O Túmulo da Múmia
( Dactiloscrito* , 17–18 de Maio de 1946, Lilly Library)
por Sylvia Plath
"Tinha vindo ao museu pesquisar sobre o Egito para o meu caderno de História. Passei pela enorme arcada e entrei na primeira das cinco salas que constituíam a coleção egípcia. As paredes altas pareciam húmidas e sombrias. A única coisa que iluminava a sala era a serena luz cinzenta de um dia de chuva. Sombras escuras espreitavam por trás das vitrinas e das estátuas, escondendo‑se nos cantos. Um cheiro bolorento dominava o ar gelado que me atravessava os ossos. Encontrava‑me sozinha neste memorial de tempos antigos. Os únicos pontos luminosos eram algumas tapeçarias desinteressantes. Nas vitrinas havia algumas joias danificadas do período egípcio. Junto a uma parede havia imponentes blocos de pedra, gravados com figuras grotescas. Fiz algumas anotações acerca do tipo de material usado na época egípcia, e passei depressa para a sala seguinte. Era inteiramente dedicada à cerâmica. Passei os olhos pela acumulação de obras tradicionais: as cores dominantes nos vasos eram o almagre, o verde‑água e o preto. As figuras representadas eram pintadas em cores contrastantes. Eram‑me familiares dos tempos da escola básica: rostos e pernas de perfil, busto e olhos de frente. A terceira sala continha apenas uma entediante quantidade de ferramentas e utensílios usados pelos egípcios. Listei alguns deles e passei para a quarta sala.
Nesta sala havia sobretudo cópias de mobiliário. Poucas peças verdadeiras enfeitavam as paredes.
A quinta sala, porém, fascinou‑me. As paredes estavam cobertas de velhos sarcófagos, e no centro deste misterioso lugar estendia‑se uma fileira de vitrinas baixas. Controlei o meu entusiasmo pelas múmias e aproximei‑me primeiro da fileira de mesas. O meu olhar distraído foi subitamente arrebatado por algo que brilhava no meio dos pendentes. Passou‑me pela cabeça que fosse um olho. Um olho humano! Costumo gabar‑me de possuir um temperamento calmo, resistente e curioso, mas naquele momento comecei a tremer por dentro e por fora. A roupa colava‑se‑me ao corpo, húmida de suor, ao mesmo tempo que um calafrio gélido me subia pelas costas. Enquanto tentava refazer os resquícios confusos daquilo a que gosto de chamar a minha compostura, li a legenda por baixo do olho. Era apenas feito de ágata! No entanto, sob o meu olhar frenético, tinha um aspeto gelatinoso, e a pupila parecia dilatar‑se ao fitar‑me.
Afastei‑me com alívio da vitrina e apressei‑me a ver os seis sarcófagos. Os primeiros cinco eram interessantes: tinham‑se soltado algumas lascas de tinta, o que lhes dava um agradável ar de antiguidade. Os rostos lisos e sérios desenhados no exterior dos sarcófagos olhavam diretamente para cima, como se tentassem ver além do pesado teto e obter um vislumbre dos céus soalheiros que não avistavam há tantos anos. Parei, espantada, em frente do sexto sarcófago. Dele saía um forte odor a carne putrefacta!
— É claro que não pode haver nenhuma múmia antiga aqui — disse para comigo.
De repente, ocorreu‑me uma ideia horripilante… mas era demasiado improvável, demasiado horrível, para ser concebida pela mente humana. Enquanto pensava nisso, ouvi passos furtivos atrás de mim. Virei‑me depressa.
Na minha cabeça, imaginei toda a espécie de espetros sangrentos. No entanto, senti‑me tranquilizada por uma risada rouca provinda do velhote enrugado ao meu lado ao perceber a minha surpresa. Disse‑me então:
— Estava a observá‑la de trás daquela coluna ali; vi‑a a admirar o globo ocular na vitrina. Parece real, não é?
