| Outubro, livros de tendência vulcânica |
"Ali em cima, disse vulcânico, mas queria só dizer alegria. É a minha newsletter, que vos escrevo com a candura dos 73 anos e o gosto em contar-vos como amigos. Obrigado.
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva
Os meus livros de Outubro
de tendência vulcânica, cuidado com a leitura
Guerra e Paz
Nos meus livros de Outubro deste ano da graça de 2026, há tudo o que de vulcânico é preciso para mover o mundo. E o que move o mundo? O ódio ou o amor, o ressentimento ou o perdão?
A Guerra e Paz editores começa com De Gaulle e com um embaixador português. O que teria acontecido se o rígido De Gaulle tivesse encontrado o nosso luxuriante embaixador? Bernard Phan decifra o labirinto que nos habituámos a conhecer pelo nome de Charles De Gaulle. António Luiz Cotrim, o nosso embaixador, leva-nos ao céu com as histórias de uma avó extravagante, com os seus socos a pides e a salvação de amigos estrafegados, no delicioso Memórias de Um Cidadão de 2.ª. Que alegria de livro e de episódios loucos! (Merece mesmo o pontinho de exclamação.)
«Não é o milagre que perturba o jovem poeta, mas a sua brusca e nunca pressentida ausência», escreveu o nosso poeta maior dos últimos 70 anos. Já não se pode chamar jovem poeta a João Moita. O seu A Deus, à Poesia mobiliza abismos sem prestidigitações, mergulha no crepúsculo de deuses e demónios, num íntimo e intratável buraco negro. Cuidado com a leitura.
Renovando os Clássicos da Guerra e Paz, chega Sensibilidade e Bom Senso, de Jane Austen. É um dos grandes romances dessa gente europeia a que chamam ocidentais, escrito no revelador anonimato de by a lady. Junta-se a Orgulho e Preconceito e Persuasão para dirimir as batalhas entre cabeça e coração, a que um certo Camilo juntaria o delicado estômago.
Proliferam enigmas em Outubro. E logo os de Natal, como este em que a nossa autora Alexandra Benedict se entretém a tricotar o intrigante e agathiano (sabem bem de quem estou a falar) Os Enigmas dos Crimes de Natal.
Num outro registo, o linguista Marco Neves estreia-se no thriller. Começa que parece quase o fim do mundo: «Tomás Cabral, o morto deste livro, foi encontrado carbonizado numa manhã do final da Primavera de 2025 por…» Leva por título Morte em 22 Letras e é um livro de uma invenção luzente. Ah, vê-se que há bom português nessa PJ que anda agora na boca dos jornais.
A renovada chancela Crisântemo oferece dois livros que são mesmo «pela sua rica saúde», A Arte de Habitar o Caos, Viver com a Cabeça Ligada à Ficha, relato pessoal de Patrícia Rebelo sobre a experiência de viver com PHDA – Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, e Os 7 Elementos da Felicidade, do psiquiatra António Sampaio, uma visão biopsicossocial do processo sempre em construção de uma vida que valha a pena ser vivida.
Não sei se a visão de Vitor Ramalho, meu kamba afro-luso, é biopsicossocial. Mas sei que o seu Portugal, a Democracia, o PS, Que Futuro? se inquieta com o cerne da questão: ainda poderemos salvar do pântano, em que já está pelo pescoço, esse centro político que edificou, mano a mano, a nossa democracia?
Igualmente salvífico é Sexo, Ciência e Censura: as verdades tabu da guerra de género, que Peggy Sastre e Leonardo Orlando escreveram, e eu juntei à minha colecção jimi hendrix, (hierarquias minhas, hey, joe): Os Livros Não se Rendem. Eu sei, genes, biologia, sexo, evidência científica, parecem coisas do passado, mas olhem que não. Se são, são coisas do futuro.
Guardei para o fim um romance de felicíssimo título: No Azul Que Nada Devolve. Escreveu-o Lara Ramos Alves, estreante que sabe tudo sobre mergulho, corais e peixes. Desse saber sacou um policial sufocante, quase irrespirável: mergulha-se e tem de se voltar aflitivamente à superfície. Há um crime. O crime só se resolve lá em baixo, no fundo do mar, no «deep blue sea», «blue» que nada devolve. É um azul de amor e morte. Azul talvez de redenção. Mas que primeiro romance. Primeiríssimo.
