sábado, 9 de novembro de 2024

Sobre o novo e opíparo livro de Eugénio Lisboa: Manual Prático de Gatos...

De gatos falemos! De que mais havíamos de falar?  é este o título de um poema de produção ulterior à conclusão do opíparo manual felino  que a editora Guerra & Paz acaba de publicar. O seu autor , Eugénio Lisboa, aprovaria  o formato e a ilustração da obra que não teve tempo de folhear. É uma obra póstuma, de extraordinário fulgor e vivacidade,  já que se trata de um precioso  Manual prático de Gatos para uso diário e intenso. 
O gato é uma beleza máxima que eternamente desafia, afirmava, com profunda convicção, este  apaixonado poeta do feérico felino . A paixão e o  fascínio por essa majestosa esbelteza  eram tão intensos  que, num texto de 2023, "Leonardo e o Gato",  revela : “Leonardo não inventou o gato. Criou beleza como ninguém, congeminou engenharias, máquinas de guerra, aviões e conheceu a anatomia dos seres vivos, com uma abundância e minúcia que não tiveram nem antecedentes nem herdeiros. Mas não inventou o gato. O advento do gato é anterior ao advento de Leonardo. Como criador, Leonardo competiu com Deus e ganhou, mas nem Leonardo nem Deus criaram o gato. Quem criou o gato? É o mais indecifrável mistério do Universo. Há uma teoria que sustenta ter sido o gato que se inventou a si mesmo, visto não se conceber outro poder capaz de o fazer. Mas, quando observamos os olhos de um gato, tudo o que vemos é mistério insondável. (...)  Quando Leonardo o viu, pela primeira vez, teve a mais singular e perturbante das sensações: um misto de deslumbramento e dor. Deslumbramento, porque nunca vira, na natureza dos vivos, uma tal esbelteza, uma tal perfeição, um tal acerto dos números. O gato era a fórmula final da perfeição." 
E porque cantar o gato e tecer-lhe loas não é  labor para qualquer métrica , apenas os rigorosos catorze decassílabos o servem. Assim confessa Eugénio Lisboa na Nota Introdutória ao felino Manual:  "A majestade divina do gato exige uma oficina mais rigorosa e mais aristocrática: exige o formato mais nobre da poesia – o SONETO. O rigor, a densidade, o muito no pouco. A liberdade máxima conseguida dentro do mais apertado colete de forças: a prisão que não prende, mas liberta. Menos do que o soneto é muito menos do que o gato merece."
Os sonetos, que compõem o livro, são ilustrados  por uma prole de formosos gatos que se irmana  numa quase possível confraria a que a insigne Ísis, a  gatinha  de Eugénio Lisboa, preside.
É ela que,  num rememorar do tempo primeiro, carregado de emoção, dá início ao Manual com o poema " A minha companheira Ísis",  - Cabias na palma da minha mão/quando chegaste , naquela manhã./ Ver-te tão pequenina , que emoção,/ tu mínima e peluda castelã!
De 2012 a  2024, Ísis cimentou o seu lugar. Instalou-se, cresceu, deixou-se mimar e  fez-se soberana até  se tornar a grande e única companheira de Eugénio Lisboa.
No soneto " O gato é quem mais ordena", de 22.05.2023 é já  a assertiva  Ísis a ditar as directivas  que podem conduzir à sabedoria e à felicidade do poeta:

Repousada no meu computador,
a minha gatinha  Ísis, repete-me,
com assertividade  e sem pudor
que eu preciso dela e compete-me

em tudo mas em tudo, obedecer
às suas directivas  de felino.
Só assim , felicidade e saber
serão, de certeza, o meu destino.
   (...)   

Da paixão inicial ao amor ilimitado, Ísis encheu páginas e páginas da vasta obra deste grande escritor.
O Manual é apenas um pequeno repositório, mas um repositório de grande sedução não fosse o GATO a única e exclusiva musa.   Gato que se expande em  vários representantes  a quem o poeta dedica alguns dos sonetos. Ao fazê-lo, permite que o leitor conclua que  existe  uma rede de amantes deste singular animal  que partilha, amiúde, essa grande admiração por esse ser perfeito que é Gato.
Ao longo da obra , vão surgindo poemas  que, para  além de todos os gatos vivos e não vivos do poeta,  são dedicados a outros  garbosos gatos   dessa rede,  tais como o  Lindo, a Lua, a  Matilde ou a  Moon.
E se a construção da obra se fez em torno  do Gato ,  a Ísis, inteligente gatinha,  soube nomear Eugénio Lisboa ( informação fornecida pelo próprio) como seu director de recursos humanos para que  nunca se deixasse de acreditar que : Amizade de gato é coroa / de grande glória e de aparato, / que não pode vir  senão de gato/ e nunca por nunca  ser,  de pessoa! 
No último soneto, A Ascensão do Gatoentroniza-se definitivamente o Gato, para que não persista qualquer dúvida: 
(...)
Conta-se que um dia , o Altíssimo,
querendo a si próprio ultrapassar-se,
congeminou um animal belíssimo, 

que o fez completamente babar-se !
Chamou-lhe gato e este, olhando Deus,
perguntou: És um dos criados meus?

O posfácio de Onésimo Teotónio de Almeida celebra o livro e celebra o brilhante  intelectual, o singular escritor e o homem verdadeiramente grande  que foi e sempre será Eugénio Lisboa. 
As palavras esclarecedoras de Otília Pires Martins fecham o Manual . Algumas servem para  dar  nome e contextualizar as imagens dos gatos que embelezam a obra , outras vêm carregadas de uma verdadeira e longa amizade  pelo  colega, o Doutor Eugénio. E todas, em comovido e afectuoso  uníssono, não deixarão de tocar profundamente qualquer leitor. 
Manuel da Fonseca, o editor da Guerra & Paz,  comprometera-se com a edição e publicação do livro com o poeta Eugénio Lisboa, em vida . Honrou esse compromisso e fez desta obra um belíssimo e saboroso presente de Natal, tal como ambicionava o seu autor.

Título: Manual prático de Gatos para uso diário e intenso
Autor: Eugénio Lisboa
Categoria(s): Ficção, Poesia, Sem categoria
Nº de Páginas: 92
Ano de Edição: Novembro 2024
Editora: Guerra & Paz
Preço: 18,00 €

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