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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Desconstruir o discurso apocalíptico

"Há a luz e há as luzes, as luzes da razão ou do logos, que não são, apesar de tudo, outra coisa. E é em nome de uma Aufklarung que Kant, por exemplo, tenta desmitificar o tom senhorial. Nos dias de hoje não podemos deixar de ter herdado dessas Luzes, nós não podemos e nós não devemos, é uma lei e um destino, renunciar à Aufklarung, ou dito de outra maneira , àquilo que se impõe como o desejo enigmático da vigilância, da vigília lúcida , da elucidação, da crítica e da verdade, mas de uma verdade que ao mesmo tempo encerra em si o desejo apocalíptico, desta vez como desejo de claridade e revelação, para desmitificar ou, se preferirem, para desconstruir o próprio discurso apocalíptico e com ele tudo o que especula sobre a visão, a iminência do fim, a teofania, a parúsia, o juízo final. Então, de cada vez, nós perguntamo-nos teimosamente onde querem chegar, e a que fins, aqueles que declaram o fim disto ou daquilo, do homem ou do sujeito, da consciência, da história, do Ocidente ou da literatura, e as últimas novas sobre o próprio progresso cuja ideia nunca foi tão mal suportada da direita à esquerda. Que efeitos querem produzir esses gentis profetas ou esses eloquentes visionários? Em vista de que benefício imediato ou futuro? O que fazem eles, o que fazemos nós, ao dizer aquilo? Para seduzir ou submeter, intimidar ou dar satisfação, a quem? Estes efeitos e estes benefícios podem ser relacionados com uma especulação individual ou colectiva, consciente ou inconsciente. Podem ser analisados em termos de domínio libidinal ou político, com todas as articulações diferenciais e, portanto, com todos os paradoxos económicos que sobredeterminam a ideia de poder ou de domínio e por vezes as conduzem ao abismo. A análise lúcida destes interesses ou destes cálculos deve mobilizar um grande número e uma grande diversidade de dispositivos interpretativos hoje disponíveis. Ela deve-o e ela pode-o, pois a nossa época talvez seja sobrearmada neste particular; e uma desconstrução, se não se detém aí, nunca se faz apesar disso sem um trabalho segundo sobre o sistema que junta esse sobrearmamento a si próprio, que articula , como se diz , a psicanálise com marxismo ou com qualquer nietzscheísmo, com os recursos da linguística, da retórica ou da pragmática, com a teoria dos speech acts, com o pensamento heiddeggeriano sobre a história da metafísica, a essência da ciência ou da técnica. Uma tal desmistificação deve sujeitar-se à diversidade mais sofisticada das manhas apocalípticas. O interesse ou o cálculo podem aí ser dissimulados sob o desejo de luz, bem escondidos (eukalyptus, como dizemos da árvore cuja fímbria caliciada permanece fechada após a floração), bem escondidos sob o desejo declarado de revelação. E uma dissimulação pode esconder outra. O mais grave, pois agora é interminável, o mais fascinante, respeita a isto: o sujeito do discurso escatológico pode ter interesse em renunciar ao seu interesse, ele pode renunciar a tudo para colocar ainda a sua morte nos vossos braços e fazer-vos herdar por antecipação o seu cadáver, ou seja , a sua alma, esperando chegar assim aos seus fins pelo fim, a seduzir-vos imediatamente prometendo-vos proteger a vossa guarda na sua ausência."
Jacques Derrida, in " De um tom apocalíptico adoptado há pouco em Filosofia", Editora Vega, Passagens

