahia. Sábio de Paris, feiticeiro da África, baiano dos melhores.
Muitos são os baianos nascidos noutras terras que nos têm trazido a contribuição de seu trabalho criador. O pintor Henrique Oswald, tão cedo falecido, quando alcançava sua completa maturidade de artista. O poeta Odorico Tavares, intemerato defensor de cada pedra de nossa cidade. O gravador Karl Hansen, da Alemanha, que juntou ao seu nome o da terra prometida: hoje se chama Hansen Bahia. Mestre Rescala, a quem tanto devemos pois preservou e restaurou tesouros de arte ameaçados pelo tempo e pela insídia dos governantes.
Baianos nascidos na Amazônia, os poetas Carlos Eduardo da Rocha e seu irmão Wilson, o psiquiatra Rubim de Pinho; no Maranhão, o desenhista e pintor Floriano Teixeira; em Sergipe, Jenner Augusto e José de Dome, mestres pintores, o historiador José Calazans e os jornalistas João Batista de Lima e Silva e Junot Silveira. Vindos de Portugal, como o padre Vieira que aqui desembarcou ignorante e tapado, dura cabeça de pedra — apenas aspirou o ar baiano, deu-lhe um estalo na cabeça, a pedra virou talento, floresceu no padre mais inteligente do mundo — e Antônio Simões Celestino, flor dos Celestinos da Póvoa do Lanhoso. O mais baiano de todos os baianos é o pintor Carybé, nascido no mar, dos ilícitos amores de Iemanjá com um certo senhor h. j. p. de Bernabó, de duvidosa nacionalidade.
Baiano é um estado de espírito."
Jorge Amado, in  Bahia de todos-os-santos, Companhia das Letras, 2012

SOBRE O LIVRO
“Esse é bem um estranho guia”, diz Jorge Amado no “Convite” que abre Bahia de Todos-os-Santos. “Com ele não verás apenas a casca amarela e linda da laranja. Verás igualmente os gomos podres que repugnam ao paladar.” Essas palavras resumem o espírito deste livro sui generis sobre a cidade de Salvador. Escrito originalmente em 1944, no auge da luta antifascista, manteve em suas sucessivas atualizações a abordagem visceral que o transformou numa obra ao mesmo tempo de celebração dos esplendores da cidade e de denúncia de suas muitas mazelas. A versão definitiva só ficou pronta em 1986. Quem melhor do que Jorge Amado, que cantou em tantos livros a “cidade da Bahia”, povoando suas ruas com personagens inesquecíveis, para fazer esse retrato de corpo inteiro da capital baiana? Pelas páginas deste livro desfilam as belezas arquitetônicas da metrópole – suas igrejas, átrios e palácios, suas ladeiras e ancoradouros -, bem como seus encantos naturais – praias, matas, morros, lagoas -, mas também o lado miserável da cidade, seus cortiços malcheirosos, a falta de saneamento e infraestrutura, o desamparo e a doença. Aqui e ali, fotografias de Flávio Damm utilizadas na edição de 1961 pontuam o que vai sendo descrito. Não se trata de um guia preocupado apenas com a descrição do pitoresco, mas de uma narrativa múltipla sobre o cotidiano da cidade e suas transformações ao longo das décadas. Do dia a dia do trabalhador braçal às receitas de quitutes baianos, da arte dos mestres da capoeira ao misticismo dos terreiros de candomblé, dos pequenos crimes dos “capitães da areia” à dura poesia dos pescadores e mestres de saveiros, da universidade às festas religiosas e pagãs, a vida de Salvador pulsa a cada parágrafo. Moradores da cidade, ilustres ou anônimos, são evocados aqui com a mesma vitalidade e frescor dos personagens dos romances do autor, convertido em cicerone que abre as portas de sua grande casa aos leitores do mundo."

FICHA TÉCNICA
Título: Bahia de todos-os-santos
Páginas: 400
Formato: 21 x 13.6 x 2.4 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 17/08/2012 (1ª edição)
ISBN: 978-8535921373
Selo: Companhia das Letras

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O poema

Herberto Helder (1930-2015) “O poema, VII” in «A Colher na Boca» (1961) 
Dito pelo próprio num disco Vinyl, editado pela Philips, 
para a série Poesia Portuguesa (1968). 

O poema
VII

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
.
É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

– Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
.
– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
Herberto Helder, in  Poemas completos. Série Grandes Escritores, Rio de Janeiro: Editora Tinta-da-China, 2016 – p. 39.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Até sempre, Jorge Palma!

Jorge Palma

A gente vai continuar

Tira a mão do queixo não penses mais nisso O que lá vai já deu o que tinha a dar Quem ganhou ganhou e usou-se disso Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar E enquanto alguns fazem figura Outros sucumbem á batota Chega a onde tu quiseres Mas goza bem a tua rota Enquanto houver estrada pra andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada pra andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar Enquanto houver ventos e mar Todos nós pagamos por tudo o que usamos O sistema é antigo e não poupa ninguém Somos todos escravos do que precisamos Reduz as necessidades se queres passar bem Que a dependência é uma besta Que dá cabo do desejo A liberdade é uma maluca Que sabe quanto vale um beijo Enquanto houver estrada pra andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada pra andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Jorge Palma
 
Camané em A gente vai continuar
Morreu Jorge Palma. Aos 76 anos partiu, deixando uma obra espalhada por muitas vozes e acentuada e diferentemente por ele próprio. Dono de um timbre especial, era único na interpretação de tudo o que compunha.
Um cultor e perfeccionista do piano embora ágil em outros instrumentos musicais, tinha um conhecimento musical superior que o conduziu à vasta composição de canções que vão perdurar .
Obrigada Jorge Palma. Até sempre!

Citações do dia

CITAÇÕES DO DIA

Se quiseres brilhar como o sol, terás, em primeiro lugar, que queimar, como ele.
Eu uso a emoção para muitos e reservo a razão para poucos.
Só aquele que domina a juventude domina o futuro.
Ao vencedor, nunca lhe será perguntado se disse a verdade.