Euforia & Alquimia
E aqui, entre Guerra e Paz e Gradiva, fica a nota destas duas chancelas que a Rita Fonseca mantém em estado de activa e pletórica matéria editorial. Na euforia publicam-se Ele Vê-te Enquanto Dormes, de Alta Hensley e Antes, Agora, Sempre, de Amanda Gayle. Na Alquimia, chancela que agora começou a gatinhar, Entre Nuvens e Ossos, de Ella Fields.
Três romances, num leque que vai do dark à fantasy, passando pelo sub-género second-chance. Eu posso não saber do que estou a falar, mas milhares de leitores sabem.
Gradiva
Na Gradiva Publicações, a editora da Mimi, deixem-me começar pelas crianças.
A maravilhosa Lucy Pepper (que bem que o raio dessa nossa inglesa desenha) voltou a fazer, com novas receitas e novos desenhos, O Livro das Receitas Nojentas. O meu neto já viu: gritou de alegria, lambeu cada imagem, levou o tesouro para p jardim de infância e os pequenos selvagens «fizeram» o livro em pedaços. É a glória, querida Lucy, é a glória para uma autora e para um editor.
E para criar alguma simetria, publico também Um Natal Cheio de Neve, de Marc Bratcher e Korky Paul, os criadores da Mimi. É uma historinha de Santa Claus (o paizinho natal) e nunca pára de nevar. Logo cá que nunca neva: um encanto.
Tenho mais uma razão, não só para deixarem vir a mim as criancinhas, mas para vos transformar a todos, de novo, em pequeninos seres a andar de gatas. Para alegria do fundador Guilherme Valente e minha, seu sucessor, reeditámos, em fulgurante edição, o Cosmos de Carl Sagan. Corto já o meu paleio promocional para deixar ouvir a voz cantante e risonha do cientista que é Carlos Fiolhais: «Faz-nos sonhar. Poder-se-á pedir mais de um livro?»
Mando embora as crianças e junto as tropas. Dois generais, Alípio Tomé Pinto e João Vieira Borges, coordenaram um livro de grandes testemunhos e reflexões (como a de Ramalho Eanes) que dão corpo a 25 de Novembro de 1975 – 50 Anos Depois. O livro paira bem acima das rasas disputas ideológicas sobre uma data sem a qual, provavelmente, teríamos tido um cortejo de «a ferro e fogo, sangue e morte». Tivemos, e nesse dia ficou certo, a democracia.
Segue em busca de renovação a Ciência Aberta, esse prodígio de colecção que o Guilherme, meu velho colega de filosofia, criou, inspirado por Fiolhais, Buescu e Mariano Gago. O engenheiro Rui Manuel Barreira é a mais recente «aquisição». Escreveu O Clima Sem Mitos: como um engenheiro lê a crise. Tem uma visão não catastrofista. No centro dessa visão, «uma convicção aprendida na água fria do Atlântico onde o autor mergulha desde criança: quase tudo o que nos assusta se enfrenta com anteparos e o clima, ao contrário do que dizem os manuais, não se resolve com um preço».
Termino de romance na mão. Uma das promessas que fiz ao Guilherme quando me «deu» a Gradiva foi a de manter-lhe a identidade. E a Gradiva trazia na cabeça uma tiara: a bela ficção literária. Ora bem, Ishiguro, McEwan, Eco e agora Michael Cunningham estão de volta. Também este Uma Casa no Fim do Mundo, com capa nova. Ah, as capas novas… Conto? Não conto? Ah, catano, conto mesmo.
Mr. McEwan – o próprio – depois de ver as novas capas mandou-nos este mimo: «They all look amazing, very powerful, striking and beautifully designed. I’m honoured.» Ainda estávamos a tentar descer à terra, quando chegou isto de Mr. Ishiguro: «I think the cubist-y concept crossed with comic-style illustration works really well.» Foi preciso atar o Ilídio Vasco, e também a Diana Trigo, a nossa equipa de designers, para não nos saírem a flutuar pela janela.
