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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Os cem anos de Jorge Amado

Jorge Amado nasceu a 10 de Agosto de 1912, em Ferradas, na região do cacau, no sul da Bahia. 2012 é o ano do centenário desse grande homem das letras que revolucionou o romance brasileiro. Neste espaço, temos recordado a valiosa obra que legou ao Brasil e ao mundo. Fazê-lo é relançar uma galeria imensa de personagens que compõe magistralmente a produção literária deste escritor. Transcrevemos, anteriormente, num desses artigos, um excerto do Discurso da tomada de posse na Academia Brasileira proferido em Abril de 1961 que retomamos: " (...)quando aqui chego, chegam a esta casa, (...) pessoas simples do povo, aqueles meus personagens, pois é por suas mãos que aqui ingresso. Vêm mestres de saveiros e pescadores. Mestre Manuel, Maria Clara, Lívia e Guma, e sua ansiosa espera da morte no mar; vêm negros e mulatos, pai-de-santo Jubiabá e o negro Balduíno, Rosenha Rosedá e o Gordo, vêm as crianças abandonadas, os capitães da areia, trabalhadores dos campos de cacau e rudes coronéis de repetição em punho; vêm o rei das gafieiras da Bahia, Quincas Berro D'água, a mulata Gabriela feita de cravo e de canela, e o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que amava sonhar e comandava os ventos.Gente simples do povo, não sou mais de que ele, e se os criei, eles me criaram também e aqui me trouxeram. Porque eles são o meu povo e a vida que tenho vivido ardentemente(...)". É esta a singularidade da obra de Jorge Amado.
Em 9 de Agosto de 2011 , véspera do dia em que Jorge Amado completaria 99 anos de idade, uma colectiva de imprensa em Salvador, na Fundaçāo Casa de Jorge Amado, deu início às comemoraçōes do centenário do escritor baiano. Na ocasiāo, foi apresentada uma comissāo para organizar diversas actividades que começaram em Salvador e se realizarão em todo o Brasil e que terāo um selo exclusivo deste centenário criado por Máquina Estúdio.
“A ideia é que este ano nāo acabe nunca” brincou Cecilia Amado, neta do escritor.
Os eventos acontecerāo de Agosto de 2011 até Agosto de 2012. Veja a programaçāo divulgada na colectiva, aqui

Para nós e na sequência do que acabamos de afirmar , celebrar Jorge Amado é revisitar incessantemente a sua obra para reproduzir alguns excertos que estampam essa prodigiosa galeria de gente simples que figura em toda a sua produção literária. Hoje, mergulhamos nesse universo popular para extrair uma das suas mais belas personagens, o negro António Balduíno , personagem central do romance "Jubiabá", escrito em 1935.

