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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

OSCAR WILDE

  

A vida imita a arte, dizia
Wilde, que tudo sempre invertia,
a bem do nosso encanto e alegria,
enquanto a si e a nós divertia.
 
O brilho do irlandês ofuscava,
influenciava e perturbava.
Nos paradoxos que ele lançava,
havia uma luz que abrasava!
 
Ser ou não ser brilhante, eis a questão:
queimados ao brilho daquele sol,
valia tudo, excepto a razão.
 
Aquele luminescente farol,
em lugar de evitar o naufrágio,
fazia dele cintilante apanágio!
                            03.11.2022
Eugénio Lisboa

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Reino

 " O Reino  naquela  época  tremia de frio e de dificuldades. Tinha-se deslocado para a beira-mar, não se sabe bem porquê mas supõe-se fome. A fome vinha do interior e varria tudo para o oceano.
Nesta leva desgarrada, escapavam os camponeses, que tinham a barriga curtida, eram cardos, e que se cravavam na terra como uns danados, à dentada. Acocoravam-se nas tocas e nas dobras das montanhas para deixar passar a ventania, pareciam calhaus, seres empedernidos; depois voltavam ao trabalho, à semente que se enterra e ao fruto que se arranca. Habituaram-se às tempestades, fome para eles era o pão de cada dia.
 Os restantes, os que não tinham conseguido enganar a fúria dos vendavais, fugiram de roldão pelo país fora, atravessando aldeias e planícies, vinhas e repartições, hoje fazendo família neste ponto, amanhã mais naquele, até se verem diante do mar, acossados. Uma vez ali, ou entregavam o corpo  aos caranguejos ou faziam como o mexilhão: pé na rocha e força contra a maré. Daí, o nome de Reino do Mexilhão que lhe pôs a geografia em homenagem (homenagem?) a esse marisco mais que todos humilde, só tripa e casca.
       
       “QUANDO O MAR BATE NA ROCHA
          QUEM SE LIXA É O  MEXILHÃO”
Criatura ( porque o é), criatura à margem, mirrada, coisa pequena; bicho que se alimenta de água e sal, do sumo da pedra, ou de milagres, quem sabe – o mexilhão, oh vida, tem a ciência certa dos anónimos: pensa e não fala, vai por si. Se virou costas à terra foi por culpa dos doutores do interior ( dê-erres, assim chamados) e da conversa em bacharel com que o atacavam; unicamente por cansaço e desinteresse. Na sua condição de habitante do litoral era como o oceano que desabafava, levava os dias a medir o infinito e a remoer o seu ditado preferido: Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão.
Um estrangeiro, mesmo o mais turista dos estrangeiros, não podia deixar de concordar que havia muita verdade no provérbio. Logo que nos outros reinos se declarava guerras ou preços lá vinha o vento a alastrar e quem pagava eram os mexilhões, apesar de não terem culpa nenhuma; se os serranos se deixavam arrastar das suas tocas, sabiam que era contra eles que vinham chocar e viam-se obrigados a fazer parede para não irem cair ao mar. Oh, vida.
Ao cabo de largos anos de experiência estes camponeses pendurados nas falésias, mexilhões no legítimo sentido, tinham criado pé, raízes de limo, obstinados em olhar as nuvens, o quer que fosse. À falta de comida mastigavam os beiços e os pensamentos que lhes trazia a brisa marítima (“ Quando o mar bate na rocha , etc.”) e isso e as rugas de tanto fitarem o além faziam-nos velhos antes do tempo. Nasciam já velhos, parece impossível.” José Cardoso Pires, in “ Dinossauro Excelentissimo”, Livraria Bertrand 

sábado, 12 de maio de 2012

Em Maio, o mês das rosas

"Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
- Mãe!
E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
- Mãe!
E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:
- Coragem!
Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).
E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:
- Bom dia!
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:
- Bom dia!
de cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.
Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:
- Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
- Mãe!
A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto. No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.”
Manuel Alegre,in " Praça da Canção", 1965, Publicações D. Quixote

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um homem sábio

" Cai a chuva , o vento desmancha as árvores desfolhadas, e dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado. Traz um cajado ao ombro, um capote  enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente caminham os porcos, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas da chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir  quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede que tem na frente. A sua cara parece ter sido talhada a enxó, fixa mas expressiva, e os olhos, pequenos e agudos, brilham de vez em quando como se alguma em que estivesse a pensar tivesse sido definitivamente compreendida. É um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filósofo, um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria que não pôde ser nunca. Recordo aquelas noites mornas de Verão, quando dormíamos debaixo da figueira grande, ouço-o falar da vida que teve, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia, do gado que criava, das histórias e lendas da sua infância distante. Adormecíamos tarde, bem enrolados nas mantas por causa do fresco da madrugada.  Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia  terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos  frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?"
José Saramago, in " As pequenas memórias", Editorial Caminho

sexta-feira, 23 de março de 2012

Escuta, Amor

"Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor."

