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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Nas tardes de Novembro,


Poemas das folhas secas de plátano

As folhas dos plátanos desprendem-se e lançam-se
na aventura do espaço,
e os olhos de uma pobre criatura
comovidos as seguem.
São belas as folhas dos plátanos
quando caem, nas tardes de Novembro,
contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.
Ondulam como os braços da preguiça
no indolente bocejo.
Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,
traçam erres e esses, ciclóides e volutas,
no espaço escrevem com o pecíolo breve,
numa caligrafia requintada,
o nome que se pensa,
e seguem e regressam,
dedilhando em compassos sonolentos
a música outonal do entardecer.

São belas as folhas dos plátanos espalhadas no chão.
Eram verdes e lisas no apogeu
da sua juventude em clorofila,
mas agora, no outono de si mesmas,
o velho citoplasma, queimado e exausto pela luz do Sol,
deixou-se trespassar por afiados ácidos.
A verde clorofila, perdido o seu magnésio,
vestiu-se de burel,
de um tom que não é cor,
nem se sabe dizer que nome tenha,
a não ser o seu próprio,
folha seca de plátano.
A secura do Sol causticou-a de rugas,
um castanho mais denso acentuou-lhe os nervos,
e esta real e pobre criatura,
vendo o Sol coberto de folhas outonais
medita no malogro das coisas que a rodeiam:
dá-lhes o tom a ausência de magnésio;
os olhos, a beleza.

António Gedeão,in "Poemas Póstumos", Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1983

terça-feira, 15 de maio de 2012

Esperar-te


Saber esperar alguém

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.
Maria Gabriela Llansol, in “O começo de um livro é precioso” Assírio & Alvim 2003

Esplanada

Como o copo que se eleva lentamente,
glacial, numa tarde de remorso,
os teus beijos duma grande difusão clara,
e o fumo dum cigarro à procura
dum ponto no mar.

Sebastião Alba, in “O ritmo do presságio”,Edições 70,1981


O nome da ausência

O sótão: era ali
que o mundo começava. Ainda
não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa
de música, a tua concha
de areia. E ainda
o não sabes hoje. Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio. E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.

Albano Martins, in “Escrito a vermelho”, Campo das Letras, 1999

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O meu coração bate

Estrada Branca

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

José Tolentino Mendonça, in “ Estrada Branca”, 2005 Assírio & Alvim

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas", 1977, Moraes Editores, Lisboa

sábado, 28 de janeiro de 2012

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.
Mário Cesariny, in «366 poemas que falam de amor», Antologia organizada por Vasco Graça Moura, Lisboa: Quetzal, 2003

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um luminoso sinal

Trigésima sexta carta a M.M.

Eu amo. Eu apenas sei dizer que amo
como se o meu amor não tivesse objecto
e no entanto ele é um barco onde vou com todos vós
sulcando o deserto que resplandece e que nos ofusca
mas é aí que partilhamos o pão e o vinho
e a água fresca que os cactos absorvem
e vemos o horizonte nu sobre a areia infindável.
Eu amo e sei a quem amo mas ao mesmo tempo o meu amor é vago
e tão indefinido como uma nuvem sem rumo
perdida sobre uma ilha deserta onde as lágrimas de um náufrago
se transformaram num pássaro negro ferozmente solitário.
Sim, eu sei a quem amo, a todos vós e é por isso que não me sinto perdido
embora o esteja porque espero de nada esperar,
porque estou à beira de ser não sei sendo o quê, ou maravilha ou monstro,
iluminado ou cego ou uma coisa e outra, ou tudo ou nada,
e só o meu amor é um sim , um luminoso sinal
na nulidade de ser e de não ser quem sou.
António Ramos Rosa, in " Cartas Poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira" Ed. Livros do Mundo,2ª edição, Maio 2011

No Prefácio destas " Cartas Poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira" Varela Pires escreve : "Dois poetas - António Ramos Rosa, já hoje considerado o mais premiado dos poetas portugueses vivos e Manuel Madeira, outra referência marcante da poesia moderna portuguesa - tornam públicas 134 cartas , das muitas que trocaram entre si, ao longo da vida.
São textos poéticos de reflexão, de auscultação, de intimidade, nascidos de um conhecimento mútuo destes dois poetas. São epístolas iluminadas por uma confidencialidade deliberada, expressão do estranho modo de conceber e partilhar, assente na poeira dos dias e no anseio da luz contemporânea da suprema arte de revelar os seres e as coisas.(...) Este discurso poético a duas mãos - as cartas trocadas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira - é algo de singular no nosso tempo, espelho de fascínio e complexidade, colóquio pensante, osmose quase perfeita entre realidade e palavra, assunção do verso como expressão intimista (...) um monumento ímpar na Poesia Epistolar portuguesa do nosso tempo." Varela Pires, in Prefácio das "Cartas Poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira" Ed. Livros do Mundo, 2ª edição, Maio 2011


Trigésima sexta carta a A.R.R.