“Ele julgara que a luta aprendida nos ABC lidos nas noites do morro, nas conversas em frente à casa de sua tia Luísa, nos conceitos de Jubiabá, na música dos batuques, era ser malandro, viver livre, não ter emprego. A luta não é esta. Nem Jubiabá sabia que a luta verdadeira era a greve, era a revolta dos que estavam escravos. Agora o negro António Balduíno sabe. É por isso que vai tão sorridente, porque na greve recuperou a sua gargalhada de animal livre. (…)
A noite desceu e a Lua sobe do mar para junto das estrelas. O Gordo andará na Rua Chile , de braços estendidos, a perguntar onde está Deus. Zumbi dos Palmares é que brilha no céu. Para os homens brancos, é Venus, o planeta. Para os negros, para António Balduíno, é Zumbi, o negro que morreu para não ser escravo. Zumbi sabia aquelas coisas que só agora António Balduíno aprendera. Os saveiros dormem. Apenas O Viajante sem Porto sai, lanterna acesa, carregado de abacaxis. Maria Clara vai em pé cantando. Dela vem o cheiro poderoso de mar. Ela nasceu no mar, o mar é o seu inimigo e o seu amante. António Balduíno também ama o mar. Sempre viu no mar o caminho de casa. E quando Lindinalva morreu, ele que pensava que seu A B C já estava perdido, que nada mais faria, quis entrar pela estrada do mar para ser feliz como um morto. Porém os homens do cais, os homens do mar, lhe ensinaram a greve. O mar lhe mostrou o caminho de casa. E ele olha para o mar verde, amarelado pela lua. De muito longe vem a voz de Maria Clara :
A estrada do mar é larga, Maria …
Um velho no cais deserto toca realejo. A música vem em surdina e se espalha pelos saveiros, pelas canoas, pelos transatlânticos, pelo grande mar misterioso de António Balduíno. Se não fosse a greve, o mar engoliria o seu corpo numa noite em que a lua não brilhasse. Se não fosse a greve ele teria desistido de ser cantado num A B C , de ver Zumbi dos Palmares brilhando como Vénus. Um vulto passa ao longe. Será Robert, o equilibrista, que desapareceu misteriosamente do circo? Mas pouco importa. A música do realejo é plangente. A voz de Maria Clara se sumiu no mar. Mestre Manuel irá ao leme. Ele sabe todos os segredos do mar. E amará Maria Clara à luz da lua. As ondas do mar molharão os corpos e assim o amor ainda será melhor. A areia alva do cais, prateada com a lua . Areia alva do cais onde o negro António Balduíno amou tantas mulatas que eram todas Lindinalva, a sardenta. Se não fosse a greve, o seu corpo de afogado seria depositado na areia e os siris chocalhariam como chocalhavam no corpo de Viriato, o Anão. Brilha a luz de um saveiro. O vento levará até ele a melodia do realejo que o velho italiano toca? « Um dia », pensa António Balduíno, « hei-de viajar, hei-de sair para outras terras.»
Um dia ele tomará um navio, um navio como aquele holandês que está todo iluminado, e partirá pela estrada larga do mar. A greve o salvou. Agora sabe lutar. A greve foi o seu A B C. O navio vai largar. Os marinheiros souberam da greve, contarão em outras terras que aqueles negros lutaram. Os que ficam dão adeuses. Os que vão limpam lágrimas. Porque chorar quando se parte? Partir é uma aventura boa, mesmo quando se parte para o fundo do mar como partiu Viriato, o Anão. Mas é melhor partir para a greve, para a luta. Um dia António Balduíno partirá num navio e fará greve em todos os portos. Nesse dia dará adeus também. Adeus minha gente que eu já vou. Zumbi dos Palmares brilha no céu. Sabe que o negro António Balduíno não entrará mais pelo mar para a morte. A greve o salvou. Um dia ele dará adeus e agitará um lenço do tombadilho de um navio. A música do realejo chora uma despedida. Mas ele não dará adeus como estes homens e mulheres da primeira classe, que dão adeus para os amigos, para pais e irmãos, para esposas chorosas, para noivas tristes. Ele dará adeus como aquele marinheiro loiro que está no fundo do navio e agita o boné para a cidade toda, para as prostitutas do Taboão, para os operários que fizeram a greve, para os malandros que estão na Lanterna dos Afogados, para as estrelas onde está Zumbi dos Palmares, para o céu claro e a Lua amarela, para o velho italiano do realejo, para António Balduíno também. Ele dará adeus como marinheiro. Adeus para todos , que ele fez a greve e aprendeu a amar a todos os mulatos, todos os negros, todos os brancos, que na terra, no bojo dos navios sobre o mar, são escravos que estão rebentando as cadeias. E o negro António Balduíno estende a mão calosa e grande e responde ao adeus de Hans, o marinheiro.
Pensão Laurentina ( Conceição da Feira) , 1934
Rio de Janeiro, 1935”
Jorge Amado, in “ Jubiabá”, Edição “Livros do Brasil “ , Lisboa

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Fim do Mundo



"A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.
Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.
Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.
Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?
Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.
Dizem que o mundo termina em Fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.
O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.
Se o fim do mundo for mesmo em Fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.
Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.
Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.
Ainda há uns dias para reflexão e arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em Fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês..."
Cecília Meireles, in "Quatro Vozes", Distribuidora Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1998

