domingo, 5 de julho de 2026

Ao Domingo Há Música

Canção para os homens sem face

E canto as crianças que brincam nos parques
      e pulam corda nas calçadas
e os que vão ao palco representar o drama dos outros homens.
Eu canto para todos os homens...
meus irmãos em todas as raças, nacionalidades e crenças,

canto além de todas as fronteiras
porque sob a bandeira da paz eu canto;
e pela fé que me ilumina
e por essa canção escrita no meu peito,
eu canto a humanidade inteira.
Manoel de Andrade, Poemas para a Liberdade

Neste nosso mundo, o único que nos acolhe, há poetas que cantam a circunstância  de cada homem. Não escolhem , não se restringem. É um  canto global. E, ao cantar, geram um apelo universal , a misericórdia de  todos para  qualquer um. 
Há, também,  as vozes que se agrupam para dar forma a muitos apelos que podem dar ao mundo esse outro rosto, essa  nova face.
A todos eles escutamos e , com infindo prazer, os divulgamos.

EL CICLO DE LA VIDA. El Rey León, de  Elton John - Tim Rice , pelas Voces para la Paz (Músicos Solidarios). Maestro: Andrés Salado.  Solistas: María Ayo y Ryan Borges. "Voces para la Paz" , Concerto 2024.
Graças aos concertos organizados por “Voces para la Paz” desde 1998,  construíram-se estradas, pontes, escolas, bibliotecas, clínicas de saúde, orfanatos, poços de água, sistemas de irrigação e muitos mais foram construídos em países de África, Ásia e América Latina. “Vozes pela Paz”: O Poder da Música para um Mundo Mais Justo. 
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ALEGRÍA. Cirque du Soleil. Circo del Sol, de  René Dupéré. Arranjos de  Pedro Vilarroig,   pelas Voces para la Paz (Músicos Solidarios). Maestro: Oscar Navarro. Concerto 2024.
   
E a belíssima canção Miss Sarajevo (Live) , nas vozes de  Luciano Pavarotti, Brian Eno, Bono, The Edge, acompanhados pela  Orchestra Filarmonica Di Torino, sob a direcção do Maestro  Michael Kamen. 
Álbum :Pavarotti & Friends Together ForThe Children Of Bosnia.

sábado, 4 de julho de 2026

Sobre o Amor em "Orgulho e Preconceito"

Jane Austen (1775-1817)
 
Jane Austen, em “Orgulho e Preconceito”: “A felicidade no casamento é uma questão de pura sorte.”
por Sarah Romero
"A autora britânica – nascida há precisamente 250 anos* – deixou-nos uma das frases mais certeiras e devastadoras sobre o amor romântico naquele que é, possivelmente, o seu romance mais famoso.
Numa época em que o casamento era mais uma necessidade social do que uma decisão afectiva ou relacionada com o amor na sua acepção mais pura, a autora britânica Jane Austen (1775-1817) escreveu um dos romances mais influentes da literatura universal, Orgulho e Preconceito (publicado em 28 de Janeiro de 1813), onde não só retratou a condição da mulher à altura, mas também desmontou a idealização do amor, derrubando o romantismo diante de uma realidade social.
Trata-se de um dos diálogos mais memoráveis do livro, no qual a personagem Charlotte Lucas (a amiga sensata e resignada de Elizabeth Bennet) pronuncia uma frase que, mais de dois séculos depois, continua tão provocadora quanto verdadeira, afastando-se do sentimentalismo e lançando um dardo directo à realidade mais incómoda do seu tempo (que também pode ser o nosso):
PALAVRA DE JANE AUSTEN
“— Bem – disse Charlotte –, desejo muito sucesso a Jane; e se ela se casasse com ele amanhã, acho que teria tantas possibilidades de ser feliz quanto se passasse um ano a estudar o carácter dele. A felicidade no casamento é pura casualidade. Se as disposições de ambos forem bem conhecidas, ou forem muito semelhantes de antemão, isso não contribui em nada para a sua felicidade. Eles sempre conseguem tornar-se suficientemente diferentes depois para ter a sua quota de desgostos; e é melhor saber-se o mínimo possível sobre os defeitos da pessoa com quem se vai passar a vida.”
É simples: mesmo conhecendo bem o casal, ninguém tem garantias de sucesso. Essa é a conclusão mais clara das palavras de Austen, que, apesar de ter recebido um pedido de casamento e ter tido alguns pretendentes, nunca se casou. Ela decidiu permanecer solteira e dedicar os seus 41 anos de vida à carreira de escritora. (Austen morreu devido à doença de Addison, uma condição muito rara que causa, entre outras coisas, astenia, fraqueza, irritabilidade gástrica e escurecimento da pele).
UMA VISÃO PRAGMÁTICA DO AMOR
Através da personagem Charlotte, no capítulo 6 de Orgulho e Preconceito, Austen deixa claro em poucas linhas que o amor – pelo menos em termos de convivência – é volátil, imprevisível e nem sempre está sob controlo racional. Não se trata de um comentário cínico, mas de uma observação precisa sobre a complexidade dos seres humanos.
Na Inglaterra do início do século XIX, o casamento era meramente uma transacção social: as jovens mulheres em idade de casar conseguiam, ao contrair o matrimónio, estabilidade económica, respeito e, muitas vezes, garantiam o futuro de toda uma família. Se o amor aparecesse nesse caminho, era uma grande sorte e, acima de tudo, algo adicional no processo. Por isso, não é surpreendente que a personagem Charlotte, com 27 anos e poucas perspectivas, aceitasse casar com o pedante Sr. Collins sem estar apaixonada por ele. A sobrevivência acima de tudo.
Não é que Jane Austen fosse inimiga do amor, mas sim do amor idealizado. Por isso, através das suas heroínas, que sempre apresentava como pessoas inteligentes, observadoras e moralmente íntegras, ela mostrou que o verdadeiro sucesso no amor exigia mais do que pura atracção: compatibilidade, respeito mútuo e, sim, um pouco de sorte. A sorte que tiveram Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy: a excepção que confirma a regra.
Hoje, as expectativas e as formas incertas de conhecer pessoas, por exemplo através de aplicações de encontros, estão a seguir caminhos novos, mas ainda há românticos e românticas que perseguem o mesmo final que Darcy e a senhorita Bennet. No entanto, a literatura de Austen, muito tempo depois, convida-nos a questionar, a olhar para além do amor à primeira vista e a compreender que o sucesso amoroso não é uma fórmula, mas uma combinação variável de vários factores."
Revista National Geographic ( 16 de Dezembro de 2025)
*- 251 anos , na data actual.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Somos assim?