Recolhi, para boa reflexão dos entusiásticos participantes do congresso do CHEGA, estes pensamentos, que foram motores de arranque de uma das maiores calamidades que assolaram a Humanidade. Tentem arrefecer as emoções e façam bom uso da razão.
O autor destes aforismos incendiários e que andam por aí, na ordem do dia, chamou-se ADOLFO HITLER.

Recolha de
Eugénio Lisboa, 14.01.2024

terça-feira, 22 de setembro de 2026

A gratidão em poesia, num Simpósio de Medicina

 Manoel de Andrade e Edson Gomes Tristão
no 7º Simpósio da Associação Médico Espírita do Paraná

O poeta Manoel de Andrade foi convidado para o 7º Simpósio da Associação Médico Espírita do Paraná, um importante encontro de médicos, com uma vasta e valiosa programação. Evento organizado   e coordenado   pelo Dr. Edson Gomes Tristão, Médico especializado em Ginecologia e Obstetrícia, Mestrado e doutorado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Professor titular de Obstetrícia UFPR e Presidente da Associação-Médico Espírita do Paraná
Manoel de Andrade, o ilustre poeta de Curitiba , encerrou o Simpósio, lendo um longo e belo  poema de gratidão  . Para justificar a escolha,  declarou que, como criatura, há três formas de nos dirigirmos a  Deus: Pedindo ou rogando alguma coisa, agradecendo por tudo o que recebemos ou louvando a Deus pela sua beleza, pela sua magnitude. Perante tudo o que foi apresentado  neste Simpósio, o poeta optou por agradecer.

Prece de gratidão

Eu te agradeço, Senhor,
ser filho do Teu amor
e herdeiro do Universo.
Ser cantor dessa beleza,
ter um lugar nessa mesa,
pelo sabor do meu verso.

Senhor, muito obrigado,
pelos pais bons e honrados
e pelas lições da pobreza.
Pelo café com farinha,
por tudo que eu não tinha
e que fez minha riqueza

Pelo meu corpo perfeito,
pela poesia em meu peito
e os anos da minha idade.
Por todo dever cumprido,
pelo amparo recebido
e o céu da imortalidade.

Eu Te agradeço também
pela semente do bem
plantada no meu pomar.
Pela doçura desse fruto
não ter me tornado um bruto
e ter aprendido a amar.

Pela água da minha fonte,
pela linha do horizonte
e um sonho de marinheiro.
Pelo meu mar de criança
e o meu barco de esperança
percorrendo o mundo inteiro.

Pelo pão, pelo abrigo,
pelo abraço do amigo,
por Teu carinho invisível.
Agradeço-Te com veemência
esta paz na consciência
e a minha fé invencível.


Pela luz que me ilumina
desde a antiga Palestina
na alegria e na dor.
Por quem sou, pelo que sei,
por Moisés trazendo a Lei,
por Jesus trazendo o amor.

Senhor, eu Te agradeço
pela dor e o tropeço
quando ensinam uma lição.
Ninguém paga sem dever
e a Lei obriga a colher
o efeito da nossa ação.

Pela sapiência contida
no pergaminho da vida,
na magia e na razão.
Agradeço-Te a minha parte,
pela ciência, pela arte
e pela Grécia de Platão.

Por Cabral no rumo certo,
pelo Brasil descoberto,
pela pátria e o cidadão.
Pelo herói da Inconfidência,
o Grito da Independência
e a bênção da Abolição.

Pelas lições da História,
pelo povo e a sua glória
na busca da liberdade.
E pela Humanidade inteira,
quando erguer sua bandeira
pela paz e a verdade.

Grato sou por ter um sonho,
sonhar com um mundo risonho
numa paz contagiante.
Ver este Brasil fecundo,
como o coração do mundo,
em um porvir deslumbrante


Agradeço o bom combate,
e ter encarado esse embate,
com o coração despojado.
Com Tua luz nos meus passos,
a fraternidade em meus braços
e o meu sonho preservado.

Contigo, Senhor, sou forte,
tenho um fanal, tenho um norte:
amor, sensibilidade.
Eu moro na melodia,
na música, na poesia
e no farol da verdade.

Muito obrigado, Senhor
pelo trabalho e o suor,
pelo que dei e recebi.
Quando chegar meu momento,
se eu tiver merecimento,
me leva pra junto de Ti.
Curitiba, Dezembro de 2002
Manoel de Andrade, in As palavras no Espelho, Editora Escrituras, São Paulo, Brasil, 2018, pp. 255-258

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

“Eis a péssima notícia: estamos perdidos, irremediavelmente perdidos. Estamos perdidos, mas temos um tecto, uma casa, uma pátria. É a nossa pátria, o lugar de nossa comunidade de destino de vida e morte. O evangelho dos homens perdidos diz-nos que devemos ser irmãos, não porque seremos salvos, mas porque estamos perdidos”
Edgar Morin, in Terra-Pátria, Edições Piaget, Abril 2001
Sinopse do livro:
"Este é o quinto século da era planetária. A irrupção de forças obscuras e bárbaras convive com a mundialização do desejo de vida, de uma qualidade de vida superior.
Os indícios de morte e de vida confundem-se. Esta situação agónica não resulta apenas de novas crises que vêm avolumar os conflitos tradicionais. É, antes, um todo que vive de ingredientes conflituais, críticos problemáticos e que encerra em si o principal dos problemas: a impotência da humanidade para se tornar humanidade. A presente obra propõe uma reformulação de pensamento que nos permita conceber todas as coisas no seu contexto e no todo planetário, uma definição das nossas finalidades, enquanto seres terrestres. Privados da certeza da salvação podemos, no entanto, enunciar um evangelho da perdição. A tomada de consciência, por parte da comunidade humana, em relação ao seu destino no planeta Terra deverá constituir o acontecimento-chave do fim do milénio. Estamos solidários neste e com este planeta. É a nossa Terra-Pátria."

domingo, 20 de setembro de 2026

Ao Domingo Há Música


Tens os olhos de Deus,
E cada qual com os seus
Vê a lonjura que quer,
E quando me tocas por dentro
De ti recolho o alento 
Que cada beijo trouxer. 
E eu preciso de mais, 
Preciso de mais.
 Pedro Abrunhosa

O calor anda no ar. Traz dias longos e de grande azáfama . Nem sempre chegam para os sonhos que lhe pomos. E rodam, expandem-se em sonhos de ansiados tamanhos. Sonhos que são apenas sonhos para dar cor e mais luz aos dias.
As vozes, que se apresentam,  transformaram  momentos reais em momentos de inenarrável sonho.