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

As Memórias de Jorge Amado

"Ele está lá, Jorge Amado, nestas páginas, as suas prisões, os seus exílios,as  suas farsas e armadilhas, em emoções infindáveis,os  seus olhos grandes, o seu riso, a sua mulher tanto amada, Zélia Gattai, o seu gosto pelos mares, o seu meio século de comunismo, os seus 50 romances, como  igualmente os negros, os pobres, as prostitutas e os pecadores da sua cidade adorada, Salvador da Bahia de Todos os Santos."
                         Gilles Lapouge, Qunizaine Littéraire

“Navegação de Cabotagem,Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei ”, Jorge Amado , 1992, Editora Europa–América, Mem- Martins é um  livro surpreendente e  memorável, não apenas porque guarda as memórias de Jorge Amado, mas porque representa o exercício retrospectivo de quase um século  por um dos maiores escritores universais.
Jorge Amado começou a escrevê-lo  em Janeiro de 1986, em Nova  Iorque, cidade para onde se deslocara com a sua mulher, Zélia Gattai,  a fim de participar no Congresso Internacional do Pen Club. Doente e debilitado por uma pneumonia , não pode comparecer às Conferências e começou a redigir algumas notas à medida que elas  afluiam . O registo das memórias, que abrangem um longo período do século XX (  a década de 20 até ao início dos anos 90), terminaria em 1992 , data da publicação do livro.
 “Oitenta anos vividos intensa, ardentemente, de face para a vida, em plenitude. Minha criação romanesca decorre da intimidade, da cumplicidade com o povo. Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato, em verdade sou um obá em língua iorubá da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da - sabedoria do povo.
Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e por vezes de participar de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes. Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar ideia do como e do porque. Trata-se, em verdade, da liquidação em preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida. Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale à pena escrevê-las, não lhes encontro a graça?”
Em 1992, quando terminou o livro, estava com oitenta anos. "O momento histórico, para quem viveu, na infância, o impacto da Primeira Guerra e da Revolução Russa, era avassalador: “O mundo nascido de duas guerras mundiais e da revolução socialista se esboroa e nas ruas se discute e se planeja uma nova carta geográfica e política, quando o impossível acontece, ruem muros, nações, impérios”. Apesar das transformações radicais, Jorge Amado não se mostra saudoso: “Só tenho pena de não me restar o tempo necessário para ver em que tudo isso vai dar. Bem que gostaria”.
Como já referimos  em edições anteriores ,  no ano de 2012 celebra-se  o centenário do nascimento de Jorge Amado (1912-2001). Recordá-lo através de um excerto do livro das suas memórias é uma forma antecipada de lhe prestar homenagem.