Lá vai o português
por José Cardoso Pires
"Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa. Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.
No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma podia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu com muita honra. E nisso não é como o coral que faz pé-firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).
Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.
Chega-se a perguntar: está vivo? É claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.
Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.
É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos. Assim, como?"
José Cardoso Pires, in  E agora José?, Moraes Editores, 1977

quarta-feira, 1 de julho de 2026

África

A África tinha um ar de começo,
de coisa inventada naquele momento:
uma luz formidável e sem preço,
um quase doloroso arroubamento!
Eugénio Lisboa, 21.05.2023

Arise Africa (Amapiano) · Summertimeflow

terça-feira, 30 de junho de 2026

 
 Abruzos

Inverno nos Abruzos
por Natalia Ginzburg

Deus nobis haec otia fecit
“Nos Abruzos há só duas estações: o Inverno e o Verão. A Primavera é nevada e ventosa como o Inverno, e o Outono é quente e límpido como o Verão. O Verão começa em Junho e termina em Novembro. Os longos dias ensolarados sobre as colinas baixas e abrasadas, a poeira amarela da rua e a disenteria das crianças acabam e o Inverno começa. As pessoas deixam então de viver nas ruas: os rapazes descalços desaparecem das escadas da igreja. Na aldeia de que falo, os homens desapareciam quase completamente após as últimas colheitas: iam trabalhar para Terni, para Sulmona, para Roma. Era uma aldeia de pedreiros: e algumas das casas eram construídas com graça, tinham terraços e colunazinhas como pequenas villas, e era surpreendente encontrar nelas, ao entrar, grandes cozinhas sombrias onde havia presuntos pendurados e grandes quartos desolados e vazios. O lume estava aceso nas cozinhas e havia lumes de várias espécies, havia grandes lumes de azinho, lumes de ramadas e folhas, lumes de galhos apanhados do chão um a um. Era fácil distinguir os pobres dos ricos vendo que lume acendiam; mais fácil do que vendo as casas e as pessoas, as roupas e o calçado, que eram sempre mais ou menos iguais. Quando cheguei à aldeia de que falo, nos primeiros tempos todos os rostos me pareciam iguais, todas as mulheres se assemelhavam umas às outras, ricas e pobres, novas e velhas. Tinham quase todas a boca desdentada: as mulheres ali perdiam os dentes aos trinta anos, devido às fadigas e à má alimentação, aos esforços dos partos e dos aleitamentos, que se seguiam sem trégua. Mas depois comecei pouco a pouco a distinguir a Vincenzina da Secondina, a Annunziata da Addolorata, e também a entrar em todas as casas e a aquecer ‑me aos seus diferentes lumes. Quando a primeira neve começava a cair, apoderava ‑se de nós uma lenta tristeza. Era um exílio, o nosso: a nossa cidade estava longe e estavam longe os livros, os amigos, as coisas várias e volúveis de uma verdadeira existência. Acendíamos a nossa estufa verde, com o seu tubo comprido que atravessava o tecto: reuníamo‑nos todos na divisão onde estava a estufa, e aí cozinhávamos e comíamos, o meu marido escrevia sentado à grande mesa oval, as crianças espalhavam os seus brinquedos pelo chão. No tecto da sala havia uma águia pintada: e eu olhava a água e pensava que era aquilo o exílio. O exílio era a águia, era a estufa verde que zumbia, era o campo silencioso e vasto e a neve imóvel. Às cinco soavam os sinos da Igreja de Santa Maria, e as mulheres iam à bênção, com os seus xailes pretos e o rosto vermelho. Todas as tardes o meu marido e eu dávamos um passeio: todas as tardes caminhávamos de braço dado, enterrando os pés na neve. As casas que ladeavam a rua eram habitadas por gente conhecida e amiga: e todos apareciam à porta e nos diziam: “Que tenham boa saúde.” Por vezes alguém perguntava: “Mas quando é que voltam para a vossa casa?” O meu marido dizia: “Quando a guerra acabar.” “E quando é que guerra acaba? Sabes tudo e és professor, quando é que ela acaba?” Chamavam ao meu marido “o professor”, não sabendo pronunciar o nome dele, e vinham de longe consultá‑lo sobre as coisas mais variadas, sobre a melhor época do ano para se tirarem os dentes, sobre os subsídios concedidos pelo município e sobre as contribuições e os impostos. De Inverno uma pneumonia levava algum velho, os sinos de Santa Maria dobravam a finados, e Domenico Orecchia, o carpinteiro, fabricava o caixão. Uma mulher enlouqueceu e levaram ‑na para o manicómio de Collemaggio, e a aldeia falou do caso durante algum tempo. Era uma mulher nova e asseada, a mais asseada de toda a aldeia: e disseram que aquilo lhe acontecera por causa do seu grande asseio. A Gigetto di Calcedonio nasceram duas gémeas, além dos dois gémeos que já tinha em casa, e ele armou um escândalo no município porque não queriam dar ‑lhe o subsídio, por ter já muitas terras e um pomar do tamanho de sete cidades. Uma vizinha cuspiu no olho de Rosa, a porteira da escola, e esta começou a andar com uma venda no olho para que lhe pagassem uma indemnização. “O olho é delicado, o cuspo é salgado”, explicava ela. E também do seu caso se falou durante algum tempo, até mais nada haver a dizer sobre ele. A nostalgia crescia em nós de dia para dia. Por vezes era até agradável, como uma companhia terna e ligeiramente inebriante. Chegavam cartas da nossa cidade, com notícias de casamentos e de mortes que nos excluíam. Por vezes a nostalgia fazia ‑se aguda e amarga, e tornava ‑se ódio: então odiávamos Domenico Orecchia, Gigetto di Calcedonio, Annunziatina, os sinos de Santa Maria. Mas era um ódio que mantínhamos escondido, porque o reconhecíamos injusto: e a nossa casa estava sempre cheia de gente, que vinha pedir favores e que vinha oferecê‑los. Por vezes a costureira vinha fazer ‑nos sagnoccole. Atava um pano à cintura e batia os ovos, e mandava Crocetta procurar na aldeia alguém que pudesse em prestar ‑nos um