segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Mandela


No tempo em que se festeja  o centenário do Congresso Nacional Africano (ANC)  não se pode esquecer Nelson Mandela, o seu grande obreiro.   
Recordá-lo é aplaudir  a tolerância e a integridade do maior humanista africano que foi o primeiro presidente negro da África do Sul.
"A herança de Mandela" é uma reportagem realizada por António Mateus, correspondente da RTP na África do Sul.

A RTP foi a primeira televisão a filmar a última cadeia de Nelson Mandela. A herança humanitária de Mandela foi o tema da Linha da Frente, numa reportagem de António Mateus, correspondente da RTP na África do Sul durante uma década. RTP, 2011-12-15

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ao Domingo Há Música


“Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva à Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho
                          (…)
Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelével persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe...
António Feijó, A Cidade do Sonho,  in “Sol de Inverno”, Paris.- Lisboa : Aillaud : Bertrand                 
O que os olhos alcançam e os ouvidos escutam nem sempre é objecto de culto e de deleite. Porém, quando os sons surgem inesperadamente e a paisagem exuberante de sonhos distantes enchem repentinamente  o horizonte, a magia  acontece e a realidade transforma-se em eufónica  evasão nas asas da  Música. Aproveitemo-la, neste Domingo ,  com a talentosa interpretação do lendário John Coltrane  em “ Soul Eyes”, para que a recordação indelével desse instante persista durante a semana.


John Coltrane em “ Soul Eyes” do Álbum "Interplay" for Two Trumpets and Two Tenors, gravado em 22 de  Março  de 1957 em Hackensack, NJ.
John Coltrane -- tenor saxophone
Bobby Jaspar -- tenor saxophone
Idrees Sulieman -- trumpet
Webster Young -- trumpet
Mal Waldron -- piano
Kenny Burrell -- guitar
Paul Chambers -- bass
Art Taylor -- drums

sábado, 14 de janeiro de 2012

Tudo que somos

Tudo que somos,
pouco sabemos.

Um poço imenso,
cheio de sonos.

Quando choramos,
não nos perdemos.

Viver é um sonho,
não esqueçamos.

Viver é a sombra,
o assombro, o apenas.

Tão frágeis somos!
Frágeis e imensos.

António Brasileiro, in "Antologia Poética 1968-1996", Ed. Fundação Casa de Jorge Amado,Salvador, 1996

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

"Entreguerras", El poema total

José Manuel Caballero Bonald publica Entreguerras, un libro formado por un solo poema de casi 3.000 versos. Irracionalista y autobiográfico, es un compendio de la vida y la obra de su autor, que con 85 años afirma: "Después de esto ya no voy a escribir nada".

