terça-feira, 14 de abril de 2026

Índia : Mani Bhavan, a casa de Mahatma Gandhi

A Índia é um país que tem, no imaginário de cada um, diferentes percepções e fascínios insondáveis. Quem lá chega , vem à descoberta de uma experiência forte e reveladora.
Tem, como referência, tudo o que leu, tudo o que pode investigar e aquela curiosidade que qualquer viajante carrega, quando se dispõe à partida. Acontece em qualquer país, em qualquer cidade, em qualquer lugar do mundo. Procurar aquilo que se sabe  e se pretende descobrir, além do sempre inesperado que toda a viagem traz. 
Foi assim em  Bombaim  . Ir no encalço de Mahatma Gandhi , a grande figura que preenche decisivas e importantes páginas da História da Índia e do Mundo.
Numa rua calma,  bordejada por árvores, no pacato bairro de Gamdevi, ergue-se Mani Bhavan, a casa onde Mahatma Gandhi viveu em Bombaim.  Explicar o que se sente perante as marcas da sua vivência e que enchem a casa, é roubar à casa a verdadeira riqueza que ela encerra. O mundo de Gandhi abre-se,   ali, perante os nossos olhos. Somos apenas seres que têm o privilégio de estar com Gandhi e de o descobrir no seu habitat. O fascínio deste encontro prodigioso é avassalador. Toma-nos.
Rua Laburnum , sede do Mani Bhavan,
 Museu Mahatma Gandhi, no bairro de Gamdevi,
Bombaim, Índia.
Mani Bhavan


Mani Bhavan



Mani Bhavan
"Seja muito bem vindo a Mani Bhavan, o símbolo da inesquecível luta pela independência , liderada pelo líder político Mahatma Gandhi.
Este edifício foi a sede , em Bombaim, entre 1917 e 1934, do movimento de independência liderado por Gandhi. A partir daqui, Gandhi definiu a formação da nação indiana segundo os seus ideais de verdade e de pacifismo.
Foi a partir desta casa que Gandhi iniciou a sua primeira luta popular pela independência , acção que abalou os alicerces do regime britânico.
Muitas decisões importantes , que moldaram o destino da nação , foram tomadas durante a sua estadia aqui, em Mani Bhavan.
Hoje , esta casa foi transformada em monumento nacional. 
No rés-do-chão, situa-se a biblioteca, contendo obras escritas  por Gandhi e também pelos livros sobre a sua vida, seus pensamentos  e temática associada.






No primeiro andar , há uma série de fotografias de Gandhi, da família, da sua acção anterior na África do Sul e  posterior acção na ìndia.







No segundo andar, encontra-se o quarto de Gandhi, preservado no seu estado original. Aí, Gandhi teve a sua primeira lição na arte de fiar e bebeu o seu primeiro copo de leite de cabra, quando a sua saúde se deteriorou.  As paredes foram convertidas numa galeria de fotografias,  que  mostram diferentes momentos da vida do líder.





Neste andar, as paredes das divisões  contíguas ao quarto estão repletas de quadros representativos de momentos importantes  da vida e luta de Mahatma Gandhi.







