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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Nunca te olharei por dentro

"(…) enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente o coração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, e ao lado dela está o padre Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles, poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.
(…)Frias hão-de ter parecido, a quem perto estivesse, as palavras ditas por Blimunda, Ali vai minha mãe, nenhum suspiro, lágrima nenhuma, nem sequer o rosto compadecido, que ainda assim não faltam estes no meio do povo apesar de tanto ódio, de tanto insulto e escárnio(...). Porém, agora, em sua casa, choram os olhos de Blimunda como duas fontes de água, se tornar a ver sua mãe será no embarque, mas de longe, mais fácil é largar um capitão inglês mulheres de má vida que beijar  uma filha sua mãe condenada, encostar a uma face outra face, a pele macia, a pele frouxa, tão perto, tão distante, onde estamos, quem somos, e o padre Bartolomeu Lourenço diz, Não somos nada perante os desígnios do Senhor, se ele sabe quem somos, conforma-te Blimunda, deixemos a Deus o campo de Deus, não atravessemos as suas fronteiras, adoremos deste lado de cá, e façamos o nosso campo, o campo dos homens, que estando feito há-de querer Deus visitar-nos, e então, sim, será o mundo criado. Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não era necessária melhor razão. Terminado o auto-de-fé, varridos os restos, Blimunda retirou-se, o padre foi com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse. Ele entrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo, fosse a ocasião outra, havia Sete-Sóis de lembrar-se da guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia em que desembarcou em Lisboa.
Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. O padre Bartolomeu Lourenço esperou que Blimunda acabasse de comer da panela as sopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com ela cobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira no chão, o punho cortado de Baltasar. Depois saiu.
Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber E queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faz como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha.(...)Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio.
(...)Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, E disse, Nunca te olharei por dentro."
José Saramago, in "Memorial do Convento"  Editorial Caminho, Lisboa,1982

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Estarei aqui no dia da chegada

"Se eu pudesse falar-te. Se as minhas mãos, se a minha voz te tocasse: não me escutas, é ainda demasiado cedo para que saibas que existo. (...) A única forma de te ser fiel é costurar a vida, lentamente, pelo avesso da dor, inventar um peito onde possas deitar-te, cobrir com lenços grandes os espelhos a fim de que nada impeça o teu regresso. Como não quis ver-te partir estarei aqui no dia da chegada. Também eu vim da guerra quando ninguém sabia dos meus passos. Em Novembro, de manhã, tão de manhã, que os mortos do meu sangue nem sequer tiveram tempo de acordar. Dormiam como dormes. E cá estão. Fazem parte de ti, de mim, do mundo. De onde tornas a nascer. Imensamente."
António Lobo Antunes, in "Não entres por enquanto nessa noite escura", Ed. D. Quixote

Sinopse do romance: " O pai de Maria Clara foi internado e vai morrer. O livro é composto pelas divagações de Maria Clara, as suas recordações e as suas histórias e personagens inventadas, enquanto o pai está a morrer."

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O que o outro acorda em nós


Amor

«Porque nós não nos pomos no lugar do outro: temos é que descobrir o que o outro acorda em nós.”(...)
“Eu sinto. Essa é uma das nossas diferenças: eu fico com pena de não ter conseguido contigo a paz e a harmonia. Tu fazes de tudo uma luta: julgas que é essa a tua força e não te passa pela cabeça que talvez seja uma fraqueza. Para ti, até o amor é uma luta. Para mim tem que ser paz.(...) Por mais que eu não queira, os meus passos continuam, em velhos edifícios em ruínas mas não apetece nada ceder porque acho que a reconstrução de tudo tem que começar com uma ligação verdadeira com aquela chamada indizível de que tenho a saudade. É aí que eu vejo o amor: uma vibração que não vem da inteligência e nem sequer dos sentimentos mas da natureza mais íntima e mais profunda do meu próprio ser.»
*António Alçada Baptista, in “ O Riso de Deus”, Editorial Presença

Empatia

« Que coisa é esse "dar-se conta" do sofrimento do outro que está aqui ao meu lado?(...)
Um amigo vem ter comigo e conta-me que perdeu o seu irmão e eu " dou-me conta " da sua dor (...) . Não me interessa perceber em que é que se funda a sua dor nem donde é que eu a deduzo. Talvez da sua cara transtornada e pálida, da sua voz entrecortada e rouca, ou talvez exprima a sua dor por palavras... Tudo isso , naturalmente pode ser investigado, mas não é o que me interessa. Não interessa também por que caminhos chego a este "dar-me conta", mas sim o que é esse dar-se conta: isso é o que importa saber! Não se trata de explicar e perceber a dor do outro, mas da vivência específica que não é nem por repetição de outras nem é consequência de uma minha experiência minha passada, mas que é o entrar imediatamente na experiência do outro: " faço a experiência de uma não experiência"!»
E. Stein, in " Il problema dell'empatia", Edizini Studium, Roma , 1985