Será o amor apenas um sentimento platónico
de que se absorve e transmite o perfume e o sabor
envoltos em palavras que perduram
enquanto os aromas e os sabores persistem
nas formas musicais das flores e dos frutos
e que depois de secos os frutos e perdidos os sons e as cores
se torna impalpável como as sensações
presentes embora nas dobras da memória
e se escoa lentamente como o fumo e a água?
O amor procura a personificação
nasce de uma ausência e do desejo de encontrar
uma presença viva que preencha o vazio
e fertilize o deserto em suculentos sulcos
para que a harmonia floresça e frutifique e cante
em vez da solidão de uma voz exausta
sobre si dobrada como sobre um poço.
Manuel Madeira, in " Cartas Poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira", Ed. Livros do Mundo, 2ª edição, Maio 2011

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Daqui vemos o Mar


O pouco mar que vemos
ao ver nosso adequado,
está vendo-o muito menos
do que ele se estende ao largo.

Mas, sendo mar, contudo,
embora reduzido
ao nosso ver e uso,
usamo-lo preciso,

sabendo-se, no entanto,
que o pouco que se vê
se deve, não ao mar largo,
senão ao escasso ver.

Fernando Echevarría, in " Lugar de Estudo" Edições Afrontamento, Maio 2009

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Nuvens correndo num rio

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!


Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.


Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?


Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?


Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

Natália Correia, in " Poesia Completa", Publicações D. Quixote, 1999

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Primavera é uma maneira de dizer

                          "(...) O que é o Presente?
                                É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.

                                É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem (...)"
                                                 Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”

 
                   
Quando tornar a vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Alberto Caeiro, in “ Desafios Inconjuntos” ( Alberto Caeiro , Poesia) Lisboa , Assírio & Alvim 2ª ed. corrigida, 2004

Se eu morrer de manhã



Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a noite é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.

Rosa Lobato de Faria, in " Poemas Escolhidos e Dispersos", Roma Editora, Lisboa 1997

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Convite


Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade
o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma
nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo de um braço
nesta fase em que o amor é não ler os jornais
podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam pombas -
podes vir e sentar-te e falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz
porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores.
Egito Gonçalves, in «366 Poemas que Falam de Amor", antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Última Vontade


Quando a sereia se ouvir
no coração desolado como uma cidade
recorda que te procurámos através das árvores
E tu escondias-te por trás dos frutos
e recolhíamos as mãos
cheias apenas de tempo
Sempre brincaste connosco
desde os dias da nossa juventude
Puseste-nos nos olhos
estação sobre estação e a vida dava as mãos
de árvore para árvore à volta da terra
Ia de ramo morto para ramo vivo
como um pássaro mais e nós ríamos
na tua transparência

Fechem-se-te agora os lábios
sobre a palavra que somos
Perdoa se algum dia
errámos com o coração
Não nos deixes morrer longe de Jerusalém

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates", Lisboa : Ática, 1961

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ruy Belo, o poeta

"Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro"

Ruy Belo, Poema quotidiano,in "Aquele Grande Rio Eufrates"


E Tudo Era Possível

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo, "Homem de Palavra[s]"
Lisboa, Editorial Presença, 1999,5ª ed


Os 50 anos da obra de "Aquele Grande Rio Eufrates", de Ruy Belo, vão ser assinalados, a 3 e 4 de Novembro, na Fundação Gulbenkian, com um colóquio dedicado ao autor. Já este mês, o novo número da Colóquio/Letras publicou duas cartas inéditas do escritor.
Celebrando o cinquentenário da publicação de "Aquele Grande Rio Eufrates" (1961), este colóquio destina-se a homenagear a obra de um dos poetas centrais da segunda metade do século XX. Aberto a estudiosos da obra de Ruy Belo, mas também a especialistas da poesia portuguesa do século XX e da teoria e crítica literárias, este encontro pretende pôr em relevo os múltiplos problemas que a sua poesia coloca, os universos de referência e o seu lugar no panorama da poesia contemporânea.

