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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Recordar David Mourão Ferreira


Didáctica
Uma noite por ano uma noite pelo menos
Assaltemos o céu e a Lua aprisionemos
Uma noite Uma noite Uma noite pelo menos

Armas Algemas Cães O que for necessário
Tragam-na dentro dum foguetão celular
E mantenham-na presa uma noite pelo menos

Interroguem então a prisioneira Lua
Não lhe poupem o corpo a nenhuma tortura
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

Veremos se confessa o que nem nós sabemos
Chicoteiem-lhe o peito E fustiguem-lhe o ventre
Deixem-na toda em sangue uma noite pelo menos

É preciso que saiba os recursos que temos
É preciso que aprenda É preciso que a prendam
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988,
Lisboa, Editorial Presença, 1996, 2,ª ed.
Notícia de David
por BAPTISTA-BASTOS
A última vez que o vi foi na Casa do Alentejo, num jantar de apoio à candidatura de Jorge Sampaio à Presidência da República. Não o reconheci, de imediato: o cancro devorava-o, era uma sombra do que fora. Ao lado, sua mulher, Pilar, e os dois mantinham o porte sereno e digno. Conversou, fumou cachimbo, bebeu uísque, no ritual cortês e delicado que o caracterizava. Um homem a sorrir à morte, e embora dilacerado pelo escândalo de saber do seu próprio fim, mantinha a discrição e o pudor. David Mourão-Ferreira, digo.
Lembrei-me do episódio, agora, que li, na revista dominical do Público, uma entrevista a seu filho. O grande poeta percorreu a vida com a elegância antiga que marca o destino dos que são modernos sem nunca deixar de ser clássicos. Há poucos desta estirpe. O filho, também David, como o pai e o avô, fornece comovente perfil de um homem complexo, solitário mas também povoado pela força de um querer no qual o amor procura o seu particular infinito. Na conversa, deixa pistas importantes, como a da religião e da conversão do pai, que a entrevistadora, acaso por distracção e impreparo, não soube aproveitar. Em 1979, fora iniciado no rito shintoista, numa época em que não cultuava nenhuma religião. Quando David, o filho, fala da pouca paciência que o pai tinha para com os neorealistas (embora fosse amigo, admirador e lúcido crítico de, por exemplo, Armindo Rodrigues, neorealista de raiz camoniana), seria oportuno falar-se da querela com Mário Dionísio.
A entrevistadora desconhecia o assunto, de que resultou uma cena de pancadaria, desencadeada por outro escritor, ao que parece alcoolizado. As lacunas são quase neutralizadas pelas declarações do entrevistado, homem notoriamente culto e inteligente, e pelas quais perpassa uma fina ironia. E remata dizendo que catalogar o pai como poeta do amor é não só redutor como desconhecimento de que a grande poesia dele é uma espécie de configuração da alma, e da secreta transcendência do ser humano. Uma procura de si em si.
Sem paciência para os neorealistas e enfadado com os surrealistas, cuja cartilha de expulsões e excomunhões detestava, David Mourão-Ferreira foi um cavaleiro de múltiplas soledades, sem servidões nem amos, cujo imenso talento, eloquência e impressionante cultura suscitavam invejas e ressentimentos. O costume.
Inimigos chamavam-lhe "o soneto engravatado." Um dia perguntei--lhe da alcunha. Ele: "O que em mim haverá de soneto tem pouco de engravatado; e o que, em mim, às vezes, há de engravatado não tem, em compensação, nada a ver com o soneto."
Não relia, há uns tempos, este meu amigo afectuoso. Revisitei os seus poemas, lidos, tanta vez, em voz alta, e reencontrei-me com um artista invulgar, para quem os valores da diversidade eram a questão central da existência num mundo cada vez mais flutuante e ausente na compostura.
Baptista–Bastos em Artigo de Opinião,  publicado no "Diário de Notícias", em 28 Setembro de 2011

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Mas o céu não cairá

" Milhões de norte-americanos trabalham a tempo inteiro, todo o ano, para ganharem um salário de miséria. A jornalista Barbara Ehrenreich decidiu ir juntar-se às suas fileiras para descobrir como é possível subsistir”
Por cá a miséria já grassa há muito e a iniquidade de um salário baixo obriga a malabarismos desumanos.O ciclo crísico que se desenvolve vai  acentuar e aumentar as clivagens numa sociedade que tende a  bipolarizar-se apenas em pobres e ricos.