“Aproxima-se a data dos oitenta anos, por que se considera tão curto tempo de vida façanha a celebrar, empreitada a saudar com estrondo e festa? De toda parte, do Brasil e do estrangeiro, chegam convites para comemorações, atropelam-se as notícias, os projetos, programas infindáveis de solenidades, cresce a pressão para que aceite ir aqui, ali e acolá de ceca em meca, ouvir discursos, pronunciá-los, agradecer elogios de corpo presente, participar de atos, seminários, fóruns, almoços e jantares, quanta coisa se inventa para proclamar-se a caduquice. A generosidade dos amigos, o carinho dos leitores me comovem, mas todo esse cerimonial parece-me conter laivo de despedida, tem ar de adeus em necrológio: aqui repousa em paz, epígrafe em mausoléu, letras de ouro em campo santo.
Digo não ao discurso, à medalha, à fanfarra e aos tambores, à sessão solene, ao incenso, à fotografia de fardão ou em mangas de camisa exibindo as pelancas e a dentadura, não sou andor de procissão. Dá-me tua mão de conivência, vamos viver o tempo que nos resta, tão curta a vida!, na medida de nosso desejo, no ritmo de nosso gosto simples, longe das galas, em liberdade e alegria, não somos pavões de opulência nem gênios de ocasião, feitos nas coxas das apologias, somos apenas tu e eu. Sento-me contigo no banco de azulejos à sombra da mangueira, esperando a noite chegar para cobrir de estrelas teus cabelos, Zélia de Euá envolta em lua: dá-me tua mão, sorri teu sorriso, me rejubilo no teu beijo, laurel e recompensa. Aqui, neste recanto do jardim, quero repousar em paz quando chegar a hora, eis meu testamento.
Nasci empelicado, de bunda para a lua, uma estrela no peito, a sorte me acompanha, tenho o corpo fechado à inveja, a intriga não me amarra os pés, sou imune ao mau-olhado. A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei. Vivi ardentemente cada dia, cada hora, cada instante, fiz coisas que Deus duvida, conivente com o Diabo, compadre de Exu nas encruzilhadas dos ebós. Briguei pela boa causa, a do homem e a da grandeza, a do pão e a da liberdade, bati-me contra os preconceitos, ousei as práticas condenadas, percorri os caminhos proibidos, fui o oposto, o vice-versa, o não, me consumi, chorei e ri, sofri, amei, me diverti.
Fujo aos festejos, ao fogo de artifício, ao banquete, fujo ao necrológio, estou vivo e inteiro. Amanhã, passado o obituário de reverências, voltarei ao romance, Bóris, o Vermelho me espera na esquina da máquina de escrever com seu desafio de trapaça e juventude. Obstinado, vou prosseguir com orgulho e humildade a tarefa de emprenhar nos esconsos da cidade, conceber e parir homens e mulheres, capitães da areia, mestres de saveiro, jagunços, vagabundos, putas, são a inocência e a fantasia, nascem de minhas entranhas fecundadas pelo povo, do coração, dos miolos e das tripas, dos culhões
.” Jorge Amado , in “ Navegação de Cabotagem, Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei ”,  1992, Editora Europa–América, Mem- Martins

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O império da certeza não faz parte da minha geografia

Herdeiros famélicos
Por Lêdo Ivo *
"Poeta e escritor, jamais me atrevo a falar em nome da tribo a que pertenço. E, de quatro em quatro anos, assisto ao movimento de cineastas gulosos, confrades frenéticos, apetitosas beldades electrónicas, patéticas donas de casa, vetustos professores inaposentáveis, instaladores de instalações e até jogadores de futebol e bola ao cesto que se reúnem buliçosamente para apresentar aos candidatos presidenciais um rol de reivindicações artísticas e monetárias.
Todos se proclamam intelectuais — o que não deixa de juncar-me de inveja, já que não sei onde começa e onde termina o intelecto, e o império da certeza não faz parte de minha geografia.
Nas reuniões tumultuosas, esse trivial fino das letras e artes, e prendas domésticas, exige aquilo que todo brasileiro, do mendigo ao banqueiro, reclama do Poder Público: dinheiro. Querem a pecúnia do Erário para custear filmes, exposições, sonetos, peças teatrais, jogos, viagens ao exterior (de preferência na classe executiva). Em nome da Pátria, pleiteiam um bom financiamento para as suas fantasias e pesadelos.
Descabe discutir aqui se ao Estado compete ou não sustentar tantos sonhos e ambições, se o seu papel deve ser o do mecenas esfuziante ou o de verdugo implacável. Desejo apenas notar, nesse catálogo de reivindicações, a ausência de um item que me parece relevante. Refiro-me ao problema do direito de imagem — nesta época da imagem e dos espectáculos vertiginosos — engastado na lei dos direitos autorais.
A actual legislação me proíbe de publicar as incontáveis fotos que possuo de Manuel Bandeira. Proíbe-me até mesmo de usar aquelas em que estou ao seu lado. Proíbe-me ainda de divulgar as cartas de Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Lúcio Cardoso ou qualquer outro integrante do meu universo afectivo. Pela lei, elas não me pertencem, embora dirigidas a mim. Por 70 anos, pertencem a parentes de quem as enviou. Caso ouse expô-las ao sol, serei processado judicialmente. Para divulgá-las, a legislação me aponta o caminho da negociação monetária. Terei de pagar aos herdeiros, através de judiciosos agentes literários que não dormem de touca.
Fui amigo de Manuel Bandeira durante trinta anos. Ele era solteiro e solitário e não deixou nenhum descendente directo. Que herdeiros são esses, que jamais o visitaram em sua solidão? Não os conheci nem de vista nem de chapéu. E a sua situação é a mesma de outros poetas e escritores mortos.
Tenho uma reivindicação a fazer à enérgica Presidente Dilma Rousseff. Peço-lhe que incorpore a obra de Manuel Bandeira ao património nacional. Livre-a dos herdeiros famélicos, dos fominhas póstumos, e a entregue ao nosso povo."
Lêdo Ivo , in O Globo, 30/1/2011
*Lêdo Ivo é o quinto ocupante da Cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 13 de Novembro 1986, na sucessão de Orígenes Lessa e recebido em 7 de Abril de 1987 pelo académico Dom Marcos Barbosa. Nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1924, em Maceió (AL).Poeta, jornalista, ficcionista, ensaísta, crítico literário é um dos maiores vultos da Literatura brasileira. Tem a sua obra traduzida em várias línguas e publicada em diversos países.
No Brasil, foi galardoado com o Prémio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, o Prémio de Romance da Fundação Graça Aranha, o Prémio Carlos de Laet da Academia Brasileira de Letras, o Prémio de Memória da Fundação Cultural do Distrito Federal e , em 2004, foi-lhe outorgado o Prémio Golfinho de Ouro do Governo do Estado do Rio de Janeiro, pelo conjunto da obra.
No plano internacional, Lêdo Ivo é detentor do Prémio de Poesia del Mundo Latino Victor Sandoval (México, 2008), do Prémio de Literatura Brasileira da Casa de las Américas (Cuba, 2009) e do Prémio Rosalía de Castro, do PEN Clube da Galícia (Espanha, 2010).
Lêdo Ivo tem representado internacionalmente a sua pátria, o Brasil, quer em Encontros culturais , quer em Congressos e Colóquios literários.