* "No romance, " O Riso de Deus", António Alçada Baptista instaura uma forma de questionamento radical ao acompanhar a vida de Francisco, a personagem central deste romance, ao longo das suas escolhas, da sua procura, das suas deambulações pelo mundo ao sabor dos acasos e encontros e, muito especialmente , da intimidade de algumas mulheres cúmplices da mesma procura. Radicalidade que decorre do facto, inédito na sua escrita, de ser toda uma vida que é posta em balanço, tendo por contraponto esse limite que é a morte. Deus? Possivelmente. Mas um Deus que ri, joga, um deus apaixonado pela pura alegria de existir."

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A Mulher na cidade do homem

"[...]Quando olhamos para o passado vemos que a contribuição da mulher no mundo da criação é muito limitada. As leis, a filosofia, a matemática, a pintura, a arquitectura, a escultura, a música foram quase exclusivamente criadas por homens. A mulher aparece nalgumas artes como intérprete, raramente como autora.
Isto «parece mostrar» que a capacidade criadora da mulher só existe em planos secundários ou subsidiários.
Mas há uma excepção que nos coloca no centro do problema.
Esta excepção é a poesia.
Sapho, Emily Brontë, Emily Dickinson, Louise Labé são poetas na plenitude da criação. Para além do tempo e das mutilações, um fragmento de Sapho conserva aquele poder de invocação total que é a marca de fogo da grande poesia. E da nossa época não poderei deixar de citar Edith Sitwell, Nelly Sachs, que este ano recebeu o prémio Nobel, Gertrude Von Le Fort, que é um dos grandes poetas da transcendência, e Cecília Meireles que é um dos cimos da moderna poesia brasileira.
Esta excepção que a poesia é coloca-nos no centro do problema por duas razões: porque nos esclarece sobre a situação da mulher, porque nos esclarece sobre a natureza e a vocação de humanidade total da mulher.
A poesia é a arte que menos depende da contingência. Para escrever um poema é preciso ser poeta e depois basta um papel e um lápis.
A poesia pede a liberdade da alma que a alma por si mesma conquista, pede a escolha, a ascese, a atenção do ser a todos os seres e depois basta-lhe um papel e um lápis. O escultor ou o arquitecto para realizarem a sua vocação precisam duma longa aprendizagem com escola, mestre, atelier, público, encomenda e comprador. É por isso que, e isto nos esclarece sobre a situação da mulher, a escultura e a arquitectura, como a música, o teatro e a pintura, são artes que só florescem nos países onde existem circunstâncias propícias à cultura. Pelo contrário, a poesia é a arte que sobrevive e resiste nos países pobres, subdesenvolvidos e ocupados.
Se ao longo de tantos séculos a poesia foi quase a única arte onde a mulher mostrou capacidade criadora, isto não quer dizer que a mulher só era capaz de poesia, mas sim que para ela, como para um país subdesenvolvido ou ocupado, a poesia era a única arte possível. A única arte onde a pura liberdade do espírito criador podia resistir à pressão da contingência.
Se o nome Poesia deriva do verbo «poien» que significa criar é porque é na poesia que a criação se mostra no seu estado mais despojado e nu. O material do poeta é a palavra, a palavra que é por excelência o sinal humano. A poesia parte do verbo, do princípio, parte dum tempo anterior à contingência que é o puro tempo do ser. O espírito poético é o espírito daqueles que a si mesmos se reconhecem não como situação, mas como ser a caminho.
A poesia foi durante séculos a única excepção; mas a chegada do século XX traz consigo algo de novo.
A partir de então a capacidade artística e intelectual da mulher começa a mostrar-se em actividades que, embora não fossem em si mesmas masculinas, pareciam ultrapassar a possibilidade feminina. Todos conhecem o nome de Maria Curie, todos sabem que várias mulheres trabalharam nos cálculos matemáticos dos voos espaciais, todos conhecem a pintura de Maria Helena Vieira da Silva, a escultura de Bárbara Hepworth, Germaine Richier, Louise Nevelson.
No entanto as mulheres não fizeram uma revolução e ninguém fez, para elas, uma revolução. Simplesmente a humanidade avançou. Apesar das guerras, dos conflitos, dos crimes, dos abusos e da terrível pressão das forças de reacção, a nossa época tomou uma consciência nova do valor da vida humana. O nosso tempo não admite que existam vidas sacrificadas nem vidas diminuídas mas exige para cada ser humano o direito à plenitude da sua humanidade. E foi nesta consciência nova que a mulher acedeu àquele plano da criação onde a plenitude da vocação humana se mostra.
É evidente que a parte que a mulher tem tomado no trabalho do mundo moderno contribuiu para a sua emancipação. Mas só por si o trabalho não bastaria pois a mulher sempre trabalhou e em muitas épocas e lugares o trabalho para ela foi apenas uma duplicação da escravatura. Verdadeiramente a libertação da mulher a que estamos a assistir resulta da tomada de consciência da dignidade humana que é a grande e difícil tarefa do século XX.
Pois não existe o problema da mulher, mas sim o problema da humanidade. E é por isso que o Feminismo é um caminho errado e já ultrapassado. Aliás sempre à roda da mulher se criaram falsos problemas.
Assim muitas vezes se tem oposto vocação maternal e vocação criadora. Mas a maternidade é plenitude e não mutilação, é maioridade e não menoridade. E a maternidade que é natureza e vocação é também escolha e responsabilidade. Quanto mais responsável a mulher se sentir pelos filhos que tem, mais responsável se sentirá pelo mundo com que os seus filhos vão viver. E também através dos filhos a mulher compreende que verdadeiramente a sua causa não é a causa da mulher, mas sim a causa da humanidade."
Sophia Mello Breyner Andresen in” A Mulher na Sociedade Contemporânea - colóquios na A. A. da Faculdade de Direito”, Prelo Editora, 1969 - Cadernos de Hoje