Nas primeiras horas do dia 4 de Janeiro de 1932, Gandhi foi preso aqui, no terraço de Mani Bhavan, onde dormia e de onde partiu, aprisionado, depois de rezar.
Assim, aqui, em Mani Bhavan, manifestou-se todo o poder da alma do " Pai da Nação".
Mani Bhavan
"O ponto central das atividades políticas de Gandhi em Mumbai entre 1917 e 1934.
Mumbai desempenhou um papel muito importante na luta da Índia pela independência. Gandhi tinha, com razão, orgulho dos cidadãos patriotas e cosmopolitas de Mumbai.
Revisitando Mani Bhavan em 3 de Março de 1959, Pandit Jawaharlal Nehru observou: “Mani Bhavan, em Bombaim, permanecerá para sempre uma lembrança preciosa para todos aqueles que a visitaram nas muitas ocasiões em que Gandhiji costumava ficar lá. Estou, portanto, feliz que esta casa esteja sendo transformada num Memorial Gandhi”.
Mani Bhavan, um modesto edifício de dois andares na Laburnum Road, na relativamente tranquila localidade de Gamdevi, serviu por cerca de dezassete anos marcantes (1917-1934) como o centro nevrálgico das actividades de Gandhi em Bombaim. Pertencia a Shri Revashankar Jagjeevan Jhaveri, um fervoroso devoto de Gandhi e seu afectuoso anfitrião durante esse período. Hoje, Mani Bhavan é um memorial sagrado a Gandhi, à sua estadia ali e às atividades que ele iniciou a partir dali.
Mani Bhavan tem uma história para contar: abrigou Gandhi frequentemente durante o período em que ele cresceu em estatura e força, de agitador a figura mundial, ao introduzir com sucesso o Satyagraha (individual e colectivo) como uma arma nova e eficaz para combater todo o mal e a injustiça. Mani Bhavan foi o epicentro da luta da Índia pela liberdade, especialmente entre 1917 e 1934.
Foi daqui que se iniciou a primeira fase da luta não violenta pela liberdade. No final de 1918, enquanto se recuperava em Mani Bhavan, Gandhi teve as primeiras aulas de cardagem com uma pessoa que costumava passar por ali. Segundo ele, o zumbido da charkha (roda de fiar) "teve um papel importante na sua recuperação". Ele acatou a sugestão de Kasturba e começou a tomar leite de cabra quando a sua saúde estava muito debilitada, em Janeiro de 1919.
O Satyagraha* contra a Lei Rowlatt foi lançado em Mani Bhavan, em Março de 1919. Com o objectivo de desafiar a Lei de Imprensa Indiana, foi também dali que Gandhi iniciou o boletim semanal “Satyagrahi”, em 7 de Abril de 1919.
Após os distúrbios e cenas de desordem durante o boicote à visita do Príncipe de Gales em 17 de Novembro de 1921, Gandhi iniciou um jejum histórico em Mani Bhavan a 19 de Novembro de 1921, para restaurar a paz na cidade de Bombaim. Ele encerrou o jejum em 22 de Novembro, após a normalização da situação na cidade.
O Comité Executivo do Congresso reuniu-se aqui em 9 de Junho de 1931 e decidiu enviar Gandhi como único representante do Congresso à Conferência da Mesa Redonda em Londres. Ele retornou a Bombaim frustrado em 28 de Dezembro de 1931. Posteriormente, discutiu a situação com o Comité Executivo do Congresso, que se reuniu em Mani Bhavan e decidiu, em 31 de Dezembro de 1931, reiniciar o Satyagraha. Gandhi foi preso no terraço de Mani Bhavan, na madrugada de 4 de Janeiro de 1932. Uma reunião do Comité Executivo do Congresso foi realizada em Mani Bhavan nos dias 17 e 18 de Junho de 1934.
Mani Bhavan é o local onde Gandhi viveu e interagiu com seus companheiros para moldar o movimento de independência à imagem dos ideais de Verdade e Não-violência. Foi de Mani Bhavan que seus seguidores e devotos partiram para o mundo, inspirados e imbuídos de um senso de serviço e sacrifício. Ainda hoje, Mani Bhavan é uma fonte de inspiração para os amantes da liberdade e da paz em todo o mundo.
Este edifício histórico de importância nacional é uma atracção turística. É visitado diariamente por um grande número de visitantes da Índia e do exterior. O Mani Bhavan Gandhi Sangrahalaya está aberto ao público todos os dias, das 9h30 às 18h.
O piso térreo abriga o escritório do Museu e a Biblioteca, que possui um rico acervo de cerca de 40.000 livros nas seções de Referência e Empréstimo. Muitos académicos, estudantes, professores e participantes das Competições Gandhi Jayanti utilizam a biblioteca para consulta e leitura.
No balcão de exposição estão disponíveis alguns livros importantes de e sobre Gandhi, selos postais com a imagem de Gandhi emitidos pela Índia e outros países, além de lembranças.
No primeiro andar encontra-se a galeria de fotos que ilustra a vida e os eventos de Gandhi por meio de imagens. Ao lado da galeria, está o auditório, onde são exibidos filmes sobre Gandhi e onde gravações de seus discursos são reproduzidas mediante solicitação. O espaço também é utilizado para reuniões, seminários e debates. Diversas competições para estudantes do ensino fundamental, médio e superior são realizadas aqui em colaboração com a Gandhi Smarak Nidhi, de Mumbai, que tem seu escritório no primeiro andar.
No segundo andar, o quarto onde Gandhi viveu e trabalhou está preservado em seu ambiente original. Ao lado do quarto de Gandhi, encontra-se a exposição que retrata a vida de Gandhi por meio de figuras em miniatura.
Mani Bhavan também acolhe diversas reuniões importantes de assistentes sociais, cidadãos preocupados, trabalhadores do programa Sarvodaya, estudantes e professores." in Organização Gandhi Mani Bhavan
Nota: * Sobre a essência do Satyagraha
A ideia central é que a verdade (satya) e a firmeza ou força (agraha), quando unidas, criam um poder moral capaz de transformar a sociedade sem recorrer à violência. Não é passividade: é uma forma ativa, disciplinada e corajosa de luta.
O que caracteriza o Satyagraha
• Não violência (ahimsa) — não causar dano físico ou moral ao adversário.
• Busca da verdade — agir de forma transparente, honesta e ética.
• Autodisciplina — aceitar sacrifícios pessoais sem retaliar.
• Desobediência civil — recusar leis injustas de forma pública e pacífica.
• Transformação do adversário — o objetivo não é destruir o oponente, mas conquistá-lo moralmente, despertando sua consciência.
Gandhi usou o Satyagraha:
• na África do Sul, contra leis discriminatórias;
• na Índia, contra o domínio britânico (como na Marcha do Sal, em 1930).
Mais tarde, inspirou movimentos como:
• o movimento pelos direitos civis de Martin Luther King Jr.;
• a luta de Nelson Mandela;
• diversas campanhas de justiça social no mundo.
 