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Ética, Sofrimento e Vida


A Ética e o sofrimento na perspectiva da neuro-biologia humana moderna
"A relação entre o cérebro e os desempenhos especificamente humanos foi suspeitada desde a antiguidade clássica, aflora em alguns filósofos como uma verificação de facto, mas é prejudicada pelo total desconhecimento da estrutura e do funcionamento do sistema nervoso central, nesses tempos antigos.
Na cultura hebraica os desempenhos especificamente humanos eram atribuídos a uma acção de Iavé, descrita como uma insuflação nasal, que se distribui por todo o corpo do homem, dando-lhe capacidades que o simples sopro vital não conferia aos outros seres vivos. Ao assinalar esta diferente intervenção de Iavé sobre os seres vivos criados a narrativa bíblica fixa, por escrito, o conceito, já presente durante todo o período mítico-oral, da diferença entre os seres vivos, humanos, e os outros animais. Esta noção encontra-se registada em textos de outros povos da Mesopotânia, contemporâneos da bíblia hebraica, fazendo parte integrante do mito fundacional e da relação entre o ser humano e a transcendência.
David Abram no seu notável e profético livro “The spell of the sensuous”, dá uma rigorosa interpretação dos termos usados na escrita do Génesis, que vou comentar porque nos introduz, directamente, na questão central da minha breve apresentação e que é a da relação entre cérebro e os desempenhos humanos que lhe são específicos.
Diz David Abram que os hebreus tinham a mesma palavra para significar espírito e vento que era a palavra ruach. O carácter primordial de ruach e a sua íntima associação com o divino torna-se evidente logo no início do texto bíblico quando este refere que “antes de serem criados o céu e a terra e tudo estava vazio e escuro, a presença de Deus era assinalada pelo ruach (vento ou espírito) sweeping over the water. A Bíblia em língua portuguesa, dos Frades Capuchinhos, diz “o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas” (Gen. 1-2).
David Abram que é um especialista das mitologias dos índios Navajos encontrou nestes o mesmo carácter primordial do ar em movimento. Cito “O vento existia primeiro e quando a Terra começou a existir o Vento tomou-a a seu cuidado”.
Por causa deste duplo valor semântico da palavra ruach, vento e espírito, a respiração é considerada como a mais íntima e elementar forma de ligação entre os humanos e o divino, flui directamente entre Deus e o Homem e é desse fluir que resulta a vida. Mas, ao referir-se ao ser humano, o texto bíblico não usa ruach, que deve entender-se como espírito de vida em geral, mas usa neshamah para significar um aspecto mais pessoal e individualizado do vento, do ar inalado por uma determinada pessoa. Neste sentido neshamah significa a percepção individual ou seja a consciência perceptiva. Recebida de Iavé (Gen. 2-7)
Devo ainda referir que as raízes gregas e latinas das nossas palavras actuais relacionadas com a consciência, como alma, espírito e psique, são todas relativas a sopro, a vento, a ar, a respiração. “Spiritus spirit ut vuld”, o Espírito sopra onde lhe apraz.
Esta noção de que a consciência perceptiva humana é um mistério de origem divina expandiu-se durante séculos pelos países de tradição hebraico–cristã e era algo em que não se devia tocar porque seria entrar no âmago sagrado da relação entre Deus e os homens e, portanto, seria como que um sacrilégio.