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

E Há os Amigos


"Tenho horror a hospitais – os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte – mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço; não há flor bonita em campo santo!
Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos, quando a vida me amadureceu de sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram, os que um dia tiveram a minha estima e a perderam.
Quando um tipo vai além de todas as medidas e, de facto, me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério – nele não existem jazigos de família, túmulos individuais; os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrice, do mau carácter. Para mim, o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.
Raros enterros – ainda bem! – de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante – a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.
Encontro na rua um desses fantasmas, páro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado."
Jorge Amado , in “ Navegação de Cabotagem, Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei ”, 1992, Editora Europa–América, Mem- Martins


Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia", Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1958

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder, in “ Ofício Cantante”, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009



Os Amigos
no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

Al Berto, in "Sete Poemas do Regresso de Lázaro"


Preciso de alguém
"Que me olhe nos olhos quando falo.
Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência.
Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odia-lo por isso.
Neste mundo de cépticos, preciso de alguém que creia, nesta coisa misteriosa, desacreditada, quase impossivel de encontrar: A Amizade.
Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa.
Preciso de um Amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida.
Mesmo que isto seja pouco para as suas necessidades.
Preciso de um Amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo:
"Nós ainda vamos rir muito disso tudo"
Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher o meu Amigo.
E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela..."
Charles Chaplin


A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Carlos Drummond de Andrade, In “Antologia poética (selecção e prefácio de Massaud Moisés)”, Lisboa, Portugália, 1965, Colecção “Poetas de Hoje”

Perguntei a um sábio

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.


William Shakespeare


Espera

Na volta do mar
espreito
teu vir
teu ir
tua ausência.

Na volta do mar
deixo meus gestos de adeus.