Dulce Pontes, em Ondeia.  Música e Letra: Dulce Pontes.
Fotografias: Joana Constante - Coliseu do Porto 17 Janeiro 2015 / Montagem: Carlos José.
  
Mariza , em  Chuva , composição de  Jorge Fernando (Concerto em Lisboa).
   
Ana Moura, em  Tens os Olhos de Deus , composição de Pedro Abrunhosa ( Antena 3).
   
Carlos Do Carmo e Camané, em  Por Morrer Uma Andorinha.
   
  Amália Rodrigues, em Gaivota. Música de Alain Oulman e poema de Alexandre O´Neill.

sábado, 19 de setembro de 2026

O último poema

O último poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira, in  50 poemas escolhidos pelo autor, Ed. Cosac Naify – São Paulo, 2006, pág. 35.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Uma vergonhosa e hipócrita mentira


Não há boas maneiras nas guerras
por Eugénio Lisboa
“Quando se diz que, nas guerras, deve haver boas maneiras, códigos de conduta, separação de civis e combatentes, Cartas das Nações Unidas de 1945, sobre o genocídio, a Convenção de Genebra, de 1949, para tornarem as guerras mais “decentes”, mais “cuidadosas”, mais “cavalheirescas”, está-se simplesmente a vender uma vergonhosa e hipócrita mentira. Nas guerras, nunca há boas maneiras e os actuais e poderosíssimos meios de destruição, ao dispor dos exércitos de quase todos os países, não permitem finas distinções entre civis e combatentes, entre massacre e genocídio, entre guerra limpa e guerra suja. A segunda guerra mundial foi suja, a guerra do Vietnam foi suja, a guerra do Iraque foi suja, as guerras do Afeganistão foram sujas, as guerras coloniais foram sujas e a actual guerra israelo-palestiniana está a ser sujíssima. Dos dois lados. Sempre dos dois lados. Em todas elas se praticaram e praticam as maiores e desnecessárias atrocidades. Não dá para dizer quem tem razão. Quem mata, esteja de que lado for, não tem razão. Só tem razão quem morre e não devia morrer. As razões que se dão para uma guerra são sempre desrazões. A Batalha de Ourique, a Batalha de Aljubarrota, provavelmente, foram também sujas, embora em escala menor porque se matava menos e, nessas, não se confundia civis com combatentes. Mas TODA a guerra é inerentemente suja e infame. O recurso à guerra, nas sociedades modernas, deveria ser considerado crime e evitado a todo o custo.  Produzir uma espingarda, ou um canhão ou um caça, como disse Dwight Eisenhower, que era um general que ganhou uma guerra, é tirar pão a quem tem fome e é tirar aquecimento a quem tem frio. Ou se proíbem as guerras ou não se proíbem. Mas, enquanto se não proibirem, ninguém tem direito à boa consciência dos que inventam a história da carochinha das “leis da guerra”. Na guerra não há leis, a não ser a do mais forte, que é uma lei da selva. Permitir a um psicopata como Putin ou um autista perigoso, como Kim Jong Un a posse de armas nucleares  (e, em suma, a todos os que as possuem) é realmente andar a brincar à beira do abismo. Só uma total impotência internacional de pôr cobro a esta insensatez pode justificar que se tenha chegado a 2023, com guerras santas, apoiadas por um islamo-esquerdismo muito mau ou por um não menos mau israelo-direitismo. As finas distinções para salvar a face da barbaridade que é a guerra são meros eufemismos para serem usados pelos fautores da guerra, que querem dormir sossegados. Nas guerras, esses códigos nunca são respeitados, nem por atacantes nem por atacados. No Vietnam fizeram-se aos vietnamitas as maiores atrocidades e no Afeganistão, durante a invasão, os afegãos serravam as pernas e os braços aos prisioneiros soviéticos, o que não impede a actual love story entre o Islão e uma certa esquerda (o tal islamo-esquerdismo).
Meus caros senhores e senhoras, nada de hipocrisias, encarem a verdade de frente: as guerras, mesmo as “justas” são crimes abomináveis. Basta ver o rosto aterrado e emudecido de uma criança na faixa de Gaza. Culpado? HAMAS e ISRAEL. Os criminosos estão SEMPRE dos dois lados. Hitler poderia perfeitamente ter sido travado a tempo e a França até estava mais bem armada. E a primeira guerra mundial também foi tudo menos inevitável. A inevitabilidade das guerras é outra história da carochinha. Compre-a quem quiser.”
Eugénio Lisboa, 31.10.2023

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Sobre um mundo em turbulência

Gente zangada
por Eugénio Lisboa

 

Se não formos autorizados a rir

 no Céu, não quero ir para lá.

