"Estes são os meus livros de Setembro. São 22 novos títulos. Inauguram-se duas novas colecções, uma na Guerra e Paz, outra na Gradiva. E nasce, na Gradiva, uma nova chancela, a Alquimia: um Setembro gordo, numa newsletter que só mando a quem gosto."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva
A Guerra e Paz pensa em português e já vão descobrir porquê
por Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz e da Gradiva.
"Quando chega uma colecção nova, parece resplandecente entre todas, e o editor, que julga tê-la vestido de seda e brocado, só quer que os leitores a esperem com óleos perfumados. Pedro Gomes Sanches, com o seu Portugal na Paz dos Bloqueios, como nos habituámos a viver abaixo das nossas capacidades, inaugura a colecção Pensar Português e não podia haver melhor livro inaugural, com tão extraordinária visão holística envolvendo demografia, habitação, emigração e imigração, saúde e educação, o reconhecimento do que Portugal já conseguiu, sem esconder o mal-estar com o que Portugal persiste em falhar. Com vigoroso e combativo prefácio de Pedro Passos Coelho, um livro que confronta a esquerda e a direita em 238 páginas de argumentos civilizados, tão certeiros que chegam a ser cruéis, numa colecção que tem um mecenas exclusivo, a Fundação Manuel António da Mota. Preparem-se para a grande apresentação no Porto.
Os poemas de Rui Teixeira Motta são bandos solitários de aves migratórias e traçam um irrecusável horizonte entre terra e mar. Semifinalista do Prémio Oceanos com As Mãos, o poeta traz-nos agora, gota a gota, o Peso da Luz. Do outro lado do muro, há uma menina alta e bonita que outro grande poeta, António Graça de Abreu, nos quer apresentar: China, Poemas do Erotismo Suave tem «o gosto da erva tenra, luminosa» e oferece «os prazeres da flauta de bambu».
Setembro traz dois novos Atlas Históricos. Um, o Atlas da América Pré-Colombiana, de Brigitte Faugère e Nicolas Goepfert, põe-nos a falar com remotos incas, maias e aztecas, memória de civilizações devastadas. Já no Atlas Histórico do Portugal Revolucionário, o historiador José Matos convoca um passado escaldante: depois do ecuménico 1.º de Maio de 1974, em que os portugueses estavam uns com os outros como nem Deus e os anjos, os caminhos da revolução dos cravos desataram a bifurcar-se. É esse desatino entre revolução e ditadura, entre maiorias silenciosas e vanguardas iluminadas, que aqui se revisita, com mapas, infografias, fotos e um sereno grito de «antes a democracia» que encerra o Verão Quente.
Na colecção diatribe, há polémica. José Pimentel Teixeira interroga-se, em Os Escravos na ONU, sobre a uma resolução daquela angélica instituição, resolução pela qual Portugal passou mais ou menos como cão por vinha vindimada: podem ou devem hierarquizar-se os crimes contra humanidade? Haverá uma «hierarquia do mal na história universal»? Com que rigor a ONU contextualizou a sua resolução? Um livro potente, de argumentação cristalina, escrito com requintado domínio da língua portuguesa.
E em Setembro, vamos a jogo. Entrámos numa parceria com o Observador. A equipa do nosso parceiro concebeu e desenvolveu «puzzles» e uma «vaga de crimes». E nós pedimos aos leitores que sejam os detectives e descubram os criminosos deste SudoCrime, 100 casos portugueses. Teste a sua capacidade lógica e a sua argúcia policial. Depois, faça justiça.
A Crisântemo traz médicas à famíliaNa Crisântemo, nossa chancela de vida prática, pedimos a sua atenção para duas médicas. A médica endocrinologista, especialista em diabetes e nutrição, Isabel do Carmo, em Tratamento para Emagrecer: do Neolítico à Nova Era das Injecções, propõe-nos uma bela viagem pelo tempo. Vale a pena: se conhecermos o passado podemos actuar de outra forma sobre a obesidade. Mesmo as novas injecções têm, afinal, a sua história. Um livro muito útil.
Outra médica, a cardiologista Vânia Ribeiro, em Um Coração sem Segredos, descomplicar a medicina e cuidar do seu coração, oferece literacia muito clara, simples e directa sobre a principal causa de morte em Portugal, as doenças cardiovasculares. Leia, se mais não for, pelo seu coração!
A Rita Fonseca continua a levantar bem alto o estandarte da euforia. Em Ace & Ember, de Kate Crew, o segundo livro da série The Mavericks, há um desejo proibido que pode, como sempre acontece no amor, arruinar tudo.