“Quando as mães solteiras pobres tinham a opção de não entrarem no mercado de trabalho e continuarem a subsistir à custa da assistência social, as classes média e alta encaravam-nas geralmente com uma certa impaciência, se não mesmo repugnância. Os pobres dependentes da assistência social eram criticados pela sua preguiça, a sua persistência em se reproduzirem em circunstâncias desfavoráveis, os seus presumíveis vícios e, acima de tudo, a sua “dependência”. Aqui estavam eles, contentando-se com viver de “esmolas do Estado” em vez de buscarem a sua “auto-suficiência”, como todas as outras pessoas, através de um emprego. […] Mas agora que o Estado suspendeu em grande medida as suas “esmolas”, agora que a esmagadora maioria dos pobres labuta no Wal-Mart ou no Wendy’s – bem, agora o que havemos de pensar deles? A reprovação e a condescendência já não têm cabimento; qual é a forma de os encarar que faz sentido?
Com um sentimento de culpa, estareis talvez a pensar com desânimo. Mas a culpa não chega, de forma nenhuma; o sentimento apropriado é a vergonha – vergonha da nossa própria dependência, neste caso, dependência do trabalho mal pago de outros. Quando alguém trabalha por menos dinheiro do que necessita para viver – quando, por exemplo, passa fome para que nós possamos comer de forma económica e conveniente – então essa pessoa faz um enorme sacrifício por nós, concedeu-nos a dádiva de uma parte das suas capacidades, da sua saúde e da sua vida. Os “pobres que trabalham”, como são referidos de forma apreciativa, são de facto os principais filantropos da nossa sociedade. Negligenciam os seus próprios filhos para cuidarem dos filhos dos outros; vivem em casas sem condições para que as casas dos outros sejam reluzentes e perfeitas; aguentam privações para que a inflação continue baixa e os preços das acções subam. Pertencer ao grupo dos pobres que trabalham é ser um doador anónimo, um benfeitor não identificado de todas as outras pessoas. […]
Um dia, evidentemente – e não vou fazer aqui previsões sobre a data exacta – cansar-se-ão de obter tão pouco em troca e exigirão que lhes paguem o que merecem. Quando esse dia chegar haverá muita raiva e greves e perturbações. Mas o céu não cairá, e no fim de contas todos acabaremos por beneficiar.”
Barbara Ehrenreich, Salário de Pobreza, Ed. Caminho, 2007


 O Anticristo
             Por Friedrich Nietzsche

Os primeiros a cair, num terramoto,
são os ídolos de pedra, livrando-nos
do peso, não da culpa, que sentíamos
nos ossos. Mas já Deus não era um ídolo
nem nada, nesse tempo:
uma presença,
quando muito, embaraçosa, semelhante
ao napperon oferecido pela tia preferida,
e que corremos a sacar duma gaveta
quando vemos, aos domingos, sua gorda,
generosa silhueta projectada na vidraça
do almoço;
ou as quatro, cinco latas
de conserva de absurdo que guardamos
na despensa (apesar de caducada a validade)
para o dia, eventual, em que alimentos
estragados nos pareçam preferíveis ao jejum.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Uma vida ao serviço da Poesia

A propósito de uma exposição sobre Pierre Seghers designada por "Pierre Seghers - Poésie, la vie entière" apresentada pelo Museu de Montparnasse, em Paris até 7 de Outubro de 2011, têm sido publicados alguns artigos sobre este poeta, editor e resistente francês que serviu a poesia durante uma vida, num percuso de singular actividade. Pierre Seghers nasceu em Paris a 5 de Janeiro de 1906. Faleceu em Novembro de 1987, aos 81 anos. Seghers definiu e assumiu a sua dedicação ao livro  quando encontrou pela primeira vez o editor, músico e arquitecto Louis Jou. Assim, fascinado pela capacidade intelectual e riqueza da actividade de Jou, funda  em 1938, a sua primeira Editora e, no ano seguinte, uma revista de poetas-soldados com o título de " Poétes casqués", publicação mais conhecida  como "PC39". Em 1940, respondendo ao desafio de Louis Aragon e com o apoio de Paul Elouard, funda uma nova revista, "Poésie 40".
Em 1944, lança a colecção de livros "Poètes d'aujourd'hui" que, no total dos 256 volumes publicados, se dedica a destacar e a valorizar os aspectos centrais da criação poética , especialmente francesa . Em 1969, Seghers cede a sua parte a Robert Laffont e consagra-se totalmente à sua oba. A importância deste poeta e editor não se enforma unicamente na obra que produziu, mas na atenção que prestou à criação lírica.
Pierre Seghers é, neste Verão, homenageado e recordado em França. Pela grandeza que reveste toda a sua  obra em prol da POESIA , transcreve-se o artigo que "L'Express", na edição de 14 de Julho, lhe dedicou.

