sexta-feira, 7 de maio de 2021

A LÍNGUA PORTUGUESA (1)

A LÍNGUA PORTUGUESA

 Ao Nuno Pacheco, persistente e corajoso campeão, na aguerrida luta contra o Acordo Ortográfico, que tanto tem desfigurado a ortografia da língua portuguesa.

por Eugénio Lisboa
"Passou em 5 de Maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Fui, com prazer, participar numa sessão de gravação de um programa que a Câmara de Oeiras em boa hora promoveu, para assinalar esse Dia. Tive o prazer de aí ter tido, como parceiro de conversa, o Dr. Rui Soares, grande autoridade internacional na área do Provérbio, e, como moderador inteligente, culto e dinâmico, o Dr. Mário José Silva. Tinha pensado em ali ler algumas homenagens prestadas à língua de Camões, ao longo dos séculos, por alguns poetas de Portugal e do Brasil. Porém o rumo que tomou a conversa não o proporcionou e quero, portanto, fazê-lo aqui.
A língua portuguesa, como todas as línguas vivas, tem evoluído, enriquecendo-se de novos vocábulos a que o progresso obriga e de novos enfoques e conotações que um novo contexto sugere. Os escritores, sobretudo os poetas, mas não só, acrescentam-na, com imaginação e com vigor, não só criando novo léxico como, também, como acima dissemos, usando palavras conhecidas, em contexto diferente e com sentido um pouco distante do usual, com efeitos inesperados. O poeta Paul Claudel dizia isto mesmo, numa formulação inconfundível: “Ce sont les mots de tous les jours et ce ne sont pas les mêmes” (“São as palavras de todos os dias e não são as mesmas.”) Quando Cesário Verde, num poema, se mostra embevecido por uma mulher “aromática e normal”, o adjectivo “normal” parece aqui um pouco frágil e deslocado para significar o que uma mulher possa ter de particularmente atraente: ninguém se lembraria de incluir, entre as seduções de uma mulher, a sua cinzenta “normalidade”. Simplesmente, para o Cesário tuberculoso e condenado a uma morte prematura, a mulher “normal”, isto é, saudável, isto é, “vigorosa”, reveste-se de suprema sedução. Ela era a vitalidade, a força que ele já não tinha e que, da força dela, se alimentava. Nada atrai tanto o frágil e vulnerável como o forte e saudável: o normal. Quem as leu, nunca esquecerá as páginas extraordinárias de Tolstoi, na sua pequena novela, A Morte de Ivan Ilitch, nas quais nos dá o protagonista, um idoso juiz, a morrer de cancro, já muito debilitado, mas a sentir-se todos os dias revigorado, quando um forte mujique lhe dava banho e o ajudava a cuidar-se, com os seus braços possantes: era como se a energia rude mujique se transmitisse, por milagre, ao pobre moribundo. A palavra “normal”, no verso célebre de Cesário, foi ali colocada com sábia pontaria, adquirindo um poderoso significado que não é o significado corrente e baço que lhe é dado por quem a usa.
Os poetas, os escritores em geral, em suma: os autores, são aqueles que aumentam a língua. Auctor era o título que os antigos romanos davam aos seus generais que acrescentavam o território, por conquista. Os verdadeiros escritores também aumentam o território da língua, de várias maneiras. Os três grandes acrescentadores da língua são o povo, as crianças e os escritores. Não os filólogos. O grande Anatole France, que merecidamente herdou o manto de Voltaire, escreveu estas belas palavras sobre os fazedores das línguas: “O povo faz bem as línguas. Fá-las imaginosas e claras, vivas e expressivas. Se fossem os sábios a fazê-las, seriam baças e pesadas.” O que é bem verdade. Conta-se que um dia no Porto, Camilo Castelo Branco ia por uma rua e viu uma vendedora, que era guapa de cima a baixo. Não resistiu a fazer-lhe um piropo. Camilo tinha, como se sabe, a cara picada das bexigas. A vendedora, ao ouvir o piropo atrevido, virou-se para ele e, fitando-o, disparou: “Cale-se, aí, seu cara de areia mijada!” Se isto não é fazer um uso criativo da língua, criando espontaneamente uma imagem inesquecível, vou ali e já venho. E são inúmeros os dizeres populares magnificamente expressivos e contundentes: “Meter o Rossio na Rua da Betesga”; “Diz o roto ao nu”; “Chove a potes”; “Nunca mais é sábado”; “Ficar a ver navios”; “Tirar o cavalinho da chuva”; “Quem tem boca vai a Roma”; “À sombra da bananeira”; “Engolir sapos”; “Dor de cotovelo”, etc. Poderia citar para cima de uma centena de expressões populares tão vivas e imaginosas como estas.
Por fim, as crianças: há quem tenha coleccionado dizeres espontâneos de crianças, revelando uma imaginação associativa prodigiosa e invejável. Dizia um poeta que todas as crianças têm génio, mas que os adultos acabam por fazê-lo embotar, por não o reconhecerem e até o travarem. Um só exemplo: uma criança a quem o pai deu, pela primeira vez, uma bebida gasosa, reagiu com estas palavras: “Sabe a pé dormente…”, assim construindo uma sinestesia não indigna da que fez Rimbaud, no célebre soneto das vogais coloridas.
A língua é, muitas vezes, a única pátria possível para os que já não têm a sua pátria de origem. O escritor francês Antoine de Rivarol (1753 – 1801), monárquico em tempos de revolução, teve de fugir de França, para salvar a vida. Como tantos outros escritores, andou por vários países, mas nunca mais regressou à sua pátria, que se afundara no Terror. Sem pátria, agarrou-se à única que lhe restava e gravou, para a posteridade, esta cintilante medalha: “A minha pátria é a língua francesa.” Rivarol foi um notável pensador aforista: embora conotado à direita, deixou aforismos que qualquer aforista de esquerda teria reivindicado. Por exemplo: “É preciso haver fome de pobreza para se gozar bem de riqueza.” A sua intensa assunção da língua, como pátria substituta, teve herdeiros: Fernando Pessoa (“A minha pátria é a língua portuguesa”); Hermann Hesse (1877 – 1962), grande escritor alemão fugido ao nazismo e tendo-se fixado na Suíça, escreveu: “A minha pátria é a língua alemã”; e Albert Camus (1913 – 1960), tendo perdido a sua Argélia sem completamente ter ganho a França, assim resumiu a solução para o conflito que o dilacerava: “Tenho uma pátria: a língua francesa.”
Fernando Pessoa viveu sempre em Portugal, depois de ter crescido linguística e culturalmente na inglesa Durban, o que o levaria a sentir-se sempre um pouco estranho, no meio de portugueses, que não eram bem como ele: caracterizou-os com acutilância de quem os via de fora, chegando mesmo a achá-los cómicos. Sem pátria que se dissesse, agarrou-se ao português deslumbrante de Vieira e tornou-se poeta português. Mas Pessoa dominava de facto duas línguas e foi o conhecimento profundo do inglês que o ajudou a melhor aprofundar o português. A comparação de duas línguas fomenta o melhor conhecimento de ambas. Já o grande Goethe o dissera: “Quem não conhece línguas estrangeiras, não sabe nada sobre a própria.” Os escritores portugueses que mais contribuíram para a modernização do português foram os que andaram lá por fora: Garrett, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Jorge de Sena.
Darei agora alguns exemplos de homenagens prestadas por autores de língua portuguesa à língua que lhes foi pátria e casa. Darei, por agora, alguns, deixando para o meu próximo “post” o resto.