Luisa Ducla Soares, in " A Maresia e o Sargaço dos Dias", Edições Asa

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma visão desmedida


“Você sonha demais, e, à força de querer outras coisas que não há, vai negando as coisas que existem, o que é uma forma de alienação pura e simples. Porque o que havia entre ambos, separando-os, eram as falsas dimensões sonhadas, disse Afonso, e por isso ele proibia-a de sonhar. Mas ela abria um guarda-sol na varanda e sonhava debaixo do guarda-sol, ou abria um guarda-chuva na rua, e sonhava debaixo do guarda-chuva, onde ele não pudesse ver a sua cabeça e os sonhos que corriam dentro dela.
(...) Precisava de se sentir existindo , de ser atingida, mesmo que tivesse de sofrer para se provar que estava viva. (...) Existir, existir, um instante, na coincidência do seu ser com o seu corpo, fechar os olhos, cambaleando, de repente devorada pela sua própria força. Regressar a casa e ser submersa em fadiga, dias moles, objectos vagos, milhares de gestos inteiramente inúteis. A força dele sobre ela era assim uma força de identificação que a levava a perder os seus próprios contornos, somando-a, apenas, à vida que era a dele, e por isso ela vagueava, diluída, na casa que era a dele, e não a dela ?
(...)É que ela esperava que o amor fosse uma ponte para outra coisa, disse Afonso, outra coisa que não existia, não existiria nunca, ela forçava obscuramente um caminho através do amor, através dele, uma saída, uma porta, uma passagem, como se o universo fosse de repente abrir-se, alargar-se em direcções diversas - mas não havia no universo dimensões sonhadas, existia apenas o quotidiano, exacto e transparente.
(...)mas ela queria a vivência, a qualquer preço, procurava uma visão desmedida das coisas, e por isso sofria, porque toda a consciência era dolorosa. Ir sempre mais além, como um animal caminhando obstinadamente pela areia, um pequeno animal cego avançando, recusando cada ponto de chegada para nunca parar de caminhar, era isso, Lídia, ele sabia, a ansiedade que a levava a recusar a sua vida, a vida possível, na pressa de procurar outra, mais alta mas inexistente, Lídia, ele sabia.(…)porque não temos para viver senão este universo, e era preciso que ela aceitasse isso, finalmente a tensão entre eles era assim entre as coisas imóveis e as coisas movediças, entre a ordem e uma desordem contra a qual, obscuramente, ele se defendia? O tempo à beira-mar, o curto verão, o amor breve, e desde o início uma tensão crescente, de repente tão perto que ele caía no seu campo magnético, na sua zona de tensão, e se ela desse mais um passo,um único, ele ficaria subitamente vulnerável e não saberia mais onde apoiar os pés em terra firme. Porque então tudo teria de ser posto em causa – e como ter coragem de recusar os alíbis, de caminhar sem apoio, num mundo que perdera as coordenadas, então ele colocara atrás de si uma barricada de objectos e continuava a escrever, no seu pequeno espaço de segurança provisória, mas ela acabava sempre por invadir mesmo esse espaço diminuto, como se para ela nunca houvesse fronteiras (…) O último degrau, descer interiormente o último degrau, despojar-se de tudo e também de si mesmo, deixar todas as coisas para trás e não ter mais nada para levar consigo – era esse, então , o ponto de rotura para onde ela o arrastava, a prova de fogo depois da qual e só depois da qual, seria possível recomeçar de outro modo?"
Teolinda Gersão, in "O Silêncio", Sextante Editora, Lisboa, Portugal

“O silêncio” é uma história de amor. Um diálogo entre Afonso, um cirurgião famoso de meia-idade, e a jovem Lídia, que se torna sua amante e o liberta de um casamento convencional e frustrado.
Lídia fala de si , de sua mãe, Lavínia, do seu modo inquieto de olhar o mundo. Mas o que Lídia conta é exactamente o que Afonso não quer ouvir. “

terça-feira, 15 de novembro de 2011

E Há o Mar

"Livres Pensantes" vai fazer uma pausa até Dezembro. Aqui,  neste  espaço, tem saudado e assinalado ininterruptamente todos os dias. Alguns com muita discrição, outros com assumida veemência e uns tantos com ousado deleite literário. Nem sempre os temas abordados tiveram a dimensão que mereciam, mas a parcimónia a que obriga este formato e o tempo que vários tempos facultam foram impedindo uma maior exposição e, por tal, uma melhor e mais adequada apresentação. Contudo, "Livres Pensantes" celebrou incessantemente a Palavra e foi pela palavra que encontrou o mar como uma forma de se despedir. E porque " Há Mar e Mar e Há Ir e Voltar", não diz adeus, apenas até Dezembro .

Uma forma de me despedir
Há o mar há a mulher
quer um quer o outro me chegam em acessíveis baías
abertas talvez no adro amplo das tardes dos domingos
Oiço chamar mas não de uma forma qualquer
chamar mas de uma certa maneira
talvez um apelo ou uma presença ou um sofrimento
Ora eu que no fundo
apesar das muitas palavras vindas nas muitas páginas dos dicionários
bem vistas as coisas disponho somente de duas palavras
desde a primeira manhã do mundo
para nomear só duas coisas
apenas preciso de as atribuir
Não sei se gosto mais do mar
se gosto mais da mulher
Sei que gosto do mar sei que gosto da mulher
e quando digo o mar a mulher
não digo mar ou mulher só por dizer
Ao dizer o mar a mulher
há penso eu um certo tom na minha voz sinto um certo travo na boca
que mostram que mais que palavras usadas para falar
dizer como eu digo a mulher o mar
mar mulher assim ditos
são uma maneira talvez de gostar
e a consciência de que se gosta
e um prazer em o dizer
um gosto afinal em gostar
Enfim o mar a mulher
pode num dos casos ser a/mar a mulher
mera forma talvez de uniformizar o artigo
definido do singular
Há ondas no mar
o mar rebenta em ondas espraiadas nos compridos cabelos da mulher
que ela faz ondular melhor de tarde em tarde
no mês de setembro nas marés vivas
O melhor da mulher talvez o olhar
é para mim o mar da mulher
e à mulher que um só dia encontro na vida
de passagem um simples momento num sítio qualquer
talvez a muitos quilómetros do mar
mas mulher que não mais consigo esquecer
mesmo imerso na dor ou submerso em cuidados
a essa mulher qualquer
eu chamo mulher do mar
Nos fins de setembro quando eu partir
de uma cidade seja ela qual for
quando eu pressentir que alguém morre
que alguma coisa fica para sempre nos dias
e ou nuns olhos ou numa água
num pouco de água ou em muita água
onda do mar lágrima ou brilho do olhar
eu recear seriamente vir-me a submergir
direi alto ou baixo conforme puder
com a boca toda ou já a custar-me a engolir
as palavras mar ou mulher
com certo vagar e cada vez mais devagar
mulher mar
depois quase já só a pensar
o mar a mulher
Não sei mas será
talvez mais que outra coisa qualquer
uma forma de me despedir