Por isso quando Augusto Comte, proclamou, como sequência da sua famosa teoria dos três estados, que “o cérebro segrega o pensamento, como o fígado segrega a bílis” suscitou uma reprovação quase universal.
Acresce que, já no século XIX e depois no século XX, o progresso no conhecimento científico da estrutura e das funções dos nossos outros órgãos permitiu construir uma imagem corporal cientificamente coerente e biologicamente exacta. O cérebro, porem, continuava fechado à investigação como se o mistério da consciência perceptiva inibisse a intervenção da consciência cognitiva.
Foram as descobertas absolutamente seminais de Ramón y Cajal, no plano da morfologia microscópica do cérebro, que permitiram criar um novo paradigma e abrir o cérebro a uma investigação científica, primeiro descritiva, que foi fundamental, e depois morfo-funcional, atingindo na última década, chamada a década do cérebro, um tal volume de artigos científicos publicados que leva a considerar as neuro-ciências como o maior campo de investigação científica moderna.
A mudança de paradigma provocada por Ramón y Cajal, mudança que, mais tarde, Kühn havia de considerar como o verdadeiro motor do progresso científico, resultou da observação de Cajal de que as células que constituíam o cérebro eram células livres que comunicavam entre si por longos prolongamentos interconectados.
Deste novo paradigma morfológico nasceu um novo paradigma funcional: as actividades cerebrais não resultam da acção directa de uma célula ou grupo de células mas sim da rede que entre si todas as células nervosas constituem. Esta nova concepção e o aparecimento de equipamentos, - para além do velho electro-encefalograma que já foi um progresso – de equipamentos que permitiram conhecer, e ver, o tempo e o modo das activações das redes neuronais, constituem, hoje, um vastíssimo acervo de conhecimentos da neuro-fisiologia da percepção sensitiva e sensorial.
E, depois, a descoberta das moléculas químicas que percorrem as redes neuronais, activando-as e desactivando-as, tornou possível intervir sobre o funcionamento cerebral, inibindo-o ou estimulando-o, e compreender o mecanismo de certas alterações comportamentais como o agora tão falado síndroma de hiperactividade infanto-juvenil ou a depressão ligeira.
Mas será que há, já, uma compreensão neuro-biológica do sofrimento?
(…)Então, tudo começa com um estímulo que atinge o sistema perceptivo, sensitivo, sensorial e extra-sensorial – um rosto, um som, um odor, uma palavra, uma picada, um corte, um esmagamento, o frio, o calor, a pressão atmosférica, que sei eu – e que gera uma percepção neuronal, em regra complexa, à qual se segue uma representação: pela emoção, pela consciência da emoção, pela coloração afectiva e pela análise racional.
(…)A palavra dor é simultaneamente o nome da emoção e a designação do sentimento que provoca.
