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terça-feira, 19 de abril de 2011

Os enganos da Política

Continua a festa das inaugurações num país onde os enganos já não são permitidos. O Presidente do Conselho  deslocou-se neste fim-de-semana para ostentórias inaugurações num país falido e  em rota de desaire completo. A tal anunciada troika da ajuda internacional  já se instalou para fiscalizar a obra que levou Portugal à miséria. Estamos à deriva e de bolsos vazios, mas a banda ainda toca e os tambores ribombam atrás do entronizado Secretário Geral do PS que se esquece que é Primeiro Ministro de dez milhões de portugueses.  Transferir para um país o simulacro de uma  pacificação podre, gerada em Congresso, já nem sequer é risível e muito menos admissível.
Resguarde-se e meta-se ao trabalho , Senhor Primeiro Ministro, para que   Portugal se possa ainda defender da crescente  xenofobia europeia.


Os dias de todos os espantos
por Baptista Bastos 
Parece que os socialistas ficaram muito contentes com o congresso do seu partido. E o mais contente de todos eles foi José Sócrates. Ungido como salvador da pátria e inocente vítima de inimigos inclementes, ele perguntou, comovido e lacrimejante, se os seus camaradas o seguiam, o desejavam, o amavam. Em coro, congestionados de amor e devoção, mil e oitocentos congressistas gritaram que sim. A nota e o resultado estavam dados. Só faltou o ceptro, a coroa e o manto vermelho de seda e gola de arminho. Depois, foram para casa, felizes por terem cumprido, com veneração e afecto, a liturgia da consagração.
O congresso do PS não serviu para outra coisa senão como metáfora de um particular panteísmo de linguagem e de espectáculo. É sempre assim, em qualquer reunião daquela natureza, dir-se-á. Por isso mesmo é que produzem a indiferença. A veneração quando atinge as raias da sabujice tem um preço. Um preço reconcentrado e vasto que se exprime das formas mais diversas. Uma delas é tornar oblíquo o pensamento e liquidar as ideias críticas. Nem um projecto, nem o esboço de uma teoria, nem o sopro de uma referência ideológica, nem o mais escasso resquício de vergonha interior pelo passado, pelos actos e actividades dos governos PS. Somente uma pose, uma farsa desesperada de quem abandonou o compromisso e a esperança, e se remete para um signo que se oculta noutro signo. Ana Gomes, a única que não destilou banalidades e fugiu um pouco à dissimulação, foi colocada à meia-noite para falar. Vinte socialistas esparsos e ensonados estavam na sala.
A coroação de Sócrates é uma vitória do próprio e uma nova derrota daqueles que, no PS, ainda acreditam nos ideais (que quer isto dizer?) e na possibilidade de se alterar o estado das coisas. Porém, as evidências e as comparações históricas são severas para quem embala essa fé: nenhum partido é reformável "por dentro". A dissidência tem sido o caminho e o estigma de quem a tal se aventurou. Por exemplo: nos partidos comunistas. A lição é crucial. Mas, como não tem sido apreendida e reflectida, as forças do progresso saem cada vez mais enfraquecidas. A soma e o resto estão à vista. Estes dias últimos fazem com que fiquemos mais ensimesmados, funestos e sigilosos. Um prestamista internacional vem ditar-nos o molde dos nossos comportamentos, e achincalhar o que sobrevive da nossa dignidade. Um homem que desdenhava a petulância dos partidos e a tacanhez afectada dos políticos mudou de carril com desenvolta impassibilidade. Os factos rasgam as nossas feridas e os paradigmas volatilizam-se. Não há em quem nem em que acreditar. A honra e a decência deixaram de possuir exactos significados e transferiram-se para os territórios da ambiguidade e das evasivas. Resta-nos as palavras. E mesmo assim... "
Artigo de Opinião de Baptista Bastos , publicado no DN em 13 de Abril de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Os novos dias de ira

"Sócrates vs Merkel Poucos dias antes da reunião entre os líderes da zona euro, José Sócrates irá encontrar-se com Merkel para discutir soluções para a resolução da crise da dívida.
Este encontro colocará frente a frente duas posições opostas. Portugal defende que o fundo europeu seja utilizado de forma mais flexível, nomeadamente na compra de obrigações soberanas, enquanto vários responsáveis alemães já se manifestaram contra essa estratégia. Na semana passada, o governo alemão apoiou a proposta dos grupos parlamentares de centro-direita para proibir a compra de obrigações pelo fundo de resgate europeu.
(...)Apesar de Lisboa garantir que o convite partiu de Berlim, a mesma fonte da Comissão Europeia desconfia que a iniciativa pode ter partido de Portugal. "A diplomacia alemã não costuma funcionar assim, chamando outros líderes a Berlim. Parece-me mais um exercício de relações públicas para favorecer Portugal. Além disso, duvido que, depois da derrota eleitoral que Merkel sofreu, a chanceler se apresente favorável às propostas portuguesas, bastante impopulares na Alemanha." in  Jornal i ,Filipa Martins