O velhote soltou outra risada das suas e levou‑me de volta à vitrina. Senti que estava a ser impelida por algum feitiço invisível, inédito, tal como acontece em sonhos, quando estamos a ser perseguidos e não conseguimos mexer nenhum músculo. Impotente, vi o homem de cabelo branco tirar do bolso uma minúscula lupa, que colocou sobre o olho. Para meu terror, o olho mexia‑se e fitava‑me lastimosamente à medida que o homem deslocava a lupa sobre o horrível órgão. Fui‑me embora em bicos de pés, depois de lançar um olhar furtivo à figura curvada, ainda alegremente absorta no seu bizarro jogo.
Durante toda a noite, fui assombrada por ideias terríveis. Não conseguia adormecer, porque visões assustadoras de olhos líquidos e múmias vivas desfilavam diante de mim. Tentei convencer‑me de que o facto de o olho ser real não passava de uma invenção do velhote, mas foi em vão.
Ainda estava a chover, quando os primeiros sinais da madrugada surgiram no horizonte. Acordei e vesti‑me. Depois comecei a refletir sobre a melhor estratégia a seguir. Não era altura para gestos imprudentes. Às cinco e meia da tarde o museu fechava, e eu não poderia escapar ao sensor fotoelétrico. Tive, então, uma ideia: se ao menos resultasse! Entretanto já eram oito e meia, por isso tomei o pequeno‑almoço com a dona da pensão e fui de seguida ao First National do bairro, onde comprei um pão e um frasco de manteiga de amendoim. Quando regressei ao quarto, preparei quatro sandes de manteiga de amendoim e embrulhei‑as em papel de cera antes de as colocar num saco de papel. Pus também de lado um chapéu de abas largas e um guarda‑chuva. Às quatro horas, peguei nas sandes e no guarda‑chuva, pus o chapéu na cabeça, puxei a gola do casaco para cima e apanhei o autocarro das 4h10 para o museu.
Quinze minutos depois, ao subir a escadaria de mármore, constatei que o museu estava vazio, com exceção de dois ou três guardas. Não havia ninguém por perto, quando passei pelo sensor fotoelétrico. Peguei, então, no guarda‑chuva e passei‑o pelo sensor como se alguém estivesse a sair. Levantei o útil guarda‑chuva e percorri os longos e escuros corredores do museu. Ninguém me conseguia ver na escuridão cerrada, mas (engoli em seco) eu também não conseguia ver ninguém. Não tinha lanterna! Esquecera‑me talvez da coisa mais importante. Com cuidado, atravessei depois o átrio que ia dar à sala egípcia. Encontrei um banco num canto escuro da entrada. Ali me deitei, tremendo de excitação. Devorei com fome as sandes e adormeci logo.
Não sei durante quanto tempo me agitei no meu sono perturbado ou o que me terá acordado, mas sentei‑me e fui, então, surpreendida por um débil raio de luz que atravessava a noite escura como uma faca. Vinha da sala egípcia, da zona do túmulo da múmia! O pungente cheiro a carne podre chegou‑me de novo às narinas. Entrei às escondidas na sala. O que ali vi deixou‑me paralisada de horror. Sentia o corpo dormente, e só conseguia observar de forma impotente as ações quase inconcebíveis praticadas por um monstro desumano, desprovido de sanidade.
A luz da vela acesa no túmulo tremeluzia ao sabor das correntes de ar, projetando sombras assustadoras na parede. Essa luz permitiu‑me entrever as feições loucas do empregado de cabelo branco que já tinha conhecido — na véspera. Carregava um corpo vivo, enfaixado em ligaduras brancas, com aberturas apenas nos olhos e no nariz. A figura soltava gemidos abafados e contorcia‑se. O empregado abriu depois o quinto sarcófago, ao lado daquele de onde vinha o peculiar cheiro. Para meu horror, vi que a metade de cima se abria como a tampa de um caixão e estava revestida de espigões compridos e afiados: decerto para torturar a vítima aprisionada! O empregado deitou, então, a criatura humana na caixa, mas não a fechou. Aproximei‑me aos poucos, colada às sombras na parede. O empregado pegara, entretanto, numa colher afiada e inclinava‑se para arrancar os olhos da vítima aterrorizada, quando me viu aparecer. Reconheceu‑me!!
