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| Eugénio Lisboa (25 de Maio 1930 - 9 de Abril de 2024) |
Máquina de Assombros
Das humildes praias deste oceano,te olhámos, cosmos: era o começo.De aqui, assombros vimos: cada ano,o milagre era um recomeço.Eugénio Lisboa, O Ilimitável Oceano
Talento é acertar um alvo que ninguém acerta. Genialidade é acertar um alvo que ninguém vê.
Arthur Schopenhauer
Exm.º Presidente da APE
Exm.º Vice-Presidente da APE
Exm.ª Porta-Voz do Júri do Prémio
Exm.º Comendador Jorge Morão
"Estou
aqui, hoje, em Castelo Branco, por onde passei, em Junho de 1977, numa
atormentada viagem entre Estocolmo e Lisboa, estou aqui, dizia, para receber um
Prémio. Melhor ainda: um Grande Prémio.
Há piores razões para se estar num lugar, embora as opiniões, no que respeita a
galardões, se dividam. Os prémios, como tudo na vida, são matéria de
controvérsia. Há reacções a eles, de todos os gostos e formatos.
Há quem os recuse liminarmente. Tolstoi, por exemplo, avisou a Academia sueca,
em vias de lho atribuir, que o não fizesse, porque ele, Tolstoi, o autor
insigne da Guerra e Paz e da Ana Karenina, se
veria na obrigação de o recusar. George Bernard Shaw, o mais civilizado de
todos os recusadores, aceitou o diploma e a medalha, mas rejeitou o alentado
pacote de coroas suecas, que pouca falta lhe faziam: que o dessem, sugeriu ele,
a um jovem e promissor escritor sueco, que mal não lhe faria; Jean-Paul Sartre,
o pior dos três, recusou ostensivamente o Prémio, mas consta que mandou recado
submarino ao embaixador sueco, dizendo que não queria o diploma nem a medalha,
mas que se não importaria de ficar com o dinheiro. A elegância nunca tinha sido
o seu forte e continuaria a não sê-lo de aí em diante. Jean Cocteau, o “enfant
terrible” da literatura francesa do século passado, adoptou, a este respeito, a
atitude mais radical, ao aconselhar: “Não só não deves aceitar um prémio, como
não deves sequer merecê-lo.” Isto é, segundo o critério do autor de Orphée,
no merecer um prémio já havia um indício de cedência ou conformismo…
O já citado e eminente dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw, talvez o maior
dramaturgo em língua inglesa, depois de Shakespeare, via, na atribuição dos
prémios, um projecto amaciador, quando dizia: “O objectivo real dos prémios que
se dão nas escolas é o de encorajar as crianças a criarem o mínimo possível de
turbulência.” Eu não creio, sinceramente não creio que os meus amigos que, por
acaso, foram membros do júri, me tivessem atribuído este prémio para
pacificarem quaisquer meus pruridos de turbulência.
Outra reacção típica dos recebedores de prémios reside em afectarem um ar
recomendavelmente humilde, insinuando não merecerem eles o prémio que lhes foi
atribuído, o qual deveria ter ido parar a terceiros, que, às vezes, até
nomeiam. Foi o caso de Hemingway que, ao ser-lhe atribuído o Nobel, em 1954, se
apressou a dizer que o laureado não devia ter sido ele, mas, antes, ou o
escritor espanhol Pio Baroja ou a grande contista dinamarquesa Karen Blixen. O
que, de modo algum, implicava que o laurel lhe não tivesse sabido bem. E até
nem consta que tivesse dividido o seu valor monetário com aqueles dois
alegadamente injustiçados. Fair-play, sim, mas devagar, como certamente
recomendaria el-rei D. Sebastião.
Neste saboroso registo do “não sou eu quem merece o prémio”, o mais capitoso
exemplo que conheço é o do grande cómico americano Jack Benny, com quem
imparavelmente me ri, na minha infância e adolescência, o qual, no momento de
lhe ser outorgado um galardão qualquer, reagiu nestes termos: “Eu não mereço
este prémio, mas, se vamos a isso, também não mereço ter a artrite que tenho.”
Por outras palavras, se tinha artrite, mesmo sem merecê-la, por que não haveria
de ter um prémio, mesmo não o merecendo? Convenhamos que a lógica é
irrespondível. É esta resposta do meu outrora admirado Jack Benny que me deixa
relativamente confortável quanto à possibilidade – ou mesmo, alta probabilidade
– de eu aqui estar a receber um galardão não irresistivelmente merecido. Que
saiba, não tenho artrite, mas tenho 84 anos, que valem por não sei quantas
artrites e mais um infindável número de outras desvantagens. Venha, pois, o
prémio, mesmo com a dimensão de Grande Prémio, e aqui ficam os meus
agradecimentos aos membros do júri, a quem deu para repararem no meu livrinho.