Ruy Belo, «Toda a Terra» in Antologia Poética,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1999


MAR
Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

Miguel Torga, Antologia Poética,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 1999


Retrato talvez saudoso da Menina Insular

Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
E ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar que a retém.

Natália Correia ( 1923-1993), in Poesia Completa, 1999


"E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura. Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar. A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca."

Clarice Lispector, in "Banhos de Mar"

Inscrição

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen , in "Livro Sexto", 1962

Mar

Mar metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor de maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfaz.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
E porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

Sophia de Mello Breyner Andresen , in "Poesia I"


"Entramos na água (...) Depois avançamos pelo mar, defrontamo-nos com a sua magnitude no nosso corpo vigoroso. E havia sol no teu ser imortal. E mergulhaste e escorria-te depois na face a festa do mar. E mergulhámos de novo para absorver o mar todo. E vogámos à tona de água, sustentados em nosso peso no seu dorso. Depois rompemos mar fora a um aceno invisível. E a eternidade existia. E nós parámos lá longe e deitamo-nos nela. O céu era muito azul e víamo-lo por cima. Havia nele espaço bastante para a nossa abundância interior e nós olhávamo-lo como quem chega à sua própria morada que não conhecia. Flutuamos no incerto de uma grandeza divina. Senhores da terra, do tempo. Da força, do poder. Estamos no meio do mar, olhamo-lo a toda a volta e o seu mistério infinito está em nós. Depois voltamo-nos para a praia, vamos remando devagar. Às vezes olhamo-nos. O teu riso estrídulo, os cabelos molhados, o mar cai-te das pestanas para os olhos. A face húmida, a alegria vertiginosa da vida, não há morte, não há morte. Depois deitamo-nos na areia ao sol, ouvimos o mar, o fervor na caldeira do mundo. Ou não o ouvimos, há o espaço do seu rumor e nós estamos no meio dele, deitados ao sol. Não vejo agora lá ninguém, para todo o espaço ser nosso. Enchemo-lo todo, estamos bem. (...) Não temos ideias, temos só a perfeição de estar".

Vergílio Ferreira, in “Em Nome da Terra” , Lisboa , Bertrand Ed, 1990

Mar

Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

Vinicius de Moraes, in “ Antologia Poética”



O mar
Conheço teu agitado marulho
tua voz de barítono
conheço tua zangada pronúncia
tuas lanças arrojadas pelos braços da tormenta
conheço tua suave dança
na onda calma e inumerável
na crista transformada em súbita canção de espumas
conheço-te na beleza da baía amanhecida
na hora melancólica do crepúsculo
e no teu dorso enluarado.

Me deste a paisagem das águas litorâneas
e a espuma se estendendo sobre a areia
me mostraste a nudez e o encanto das praias solitárias
a preamar e a vazante
e o teu perfil de mastros e gaivotas
me deste a magia do horizonte
uma vela solta ao vento
e um barco de papel para os meus sonhos
mas nunca me mostraste
a extensão azul dos teus domínios
e nem um indício sequer dos teus enigmas.

Marinheiro sem mar e sem destino
nunca pude navegar tuas distâncias.
Deste banquete
me deste apenas o paladar salgado dos meus versos
minha sílaba de sal
e a tua própria essência salpicada entre meus dedos
molécula elementar
unânime cristal
para que na minha dieta imprescindível
eu possa provar teu sabor todos os dias.