José Luís Peixoto, in 'Abraço', Quetzal Editora

segunda-feira, 19 de março de 2012

O filho a dar o nome ao pai

" Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo  o meu pai  a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário ( chamava-se ele Silvino) estava bêbado ( por despeito , disso o acusaria sempre meu pai) , e que , sob efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu, por sua conta e risco, acrescentar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, não precisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, assinar meus livros. Sorte, grande sorte minha, foi não ter nascido em qualquer das famílias da Azinhaga que, naquele tempo e por  muitos anos mais tiveram de arrastar as obcesnas alcunhas  de Pichatada, Curroto e Caralhana. Entrei na vida marcado com este apelido Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando , para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua e crua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai, a quem , desde que se tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando ,  chamando-se ele unicamente José de Sousa, como ver se podia nos seus papéis , a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um filho  cujo nome completo era José de Sousa Saramago.  Assim intimidado, e para que tudo ficasse no próprio , no são e honesto, meu pai não teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome , passando a chamar-se,  ele também, José de Sousa Saramago. Suponho que deverá ter sido este o único caso , na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias sempre quis e conseguiu que o tratassem unicamente por Sousa."
José Saramago, in " As pequenas Memórias", Editorial Caminho, Outubro de 2006

quinta-feira, 1 de março de 2012

Vergílio Ferreira, para sempre

«Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que
se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha
língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor,
como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do
deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.
»
Vergílio Ferreira


Vergílio  Ferreira, 1916 - 1996,  nasceu  em  Melo (Gouveia), no  dia  28  de Janeiro de 1916. Após oitenta anos ,  morre em  Lisboa a   1 de Março de 1996, ou seja , há 16 anos. Concluiu a Licenciatura em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1940. Foi  Professor de liceu, romancista , ensaísta, poeta. Ganhou vários prémios, entre os quais se destacam  o Prémio Camilo Castelo Branco (" Aparição" 1959), o Prémio da Casa da Imprensa ( " Alegria Breve", 1965), o Prémio Pen Clube ( " Para Sempre", 1984), o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1985, pelo conjunto da sua obra), dois Prémios de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores ( " Até ao Fim ", 1988 e " Na tua Face", 1993), o Prémio Fémina (1990), o Prémio Europália (1991) e o Prémio Camões (1992).
Construiu uma grandiosa obra literária.O talento da sua escrita transformou-o num dos maiores escritores portugueses do século XX. Segundo o próprio Vergílio Ferreira  «um livro é um registo do nosso diálogo com o mundo». Esse longo e magistral  diálogo que tece com o mundo , quer ocorra de uma forma intimista, quer surja em tom provocatório, transporta sempre uma profunda reflexão sobre a condição humana. 
No dia em que  se entrega ao filósofo José Gil o galardão que detém o seu nome,  Prémio literário  Vergílio Ferreira,  dia em que se assinalam dezasseis anos  do seu desaparecimento, é o  tempo certo para voltar a   recordá-lo.  "Cartas a Sandra" de 1996 é uma obra  em registo epistolar, um romance de carácter  fortemente intimista que nos foi legado de forma inacabada. Paulo, também  personagem do romance  " Para Sempre", escreve a  Sandra, a mulher já morta,  e são essas cartas  que preenchem toda a obra. Eis um excerto da última carta: 

" Sandra.(...)Vou ver se ouço, não sei se serei capaz. Penso em ti mas tu não vens, como ouvir sem ti ao pé? É uma música de um prazer que não devia haver na sua dolência melancolia. Vem nela uma amargura terna do que passou, de um lugar incerto, talvez de uma tarde no jardim à beira-rio onde estivéssemos os dois em silêncio. Porque é curioso, raro me lembro do que tivéssemos dito alguma vez. E lembro-me é de te olhar e tu sorrires e não me dizeres nada. E sempre , quase sempre no tempo em que te conheci. Mesmo a tua morte que foi difícil, é muito raro lembrá-la. Também é raro pensar-te quando já envelhecias e eu atravessava a tua imagem até ao tempo do teu esplendor. Porque tu não nasceste para a velhice e a morte. Não franzas o teu rosto, deixa-me dizer. Até ao tempo da tua plenitude, que foi quando os deuses, como te disse, deram o seu trabalho por concluído e te entregaram à vida. A balada enche todo o espaço desta sala, ressoa ainda lá fora na noite. É uma balada de uma longa amargura sem razão, a mais difícil de suportar. E então fecho o aparelho. Mas logo sinto sobre mim a espessura de um silêncio que me aturde. E abro-o outra vez. Era bom que tu fosses mais compreensiva e te sentasses aqui um pouco ao meu lado. E eu prometeria não dizer nada, era só estares. Mas o espectáculo vai terminar. Ouço a balada de despedida nas guitarras como um dobre de sinos. Despedida de tudo, de  nada, é bom ouvir e ceder  um pouco ainda a uma certa dispersão de mim com esta música de um tempo antiquíssimo. E fecho definitivamente o aparelho, venho um pouco até à varanda. A aldeia adormece com a vigília das lâmpadas errantes pelas ruas, a montanha imobiliza-se no seu peso. Tento divisar os caminhos que a percorrem, imaginá-los para a excursão que um dia faríamos  até ao alto. Vejo o choupo ao lado do portão, agita-se  um pouco à aragem da noite. E de súbito, num curto-circuito da memória, lembro-me de quando aqui vieste comigo pela primeira vez. Era o fim do Verão, nós tínhamos ido à praia depois do casamento e eu prometera à Tia Joana estarmos com ela  alguns dias. Vai-nos perguntar se casámos pela Igreja e tu vais mentir-lhe, disseste. Não digas nada, disse eu, deixa o caso comigo. Rolámos no comboio, um em face do outro, tu olhavas os campos verdes com o ar sério e um pouco  distante que sempre te conheci. E eu olhava-te em silêncio, perturbado ainda de que te amava mas pouco depois recuperavas o teu mistério e impossível. E é onde agora te vejo, sempre, quando te penso. Podia pensar-te lembrar-te nos momentos de alguma desavença para que a tua fascinação recuasse para fora de ti. Ou quando simplesmente eu via em ti apenas , como dizer-te? a materialidade que te pertencia. Nunca lembro, estou cego para te ver assim. E o que flutua à minha volta é a tua irrealidade para te amar como nunca te amei." Vergílio Ferreira, in " Cartas a Sandra", Ed. Círculo de Leitores, Maio de 1997 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Do Mar