No voy a escribir nada más", dice sentado en su casa de Madrid José Manuel Caballero Bonald, jerezano de 85 años cumplidos en noviembre, con estudios de Náutica, Astronomía, Filosofía y Letras y casi todos los premios disponibles, entre ellos, tres de la Crítica en, caso raro, dos géneros distintos -poesía: Las horas muertas (1959) y Descrédito del héroe (1977), y novela: Ágata ojo de gato (1974)-. Como las de los toreros, las retiradas de los escritores son casi un género literario: nunca se sabe si un artista se retira del todo. Pero Caballero Bonald ha dado ya señales de que habla en serio. En 1992 publicó la novela Campo de Agramante y no ha vuelto a reincidir en la ficción. En 2001 cerró con La costumbre de vivir las memorias que había abierto seis años antes con Tiempo de guerras perdidas. El relato de sus recuerdos se detuvo en la muerte de Franco y ahí sigue. Demasiado desencanto en la transición política. Demasiada gente viva en el posible índice onomástico.
"Después de esto ya no voy a escribir nada, no tengo necesidad", dice. ¿Seguro? "Algún artículo que me pidan", concede porque conoce la costumbre necrológica de los periódicos y su condición de superviviente de una generación, la de los años cincuenta, diezmada antes de tiempo. Él formaba parte de ella con sus amigos Ángel González, Juan García Hortelano, José Ángel Valente, Jaime Gil de Biedma, Carlos Barral, Claudio Rodríguez... Alguna vez ha mirado la foto histórica del homenaje a Machado en Collioure (1959) y ha comprobado que solo él queda vivo de aquel viaje a Francia. Para Caballero Bonald el esto de "después de esto" es "Entreguerras" (Seix Barral), el libro-poema de casi 3.000 versículos que publica la semana que viene y que ha subtitulado con un homenaje, ambicioso y explícito, a Lucrecio: O de la naturaleza de las cosas. El volumen está rubricado en octubre de 2011 y Caballero lo empezó en abril del año anterior. Entre una fecha y otra hubo cuatro borradores: "Es el libro que he escrito en menos tiempo, cosa que va un poco en contra de mis hábitos. Lo escribí en un estado de ánimo muy especial, como estimulado por una apremiante voluntad introspectiva". Con un "carácter autobiográfico clarísimo", el conjunto prescinde de los signos de puntuación: "Lo pedía el carácter fluvial del poema, el propio flujo y reflujo de la memoria". Más de una vez ha dicho Caballero Bonald que en un poema las palabras deben tener un significado más amplio que el que tienen en los diccionarios y esa tensión se ha traducido en Entreguerras en un viaje por los límites del lenguaje, violentando la gramática, ahondando en la complejidad de la memoria: "No he huido del hermetismo, llegado el caso", explica el poeta. "La experiencia que estaba descifrando era a veces oscura y el texto también lo es. La poesía es hermética cuando lo es el mundo que pretende describir, esas palabras que lo identifican".
"Entreguerras" tiene, de hecho, algo de salto mortal por parte de un escritor al que las historias de la literatura le habían abierto hace años un capítulo amplio y cómodo, con vistas al Parnaso y calefacción central. "A mi edad hacer este libro... Al terminarlo pensaba que no me correspondía, que estaba excediéndome en la cuota de las osadías testamentarias y que podía conducirme a un callejón sin salida. Pero superé el trance y ahí está todo lo que he escrito y todo lo que he vivido, ahí está como el compendio de mi literatura y mi vida y eso le da un valor estético especial. Con toda seguridad es el final de mi obra. Después de esto ya no voy a escribir nada, no me va a hacer falta". Más que de angustia, esa certeza, dice, le produce una sensación de "liberación". "Antes, cuando terminaba un libro me sentía incómodo, sospechaba de mí mismo. En este he tenido menos dudas. Pensar que es mi último libro me da una sensación de plenitud, no me desconcierta. Ya he cumplido". JAVIER RODRÍGUEZ MARCOS, in “BABELIA “ 07-01-2012
Leia o artigo completo:Versión texto accesible
Mais informação: CRÍTICA: Un poeta insurrecto

O que o outro acorda em nós


Amor

«Porque nós não nos pomos no lugar do outro: temos é que descobrir o que o outro acorda em nós.”(...)
“Eu sinto. Essa é uma das nossas diferenças: eu fico com pena de não ter conseguido contigo a paz e a harmonia. Tu fazes de tudo uma luta: julgas que é essa a tua força e não te passa pela cabeça que talvez seja uma fraqueza. Para ti, até o amor é uma luta. Para mim tem que ser paz.(...) Por mais que eu não queira, os meus passos continuam, em velhos edifícios em ruínas mas não apetece nada ceder porque acho que a reconstrução de tudo tem que começar com uma ligação verdadeira com aquela chamada indizível de que tenho a saudade. É aí que eu vejo o amor: uma vibração que não vem da inteligência e nem sequer dos sentimentos mas da natureza mais íntima e mais profunda do meu próprio ser.»
*António Alçada Baptista, in “ O Riso de Deus”, Editorial Presença