Nota:Todos estes acontecimentos que se sucedem no nosso país fazem ressurgir uma voz forte da nossa Literatura , Guerra Junqueiro. No seu tempo dissecou a realidade nacional e exortou à  insurgência contra o autoritarismo. Por isso , um dia Guerra Junqueiro diria para o seu amigo Luis de Oliveira Guimarães " Os poetas consideram-me um político; os católicos julgam-me um ímpio; os ateus, um crente." (1).
 Se num exercício simples e quase rudimentar tentarmos substituir algumas referências nomeadamente a que designa o  Rei, as palavras  de  Guerra Junqueiro ganham plena actualidade nestes dias de ira contida. Estas que vamos transcrever  surgiram  na sequência do Ultimatum inglês :
"O estado é o rei. Cidadão há um único: D. Carlos. Os deveres são nossos, os direitos, dele. Estrangula-me as ideias, arromba-me a gaveta, ou corta-me o pescoço, conforme o queira. A justiça é um relógio que ele atrasa, adianta ou faz parar, segundo lhe dá na vontade. Decreta a lei e nomeia o juiz. O parlamento é o seu capricho" (2)
"Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante, o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários".
(1) Luís de Oliveira Guimarães, Junqueiro e o Bric-à-Brac, Lisboa, 1942
(2)Guerra Junqueiro, "Anotações (Balanço Patriótico)", in Pátria, 7ª edição, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1950

terça-feira, 1 de março de 2011

No 1º dia de Março

Começa o mês de  Março com o redesenho da lúgubre palavra AUSTERIDADE. Impressa há muito no mapa linguístico português, ela persegue-nos ciclica e endemicamente. Substantiva e concreta desfaz-se em medidas que se sucedem indefinidamente sem que sejamos capazes de compreender o por quê e menos ainda o para quê . Avulsas para quem as dita, os nossos indefectíveis governantes, mas sistemáticas para quem as sofre, nós o povo, elas são sempre anunciadas como sendo as últimas e as adequadas ao sucesso, à reposição da Economia Nacional.
A miserabilidade que se vai instalando neste país decorre de uma repetida metodologia incoerente que o Presidente do Conselho apregoa como estratégia inteligente, eficaz e oportuna. O esforço, que desassombradamente reitera ao extrapolar para o estado crísico nacional a situação  europeia e  mundial,   é um exercício que nem um aprendiz de feiticeiro tenta  ensaiar.
Ancorados neste país mortificado por estes governantes de cartola emprestada, somos continuadamente sacudidos pelos maléficos malabarismos que vão improvisando.
Que novas medidas nos lançarão ainda ? Que dias nos esperam? Que resistência e que resiliência daí virão?
"Ah, meu pobre, pobre Portugal."

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Finitude e solitude

" Vivemos num tempo em que a civilização periga morrer por meio da civilização"
F. Nietzsche, "Humano, demasiado humano"

A fragmentação do " laço social" que atingiu as grandes metrópoles e a generalidade das urbes actuais com diferentes morfologias sociais está a permitir que  comunidades diversas coabitem o mesmo  território onde todos e cada um passam a excluir-se uns aos outros, como parte refractária de um todo que não existe . A coesão social que advém de sistemas de valores, de relações intergeracionais, do exercício da cidadania  não está actualmente direccionada para  o indivíduo, para o familiar, para a singularidade da pessoa. Vivemos um tempo de multidões de indivíduos isolados que terminam tragicamente sós, abandonados ao ostracismo social.
A morte solitária de uma anciã que ocorreu há oito longos anos foi notícia portuguesa. Retumbante, alarmante  mergulhou o país na brutal realidade dos tempos  hodiernos. A solitude da vida deixou-a morta em casa sem que os vivos   a procurassem. Apenas a solicitude de  outra anciã promoveu esforços para o seu reencontro,  mas de obstrução em  obstrução  foram sistematicamente invalidados.  Morrer sozinha e permanecer abandonada  numa casa ladeada de tantos viventes já não é um acontecimento raro. A morte vive ao lado sem que a vida se ocupe dela.
" A morte é grande
Nós somos seus, de ridente boca,
Quando julgamos estar no meio da vida.
Ousa  ela chorar
No meio de nós."
Rainer Maria Rilke
A experiência da morte é última, inevitável e individual. Nasce-se com a sua marca biológica e cresce-se negando a sua evidência. Rejeitá-la, enquanto vivos  apagando-a do  horizonte , não torna imortais os homens . E a essência da imortalidade reside na marca que cada um deixa no outro, no acolhimento que cada um dá à sua presença.
Uma das ideias básicas de  Emanuel Lévinas é  a alteridade, isto é colocar o outro no lugar do ser. "... tudo começa pelo direito do outro e por sua obrigação infinita a este respeito. O humano está acima das forças humanas." Assim, inverte as propostas da Lei de Ouro e do Imperativo Categórico. Ao invés do indivíduo agir frente ao outro como gostaria de ser tratado e que isto deveria ser uma norma universal, é a descoberta do outro que impõe a conduta adequada. De acordo com Christiam Descamps, "a relação com o Outro é a base de uma co-presença ética". Cada um é constantemente confrontado com um próximo. Não sou Eu frente ao Próximo (Outro), mas sim os Outros continuamente frente a Mim.
Bastaria que o mundo , os governos, as sociedades aplicassem  este imperativo categórico para que nunca mais  se vivesse em finitude e se morresse em solitude.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Há trinta e cinco anos


Baptista Bastos é um excelente escritor e como tal percepciona com singular argúcia  a dimensão da realidade. Num artigo de opinião, em forma de Parábola, invoca em discurso directo aqueles que diluiram , ao longo dos últimos  trinta cinco anos,  a esperança  num Portugal melhor. " A manutenção da memória e a consciência de que ela serve como um alerta é algo que submete os escritores em geral, ao compromisso com a verdade e com o passado que não pode ser apagado tão facilmente". Portanto, ao interpelar os responsáveis pelo estado actual do país, Baptista Bastos emite um libelo   veementemente implacável que lhe é  imposto pelo seu  papel social  inerente à  condição de escritor. Não se cala o que não se deve  consentir e não se esquece porque não se quer esquecer.