caldeirão bem grande. O seu rosto vermelho tinha uma expressão absorta e os olhos resplandeciam ‑lhe de uma vontade imperiosa. Teria sido capaz de deitar fogo à casa para que as sagnoccole lhe saíssem bem. Ficava com a roupa e os cabelos brancos de farinha, e, em cima da mesa oval onde o meu marido escrevia, iam sendo depositadas as sagnocolle. Crocetta era a nossa mulher a dias. A verdade é que não era uma mulher porque tinha catorze anos. Fora a costureira quem no ‑la descobrira. A costureira dividia o mundo em dois campos: os que se penteiam e os que não se penteiam. Devem evitar ‑se os que não se penteiam, porque natural mente têm piolhos. Crocetta penteava ‑se: e por isso ficou a servir ‑nos, e contava às crianças longas histórias de mortos e de cemitérios. Era uma vez um menino a quem a mãe morreu. O pai arranjou outra mulher e a madrasta não gostava do menino. Por isso matou ‑o enquanto o pai estava nos campos e fez com ele um cozido. O pai volta para casa e come, mas, depois de ter acabado de comer, os ossos que tinham ficado no prato põem ‑se a cantar:
Minha madrasta a maldita
cozeu ‑me numa marmita 
e depois de me cozer 
deu ‑me ao meu pai a comer.
Então o pai mata a mulher com a foice e pendura ‑a num prego na porta. Por vezes surpreendo ‑me a murmurar as palavras desta canção, e então toda a aldeia torna a aparecer diante de mim, juntamente com o sabor particular das suas estações, juntamente com o sopro gelado do vento e o som dos sinos Todas as manhãs eu saía com os meus filhos e as pessoas espantavam ‑se e desaprovavam ver ‑me expô‑los assim ao frio e à neve. “Que pecado fizeram estas criaturas?”, diziam. “Não está tempo para passeios, signò. Volta para casa.”
Nós andávamos muito tempo pelo campo branco e deserto, e as raras pessoas que encontrava olhavam para os meus filhos com piedade. “Que pecado fizeram?”, diziam ‑me. Quando ali nasce uma criança no Inverno, não a tiram de dentro do quarto antes de ter chegado o Verão. Ao meio ‑dia o meu marido vinha ter comigo trazendo o correio, e voltávamos todos para casa. Eu falava aos meus filhos da nossa cidade. Eram muito pequenos quando a deixáramos, e não tinham recordação nenhuma dela. Eu dizia ‑lhes que lá as casas tinham muitos andares, e que havia muitas casas e muitas ruas, e muitas lojas bonitas. “Mas aqui também há o Girò”, diziam os meus filhos. A loja do Girò ficava mesmo em frente da nossa casa. O Girò ficava à porta da loja como um velho mocho, e os seus olhos redondos e indiferentes fixavam a rua. Vendia um pouco de tudo: produtos alimentares e velas, postais, sapatos e laranjas. Quando chegava a mercadoria e Girò descarregava os caixotes, os rapazes corriam a comer as laranjas podres que ele deitava fora. No Natal chegavam também o torrão, os licores, os rebuçados. Mas Girò não cedia um soldo nos preços. “És muito ruim, Girò”, diziam ‑lhe as mulheres. Ele respondia: “Quem é bom os cães o comem.” No Natal os homens voltavam de Terni, de Sulmona, de Roma, ficavam por uns dias e tornavam a partir, depois de matarem o porco. Nos dias seguintes não se comia senão torresmos e salsichas, e não se fazia senão beber: depois os grunhidos dos pequenos porcos novos enchiam a rua. Em Fevereiro o ar tornava ‑se húmido e mole. Vagueavam no céu nuvens cinzentas e pesadas. Houve um ano em que durante o degelo se romperam as caleiras. Então começou a chover dentro de casa e os quartos transformaram ‑se em verdadeiros charcos. Mas foi a mesma coisa em toda a al deia: não ficou enxuta uma só casa. As mulheres despejavam baldes de água pelas janelas e varriam a água para fora de casa pelas portas. Havia quem se deitasse na cama com um guarda ‑chuva aberto. Domenico Orecchia dizia que aquilo era castigo de algum pecado. Foi assim durante mais de uma semana: os últimos rastos de neve desapareceram por fim dos telhados, e Aristide reparou as caleiras. O fim do Inverno despertava em nós uma espécie de desassossego. Talvez viesse alguém visitar ‑nos: talvez acontecesse finalmente alguma coisa. Alguma vez o nosso exílio teria de acabar. Os caminhos que nos separavam do mundo pareciam mais curtos; o correio chegava com mais frequência. Todas as nossas frieiras se iam curando lentamente. Há uma certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. As nossas existências desenvolvem ‑se segundo leis antigas e imutáveis, segundo um seu ritmo uniforme e antigo. Os sonhos nunca se tornam verdade, e no momento em que os vemos despedaçados compreendemos de súbito que as maiores alegrias da nossa vida estão fora da realidade. A nossa sorte corre nesta alternância de esperanças e de nostalgias. O meu marido morreu em Roma na Prisão de Regina Coe li, poucos meses depois de termos deixado a aldeia. Perante o horror da morte solitária, perante as alternativas cheias de angústia que precederam a sua morte, pergunto ‑me se isto nos aconteceu a nós, a nós que comprávamos laranjas na loja de Girò e passeávamos na neve. Então eu tinha fé num futuro fácil e alegre, cheio de desejos satisfeitos, de experiências e de iniciativas comuns. Mas esse tempo era o melhor da minha vida, e só agora que me fugiu para sempre, só agora o sei.”
Natalia Ginzburg , in As Pequenas Virtudes, Relógio D’Água Editores, 22/06/2021, pp 23-28

Descrição completa:
Entre 1944 e 1962, Natalia Ginzburg escreveu um conjunto de onze ensaios de pendor autobiográfico. São textos essenciais, o legado de uma das mais importantes escritoras do século XX, que viveu retirada no campo com o marido durante o governo de Mussolini e nos anos 60 se deslocou para Londres.
Por eles, passam as suas impressões sobre a juventude e a idade adulta, as consequências da guerra, o medo, a pobreza e a solidão, as recordações de Cesare Pavese e a experiência de ser mãe e mulher quando se é escritora.
São páginas de uma perturbadora beleza, lúcidas, plenas de sabedoria, testemunho de uma escrita capaz de transformar objectos e experiências quotidianos em assuntos de grande significado sobre os quais o tempo parece não passar.
 