Empatia

« Que coisa é esse "dar-se conta" do sofrimento do outro que está aqui ao meu lado?(...)
Um amigo vem ter comigo e conta-me que perdeu o seu irmão e eu " dou-me conta " da sua dor (...) . Não me interessa perceber em que é que se funda a sua dor nem donde é que eu a deduzo. Talvez da sua cara transtornada e pálida, da sua voz entrecortada e rouca, ou talvez exprima a sua dor por palavras... Tudo isso , naturalmente pode ser investigado, mas não é o que me interessa. Não interessa também por que caminhos chego a este "dar-me conta", mas sim o que é esse dar-se conta: isso é o que importa saber! Não se trata de explicar e perceber a dor do outro, mas da vivência específica que não é nem por repetição de outras nem é consequência de uma minha experiência minha passada, mas que é o entrar imediatamente na experiência do outro: " faço a experiência de uma não experiência"!»
E. Stein, in " Il problema dell'empatia", Edizini Studium, Roma , 1985

* "No romance, " O Riso de Deus", António Alçada Baptista instaura uma forma de questionamento radical ao acompanhar a vida de Francisco, a personagem central deste romance, ao longo das suas escolhas, da sua procura, das suas deambulações pelo mundo ao sabor dos acasos e encontros e, muito especialmente , da intimidade de algumas mulheres cúmplices da mesma procura. Radicalidade que decorre do facto, inédito na sua escrita, de ser toda uma vida que é posta em balanço, tendo por contraponto esse limite que é a morte. Deus? Possivelmente. Mas um Deus que ri, joga, um deus apaixonado pela pura alegria de existir."

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O mar rebentava sobre os rochedos

“ Poucos dias antes de partir quase passou o dia inteiro na praia, para se despedir do “nosso mar”, e fomos logo de manhã cedo lá para os lados do Nolasco. Desse dia conservo a recordação tão viva como se fosse ontem. Mas haverá expressões adequadas à descrição de dias tais? O mar, de vaga larga, rebentava sobre os rochedos da costa, enchendo de espuma todas aquelas ruínas de castelos fantásticos, nesse dia mais monumentais do que nunca. Mas foi caindo pouco a pouco e à tarde aparecia calmo, claro e cristalino, todo semeado de leixões multicolores. À volta, já quase noite, parámos no convento; o rio, em frente a Ferragudo, era de puro lilás que por toda a bacia se dissipava em gradações de lilás azulado, sob um céu de inalterável azul, esfumado de fogo. A serra parecia pegada à vila e soltava as pinceladas de púrpura que engrossavam a poente, e agitavam-se em rede que subia pelo céu.
Perante este espectáculo Maria Adelaide, que vinha palrando alegremente, emudeceu; o seu rosto tomou a expressão de êxtase, e de repente, apertando-me de encontro ao seio, murmurava-me ao ouvido, como quem diz um grande segredo:
_ « Que lindo que isto é …, quem pudesse andar vestida com estas cores… tu até havias de gostar mais de mim…»
Surpreendeu-me deveras este despertar para as belezas do mundo externo, e senti como que um novo laço a prender-nos os corações…”

Manuel Teixeira Gomes, in “ Maria Adelaide”, Romances Portugueses – Obras-Primas do Século XX coordenada e dirigida por David Mourão Ferreira, Círculo de Leitores 1986

Vista de Ferragudo

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Fim do Mundo



"A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.
Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.
Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.
Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?
Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.
Dizem que o mundo termina em Fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.
O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.
Se o fim do mundo for mesmo em Fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.
Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.
Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.
Ainda há uns dias para reflexão e arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em Fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês..."
Cecília Meireles, in "Quatro Vozes", Distribuidora Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1998

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Daqui vemos o Mar


O pouco mar que vemos
ao ver nosso adequado,
está vendo-o muito menos
do que ele se estende ao largo.

Mas, sendo mar, contudo,
embora reduzido
ao nosso ver e uso,
usamo-lo preciso,

sabendo-se, no entanto,
que o pouco que se vê
se deve, não ao mar largo,
senão ao escasso ver.

Fernando Echevarría, in " Lugar de Estudo" Edições Afrontamento, Maio 2009