A antiga canção,
Amor, renova agora.
Na noite, olhos fechados, tua voz
Dói-me no coração
Por tudo quanto chora.
Cantas ao pé de mim, e eu ‘stou a sós.
Não, a voz não é tua
Que se ergue e acorda em mim
Murmúrios de saudade e de inconstância,
O luar não vem da lua
Mas do meu ser afim
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.
Não, não é teu o canto
Que como um astro ao fundo
Da noite imensa do meu coração
Chama em vão, chama tanto...
Quem sou não sei... e o mundo?...
Renova, amor, a lembrada canção.
Cantas mais que por ti,
Tua voz é uma ponte
Por onde passa, inúmero, um segredo
Que nunca recebi —
Murmúrio do horizonte,
Água na noite, morte que vem cedo.
Assim, cantas sem que existas.
Ao fim do luar pressinto
Melhores sonhos que estes da ilusão.
Amor, renova agora.
Na noite, olhos fechados, tua voz
Dói-me no coração
Por tudo quanto chora.
Cantas ao pé de mim, e eu ‘stou a sós.
Não, a voz não é tua
Que se ergue e acorda em mim
Murmúrios de saudade e de inconstância,
O luar não vem da lua
Mas do meu ser afim
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.
Não, não é teu o canto
Que como um astro ao fundo
Da noite imensa do meu coração
Chama em vão, chama tanto...
Quem sou não sei... e o mundo?...
Renova, amor, a lembrada canção.
Cantas mais que por ti,
Tua voz é uma ponte
Por onde passa, inúmero, um segredo
Que nunca recebi —
Murmúrio do horizonte,
Água na noite, morte que vem cedo.
Assim, cantas sem que existas.
Ao fim do luar pressinto
Melhores sonhos que estes da ilusão.
01.01.1920
Fernando Pessoa, in Poesia 1918-1930, Assírio e Alvim, [ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine], 2005.
A criança que ri na ruaFernando Pessoa, in Poesia 1918-1930, Assírio e Alvim, [ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine], 2005.
A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo —
Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo
04.10.1934
Fernando Pessoa, in Poesia 1931-1935, Assírio e Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005.
A luz que vem das estrelasA luz que vem das estrelas,
Diz — pertence-lhes a elas?
O aroma que vem da flor,
É seu? Dize, meu amor.
Problemas vastos, meu bem,
Cada cousa em si contém.
Pensando claro se vê
Que é pouco o que a mente lê
Em cada cousa da vida,
Pois que cada cousa, enfim,
É o ponto de partida
Da estrada que não tem fim.
Perante este sonho eterno
Falar em Deus, céu, inferno…
Ah! dá nojo ver o mundo
Pensar tão pouco profundo.
Diz — pertence-lhes a elas?
O aroma que vem da flor,
É seu? Dize, meu amor.
Problemas vastos, meu bem,
Cada cousa em si contém.
Pensando claro se vê
Que é pouco o que a mente lê
Em cada cousa da vida,
Pois que cada cousa, enfim,
É o ponto de partida
Da estrada que não tem fim.
Perante este sonho eterno
Falar em Deus, céu, inferno…
Ah! dá nojo ver o mundo
Pensar tão pouco profundo.
15.11.1908
Fernando Pessoa, in Poesia 1902-1917, Assírio e Alvim, [ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine], 2005.



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