A análise afectiva do sentimento, efectuada pelo que Goleman chama inteligência emocional, e a análise racional, finalmente efectuada pela inteligência reflexiva e simbolizadora, dão uma ampla interpretação ao sentimento dor e preparam-no para ser arquivado na memória consciente como sofrimento, com carga afectiva negativa – isto quando o sentimento não se furtou a ambas as análises e foi aninhar-se, rapidamente, na sub-consciência, porque então tudo pode complicar-se no futuro.(…) Damásio também reconhece que a construção do que chama consciência nuclear tem um suporte neuro-biológico – que é todo o mecanismo da percepção externa ou interna e consequente geração de imagens, sem palavras; mas, ao tentar subir para a compreensão da consciência nuclear, usa a metáfora da cartografia cerebral para dizer que as percepções dos objectos levam à constituição de mapas próprios que interagem com os mapas corporais gerando imagens mentais que pertencem à categoria dos sentimentos.
Para que, em cada ser humano, se manifeste a consciência do mundo objectual e a consciência do eu que conhece, do self, do soi même, afinal da auto-consciência é preciso um cérebro humano normal e progressivamente estimulado desde a vida intra-interina, cérebro que o eu, constituído por um processo que nos é, ainda hoje, totalmente desconhecido, possa usar, gerando, por sua vez, uma realidade virtual a que tenho chamado autobiografia.
Ora é este ser auto-biográfico que tem conteúdos conscientes, memorizados e evocáveis, e conteúdos sub-conscientes, que vai usar a qualidade ética da sua inteligência para defrontar o sofrimento.
A categoria ética da inteligência permite ponderar valores pessoais para decidir. E os valores não são mais que conteúdos da autobiografia de cada um, chamados ao campo da auto-consciência, para que a inteligência emocional e racional os avalie, ponderando a sua carga afectiva e o seu peso heurístico. As percepções ao serem arquivadas como valores, constituem, em cada pessoa, a sua experiência de vida e são estruturantes da autobiografia.
Um faquir indiano que se deita em cima de uma cama de pregos aguçados para poder ganhar o sustento diário, tem dor, por estímulo neuronal, mas não tem sofrimento, por decisão ética, tomada livremente na sua auto-consciência.
(…)Pelo contrário. É possível construir, no campo da auto-consciência, um sofrimento imenso, sem nenhuma dor física, sempre que a ponderação ética dá o primado a valores autobiográficos negativos, destruidores, mesmo catastróficos, conscientes ou que emergiram subitamente da sub-consciência e ocuparam todo o espaço do campo virtual onde tudo, afinal, acontece.
A capacidade ética de lidar com o sofrimento depende, portanto, da experiência de vida de cada um.
As terríveis imagens de sofrimento silencioso das crianças africanas com fome e das mães, de peito seco e sem nada para lhes darem, comparadas com as das crianças que nos bons e caros restaurantes deitam a comida fora, fartas e com a complacência das mães, entretidas com bisbilhotices, dão-me para acreditar que a experiência de vida, a autobiografia, condiciona a resposta ética ao sofrimento pessoal.
E nós, que nos consideramos bem equipados com os valores sociais, os grandes pilares da ética social, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a dos Direitos das Crianças, o que é que somos capazes de fazer pelo sofrimento dos outros?
Esta é, para mim, a pergunta-chave, a pergunta radical num debate sobre ética, sofrimento e vida."
Daniel Serrão,in XIX Encontro de Filosofia – Coimbra, 10 de Fevereiro de 2005