Parábola das tristes décadas
por Baptista Bastos
Há trinta e cinco anos que vocês nos manipulam, nos dominam, nos mentem, nos omitem, nos desprezam.
Há trinta e cinco anos que nos roubam, não só os bens imediatos de que carecemos, como a esperança que alimenta as almas e favorece os sonhos.
Há trinta e cinco anos que cometem o pior dos pecados, aquele que consiste na imolação da nossa vida em favor da vossa gordura.
Há trinta e cinco anos que traem a Deus e aos homens, sem que a vossa boca se encha da lama da mentira.
Há trinta e cinco anos que criam legiões e legiões de desempregados, de desesperados, de açoitados pelo azorrague da vossa indignidade.
Há trinta e cinco anos que tripudiam sobre o que de mais sagrado existe em nós.
Há trinta e cinco anos que embalam as dores de duas gerações de jovens, e atiram-nos para as drogas, para o álcool, para uma existência sem rumo, sem direcção e sem sentido.
Há trinta e cinco anos que caminham, altaneiros e desprezíveis, pelo lado oposto ao das coisas justas.
Há trinta e cinco anos que são desonrados, torpes, vergonhosos e impróprios.
Há trinta e cinco anos que, nas vossas luras e covis, se acoitam os mais indecentes dos canalhas.
Há trinta e cinco anos que se alternam no mando, e o mando é a distribuição de benesses, prebendas, privilégios entre vocês.
Há trinta e cinco anos que fazem subir as escarpas da miséria e da fome milhões de pessoas que em vocês melancolicamente continuam a acreditar.
Há trinta e cinco anos que se protegem uns aos outros, que se não incriminam, que se resguardam, que se enriquecem, que não permitem que uns e outros sejam presos por crimes inomináveis.
Há trinta e cinco anos que vocês são sempre os mesmos, embora com rostos diferentes.
Há trinta e cinco anos que os mesmos jornais, sendo outros, e os mesmos jornalistas de outra configuração, sendo a mesma, disfarçam as vossas infâmias, ocultam as vossas ignomínias, dissimulam a dimensão imensa dos vossos crimes.
Há trinta e cinco anos sem vergonha, sem pudor, sem escrúpulo e sem remorso.
Há trinta e cinco anos que não estão dispostos a defender coisa alguma que concilie o respeito mútuo com a dimensão colectiva.
Há trinta e cinco anos que praticam o desacato moral contra a grandeza da justiça e a elevação do humano.
Há trinta e cinco anos que, com minúcia e zelo, construíram um país só para vocês.
Há trinta e cinco anos que moldaram a exclusão social, que esculpiram as várias faces da miséria e, agora, sem recato e sem pejo, um de vocês faz o discurso da indignação.
Há trinta e cinco anos começaram a edificar o medo, e o medo está em todo o lado: nas oficinas, nos escritórios, nos entreolhares, nas frases murmuradas, na cidade, na rua. O medo está vigilante. E está aqui mesmo, ao nosso lado.
Há trinta e cinco anos encenaram e negociaram, conforme a situação, o modo de criar novas submissões e impor o registo das variantes que vos interessavam.
Há trinta e cinco anos engendraram, sobre as nossas esperanças confusas, uma outra história natural da pulhice.
Há trinta e cinco anos que traíram os testamentos legados, que traíram os vossos mortos, que traíram os vossos mártires.
Há trinta e cinco anos que asfixiam o pensamento construtivo; que liquidaram as referências norteadoras; que escarneceram da nossa pessoal identidade; que a vossa ascensão não corresponde ao vosso mérito; que ignoram a conciliação entre semelhança e diferença; que condenam a norma imperativa do equilíbrio social.
Riam-se, riam-se. Vocês são uma gente que não presta para nada; que não vale nada.
Malditos sejam!
Baptista Bastos em Artigo de Opinião do "Jornal de Negócios", 23/12/2010

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O povo na rua e a queda dos impérios



" O povo unido jamais será vencido" é o grito transversal de todas as revoltas contra a opressão, a exploração , a tirania. Com cravos ou jasmim invade as ruas  pelas vozes dos oprimidos num crescente frémito partilhado.  E os regimes estremecem e acordam ainda em estertor de sobrevivência.  Mas a determinação da multidão é imparável e em onda emerge no mundo árabe. Da Argélia,  Tunísia, Iémen, Líbano, Síria,  Jordânia ao Egipto  as manifestações eclodem. O povo invade as ruas e toma consciência de que a força da unidade germinada na revolta é mais consistente que  os regimes implantados há dezenas de anos. Ontem ,esteve na praça mais emblemática do Cairo cerca de um milhão de egípcios.Uma manifestação faraónica no país dos faraós. As humilhações, as restrições dos direitos fundamentais , a miséria do abandono fortaleceram a resistência de muitos que, desde 25 de Janeiro, permanecem na rua. Determinados, vigilantes, eles estão lá.
Que a História os proteja e faça florescer uma nova era de profunda emancipação democrática.
Leia mais em: O povo sacode a árvore para que o ditador caia
Mundo - Contestação alastra à Jordânia e a Síria - RTP Noticias

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A força do cartoon

 Nesta Segunda-feira invernosa, a nossa edição  restringe-se às  Palavras desenhadas   com rigor criativo  para legendar a actualidade .
Elias o sem abrigo, de R. Reimão e Aníbal F, JN 24/01/2011

Cartoon Bandeira , DN 24 Jan 2011



Cartoon Bandeira, DN Jan.2011


sábado, 1 de janeiro de 2011

Inventar a ESPERANÇA

DOS MUNDOS
Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.
Mario Quintana , in "Espelho Mágico"