Grandeza do Homem

Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates", Lisboa : Ática, 1961


Ruy Belo nasceu em S. João da Ribeira em 1933. Estudou Direito, primeiro na Universidade de Coimbra, depois na Universidade de Lisboa, onde se diplomou em 1956. Doutorou-se em Direito Canónico na Universidade de S. Tomás de Aquino, em Roma. Em 1967, concluiu a licenciatura em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa .De 1971 a 1977 foi Leitor na Universidade de Madrid. Tal como Jorge de Sena foi forçado a sair de Portugal porque não arranjou trabalho. Neste país, não houve lugar para estes dois grandes poetas que foram próximos, amigos. "Portugal não é pátria, mas país" escreveu Ruy Belo.
Professor, editor, poeta , jornalista, tradutor, ensaísta, crítico literário, Ruy Belo morreu subitamente aos 45 anos de idade, em 1978.
O seu nome ocupa um lugar de excelência na poesia portuguesa da segunda metade do séc. XX. Poesia que não é militante, elaborada com uma linguagem inovadora e revolucionária, fora dos cânones do neo-realismo e de qualquer escola. Ruy Belo viveu muito atento à passagem do tempo, à efemeridade, à inquietação, à angústia e fez disso poesia, " a minha vida passou para o dicionário que sou".
Da sua obra poética fazem parte "Aquele Grande Rio Eufrates" (1961), "O Problema da Habitação" (1962), "Boca Bilingue" (1966), "Homem de Palavra(s)" (1969), "Transporte no Tempo" (1973), " País Possível "(1973), " A Margem da Alegria" (1974), "Toda a Terra" (1976),"Despeço-me da Terra da Alegria" (1977).
A Editorial Presença, com organização e comentários de Joaquim Manuel Magalhães, tem publicada em dois volumes a obra Poética de Ruy Belo. Entretanto, o Círculo de Leitores e a Assírio & Alvim reuniram-na num único volume, publicando-a sob o título de "Todos os Poemas".

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Caem limos, também ondas


Sítios, caindo

O que abisma
é ser capaz de chorar cem vezes,
afastando os braços do corpo
porque, sem ele,
os joelhos caem no chão
e à terra tornam, tornados terra.
Ou ainda encostar os olhos às nuvens,
como estrelas que passassem pelos sentidos despertos.
Caem corpos, pelo medo,
caem mansos fogos no deserto,
caem tributos já perdidos,
caem corpos e lugares,
gente e coisas mais, como estilhaços e pontes.
Caem limos, também ondas,
a maré foi que desce e sobe pela escada
da nossa testa em sonhos.
Caem risos, mesmo gestos,
a noite invade os olhos como esconsos gatos os vãos,
escapando-se em redor, surpreendida,
caem paixões e outros tempos,
mil coisas sobre a terra escura,
as romãs e outras coisas de viver,
o homem em cuja pele adormecemos,
a luz apagada quando é tarde,
a voz quando cansada,
os dedos quando em sangue,
caem mil coisas, em pedaços,
do corpo que fazemos ambulante.
O que abisma é,
tendo fugazes os olhos,
ter olhos fugazes a relembrar as palavras,
sem pô-las de lado como coisas impolutas.
Entender o sol sobre a curva dos ombros,
afagando o que na estrada se cumpre e é imenso:
um grito, uma ruína,
uma unida janela.

Helena Carvalhão Buescu in "De onde nascem os rios", Editorial Presença,
Lisboa, 1998

domingo, 28 de agosto de 2011

Faz uma dobra no mar



Faz uma dobra no mar
e deixa que a tua praia
venha ao encontro da minha.
Ficarás então mais perto,
será mais breve o deserto
que terás de atravessar.

Traz ao ombro uma gaivota
que eu te levo uma andorinha.
Dá-me conchas e corais
que eu te dou ramos de olaia.

Faz uma dobra no mar
e deixa que a tua praia
venha ao encontro da minha.

Fernanda de Castro, in “ 70 Anos de Poesia (1919-1989)”, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1989