SOBRE A AUTORA:
Natalia Levi, que viria a adoptar o apelido Ginzburg do seu primeiro marido, nasceu em Palermo a 14 de Julho de 1916. Passou grande parte da vida em Turim, para onde o pai, professor universitário de Anatomia, foi transferido em 1919. Tanto ele como os irmãos de origem judaica foram presos e acusados devido às suas ideias antifascistas. Apesar de a sua mãe ser católica, Natalia teve como toda a família uma educação laica. Estudou no liceu Alfieri, e publicou o seu primeiro livro de contos, I bambini, aos dezassete anos. Cinco anos mais tarde casou com Leone Ginzburg, professor de Literatura Russa. O casal manteve relações de amizade com Cesare Pavese e Carlo Levi, entre outros escritores. Em 1940, exilaram-se em Pizzoli. Sob o pseudónimo Alessandra Tornimparte, Natalia publicou, em 1942, O Caminho da Cidade, que seria reeditado em 1945 já com autoria assumida.
O marido foi detido e torturado até à morte na Prisão de Regina Coeli em 1944. Depois de libertada, nesse mesmo ano, Natalia deslocou-se para Roma, começando a trabalhar na editora Einaudi, aí publicando os seus livros. Em 1947, surgiu o seu segundo romance, Foi assim, que obteve o Prémio Tempo. Em 1950, casa com Gabriele Baldini, especialista em literatura inglesa, de quem terá dois filhos. Em 1961, publica As Vozes da Noite, que será adaptado ao cinema. Dois anos depois, sai Léxico Familiar, uma novela autobiográfica. Interpreta o papel de Maria de Betânia em Evangelho segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini. A partir do final da década de sessenta, publica vários livros, todos eles abordando relações familiares. Natalia Ginzburg foi também autora de várias comédias teatrais e tradutora de Proust, Flaubert e Maupassant. Foi eleita para o parlamento italiano em 1983. Morreu a 7 de Outubro de 1991.

domingo, 28 de junho de 2026

Ao Domingo Há Música




HOJE, AMANHÃ

Hoje é o passado de amanhã.
O que hoje está aqui, tão vivo
recordar-se-á, depois, num divã,
suave tesouro, já mal cativo.

Hoje, é tudo cheio de luz bem clara,
iluminando todos os recantos.
O hoje está cheio de vida rara,
onde tudo são vibrantes espantos!

Amanhã, um suave apagar
irá colocar um mui fino véu,
no que hoje está a fulgurar.

Amanhã, já será um novo céu,
a cobrir uma outra realidade
e os sortilégios de nova cidade!
            15.04.2023
Eugénio Lisboa

 O autor deste poema , Eugénio Lisboa, no Prefácio  do  seu livro " Soneto, modo de usar" confessa    que com o uso e o tempo , fui-me sentindo cada vez mais em casa , no soneto. 
E nós concordamos e aceitamos. Sentimo-nos em casa.  
É com ele que damos início ao registo musical deste domingo. Recordar um hoje ido  para  amanhã  um outro hoje iniciar.
Que vos agrade.

Aida Garifullina & Rolando Villazón, na célebre canção de Ernest di Curtis: Non ti scordar di me, acompanhados pela  Junge Sinfonie Berlin,  sob a direcção do Maestro Elias Grandy.
 
Tamara Radjenovic, soprano, e Vasa Stajkic, barítono, na famosa canção   Dime Que Sí, de Alfonso Esparza Otero (arrangement Bojan Mladenovic), acompanhados pela Belgrade classic symphony orchestra & Choir ‘’ Beli Anđeo’’, sob a direcção do Maestro  Darko Butorac.
   
Tamara Radjenovic & Vasa Stajkic, na popular canção   Quizas, Quizas, Quizas Quizas, Quizas, Quizas, de Osvaldo Farrés ( Arrangement Konstantin Blagojevic), acompanhados  pela Belgrade classic symphony orchestra & Choir ‘’ Beli Anđeo’’ sob a direcção do Maestro Darko Butorac.
 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O tal prazer da escrita

O tal prazer da escrita
por Eugénio Lisboa
“A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores. E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.
A escrita é a melhor arma de defesa e de ataque de que dispomos. Nenhuma nos defende tão bem de uma ferida ou faz, nos outros, uma ferida tão perene.
A escrita foi inventada por alguém que precisava muito dela, para registar informações. Assim, começou por ser útil e passou a ser agonicamente necessária. Escrevo, logo existo. Mas também: escrevo, logo não sofro. Quando escrevo, falo de um sofrimento que já foi, mas que deixa de o ser, no momento em que o escrevo. A funda alegria de o escrever mata o sofrimento que já se sentiu, mas se apaga ante o fulgor da escrita. Como dizia Montherlant, o escritor é aquele ser peculiar, que sofre, não sofrendo.
O Camões que escreveu o “Alma minha” não sentia, no momento em que a invocava, saudades da morta, sua amada. O que ele sentia, no momento da escrita, era a alegria de escrever uma saudade, que sentira, antes de a escrever, mas que não podia sentir, no momento em que a escrevia. O escritor é um monstro que mata, sem escrúpulos, no momento de o celebrar, o mais profundo sentimento que antes o afligira, para melhor o poder glosar, com os utensílios da sua arte. A alegria de escrever, o tal prazer da escrita tem muito de inumano. O grande escritor é, na sociedade em que vive, um suspeito a vigiar, porque pode ser perigoso. Por isso, o escritor Tonio Kröger, da famosa novela de Thomas Mann, ao regressar um dia, no tarde da sua vida, coberto de glória, à sua terra natal, torna-se suspeito, aos olhos da polícia local, que o toma por um malfeitor…
Não nos esqueçamos de que o grande William Faulkner declarou um dia que seria capaz de matar meia dúzia de velhinhas, se isso lhe permitisse escrever a belíssima ODE A UMA URNA GREGA, do poeta John Keats. Um poeta é capaz de tudo, mesmo de vender a alma ao diabo, para acertar um verso ou colocar uma vírgula no lugar certo. Quem não compreende isto não compreende nada deste ofício nem dos seus oficiantes.”
Eugénio Lisboa, em 20.06.2023

 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Viajar pelo Sahara

O desejo de partilhar uma experiência que julgamos valiosa não se deve perder.
                 George Orwell, Porque escrevo