Visita virtual em 360° à Casa de Gandhi em Mumbai - Passeio pelo Museu Mani Bhavan Gandhi.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Navegar é preciso

No século I a.c., o general romano Pompeu, encorajava marinheiros receosos, inaugurando a frase “Navigare necesse, vivere non est necesse.”
Corria o século XIV e o poeta italiano Petrarca transformava a expressão para “Navegar é preciso, viver não é preciso.”
“Quero para mim o espírito dessa frase”, escreveu depois Fernando Pessoa, confinando o seu sentido de vida à criação.
E cantando a coragem navegante, em jeito de fado brasileiro, Caetano Veloso escreveu Os Argonautas. “Navegar é preciso, viver …” Com um fim inacabado, a música lança as interrogações.
.
Navegar é preciso, viver não é preciso
.
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
Fernando Pessoa, in  Obra Essencial de Fernando Pessoa: Prosa Íntima e de Autoconhecimento. Edição Richard Zenith, Assírio & Alvim. 2007.

 
Caetano Veloso, em "Os argonautas" Navegar é preciso. Viver não é preciso"

domingo, 12 de abril de 2026

Ao Domingo Há Música


Almighty Freedom
Almighty  freer of the soul
Be free
Walk with me
Through the golden fields
So lovely
Lovely

We regret our sins, but...
We sew our own fate and
Under my face I remain feeble
Under my face, I smile

Há composições que se tornam famosas pela intensidade e força que encerram. Passam a ser objecto de grandes  interpretações por vozes diversas e talentosas.
O registo , que se apresenta,  é um desses exemplos.

Now We Are Free – Gladiator Theme (Epic Live Version), na voz de  Tamara Radjenović, acompanhada pela Belgrade Classic Symphony Orchestra.
"Tamara Radjenović interpreta a icónica "Now We Are Free" do lendário filme Gladiador, originalmente composta por Hans Zimmer e Lisa Gerrard. Nesta magnífica interpretação   ao vivo, Tamara traz uma profundidade emocional única a um dos temas mais apreciados  da música de cinema, fundindo o talento vocal clássico com a atmosfera épica da banda sonora de filmes. 
"Now We Are Free" continua a ser uma das melodias mais reconhecidas da história do cinema, e esta interpretação capta o espírito, a beleza e a emoção intemporal da banda sonora original."
Parla piu piano ,de Nino Rotana voz de  Tamara Radjenović , na Oscar gala evening, Skoplje 2024 , Macedónia.
A soprano  Tamara Radjenovic é acompanhada pela  National Opera and Ballet Symphony Orchestra & National Jazz Orchestra, sob a direcção da Maestrina  Bisera Cadlovska.
 