Pierre Seghers, une vie au service de la poésie
“Éditeur, poète et résistant, la vie de Pierre Seghers s'étend comme un éventail. À travers des manuscrits, photographies, lettres et ouvrages inédits, l'exposition "Pierre Seghers - Poésie, la vie entière" présentée par le Musée du Montparnasse retrace ce parcours d'exception.
Louis Jou, un père spirituel
Peut-on renaître ? Pierre Seghers vous répondrait sans doute oui. Né à Paris en 1906 dans une famille d'artisans originaire du Nord, il éprouve un véritable éveil spirituel lorsque son destin croise celui du graveur et imprimeur Louis Jou, en 1929, aux Baux-de-Provence. Une rencontre extraordinaire, à tout jamais ancrée dans la mémoire de Seghers, qui appellera Louis Jou, sa vie durant, "mon patron". Le maître transmet à son disciple la passion des livres et de l'édition. Premières expériences inoubliables : rencontre avec André Suarès et découverte des poètes de la Perse. À l'époque, Seghers est gérant d'hôtels, casinos et bars. Mais sa destinée le rattrape. Il se jette alors à corps perdu dans la poésie et écrit son premier recueil intitulé Bonne Espérance. Louis Jou confie le précieux manuscrit à l'éditeur Bernard Grasset. Silence de mort, souvent synonyme de refus. Seghers ne baisse pas les bras pour autant. En 1938, il crée sa propre maison d'édition à Villeneuve-lès-Avignon : les "Éditions de la Tour". Son histoire commence.
Écrire, c'est résister
Septembre 1939 : le soldat de deuxième classe Pierre Seghers est appelé au front. Direction la caserne Vallongue à Nîmes. Selon Seghers, poésie et guerre vont de pair : l'écriture est une arme de résistance, un cri de liberté. Il crée ainsi la revue P.C. (Poètes Casqués) qui publie les textes des combattants pour la liberté. Seghers contourne au mieux la censure imposée par l'Occupation et entre en résistance au côté de compagnons de premier rang, Louis Aragon, Paul Éluard ou encore Robert Desnos. Dans sa nouvelle revue Poésie, il rassemble toutes ces voix. Il publie une anthologie de la poésie Espagnole établie par Pierre Dermangeat sous le titre Poésie 41, et les poèmes de Pierre Emmanuel sous le titre Combat avec tes défenseurs. C'est ainsi que débute son aventure qu'éditeur.
"L'homme couvert de noms"
L'édition, c'est la vocation de Pierre Seghers. La Maison Seghers voit le jour en 1944. Elle sera vendue à Robert Laffont à la fin des années 60. Seghers a fait entrer dans son catalogue de nombreux auteurs connus et inconnus, Français et étrangers, parmi lesquels André Frénaud, James Joyce, Jean Cocteau et bien d'autres. La publication d'un livre consacré à Paul Éluard, Le Poète d'aujourd'hui représente le tournant décisif dans l'histoire de la maison. Quoi d'autre ? Seghers est avant-gardiste. Il invente le petit format, un poche avant le livre de Poche. Il veut faire de la poésie un art accessible à tous. Mieux encore, le passeur de culture n'hésite pas à affirmer que la chanson est la soeur de la poésie. Les chanteurs sont donc des auteurs à part entière, une opinion qui, à l'époque, fait grincer des dents. Il publie Ferré, Brassens, Barbara et Aznavour en leur consacrant une collection inédite "Poésie et chanson". Seghers a réussi à rassembler deux familles qui n'en font plus qu'une. Paradoxalement, l'homme lui-même reste solitaire et secret.
Seghers et sa part d'ombre
Derrière ce sourire ardent, se cache un homme à l'air grave, profondément blessé. Seghers porte un poids, celui de la guerre et celui d'un père mort, suicidé. "Il n'en parlait jamais", nous confie Virginie Seghers, née de l'union entre Pierre et le grand amour de sa vie Colette Peugniez. Il n'était pas "quelqu'un de la parole intime", explique Albert Dichy, commissaire de l'exposition. Un paradoxe lorsqu'on pense aux chansons d'amour dédiées à Colette et au méticuleux travail d'introspection que Seghers entreprend dans Dis moi ma vie. Mais peut-être pas. Car après tout, chez Seghers, la langue est un vecteur d'évasion : là où tout est dit mais ne reste qu'allusion.” Par Chisato Goya (LEXPRESS.fr), publié le 14/07/2011 à 15:00
Pierre Seghers - Poésie, la vie entière. Musée du Montparnasse, Paris (15ème) . Jusqu'au 7 octobre 2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Inéditos de Guerra Junqueiro


Um dia, disse Guerra Junqueiro para o seu amigo Luís de Oliveira Guimarães: "Os políticos consideram-me um poeta; os poetas, um político; os católicos julgam-me um ímpio; os ateus, um crente" (1).
Mais tarde, Helena Rocha Pereira, diria: "Entre os grandes poetas que brilharam na segunda metade do nosso século XIX, nenhum provocou mais desencontradas críticas à volta da sua obra do que Guerra Junqueiro."(2)
 Guerra Junqueiro é notícia nos jornais de hoje ,neste 14 de Julho em que os franceses festejam a tomada da Bastilha. Novos escritos deste grande poeta português foram descobertos. Manuscritos que se acreditam autênticos e  que aumentam a obra que nos legou.
"Quase mil documentos entregues na Livraria Lello
Descobertos no Porto manuscritos inéditos de Guerra Junqueiro
Perto de um milhar de manuscritos, todos inéditos, de Guerra Junqueiro foram descobertos no baú duma casa privada, no Porto. A notícia foi avançada ontem à noite pela Antena 1, que cita e ouve Antero Braga, livreiro da Lello, no Porto, a garantir a autenticidade dos documentos e da autoria.
“Isto é Guerra Junqueiro, posso garantir. A letra é inimitável. Só não sei avaliar o que tenho na mão”, diz o livreiro, sem divulgar a origem dos manuscritos que lhe chegaram às mãos. Antero Braga acrescenta que terão originalmente pertencido a alguém que tinha relações de amizade e de grande proximidade com o poeta e político.
O achado, considerado de valor incalculável, é constituído por correspondência diversa, manuscritos e mesmo projectos de textos, todos datados do final da década de 1880. Antero Braga acrescenta que os manuscritos irão agora ser estudados, e não deixa de manifestar “alguma preocupação” quanto ao seu destino.
Abílio Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta, em 1850. Estudou Teologia, mas formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi funcionário público, e enveredou pela vida política, primeiro como deputado do Partido Progressista, depois abraçando a causa republicana. Como escritor e poeta, tornou-se um dos autores mais populares da sua época, com livros como “A Velhice do Padre Eterno”, “Os Simples”, “Pátria” e “Horas de Com
bate”. Morreu em Lisboa em 1923, com 72 anos.” In Jornal “Público” , 14 de Julho
(1) Luís de Oliveira Guimarães, "Junqueiro e o Bric-à-Brac", Lisboa, 1942
(2) Maria Helena da Rocha Pereira, "As Imagens e os Sons na Lírica de Guerra Junqueiro", Lisboa, Livraria Portugália, 1950