Manoel de Andrade,Curitiba, Abril de 2004, in “ Cantares”, Ed. Escrituras, S.Paulo

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Fragmento do Homem


“Todos os paraísos tiveram sempre a dimensão do homem, e os deuses que lá habitaram nunca foram mais que o reflexo da sua face branca, da sua face negra. A história dos deuses é o espelho da nossa aflição, da nossa esperança. O paraíso de hoje volta a reflectir as mesmas ilusões: começa a povoar-se de robots. O desamparo inventa sempre uma tábua de salvação: a última é a superstição da técnica. Uma vez mais o homem declina o seu nome, enquanto os deuses mudam de manto e ajeitam a coroa.
Nem cristal nem lixo, mas lixo–e-cristal é o nosso tempo. E não temos outro onde mergulhar as raízes.. Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida?
Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.”

Eugénio de Andrade, in “Os Afluentes do Silêncio”, Editorial Inova Limitada, Porto

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Prémio Nobel da Literatura para a Poesia

Poeta sueco tem 80 anos e não tem obra traduzida em português, apesar de fazer parte da colectânea «21 poetas suecos», editada pela Vega, em 1981
O Prémio Nobel da Literatura 2011 foi atribuído a Tomas Transtromer, anunciou esta quinta-feira a Academia Sueca, em Estocolmo.
O poeta, de 80 anos, ganhou devido às suas «imagens translúcidas», que nos deram um «novo acesso à realidade», justificou a Academia, que desde 1996 não entregava o prémio a um poeta.
O prémio tem o valor monetário de dez milhões de coroas suecas, cerca de 1,1 milhões de euros. A cerimónia de entrega dos Prémios Nobel 2011 realiza-se no próximo dia 10 de Dezembro, na capital sueca.
Na edição anterior, em 2010, o Nobel da Literatura distinguiu o escritor de origem peruana Mário Vargas Llosa, autor de «Conversa n'A Catedral» e de «Guerra do Fim do Mundo».


Tranströmer, o poeta do surreal
O poeta sueco é também psicólogo (formado pela Universidade de Estocolmo, em 1956, e clínico até 1990) e tradutor. A sua obra ocupou um lugar de destaque na literatura dos anos 1950. De acordo com a nota da Academia dos Prémios Nobel, será o mais conhecido poeta escandinavo da actualidade para os falantes de língua inglesa.
A maior parte da sua obra está escrita em verso livre, apesar de ter feito também experiências com linguagem métrica.
O seu universo literário descreve um imaginário de magia, onde o surreal é traduzido pela poesia. A sua obra está traduzida em mais de 60 línguas. Tranströmer não tem obra traduzida em português. No entanto, está representado na colectânea «21 poetas suecos», editada pela Vega, em 1981. Neste livro
escreveu poemas sobre o Funchal e Lisboa.Tomas Tranströmer nasceu em Estocolmo em 1931. Filho de um jornalista que se divorciou da mãe, professora, quando ainda era pequeno. Por ter vivido com a mãe, teve muito pouco contacto com o pai, refere a nota biográfica divulgada pela Academia do Prémio Nobel.
Na sua infância, passou muitos Verões na ilha de Runmarö, o que veio a inspirar directamente a matriz dos seus poemas.
Os interesses de Tomas Tranströmer passaram pela pintura e pela música, mas também pela arqueologia e ciências naturais em geral.
O galardoado começou cedo a escrever, tinha 13 anos e andava na escola de latim Södra. Foi influenciado pelas leituras de poesia, género que começou a apreciar.
O primeiro livro foi publicado quando tinha 23 anos («17 dikter» - «17 Poemas», 1954). Os seus poemas são construídos a partir da sua própria experiência, das percepções psicológicas e interpretações metafísicas do seu mundo.
Em 1990 Tranströmer sofreu um acidente vascular cerebral que lhe afectou a fala, deixando-o parcialmente afásico e hemiplégico.
Vive actualmente numa ilha e continuou a escrever, tendo desde então publicado três obras. Ao todo tem cerca de 15 obras numa longa carreira dedicada à escrita e venceu numerosos prémios literários, como o Prémio Literário do Conselho Nórdico, em 1990.TVI


Alguns livros publicados pelo poeta sueco:«17 dikter» (1954) - «Seventeen Poems»
«Hemligheter på vägen» (1958)
«Den halvfärdiga himlen» (1962) - «The Half-Finished Heaven»
«Klanger och spar» (1966) - «Windows and Stones»
«Mörkerseende» (1970) - «Night Vision»
«Stigar» (1973) - «Paths»
«Östersjöar» (1974) - «Baltics»
«Sanningsbarriären» (1978)
«Det vilda torget» (1983)
«För levande och död» (1989) - «For the Living and the Dead»
«Sorgegondolen» (1996)
«Den stora gåtan» (2004)
«Galleriet: Reflected in Vecka nr.II» (2007)- um livro artistic por Modhir Ahmed

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Novo romance de José Saramago