“Ele é a concretização de dois mundos. Tem o efémero, na renda da espuma que cada vaga cria, e tem ao mesmo tempo, no mar propriamente dito, a essência do tempo, aquele tempo que se converteu em problema e que nos problematiza.” Eduardo Lourenço, Fevereiro 2011

Lusitânia

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in " Mar Novo ",1958, Guimarães Editores

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Seremos puro amor do há

“ (…) Não. O que procuro é ver onde a continuidade do há se fractura, onde muda de registo e de sinais, e se há possibilidade de o dizer sem esperança, nem impostura. «Sem esperança», quer dizer sem ilusão garantida. Quando nos apercebemos que o há é há, não somos só parte dele. Acrescentamos-lhe um ver criador_____criamos, modificando-lhe a paisagem. Nenhum traço se perde, mesmo que tenda a apagar-se. O que hoje me cabe é ver sinais, e projectá-los com toda a força de impacto de que dispuser. Sobrepondo-os e entendendo as consonâncias que desenvolvem entre si. Deixar-me orientar pelo sentido melódico que lhes ouço e aceitar a significação ou senso que resulta, se resultar. Recomeçar o ver todos os dias, tentar que a energia que me gasta me dê mais energia, procurá-la nos filamentos mais ténues do real que tenho à mão, não recear servir-me do estranho que o meu corpo sente e pensa.
Esse estranho é somente um efeito da linguagem do cinismo positivista em que fui criada. Ver é fazer e desfazer. É criar linguagem. E criar-me. Tornar-me um «puzzle» onde um dia se desenha um labirinto, outro dia um morro elevado da paisagem, outro dia um quarto escuro fracamente iluminado pelos ruídos exteriores, outro dia um corredor de amor sereno que atravessa a rua onde se ouvem passos de cavalos por entre melodias e batidas de rock. Não perder o fio, sem ter a obsessão ou a angústia de o perder. E, na hora em que o há se fractura, deixar-me ir, ver onde sou levada, retomar a corrente, aceitar mudar de forma e, a partir dela, reaprender a ver. Nessa hora, dar a mão e sentir as figuras. Horas há em que seremos pura vontade______puro amor do há.”
Maria Gabriela Llansol, in "Inquérito às Quatro Confidências - Diário III", Relógio D´Água Editores, Novembro de 1996

sábado, 21 de janeiro de 2012

A vida não cabe numa teoria

 "A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós.
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar."
Miguel Torga, in "Diário II" (Abrecôvo, 27 de Dezembro de 1941) , Circulo de Leitores

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O mar rebentava sobre os rochedos

“ Poucos dias antes de partir quase passou o dia inteiro na praia, para se despedir do “nosso mar”, e fomos logo de manhã cedo lá para os lados do Nolasco. Desse dia conservo a recordação tão viva como se fosse ontem. Mas haverá expressões adequadas à descrição de dias tais? O mar, de vaga larga, rebentava sobre os rochedos da costa, enchendo de espuma todas aquelas ruínas de castelos fantásticos, nesse dia mais monumentais do que nunca. Mas foi caindo pouco a pouco e à tarde aparecia calmo, claro e cristalino, todo semeado de leixões multicolores. À volta, já quase noite, parámos no convento; o rio, em frente a Ferragudo, era de puro lilás que por toda a bacia se dissipava em gradações de lilás azulado, sob um céu de inalterável azul, esfumado de fogo. A serra parecia pegada à vila e soltava as pinceladas de púrpura que engrossavam a poente, e agitavam-se em rede que subia pelo céu.
Perante este espectáculo Maria Adelaide, que vinha palrando alegremente, emudeceu; o seu rosto tomou a expressão de êxtase, e de repente, apertando-me de encontro ao seio, murmurava-me ao ouvido, como quem diz um grande segredo:
_ « Que lindo que isto é …, quem pudesse andar vestida com estas cores… tu até havias de gostar mais de mim…»
Surpreendeu-me deveras este despertar para as belezas do mundo externo, e senti como que um novo laço a prender-nos os corações…”

Manuel Teixeira Gomes, in “ Maria Adelaide”, Romances Portugueses – Obras-Primas do Século XX coordenada e dirigida por David Mourão Ferreira, Círculo de Leitores 1986

Vista de Ferragudo

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A sorte de ter nascido

“ A saudade que dói mais fundo - e irremediavelmente - é a saudade de nós.”
                                                                                  Mário Quintana