Portugal
Maior do que nós, simples mortais, este gigante
foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
seu torrão dilatou, inóspito montado,
numa pátria... E que pátria! A mais formosa e linda
que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro;
hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro;
trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas;
nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas;
gados nédios; colinas brancas olorosas;
cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas;
selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
de olivais; por nogais, frautas de pegureiros;
rios, noras gemendo, azenhas nas levadas;
eiras de sonho, grutas de génios e de fadas:
riso, abundância, amor, concórdia, Juventude:
e entre a harmonia virgiliana um povo rude,
um povo montanhês e heróico à beira-mar,
sob a graça de Deus a cantar e a lavrar!
Pátria feita lavrando e batalhando: aldeias
conchegadinhas sempre ao torreão de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas;
e, a dar fé, a dar vigor, a dar o alento,
grimpas de catedrais, zimbórios de convento,
campanários de igreja humilde, erguendo à luz,
num abraço infinito, os dois braços da cruz!
E ele, o herói imortal duma empresa tamanha,
em seu tuguriozinho alegre na montanha
simples vivia – paz grandiosa, augusta e mansa! -,
sob o burel o arnês, junto do arado a lança.
Ao pálido esplendor do ocaso na arribana,
di-lo-íeis, sentado à porta da choupana,
ermitão misterioso, extático vidente,
olhos no mar, a olhar sonambolicamente...
«Águas sem fim! Ondas sem fim! Que mundos novos
de estranhas plantas e animais, de estranhos povos,
ilhas verdes além... para além dessa bruma,
diademadas de aurora, embaladas de espuma!
Oh, quem fora, através de ventos e procelas,
numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas,
a demandar as ilhas de oiro fulgurantes,
onde sonham anões, onde vivem gigantes,
onde há topázios e esmeraldas a granel,
noites de Olimpo e beijos de âmbar e de mel!»
E cismava, e cismava... As nuvens eram frotas,
navegando em silêncio a paragens ignotas...
– «Ir com elas...Fugir...Fugir!...» Ûa manhã,
louco, machado em punho, a golpes de titã,
abateu, impiedoso, o roble familiar,
há mil anos guardando o colmo do seu lar.
Fez do tronco num dia uma barca veleira,
um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira...
Manhã de heróis... levantou ferro... e, visionário,
sobre as águas de Deus foi cumprir seu fadário.
Multidões acudindo ululavam de espanto.
Velhos de barbas centenárias, rosto em pranto,
braços hirtos de dor, chamavam-no... Jamais!
Não voltaria mais! Oh! Jamais! Nunca mais!
E a barquinha, galgando a vastidão imensa,
ia como encantada e levada suspensa
para a quimera astral, a músicas de Orfeus:
o seu rumo era a luz; seu piloto era Deus!
Anos depois, volvia à mesma praia enfim
uma galera de oiro e ébano e marfim,
atulhando, a estoirar, o profundo porão
diamantes de Golconda e rubins de Ceilão!

Guerra Junqueiro, in “ Pátria” 7ª edição, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1950

Festival de Poesia " Voix de la Méditerranée"

 De 16 a 23 Julho,   Lodève, no  Languedoc-Roussillon ( França), acollhe a 14ª edição de «Voix de la Méditerranée», um festival que declina a poesia em  todas as suas  formas num espírito de  partilha  e fraternidade.
«Voix de la Méditerranée» é um «festival público», como o designa o seu  director Frank Loyat : um festival aberto ao maior número de pessoas, para que cada um  possa apreciar  a poesia. Um festival que acompanha o mundo não só do ponto de vista da actualidade, mas também das novas tendências artísticas.
Criado em 1998 tem o alto patrocínio da Unesco e do Instituto do Mundo Árabe. O festival  cobre três áreas : a poesia, as vozes , o Mediterrâneo. Para Koichiro Matsuura trata-se de um  festival importante a favor da Paz, da Tolerância e do Diálogo entre Culturas.
Saiba mais:http://www.voixdelamediterranee.com/

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sobre a Poesia VII

Nesta 7ª edição de "Sobre a Poesia",publicamos um excerto de um excelente artigo do poeta Gastão Cruz sobre Eduardo Lourenço.