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Pessoa Humana, realidade completa

"A pessoa é um fim em si mesmo e não o final de si mesma, uma realidade ontológica digna ,um fim em si e nunca um meio.
O ser humano é pessoa integral: corpo com dimensão material e dimensão espiritual, que ocupa tempo e espaço limitado. Pode afirmar-se que, simultaneamente, a pessoa tem um corpo e é um corpo; sobretudo é um ser corporal. É um corpo vivido, em que “a relação de si passa necessariamente pela relação no outro”. Como o corpo é relacional, já que faz parte da constituição do homem e este tem consciência de si perante si e perante os outros, é-lhe conferida a conotação do homem como ser possuidor de inteligência, memória e vontade. “ Pela inteligência , a pessoa está aberta à universalidade do ser; pela vontade, está aberta à universalidade do bem”.
Para Aristóteles, “ o corpo não é um simples mecanismo mas um ente dotado de sentido, que tem o seu fim e o seu centro de gravidade em si mesmo e que só se compreende a partir de si próprio e da sua função.”É também uma entidade “entre” a consciência e o mundo, marcado pelas coisas que passaram no mundo da consciência; “ É pelo meu corpo que compreendo o outro, assim como é pelo meu corpo que percebo as coisas.” Existe uma totalidade relacional com os outros, com o mundo, com os vários orgãos, todos importantes, que constituem esse corpo.
Para Descartes ( séc.XVII ),o corpo é como que um conjunto do eu corporal com a alma ,localizando-se esta numa parte do corpo que corresponde ao lugar do pensamento e da liberdade. Na era contemporânea , atribuiu-se ao ser humano a noção de unidade , como visão holística, opondo-se à anterior e reducionista divisão em corpo e alma.
O corpo é o elemento intrínseco à existência do ser humano, é a identidade da pessoa e corresponde à sua parte visível. É também expressão de uma realidade vivida, da sua experiência que passa no mundo e pelo mundo, sendo a única para cada ser humano; a sua personalidade e a sua individualidade passam através do corpo. No entanto, o corpo é habitado por uma consciência, sendo esta que o caracteriza como pessoa; é finito, cresce e desenvolve-se de acordo com a experiência que cada um faz de si mesmo, vivido num mundo concreto, envolvido num conjunto de encontros com os outros eus e que é capaz de se referir a si mesmo e de se abrir com os outros. É com ele e através dele que se constrói a sua história ao longo do tempo, que se forma a identificação pessoal desse corpo; é uma dimensão natural do eu e, por ele , o ser humano é mortal. Mesmo depois da morte, o corpo representa a experiência, uma vida que foi vivida, a relação como mundo a que correspondeu esse mesmo corpo. Como ser de relação que é, o homem é pessoa.
Uma das definições mais comuns de pessoa, é a de Boécio, que a denomina como “ substância individual de natureza racional”, isto é, o indivíduo concreto, como ser único e individual.
A palavra pessoa deriva do grego prosôpon, que significa máscara, o que desempenha um papel, que constrói uma personagem. Cada pessoa constrói o seu caminho percorrendo-o, correspondendo a um processo dinâmico de construção da personalidade pelo agir e através da sua relação com o outro. É um ser que comunica sempre com o outro, até mesmo através de uma linguagem a que podemos chamar de não-falante porque o corpo, com a sua expressão comunica sempre , reflectindo para o exterior o seu estado interior.
O homem é um ser natural como todos os outros seres vivos mas, como homem tende para um fim feliz ( para a perfeição), tem uma característica muito própria – é um ser pensante e racional, porque tem uma consciência. O homem tem consciência de si, sabe como actuar para atingir o seu fim e é também essa consciência que o torna distinto de outros seres. A racionalidade e a liberdade são as características mais especificas do ser humano; sabe objectivar e tirar conclusões, enquanto que os outros animais não, necessitando contudo do “outro” para a sua realização e para a sua sobrevivência. Assim, só ele pode conhecer, compreender, prever e modificar o mundo que o rodeia . “ O homem está no mundo , é no mundo que ele se conhece” e, “ devido à sua natureza espiritual e relacional, tem capacidade de conhecer o bem e o mal: de apreciar a superioridade do bem verdadeiro sobre esse bem aparente e enganador que é o mal”
O corpo é o” lugar” e o “meio” do encontro da consciência e do mundo à sua volta. No entanto, o corpo próprio não é apenas cognitivo mas também afectivo; por isso o mundo, isto é, as coisas e os outros que estão perante nós ou abertos a cada um pela sua própria consciência , é sempre um mundo co-determinado pela afectividade e que, enquanto ser, enquanto corpo sujeito, tem necessidades e exige atenção por parte do outro.
Todas as pessoas devem ser tratadas com o respeito e a dignidade moral que todo o ser humano merece, pelo mero facto de ser pessoa – a raiz da dignidade humana advém da realidade de ser considerado como pessoa e não como instrumento." Isabel Renaud