— Ah! — comentou, lançando‑me um olhar de soslaio. — Conseguiste fugir ontem, mas hoje vai ser diferente. Vou abafar os teus gritos de angústia e deixar‑te esvair em sangue numa agonia terrível. Tens de ir ao encontro dos deuses egípcios. Vou cortar‑te devagar os olhos e endurecê‑los antes de os expor na vitrina.
Quando avançou na minha direção, bati‑lhe com o guarda‑chuva e ele caiu inanimado no chão com um baque surdo. Demasiados anos naquela silenciosa câmara de tortura tinham‑lhe enfraquecido o coração e enlouquecido os sentidos. Soltei a rapariga, que desmaiara com o susto, e amarrei o empregado com o generoso rolo de gaze e fita adesiva. Depois percorri os corredores já familiares que iam dar ao escritório do museu, onde telefonei à polícia para contar que tinha descoberto a rapariga desaparecida, cuja fotografia fora publicada em todos os jornais, bem como o louco raptor e futuro assassino. Quando regressei à fatídica sala para tranquilizar a rapariga restabelecida, o estrépito das sirenes policiais já fustigava o ar.
Na manhã seguinte, acordei por volta das dez horas com o telefone a tocar e atendi sonolentamente, pois ainda sentia o corpo dorido e uma dor de cabeça fortíssima. Era o chefe da polícia, que me contou que o empregado tinha confessado um assassinato e uma tentativa de assassinato antes de cair morto com um segundo ataque cardíaco. O chefe da polícia também me disse que o pai da rapariga me ia dar uma grande recompensa. Sorri ao lembrar‑me dela e disse ao chefe da polícia para agradecer ao pai em meu nome, mas para lhe dizer que guardasse a recompensa. Depois de desligar, voltei para a cama, mergulhando de imediato num sono tranquilo, liberto de sonhos."
Sylvia Plath, in Prosa Reunida , Relógio D'Água Editores, 20.07.2026, pp.37- 40
Nota:
* Embora o dactiloscrito tenha sido datado de 17 de Maio de 1946 por SP, o seu diário inclui a seguinte passagem escrita a 18 de maio de 1946: “Depois do almoço, ambas escrevemos contos. Eu comecei um assustador policial (a roçar até o mórbido) intitulado ‘O Túmulo da Múmia’. Depois do jantar, deitámos as crianças e fomos então para o quarto da Margot, onde terminámos os nossos respetivos contos e pusemos em dia os nossos diários.” SP escreveu sobre um tema semelhante a este conto numa carta para Margot Loungway Drekmeier, a 17 de Novembro de 1945, publicada em The Letters of Sylvia Plath, Volume 1. Uma cópia hológrafa de “O Túmulo da Múmia” foi vendida através da Bonhams a 11 de Novembro de 2015. A Peter Harrington Rare Books pôs à venda a mesma cópia em março de 2023.
Sobre o livro
"Este livro reúne, pela primeira vez num único volume, a escrita em prosa de Sylvia Plath, uma das vozes mais intensas e intransigentes da literatura do século XX
São textos que revelam uma observadora implacável do quotidiano, permitindo ao leitor entrar na mente da autora e nas fissuras que a atravessam.
Nestas páginas reconhecem-se os temas que fariam de Plath uma autora incontornável, desde Sa identidade ao corpo, passando pelo desejo de controlo e a fragilidade da consciência. Lê-las é entrar na vida de uma autora que escreve como quem testa os limites da linguagem e, por vezes, da própria vida.