Existem situações históricas, políticas , económicas que transfiguram o Mundo num labiríntico pesadelo onde o homem se perde , embora procurando o caminho que o resgate.  2011 acaba de nascer após um longo ocaso de turbulência que  promete mais  sobressaltos e inseguranças. Diz-se que a cultura do progresso pressupõe uma direcção certa para que  a progressão seja efectiva e real.  Assim , o desenvolvimento económico determinaria implicitamente o desenvolvimento social e individual. Ora, a linearidade deste causalidade não comportava o risco , o imprevisto, a desordem e muito menos ainda  a imensa verdade de que todo o progresso não é duradouro mas precário e composto de reversibilidade. O homem como centro de uma organização produtiva é  tese e antitese, produz e destrói, pelo que a progressão determina a regressão , enquanto vulnerável ao inesperado,  ao imponderável do devir.
A crise deste nosso século não se deve "apenas de o desenvolvimento estar em crise  e produzir a sua própria crise. Trata-se de o desenvolvimento trazer consigo subdesenvolvimento, isto é, de o seu progresso comportar e ocasionar regressões. O desenvolvimento aparece-nos de súbito como uma realidade crísica e crítica que ocasiona tantas destruições como criações, tantas  regressões como  progressões, e damo-nos conta de que a ideia de desenvolvimento, sob a sua forma simplista e eufórica, economística e tecnológica, era um mito demente do pensamento tecno-burocrático moderno: mais uma vez o delírio abstracto era tomado pela racionalidade " (Edgar Morin)
O desenvolvimento é, então, inseparável do subdesenvolvimento e o devir do mundo processa-se em regressão da progressão ou em progressão da regressão como afirma Edgar Morin.
Perante esta realidade teremos de inventar a esperança partindo do pressuposto que das cinzas renasce a vida e que do desespero da  perda renasce um   ciclo mais luminoso e promissor  porque será gerado  pelas esperanças perdidas.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Para 2011

O artigo de opinião que Baptista Bastos publicou no DN  é um extraordinário hino que transporta o melhor de todos nós no dealbar do novo ano. Fica o registo para  saudar e homenagear  o autor , acreditando que a sua leitura nos irmanará em esperança  e redenção.
Que venha 2011.


 

Sonata para um menino que está a chegar
Por Baptista Bastos

Vens juntar-te nós e, em si mesma, a tua vinda é já um acto de comovente beleza. Há muito que te esperávamos, provindo dessa interminável sequência na qual se tecem os fios da nossa condição. As coisas não estão boas, por aqui. Mas os tormentos que nos assolam não calam a voz das nossas esperanças. Vem, menino. Pertences a uma estirpe que acendeu o seu lume em muitos campos alheios e fez um leito de nações num concerto de poesia que dura há séculos. Que quer, rigorosamente, dizer isto? Que o parágrafo das nossas vidas tem sido extenso e que, no encontro com os outros, alargámos os laços da nossa pessoal intimidade.
Vem, menino. Menino novo, cujo coração unânime vai bater como o coração de um anjo que sorri e nos acena. Sei que vais ser um menino feliz, como eu sou feliz ao escrever esta afirmação pausada. Menino feliz porque te espera um coro de risos, de faces radiantes; a paixão de quem quer dar tudo pela fortuna de te ter consigo e o regozijo de nos pertenceres para te pertencermos.
Há muito que te esperávamos. Há muito que te esperava, como o louvor de uma boa nova ou o sinal de uma luz rigorosa para a festa de todas as festas. E aí vens.
Já se sabe como é o mundo: sombrio e venal, cobarde e duro, obscuro e triste, glorioso e valente, tímido e arrogante, calado e grosseiro. Já se sabe. Mas a qualidade áurea das criaturas que o habitam e que o moldam, com a argila das suas individuais deficiências, faz com que, todos os anos, continuemos a acreditar. E assim nascem meninos como tu, produtos dessa crença confusa na concórdia que nos impele para todos os recomeços.
Em cada ano que atravessa outro ano renovam-se os risos, remoçam os alvoroços, renascem os velhos no olhar dependente dos meninos, porque os velhos são meninos que se prolongam na pontualidade e no espanto das coisas permanentemente inauguradas. A vida, como é hábito.
Espero-te com a emoção de quem viajou por muitos bares, muitas cartografias, por muitas palavras, por muitos socalcos. Mas não quero dar-te conselhos. Os conselhos são o modo de os antigos imporem uma ridícula superioridade. A expressão: "No meu tempo..." é o início de algo de enfadonho; a fastidiosa e inútil frase que pretende doirar o passado de misérias e afrontas. Como se isso fosse possível. O tempo é todo nosso, o teu e o meu, pode levar tudo, mas nunca lava tudo.
O mundo anda atrapalhado e aflito. Há quem pense que deixou de haver lutas e que a nitidez do entendível perdeu-se no opaco e na desistência. Vais ver que as realidades não são bem assim e que as razões da existência dispõem de argumentos poéticos com os quais se pode enfrentar a manipulação, a omissão, o medo e a mentira.
Não te demores.
Artigo de Opinião de Baptista Bastos no DN, 29/12/2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Recordar José Gomes Ferreira


A propósito da publicação do quinto  volume  do " Diário" de  José Gomes Ferreira , a pena arguta e rica  de Baptista Bastos, companheiro  e contemporâneo do escritor , partilhou connosco, leitores assíduos, a lembrança das tertúlias dos tempos já idos nos "memoráveis" cafés  da Lisboa intelectualizada. Muitos desses cafés já fecharam e o vazio que deixaram foi substituido por uma   ruidosa futilidade ostentatória que  teima em exibir-se pelos  remodelados cafés ou pelos  novos  espaços afins.
Em 12  do presente mês, anunciámos aqui a publicação  deste novo  volume, mas faltava-lhe o sabor desta  vivenciada escrita  de Baptista Bastos para que o homem e o escritor fossem efectivamente revisitados. Está, assim,  exaurida e reparada esta nossa lacuna com a transcrição do referido artigo.