sábado, 11 de abril de 2026

Viajar pelas Maravilhas do Vietname

Quase ninguém é indiferente ao apelo à viagem. 
                Eugénio Lisboa

   

Maravilhas do Vietname| Filme de Paisagens Relaxantes em 4K,  com Música Relaxante por Epic TV Films.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Os livros da Editora Guerra & Paz no dia do 20º aniversário

 

Guerra e Paz faz 20 anos no dia 10 de Abril. A Gradiva fez 45 anos em Fevereiro. A Euforia fará 3 em Setembro.
Esta é a newsletter de aniversário. Com um abraço enternecido a quem tem a paciência de me ler. 
Manuel S. Fonseca, editor do Grupo Guerra e Paz

tanta guerra, tanta paz
    faz agora 20 anos
«O que eu gosto de si, senhora Dona Agustina!» Os leitores desta newsletter desculpar-me-ão o começo abrupto, mas há 20 anos, com Agustina, começava a Guerra a Paz editores. No Gólgota e na Buenos Aires, Porto e Lisboa, pedi e implorei que Agustina escrevesse sobre a história de Portugal, sobre essa manta de lealdades e traições, de mistérios e milagres em que se deita a nossa ingente identidade. Dividi a história de Portugal em 12 grandes períodos, elegi três episódios marcantes de cada período e Agustina, uma Agustina regina, escolheu um em cada três, convertendo esse episódio numa «ópera» e com as doze «óperas», a que depois acrescentou uma 13.ª, ofereceu-me a Fama e Segredo na História de Portugal, o primeiro livro da Guerra e Paz editores, a que logo juntei o mais comovente carteio de dois escritores portugueses, agora reeditado com o título Sophia-Sena: as Cartas.
Faz 20 anos no dia 10 de Abril. E o que começa com Agustina tinha de continuar com Agustina. Dizia-me António Lobo Antunes: «Manuel, o que eu gosto da Agustina. Ora ouça como ela escreve…» e dizia-a de cor, eludindo o tempo, a voz a tremer como se nos escutasse o ouvido de Agustina. E foi a esse ouvido perfeitinho que fui buscar o livro com que a Guerra e Paz comemora os seus 20 anos, o Apocalipse de Albrecht Dürer visto por Agustina Bessa-Luís. Foi Mónica Baldaque, filha de Agustina, depois com uma mão de Lourença, a neta, quem me chamou a atenção: Agustina escrevera sobre as xilogravuras de Albrecht Dürer, um texto visionário na forma de «ler e sentir arte», na linha do que para mim escreveria depois sobre Paula Rego, no célebre As Meninas. Livro há muito esgotado, é esse Apocalipse, renovado, que assinala os 20 anos da Guerra e Paz, numa edição enriquecida, grande formato, capa dura, papel de enternecer a mão, com o apoio da Fundação Gulbenkian, em cujo auditório 2, no dia 10 de Abril de 2006, às 18:30 nasceu a Guerra e Paz. Obrigado a todos por este reencontro.
E, já agora, Senhora Dona Agustina, veja se gosta dos livrinhos que juntei para fazerem companhia ao seu Apocalipse. Ora veja: o menino Marcel Proust vem de madalena com o seu Elogio da Leitura; tenho a certeza de que me aprova os arroubos místicos da singela Simone Weil em A Gravidade e a Graça; e, por certo, não lhe parece mal, pois não, trazer o recolhido contraponto oriental dos Ensinamentos Zen do Mestre Huang-Po; como estou seguro de que deitará um rabinho do olho às deambulações de Sir George James Frazer por rituais, sacrifícios, mortes de reis e deuses no volume 2, A Morte do Deus, de O Ramo de Ouro, Um Estudo Sobre Magia e Religião, um dos Livros Não se Rendem, que a Fundação Manuel António da Mota tanto têm apoiado. E nos próximos meses, para celebrar 20 anos, vem aí a publicação de Guerra e Paz, de Tolstoi (tinha de ser!) e um monumental O Dragão Chinês: uma Enciclopédia. Surpresas para meses a vir.
História do Catolicismo, de Yves Bruley, reforça a colecção A Minha Estante, e ainda em Abril, a Guerra e Paz, orgulhosa dos seus 20 anos, alia-se a João Pedro George dando voz às revelações do João sobre as relações de Fernando Pessoa com sua mãe e publica uma série de poemas inéditos da mãe do poeta. Minha Querida Mamã faz-nos entrar no que foi o ambiente em que, afinal, Pessoa foi criado e mimado.
E Abril fecha com dois romances portugueses, cada um seguindo uma tradição deferente. Raquel Fontão inscreve-se num género, o terror, e Nada Há a Temer cumpre com garbo, numa cabana e num espaço de animais e sombras, todos os requisitos do género.
Salvador Furtado, numa estreia prometedora, oferece-nos Entre a Loucura e a Graça, um romance que num notável equilíbrio de trama, narrativa, diálogos e personagens, consegue ainda, num périplo à Somerset Maugham, interrogar-se sobre o sentido da vida ou, como diria Agustina, sobre as estações da vida.
«Senhora dona Agustina, gosto muito da companhia que, há 20 anos, faz à Guerra e Paz editores. O seu Apocalipse é o sopro de que as 20 velinhas do nosso bolo de aniversário estavam mesmo a precisar!»
euforia
e a Rita a levá-la para o terceiro aniversário
Antes de fazer os 3 anos, que se cumprem a 26 de Setembro, a euforia não reconhece fronteiras… nem as da morte, como o romance da Cate Coelho, Unidos Além da Morte, não hesita em provar-nos. E antes de chegar à Netflix, Navessa Allen, autora do futuro, propõe que entremos Em Jogo. Jogam um homem e uma mulher, ele odeia aquela mulher, ela odeia aquele homem. É melhor que não ponham as mãos em cima um do outro.