E eu? Eu estou capaz de beijar toda a gente. Só peço, e lá vou fazendo as minhas orações da noite, para que continuem a muito ler e, «por virtude do muito imaginar» se transformem de «amador em cousa amada».
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva
A Guerra e Paz editores começa com De Gaulle e com um embaixador português. O que teria acontecido se o rígido De Gaulle tivesse encontrado o nosso luxuriante embaixador? Bernard Phan decifra o labirinto que nos habituámos a conhecer pelo nome de Charles De Gaulle. António Luiz Cotrim, o nosso embaixador, leva-nos ao céu com as histórias de uma avó extravagante, com os seus socos a pides e a salvação de amigos estrafegados, no delicioso Memórias de Um Cidadão de 2.ª. Que alegria de livro e de episódios loucos! (Merece mesmo o pontinho de exclamação.)
«Não é o milagre que perturba o jovem poeta, mas a sua brusca e nunca pressentida ausência», escreveu o nosso poeta maior dos últimos 70 anos. Já não se pode chamar jovem poeta a João Moita. O seu A Deus, à Poesia mobiliza abismos sem prestidigitações, mergulha no crepúsculo de deuses e demónios, num íntimo e intratável buraco negro. Cuidado com a leitura.
Renovando os Clássicos da Guerra e Paz, chega Sensibilidade e Bom Senso, de Jane Austen. É um dos grandes romances dessa gente europeia a que chamam ocidentais, escrito no revelador anonimato de by a lady. Junta-se a Orgulho e Preconceito e Persuasão para dirimir as batalhas entre cabeça e coração, a que um certo Camilo juntaria o delicado estômago.
Proliferam enigmas em Outubro. E logo os de Natal, como este em que a nossa autora Alexandra Benedict se entretém a tricotar o intrigante e agathiano (sabem bem de quem estou a falar) Os Enigmas dos Crimes de Natal.
Num outro registo, o linguista Marco Neves estreia-se no thriller. Começa que parece quase o fim do mundo: «Tomás Cabral, o morto deste livro, foi encontrado carbonizado numa manhã do final da Primavera de 2025 por…» Leva por título Morte em 22 Letras e é um livro de uma invenção luzente. Ah, vê-se que há bom português nessa PJ que anda agora na boca dos jornais.
A renovada chancela Crisântemo oferece dois livros que são mesmo «pela sua rica saúde», A Arte de Habitar o Caos, Viver com a Cabeça Ligada à Ficha, relato pessoal de Patrícia Rebelo sobre a experiência de viver com PHDA – Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, e Os 7 Elementos da Felicidade, do psiquiatra António Sampaio, uma visão biopsicossocial do processo sempre em construção de uma vida que valha a pena ser vivida.
Não sei se a visão de Vitor Ramalho, meu kamba afro-luso, é biopsicossocial. Mas sei que o seu Portugal, a Democracia, o PS, Que Futuro? se inquieta com o cerne da questão: ainda poderemos salvar do pântano, em que já está pelo pescoço, esse centro político que edificou, mano a mano, a nossa democracia?
Igualmente salvífico é Sexo, Ciência e Censura: as verdades tabu da guerra de género, que Peggy Sastre e Leonardo Orlando escreveram, e eu juntei à minha colecção jimi hendrix, (hierarquias minhas, hey, joe): Os Livros Não se Rendem. Eu sei, genes, biologia, sexo, evidência científica, parecem coisas do passado, mas olhem que não. Se são, são coisas do futuro.
Guardei para o fim um romance de felicíssimo título: No Azul Que Nada Devolve. Escreveu-o Lara Ramos Alves, estreante que sabe tudo sobre mergulho, corais e peixes. Desse saber sacou um policial sufocante, quase irrespirável: mergulha-se e tem de se voltar aflitivamente à superfície. Há um crime. O crime só se resolve lá em baixo, no fundo do mar, no «deep blue sea», «blue» que nada devolve. É um azul de amor e morte. Azul talvez de redenção. Mas que primeiro romance. Primeiríssimo.