ANTÓNIO FERREIRA

(1528 – 1569)

Floresça, fale, cante, ouça-se e viva

A Portuguesa Língua e já onde for

Senhora vá de si soberba e altiva.

Se téqui esteve baixa e sem louvor

Culpa é dos que mal a executaram.

Carta a Pedro de Andrade Caminha

(Excerto)

OLAVO BILAC

(1865 – 1918)

LÍNGUA PORTUGUESA

´´Ultima flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, flor e sepultura:

Ouro nativo que, na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela…

 

Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela

E o arrolo da saudade e da ternura.

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te ó rude e doloroso idioma,

 

Em que da voz materna ouvi: “meu filho”!

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O génio sem ventura e o amor sem brilho.

TERESA RITA LOPES

(1937 -     )

PALAVRAR

As crianças começam a chilrear palavras

antes de saber falar.

Saboreiam-nas como a mama das mães.

Ficou-me na língua desde então

 o gosto das palavras.

O dicionário não regista o termo

- ignorância sua!

O neologismo é do Pessoa.

Palavrar faz crescer, dilatar as papilas,

apetecer comer o mundo,

apura o paladar do ser que somos.

Sempre os homens, através dos tempos,

precisaram de palavras

a falar ou a cantar,

às vezes a rimar,

para pôr as palavras a namorar

umas com as outras!