Martinho Lutero


“Há gente, talvez bem intencionada, com bons propósitos de querer salvar o mundo, mas que está sempre zangada. Talvez por estarem zangados consigo próprios, não conseguem estar de bem com quase ninguém. O notável poeta e crítico inglês, do século XIX, Matthew Arnold, era por toda a gente considerado uma excelente pessoa, mas estava sempre zangado com tudo e com todos, de modo que se dizia, dele, que, boa pessoa que era, iria com certeza para o céu, mas que não iria gostar de Deus. São pessoas que, em vez de se rirem com uma boa piada, se zangam. Querem salvar o mundo e os homens, mas, no fundo, não gostam nem do mundo nem dos homens que querem salvar. Parafraseando o pérfido e brilhante Wilde, diria que é preciso termos um coração de pedra, para não desatarmos a rir com tanta zanga.
Lido com gente assim, há muito tempo. Visam a felicidade da Humanidade, mas são incapazes de a construir em casa. Não sabem rir, coisa perigosa. Mesmo, quando o fazem, como não foram formatados para isso, fazem-no com um rictus de sofrimento. Woody Allen dizia de si próprio: “A maior parte do tempo, não tenho muita graça. O resto do tempo não tenho graça absolutamente nenhuma.” Esta gente zangada de que falo vive sempre no resto do tempo de Woody Allen. Repito, são perigosos. Como não sabem rir, não são capazes de se rir de si próprios e, por isso, não sabem fazer autocrítica. Acreditam em projectos grandiosos, mas não são capazes de resolver pequenos problemas domésticos. Têm visões planetárias, mas tropeçam na primeira pedra que lhes saia ao caminho. E, normalmente, riem-se quando não devem. São gente para fazer grandes purgas, quando não se pensa como eles. Diga-se, de passagem, que “pensar” não é o seu forte. Não gostam de pensar e odeiam visceralmente quem pensa pela própria cabeça. Preferem receber “directivas” de autoridades reconhecidas. Bertrand Russell dizia, com imensa graça, que, quando nos cortam a cabeça, a nossa capacidade de pensar diminui consideravelmente. É o que se passa com esta gente zangada, que pulula nas redes sociais: andam por aí, dando pulos desorientados, como galinhas decapitadas.”
Eugénio Lisboa, 04.11.2023

Glosa sobre o fanatismo

O fanatismo embrutece
ou a estupidez fanatiza?
A burrice não me enternece
e o fanático barbariza.

O fanático tem certezas,
onde certezas não existem:
estão repletas de bichezas
que são nocivas e persistem.

A fé não é conhecimento,
pelo menos, até mais ver.
Transforma o mundo em turbulento
e estupora o bom viver.

Crê quem desiste de entender,
por isso o crente é perigoso:
quando não sabe convencer,
vira tirano afanoso.

O fanático não tolera
aquilo que não compreende:
torna-se logo uma fera,
filha bastarda de duende!
                    25.10.2023
Eugénio Lisboa, poema inédito

Dou isto à meditação dos actuais “iluministas”, totalmente embevecidos com os fanáticos que por aí proclamam, aos gritos, um óbvio desejo de hegemonização religiosa do planeta, para maior glória de um deus soturno e nada misericordioso, que veneram. Eles nem sequer escondem ao que vêm. E os “iluministas” acolhem-nos de braços abertos, decididos a serem, por eles, devorados. Já se tem visto e a História, afinal, repete-se.
O fanatismo e a ignorância militante são os maiores inimigos actuais deste pobre planeta. E o bem intencionismo enviesado dos “iluministas” dá à catástrofe uma boa ajuda.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Parabéns, querido pai

 A saudade , pai, é aquilo que nos fica de tudo o que deu peso e razão à vida. E hoje a nostalgia cresce em mim, com maior intensidade . Hoje, querido pai, festejava-se o seu aniversário. Era criança , quando o descobri. E nunca mais o deixei fugir. Todos os anos, surgia radioso porque era, apenas e tão só,  o  seu dia. Engalanava-se a casa e todos, (éramos muitos), se concertavam nessa festa de vida. 

Não sei como crescemos tão depressa. Num ápice, já não éramos filhos, mas também pais que traziam os filhos para a sua festa. E o dia era ainda maior e mais radioso. Um dia de muitos sorrisos, de muita memória viva. 

Hoje, pai, estou aqui à espera de um dia que não chega. O dia que foi sempre  seu. Um dia que vive no coração . Um dia que continuo a não deixar fugir. Mas um dia que dói de tanta saudade de si.

Parabéns, querido pai.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Era em Setembro


Que fazer sem ti?

Era em Setembro nos anfiteatros vazios,
na alameda que subia para onde nos devíamos encontrar,
e não estavas; era um outono que caía sobre
as árvores do estádio, empurrando-lhes
as folhas para cima da mesa da esplanada, onde está vazia a mesa em
que as minhas mãos deviam procurar as tuas; era
a tua ausência em todos os lugares em que eu sabia
que poderias estar à minha espera, e só a sombra
das nuvens me trazia a memória da tua passagem, como
se fosses a ave que parte quando o primeiro sopro
do inverno se anuncia.

Que fazer sem ti, nestes anfiteatros de bancos
vazios, nos corredores melancólicos que levam para
átrios e pátios, nesses relvados onde não vale a pena
sentar-me, perguntar-te se gostas do outono, ou dizer que
os teus olhos é que valem a pena, agora que vejo, neles,
as nuvens que correm para o sul? E tu, sem estares aqui,
dizes-me que não é preciso que eu me lembre de ti; que
estás para chegar, de trás das árvores do estádio, para
limpares de folhas a mesa da esplanada, e pedires-me que
pegue nas tuas mãos, como se o inverno
não estivesse para chegar.

Mas um cansaço antigo prende-me a estes bancos
de anfiteatro; uma indecisão de passos empurra-me por
corredores e salas, em busca de um bar que fechou
há muito; o vento varreu as folhas da mesa
da esplanada, tirando a única justificação para que venhas. Abro,
então, as gavetas do passado. Tiro cartas, fotografias,
poemas, o livro em que me escreveste a frase interrompida
do amor. Como se eu não soubesse que as nuvens encheram
de sombra todas as imagens; que os pássaros levaram
para o sul tudo o que tinhas para me dizer; que
as folhas no chão cobriram o teu corpo, antes que
o inverno tivesse de o fazer.
Nuno Júdice, in Cartografia de Emoções,   Publicações Dom Quixote, 2001
Gilbert Bécaud, em C'est en Septembre

domingo, 13 de setembro de 2026

Ao Domingo Há Música



De meu estado incerto, ou choro ou canto,
e temo e espero; e entre o suspiro e a rima,
alivio o meu fardo: e Amor me lima
o peito com tal força que me espanto.