Sahara: Uma viagem pelas Montanhas Hoggar, no sul da Argélia pelos Amazing Places 4K.
Explore a região das Montanhas Hoggar (Ahaggar), no sul da Argélia, e descubra a paisagem desértica de altitude com as suas dramáticas formações vulcânicas e graníticas, picos irregulares, estruturas basálticas erodidas e vastos planaltos rochosos. Locais apresentados no vídeo: O Monte Ilamane é um dos picos mais icónicos e visualmente impressionantes das Montanhas Hoggar, perto de Tamanrasset, no sul da Argélia. É um proeminente remanescente vulcânico no maciço de Atakor. Assekrem (Planalto de Assekrem) é, sem dúvida, o destino mais icónico e espiritualmente impactante das Montanhas Hoggar. Trata-se de um planalto vulcânico elevado e o ponto alto de qualquer expedição ao Sahara/Hoggar. Guelta Afilal consiste em piscinas naturais em rochas que albergam água permanente, uma raridade neste ambiente árido, bem como flora única e até pequenos peixes — entre as últimas espécies de peixes sobreviventes no Sahara. O sítio arqueológico de Tagmart Tan Afella é conhecido pelos seus antigos petróglifos gravados nas rochas graníticas.
0:00 Mount Ilamane; 2:15 Road to Assekrem; 3:44 Assekrem; 5:15 Guelta Afilal; 6:08 Desert Camp with petroglyphs; 7:44 Archaeological Site Tagmart Tan Afella.
Música por  JaySound. Design, Rawvibrations / Pond5
Sobre Amazing Places on Our Planet: Vídeos de alta qualidade de destinos turísticos incríveis de todo o mundo. Mergulhe nos lugares mais belos do planeta sem a distracção das palavras. Filmado e editado por Milosh Kitchovitch (contacto comercial: ). YouTube: Site: Facebook: Instagram: Todos os vídeos no mapa 4K. More Amazing Places em 4K.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A Mulher Adúltera

A mulher adúltera é um poema do  poeta brasileiro Manoel de Andrade que acaba de ser  musicado por Gustavo Lencin.

A Mulher Adúltera

Jesus chegara ao nascer do dia,
e ali, no Templo, ensinava o povo.
Falava a todos sobre um reino novo
e o caminho do amor a todos anuncia.

Chegam depois escribas e fariseus,
trazendo uma mulher por adultério
e citando a Lei, por tamanho vitupério,
apedrejada devia ser entre os judeus.

Que dizes tu? perguntam provocando,
para acusá-lo, se desse o seu perdão.
E vendo-o sereno a escrever no chão,
os acusadores persistem interrogando.

Ergue-se Jesus, ao ser tão provocado
e ante a pobre mulher ali prostrada,
Diz-lhes: Que dê a primeira pedrada
o que dentre vós estiver sem pecado.

E ouvindo isto, saem eles de mansinho,
o orgulho humilhado pela sapiência,
seus pecados na própria consciência
e a hipocrisia buscando outro caminho.

E no meio de todos que lá estavam
compadecido da mulher por seus errores
pergunta-lhe: Onde estão teus acusadores?
Não te condenaram os que te denunciavam?

Ninguém, Senhor, disse ela ante os demais.
Pois também eu, mulher, não te condeno,
disse com compaixão o meigo nazareno.
Vai, e de agora em diante não peques mais.

Curitiba, 24 de janeiro de 2026
Manoel de Andrade

domingo, 21 de junho de 2026

Ao Domingo Há Música

  
Quando ouço música, a minha imaginação compraz-se muitas vezes com o pensamento de que a vida de todos os homens e a minha própria vida não são mais do que sonhos de um espírito eterno, bons e maus sonhos, e de que cada morte é o despertar.
                        Arthur Schopenhauer

A música tem,  para todos nós,  a capacidade de,  em qualquer momento, nos libertar , nos levar para lá daquilo que nos apouca e , por vezes, nos atormenta. Se o sonho  liberta , a música  transforma. E quando a sentimos , o mundo engalana-se de todas as cores, em  eufónico brilho ,   conforme o desejo de cada um.
Hoje, apostamos em duetos de composições que nos agradam e ficaram na memória. As vozes souberam dar-lhe a forma que chega ao coração e faz reviver a magia que nos invadiu.

Céline Dion Luciano Pavarotti , em  I Hate You Then I Love You (Live).

   
Chris Stapleton Lady Gaga, em  When A Man Loves A Woman (2026 AI Music Video)  

Bárbara Bandeira  e Carminho , em  Onde Vais (feat. Carminho) [Official Music Video].
 
Sinéad O'Connor e Roger Waters, em Mother.
Jimmy Barnes  e Tina Turner , em  (Simply) The Best (Official Video).
  
Mary J. Blige U2, em  One (Official Music Video).
 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Rico e vário