“Entre uma infinidade de hipóteses de não teres nascido, saiu-te a sorte de teres nascido. Se te tivesse saído a “sorte grande”, haveria gente que se admiraria de isso te ter acontecido. Tu mesmo dirias talvez que parecia um “sonho”, que era inacreditável, que ainda não tinhas caído em ti do assombro. Mas essa sorte foi a de um número entre dezenas de milhares ou mesmo centenas. Mas teres nascido é ter-te saído a sorte entre biliões e biliões e biliões de hipóteses negativas. Saiu-te o número inscrito numa areia do universo. Tens pois o privilégio incrível de veres o sol, as flores, os animais. De ouvires as aves e o vento. De e todavia, como esqueces isso tão facilmente. Breve tudo se te apagará em silêncio. Breve a oportunidade de estares vivo cessou. Provavelmente ninguém mais saberá que exististe. E mesmo dos que o souberem, não se saberá um dia. Num momento não muito longínquo morrerá o último homem sobre a face da Terra. Esse é, aliás, o momento da tua própria morte, porque tu és o primeiro e o último homem que nasceu. Tudo é rápido e contingente e miraculoso. Tudo é rápido e sem consequências. A única consequência és tu e a vida que viveres. Não a desperdices. Não inutilizes a fabulosa sorte que te calhou. Vê. Ouve. Pára, escuta e olha, que a morte vai a passar. E terás cumprido ao menos, para com o universo, um pouco do teu dever de gratidão."
Vergílio Ferreira, in “Pensar”, Bertrand Editora, 1992, 3ª Edição

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Fernando Pessoa em “ O Devir -Eu "

"Aos estudiosos ( e também, por que não, aos simples curiosos) da obra de Fernando Pessoa, este pequeno volume de José Gil que nos tem habituado a leituras sóbrias, aparentemente simples mas sempre incisivas da criação em Fernando Pessoa.
Este devir-eu, esta forma de nos dizer de que modo, entre outros, Pessoa se foi encontrando a si mesmo - pelos caminhos múltiplos da sua própria obra - recolhe um conjunto de reflexões feitas a partir do Livro do Desassossego, da Correspondência de Ofélia-Pessoa, e da função do inconsciente da Sensação no poema Passagem das Horas.
Três ensaios, três leituras obrigatórias.
No meu caso, que sempre me apercebi da estruturação, da função e do peso do inconsciente na obra de Pessoa, é-me especialmente agradável, dezenas de anos depois, encontrar uma leitura que não é igual (nunca o poderia ser ) mas devolve a essa função da nossa psique o seu lugar na obra de um dos nossos maiores poetas.
Faltaria, mas não foi intenção do autor e a sua liberdade tem de ser respeitada, a referência ao papel que a paixão pelos conhecimentos esotéricos, iniciáticos, desempenhou, tanto na produção poética como na relação, que se viria a quebrar, com a sua namorada. Ofélia queria um casamento tradicional, filhos, família; Pessoa queria atingir, na Iniciação, o ponto mais elevado. Se o atingiu é segredo bem guardado - mas sabe-se que sonhou, sabe-se que estudou, aguardando um sinal..
Relembro, pois tem sido um trabalho de cuidadosa investigação, recolha e transcrição de inéditos do espólio, o volume X da edição crítica de Fernando Pessoa, sobre o Sensacionismo e outros ismos. (Mantenho, na citação, a escrita do original)
Num apontamento de 1914 declara o poeta que tomou a decisão de ser ele mesmo:
"Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver á altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a idéa do reclame, e plebêa sociabilização de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Genio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu caracter nato quer que eu seja, e meu Genio, com elle nascido, me impõe que eu não deixe de ser.
Attitude por attitude, escolher a mais nobre, a mais alta e a mais calma.Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios á plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palahaço; é de renuncia e de silencio que se veste
(...) Recobrei - ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de 'lançar o interseccionismo' - a tranquila posse de mim.
Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.
(...)
D'oravante vêr se estudo, trabalho, elaboro. As minhas angustias espirituais continuarão em muitos pontos; mas n'um cessaram, na busca de mim que, no amago de tudo, me trazia irrequieto porque não me encontrára.
Marinetti, tudo isso - o grau superior de clown, mais nada.
Associar-me menos com os outros.
Deus esteja comigo".

Mas não esqueçamos que se trata aqui de recolha de fragmentos soltos, ordenados, quando possível, por datas, e que logo noutros momentos a decisão que parecia definitiva é contrariada por outras propostas e reflexões filosóficas e estéticas que recuperam, com minúcia, o caminho aparentemente antes recusado.
Na sua ânsia de extrema liberdade tudo afinal deseja experimentar.
O poeta é de pensamento irrequieto, como ele próprio reconhece, e o seu desejo de tudo abarcar, tudo pensar, sentir e sistematizar, mais para si do que para os outros, cai em contradições que, embora despoletem momentos de genial criação, não lhe permitem levar até ao fim um modelo que se pudesse dizer coerente, completo e disponível na sua universalidade.
Os modelos teóricos de Pessoa são, no fundo, para uso próprio, exclusivo, - não terá nem poderia ter seguidores, e é isso que faz dele, entre outras coisas, o ser múltiplo e único que ele é."  Yvette Centeno , in “Literatura e Arte”

sábado, 5 de novembro de 2011

Um sorriso claro solar


"Mas insensivelmente os lábios foram-se separando um pouco. Um dente. Subtil iluminado de pacificação, serenidade alegria de ser - se te demorasses um pouco. E seres aí a vida rodeada de verdade por todos os lados. Um dente visível. Mas os lábios separaram-se mais e são agora um sorriso claro solar. E instintivamente deixei que se demorasse aí até eu poder reconhecer-lhe o esplendor. É um riso, não vou cometer a imprudência de o perder. Está na linha do céu e do mar, não vou. A juventude sem uma força excessiva de o ser. A confiança - não vou. O futuro dos séculos a quererem vir. A segurança contra o medo a vileza a degradação. A morte. Nem na realidade há nele futuro algum. Porque todos os séculos do futuro e do passado se conglomeram ali no instantâneo presente. O riso. Sem olhos nem face. Nem cabelos. Porque toda a sua ausência está lá. São olhos iluminados de uma festa terrível, cabelos de ar. Fixar-te para sempre, riso da minha pacificação."
Vergílio Ferreira, in "Na Tua Face", Bertrand Editores, 1993 *

*"Na Tua Face" é um dos últimos romances de Vergílio Ferreira e aquele que mais traduz uma aspiração do próprio autor.Ser pintor tal como Daniel,a personagem deste romance. Em "Conta-Corrente", obra diaristica, Vergílio Ferreira anotou: «Não preferi a minha arte. Calhou-me. Ou talvez seja essa a sorte de todas as preferências: escolhe-se sempre o que nos coube, ou seja o que se é. Mas a verdade é que, se na escolha se escolhesse, escolheria a pintura».