A Editorial Caminho vai editar o romance “Clarabóia” de José Saramago que foi recusado pelo seu editor cinco  décadas antes de o português receber o Nobel da Literatura. « Claraboia» de José Saramago foi  escrito sob pseudónimo.O escritor acabou de escrevê-lo em 1953 e deixou-o inédito até ao fim da vida. Está em pré-lançamento e chegará às livrarias a partir de 17 de Outubro.
Sinopse
"A acção do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respectiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respectivo filho – nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respectiva mulher e uma “mulher por conta” no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respectiva filha no início da idade adulta.
O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.
O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate – debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis” – com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante? "
“Claraboia “ de José Saramago
Edição/reimpressão: 2011
Editor: Editorial Caminho
ISBN: 9789722124416
Colecção: Obras de José Saramago
Excerto
"Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pela das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.
Num movimento mais lento de rotação, deitou as pernas para fora da cama. As coxas magras e as rótulas tornadas brancas pela fricção das calças que lhe desbastavam os pelos entristeciam e desolavam profundamente Silvestre. Orgulhava-se do seu tronco, sem dúvida, mas tinha raiva das pernas, tão enfezadas que nem pareciam pertencer-lhe.
Contemplando com desalento os pés descalços assentes no tapete, Silvestre coçou a cabeça grisalha. Depois passou a mão pelo rosto, apalpou os ossos e a barba. De má vontade, levantou-se e deu alguns passos no quarto. Tinha uma figura algo quixotesca, empoleirado nas altas pernas como andas, em cuecas e camisola, a trunfa de cabelos manchados e sal-e-pimenta, o nariz grande e adunco, e aquele tronco poderoso que as pernas mal suportavam.
Procurou as calças e não deu com elas. Estendendo o pescoço para o lado da porta, gritou:
- Mariana! Eh, Mariana! Onde estão as minhas calças?
(Voz de dentro:)
- Já lá vai!
Pelo modo de andar, adivinhava-se que Mariana era gorda e que não poderia vir depressa. Silvestre teve de esperar um bom pedaço e esperou com paciência. A mulher apareceu à porta:
- Estão aqui.
Trazia as calças dobradas no braço direito, um braço mais gordo que as pernas de Silvestre. E acrescentou:
- Não sei que fazes aos botões das calças, que todas as semanas desaparecem. Estou a ver que tenho de passar a pregá-los com arame…
A voz de Mariana era tão gorda como a sua dona.»

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Livros que se complementam

“Empenhai-vos!” de Stéphane Hessel e "Falidos", dois livros que giram à volta da crise gerada pelos efeitos nefastos de um capitalismo voraz e consumista destes tempos modernos. Os autores são franceses: um, humanista de 93 anos, com um passado de resistência, de defesa de grandes causas e de exercício diplomático e outro, anónimo de 60 anos, mas detentor de uma prosa elaborada e refinada, autoexilado na Ásia recôndita por excesso de endividamento. Temas actuais que se complementam nestes olhares de muita vida feitos e transcritos em palavras que merecem ser lidas.
"Com” Indignai-vos!,” Stéphane Hessel marcou o ano de 2010. Após uma crise difícil e um período de reformulação do poder, esta obra vem catalisar uma vaga imensa de contestação que atravessa o país e que ultrapassa até as nossas fronteiras.
Neste “Empenhai-vos!”, Stéphane Hessel, no decurso de uma conversa com Gilles Vanderpooten, de 25 anos, intensifica as suas exigências morais porque, diz ele, não basta indignarmo-nos. Cada um de nós, com a sua própria sensibilidade, deve empenhar-se em todas as frentes de combate da nossa época: os direitos do homem, a defesa dos ilegais e dos sem-abrigo, a luta contra as desigualdades, a ecologia…
Eterno optimista, Hessel acredita que a Natureza é «rica em ardis» e convida as gerações jovens a indignar-se e a resistir às coisas escandalosas que as rodeiam.
Uma conversa rica, profunda e apaixonante.
Leia aqui o 1ª capítulo :Empenhai-vos!
Stéphane Hessel nasceu no início da revolução russa, mas, em vez da rebelião, preferiu a via da diplomacia e das organizações internacionais.
A experiência da Segunda Guerra mundial – durante a qual escapa duas vezes aos campos de concentração – faz dele um mundialista e um europeísta decidido.
Convencido pela necessidade da união contra novas catástrofes e crente na necessidade de uma organização internacional, contribuiu para a redacção da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948. «Talvez o período mais ambicioso da minha vida, com o sentimento premente de trabalhar para o futuro e não para a eternidade.»
Pioneiro da ONU, embaixador de França, ligado aos Negócios Estrangeiros e depois ao programa das Nações Unidas para o desenvolvimento, Stéphane Hessel encarna uma espécie de «civismo mundial» que o leva a empenhar-se alternadamente em prol dos direitos do homem, dos ilegais e dos sem-abrigo, da luta contra as desigualdades e até do conflito israelo-palestiniano. Entusiasta venerado, presente em todas as frentes, Stéphane Hessel faz da ecologia um dos principais desafios do século XXI e, optimista como é, acredita que a Natureza é «rica em ardis múltiplos», capaz de frustrar todas as armadilhas das suas criaturas.
Stéphane Hessel apela a uma organização mundial para o desenvolvimento e intima as novas gerações a que resistam aos escândalos que as rodeiam e os combatam com toda a energia." In site da Editora Planeta
Informação técnica:
“Empenhai-vos!” de Stéphane Hessel
Género: Não Ficcção
PVP: 10 €
104 páginas
Tradução: Nuno Daun e Lorena e Irene Daun e Lorena
Editora Planeta