segunda-feira, 28 de março de 2011

O conceito de Bem Viver


"O conceito de Felicidade Nacional Bruta adoptado desde os anos 1970 no Butão, pequeno reino encravado na cordilheira do Himalaia, entre a China e Índia, define que o princípio básico para garantir a felicidade é que a economia esteja a serviço do bem-estar da população. Isso é bem diferente do que se viu na recente crise económica mundial, quando inimagináveis quantias de dinheiro público - suficiente para acabar com a pobreza e a exclusão social no mundo periférico - foram aplicadas pelos países capitalistas centrais para evitar a quebra de grandes empresas privadas, em nome da manutenção da produção, da virtual garantia de empregos e da sobrevivência do sistema. Como tudo isso tem a ver directamente com a qualidade de vida e a sobrevivência das pessoas, parece ser apropriado que a Bioética, nos próximos anos, comece a aprofundar debates que incorporem as relações entre bioética e política proposta pela “Bioética de Intervenção”, e o conceito de Biopolítica desenvolvido por Michel Foucault.
Uma contribuição interessante originada na América Latina e que traz novidades no debate contemporâneo sobre “desenvolvimento” é o conceito de Bem Viver, antiga filosofia de vida das sociedades indígenas da região andina, especialmente da Bolívia, que já a incluiu na sua Constituição. Nesse conceito não contam tanto as riquezas, ou seja, as coisas que as pessoas produzem, mas o que as coisas produzidas proporcionam concretamente para a vida das pessoas. Na formulação da Filosofia do Bem Viver não são levados em consideração apenas os bens materiais, mas outros referenciais como o conhecimento, o reconhecimento social e cultural, os códigos éticos e espirituais de conduta, a relação com a natureza, os valores humanos, a visão de futuro...
De acordo com esse contexto, a economia deve-se pautar por uma convivência solidária, sem miséria, sem discriminações, garantindo um mínimo de coisas necessárias para a sobrevivência digna de todos. O Bem Viver expressa a afirmação de direitos e garantias sociais, económicas e ambientais. Todas as pessoas têm igualmente o direito a uma vida decente que lhes assegure saúde, alimentação, água limpa, oxigénio puro, moradia adequada, saneamento ambiental, educação, trabalho, emprego, descanso e ócio, cultura física, vestuário, aposentadoria, etc.
Todas estas ideias têm relação directa com a Bioética que vários grupos de estudo e pesquisa latino-americanos comprometidos com a realidade sócio-cultural dos seus países haviam começado a produzir na região já nos anos 1990. Tal processo original de caminhada académica e construção científica se revelou acertado quando, em Outubro de 2005, com o apoio unânime de 191 nações e a participação decisiva dos países da América Latina, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO - homologou a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos(1). O referido documento - o mais importante já produzido mundialmente sobre Bioética - politizou definitivamente a agenda internacional deste “novo território do saber” (no dizer de Francesco Bellino), incorporando à sua pauta praticamente todas as questões relacionadas com o contexto de Bem Viver.
Em Novembro de 2009 a UNESCO promoveu na Cidade do México a 16ª. Sessão do International Bioethics Committee - organismo composto por membros de 36 países e que tem a mais expressiva representatividade e legitimidade mundial da área de Bioética. A referida reunião reconheceu formalmente a paternidade da América Latina com relação à inclusão - na Declaração Universal de Bioética acima referida - das questões sanitárias, sociais e ambientais na nova agenda bioética do Século 21." Por Volnei Garrafa, Editor Chefe – RBB,2009
(1) consultar publicação do Blog de 2/09/2009

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Viajar, a explosão dos sentidos

Para Michel Onfray  "viajar pressupõe a confusão de todos os sentidos". O seu livro,  "Teoria da Viagem – uma poética da geografia", é um  ensaio sobre a ontologia da viagem, enquanto percurso de um  "eu". De acto iniciático à poética do eu  , as páginas somam-se  em extraordinárias reflexões sobre as diversas etapas daquele que se dispõe e se abre à viagem.
Sendo o Sábado, um dia que propicia o desejo de viajar e o tempo para a leitura, vamos recuperar algumas passagens deste livro, publicado em Portugal, em Abril de 2009. 
Onfray constroi todo o texto tentando dar respostas a questões tão simples e seculares como estas: "Por que somos impelidos para o movimento constante, a deslocação - ou amamos o imobilismo e as raízes? Por que mantiveram alguns povos a sua marcha permanente, atravessando continentes? E por que se dedicaram outros a um só lugar, onde cuidaram dos seus campos? A energia que anima estas diferentes formas de vida, estes dois arquétipos, é a mesma que anima o resto do universo, e que as combina em cada um de nós".