Francesco Petrarca, Sonetos

É verdade, nós amamos a vida, não porque estamos acostumados à vida, mas porque estamos acostumados a amar. Há sempre alguma loucura no amor, mas há também sempre alguma razão na loucura.
Francesco Petrarca

Francesco Petrarca, (Arezzo, 20 de Julho de 1304 — Arquà, 19 de Julho de 1374), foi um intelectual, poeta e humanista italiano, famoso, principalmente, devido ao seu romanceiro. O soneto mesmo, como forma poética, é uma invenção de Petrarca., pois foi ele quem o sintetizou e lhe imprimiu as marcas principais que se conservam intactas até hoje . É, por tal,  considerado o inventor do soneto, poema composto de 14 versos.
No século XVI, Petrarca inspirou e tornou-se  a matriz da lírica de outros poetas geniais como Camões e Shakespeare.
Apenas, como introdução à selecção musical deste domingo, fica a referência ao grande vulto das letras italianas. Foi considerado um dos precursores do Humanismo Renascentista, o ilustre Francesco Petrarca, pai do soneto, essa forma tão laboriosa de fazer poesia.
Em 1327 , ano em que conheceu a aristocrata "Laura de Noves", por quem nutriu um amor platónico, passou ,ininterruptamente, a dedicar-lhe os melhores poemas de seu “Canzoniere”.
A poesia é a expansão da alma. E, quando se junta à Música, a obra de arte transforma-se em transcende magnificência.
Os italianos têm na sua História uma vasta e rica tradição musical que , para além da Música Clássica ou da Ópera , tem grandiosos intérpretes até na designada música ligeira .
Hoje, o tema assenta na saudade de temas vibrantes do nosso  passado distante.
São vozes e composições que nos tocaram e ficaram na memória, quando na Europa e no mundo se cantava em italiano e em francês.


Sergio Endrigo, em Canzone per te. 
Com esta canção, composta em parceria com Bacalov e Bardotti, Sergio Endrigo venceu o Festival de Sanremo em 1968. O prémio de Endrigo foi, em parte, um reconhecimento póstumo da arte de Luigi Tenco, que tinha tirado a sua própria vida no ano anterior, durante o Festival. Sergio Endrigo, protagonista e vencedor do Festival de Sanremo, é recordado como um dos mais exemplares representantes da música italiana. Ao longo dos anos, conciliou a sua produção a solo com uma série de colaborações com poetas e escritores como Pier Paolo Pasolini, Giuseppe Ungaretti e Vinicius de Moraes. Na companhia do compositor vencedor de um Óscar, Luis Bacalov, interpretou também inúmeras canções infantis, incluindo a famosa "Ci vuole un fiore", baseada nos versos de Gianni Rodari. Neste concerto de 1981 na Rádio e Televisão Suíça Italiana, Endrigo reapresenta e interpreta alguns dos seus maiores êxitos, juntamente com canções do álbum “…e noi amiamoci” (1981), como “Mille Lire”, “Se il primo maggio a Mosca” e “Trasloco”.
 
Lucio Dalla, em Felicità.
 
Bobby Solo, em  Se piangi se ridi
   
Ornella Vanoni, em Mi Sono Innamorata Di Te. Compositor: Luigi Tenco·Maestro: Pino Calvi.
  
Mario Biondi e Amalia Grè , em Amami per sempre. Sanremo 2007.
 

sábado, 12 de setembro de 2026

AS BEM-AVENTURANÇAS


MÓDULO II - ENSINOS DIRETOS DE JESUS
                                                                           
1
AS BEM-AVENTURANÇAS
por Manoel de Andrade
     " As beatitudes são o que de mais belo, poético e profético há no Sermão da Montanha. Belo e poético pelo lírico sabor moral das palavras e profético porque anunciam aos que sofrem a plena libertação e a verdadeira felicidade no mundo espiritual.
     Esta passagem de Mateus e Lucas foi tão estudada e comentada ao longo dos tempos que vale aqui fazer uma singela reflexão lembrando de dois fatos tão significativos na história do cristianismo. Moisés subiu a uma montanha para receber os Mandamentos da Lei e Jesus subiu a um monte para nos enviar os mandamentos do coração. Entre tantas referências, por certo a mais expressiva foram as palavras de Mahatma Gandhi (1869 – 1945) quando, numa de suas reflexões, afirmou que “Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade e só se salvasse O Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” (1) Essa sábia dedução de um homem tão iluminado como Ghandi indica que essa marcante passagem do Evangelho resume todo o fundamento moral do Cristianismo. Santo Agostinho escreveu o livro “Sobre o Sermão do Senhor na Montanha” onde analisa em profundidade cada detalhe da mensagem incomparável de Jesus. Martinho Lutero (1483 – 1546) dedicou ao texto vários sermões em Wittenberg, publicados em 1532 e Francois Mauriac (1885 – 1970), o grande mestre do romance francês, que descreveu Jesus em seu livro O Filho do Homem e foi laureado com o prêmio Nobel de Literatura de 1952, comentando o mais belo discurso do Divino Mestre, afirmou: "Quem nunca leu o Sermão da Montanha, não é capaz de saber o que é o cristianismo". E mesmo diante de tanta reverência, no Ocidente, essa mensagem sublime de Jesus foi deformada pela poderosa tutela “teocrática” que tinha a Igreja sobre a consciência das pessoas. A vigilância pela pureza dogmática mantida pela intolerância do Santo Ofício negava todo o elevado significado da compaixão, da caridade e do perdão que marcaram indelevelmente as palavras de Jesus. Nascida à sombra arbitrária da cura pontifícia e do trono imperial, a Inquisição marcou o desprezo absoluto pelo significado da fé, do amor e da esperança contida no Sermão da Montanha, restando às vítimas do poder eclesiástico, o desespero, a ruína e a crença na perdição irreparável da salvação da própria alma.
     Finalmente, é indispensável acrescentar que no Sermão da Montanha, contido no Evangelho de Mateus, está descrito o nosso mais belo “caminho” para nos dirigir a Deus. É lá que Jesus nos ensina a orar com humildade e respeito ao Criador, proferindo a mais perfeita e a única prece que nos ensinou: o Pai Nosso."
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(1)https://www.pensador.com/frase/MjYzMDEyOA