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Mapa do Tesouro

Este livro, “ O Mapa do Tesouro” de Egito Gonçalves, é todo ele uma obra de arte, desde a impressionante harmonia gráfica e o desenho de David de Almeida aos notáveis poemas em prosa de Egito Gonçalves, belíssimos pela originalidade imagética, pelo tratamento subtil dos temas do amor e da viagem, da descoberta do outro. Egito nunca exprimiu com tanta força e novidade o encantamento amoroso, o olhar dos amantes na mesma direcção, a figura da mulher como guia e como luz no percurso da existência.
A vitória do amor sobre a morte, o achamento desse estado de suprema euforia, di-lo Egito Gonçalves em muitos destes poemas e especialmente no que concretamente se refere à «ilha do tesouro». «A Solidão é uma paisagem árida, uma perdida ilha rochosa, onde cada um de nós é um país secreto no fundo do horizonte. O mapa do tesouro é o encontro com o outro, a descarga entre pólos que revela uma nova paisagem cujos elementos dispomos ao longo dos dias nesse jogo de olhares que pode fazer nascer flores carnívoras ou campinas suaves sobrevoadas pelo canto dos pássaros azuis. Só então sabemos como deter o inexorável.» Recensão de Urbano Tavares Rodrigues, in " Rol de Livros, Leitura Gulbenkian", 1998



”Beijo não é palavra  de  poema. É o  raiar da  madrugada, o  anúncio de  um dia longo, o final da tensão que ameaçava partir a corda: podemos escolher imagens, comparações, fazer literatura. Será sempre outra coisa, meu amor, o beijo do poema. É como o branco que dizem ser a fusão de todas as cores. Não se retira um beijo do poema, este é apenas a fotografia de alguns pormenores. Um beijo é o corpo que antes não existia e ali nasce, uma nova estrutura óssea que suporta um pulsar único, um aposento onde o esplendor apaga todas as lágrimas que conseguiram viver até chegar ali."

"As palavras são mágicas, sobretudo quando se proferem para afirmar o amor. A primeira vez que o fizeste, atravessaste a rua sob a chuva, pensando que eu ficaria no lugar, preso à música da afirmação. Enquanto entravas no carro, ligavas o motor e arrancavas, eu saí do meu corpo para te seguir. Passeámos de mãos dadas na orla de uma floresta de castanheiros, olhando os ouriços maduros e dourados por cima dos quais voavam aves que no momento não nos preocupámos em identificar."
«Os meus dedos percorriam os teus, falange, falanginha, falangeta, como se interrogasse as pétalas de um afirmativo malmequer. Para lá dos vidros, o som das nossas vozes apagava-se, marulhava nos nossos ouvidos como um oceano secreto contido numa concha. Outubro era um teclado, uma página aberta, um arbusto de veias».

"Entre o teu sono e o meu há um estreito corredor que ao olhar dos outros se apresenta como um simples espelho. Atravesso-o para encontrar os lábios que no sono me procuram, realizando-me como sombra amável que se transfigura no clima lunar de uma paixão que soube evitar os violentos tremores de terra. O sono é um país enevoado onde nos insinuamos, fingindo ser fantasmas, pássaros invisíveis, pelo prazer de criar um jogo no qual a meia-noite figura como simples referência de um beijo que une os dois seres que na noite profunda dormem um para o outro."

“Uma declaração de amor não é acontecimento de domínio público, uma baleia que vara na praia sob o sol dos desastres e convoca multidões, desalinhando hábitos quotidianos; uma declaração de amor é um acto de grande intimidade que ergue um véu transparente de onde brotam mel e pássaros azuis. As palavras directas ou indirectas, ditas ou escritas, suscitam a carícia única, irrepetível, a leve percussão que desenha no silêncio a imagem do que se ama. E assim terá de se guardar. Num lugar seguro onde os sismos não possam encontrar o mapa do tesouro.”
Egito Gonçalves, in “ O Mapa do Tesouro”, Editora Campo das Letras, 1998 , Colecção “O Aprendiz de Feiticeiro”

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O fascínio da heteronímia pessoana