Já em A Pele de Um Pecador, a famosa Avina St. Graves, mostra-nos que por mais que se grite por socorro há circunstâncias em que ninguém nos ouve, sobretudo se a voz nos fica presa na garganta. Um dark romance com uma gota de gótico a tombar-lhe em cima.
Há quem puxe pelos galões, a Gradiva puxa pelos seus Nobel
Para a rentrée, trago-vos, na Gradiva, uma nova colecção de ficção, A Colecção Que Não Precisa de Nome por só acolher escritores que receberam o Prémio Nobel da Literatura. Os dois primeiros são franceses. De J. M. G. Le Clézio (Nobel em 2008), publico um inédito em Portugal, O Africano, viagem íntima em que Clézio confessa que «durante muito tempo sonhei que a aminha mãe era negra.»
De Jean-Paul Sartre (Nobel em 1964), resgatamos do esquecimento de algumas décadas, O Muro, inventário sartriano de medo, desejo, culpa e liberdade (e de absurdo, Manuel Fonseca, de absurdo!). Três homens condenados à morte esperam a sua execução. Venham esperar com eles. Em breve, a Le Clézio e Sartre hão-de juntar-se Ishiguro e Steinbeck.
Na sua boa tradição de ensaio polémico, a Gradiva publica Do Trumpismo ao Chega: a Contaminação, um livro em que Gonçalo Ribeiro Telles sustenta a tese da «exportação» do trumpismo, do seu ideário e dos seus métodos. Portugal não escapou. Escapará a democracia? Mário Centeno prefacia com elegância.
Quem regressa à Gradiva, onde Guilherme Valente primeiro o publicou, é Gabriel Mithá Ribeiro, com um admirável livro sobre educação: A Reforma das Reformas, a autoridade moral suprema do professor: entre Platão, Freud, Weber e a Paideia. O que mais me interessou neste livro de Mithá Ribeiro foi a fundamentação sustentada do papel do professor e a forma como ancora a sua autoridade moral num longo processo civilizacional.
Desse longo processo civilizacional nos fala Civilização, o Contributo da Europa para a Civilização Universal, de Kenneth Clark, num relato apaixonado e visualmente sedutor, com cerca de 300 reproduções das grandes obras de arte. Não é um livro, é um orgulho, uma preciosidade.
E há um novo livro de Richard Dawkins na Ciência Aberta. Os leitores portugueses podem agora ler O Livro Genético dos Mortos, um Devaneio Darwiniano: o passado não morre, os genes de cada animal são um arquivo das vidas passadas. Os nossos genes também. Um livro ilustradíssimo, encantador: o melhor livro de ciência de 2024, agora em português.
Manual de Investigação em Ciências Sociais, de Raymond Quivy, Luc Van Campenhoudt e Jacques Marquet é um daqueles livros que volta a «pedido de várias famílias». Agora em edição revista e aumentada, uma obra essencial para os alunos de ciências sociais, ciências políticas, comunicação e serviço social.
«Os zombies comem cérebros, tás safo», é como começa, desbragado, este Zits, Apocalipse, que a imparável imaginação de Jerry Scott e de Jim Borgman criou. Apreciadores de BD delirem, se faz favor, sem reservas. E para os leitores que ainda pedem que sejam os pais a lerem, aí está um novo Mimi e Rogério: E a Grande Tempestade, de Korky Paul e Valerie Thomas. Com um gato preto, trovões e grandes rajadas de vento.
Fecho com Antoine Saint-Exupery e a sua Terra dos Homens. Esta é uma edição única, a edição ilustrada da Gallimard, que venceu o National Book Award. As ilustrações tocantes, e que chegam a ser comoventes, são de Riad Sattouf, um dos grandes da banda desenhada actual, vencedor do Los Angeles Times Graphic Novel Prize, prémio de excelência no Japan Media Arts Festival e vencedor por duas vezes do Fauve d’Or. Leve para casa: não é só um livro, é uma obra de arte, com o espírito de O Principezinho.
A Alquimia começa com ousadia: num cemitérioEsta é a nova chancela da Gradiva. A Alquimia tem concepção e selecção da Rita Fonseca, e é uma chancela para acolher novas tendências de ficção. Inaugura-se com este dark romantsy, Coroa-me Morta, de Liv Zander, que logo na pré-venda atingiu o 1.º lugar no top da Wook. Um romance em que se cavam sepulturas? Pois sim, mas há um homem demasiado elegante para o cemitério. Atrevem-se a ler?
São estes os nossos livros de Setembro. De uma irrecusável diversidade e correndo, por prazer, mil riscos. Mas que raio de vida é uma vida sem «frisson»?"
Manuel S. Fonseca, editor
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