                                                        
 2
DISCÍPULOS: SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO
por Manoel de Andrade
    " Este belo título nos traz muitas reflexões sobre a grandeza espiritual de Jesus, como sábio e como poeta. Além das maravilhas morais das Bem-aventuranças, há outros tantos e tão belos recantos nos Evangelhos, onde o Mestre deixou as marcas de sua indelével sensibilidade, trazendo metáforas que se imortalizaram pelo fascinante lirismo das imagens ao falar dos lírios dos campos, das aves do céu, do pão da vida, da candeia, das sementes e do joio e do trigo.
     “Vós sois o sal da terra”, disse Jesus aos seus discípulos. O que levou o Mestre fazer esta rara analogia, comparando os seus discípulos ao sal da terra? 
      Na antiga cultura judaica o sal é o símbolo da eterna aliança entre Deus e o povo de Israel. É uma alegoria com profunda significação religiosa, presente já nos primórdios dos rituais de oferendas a Deus como se lê nas primeiras páginas do Levítico: “Salgarás toda a oblação que ofereceres e não deixarás de pôr na tua oblação o sal da aliança com teu Deus; a toda oferenda juntarás uma oferenda de sal ao teu Deus.” (Lv, 2:13).  Em Ezequiel (16:4), os recém-nascidos eram purificados com o sal. No segundo livro de Reis, o profeta Eliseu purifica com o sal as águas do rio Jordão que banhava Jericó: (2 Rs, 2:20-22).
     Além do significado religioso que o sal tinha entre os hebreus, o que Jesus buscou, na sua comparação, foi associar as propriedades puras e incorruptíveis do sal, como uma substância química que tudo preserva, com as qualidades morais dos seus discípulos. Seu desejo era imaginá-los cristalinos como o sal, como um exemplo perfeito da preservação e da pureza. Como o elemento que nada corrompe e conserva tudo o que toca. O símbolo incorruptível do sal como um componente preservador da dissolução moral. Um caráter que não se contamina e que jamais se corrompe. Uma alma imune às impurezas e aos equívocos ilusórios do mundo.
     Além do “sal da terra” os discípulos foram chamados de a “luz do mundo”, porque eram investidos como os arautos da Boa Nova, trazendo acesa no Evangelho a candeia do conhecimento e da verdade. Nada se revela sem a luz. E a luz que ilumina o mundo é o Cristo. Sem ele caminhamos na penumbra.  Se buscamos, como seguidores do Mestre, ser a luz do mundo, deixemos que o amor, a verdade e a justiça brilhem em tudo o que fazemos e compartilhamos. Ser a luz do mundo significa viver com a consciência crística da verdade, porque a consciência é a lâmpada da alma, a bússola divina, iluminando nosso caminho na imortalidade."
Manoel de Andrade , in  Em Busca da verdade, reflexões e estudos sobre Cristianismo e Espiritismo, Edição do Centro Espírita Luz da Caridade, Rua Mato Grosso, 145 – Água Verde, CEP: 80260-070 – Curitiba - Paraná, pp.159 - 162

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O caminho da escola para casa


Da escola para casa 
por Maria José Vieira de Sousa
"As horas na Escola não se sentiam.  Passavam tão depressa que, nos primeiros meses, julguei existir um relógio diferente para a escola. Lá, as horas eram mais curtas. A novidade e a sedução das letras davam ao tempo uma dimensão diferente. Uma dimensão que se estendeu a toda a minha permanência na Escola Primária. Foi um tempo de encantamento contínuo. A professora ficou para sempre no retábulo dos eleitos da minha vida. Daqueles que me formaram e me tocaram indelével e persistentemente.
Quando o regresso para casa era feito pela estrada, havia uma paragem obrigatória,  que se repetia, mesmo a contragosto da Fernanda.  Ao cimo da longa estrada que saía da Vila , erguia-se uma imponente construção toda murada com grades de ferro forjado, trabalhado minuciosamente. Tinha em cada extremo um grande caramanchão , como se fossem vigias para protecção do grandioso casarão . Era pertença de um emigrante português que vivera muitos anos no Brasil e regressara rico. Era conhecida como a casa do brasileiro. Nesse tempo, havia muitos destes sinais de riqueza, vindos de emigrantes que voltavam ao solo pátrio.
Essa casa despertava a nossa curiosidade. Tinha uma colecção muito grande de pavões que nos assustava pelo tamanho e pelos sons grasnados que soltava, mas que nos atraía também. Cada um era diferente de um outro. E eram tantos, com penas de muitas e fulgurantes cores que era impossível fugir-lhes. Passeavam-se pelo jardim fronteiro à casa , deixando-se ver e contemplar. E era isso que fazíamos. Cada um de nós lançava suspiros  de regozijo ou de medo conforme se abria ou fechava a cauda, que parecia um leque gigantesco. Deslocava uma grande massa de ar que atingia os nossos pequenos rostos, encostados à vedação. Saía invariavelmente um gritinho de reparo perante aquela pena azul , ou aquela outra quase dourada ou perante toda aquela  cauda de inacabado circulo multicolor, que do alto da sua imponência,  parecia  afirmar, sem qualquer relutância, a sua insofismável   idoneidade  cromática.
E, após este marcado encontro, seguíamos felizes pelo caminho até casa. À medida que se reduzia a distância, éramos cada vez menos. Apenas a Catarina, a Lurdes, a Francisca seguiam quase até ao fim. Moravam perto da Quinta, um pouco para lá da estrada que lhe dava acesso.
Todos os dias, nessa estrada, passava uma figura que nunca esqueci: o Luís. Filho de um lavrador , puxava um  carro de bois  ou uma charrua  para lavrar os campos. Cantava muito bem. Eram canções lindas que eu não conhecia. Chamavam-lhe o Luís tolo. Alto e jovem, sorria quando não cantava. Assim que escutava a sua voz , vinha a correr ao portão, para vê-lo. Os meus pais não permitiam que se abrisse o portão, nesse momento. Talvez, por isso, o fascínio  fosse maior. O Luís acenava-me e sorria. Logo, em seguida, desatava a cantar e eu ficava, ali,  a ouvi-lo.
Nunca tive medo do Luís. Andava descalço, mas sempre limpo e arranjado. Os pais tinham posses . Era o irmão mais novo de uma família de cinco filhos. Todos tinham estudado, excepto ele. No entanto, não havia nenhum como ele. O Luís comandava bois de sorriso nos olhos e canções na boca. Aos meus olhos, ainda tão pouco perspicazes, ele surgia como um herói,  quase o D. Quixote que vim a descobrir mais tarde. Aquela insanidade era de uma pureza incontroversa, genuína.
Há também uma figura que não posso deixar de incluir. Uma figura que me traz memória  de um afecto profundo que faz doer a alma de tanta saudade.
Uma parte da família de meu pai, que era nortenho,  como já referi,  dedicava –se ao Ensino. Havia uma série de professores e todos eles mais velhos que meu pai. Um deles, (o tio Francisco Alão, que não era bem tio porque era irmão de tio Adão, casado com a irmã do meu pai que também era professor) que já era aposentado , esperava-nos sempre junto a uma mercearia – café que ficava na esquina da estrada, que saía da vila. Todos os dias , o Tio Alão ali estava quando regressávamos da escola. Alto e forte, com uns enormes e bem penteados  bigodes brancos, sorria mal nos avistava. Era uma corrida acelerada até chegar a seus braços. Levantava cada um de nós e fazia-nos sentar numa sempre reservada mesa, para lhe contarmos o dia de escola. Questionava isto e aquilo , desde a lição de Leitura, o  Ditado até à aritmética no jogo incansável das contas. Mais tarde, deambulava pela História de Portugal,  sem excluir a Geografia. Pelas respostas , classificava o interesse de cada um e respectiva aprendizagem. Pelo meio, contava-nos uma nova história que nunca deixava de nos  deslumbrar. No fim e, em jeito de magia, extraía dos bolsos um pequeno regalo : um lápis de cor, um rebuçado, um chocolate pequeno nos dias de maior felicidade. Outros dias havia que, sem qualquer gesto de magia, nos oferecia um livro de contos. Foi assim que tivemos os Contos de Perrault,  os Contos de Hans Christian Andersen , os Mais belos Contos dos irmãos Grimm ,  as Fábulas de La Fontaine e outros que não nomeio como “O Romance da Raposa “, de Aquilino Ribeiro.
A Escola tinha destes encantos , destas surpresas que faziam de nós crianças felizes."
Maria José Vieira de Sousa, in O livro que já escrevi ,Memórias, pp.125-130