livros Gradiva
com o Guilherme por companhia

Quantas vezes o Guilherme Valente soprou as velas dos aniversários da Gradiva? Quarenta e cinco, digo eu. Soprou-as, em 45 Fevereiros, ao lado de Luís Portela, um autor reservado, como pede a espiritualidade que advoga em Da Ciência ao Amor; soprou-as ao lado do extraordinário historiador que é Luís Filipe Thomaz, autor de A Expansão Portuguesa; soprou-as, «julgo que foi em Macau, Guilherme, não foi?», ao lado do Umberto Eco de que agora voltamos a publicar O Nome da Rosa. Estes são três dos livros Gradiva que este mês voltam às livrarias portuguesas, com novas capas e novas edições.
E é assim também com Stephen Hawking, por que é sempre nova a interrogação sobre a origem e o destino do universo: A Teoria de Tudo é, por isso, a mais vertiginosa viagem que se pode fazer ao lado da mente brilhante de Hawking, uma viagem aos segredos dos buracos negros e do espaço-tempo. Para quem queira conhecer «a mente de Deus», disse Hawking.
Faço um parêntesis para falar de um livro que devia ser um clássico da gestão e leitura para todos os nossos ministros e primeiros-ministros, O Princípio de Peter, de Laurence J. Peter e Raymond Hull. Este é um livro que gerações e gerações, preocupadas com a competência e a incompetência, no privado e no público, deviam ler. Como todos os livros que são mesmo bons, O Princípio de Peter tem muito sentido de humor.
Nos livros da Gradiva deste Abril quase cega o esplendor de Expiação, de Ian McEwan – será o seu melhor romance? – uma das grandes ficções do século XXI. Romances e livros perdidos, tesouros de três milénios, é o que Oliver Tearle recolhe e disseca em Biblioteca Secreta, contando-nos através da história desses livros uma outra história do mundo.
E a Gradiva fecha o mês com talento português: a escrita é de Francisco Ramalheira e o romance chama-se O Último Espião do Reich, e nele, por um daqueles acidentes com que o cosmos nos intriga, se cruzam as vidas de Hitler no seu bunker de Berlim e a de um carteirista de Alfama que, em Janeiro de 1945, saca de bolso alheio a carteira errada. Ou será a carteira certa?
Da sua tão certa carteira é que os meus leitores vão mesmo precisar para terem a companhia de tantas obras-primas. Mas com os livros quem é que se atreve a não ser sumptuário?"
Manuel S. Fonseca, editor do Grupo Guerra e Paz
 A Guerra e Paz celebra vinte anos de histórias, encontros e páginas viradas. Duas décadas dedicadas aos livros, aos autores e aos nossos queridos leitores que nos acompanham ao longo deste percurso.
Para assinalar esta data tão especial, publicamos uma obra verdadeiramente única: Apocalipse de Albrecht Dürer. Em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, chega uma cuidada edição de luxo, em capa dura e a cores, que reúne o olhar singular de Agustina Bessa-Luís e as icónicas gravuras de Dürer, num diálogo artístico e literário de rara beleza.