Os cadernos necessários de José Gomes Ferreira
Por Baptista Bastos
As tertúlias nos cafés e nas cervejarias fizeram parte da educação intelectual, política e moral de muitos rapazes da minha geração.
Frequentei muito aqueles grupos de jornalistas, escritores e artistas heterogéneos que falavam e discutiam dos assuntos que a Imprensa não publicava, por proibidos. Havia tertúlias de Esquerda e de Direita, mais de Esquerda do que de Direita, seja dito. De manhã, no Brasileira do Chiado, eram jornalistas os que se amesendavam. De tarde, no Café Chiado, a conversa era praticada por escritores, músicos, cientistas. A esta aparecia quase sempre Aquilino Ribeiro, venerado por gente da estatura de José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Alves Redol, Augusto Abelaira, Manuel da Fonseca, Manuel Mendes, Leão Penedo, Rogério de Freitas, Fernando Lopes-Graça. Por vezes, depois do almoço (o Café Chiado servia uns bifes esplêndidos) surgia a figura esquiva e um pouco sombria de Virgílio Ferreira. E outros.
Depois, os bancos começaram a tomar conta dos locais e a atirar com os convivas para outros cafés e pastelarias da cidade. O Tony dos Bifes foi, acaso, o último desses redutos. Carlos de Oliveira chegava a meio da tarde. Aos pouco iam assomando os amigos. É enorme a lista de cafés desaparecidos, e todos eles cheios da história das nossas paixões, das nossas inquietações e das nossas desavenças.
Falo desses tempos, felizmente mortos e enterrados, agora, que saiu, com a chancela da Dom Quixote, o quinto tomo dos diários de José Gomes Ferreira, "Dias Comuns - Continuação do Sol." Os diários do grande poeta pertenciam aos mitos urbanos daquela época. Sabia-se, e falava-se entre nós, que Zé Gomes (como os parceiros o tratavam) mantinha, há décadas, cadernos e cadernos nos quais anotava tudo o que lhe merecesse atenção. Os amigos e os seus ditos; as pequenas insídias e as menores invejas; os comentários aos livros, aos filmes, às peças, aos concertos, tudo sempre envolvido numa aura de humanismo e de simpatia pelos outros.
É um desfile impressionante de sentimentos e uma série admirável de retratos das pessoas e de seu tempo. A política e as consequências da opressão possuem um lugar importante neste filme. Zé Gomes, amenamente, não perdoa as vaidades; não oculta as suas admirações; não omite os seus prazeres e as suas críticas. De todos eles, porém, sobressai a estima, a funda admiração, a amizade sem mácula que desde sempre nutriu por Carlos de Oliveira. O rigor moral, o escrúpulo e o pudor deste último impunham o respeito que a esmagadora maioria dos outros não mereciam e lhe não suscitavam. Pequenas farpas em Cardoso Pires, em Alexandre O'Neill, em Herberto Hélder, sobretudo por questões de ordem ética e ideológica, não deixam de fazer parte do texto. E é bom de saber que nem todas as aparentes coragens e frontalidades conseguem dissimular o carácter dúbio dos protagonistas.
Na minha opinião, este volume é, talvez, o mais significativo de todos os até agora publicados. Um documento imprescindível para se perceber o mecanismo das vaidades e o que a época e as suas contingências fizeram a homens aparentemente de grande carácter. Não se trata de uma questão de coragem ou de narrar a verdade, conceitos tão escorregadios e tão difusos. Trata-se, isso sim, de, numa prosa extremamente viva e colorida, de o autor prestar o seu depoimento, pessoal como todos os depoimentos assim concebidos, mas particularmente atractivos.
Devo, a esta gente incomum, muitíssimo mais do que aqui escrevo. A aprendizagem da vida é uma construção delicada, frágil e lenta. E só muito depois nos apercebemos do significado profundo que esse tempo e esses homens que moldaram ou combateram o tempo tiveram relativamente à nossa educação.
Por vezes, José Gomes Ferreira desce aos abismos da sua alma, descreve a suas inquietações e perplexidades ideológicas, sem nunca deixar de cultivar (e exigir dos outros) um grande rigor moral e intelectual. Este livro deveria ser frequentado pelos preopinantes que por aí andam a escrever bojardas e a propalar o acessório sobre o essencial. Lê-se das exigências daquela gente que nunca abdicou dessa integridade e dessa decência cívica, sem as quais a batalha das ideias e a defesa da democracia seriam sufocadas.
Um aceno de simpatia para a Dom Quixote, que tem vindo a editar a obra do grande autor de "Poeta Militante", e desse magistral "As Aventuras de João sem Medo", que o próprio Zé Gomes considerava ser o seu melhor livro.

Baptista Bastos em  Artigo de Opinião do "Jornal de Negócios "de 3/12/2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Oslo sem Xiaobo, Nobel da Paz

 
Toda a  imprensa publica artigos sobre a recusa da China em libertar Liu Xiaobo para receber hoje o Prémio Nobel da Paz  2010 , galardão que lhe foi atribuido pelo Comité Norueguês.  Com muita veemência a imprensa oficial chinesa reprova o comportamento deste Comité considerando que tal como o  pensamento ocidental  está fossilizado e que se trata de  uma farsa contra a China.
O jornal inglês" Global Times" , ligado ao jornal " Diário do Povo", porta-voz do Partido Comunista  Chinês,  inicia o editorial  por afirmar: "Uma farsa que julga a China está em curso em Oslo. O Comitê Nobel nega-se a embarcar numa viagem para experimentar o pensamento chinês e, em vez disso, insiste que a China  perder-se-á. Este julgamento ignorante é elogiado no Ocidente, mas é uma vergonha que o pensamento ocidental, um dia alimentado por grandes pensadores como Rousseau e Hegel, tenha caído na fossilização da política actual", refere o artigo.
Ontem, na China, foi distribuido um novo Prémio denominado como Prémio Confúcio e que, num paralelismo pontual e ocasional, incentiva a promoção da Paz, mas neste caso sob o pensamento oriental.
Confúcio, grande pensador chinês,  afirmou:   "Da força à injustiça há só um passo."
Esperemos que a força da razão ilumine os grandes cérebros que comandam a China para que  acreditem nas palavras do  patrono do Prémio que acabam de criar:  "Saber o que é correcto e não o fazer é falta de coragem".
Os meus PARABÉNS a Liu Xiaobo. Os galardões nada são quando se recebem, mas são TUDO quando se merecem.