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Os livros de Setembro da Guerra & Paz e da Gradiva


"Estes são os meus livros de Setembro. São 22 novos títulos. Inauguram-se duas novas colecções, uma na Guerra e Paz, outra na Gradiva. E nasce, na Gradiva, uma nova chancela, a Alquimia: um Setembro gordo, numa newsletter que só mando a quem gosto."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva

A Guerra e Paz pensa em português e já vão descobrir porquê
por Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva.
"Quando chega uma colecção nova, parece resplandecente entre todas, e o editor, que julga tê-la vestido de seda e brocado, só quer que os leitores a esperem com óleos perfumados. Pedro Gomes Sanches, com o seu Portugal na Paz dos Bloqueios, como nos habituámos a viver abaixo das nossas capacidades, inaugura a colecção Pensar Português e não podia haver melhor livro inaugural, com tão extraordinária visão holística envolvendo demografia, habitação, emigração e imigração, saúde e educação, o reconhecimento do que Portugal já conseguiu, sem esconder o mal-estar com o que Portugal persiste em falhar. Com vigoroso e combativo prefácio de Pedro Passos Coelho, um livro que confronta a esquerda e a direita em 238 páginas de argumentos civilizados, tão certeiros que chegam a ser cruéis, numa colecção que tem um mecenas exclusivo, a Fundação Manuel António da Mota. Preparem-se para a grande apresentação no Porto.
Os poemas de Rui Teixeira Motta são bandos solitários de aves migratórias e traçam um irrecusável horizonte entre terra e mar. Semifinalista do Prémio Oceanos com As Mãos, o poeta traz-nos agora, gota a gota, o Peso da Luz. Do outro lado do muro, há uma menina alta e bonita que outro grande poeta, António Graça de Abreu, nos quer apresentar: China, Poemas do Erotismo Suave tem «o gosto da erva tenra, luminosa» e oferece «os prazeres da flauta de bambu».
Setembro traz dois novos Atlas Históricos. Um, o Atlas da América Pré-Colombiana, de Brigitte Faugère e Nicolas Goepfert, põe-nos a falar com remotos incas, maias e aztecas, memória de civilizações devastadas. Já no Atlas Histórico do Portugal Revolucionário, o historiador José Matos convoca um passado escaldante: depois do ecuménico 1.º de Maio de 1974, em que os portugueses estavam uns com os outros como nem Deus e os anjos, os caminhos da revolução dos cravos desataram a bifurcar-se. É esse desatino entre revolução e ditadura, entre maiorias silenciosas e vanguardas iluminadas, que aqui se revisita, com mapas, infografias, fotos e um sereno grito de «antes a democracia» que encerra o Verão Quente.
Na colecção diatribe, há polémica. José Pimentel Teixeira interroga-se, em Os Escravos na ONU, sobre a uma resolução daquela angélica instituição, resolução pela qual Portugal passou mais ou menos como cão por vinha vindimada: podem ou devem hierarquizar-se os crimes contra humanidade? Haverá uma «hierarquia do mal na história universal»? Com que rigor a ONU contextualizou a sua resolução? Um livro potente, de argumentação cristalina, escrito com requintado domínio da língua portuguesa.
E em Setembro, vamos a jogo. Entrámos numa parceria com o Observador. A equipa do nosso parceiro concebeu e desenvolveu «puzzles» e uma «vaga de crimes». E nós pedimos aos leitores que sejam os detectives e descubram os criminosos deste SudoCrime, 100 casos portugueses. Teste a sua capacidade lógica e a sua argúcia policial. Depois, faça justiça.
A Crisântemo traz médicas à família
Na Crisântemo, nossa chancela de vida prática, pedimos a sua atenção para duas médicas. A médica endocrinologista, especialista em diabetes e nutrição, Isabel do Carmo, em Tratamento para Emagrecer: do Neolítico à Nova Era das Injecções, propõe-nos uma bela viagem pelo tempo. Vale a pena: se conhecermos o passado podemos actuar de outra forma sobre a obesidade. Mesmo as novas injecções têm, afinal, a sua história. Um livro muito útil.
Outra médica, a cardiologista Vânia Ribeiro, em Um Coração sem Segredos, descomplicar a medicina e cuidar do seu coração, oferece literacia muito clara, simples e directa sobre a principal causa de morte em Portugal, as doenças cardiovasculares. Leia, se mais não for, pelo seu coração!
A euforia peca sem remorsos