”Partir para um sítio é na maioria das vezes ir ao encontro dos lugares-comuns associados desde sempre ao destino eleito.(...) Entre o desejo de encontrar os lugares-comuns que habitam o nosso espírito e o de visitar uma terra absolutamente virgem existe um meio-termo. (...)Viajar pressupõe não tanto um espírito missionário, nacionalista, eurocentrado e limitado, mas uma vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta. O turista compara, o viajante separa. O primeiro fica à porta de uma civilização, aflora uma cultura e contenta-se em vislumbrar a sua espuma, em apreender os epifenómenos, à distância, qual espectador empenhado, militante do seu próprio enraizamento; o segundo esforça-se por entrar num mundo desconhecido, desacautelado, qual espectador liberto, preocupado não em rir ou chorar, julgar ou condenar, absolver ou resolver anátemas, mas sim desejoso de apreender esse mundo interior, compreender. O comparador designa sempre um turista, o anatomista indica um viajante.(...)
Nós próprios, eis a grande questão da viagem. Nós próprios e nada mais. Ou pouco mais. Pretextos, ocasiões, múltiplas justificações, sem dúvida, mas de facto fazemo-nos à estrada movidos unicamente pelo desejo de nos reencontramos, ou mesmo de nos encontrarmos.(...)Toda a viagem é iniciática – do mesmo modo que qualquer iniciação não deixa de ser uma viagem. Antes, durante e depois descobrem-se verdades essenciais que estruturam a identidade.
Longe de constituir uma terapia, a viagem define uma ontologia, uma arte de ser, uma poética do eu.(...) voltar é decidir não permanecer.
Basta sentirmo-nos nómadas uma vez, para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira.(...)Ponderar uma nova partida pressupõe assim uma inovação e não uma repetição.”
Michel Onfray, in ” Teoria da Viagem – uma poética da geografia”,  Editora Quetzal, 2009

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Finitude e solitude

" Vivemos num tempo em que a civilização periga morrer por meio da civilização"
F. Nietzsche, "Humano, demasiado humano"

A fragmentação do " laço social" que atingiu as grandes metrópoles e a generalidade das urbes actuais com diferentes morfologias sociais está a permitir que  comunidades diversas coabitem o mesmo  território onde todos e cada um passam a excluir-se uns aos outros, como parte refractária de um todo que não existe . A coesão social que advém de sistemas de valores, de relações intergeracionais, do exercício da cidadania  não está actualmente direccionada para  o indivíduo, para o familiar, para a singularidade da pessoa. Vivemos um tempo de multidões de indivíduos isolados que terminam tragicamente sós, abandonados ao ostracismo social.
A morte solitária de uma anciã que ocorreu há oito longos anos foi notícia portuguesa. Retumbante, alarmante  mergulhou o país na brutal realidade dos tempos  hodiernos. A solitude da vida deixou-a morta em casa sem que os vivos   a procurassem. Apenas a solicitude de  outra anciã promoveu esforços para o seu reencontro,  mas de obstrução em  obstrução  foram sistematicamente invalidados.  Morrer sozinha e permanecer abandonada  numa casa ladeada de tantos viventes já não é um acontecimento raro. A morte vive ao lado sem que a vida se ocupe dela.
" A morte é grande
Nós somos seus, de ridente boca,
Quando julgamos estar no meio da vida.
Ousa  ela chorar
No meio de nós."
Rainer Maria Rilke
A experiência da morte é última, inevitável e individual. Nasce-se com a sua marca biológica e cresce-se negando a sua evidência. Rejeitá-la, enquanto vivos  apagando-a do  horizonte , não torna imortais os homens . E a essência da imortalidade reside na marca que cada um deixa no outro, no acolhimento que cada um dá à sua presença.
Uma das ideias básicas de  Emanuel Lévinas é  a alteridade, isto é colocar o outro no lugar do ser. "... tudo começa pelo direito do outro e por sua obrigação infinita a este respeito. O humano está acima das forças humanas." Assim, inverte as propostas da Lei de Ouro e do Imperativo Categórico. Ao invés do indivíduo agir frente ao outro como gostaria de ser tratado e que isto deveria ser uma norma universal, é a descoberta do outro que impõe a conduta adequada. De acordo com Christiam Descamps, "a relação com o Outro é a base de uma co-presença ética". Cada um é constantemente confrontado com um próximo. Não sou Eu frente ao Próximo (Outro), mas sim os Outros continuamente frente a Mim.
Bastaria que o mundo , os governos, as sociedades aplicassem  este imperativo categórico para que nunca mais  se vivesse em finitude e se morresse em solitude.