Da escola para casa
por Maria José Vieira de Sousa
"As horas na Escola não se sentiam. Passavam tão depressa que, nos primeiros meses, julguei existir um relógio diferente para a escola. Lá, as horas eram mais curtas. A novidade e a sedução das letras davam ao tempo uma dimensão diferente. Uma dimensão que se estendeu a toda a minha permanência na Escola Primária. Foi um tempo de encantamento contínuo. A professora ficou para sempre no retábulo dos eleitos da minha vida. Daqueles que me formaram e me tocaram indelével e persistentemente.
Quando o regresso para casa era feito pela estrada, havia uma paragem obrigatória, que se repetia, mesmo a contragosto da Fernanda. Ao cimo da longa estrada que saía da Vila , erguia-se uma imponente construção toda murada com grades de ferro forjado, trabalhado minuciosamente. Tinha em cada extremo um grande caramanchão , como se fossem vigias para protecção do grandioso casarão . Era pertença de um emigrante português que vivera muitos anos no Brasil e regressara rico. Era conhecida como a casa do brasileiro. Nesse tempo, havia muitos destes sinais de riqueza, vindos de emigrantes que voltavam ao solo pátrio.
Essa casa despertava a nossa curiosidade. Tinha uma colecção muito grande de pavões que nos assustava pelo tamanho e pelos sons grasnados que soltava, mas que nos atraía também. Cada um era diferente de um outro. E eram tantos, com penas de muitas e fulgurantes cores que era impossível fugir-lhes. Passeavam-se pelo jardim fronteiro à casa , deixando-se ver e contemplar. E era isso que fazíamos. Cada um de nós lançava suspiros de regozijo ou de medo conforme se abria ou fechava a cauda, que parecia um leque gigantesco. Deslocava uma grande massa de ar que atingia os nossos pequenos rostos, encostados à vedação. Saía invariavelmente um gritinho de reparo perante aquela pena azul , ou aquela outra quase dourada ou perante toda aquela cauda de inacabado circulo multicolor, que do alto da sua imponência, parecia afirmar, sem qualquer relutância, a sua insofismável idoneidade cromática.
E, após este marcado encontro, seguíamos felizes pelo caminho até casa. À medida que se reduzia a distância, éramos cada vez menos. Apenas a Catarina, a Lurdes, a Francisca seguiam quase até ao fim. Moravam perto da Quinta, um pouco para lá da estrada que lhe dava acesso.
Todos os dias, nessa estrada, passava uma figura que nunca esqueci: o Luís. Filho de um lavrador , puxava um carro de bois ou uma charrua para lavrar os campos. Cantava muito bem. Eram canções lindas que eu não conhecia. Chamavam-lhe o Luís tolo. Alto e jovem, sorria quando não cantava. Assim que escutava a sua voz , vinha a correr ao portão, para vê-lo. Os meus pais não permitiam que se abrisse o portão, nesse momento. Talvez, por isso, o fascínio fosse maior. O Luís acenava-me e sorria. Logo, em seguida, desatava a cantar e eu ficava, ali, a ouvi-lo.
Nunca tive medo do Luís. Andava descalço, mas sempre limpo e arranjado. Os pais tinham posses . Era o irmão mais novo de uma família de cinco filhos. Todos tinham estudado, excepto ele. No entanto, não havia nenhum como ele. O Luís comandava bois de sorriso nos olhos e canções na boca. Aos meus olhos, ainda tão pouco perspicazes, ele surgia como um herói, quase o D. Quixote que vim a descobrir mais tarde. Aquela insanidade era de uma pureza incontroversa, genuína.
Há também uma figura que não posso deixar de incluir. Uma figura que me traz memória de um afecto profundo que faz doer a alma de tanta saudade.
Uma parte da família de meu pai, que era nortenho, como já referi, dedicava –se ao Ensino. Havia uma série de professores e todos eles mais velhos que meu pai. Um deles, (o tio Francisco Alão, que não era bem tio porque era irmão de tio Adão, casado com a irmã do meu pai que também era professor) que já era aposentado , esperava-nos sempre junto a uma mercearia – café que ficava na esquina da estrada, que saía da vila. Todos os dias , o Tio Alão ali estava quando regressávamos da escola. Alto e forte, com uns enormes e bem penteados bigodes brancos, sorria mal nos avistava. Era uma corrida acelerada até chegar a seus braços. Levantava cada um de nós e fazia-nos sentar numa sempre reservada mesa, para lhe contarmos o dia de escola. Questionava isto e aquilo , desde a lição de Leitura, o Ditado até à aritmética no jogo incansável das contas. Mais tarde, deambulava pela História de Portugal, sem excluir a Geografia. Pelas respostas , classificava o interesse de cada um e respectiva aprendizagem. Pelo meio, contava-nos uma nova história que nunca deixava de nos deslumbrar. No fim e, em jeito de magia, extraía dos bolsos um pequeno regalo : um lápis de cor, um rebuçado, um chocolate pequeno nos dias de maior felicidade. Outros dias havia que, sem qualquer gesto de magia, nos oferecia um livro de contos. Foi assim que tivemos os Contos de Perrault, os Contos de Hans Christian Andersen , os Mais belos Contos dos irmãos Grimm , as Fábulas de La Fontaine e outros que não nomeio como “O Romance da Raposa “, de Aquilino Ribeiro.
A Escola tinha destes encantos , destas surpresas que faziam de nós crianças felizes."