A Rita Fonseca continua a levantar bem alto o estandarte da euforia. Em Ace & Ember, de Kate Crew, o segundo livro da série The Mavericks, há um desejo proibido que pode, como sempre acontece no amor, arruinar tudo.
Já em A Pele de Um Pecador, a famosa Avina St. Graves, mostra-nos que por mais que se grite por socorro há circunstâncias em que ninguém nos ouve, sobretudo se a voz nos fica presa na garganta. Um dark romance com uma gota de gótico a tombar-lhe em cima.
Há quem puxe pelos galões, a Gradiva puxa pelos seus Nobel
Para a rentrée, trago-vos, na Gradiva, uma nova colecção de ficção, A Colecção Que Não Precisa de Nome por só acolher escritores que receberam o Prémio Nobel da Literatura. Os dois primeiros são franceses. De J. M. G. Le Clézio (Nobel em 2008), publico um inédito em Portugal, O Africano, viagem íntima em que Clézio confessa que «durante muito tempo sonhei que a aminha mãe era negra.»
De Jean-Paul Sartre (Nobel em 1964), resgatamos do esquecimento de algumas décadas, O Muro, inventário sartriano de medo, desejo, culpa e liberdade (e de absurdo, Manuel Fonseca, de absurdo!). Três homens condenados à morte esperam a sua execução. Venham esperar com eles. Em breve, a Le Clézio e Sartre hão-de juntar-se Ishiguro e Steinbeck.
Na sua boa tradição de ensaio polémico, a Gradiva publica Do Trumpismo ao Chega: a Contaminação, um livro em que Gonçalo Ribeiro Telles sustenta a tese da «exportação» do trumpismo, do seu ideário e dos seus métodos. Portugal não escapou. Escapará a democracia? Mário Centeno prefacia com elegância.
Quem regressa à Gradiva, onde Guilherme Valente primeiro o publicou, é Gabriel Mithá Ribeiro, com um admirável livro sobre educação: A Reforma das Reformas, a autoridade moral suprema do professor: entre Platão, Freud, Weber e a Paideia. O que mais me interessou neste livro de Mithá Ribeiro foi a fundamentação sustentada do papel do professor e a forma como ancora a sua autoridade moral num longo processo civilizacional.
Desse longo processo civilizacional nos fala Civilização, o Contributo da Europa para a Civilização Universal, de Kenneth Clark, num relato apaixonado e visualmente sedutor, com cerca de 300 reproduções das grandes obras de arte. Não é um livro, é um orgulho, uma preciosidade.
E há um novo livro de Richard Dawkins na Ciência Aberta. Os leitores portugueses podem agora ler O Livro Genético dos Mortos, um Devaneio Darwiniano: o passado não morre, os genes de cada animal são um arquivo das vidas passadas. Os nossos genes também. Um livro ilustradíssimo, encantador: o melhor livro de ciência de 2024, agora em português.
Manual de Investigação em Ciências Sociais, de Raymond Quivy, Luc Van Campenhoudt e Jacques Marquet é um daqueles livros que volta a «pedido de várias famílias». Agora em edição revista e aumentada, uma obra essencial para os alunos de ciências sociais, ciências políticas, comunicação e serviço social.
«Os zombies comem cérebros, tás safo», é como começa, desbragado, este Zits, Apocalipse, que a imparável imaginação de Jerry Scott e de Jim Borgman criou. Apreciadores de BD delirem, se faz favor, sem reservas. E para os leitores que ainda pedem que sejam os pais a lerem, aí está um novo Mimi e Rogério: E a Grande Tempestade, de Korky Paul e Valerie Thomas. Com um gato preto, trovões e grandes rajadas de vento.
Fecho com Antoine Saint-Exupery e a sua Terra dos Homens. Esta é uma edição única, a edição ilustrada da Gallimard, que venceu o National Book Award. As ilustrações tocantes, e que chegam a ser comoventes, são de Riad Sattouf, um dos grandes da banda desenhada actual, vencedor do Los Angeles Times Graphic Novel Prize, prémio de excelência no Japan Media Arts Festival e vencedor por duas vezes do Fauve d’Or. Leve para casa: não é só um livro, é uma obra de arte, com o espírito de O Principezinho.
A Alquimia começa com ousadia: num cemitério
Esta é a nova chancela da Gradiva. A Alquimia tem concepção e selecção da Rita Fonseca, e é uma chancela para acolher novas tendências de ficção. Inaugura-se com este dark romantsy, Coroa-me Morta, de Liv Zander, que logo na pré-venda atingiu o 1.º lugar no top da Wook. Um romance em que se cavam sepulturas? Pois sim, mas há um homem demasiado elegante para o cemitério. Atrevem-se a ler?

São estes os nossos livros de Setembro. De uma irrecusável diversidade e correndo, por prazer, mil riscos. Mas que raio de vida é uma vida sem «frisson»?"
Manuel S. Fonseca, editor