Sou rico – e vário
por Eugénio Lisboa
"Tem havido quem estranhe que eu, saído de Moçambique, tenha depois dedicado tão pouca da minha atenção às literaturas africanas de língua portuguesa. Como de costume, a estranheza é que é estranha. Nascido em Moçambique e aí tendo vivido um total de 38 anos, terei sido um dos primeiros – mas não seguramente o primeiro – a dedicar alguma atenção crítica e não pouco carinho a textos importantes de uma emergente literatura africana. Mas a minha cultura, como a de quase todos os europeus residentes em África, era uma cultura fundamentalmente portuguesa, europeia e universal no melhor sentido. Nunca me inculquei – porque nem era verdade, nem era a minha verdadeira vocação – como especialista de literatura moçambicana. Estudei-a, sim, e até muito antes de outros que depois se lhe dedicaram em exclusividade. Mas tive, desde muito novo, outras apetências, outros alimentos a que nunca soube, nem quis fugir. Se a África me está no sangue, no imaginário e no coração, a Europa e as Américas não o estão menos. Aluno de engenharia, em Lisboa, a partir de 1947, a minha curiosidade insaciável por nomes como Camões, Pessoa, Vieira, Sá-Carneiro, Eça, Garrett, Camilo, Régio, Gide, Proust, Montaigne, Montherlant, Thomas Mann, Racine, Stendhal, Balzac, Shakespeare, Dickens, George Eliot, Shelley, Wordsworth, Pessoa, Sá-Carneiro, Régio, Lorca, Unamuno, Ortega y Gasset, T.S. Eliot, Sherwood Anderson, Edgar Poe, Hemingway, Faulkner, Pirandello, D’Annunzio, Huxley, Bertrand Russell, Bernard Shaw, o inimitável Oscar Wilde, Tolstoi, Tcheckov, Dostoiewsky ou Fiodor Sologub, [a minha curiosidade por todos estes nomes] nunca cessou de me devorar e estimular no melhor sentido. Se estudei Craveirinha, Luis Bernardo Honwana, Rui Knopfli, Rui Nogar ou Glória de Sant’Ana, que em Moçambique viveram (e, alguns, nasceram, e outros, ainda, nasceram e morreram), se o fiz com um cuidado e uma imparcialidade crítica que nem sempre se tem votado às literaturas africanas, não me senti por isso obrigado a jugular aquelas outras apetências que eram, para mim, vitais. De nada disto me sinto com vontade de pedir desculpa ao povo de Moçambique. Porque o povo de Moçambique tem a grandeza de Moçambique e deve portanto saber alcançar o que está para além de Moçambique. O melhor do que é particular é também universal. Foi para mim um privilégio inconcebível, uma permanente fonte de assombro – e é o assombro que leva a todas as descobertas – ter nascido em Moçambique: aqui descobri os afectos, os saberes, o respeito sagrado pelas crianças e pelos velhos, o Oceano Índico, as praias como não há outras, o amor, a leitura, a ciência, o calor, os mais bonitos outonos e invernos do universo, mas aprendi também – e assim é a humanidade – que se é muitas vezes feliz e cumulado de riquezas no meio de outros que são menos felizes e bem menos municiados pelos alimentos terrestres. Aprendi que existe a injustiça que fere como um espinho que nunca se arranca. E aprendi que a nossa simpatia para com o sofrimento dos injustiçados nos pode marginalizar numa sociedade que se construiu sobre a injustiça e teme a justiça como o fim de privilégios que se habituara a ter como bens de direito divino. Aprendi a sofrer, também, aqui, em Moçambique. E aprendi a deixar de ser feliz daquela maneira inocente de ser feliz que me visitara a infância e a adolescência, mas que a idade adulta foi desassossegando como quem mina fundações que pareciam tão sólidas. Moçambique. Dei-lhe o que podia, sendo eu quem sou. Não lhe dei, talvez, tudo quanto devia. Repito: tenho raízes em mais do que um quintal. Sou rico – e vário. Ao fim de cinquenta anos de escrever e publicar, agora que se aproxima o fim da minha aventura, agradeço do coração a todos os que me enriqueceram com o seu convívio, com as luzes que em mim acenderam, com os acordes que me encantaram os ouvidos. Moçambicanos ou não, o meu temperamento não se dá nem com a rejeição, nem com a exclusão. Dizia Montaigne – e melhor conselheiro do que ele não há! – que a diversidade é a qualidade mais universal que há no mundo. Com ela me dei sempre bem, ao seu calor me aqueci, com o seu estímulo, caminhei. E, aqui, neste Moçambique que visito provavelmente pela última vez e onde descobri, com assombro inextinguível, o milagre de estar vivo e de estar vivo com outros um pouco diferentes de mim, aqui me despeço de vós, com quem aprendi, entre outras coisas, aquilo que há muitos séculos fora já descoberto por um escravo chamado Terêncio: que, sendo humano, a nada do que é humano sou alheio.” 
Eugénio Lisboa, inTexto lido na Escola Portuguesa de Moçambique, em 7 de Junho de 2007

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Viajar pelo Irão

Foi sempre com a legenda que se construiu a vida.
                                     Raul  Brandão
 
Irão em 4K - paisagens  incríveis com música relaxante, por Adnan Akhtar.

domingo, 14 de junho de 2026

Ao Domingo Há Música


A nuvem veio e o sol parou

A nuvem veio e o sol parou.
Foi vento ou ocasião que a trouxe?
Não sei: a luz se nos velou
Como se luz a sombra fosse.

Às vezes, quando a vida passa
Por sobre a alma que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.

Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu, mau véu, ou quase véu,
E, como tudo, não é nada.
                    10-9-1934
Fernando Pessoa, in Novas Poesias Inéditas. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993)

Festejámos Fernando Pessoa, ontem , 13 de Junho, dia do seu aniversário. Um aniversário que já fora versejado por ele próprio, no poema "Aniversário", na voz do seu heterónimo  Álvaro Campos.  Nele, o poeta faz a  revisão do tempo que passou e que, no seu devir, alterou o sentido da festa natalícia.  A nostalgia de um tempo feliz  marca a primeira estrofe  do  poema: No tempo em que festejavam o dia dos meus anos/ Eu era feliz e ninguém estava morto./ Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,/ E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
E , perante o desencanto que lhe provocou a passagem dos dias ,  confessa mais à frente: Hoje já não faço anos./ Duro./ Somam-se-me dias./ Serei velho quando o for./ Mais nada./ Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!
Era impossível não  festejar o seu 138º aniversário. Não nos conformámos, pelo que teimámos em dedicar-lhe o dia de ontem. E porque  a Língua Portuguesa era a sua pátria, continuamos sob a  influência deste poeta maior, ao apresentar o registo musical deste domingo na sua língua  e com  novas produções de vozes  portuguesas. 

Sara Correia, em As Mãos Do Meu Carinho.
Marisa Liz e Camané, em Gente Aberta
Letra e Música: Erasmo Carlos. Voz - Marisa Liz e Camané Mistura e masterização - Sassá Nascimento. Bateria - Ricardo Danin. Baixo - Tiago Pais Dias. Guitarra Acústica - Gui Salgueiro e Tiago Pais Dias. Viola da Terra - Gui Salgueiro. Lap Steel - Zé Nuno. Teclados - Gui Salgueiro. Programações - Gui Salgueiro. Coros - Marisa Liz e Gui Salgueiro. Produção - Gui Salgueiro, Tiago Pais Dias e Marisa Liz. Técnico de Gravação - Nuno Simões. Vídeo: Realização e Edição: Diogo Branco.

sábado, 13 de junho de 2026

Festejar Fernando Pessoa o mais universal poeta português


 Outros modernistas como Yeats, Pound, Eliot inventaram máscaras pelas quais falavam ocasionalmente… Pessoa inventava poetas inteiros
                    Robert Hass, poeta americano, a propósito dos heterónimos

"Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa a 13 de Junho de 1888, mas viveu a sua infância em Durban, na África do Sul. Alguns anos depois de regressar a Portugal para completar os seus estudos, e quando já tinha iniciado a modesta atividade profissional de tradutor comercial que exerceria ao longo de toda a vida, começa a publicar os seus primeiros textos e participa ativamente em tertúlias literárias, sendo um dos fundadores em 1915 da revista “Orpheu” – onde também colaboravam Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros ou Santa-Rita Pintor – publicação seminal responsável pela introdução do Modernismo em Portugal. Poeta “plural como o Universo”, e que assumia que “ser poeta e escritor não é profissão, mas vocação”, a sua escrita é muitas vezes impossível de catalogar ou definir, até pela multiplicidade dos heterónimos que figuram na autoria de muitas das suas obras – onde se destacam Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, e Bernardo Soares – constituindo também por isso uma profunda reflexão sobre a relação entre a verdade, a existência e a identidade. A figura de Pessoa, um homem profundamente introvertido e melancólico, acaba assim por se fundir com a dos seus heterónimos, espelho duma ambição de viver outras vidas, expandindo a sua existência para além da simples condição de empregado de escritório que vivia modestamente e praticamente sem vida social. Paradoxalmente, para quem escrevia compulsivamente “como se fosse muitos”, Fernando Pessoa apenas publicou em vida alguns textos e poemas dispersos e, um ano antes da sua morte, a colecção de 44 poemas “Mensagem”, obra épica, metafórica e profética, onde apresenta a sua visão patriótica dum Quinto Império, tentando encontrar um sentido para a antiga grandeza de Portugal e a decadência existente na época em que o livro foi escrito. Aquele que trazia consigo “todos os sonhos do Mundo” e para quem “a Pátria é a língua portuguesa”, viria a falecer em 1935 tal como viveu, só."
Casa Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa 01 - Mariza, Camané, Madredeus, Mísia, Dulce Pontes & Salvador Sobral (letra)
00:12 - Há uma música do povo
Intérprete: Mariza e Sinfonietta de Lisboa, Lisboa - 2006 
Poema: Fernando Pessoa, 9-11-1928 - Poesias Inéditas (1919-1930)
 Música: Mário Pacheco Arranjo e regência: Jaques Morelenbaum

03:37 - Ai, Margarida
Intérprete: Camané, Antena 1 - 2013
Poema: Fernando Pessoa / Álvaro de Campos
Música: Mário Laginha

06:46 - Silfos ou Gnomos tocam?
Intérprete: Madredeus, Centro Cultural Belém - 1993
Poema: Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues, 25-9-1914
Música: António Variações

12:25 - Dança de mágoas
Intérprete: Mísia
Poema: Fernando Pessoa, “Cancioneiro”
Música: Raúl Ferrão, Fado Carriche

16:32 - Infante
Intérprete: Dulce Pontes, Istambul - 2007
Poema: Fernando Pessoa, "Mensagem"
Música: Dulce Pontes, Meir Ariel e Yehuda Eder

21:07 - Presságio
Intérprete: Salvador Sobral, Fórum Cultural do Seixal - 2017
Poema: Fernando Pessoa, 1928 - Poesias Inéditas (1919-1930)
Música: Júlio Resende