TESTEMUNHO
EDUARDO LOURENÇO: A HABITAÇÃO DO TEXTO
Por Gastão Cruz
“(…)A linguagem criada por Eduardo Lourenço para a aproximação aos poetas de quem fala, ou para a reflexão mais geral acerca da natureza da poesia, tem fortes afinidades com o modo como, no período moderno, alguns dos nossos principais poetas descreveram o seu ofício e o pensaram. Numa das primeiras páginas de Pessoa Revisitado, podemos ler o seguinte: “O poeta é aquele que escolheu ter um ser através da sua linguagem. Isso pressupõe que a Linguagem possa dizer o ser. Por essência a poesia nunca duvidou disso, ou duvidou afirmando-se através dessa dúvida.” Algum parentesco encontramos entre esta forma de falar do poeta e da poesia e, por exemplo, o texto, intitulado “Poética”, em que Eugénio de Andrade afirma: “O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação”. Também Sophia, numa das suas “Artes Poéticas”, diz: “A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. [...] Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.” Penso que, no Portugal do século XX, pouca gente escreveu sobre poesia como os próprios poetas. Melhor dizendo, poucos, além deles, falaram da poesia vivendo-a, isto é, habitando-a, para recuperar uma palavra, e uma ideia, de Eduardo Lourenço, que surge numa das entrevistas inéditas agora publicadas na revista Relâmpago. Referindo-se ao já aqui citado prefácio, de 1961, à Antologia de Eugénio de Andrade, posteriormente incluído em Tempo e Poesia, fala Eduardo Lourenço de “uma proposição da crítica do poético que não seja da ordem do explicativo, nem da perífrase, mas da osmose, quer dizer, uma viagem no interior do texto não para lhe acrescentar qualquer coisa mas para o habitar.” Penso que este conceito de crítica se afasta completamente do que é usual encontrarmos nos críticos de poesia, o que não quer dizer que não existam caminhos diversos para a abordagem do poema. Porém, este é absolutamente sedutor. E perigoso, na exacta medida do seu fascínio. É necessário, na verdade, alguém ter o génio literário de Eduardo Lourenço para se aventurar na via da criação de uma linguagem que, através da “osmose”, como ele nos diz, irá habitar o texto pré-existente, triunfando nessa forma de acesso ao seu cerne significativo profundo. É certamente neste sentido que se tem dito que o estilo ensaístico de Eduardo Lourenço, quando fala de poesia, é o de um poeta. E é também compreensível que ele recuse essa classificação. Num sentido técnico, digamos, o autor de Tempo e Poesia não é, de facto, um poeta. Todavia, a sua crítica é, muitas vezes, um texto poético. (…)“O poeta na cidade (hoje)”, agora publicados, ou, já em 1951, esse texto fundador da sua visão que é "Esfinge ou a poesia", de Eduardo Lourenço saído no primeiro número de Árvore,195. Essa visão da poesia harmonizava-se perfeitamente com a exaltada consciência de modernidade que ecoava nas páginas da revista, e particularmente nos poemas, nos ensaios e nas recensões críticas assinados por António Ramos Rosa. A concepção de uma poesia absolutamente livre, na sua intensidade criadora, conduzia à defesa de uma linguagem que se queria autónoma em relação à produção lógica do discurso normalizado. A Esfinge, como alegoria do fenómeno poético, representava o que se tornara essencial ao discurso da poesia moderna: a ambiguidade. Cito: “Espírito da Terra capaz de romper através da vida obscura da inércia animal para oferecer uma face de deus ao apelo universal da luz, a Esfinge ao mesmo tempo a realização plástica mais concreta do acto original do homem: a poesia. Chamaram-lhe misteriosa e enigmática. E ela não é senão ambígua.” E depois: “No espírito do seu criador, a Esfinge é uma resposta. A poesia é expressão de origens. Solicitado pela noite animal e a plenitude solar, um poeta talhou na rocha uma forma visível da sua condição. Compreender a Esfinge, compreender a poesia é olhá-la sem a tentação de lhe perguntar nada. É aceitar o núcleo de silêncio donde todas as formas se destacam. A obra vale pela densidade de silêncio que nos impõe. Por isso os poetas que imaginam dizer dizer tudo são tão vãos como as estátuas gesticulantes. Agora é fácil compreender como pôde nascer o mistério da esfinge. O enigma da poesia.” O paradoxal silêncio da poesia, a que vários poetas se referem, de Eugénio de Andrade a Ruy Belo, não é senão a estranheza que a poesia sempre manifesta perante a realidade e se transforma na própria substância do seu dizer: “É uma coisa estranha este verão.” – assim começa o poema “Ácidos e óxidos” de Ruy Belo. Diante do mundo, o poeta sente que a poesia é o próprio mundo e nada mais, que a linguagem poética mais não é que uma especial atenção às imagens que dele nos chegam e que essa atenção basta para o recriar. Disse-o Sophia, como já vimos, ao anunciar-nos que a poesia lhe pede “que viva atenta como uma antena”. Disse-o igualmente Carlos de Oliveira em versos que muitas vezes tenho citado: “levantar a torre do meu canto/é recriar o mundo pedra a pedra”. E disse-o ainda, é claro, Fernando Pessoa, nesse pequeno supremo poema sobre a natureza da poesia: “Ao longe, ao luar,/No rio uma vela,/Serena a passar,/Que é que me revela?//Não sei, mas meu ser/Tornou-se-me estranho”. A estranheza causada por uma simples e serena vela que “ao longe, ao luar” passa no rio é, na verdade, a essência mais absoluta da poesia, o “autêntico real absoluto” do aforismo de Novalis que antigamente encontrávamos como lema da colecção Poesia, da Ática, e Eduardo Lourenço, na entrevista a que já me referi, volta a convocar, dizendo que o toma à letra. Aquele “meu ser tornou-se-me estranho” é a essência da situação do poeta frente ao mundo, ou, como diria António Ramos Rosa, em “diálogo com o universo”. Ou ainda, como lemos em Vitorino Nemésio, “Nomeei as coisas e fiquei contente:/Prendi a frase ao texto do universo.” Essa estranheza, que deriva de uma maior atenção ao mundo, não é senão a consciência que advém de uma outra (e afinal a mesma) atenção (e note-se como “atenção” volta a ser aqui a palavra-chave): a atenção à vida que Fernando Pessoa afirma ter posto nos seus três principais heterónimos: “Por isso é sério tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos. Em qualquer destes pus um profundo conceito de vida, diverso em todos três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa de existir.” Para exprimir tal estranheza, de que a modernidade tomou certamente mais aguda consciência, e que já está, evidentemente, em Cesário – por isso ele é um poeta moderno – teria de ser inventada uma nova linguagem, ou melhor, novas linguagens, que marcam impressivamente toda a história (já podemos falar assim) da poesia portuguesa do século XX. Profundamente sensível a este vasto processo criador, Eduardo Lourenço sempre tem estado em consonância com ele, descobrindo a linguagem crítica que poderia, e pôde, “habitar”, como ele disse, esta poesia. O seu trabalho tem sido, importa sublinhá-lo mais uma vez, fundamental para o nosso conhecimento, não apenas dos poetas que estudou, mas da poesia em si, e da modernidade poética, em particular. Nenhuma obra crítica nos é tão essencial à compreensão do que mais importa no poderoso mundo poético que é o nosso – sobretudo o dos modernos, é claro, mas também o de outros que igualmente fascinaram Eduardo Lourenço: Camões, Antero. Porque é sempre de poesia que se trata. Termino, com estas palavras retiradas do ensaio “O poeta na cidade (hoje)”: “A poesia, quer dizer a longa trama dos poemas onde a humanidade a si mesma se construiu , a única arca de Noé que sobrevive a todos os dilúvios – não é a nossa maneira de nos evadirmos do que somos mas de nos apercebermos, embora em figura, como dizia São Paulo, de quem verdadeiramente somos. É uma barca de palavras, mas tem o poder de transfigurar o que é opaco e não humano naquela realidade que tem um sol no meio e chamamos vida, a nossa vida, a nossa única vida.”
Gastão Cruz, In TESTEMUNHO , EDUARDO LOURENÇO: A HABITAÇÃO DO TEXTO