Euforia & Alquimia
E aqui, entre Guerra e Paz e Gradiva, fica a nota destas duas chancelas que a Rita Fonseca mantém em estado de activa e pletórica matéria editorial. Na euforia publicam-se Ele Vê-te Enquanto Dormes, de Alta Hensley e Antes, Agora, Sempre, de Amanda Gayle. Na Alquimia, chancela que agora começou a gatinhar, Entre Nuvens e Ossos, de Ella Fields.
Três romances, num leque que vai do dark à fantasy, passando pelo sub-género second-chance. Eu posso não saber do que estou a falar, mas milhares de leitores sabem.
Gradiva
Na Gradiva Publicações, a editora da Mimi, deixem-me começar pelas crianças.
A maravilhosa Lucy Pepper (que bem que o raio dessa nossa inglesa desenha) voltou a fazer, com novas receitas e novos desenhos, O Livro das Receitas Nojentas. O meu neto já viu: gritou de alegria, lambeu cada imagem, levou o tesouro para p jardim de infância e os pequenos selvagens «fizeram» o livro em pedaços. É a glória, querida Lucy, é a glória para uma autora e para um editor.
E para criar alguma simetria, publico também Um Natal Cheio de Neve, de Marc Bratcher e Korky Paul, os criadores da Mimi. É uma historinha de Santa Claus (o paizinho natal) e nunca pára de nevar. Logo cá que nunca neva: um encanto.
Tenho mais uma razão, não só para deixarem vir a mim as criancinhas, mas para vos transformar a todos, de novo, em pequeninos seres a andar de gatas. Para alegria do fundador Guilherme Valente e minha, seu sucessor, reeditámos, em fulgurante edição, o Cosmos de Carl Sagan. Corto já o meu paleio promocional para deixar ouvir a voz cantante e risonha do cientista que é Carlos Fiolhais: «Faz-nos sonhar. Poder-se-á pedir mais de um livro?»
Mando embora as crianças e junto as tropas. Dois generais, Alípio Tomé Pinto e João Vieira Borges, coordenaram um livro de grandes testemunhos e reflexões (como a de Ramalho Eanes) que dão corpo a 25 de Novembro de 1975 – 50 Anos Depois. O livro paira bem acima das rasas disputas ideológicas sobre uma data sem a qual, provavelmente, teríamos tido um cortejo de «a ferro e fogo, sangue e morte». Tivemos, e nesse dia ficou certo, a democracia.
Segue em busca de renovação a Ciência Aberta, esse prodígio de colecção que o Guilherme, meu velho colega de filosofia, criou, inspirado por Fiolhais, Buescu e Mariano Gago. O engenheiro Rui Manuel Barreira é a mais recente «aquisição». Escreveu O Clima Sem Mitos: como um engenheiro lê a crise. Tem uma visão não catastrofista. No centro dessa visão, «uma convicção aprendida na água fria do Atlântico onde o autor mergulha desde criança: quase tudo o que nos assusta se enfrenta com anteparos e o clima, ao contrário do que dizem os manuais, não se resolve com um preço».
Termino de romance na mão. Uma das promessas que fiz ao Guilherme quando me «deu» a Gradiva foi a de manter-lhe a identidade. E a Gradiva trazia na cabeça uma tiara: a bela ficção literária. Ora bem, Ishiguro, McEwan, Eco e agora Michael Cunningham estão de volta. Também este Uma Casa no Fim do Mundo, com capa nova. Ah, as capas novas… Conto? Não conto? Ah, catano, conto mesmo.
Mr. McEwan – o próprio – depois de ver as novas capas mandou-nos este mimo: «They all look amazing, very powerful, striking and beautifully designed. I’m honoured.» Ainda estávamos a tentar descer à terra, quando chegou isto de Mr. Ishiguro: «I think the cubist-y concept crossed with comic-style illustration works really well.» Foi preciso atar o Ilídio Vasco, e também a Diana Trigo, a nossa equipa de designers, para não nos saírem a flutuar pela janela.
E eu? Eu estou capaz de beijar toda a gente. Só peço, e lá vou fazendo as minhas orações da noite, para que continuem a muito ler e, «por virtude do muito imaginar» se transformem de «amador em cousa amada».
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva




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