Apocalipse de Albrecht Dürer
-10%
PRÉ-VENDA
ENTREGA A PARTIR DE 21 DE ABRIL
"Uma edição soberba de luxo, em capa dura, a cores, com o texto de Agustina e as gravuras de Dürer.
Agustina escreve sobre o Apocalipse cum figuris de Dürer, um conjunto de imagens em que pulsa o assombro e a angústia, porventura o terrível «silêncio do céu» perante o turbilhão dos conflitos da terra, turbilhão em que o temor da invasão otomana da Europa e da consequente devastação e catástrofe eram medos primordiais.
Quem leia e siga Agustina «não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» porque, entre os livros abertos, este livro que agora abrimos de Agustina é um livro aberto para a vida. A exuberância, a reeducação pela glória, a que a escrita de Agustina nos convida, com as suas caldeiras de azeite fervente, os seus milagres, forma de reviver e transcender o «espasmo de uma época» que as gravuras de Dürer representam, só têm igual no «grito duma águia solta pelo espaço». Eis, nos vinte anos da Guerra e Paz editores, o grito de águia e o voo imortal de Agustina. Para nos resgatarem de todos os apocalipses."
Manuel S. Fonseca, editor
«Divide-se o texto em quinze capítulos, e cada gravura é comentada por Agustina, contextualizando a época e os seus intervenientes, revelando um conhecimento profundo da História e da Alma. É impressionante o número de grandes textos lidos e anotados por Agustina, em que estuda as épocas que em todos os aspectos influem para o aparecimento desta linguagem de fábula.»
                          Mónica Baldaque

Nota de LP
À Guerra & Paz apresentamos gratas felicitações por nos permitir o inefável e renitente vício da leitura. Que prazer nos tem oferecido o editor Manuel S. Fonseca ao  rechear um catálogo, um repasto tentador , e, através de preciosa newsletter mensal ,  dar-nos conhecimento de tal iguaria. 
A nossa gratidão, Manuel S. Fonseca.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A saudade de Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa ( 25 Maio 1930 - 9 Abril 2024)

 

O narrador comum narra como qualquer coisa mais ou menos podia acontecer. O bom narrador faz acontecer qualquer coisa diante dos nossos olhos como se estivesse presente. O mestre narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo.
         Hugo von Hofmannnsthat 


Recordar Eugénio Lisboa, numa data evocativa da sua morte, 9 de Abril de 2024, é sempre um exercício doloroso para quem  teve o privilégio de  o conhecer. O vazio que deixou apenas fica menos opressivo pela leitura da sua obra. A sua voz retorna como se se infiltrasse nas páginas para nos fazer acreditar que não está ausente. A sua presença impõe-se tal é a magia da sua escrita transformando esse exercício  num exercício de extrema riqueza.
Eugénio Lisboa, num pequeno ensaio " O tal prazer da escrita", de 20 de Junho de 2023, afirmava o seguinte:

A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores. E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.