quarta-feira, 1 de junho de 2011

E as crianças?

Num país onde todos os dias o desemprego aumenta, os abonos de família são cortados e duas em cada cinco crianças vivem em condições de pobreza, celebrar o Dia Mundial da Criança é decidir que os Direitos fundamentais têm de passar da palavra escrita  à palavra vivida.
Matilde Rosa Araújo deu-lhes forma justa e  poética. Recordá-los é obrigatório.


A Criança,
Toda a criança.
Seja de que raça for,
Seja negra, branca, vermelha, amarela,
Seja rapariga ou rapaz.
Fale que língua falar,
Acredite no que acreditar,
Pense o que pensar,
Tenha nascido seja onde for,
Ela tem direito…
… A ser para o homem a
Razão primeira da sua luta.
O homem vai proteger a criança
Com leis, ternura, cuidados
Que a tornem livre, feliz,
Pois só é livre, feliz
Quem pode deixar crescer
Um corpo são,
Quem pode deixar descobrir
Livremente
O coração
E o pensamento.
Este nascer e crescer e viver assim
Chama-se dignidade.
E em dignidade vamos
Querer que a criança
Nasça,
Cresça,
Viva…
…E a criança nasce
E deve ter um nome
Que seja o sinal dessa dignidade.
Ao Sol chamamos Sol
E à vida chamamos Vida.
Uma criança terá o seu nome também.
E ela nasce numa terra determinada
Que a deve proteger.
Chamemos-lhe Pátria a essa terra,
Chamemos-lhe antes Mundo…
…E nesse Mundo ela vai crescer.
Já sua mãe teve o direito
A toda a assistência que assegura um nascer perfeito.
E, depois, a criança nascida,
Depois da hora radial do parto,
A criança deverá receber
Amor,
Alimentação,
Casa,
Cuidados médicos,
O amor sereno de mãe e pai.
Ela vai poder
Rir,
Brincar,
Crescer,
Aprender a ser feliz…
…Mas há crianças que nascem imperfeitas
E tudo devemos fazer para que isto não aconteça.
Vamos dar a essas crianças um amor maior ainda.
E a criança nasceu
E vai desabrochar como
Uma flor,
Uma árvore,
Um pássaro,
E
Uma flor,
Uma árvore
Um pássaro
Precisam de amor – a seiva da terra, a luz do Sol.
De quanto amor a criança não precisará?
De quanta segurança?
Os pais e todo o Mundo que rodeia a criança
Vão participar na aventura
De uma vida que nasceu.
Maravilhosa aventura!
Mas se a criança não tem família?
Ela tê-la-á, sempre: numa sociedade justa
Todos serão sua família.
Nunca mais haverá uma criança só,
Infância nunca será solidão.
E a criança vai aprender a crescer.
Todos temos de a ajudar!
Todos!
Os pais, a escola, todos nós!
E vamos ajudá-la a descobrir-se a si própria
E os outros.
Descobrir o seu mundo,
A sua força,
O seu amor,
Ela vai aprender a viver
Com ela própria
E com os outros:
Ela vai aprender a fraternidade,
A fazer fraternidade.
Isto chama-se educar:
Saber isto é aprender a ensinar.
Em situação de perigo
A criança, mais do que nunca,
Está sempre em primeiro lugar…
Será o sol que não se apaga
Com o nosso medo,
Com a nossa indiferença:
A criança apaga, por si só,
Medo e indiferença das nossas frontes…
A criança é um mundo
Precioso
Raro.
Que ninguém a roube,
A negoceie,
A explore
Sob qualquer pretexto.
Que ninguém se aproveite
Do trabalho da criança
Para seu próprio proveito.
São livres e frágeis as suas mãos,
Hoje:
Se as não magoarmos
Elas poderão continuar
Livres
E ser a força do Mundo
Mesmo que frágeis continuem…
A criança deve ser respeitada
Em suma,
Na dignidade do seu nascer,
Do seu crescer,
Do seu viver.
Quem amar verdadeiramente a criança
Não poderá deixar de ser fraterno:
Uma criança não conhece fronteiras,
Nem raças,
Nem classes sociais:
Ela é o sinal mais vivo do amor,
Embora, por vezes, nos possa parecer cruel.
Frágil e forte, ao mesmo tempo,
Ela é sempre a mão da própria vida
Que se nos estende,
Nos segura
E nos diz:
Sê digno de viver!
Olha em frente!