«Ver reunida sob uma mesma capa uma tão vasta parte da ficção e do jornalismo de Plath, bem como tantos dos seus ensaios e recensões, é voltar a surpreender-se com a amplitude da sua visão, ambição e talento. Um enorme acontecimento literário e um recurso de valor inestimável.» [Times Literary Supplement]
«Sylvia Plath não foi apenas uma grande poeta; foi também autora de algumas das melhores páginas de prosa do século XX. Escreveu cartas de um engenho e de uma vivacidade extraordinários. A sua publicação constitui um grande acontecimento literário.» [The Times]
«Tal foi o impacto da exploração por parte de Plath — tanto das paisagens interiores como exteriores, numa linguagem de intensidade vertiginosa, brutal e lírica —, que a sua perda para o mundo literário tem sido lamentada desde então.» [Financial Times]
Sobre a autora
"Sylvia Plath nasceu em Boston, Massachusetts, a 27 de Outubro de 1932. Teve uma breve, intensa e agitada vida, tendo escrito poesia, um romance, contos e um diário.
O pai, Otto Plath, de origem alemã, trabalhava como professor de Biologia na Universidade de Boston, onde conheceu e casou com uma sua aluna, Aurelia, a mãe de Sylvia.
Em 1935, nasceu o segundo filho do casal, Warren. No rescaldo da Grande Depressão, a família deslocou-se em 1936 para Winthrop, Massachusetts, onde Sylvia passaria a maior parte da sua infância.
Aos oito anos, Plath publicou o seu primeiro poema na secção infantil do Boston Herald. Otto Plath morreu pouco depois dessa publicação (Sylvia haveria de escrever sobre a ambígua relação que tinha com ele o poema «Daddy»).
No seu primeiro ano no Smith College, Plath tentou suicidar-se com uma overdose de narcóticos, o que levou ao seu internamento numa instituição psiquiátrica. No verão do seu terceiro ano de estudos universitários, Sylvia Plath deslocou-se um mês para Nova Iorque, colaborando na revista Mademoiselle.
Nada disso a impediu de ser uma estudante brilhante, formando-se com louvor aos 23 anos. Obteve mesmo a bolsa Fulbright para frequentar a Universidade de Cambridge, em Inglaterra, onde continuou a escrever poesia. É então uma jovem mulher de maneiras educadas e espírito rebelde.
Em Fevereiro de 1956, conheceu, na festa de lançamento da St. Botolph’s Review, o poeta Ted Hughes, com quem casaria quatro meses depois. É um encontro fusional e de uma intensidade fulgurante.
Entre Julho de 1957 e Outubro de 1959, o jovem casal viveu nos Estados Unidos, tendo acabado por se fixar em Boston, onde Sylvia Plath assistiu aos seminários de Robert Lowell e conheceu a poeta Anne Sexton. Atravessando dificuldades materiais, Sylvia tem mesmo de trabalhar num hospital psiquiátrico.
Com a gravidez de Sylvia Plath, o casal regressa a Inglaterra, em 1959, fixando-se em Londres e mais tarde na pequena cidade de North Tawton, no Devon. Em 1960, nasce Frieda e, dois anos depois, Nicholas. O primeiro livro de poemas de Sylvia Plath, The Colossus, é publicado em Inglaterra em 1960 e, dois anos depois, nos Estados Unidos. Em Fevereiro de 1961, Plath sofre um aborto, que seria um tema recorrente em vários dos seus poemas.
No início dos anos 60, a relação com Ted Hughes entra em crise, sobretudo devido à relação deste com Assia Wevill (Ted Hughes daria a sua versão do que se passou em Cartas de Aniversário, e Assia, esposa de um poeta canadiano, haveria de se suicidar com a filha em 1969). O casal separa-se em finais de 1962. É no inverno que se segue à separação e num período depressivo que Sylvia escreve Ariel.
Plath regressa a Londres com os filhos, alugando um apartamento em Fitzroy Road, onde escreveria um romance semiautobiográfico, The Bell Jar, sob o pseudónimo de Victoria Lucas. Sente-se isolada e deprimida.
Na manhã de 11 de Fevereiro de 1963, nevava sobre Londres e o frio era intenso. Sylvia Plath suicida-se com o gás do fogão, tendo antes tido o cuidado de proteger os filhos."




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