É nesse universo prodigioso que qualquer dos seus leitores mergulha. As palavras certas  encontradas por este exímio escritor curam-nos pela alegria que nos dá ao encontrar o inefável salvífico.
Eugénio Lisboa tem uma obra plural . Volumosa e diversa. Em todos os géneros, em que ela se estende,  ressalta sempre o escritor profundamente culto, de uma  extraordinária erudição  que tem por trás o homem sensível, de uma extrema humanidade e de uma  simplicidade contagiante.
Entre mais de  meia centena de obras, publicou sete livros de Memórias sob o título "Acta Est Fabula" e não cinco como tinha planeado. Ao fazê-lo permitiu um novo fôlego às Letras Portuguesas. 
No Volume III de  Acta Est Fabula, Memórias -III - Lourenço Marques Revisited, informa  de que:

Escrever memórias, passados os oitenta, é um atrevimento. Planeá-las em cinco volumes é pura loucura. Ninguém me podia assegurar que viveria o tempo suficiente para os escrever todos. 
A razão de saltar do primeiro para o terceiro volume ( sem redigir o segundo) é simples: tenho 83 anos e nada me garante que terei vida para redigir os ambiciosamente sonhados 5 volumes. Gostaria em todo o caso, de poder deixar escritos os tomos que dizem respeito à minha vida em África. Foi lá que comecei, mesmo que não vá ser lá que acabo. Esses dois livros, eu devo-os à cidade de Lourenço Marques e ao espaço africano e ao mar africano e à luz africana. Faço questão de pagar essa dívida. O resto será feito se os deuses deixarem.  

Eugénio Lisboa é um prodigioso  mestre, "narra como se qualquer coisa acontecida há muito tempo acontecesse de novo." Pinta em palavras a sua África . Há uma  estranha coincidência de o dia do seu aniversário ( 25 de Maio de 1930) ser também, a partir de 1972, o Dia de África já que  Eugénio Lisboa  tem uma alma africana, embora  Homem de várias pátrias."
 
AQUELA ÁFRICA NÃO ACABAVA

A África, onde nasci, sobrava.
Era África por todos os lados,
olhava-se e nunca mais acabava,
nasciam pra sempre laços sagrados.

Nascer ali era ver o começo
de tudo: a areia da praia, o mar,
a chuva grossa, o sol quente, sem preço,
os mistérios do sexo a acenar.

A grandeza prometia grandeza,
os sonhos em nós não eram mesquinhos!
Visávamos grande, com a certeza

de irmos abrir bem novos caminhos!
Estar bem dentro daquele continente
não era dado a pequenina gente!
                             17.03.2024
Eugénio Lisboa

E recordar Eugénio Lisboa é reler a sua  obra. Nela está o poeta, o ensaísta , o singular crítico literário, o memorialista , o diarista, o cronista,  um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa dos séculos XX e XXI.
MEMENTO MORI

Este mar não vai desaparecer.
O que vai desaparecer sou eu.
Este mar vai continuar a ser.
Deixar de vê-lo é destino meu.

Continuará a espelhar o sol,
que, de mim, para isso, não precisa.
Estender-se-á como vasto lençol
o mar que tem grandeza por divisa.

O mundo existia antes de mim,
porque há ser que convive com não ser.
Haverá mundo, depois do meu fim

e ser que ignora o meu não ser.
Está bem assim porque é natural,
embora pareça demencial.
                      19.01.2023
Eugénio Lisboa
LE ROI SE MEURT

Ouvir o anúncio da minha morte
foi como ouvir uma língua estranha:
deram-me um esquisito passaporte,
sem dizerem se é pra vale ou montanha.

Pouco me vale reinar em qualquer Espanha,
a morte quer é haver-se comigo.
Porquê mostrar, a mim, sua gadanha,
achará que sou, pra ela, um perigo?

O que perturba é ela conhecer-me,
parecer saber, de há muito, quem sou,
andar atrás de mim a envolver-me!

Mas agora o momento chegou:
ser rei já muito pouco adianta,
quando a morte me aperta a garganta.
                         01.03.2024
Eugénio Lisboa

NOTA: LE ROI SE MEURT é o título de uma notabilíssima peça de teatro, de Eugène Ionesco, que vi, encenada em Paris. Como o título me convinha, roubei-lho. É assim que se faz.

Até sempre , Eugénio Lisboa. Que saudade, querido amigo!