« Os Direitos da Criança », de Matilde Rosa Araújo ,in” As Crianças, Todas as Crianças,”
Livros Horizonte, Lisboa, 1979.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

EUGÉNIO LISBOA

"Os homens verdadeiramente grandes estão muito próximos dos outros pela mesma simplicidade que os afasta até ao infinito. Porque os homens verdadeiramente grandes conservam, na sua relação com as coisas profundas e difíceis com as quais estabelecem sua intimidade, as mesmas atitudes que têm com toda a gente; são ao mesmo tempo familiares, delicados e verdadeiros."
Paul Valéry

Há pessoas que nos marcam e outras ficam de fora da  memória,  não  merecendo  qualquer referência laudatória. E se nos marcam é porque delas sobreleva uma imagem que nos tocou pela grandeza que difundiam e pela simplicidade verdadeiramente genuína que emanavam quando nos abordavam.
Ao longo da minha vida, conheci algumas dessas pessoas. Eugénio Lisboa faz parte desse círculo de gente maior que nunca esquecerei.
Conheci-o em 1996, como Presidente da Comissão Nacional da Unesco e ,apesar de ser um artífice da escrita que já há muito me deleitava e enriquecia, foi como responsável por essa Instituição em Portugal, que descobri a sua imensa capacidade de organização, de gestão e de motivação para as causas culturais e sociais.
EUGÉNIO LISBOA nasceu em Lourenço Marques , em 25 de Maio de 1930. É um crítico literário notável que se afirmou com independência e uma singularidade extraordinária. Poeta, ensaísta, escritor, diplomata, professor,Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nottingham, do Reino Unido (1988) e pela Universidade de Aveiro (2002), oficial da Ordem do Infante D. Henrique é detentor de uma jovialidade natural e de uma simplicidade que só os homens verdadeiramente grandes possuem. A facilidade de acesso ao seu contacto traduz a riqueza com que valoriza o outro e a sua relação com o mundo.
Numa entrevista concedida  á Revista "Artes e Letras", Porto, em 2010,  Eugénio Lisboa respondeu a algumas questões que lhe foram postas. Transcreve-se um pequeno excerto porque retrata a sua agudeza de espírito e o seu pensamento :
”AeL – As suas experiências cosmopolitas modelaram de alguma forma o seu pensamento?E.L. – Tenho, de facto, viajado muito e, sobretudo, vivido longamente em latitudes e longitudes diversas: tenho 38 anos de Moçambique, onde nasci, 17 de Inglaterra, 23 de Lisboa, um ano de África do Sul e um ano de Suécia. Isto ajuda poderosamente a um alargamento de perspectivas. Mas o cosmopolitismo não depende só – ou fundamentalmente – disto: está dentro de nós. Adolescente, em Moçambique, fui francês com Voltaire, Balzac, Stendhal, Anatole France ou Roger Martin du Gard, inglês, com Dickens, Charlotte Brontë, Wilde, D. H. Lawrence, Conrad ou Huxley, alemão, com Thomas Mann, italiano com Pirandello e D’Annunzio, romeno, com Panait Istrati, americano, com Mark Twain, Hemingway, Faulkner, Saroyan ou Steinbeck, russo, com Tolstoi, Dostoiewsky, Turguenev, Tcheckov ou Sologub. A filosofia, na adolescência, levou-me a Atenas, a Paris ou a Londres (e a mais de uma cidade na Alemanha e na Suíça...) Estive em Paris, sem estar em Paris e em Londres sem estar em Londres. O provincianismo é um estado de espírito e não uma consequência da geografia. Viajar ajuda mas não é tudo. Os lisboetas que olhavam de alto para a presença, porque esta se fazia em Coimbra, sofriam de provincianismo interior, aquele que de facto estreita perspectivas. Eugénio de Andrade não precisou, para nada, de viver em Lisboa, para ser o grande poeta que foi: bastou-lhe o Porto. Há provincianos em Nova Iorque e cosmopolitas em remotas terras do interior. Quando, em 1947, vim de Lourenço Marques para Lisboa, para cursar engenharia, eu, africano do cabo do mundo, achei que a maior parte dos meus colegas de curso era mentalmente e inacreditavelmente provinciana.
AeL – O que releva da sua experiência de Conselheiro Cultural?