Minha Pátria
Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando
[sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas
[carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos
[e impaludados não param de
[tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria
[muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.
Lêdo Ivo, In “As imaginações”, 1944.

sábado, 25 de junho de 2011

Milagre

"O milagre não é uma suspensão das leis da natureza, mas o seu cumprimento.
Os grandes supermercados e shoppings tornaram-se os nossos templos, com a liturgia do consumo e do desperdício. E afastam, por estratégias de construção e segurança, a mão do pedinte, o estorvo do outro. E eu faço parte, mesmo a contrapelo, desse coro concentrado no umbigo e na ambição. Para nós caberia a pergunta do Criador feita a Adão, com a perda do paraíso: "onde estás?" Onde estamos que não vemos ou atrofiamos os olhos e a epiderme? Paul Ricoeur observa muito bem quando afirma que a essa pergunta endereçada a Adão, "apenas Abraão pode responder: Eis-me aqui." O mesmo autor, se bem me lembro, disse que o amor protege a justiça do cálculo interessado do Do ut des, dar para que me seja devolvido.
Nesta prontidão somos poucos. E quando respondemos, guardamos uma reserva de tudo o que temos e somos. "Não há maior milagre do que repartir o pão." Todo repartir do pão é consagração, efectua a presença do senhor da messe. Nesse claro instante o homem reconhece o seu irmão, cidadão de Jerusalém, filho de Abraão, abrindo-lhe as portas do coração e da morada. "Um só é o testamento." Não há ruptura entre os textos. O novo é tão antigo como o primeiro e o antigo sempre será novíssimo. Todos os livros em torno ao sagrado, na busca da beleza e verdade, na conciliação entre vida e caminho, se agregam a esse testamento. Eles também falam em milagres, sinais a serem interpretados. O milagre não é uma suspensão das leis da natureza, mas o seu cumprimento. A verdade não nega a lei, mas dá-lhe o endereço. O devido cumprimento da lei instaura a justiça: dar a cada um o que é seu. Ir além, o amor ao próximo realiza. "Um só é o preceito: ama o próximo como a ti mesmo." Então é preciso um amor a si mesmo desprovido de egoísmo, de falsos ídolos, de barganhas e subterfúgios. Um amor que não nos tolha o crescimento como pessoa de valores. Se te vendes por nada, assim amarás. (...) O amor, segundo Platão, faz com que tudo viva em conexão..
" O homem não foi feito para o sábado, mas o sábado para o homem". Kafka, o profeta tardio, descreveu tão bem os labirintos irracionais da lógica da burocracia! Tanto no “Castelo”, no esforço infrutífero de chegar ao agrimensor, como no “Processo”, ao desabafo do personagem, como corolário do livro: " a lógica não pode impedir um homem que quer viver." Queremos um Deus adequado à razão ou acomodado a nossas vantagens. Esvaziamos as palavras sagradas a nosso bel-prazer. Aquele que devemos amar no próximo desarticula todos os esquemas.”
 Maria Carpi in "Abraão e a encarnação do verbo", Editora Age, Porto Alegre,2009