Leia o artigo do Público:
Oslo celebra hoje Nobel da Paz sem Xiaobo e sem 19 países convidados - Mundo - PUBLICO.PT

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O (des)concerto do Mundo



Em Portugal

O mau tempo instalou-se no país. A força do mar invade a terra , destruindo o que se lhe opõe. O vento tresloucado transforma-se  em Tornado na zona centro do país e varre os telhados  atingindo quem é frágil e  por baixo se abriga,  fazendo 39 feridos, 19 dos quais crianças de um jardim-escola de Tomar. E a terrível  ventania alastra-se,  deixando um rasto devastador por onde vai passando.
As águas das chuvas  destroem casas e fizeram já perigar os habitantes de Fajãzinha , nos Açores. O aluimento de terras é, agora , a grande ameaça para as populações das ilhas. A tragédia da Madeira ainda paira sob a vista e já os estragos  por reparar sofrem  novas ameaças.
O tempo em desconcerto  não se contém. Ora é medonho nas vagas do Mar, ora é terrivel em ventos ciclónicos, ora se estende em manto súbito de neve, ora destrói o que uma longa vida levou a construir. A bonança, após muito tardar, acabará por aparecer e , então, expor  as imagens marcadas pela fúria  súbita deste tempo que corre  a dois compassos:  o eufórico e o depressivo.
A neurastenia que apanhou os Portugueses é o reflexo deste Tempo  em crise existencial paralela ao efeito da outra  dolorosa crise  imposta pela ganância de quem explora o "vil capital " sobre quem não o tem.

No  Mundo

A Europa está branca, imersa em intempérie,  com centenas de viaturas retidas nas estradas  devido ao  volume excessivo da neve que não cessa de cair. Os Aeroportos são obrigados a cancelar vários voos e muitas Escolas fecham por causa da acessibilidade se ter tornado impossível.

Na Venezuela,  100 mil pessoas foram atingidas pelas chuvas que provocaram múltiplas inundações,  obrigando-as a abandonar as respectivas  habitações.
As informações das Agências Noticiosas veiculam que  "La Niña'  está na origem das fortes chuvas que, só este ano, fizeram mais de 174 mortos e afectaram 1,6 milhões de pessoas.
Centenas de socorristas colombianos tentavam ontem encontrar sobreviventes entre os escombros do bairro La Gabriela, nos arredores de Medellín, onde meia centena de casas foram arrasadas por um desmoronamento de terras. As autoridades já conseguiram recuperar 17 cadáveres, alguns deles de crianças, mas há ainda 106 desaparecidos. É a pior tragédia desta temporada de chuvas, particularmente longa devido ao "La Niña". As operações de socorro decorrem lentamente e envolvem mais de 700 pessoas (incluindo amigos e familiares das vítimas), que trabalham com pás e picaretas na esperança de encontrar sobreviventes. "Perdi mais de metade da minha família: perdi a minha mãe, quatro irmãos, os meus sobrinhos e as minhas filhas de 13 e 10 anos"; disse à agência Reuters Orfanely Madrigal, uma dona de casa que assistia em lágrimas à remoção dos escombros."

E assim vai o nosso Mundo de (des)concerto em desconcerto.




domingo, 5 de dezembro de 2010

A Pobreza e As Crianças Que Ficam para Trás


"A pobreza não é um acidente, não é inevitável e não é exclusivamente um problema de falta de recursos.
A pobreza é a ausência de meios, mas é sobretudo a falta de acesso às escolhas, à segurança, à capacitação e ao poder de auto-realização dos Direitos Humanos de cada um, necessários para uma vida com Dignidade.
A pobreza não pode ser encarada como uma fatalidade social, mas sim como um produto de decisões e uma situação criada por abusos de Direitos Humanos."
Amnistia Internacional

No Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social, a pobreza tem aumentado e as crianças são as principais vítimas. A Unicef divulgou um Estudo sobre essa matéria assente sobre índices anteriores à crise económica cujo Relatório foi agora divulgado e que coloca as crianças portuguesas nos lugares cimeiros por ficarem para trás ou seja por serem atingidas pela pobreza.
Em Portugal,  As Crianças que  Ficam para Trás, abandonadas à Pobreza, são cerca de 300 mil. À situação de  ser criança é inerente o Direito  fundamental de Crescer. Como é possível exclui-las desse direito em pleno Sec. XXI?
Fica aqui o Comunicado da Unicef à Imprensa  sobre o estudo referido  e divulgado no respectivo Site.