«Fernando Pessoa e os heterónimos»
Pintura de Costa Pinheiro (1976)
A heteronímia pessoana tem cativado o olhar de muitos estudiosos , mas também tem sido uma excelente fonte para a criação literária. Em 2008, Mário Cáudio publicou a novela "Boa Noite, Senhor Soares”, (Lisboa, Dom Quixote) em que Bernardo Soares é uma das personagens. A apresentação da novela foi feita por Emílio Rui Vilar que traçou alguns dos aspectos mais relevantes da obra. Revisitar este livro é o propósito a que nos dispomos hoje, pelo que transcrevemos um excerto precedido do texto de Rui Vilar.
Da Apresentação :
“Fernando Pessoa continua a fascinar. Mário Cláudio não escapou e vai fascinar o leitor com esta revisita ao heterónimo Bernardo Soares . Aliás, um semi-heterónimo, como o próprio Fernando Pessoa o definiu, na célebre carta a Casais Monteiro que aqui vou lembrar: «O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade.»
Bernardo Soares é portanto uma personalidade reservada e enigmática que se esconde atrás do seu criador e com ele se confunde. E, se no prefácio de Fernando Pessoa, ele mesmo, ao Livro do Desassossego, afloram elementos que permitem vislumbrar o seu autor, talvez esses elementos conduzam o leitor a concluir que o traço central da personalidade de Bernardo Soares seja precisamente a sua recusa em expor a circunstância da sua vida.
Tomá-lo para personagem central de uma história, como Mário Cláudio faz neste livro, poderia sugerir uma quase total reinvenção. Mas não me parece ter sido essa a opção do Autor. Preferiu enveredar por um caminho bem mais difícil, mas muito mais consentâneo com o semi-heterónimo de Pessoa.
Para se manter fiel, em primeiro lugar ao criador, Fernando Pessoa, e em segundo lugar a Bernardo Soares, o autor baseou-se em referências dispersas no Livro do Desassossego. E recorreu a um artifício engenhoso, que vai envolvendo o leitor. Um processo de aproximação progressiva, em que o visado (Bernardo Soares) quase sempre joga às escondidas, protegendo a sua privacidade de um olhar directo, mas que atrai irresistivelmente a curiosidade.
Mário Cláudio escolheu para personagens alguns nomes que surgem no Livro do Desassossego, e passo a citar: «Se houvesse de inscrever […] a que influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório.»
Para narrador da história, Mário Cláudio escolheu o moço do escritório, António, talvez por ser o mais novo, o mais ingénuo e por isso mais capaz de ser tocado por aquele ser estranho com quem convive à distância no escritório do patrão Vasques.
Em “Boa Noite, Senhor Soares” recebe um nome completo — António da Silva Felício — e é um jovem acabado de chegar da província, mais precisamente de Escalos de Cima, concelho de Idanha a Nova, para se empregar como aprendiz de caixeiro no escritório de um armazém de venda a retalho da baixa lisboeta, na prosaica Rua dos Douradores, onde o senhor Soares é tradutor.
Com a simplicidade própria de quem nada conhece, António tudo e todos observa com atenção. E limita-se a descrever o que presencia, como se o fizesse quase apenas para si próprio, sem emitir juízos.
Desde o primeiro momento que o rapaz fica preso à figura do Senhor Soares que, segundo diziam os seus colegas, «embora não se distinga de qualquer outro sujeito, a verdade é que deu sempre mostras de ser um bocadinho esquisito» (p. 18).
(…)Evocação pessoana ou alegoria sobre a juventude, ou ambas, este livro é para ler, suavemente, da primeira à última página, sem parar.” Por Emílio Rui Vilar, publicado em 9.9.2008 na secção Recensões Críticas da Revista Colóquio Letras. (Este texto teve como base a apresentação do livro em Lisboa e foi publicado no JL de 2-15 Julho de 2008.)

Da novela " Boa Noite, Senhor Soares" :
"Declarariam depois que o senhor Soares se não distinguia de qualquer outro sujeito, mas a verdade é que ele dera sempre mostras de ser um bocadinho esquisito. Espiávamo-lo no seu posto com uma ruga na testa, a tentar traduzir nas cartas que redigia aquelas designações antigas, e aqueles números que era indispensável reduzir a jardas, a polegadas e pés. Nos dias em que se achava menos aborrecido o senhor Soares gostava de falar com os rapazes sobre certos tecidos que eram a seda, originária de Samarcanda, ou os brocados, provenientes de Isphaham, e ficava, muito pensativo, a fumar os seus cigarros de onça que lhe crestavam os dedos. Ele olhava para nós com toda a atenção, fixando a vista no senhor Moreira, no senhor Borges, nos caixeiros, no moço, e até mesmo no gato Aladino, com uma espécie de ternura que nos assustava, e acendia outro cigarro, e voltava à sua escrita. Não faltava quem lhe fizesse notar que como tradutor andava a ser explorado, pagando-lhe o patrão Vasques muito menos do que aquilo que ele se recusava a que me trocassem por um novo, e mergulhava nele a pena com o maior dos vagares enquanto ia pensando em coisas que não deveriam ser deste Mundo. Perto do sítio onde o senhor Soares trabalhava, e por cima do lugar onde costumava sentar-se o Alves, um maluquinho que tivera alta do Miguel Bombarda, e a quem por esmola consentíamos que nos dobrasse as folhas de papel pardo, e enrolasse os retroses das encomendas que recebíamos, estava um calendário de 1931 que ninguém quisera tirar da parede. O senhor Soares punha-se a fitá-lo com grande concentração, e acabava por sorrir para aquela gravura da rapariga de lábios vermelhos, de fita rosa nos negros cabelos, de blusa de decote aberto, e a abraçar um molho de papoulas. Surpreendíamo-lo noutras ocasiões, a examinar com minúcia o mata-borrão, e percebíamos que o senhor Soares se sentia fascinado pelos rabiscos que tinham sido mal absorvidos, todos negros porque ele só usava tinta dessa cor, e salpicados de borrões que se assemelhavam a ilhas no meio do nevoeiro. Cheio de curiosidade, atrevi-me a ir verificar uma vez o que lá se encontrava estampado, e descobri a assinatura dele, do senhor Soares, às avessas, e ao invés, mas fui-me logo embora com a ideia de que tinha cometido urna indiscrição que não se desculpava. A minha maior surpresa aconteceu porém numa tarde em que estávamos apenas os dois no escritório, e o senhor Soares saiu sem uma palavra, deixando-me sobre a secretária um barquinho de almaço pautado, e com este nome no casco, desenhado a lápis, António. Nunca o meu pai construíra para mim fosse o que fosse que a isso se comparasse, e eu guardei o barquinho durante longo tempo na gaveta onde tinha o fio de oiro que me oferecera a minha mãe, e o terço branco da comunhão solene. Mas havia momentos mais raros em que o senhor Soares nos causava bastante sobressalto, atirando de repente com a caneta para a secretária, e divertindo-se a vê-la rolar pelo declive do tampo. Foi isso o que sucedeu na manhã em que descortinou na borda do tinteiro uma mosca-varejeira nojenta, e em tons de verde e azul-escuro. O senhor Soares levantou-se do banco, e dirigiu-se à porta das escadas sem se virar para o espelho como se o espelho pudesse assassiná-lo. Tirou o chapéu do cabide, e nem sequer se despedindo como era seu hábito, fui eu quem disse muito em surdina, «Boa noite, senhor Soares.»
Mário Cláudio, in "Boa Noite, Senhor Soares", Dom Quixote Ed., 2008