A Natália exclamou que “a poesia é para se comer!”

É verdade que a poesia é o modo mais cristalino

ou mais em fogo

de palavrar!

O Miguel Torga elogiou a pobreza franciscana

da nossa língua:

 “Para pedir pão serve às maravilhas!”

P’ró que lhe havia de dar~

 a sua mania do parco e do pouco!

A nossa língua é o mais suculento manjar imaginável!

Por mais pobres que nos façam ser

os ricos que nos roubam

podemo-nos gabar de ter para falar e escrever

e comer´

e até amar

uma das mais esplêndidas línguas do mundo!

            (Inédito)

FERNANDO PESSOA

(1888 – 1935)

O português é (1) a mais rica e mais complexa das línguas românicas, (2) uma das cinco línguas imperiais, (3) é falada, senão por muita gente, pelo menos do Oriente ao Ocidente, ao contrário de todas as línguas menos o inglês, e, até certo ponto o francês, (4) é fácil de aprender a quem saiba já espanhol (castelhano) e, em certo modo, italiano – isto é, não é uma língua isolada, (5) é a língua falada num grande país crescente – o Brasil (podia ser falada de Oriente a Ocidente e não ser assim falada por uma grande nação).

(in A Língua Portuguesa)

Nota: no próximo post, incluiremos testemunhos de Afonso Lopes Vieira, David Mourão- Ferreira, Teresa Rita Lopes (outro inédito) e Eugénio Lisboa.
Eugénio Lisboa, Maio de 2021

A Piaf


Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.
Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.
6/10/1964
Jorge de Sena, in Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Lourenço, Babel, 2013.

 
Edith Piaf, em  Non, je ne regrette rien.
 
Edith Piaf, em  Mon Dieu (My God).
  
Edith Piaf , em  L'hymne à l'amour. 

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Quando se canta o amor ...

Quando fala o amor, a voz de todos os deuses deixa o céu embriagado de harmonia.
William Shakespeare

Lamento della Ninfa (The Nymph's Lament), Part II, 8th Book of Madrigals, Madrigali dei guerrieri et amorosi (Madrigals of War and Love) de Claudio Monteverdi,(Cremona 1567- Veneza 1643), por Nuria Rial, Cyril Auvity e Jan van Elsacker (tenors) & João Fernandes (bass), com L'Arpeggiata, sob a direcção de Christina Pluhar.
Les Indes Galantes / Tendre amour, de Jean-Philippe Rameau (Dijon, 25 de Setembro de 1683 — Paris, 12 de Setembro de 1764), por Les Arts Florissants , sob a direcção de William Christie.
 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

A Língua Portuguesa

Comemora-se hoje, 5 de Maio, o dia Mundial da Língua Portuguesa . Foi instituído em 2009,  como Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLPatravés de uma resolução do Conselho de Ministros da CPLP e proclamado Dia Mundial da Língua Portuguesa ,  a 25 de Novembro de 2019 ,  pela UNESCO.
Muitos eventos  culturais acontecerão por esse mundo fora ,onde se fala português. Aqui, da minha terra, onde a língua vê o mar, há ressonâncias de vozes que falam e cantam em português. Eu os saúdo  e saúdo-te a ti, língua,  que fazes de  mim um  devoto praticante .

A doçura e harmonia da língua portuguesa...
por Francisco Dias Gomes 
'Qualquer estrangeiro pode traduzir com facilidade e presteza na sua linguagem todo o pedaço de prosa dos nossos bons autores, visto ser a sintaxe da nossa língua mui natural e correcta, sem a imensidade das inversões que vemos nos outros idiomas antigos e modernos, circunstância que os faz de difícil acesso a quem neles pretende ser instruído, e obsta à sua propagação…
Numa língua tão abundante de simulcadências em todo o género, como a portuguesa, não há necessidade que obrigue a deixar o uso da rima, a qual parece essencial ao nosso verso; e o não usar dela pode ser reputado por fraqueza, e temor de não poder ir pelo caminho que os nossos avós com tanta glória frequentaram. Nem concluem nada os que dizem ser a rima um pesadíssimo grilhão para exprimir com felicidade os conceitos, pois só o pode ser aos que sem engenho, e sem o conhecimento profundo da língua, intentam poetar…
A doçura e harmonia da língua portuguesa é manifesta, não só aos nacionais como também aos estrangeiros; e para tratar amores, e todas as mais qualidades de afectos, nenhuma se lhe iguala. Procede isto não só do génio da Nação Portuguesa, por ser naturalmente inclinada à paixão do amor, e mui desejosa de o publicar em frase de extrema suavidade, mas também por ser a língua mui cheia de rimas de suavíssima harmonia, e letras consoantes de mui doce pronunciação, como bb, dd, ll, mm, nn, ss, zz."
Francisco Dias Gomes , in Obras Poéticas,Paladinos da Linguagem, vol. I, Lisboa-Paris, Aillaud & Bertrand, 1921, pp. 129-130 
Francisco Dias Gomes (Lisboa, 1745 – Lisboa, 1795) iniciou os estudos em Direito, em Coimbra, que acabou por não concluir. No entanto, ficou conhecido por ser um célebre crítico apto a avaliar o mérito dos escritores portugueses. Tornou-se assim um dos homens mais eruditos entre os seus contemporâneos. Deixou algumas composições da sua autoria, mesmo considerando que lhe faltava a imaginação de um poeta."