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Jorge Amado em "A Morte e a Morte de Quincas Berro D´Agua"

Revisitar a obra de Jorge Amado é  um cerimonial imperfeito porque nunca se completa e requer sempre um recomeço. Tal é a  fecundidade que a atravessa que novas descobertas se propalam incessantemente:  um  texto que se lateralizou, um conto que se preteriu, uma novela que se devorou. Deixámos escapar na força    assombrosa  desta  escrita ímpar  de Jorge Amado,  muita da acuidade que concentramos noutras leituras.  O fascínio encantatório que nos  acomete retém quase muito, mas não tudo,  pelo que nos exige uma (re)visita feita  em recomeço aprazado e ilimitado.
Em  Abril de 1961, no Discurso de tomada de posse na Academia Brasileira , Jorge Amado já não se apresentava sozinho.Trazia consigo uma imensa obra onde pululava um rol de personagens que entrava, então,  pela porta grande partilhando com ele o mesmo fardão, aquele que vestem as   pessoas simples do povo.  Ouçamo-lo:
"Sr. Presidente, Senhores Académicos:
(...)Tenho a alegria de ter conservado jovem o coração, por não ter rompido jamais a unidade entre minha vida e minha obra, e por ter a certeza de que jamais a romperei.E quando aqui chego, chegam a esta casa, a esta tribuna, vestindo este fardão, pessoas simples do povo, aqueles meus personagens, pois é por suas mãos que aqui ingresso. Vêm mestres de saveiros e pescadores. Mestre Manuel, Maria Clara, Lívia e Guma, e sua ansiosa espera da morte no mar; vêm negros e mulatos, pai-de-santo Jubiabá e o negro Balduíno, Rosenha Rosedá e o Gordo, vêm as crianças abandonadas, os capitães da areia, trabalhadores dos campos de cacau e rudes coronéis de repetição em punho; vêm o rei das gafieiras da Bahia, Quincas Berro D'água, a mulata Gabriela feita de cravo e de canela, e o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que amava sonhar e comandava os ventos. Gente simples do povo, não sou mais de que ele, e se os criei, eles me criaram também e aqui me trouxeram. Porque eles são o meu povo e a vida que tenho vivido ardentemente(...)". Jorge Amado, Abril de 1961
"A Morte e a Morte de Quincas Berro D´Agua" inclui-se nessa galeria onde se agita o povo porque com gente do povo foi construida. É uma das mais belas novelas de Jorge Amado . Conta a história fantástica da morte de Quincas Berro D' Água, antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário  da Mesa de Rendas Estadual , que abandonou um dia uma modelar e pacata existência  e se fez o rei das gafieiras da Bahia .  Foi considerada uma obra-prima por Vinicius de Moraes, como denotam as suas palavras: " Saí da leitura dessa extraordinária novela, eu, que andava no maior fastio da literatura, com a mesma sensação que tive, e que nunca mais se repetiu, ao ler os grandes romances e novelas dos mestres russos do século XIX, Pushkin, Dostoievski, Tolstoi, Gogol especialmente. Uma sensação de bem-estar físico e espiritual como só dão os prazeres do copo e da mesa quando se está com sede ou fome  e os da cama quando se ama. Ela representa, dentro da novelística brasileira, onde já há cimos consideráveis, um cume máximo."
Hoje é o  tal dia aprazado para  honrar  esta novela de Jorge Amado,  pelo que se transcreve  um pequeno  excerto:

"(...) Tantas testemunhas idóneas , entre as quais Mestre Manuel e Quitéria de Olho Arregalado , mulher de uma só palavra , e, apesar disso, há quem negue toda e qualquer  autenticidade  não só à admirada frase mas a todos os acontecimentos  daquela noite memorável , quando, em hora duvidosa  e em condições discutíveis , Quincas Berro D' Água  mergulhou no mar da Baía e viajou para sempre , para nunca mais voltar.
(...)  Suspenderam as velas do saveiro, puxaram a grande  pedra que servia de âncora. A Lua fizera do mar um caminho de prata, ao fundo recortava-se na montanha a cidade negra da Baía. O saveiro foi-se afastando devagar. A voz de Maria Clara elevou-se num canto marinheiro:
                                     No fundo do mar te achei
                                     toda vestida  de conchas...

(...)Mestre Manuel avisou:
 - Vai ser noite de temporal, é melhor voltar.
Pensava ele trazer o saveiro para o cais antes que caísse a tempestade. Era, porém , amável a cachaça, gostosa a conversa , havia ainda muita arraia no caldeirão, boiando no amarelo, do azeite de dendê, e a voz  de Maria Clara dava uma dolência , um desejo de demorar nas águas. Ao demais , como interromper o idílio de Quincas e Quitéria naquela noite de festa?
Foi assim que o temporal , o vento uivando, as águas encrespadas, os alcançou em viagem. As luzes da Baía brilhavam na distância , um raio rasgou a escuridão. A chuva começou  a cair. Pitando seu cachimbo, Mestre Manuel ia ao leme.
Ninguém sabe como Quincas se pôs de pé , encostado à vela menor. Quitéria não tirava os olhos apaixonados da figura do velho marinheiro, sorridente para as ondas a lavar o saveiro , para os raios  a iluminar o negrume. Mulheres e homens  se seguravam às cordas, agarravam-se às bordas do saveiro, o vento zunia, a pequena embarcação ameaçava soçobrar a cada momento. Silenciara a voz de  Maria Clara, ela estava junto do seu homem na barra do leme.
Pedaços de mar lavavam o barco, o vento tentava romper as velas. Só a luz do cachimbo de mestre Manuel persistia, e a figura de Quincas, de pé, cercado pela tempestade, impassível e majestoso, o velho marinheiro. Aproximava-se o saveiro lenta e deficilmente das águas mansas do quebra-mar. Mais um pouco e a festa recomeçaria.
Foi quando cinco raios sucederam-se no céu, a trovoada reboou num barulho de fim do mundo, uma onda sem tamanho levantou o saveiro. Gritos escaparam das mulheres e  dos homens, a gorda Margô exclamou:
- Valha-me Nossa Senhora!
No meio do ruído, do mar em fúria, do saveiro em perigo à luz dos raios, viram Quincas atirar-se e ouviram sua frase derradeira.
Penetrava o saveiro nas águas calmas do quebra-mar, mas Quincas ficara na tempestade, envolto num lençol de ondas e espuma, por sua própria vontade.
(...) Quanto à frase derradeira , há versões variadas. Mas quem poderia ouvir direito no meio daquele temporal? Segundo um trovador do Mercado passou-se assim:

                                      No meio da confusão
                                      ouviu-se Quincas dizer:
                                      " - Me enterro como entender
                                      na hora que resolver.
                                      Podem guardar seu caixão
                                      para melhor ocasião.
                                      Não vou deixar me prender
                                      em çova rasa no chão."
                                      E foi impossível saber
                                      o resto de sua oração.
                                                                            Rio, Abril de 1959"
Jorge Amado, in " A Morte e a Morte de Quincas Berro D' Água", Publicações Europa- América, Mira-Sintra, Mem Martins, Junho de 1978