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Vitorino Nemésio (II) e (III)

A VOZ SUPLICANTE DO ILHÉU (II)
Por Varela Pires
Voltemos a Vitorino Nemésio.
“Mau Tempo no Canal ” é simultaneamente o centro do julgamento da clausura insular e o acicatado desejo de fuga, no principal romance da viagem eterna de todo o ilhéu ao encontro da sua ilha perdida, reflectindo também os sonhos e os desejos que formaram o carácter de Nemésio.
É na tensão existente entre essa “ilha perdida” que todo o açoriano procura os seus dias futuros, constrói o seu projecto de vida. E Nemésio não poderia ficar indiferente a essa obsessão da Língua, à pronúncia característica, como uma carícia, às suas potencialidades, verdadeiro elo de ligação de todos, vivendo a dor do isolamento que o discurso poético se povoa de vivências carregadas de emoção.
“Meus degraus ainda têm a passada do adeus. / Lá, quando uma palavra cria tudo / E o resto, fechada a porta, / É posto nas mãos de Deus.”
O verso de Vitorino Nemésio é a emoção em si, a renúncia escrita nas vagas de um oceano que é mais de partida do que de chegada, uma singular tristeza sempre escondida pela bruma de um choro em fundo, tão permanente e soletrado como o céu espelhado nas caldeiras vulcânicas.
Seria loucura nossa pretender escrever sobre a obra de Nemésio num modesto artigo… Contudo, há dias, folheando apontamentos, deparámos com um belo poema dos últimos anos de vida do poeta, poema que em tempos nos merecera atenção especial, numa palestra que então proferimos em Angra do Heroísmo, na sua Ilha Terceira, nos Açores.
Vitorino Nemésio fora mação (entrara na Maçonaria aos 28 anos, quando termina o curso de Filologia Românica em Coimbra), e depois de tremendas crises religiosas (ele fora educado desde o berço por seus pais e avós na religião Católica…), já para o fim da vida, inconformado, “pede misericórdia a Deus - Pai”, ao mesmo tempo que se especulava no meio universitário a sua inesperada reconversão ao espírito cristão. Todavia, tudo isto é sempre uma questão do foro íntimo… Não nos vamos prolongar.
Eis, pois, o seu enternecedor poema a que deu o título “Prece”:
“Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado, / Como quem deixa à porta o saco para o pão. / Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado. / O que for, assim seja, à tua mão. / A tua vontade se faça, a minha não.”
“Senhor, abre ainda mais o meu lado ardente, / Do flanco de teu Filho copiado. / Corre água, tempo e pus no sangue quente: / Outro bem não me é dado. / Tudo e sempre assim seja, / E não o que a alma tíbia só deseja.”
“Se te pedir piedade, dá-me lume a comer, / Que com pontas de fogo o podre se adormenta. / O teu perdão de Pai ainda não pode ser, / Mas, lembra-te que é fraca a alma que aguenta: / Se é possível, desvia o fel do vaso; / Se não é, beberei. Não faças caso.”
Este poema escrito pelo poeta, por Vitorino Nemésio, por um homem resignado e suplicante, poema incluído em “O Verbo e a Morte”, é acima de tudo o “Eu” que reflecte a solidão e o conformismo perante as leis da vida, atingindo o zénite no momento que a morte se prepara.
Há nele a presença da luz que o exame de consciência traz, num gesto confessional de quem se encontra já no patamar da transição de uma vida para uma outra existência enigmática e desconhecida, sede de um provável juízo final, onde as almas serão julgadas pelo que fizeram ou deixaram de fazer na altura própria, na sua existência terrena.
É um poema que carrega um pausado e natural cansaço, um desespero e pessimismo finais, de quem está acabando de cumprir, mal ou bem, uma vida corporal, demasiado rente ao chão.
Extasia-nos esta poesia vertical, cheia de musicalidade intrínseca, que insistentemente aponta para o alto, mesmo quando o homem de que fala não consegue libertar o seu corpo da terra em que acabará por tombar, no sepulcro em que terminará por se confundir, por vir a ser nada, nada tendo sido.
Estamos perante um poema – oração, plasmado de humilde e humilhada sinceridade, com as cores pálidas e chagosas do que é julgado perante Deus, desfalcado, esperando o perdão do Rei do Universo a quem chama Pai, e de quem em última instância espera o perdão final e único.
                    MESTRE VITORINO DA PRAIA (III)
              Vitorino Nemésio
Escritor, poeta, filósofo, pensador livre, jornalista, professor universitário, conferente, académico. Um português ilustre.
Mação, também, como se frisou em artigo anterior, desde a sua juventude percorrida na universitária Coimbra, mas um mação talvez pouco convicto.