                                                  
COMUNICADO DE IMPRENSA
“Report Card 9 – As Crianças que Ficam para Trás”
Os países ricos estão a deixar as crianças mais pobres ficar para trás,
diz um novo relatório
Florença-Helsíquia-Lisboa, 3 de Dezembro de 2010 – Um novo relatório do Centro de Estudos Innocenti da UNICEF conclui que as crianças em muitos países ricos da Europa e nos Estados Unidos sofrem de maior desigualdade do que as crianças de outros países industrializados.
O Report Card 9: As Crianças que Ficam para Trás, compara, pela primeira, vez 24 países da OCDE em termos de igualdade na saúde, educação e bem-estar material das suas crianças. O relatório analisa um aspecto particular da disparidade – o grau de desigualdade na base da pirâmide – e coloca a seguinte questão: até que ponto estão os países ricos a deixar que as suas crianças mais desfavorecidas fiquem para trás?
O estudo revela que países como a Itália, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Grécia e Portugal, por exemplo, estão a permitir que as suas crianças mais vulneráveis fiquem muito mais para trás do que outros como a Dinamarca, a Finlândia, a Irlanda, a Suiça e a Holanda. E alerta para as sérias consequências que as desigualdades acarretam para estas crianças, bem como para a economia e para as sociedades.
“Num momento em que o discurso sobre medidas de austeridade e cortes em gastos sociais tem vindo a subir de tom, este relatório coloca o enfoque nas centenas de milhares de crianças que correm o risco de ficar para trás nos países mais ricos do mundo,” afirmou o Director do Innocenti, Gordon Alexander.
“Esta situação não é inevitável – este relatório não se baseia num ideal teórico de maior igualdade, mas antes no que alguns países da OCDE já conseguiram atingir para as suas crianças.”
A metodologia adoptada pelo presente estudo consiste em medir o fosso entre a criança média (o que um país pode considerar “normal” – a mediana) e as crianças que se encontram perto da base da pirâmide. Para tal, o relatório analisa até que ponto as crianças estão a ficar para trás em três dimensões que afectam a sua vida – o bem-estar material, o desempenho educativo e a saúde física – o que permite medir e comparar as diferenças entre países. (A lista dos países que constam do relatório está incluída no final do comunicado) Alertando para o facto de a maior parte dos dados utilizados para medir a desigualdade serem anteriores à crise económica actual, apesar de serem os mais recentes disponíveis, As Crianças que ficam para trás , descreve as conclusões a que chega como um “retrato” em tempos de prosperidade e lembra que as consequências mais pesadas das crises económicas tendem a recair sobre as famílias mais vulneráveis e as suas crianças.
Algumas das conclusões do relatório:
1. Um pequeno grupo de países – Dinamarca, Finlândia, Países Baixos e Suíça – estão à frente na promoção da igualdade no que diz respeito ao bem-estar das crianças. Por outro lado, Grécia, Itália e os Estados Unidos são os países que estão a deixar que as suas crianças fiquem mais para trás.
2. No que diz respeito ao rendimento disponível do agregado familiar, a Noruega e os países nórdicos são aqueles que apresentam menos disparidades. No outro extremo da tabela surgem a Grécia, Portugal e Espanha como os países com os mais elevados níveis de desigualdade. Portugal é também o país da OCDE com maior taxa de pobreza infantil.
3. As desigualdades no desempenho educativo das crianças (em matéria de literacia em leitura, matemática e ciências) são menores na Finlândia, Irlanda e Canada, e mais elevadas na Bélgica, França e Áustria.
4. Os Países Baixos, seguidos pela Noruega e Portugal apresentam os níveis mais baixos de desigualdade na saúde, sendo o maior fosso neste domínio registado na Hungria, Itália e Estados Unidos.
Centenas de estudos realizados em vários países da OCDE têm demonstrado que entre os custos resultantes das crianças ficarem muito para trás se incluem uma maior probabilidade de problemas de nutrição, de menor desempenho educativo, de stress crónico e de desenvolvimento. Os custos mais pesados, diz o relatório, são pagos pela própria criança. Mas a longa lista de problemas
traduz-se também em custos significativos para toda a sociedade. A desigualdade que empurra a criança para a base da pirâmide acarreta uma série de custos que os contribuintes terão que pagar mais tarde, sob a forma de aumento da pressão sobre os serviços de saúde, o ensino recorrente, a assistência social, entre outros.
As Crianças que Ficam para Trás sugere algumas respostas práticas, mostrando como alguns países têm conseguido melhores resultados do que outros na redução das desigualdades para as suas crianças. O relatório refere que alguns países usaram melhor os benefícios e as deduções fiscais concedidos às famílias a fim de diminuir o fosso da desigualdade infantil e da pobreza como um exemplo de que a desigualdade é sensível à eficácia das políticas públicas. Simultaneamente, o relatório apresenta vários exemplos que revelam que os países com valores medianos mais elevados são também os que estão melhor posicionados na redução da desigualdade. É, pois, defendido que é
possível atingir uma maior igualdade sem sacrificar a eficiência e o desempenho económico.
O Comité Português para a UNICEF está preocupado com o agravamento da pobreza infantil em Portugal. E “apela ao governo para que o combate à pobreza infantil seja um elemento central das estratégias e políticas nacionais de luta contra a pobreza, de modo a assegurar que o bem-estar das crianças constitui uma prioridade em todas as áreas da governação”, declarou Madalena Marçal Grilo, Directora Executiva. “Os custos mais pesados da desigualdade recaem sobre as próprias crianças, que, de modo algum, podem ser responsabilizadas pela situação, mas as suas consequências reflectem-se
também a médio e longo prazo na sociedade, na economia e na coesão social.”
“O facto de alguns países da OCDE terem um melhor desempenho do que outros mostra que o padrão de desigualdade pode ser alterado, e que se a exclusão for identificada num estado inicial podem ser tomadas medidas para prevenir o seu agravamento. A variação de desempenho entre países apresentada no relatório demonstra que é realista e possível melhorar.”
Lista dos países analisados e comparados no Report Card 9 ‘As crianças que ficam para trás’: Alemanha, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos da América, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Islândia, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Suécia, Suíça. Outros (7) países da OCDE - Austrália, Chile, Japão, México, Nova Zelândia, República da Coreia e Turquia – estão também incluídos no relatório, mas não figuram na classificação por grupo pois não dispunham de dados suficientes para pelo menos
uma das três dimensões medidas.
Nota para os Editores
Acerca do Centro de Estudos Innocenti da UNICEF:
O Centro de Estudos Innocenti é um centro de investigação independente dedicado à UNICEF. Sedeado em Florença, Itália, o Innocenti realiza estudos em duas áreas temáticas: Políticas económicas e sociais e as crianças, e Protecção infantil e aplicação de padrões internacionais para as crianças.
Entrevistas
O autor do relatório, Peter Adamson, está disponível para entrevistas (em Inglês)
Para marcação de entrevistas com o autor, ou com um economista do Centro Innocenti, contactar:
James Elder,UNICEF Innocenti Research Centre, TM: +39-335 758 2585 jelder@unicef.org