Mentiria como um desbragado mentiroso, se dissesse que não fiquei feliz. Não
sei se ficaria igualmente feliz com um prémio atribuído a qualquer outro livro
meu (e sei do que falo, porque já os recebi). Mas o carinho e o investimento
emocional que pus neste, em particular, quero dizer: neste primeiro volume das
minhas sonhadas e arquitectadas memórias em 5 volumes, foi tão grande, que o
reconhecimento a ele dado pelo júri me caiu fundo, no coração. É, para mim, um
livro especial, como são e serão os restantes volumes da saga. Andei anos a
magicá-lo, a sonhá-lo, a fruí-lo, antes de me meter a escrevê-lo. É que iria
falar, nele – falar-vos, nele – de algo muito importante que me
aconteceu, há muitos anos, em África: ter ali nascido e ter, para sempre,
ficado espantado por isso me ter acontecido, a mim: ter nascido e
ter nascido, ali. O meu livro – e os dois volumes que se lhe
seguiram e os dois que se lhe hão-de seguir – falam o tempo todo – mesmo quando
o não dizem claramente – desse espanto inaugural, que nunca mais me abandonou,
ao longo do caminho da vida. O Alto Mahé, a Rua Norte, o Largo João Albasini, a
Estrada do Zixaxa, o Cine-Variedades, onde se inventou o cinema, mesmo em
frente à imponente Casa das Tias, a Rua Mendonça Barreto, no Alto Mahé, de onde
eu via o mundo todo, nas páginas dos livros que devorava, o liceu, no outro
extremo da 24 de Julho, o Cabo Submarino, as matinées do Scala – tudo marcas
profundas que o espanto de as ter recebido, como dom dos deuses, sem bem saber
porquê, gravou a fogo na minha memória. Ficaram cá, dentro de mim, e eu não
gostaria de ficar egoistamente com elas, de as não partilhar convosco, antes de
me ir embora para paragens de que não há nunca notícia.
Do corpo do texto deste 1º volume – o que foi premiado – transportei para a
contra capa, uma significativa passagem que ilumina o fundo do meu propósito,
ao empreender esta minha busca de um tempo (nunca) perdido: “Lanço, neste
papel, memórias que me parecem importantes – a mim.
Escrever memórias é tentar imprimir a marca da eternidade a momentos para nós
inesquecíveis e inesquecidos, intensos, mágicos, às vezes, quase
insuportavelmente vivos… mas que serão, para outros, provavelmente despidos de
interesse. Captar a atenção destes, a sua cumplicidade, atraí-los a esta
narrativa de minúcias e convencê-los de que estes momentos foram realmente algo
de especial – eis a tarefa gigantesca do memorialista. Tarefa impossível ou
quase, mas que, de quando em quando – uma vez num milhão – resulta. Não vou
meter-me a acreditar – sou paranóico, sim, mas devagar – que este meu
empreendimento é esse “um num milhão”. Mas, como acontece com todos aqueles que
pousam palavras no papel, gostaria muito que fosse. Como dizia o maluco chapado
do Álvaro de Campos, “Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez”.
Fico, pois, feliz, com o Prémio, porque alguém reparou no meu
livro e gostou dele – e um livro é um filho nosso. Não se leva a bem que o não
achem bonito. Mas fiquei também feliz – e não pouco – por verificar que há
instituições e autarquias que acreditam – bem hajam! – que a cultura é
importante para a imagem que um país projecta, em todos os sectores da vida,
que a cultura não é um mero adereço mais ou menos fútil e inócuo, que é parte
subliminarmente vital do melhor que esse país tem a oferecer. Sem uma imagem
culturalmente forte, ninguém vai ter muita fé na qualidade dos outros produtos
que ele ostenta, sejam eles industriais ou agrícolas ou meros mas não
insignificantes serviços.
Só mais uma observação: não creio que um prémio literário confira qualquer
poder ao galardoado – nem sequer poder literário. Dizia esse grande sage
americano que dava pelo nome de Oliver Wendell Holmes que “o único prémio
acarinhado pelos poderosos é o poder. Para o general, o prémio não é uma tenda
maior – o prémio é o comando.” O poder – mesmo o poder literário – foi algo que
nunca visei e junto do qual sempre respirei mal. Não seria agora, nesta hora
tardia do meu caminhar pela vida, que iria mudar o meu modo de estar no mundo.
Este prémio deixa-me feliz e grato – mas intacto.
Resta-me agradecer à Câmara de Castelo Branco, que financiou o galardão e
organizou, com cuidado e competência, a cerimónia da sua atribuição, à
Associação Portuguesa de Escritores, cujo Presidente e meu Amigo, Dr. José
Manuel Mendes, se dignou deslocar-se a esta cidade, assinalando,
carinhosamente, o patrocínio intelectual do prémio, ao Dr. José Correia
Tavares, que foi presidente do júri e se desmultiplicou nas árduas tarefas de
logística e promoção, as quais não são de diminuta importância, e, por fim, à
Professora Isabel Cristina Rodrigues, minha colega e amiga dos meus tempos na
Universidade de Aveiro e porta-voz do júri, cujo voto e palavras aqui
proferidas, comovidamente, assinalo, abrangendo, na minha gratidão os outros
membros do júri: Doutora Teresa Martins Marques e o Doutor António Cândido Franco,
também meus caros amigos.
Como diz o título das minhas memórias, ACTA EST FABULA.
A todos, mais uma vez, os meus sinceros agradecimentos. Bem hajam!"
Eugénio Lisboa (Castelo-Branco, 4 de Março de 2015)




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