quinta-feira, 11 de junho de 2026

O primeiro livro e o regresso a Lourenço Marques


Eugénio Lisboa, 1930-2024

O primeiro livro e o regresso a Lourenço Marques
por Eugénio Lisboa
“Publiquei o meu primeiro livro, há 50 anos. Vivia então na cidade da Beira (ainda hoje se chama assim), em Moçambique. O livro, diga-se de passagem, não foi publicado na Beira, nem sequer em Lourenço Marques, cidade onde nascera e onde vivera a maior parte da minha vida até então vivida. Também não foi publicado em Lisboa, onde tirara o meu curso de engenharia (como se vê, a minha vocação para eterno “outsider” é impecável). Viu a luz no Porto, onde nunca vivi, editado pela Livraria Tavares Martins, que o acolheu numa colecçãozinha intitulada “Poetas de Ontem e de Hoje”, dirigida por João Gaspar Simões, que eu não conhecia pessoalmente, e que me não conhecia a mim, nem pessoalmente, nem de maneira nenhuma: eu nunca publicara nada, nem em livro, nem em revista, nem em jornal e não tinha por costume andar atrás de escritores, mesmo dos que admirava. A responsabilidade do livro foi-me simplesmente cometida, de forma algo escandalosa, por um dos tais escritores que eu muito admirava – José Régio - , cuja obra conhecia como os meus dedos, mas sobre a qual não escrevera, nem sonhava escrever uma única linha. Uma noite, em Portalegre, regressando com ele do Café Central – hoje assassinado - , comunicou-me que, na sua recente visita ao Porto, o Tavares Martins lhe pedira autorização (e colaboração) para incluir na supra dita colecção, logo a seguir ao tomo dedicado a Garrett, uma antologia de poesia do autor de Poemas de Deus e do Diabo. Régio respondera-lhe que sim, com a condição de ser ele – e não Simões – a escolher o ensaísta que organizaria a antologia e para ela escreveria um estudo crítico introdutório. E que o escolhido seria um oficial miliciano chamado Eugénio Lisboa, que conhecera em Portalegre e ali se encontrava, a cumprir serviço. O Tavares Martins aceitara e, pelos vistos, o Simões também. (…) Portalegre serviu, também, para me apresentar o Alentejo, que ainda hoje é a minha província favorita num Portugal a que pertenço e não pertenço, visto encontrar-me maravilhosamente tripartido entre Moçambique, a Inglaterra e Portugal, minhas três pátrias de que não abdico: não sou um desenraizado, o que tenho é muitas raízes – em suma, sou rico. De qualquer modo, só para conhecer uma cabeça como a do Régio e um coração como o do Dr. Falcão, valeu a pena ir cumprir a pena de degredo, em Portalegre.
(…)Comecei por gaguejar com a honra que surpreendentemente me visitava e por dizer ao Régio que, sim senhor, me tocava muito o convite, mas que nunca publicara nada (embora rabiscasse um “diário” errático para a gaveta) e que, portanto, não fazia sentido aceitar a oferta. Mas o Régio sabia-a toda. E foi por ali fora, alegando isto e aquilo e ainda que, nas nossas alongadas conversas de café, eu mostrara um conhecimento, em profundidade, da obra dele, como nunca vira em ninguém, que, acrescentava ele, a escrever, é que se aprende a escrever, e que, em suma, ele não tinha qualquer dúvida quanto ao serviço asseado que sairia das minhas mãos. Mas eu iria, poucos meses depois, para África, atirei-lhe, a ver se o dissuadia... Que não fazia mal: acabava o trabalho antes de partir e ele, Régio, comprometia-se a rever, em Portugal, as provas, com todo o cuidado que punha nas suas próprias coisas.
(…)Parti para Lisboa em fim de Fevereiro de 1955, envaidecido e apavorado. Parecia-me cada vez mais uma enorme loucura ter-me rendido ao desafio do grande escritor. De qualquer modo, pus-me ao trabalho, aboletado, em república, na casa do Rui Serrão, colega e amigo de batalhão, que também se fizera amigo do Régio e do Dr. Falcão e deixara, por acaso, o coração em Portalegre, nas mãos gentis da “bela Helena”, com quem viria a casar. De dia, fazia os estágios e ia preparando os relatórios e, à noite, relia o Régio, tomava notas, escrevia períodos que me pareciam dignos de, mais tarde, se irem encaixar no mítico ensaio-a-haver. E tinha cada vez mais medo de não ser capaz de escrever coisa com coisa. Mas sempre ia descobrindo, na obra do autor de A Velha Casa, recantos que, até então, só mal entrevira: dava-me um estranho gozo interior sentir, às vezes, que acertara, que tocara em algo de profundamente revelador, mas sufocava-me a angústia de ainda não ver o texto em que tudo aquilo se iria inserir. Foi um trabalho longo, minucioso, lento, angustiado, que durou de Março a Maio: três meses suados e bem suados. Acabei, com uma alegria que não há palavras para contá-la, por descortinar o guião geral em que as minhas pérolas singulares se iriam incrustar. Aqueles átomos de descoberta não iriam ficar pendurados, sem se articularem num todo que fizesse sentido. Finalmente eu via o argumento. Mas havia em tudo aquilo um defeito contra o qual não me apetecia lutar: era o meu primeiro livro, mais, era o meu primeiro texto, e era-o sobre um escritor que eu conhecia bem e que me “agarrara” aos quinze ou dezasseis anos, com um livro que nunca mais saíra de mim: Uma Gota de Sangue, primeiro volante de uma vasta e ambiciosa soma romanesca, que viria a ficar incompleta. Como acontece com os primeiros livros, eu queria meter “tudo” logo no primeiro parágrafo: tal era o medo de que se “perdesse” se o não registasse logo ali... Um ou outro período corria assim o risco de sair, não propriamente “rico”, mas sim “atafulhado”...
Escrevia à mão, com letra bem desenhada e, no fim, copiei o texto num caderno de trinta e cinco linhas (salvo erro, não juro, branco), que enviei ao Régio, em Portalegre. Passara as duas últimas noites a escrever, sem dormir, à custa de anfetaminas, de que, depois, nunca mais abusei. E fiquei à espera.
Pelo meio, acabei os estágios, amanhei à pressa e sem grande convicção, os relatórios e recusei, com desenvoltura e alguma leviandade, um bom emprego que me fora lisonjeiramente oferecido, para Alverca: decidira mesmo regressar a África, à minha África, onde tinha espaço, recordações, família, o Nero já enterrado e, quem sabe, amores à espera. Estava farto de Lisboa, de Portugal, da Europa, da pequenez disto tudo. Ir-me-ia embora – o Régio não aprovava – no princípio de Agosto. Entretanto, no meio da agitação que precedia a partida, chegaria a reacção do poeta aos meus trabalhos de Hércules. E, com efeito, com data de 22 de Maio (três dias antes do meu aniversário) veio por fim a carta acusando a recepção do meu manuscrito. Abri-a a tremer. Entre outras coisas, dizia o seguinte, começando com as “cautelas” do protocolo: “Ao fazer um juízo sobre o seu trabalho, tenho de ser muito sóbrio: isto porque – numa certa medida – louvando-o, quase teria a impressão de me estar louvando a mim próprio(...) Só quis dizer que Você é muito amável com as minhas coisas. As restrições também lá estão, por certo, e ainda bem! Mas os meus inimigos dirão que certos aspectos apologéticos excedem em muito as observações restritivas, Mais uma vez passemos adiante. O que não pode ser louvar-me, - é reconhecer eu a penetração, a densidade, o encadeamento lógico, visíveis (e creio que, felizmente, não só a mim!) em todo o seu estudo, e que, aliás, eu já esperava de Você. A forma nem sempre é lapidar, e até possível é que Você não tenha propensão especial para o lapidarismo. Ainda se não vê bem, perante certos seus longos períodos, o que é devido a uma inexperiência natural num jovem escritor, ou o que deriva de uma personalidade. Mas o emprego do termo próprio, justo, já é notável na sua prosa; e devo confessar que, se já esperava de Você as qualidades de inteligência e sensibilidade patentes num estudo tão completo e aprofundado a dentro dos seus limites de extensão, não sabia, por ainda não ter lido nada seu, quais seriam as suas possibilidades de expressão verbal. Vejo que tais possibilidades de expressão já não desmerecem da coisa exprimível. Estou, portanto, e em suma, verdadeiramente satisfeito com o ter escolhido, se me permite falar assim. Quando o livro saia, e me pedir alguém de fora (como já tem sucedido) um estudo que dê uma ideia da minha obra – terei, finalmente, um pequeno volume em que já se diz muito sobre ela.” O elogio, vindo do cauteloso Régio, era de monta. Mas fui particularmente sensível ao facto de ele ter percebido o “encadeamento lógico” do meu texto: sofrera angústias, com o receio de não vir a dar uma articulação de enredo ao conjunto de observações que a obra regiana me suscitara. Temera, sobretudo, produzir um amontoado de “pérolas” sem fio de ligação – e, sem fio, como nota Ortega y Gasset, não há “colar”. A carta de Régio vinha sossegar-me.” 
Eugénio Lisboa, Texto lido na Escola Portuguesa de Moçambique, em 7 de Junho de 2007

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Que país constróis?


Que país constróis?

Porque tens nos olhos
o sol
       e o mar…

Porque tens nos olhos
o rio
    e também:
 o riso
e o fogo
 
Porque tens no ventre
a raiz de todas
as crianças…
 
que país constróis
diariamente?
Maria Teresa Horta, in Mulheres de AbrilEditorial Caminho, Lisboa, 1977