"Falidos!"
Um grito de esperança no meio da crise
A Porto Editora publicou, a 4 de Agosto,” Falidos!”, um livro indispensável para perceber as causas que nos conduziram à crise actual, promover a reflexão e não deixar morrer a esperança.
Sinopse
No momento em que Portugal, e não só, atravessa uma das maiores crises da sua história, Falidos! vem apontar-nos as causas reais que levaram à grave situação que afecta, em maior ou menor medida, uma boa parte dos países europeus. Não é apenas um documento de indignação - é um grito de revolta contra o funcionamento de um sistema económico que conduziu o Homem a um mero ser consumista, cada vez mais consumista, para depois o atar com os grilhões incontroláveis da insolvência, do desespero e da miséria. Escrito por um autor anónimo - vítima ele próprio do processo que descreve - Falidos! foi saudado pela crítica francesa como um panfleto político elevado à condição de obra de arte.
"Falidos!"
Código: 04359
Edição/reimpressão: 2011
Páginas: 64
PVP: 5,5 €
Tradução:Isabel St. Aubyn
Editor: Porto Editora
A presente edição vem enriquecida com um prefácio notável de Frei Bento Domingues, uma das mais influentes figuras da Igreja portuguesa, que enquadra de modo exemplar as situações denunciadas na obra no âmbito do pensamento católico e das preocupações de muitas das encíclicas papais.
DO PREFÁCIO
«Falidos! não se contenta em denunciar as nossas cumplicidades infantis com a pornografia financeira, que nos impele a adquirir e a possuir sempre mais para satisfazer desejos prefabricados e imaginários, através de enganadores créditos bancários. Fruto da indignação, é um protesto que não se esgota na denúncia. Abre um caminho e entrega armas para dar oportunidades à esperança e à vida daqueles que o neoliberalismo espoliou de tudo.» Frei Bento Domingues
O AUTOR

"Se não posso assinar esta carta com o meu nome, facto que motivará a crítica de alguns, é por uma simples razão: perdi-o, como perdi tudo o que fazia parte da minha vida. Exilado no fim do mundo, longe do consumismo das nossas existências que amortizamos em pequenas mensalidades, arruinado pelos bancos, pelos seus organismos, pelos patrões da grande distribuição, pelo canibalismo de um sistema que aguça os nossos apetites para melhor nos devorar, só me restam estas palavras que ninguém poderá destruir. Tinha escolhido remeter-me ao silêncio, carpir as dores dos meus erros passados, aterrado por me ver de repente, nas margens do rio Mekong, numa miséria que nunca havia imaginado. Mas ao ver as crianças morrer, as mulheres agonizar no trabalho, os velhos cumprimentarem-se por terem cumprido quarenta anos, compreendi que o silêncio já não era possível.
Por todo o lado o capitalismo anónimo comete infâmias: se não fizermos nada, se nos calarmos, envergonhados nas nossas solidões cúmplices, a Humanidade, subjugada e sobre-endividada, não sobreviverá ao século corrente."
In site da Porto Editora
IMPRENSA
«Este pequeno livro é belo como uma canção triste. (...) É de tal modo bem escrito e bem construído que é difícil crer que o seu autor não seja um romancista ou um ensaísta experiente, e que portanto não tenham sido inventadas todas as peças da história que nos conta. (...) Mas, no fundo, que importa? Mesmo que este livro não tivesse nada de testemunho autobiográfico, mesmo que tivesse sido escrito num luxuoso apartamento parisiense e pago a peso de ouro, ele seria sempre maravilhoso. Pois que o autor conseguiu algo raro: fazer de um panfleto político uma espécie de obra de arte.»Le Monde des Livres