No entanto, Nemésio acaba os seus dias num grande e emocionante reencontro com o Deus da sua infância, entrevisto na piedade do meio familiar, onde a missa dominical e a reza diária do terço era obrigação imperdível. Com o Deus apreendido na comunidade cristã de Vila Praia da Vitória, o Deus insular, retratado na vida piedosa daquelas santas tias que o mimaram de uma forma inesquecível, almas espectrais memorizadas em diversos percursos da obra literária de Nemésio.
“Tua vontade se faça, a minha não.” (…) “O teu perdão de Pai ainda não pode ser.”
Como o Crucificado no Calvário, o poeta implora um possível perdão, um possível afago, numa cadência arrastada de arrependimento e verdade, na forma dialogal, donde a palavra poética de que o verso é tecido emerge isenta da poalha com que se vestiu no mundo: “Mas lembra-te que é fraca a alma que aguenta: / Se é possível, desvia o fel do vaso; / Se não é, beberei. Não faças caso.”
Oração da hora da abalada, acto de contrição nimbado de uma acolhedora réstia de fé, de confiança quase cega, de abandono nas mãos do Eterno.
Nascido do húmus, crescido nesse basalto negro de formas caprichosas, surgido da bruma incessante das Ilhas, percorrida a vida, a vida toda, o poeta suspira pelo amor ou pela criação.
Suspira por ser elevado à condição divina, depois de cumprido o caminho, de um longo peregrinar de sonhos e quedas, feito de aprendizagem e do erro, do prazer e do sofrimento, das múltiplas vivências inesquecíveis.
Agora, nada mais fica, nada mais resta ao poeta e ao homem que aparecer perante Deus, perante o Criador, munido do saco para o pão, do saco vazio, como mendigo e suplicante, saco de quem esbanjou as manhãs e as tardes e as noites e chegou impreparado à hora em que se define o problema da salvação, em que nenhum outro credo importa, a esse momento de prestar contas de cristão, contas de cristão arrependido.
Aguarda a tolerância, a bondade misericordiosa do Divino, porque vai em busca da prometida felicidade escrita nos Evangelhos.
Fica-nos, pois, escutado este dialogado e rezado poema, o tom sublime da precariedade no melhor que a poesia de Vitorino Nemésio nos pode oferecer, em termos de comunicação coloquial, confessional.
O Professor Doutor Vitorino Nemésio, de seu nome completo Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, fará a 19 do próximo mês de Dezembro cento e dez anos que nasceu nos Açores, na Vila Praia da Vitória. E mais. No próximo ano, em 2012, a 20 de Fevereiro completar-se-ão 34 anos sobre a data do seu falecimento no Hospital da CUF, em Lisboa.
É bem certo o aforismo que diz que o homem nasce onde nasceu e irá morrer onde nunca esperou morrer. Como Vieira, sete palmos de terra para nascer, e um mundo inteiro para morrer…
Que se tem projectado a nível nacional para comemorar tão ilustre cultor da Língua Portuguesa, tão inigualável conversador, poeta, escritor, e professor? De momento, não temos conhecimento de qualquer projecto, nem no âmbito nacional, nem no âmbito regional, mais propriamente nos Açores.
Nemésio. Senhor de uma vastíssima e diversificada cultura, génio da palavra escrita e da palavra falada, hoje relembrado com saudade por gerações de alunos universitários, de amigos, de admiradores. Muitos fora do país.
Vitorino Nemésio no convívio privado era galhofeiro, gostava da brejeirice, da anedota, da pequena história, de evidenciar os seus admiráveis dotes de observação. Alegre, também. Sim! Porque, parafraseando São Francisco de Sales, um professor triste não passa de um triste professor, não é?!...
Nemésio. Por vezes, não se levava muito a sério, a ele próprio… Todavia, era perspicaz, e sentia-se à vontade no convívio alegre e franco quer com os seus colegas, quer com os seus estimados alunos. Sobretudo, impressionava o seu respeito pelo aluno, e pelo trabalho de investigação que o mesmo desenvolvia.
Em suma. Um homem sério, sabedor, dotado de uma irrequietude de espírito que impressionava.
Mestre (sábio) Vitorino Nemésio. Mestre?!... Porém, Vitorino não gostava que lhe chamassem “sábio” ou “mestre”… Porque, para ele, Mestre, verdadeiro Mestre tinha seu avô, pescador, homem grande, toda uma vida dedicado à faina do mar. E a provar isto, esta asserção, a replicar a memória do seu versejar espontâneo, aí estão á laia de exemplo os versos da sua autoria e de índole biográfica, com que terminamos…
“Mestre Vitorino da Praia, / Meu avô, homem discreto? / Para que levaste o tino… / Que não deixaste ao neto?...”
O título desta crónica aplica-se, por conseguinte, ao avô de Vitorino Nemésio, o “Mestre Vitorino da Praia”…, embora todo o conteúdo da mesma continue a celebrar os cento e dez anos do nascimento dessa grande figura da cultura portuguesa que foi o Professor Doutor Vitorino Nemésio.
VARELA PIRES