"As horas na Escola não se sentiam. Passavam tão depressa que, nos primeiros meses, julguei existir um relógio diferente para a escola. Lá, as horas eram mais curtas. A novidade e a sedução das letras davam ao tempo uma dimensão diferente. Uma dimensão que se estendeu a toda a minha permanência na Escola Primária. Foi um tempo de encantamento contínuo. A professora ficou para sempre no retábulo dos eleitos da minha vida. Daqueles que me formaram e me tocaram indelével e persistentemente.
Quando o regresso para casa era feito pela estrada, havia uma paragem obrigatória, que se repetia, mesmo a contragosto da Fernanda. Ao cimo da longa estrada que saía da Vila , erguia-se uma imponente construção toda murada com grades de ferro forjado, trabalhado minuciosamente. Tinha em cada extremo um grande caramanchão , como se fossem vigias para protecção do grandioso casarão . Era pertença de um emigrante português que vivera muitos anos no Brasil e regressara rico. Era conhecida como a casa do brasileiro. Nesse tempo, havia muitos destes sinais de riqueza, vindos de emigrantes que voltavam ao solo pátrio.
Essa casa despertava a nossa curiosidade. Tinha uma colecção muito grande de pavões que nos assustava pelo tamanho e pelos sons grasnados que soltava, mas que nos atraía também. Cada um era diferente de um outro. E eram tantos, com penas de muitas e fulgurantes cores que era impossível fugir-lhes. Passeavam-se pelo jardim fronteiro à casa , deixando-se ver e contemplar. E era isso que fazíamos. Cada um de nós lançava suspiros de regozijo ou de medo conforme se abria ou fechava a cauda, que parecia um leque gigantesco. Deslocava uma grande massa de ar que atingia os nossos pequenos rostos, encostados à vedação. Saía invariavelmente um gritinho de reparo perante aquela pena azul , ou aquela outra quase dourada ou perante toda aquela cauda de inacabado circulo multicolor, que do alto da sua imponência, parecia afirmar, sem qualquer relutância, a sua insofismável idoneidade cromática.
E, após este marcado encontro, seguíamos felizes pelo caminho até casa. À medida que se reduzia a distância, éramos cada vez menos. Apenas a Catarina, a Lurdes, a Francisca seguiam quase até ao fim. Moravam perto da Quinta, um pouco para lá da estrada que lhe dava acesso.
Todos os dias, nessa estrada, passava uma figura que nunca esqueci: o Luís. Filho de um lavrador , puxava um carro de bois ou uma charrua para lavrar os campos. Cantava muito bem. Eram canções lindas que eu não conhecia. Chamavam-lhe o Luís tolo. Alto e jovem, sorria quando não cantava. Assim que escutava a sua voz , vinha a correr ao portão, para vê-lo. Os meus pais não permitiam que se abrisse o portão, nesse momento. Talvez, por isso, o fascínio fosse maior. O Luís acenava-me e sorria. Logo, em seguida, desatava a cantar e eu ficava, ali, a ouvi-lo.
Nunca tive medo do Luís. Andava descalço, mas sempre limpo e arranjado. Os pais tinham posses . Era o irmão mais novo de uma família de cinco filhos. Todos tinham estudado, excepto ele. No entanto, não havia nenhum como ele. O Luís comandava bois de sorriso nos olhos e canções na boca. Aos meus olhos, ainda tão pouco perspicazes, ele surgia como um herói, quase o D. Quixote que vim a descobrir mais tarde. Aquela insanidade era de uma pureza incontroversa, genuína.
Há também uma figura que não posso deixar de incluir. Uma figura que me traz memória de um afecto profundo que faz doer a alma de tanta saudade.
Uma parte da família de meu pai, que era nortenho, como já referi, dedicava –se ao Ensino. Havia uma série de professores e todos eles mais velhos que meu pai. Um deles, (o tio Francisco Alão, que não era bem tio porque era irmão de tio Adão, casado com a irmã do meu pai que também era professor) que já era aposentado , esperava-nos sempre junto a uma mercearia – café que ficava na esquina da estrada, que saía da vila. Todos os dias , o Tio Alão ali estava quando regressávamos da escola. Alto e forte, com uns enormes e bem penteados bigodes brancos, sorria mal nos avistava. Era uma corrida acelerada até chegar a seus braços. Levantava cada um de nós e fazia-nos sentar numa sempre reservada mesa, para lhe contarmos o dia de escola. Questionava isto e aquilo , desde a lição de Leitura, o Ditado até à aritmética no jogo incansável das contas. Mais tarde, deambulava pela História de Portugal, sem excluir a Geografia. Pelas respostas , classificava o interesse de cada um e respectiva aprendizagem. Pelo meio, contava-nos uma nova história que nunca deixava de nos deslumbrar. No fim e, em jeito de magia, extraía dos bolsos um pequeno regalo : um lápis de cor, um rebuçado, um chocolate pequeno nos dias de maior felicidade. Outros dias havia que, sem qualquer gesto de magia, nos oferecia um livro de contos. Foi assim que tivemos os Contos de Perrault, os Contos de Hans Christian Andersen , os Mais belos Contos dos irmãos Grimm , as Fábulas de La Fontaine e outros que não nomeio como “O Romance da Raposa “, de Aquilino Ribeiro.
A Escola tinha destes encantos , destas surpresas que faziam de nós crianças felizes."
Maria José Vieira de Sousa, in O livro que já escrevi ,Memórias, pp.125-130
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