E.L. – O gosto de fazer coisas e, também, o gosto de fazer coisas com alguém. E promover a cultura portuguesa, em Inglaterra, era, a um tempo, dificílimo e excitante. Os ingleses são exigentes, competitivos e rigorosos na negociação. Em Londres a competição é feroz. Podemos ter um grande produto a mostrar, mas é preciso publicitá-lo intensamente e isso custa dinheiro. Somos um país pobre, mas somos, sobretudo, um país em que os poderes políticos não gostam de gastar dinheiro com a cultura nem com os seus agentes que são, por regra, incómodos. É uma vergonha que o orçamento para a cultura ande ainda pelos mesquinhos 0,5% ou menos. E é uma vergonha para todos os partidos que têm estado no poder. Nisto, acabam sempre por ter a última palavra os detestáveis ministros das finanças, que percebem pouco de finanças e rigorosamente nada de cultura. Portugal não tem muito que lhe ajude a promover uma forte imagem: se despreza a cultura, despreza uma das mais poderosas influências subliminares que se conhecem. Ortega y Gasset escreveu, sobre isto, páginas admiráveis, que os nossos políticos evidentemente não leram. Ainda assim, promovi, em Londres, a tradução de clássicos antigos e modernos e a reedição de traduções já feitas mas esgotadas. Com o auxílio do meu amigo L. C. Taylor (director, ao tempo, da Gulbenkian, em Londres), fizemos uma boa sementeira editorial de que muito nos orgulhamos. Além de muitas outras actividades ligadas ao teatro, à pintura, à música, etc. Paralelamente à actividade propriamente profissional, viver em Londres 17 anos é um privilégio que só não publicito mais para não irritar os deuses
"AeL – Acha que as políticas editoriais têm um papel saudável na promoção cultural? E a comunicação social?
E.L. – Não sei bem a que se refere com “políticas editoriais”. Das editoras particulares? Quanto a isto, devia haver uma lei anti-trust, que impedisse que um grande grupo financeiro, que nada se interessa por livros, devorasse quase todo o mercado produtor e distribuidor de livros. O que se passa é quase obsceno. E mete medo. Entrar em quase 90% das livrarias causa náuseas: é o reino do mono-estilo, com a promoção sistemática e despudorada do que há de pior: o pimba, o piroso, o sensacionalão, o grande “best-seller” de lá de fora e de cá de dentro. O chover no molhado: promover, a grandes custos, o que por natureza da sua própria mediocridade já está promovido. Os grandes heróis dos editores e dos livreiros são os senhores-da-televisão-que-também-escrevem-livros e que despertam a concupiscência dos jovens e não tão jovens que sofrem de iliteracia aguda e por isso gostam de comprar os livros daqueles senhores e senhoras que aparecem muito no “petit écran”. A promoção via “petit écran” é, quanto a mim, um abuso de confiança. A comunicação social – televisão, jornais vários – faz como Deus é servido, quando Deus fica mal servido (roubo esta perfídia ao Pessoa – é para isso que servem os clássicos).
Eugénio Lisboa completa, hoje, 81 anos.Continua a cativar-nos com o seu dinamismo e a sua escrita prodigiosa.
Ao Presidente, ao poeta , ao professor, ao crítico, ao ensaista , ao homem afável, clarividente e valoroso apresento a minha homenagem .
Parabéns Engenheiro Eugénio Lisboa.


A Música das Cores
Ao Ângelo
A pintura; às vezes, sabe ser
uma forma de música: sugere,
no fluxo imparável do acontecer,
que a vida pode não acabar. Fere
o centro de nós mesmos. Amacia
e dissolve tensões que a vida impura,
em tantos momentos, cega, nos cria.
Como a música, é boa a pintura.
Eugénio Lisboa
Matéria Intensa
Lisboa, Instituto Camões, 1999


Algumas obras de Eugénio Lisboa:
José Régio
Crónica dos Anos da Peste
José Régio: A Obra e o Homem
José Régio: Uma literatura Viva
As Vinte e Cinco Notas do Texto
José Régio ou a Confissão Relutante
Objectivo Celebrado
Matéria Intensa
O Ilimitável Oceano
 Indícios de Oiro I
Indícios de Oiro II
Ler Régio
Essencial sobre José Régio

domingo, 22 de maio de 2011

Há Música ao Domingo

"Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara"
canta
Zeca Afonso em " Filhos da Madrugada" . E porque se trata de um  desafio exortador para este tempo crísico, ouçamo-lo e soltemos as amarras.



Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara.

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

Zeca Afonso

domingo, 1 de maio de 2011

Poemas à Mãe

Para Sempre
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade, in "Lição de Coisas"



Poema Cansado de Certos Momentos
Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar distâncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e não olhaste os pegos nem as cobras,
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
— e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?
Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"