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sonhar a LIBERDADE


Os portugueses ao longo da sua história sempre souberam sonhar a Liberdade, quer quando a não sabiam, quer quando a perdiam, quer quando a não ganhavam. A LIBERDADE encarnou tantos anseios e formas que se tornou, nos tempos modernos,  um valor primeiro e fundamental para a Humanidade .
Liberdade encerra um conceito, uma ideologia proactiva e não pode restringir-se ao vocábulo, à palavra que  se lance no ar e apenas se propague em ondas sonoras sem se corporizar efectivamente. É esse o grande problema que a rodeia e ameaça. Para muitos liberdade é ser gente, ser pessoa, ter voz  e ter pão. Para outros é agir, expressar, viver uma vida para e com outros. Liberdade é tudo isso e muito mais, já que a Liberdade cultiva-se todos os dias vigilante e solidariamente.
Em 1640, a Liberdade de um país foi recuperada, mas a liberdade de um povo terá sido  preservada? Expulsámos os Espanhois de Portugal. Repetiu-se a independência há quase 400 anos. E hoje estará o país livre, apesar de Abril ter existido? Possivelmente Não,  se  Liberdade significa autonomia, soberania, independência. Os défices, as Agências de Rating, o FMI, as Bolsas e as constantes oscilações do Mercado são os monstros redutores da Liberdade e os novos suseranos dos países.  Hoje, neste 1º de Dezembro de 2010, o capital substituiu  "Castela".



Cantiga de Abril

Às Forças Armadas e ao Povo de Portugal
“Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade”
 Jorge Sena


Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinqüenta anos
reinaram neste país,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raíz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura.
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa guerra de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim, altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena, 1974

Obras de Jorge de Sena,  in "40 anos de servidão" , Edições 70 , 1989

sábado, 20 de novembro de 2010

Cartoon & Cartoon, força e ironia


Cravo & ferradura, DN 16 Nov 2010
 

Cartoon, ELIAS o SEM ABRIGO de R. REIMÃO e ANÍBAL F , JN de 9 /11/ 2010
  The engagement of Prince William and Kate Middleton has been announced.
"You're right, Madam, The pavements will be packed. But trust me, not for a good while yet."
 Mac Cartoons, "The Daily Mail" , 17/11/2010


Bartoon, in  Jornal " Público" de 14/11/2010




Cartoon, Tim Sanders, in " The Independent"


Uma relíquia 

Cartoon de 3 de Junho de 1952 ,in "New York Daily News"
Photo date:06/03/1952, Filename 71600k15.jpg, Photographer: Batchelor, Cd


Caption:C.D. Batchelor cartoon June 3, 1952
The Girl (Statue of Liberty): "Thank you doctor, thank you a thousand times."
The Doctor (Supreme Court): "Don't mention it, you happen to be blessed with a good constitution."
Harry Truman 1952 steel mills seizure
In “ The photo archive of New York  Daily News”

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Portugal está doente



Nem sempre é útil e adequado publicar notícias sobre o mundo , sobre o país , sobre qualquer acontecimento que não provoquem espanto, indignação . Enfim, notícias   que não encerrem intrinseca ou implicitamente a semente do escândalo ou da polémica. Os orgãos de comunicação social, os  "mass-media",  têm uma política bastante selectiva na difusão noticiosa. Se o mundo é  comandado pelo capital, pelo valor dos cifrões, eles sobrevivem e alimentam-se do mesmo modo. Num mundo aguerrido , marcado por uma feroz concorrência, a sobrevivência é feita à custa do que é vendido. A maioria das actuais redacções  foi despojada do tradicional jornalista que , em parceria com outros pares, se agregava à volta do chefe de redacção. A  nova orgânica deu lugar ao digitalizado, ao informatizado e a inócuas redacções que se assemelham a  despersonalizados estúdios televisivos. Os estagiários são frequentemente a maior mão-de-obra que assegura o quotidiano destes orgãos de comunicação, impedindo assim a estabilização do  pessoal na empresa e  o respectivo desenvolvimento de uma cultura jornalística diferenciada.
Esta reflexão surge , aqui e agora, porque apesar do esforço que  se faz na pesquisa de acontecimentos surpreendentemente felizes no panorama nacional ou internacional , deparamo-nos continuadamente com más notícias, com tristes descobertas, com perigosas revelações, com catastróficos relatórios, com terríveis embustes políticos que ensombram totalmente o nosso Horizonte .
A notícia, que vos deixamos hoje,  insere-se no grupo daquelas que nos causam muita apreensão  e tristeza. Uma nova preocupação para os portugueses que foi largamente difundida : o aumento da tuberculose, indicador da  fragilidade económica que afecta muitas das  famílias de Portugal.
 "Portugal é o quinto país da União Europeia com mais casos novos de tuberculose, de acordo com o relatório "Controlo Global da Tuberculose 2010", da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado a 11 de Novembro. O documento refere que, em 2009, a taxa de incidência por cem mil habitantes era de 30 em Portugal, o que significa que apenas Estónia, Lituânia, Letónia e Bulgária tiveram mais casos da doença na União Europeia"