Por uma irmandade da língua
No espaço pluricontinental onde o português convive com outros idiomas locais
por José Eduardo Agualusa
"(...)A língua portuguesa é uma construção conjunta de todos aqueles que a falam — e é assim desde há séculos. A minha língua — aquela de que me sirvo para escrever —, não se restringe às fronteiras de Angola, de Portugal ou do Brasil.
A minha língua é a soma de todas as suas variantes. É plural e democrática.
A sua imensa riqueza está nessa diversidade e na capacidade de se afeiçoar a geografias diversas, na forma como vem namorando outros idiomas, recolhendo deles palavras e emoções.
Aprisionar a língua portuguesa às fronteiras de Portugal (ou de Angola ou do Brasil) seria mutilá-la, roubar-lhe memória e destino.
Com o colapso do Império, o português libertou-se. É nessa língua livre que eu me reconheço, e é por ela que luto."
José Eduardo Agualusa, em artigo publicado no semanário português Expresso do dia 1 de Junho de 2019.

A Língua portuguesa

Esta língua que eu amo
Com seu bárbaro lanho
Seu mel
Seu helénico sal
E azeitona
Esta limpidez
Que se nimba
De surda
Quanta vez
Esta maravilha
Assassinadíssima
Por quase todos que a falam
Este requebro
Esta ânfora
Cantante
Esta máscula espada
Graciosíssima
Capaz de brandir os caminhos todos
De todos os ares
De todas as danças
Esta voz
Esta língua
Soberba
Capaz de todas as cores
Todos os riscos
De expressão
(E ganha sempre a partida)
Esta língua portuguesa
Capaz de tudo
Como uma mulher realmente
Apaixonada
Esta língua
É minha Índia constante
Minha núpcia ininterrupta
Meu amor para sempre
Minha libertinagem
Minha eterna
Virgindade
Alberto de Lacerda, in  Labareda, Edições Tinta-da-China, Junho de 2018, pp.59,60

terça-feira, 4 de maio de 2021

Um gato à chuva

Um gato à chuva
por Ernest Hemingway
“ Apenas dois americanos estavam hospedados no hotel. Não conheciam nenhuma dos hóspedes com quem se cruzavam  na escada,  sempre que iam para o quarto ou de lá saíam. Instalados no segundo andar, a janela dava para  o oceano e permitia  abranger o quadro do jardim público com o seu monumento aos  Mortos da Grande Guerra. Desde que fizesse bom o tempo encontrava-se  sempre um pintor com o respectivo cavalete, neste jardim, onde havia  bancos verdes distribuídos sob palmeiras imponentes O talhe esguio destas árvores, num fundo alacre pelo colorido dos hotéis , despertava o interesse dos  artistas .Grande percentagem de italianos vinha de longe  ver o monumento que era de  bronze e luzia quando molhado. Nesta  altura chovia. A água gotejava das palmeiras e  formava poças  nas veredas de saibro. O mar  rolava ao longo da praia sob a chuva , investindo  e retirando-se para voltar a quebrar-se de encontro à areia, atrás da cortina da chuva. Os automóveis , que estacionavam junto do monumento, tinham desaparecido. Em frente , um criado postado à entrada do café contemplava a praça solitária.
Voltaram pela vereda e entraram. A criada deteve-se um pouco para fechar o guarda-chuva. Quando a americana passou  diante do escritório, o  hoteleiro, da sua mesa, cumprimentou-a novamente. Ela  sentiu um aperto na garganta, e , perante aquele homem alto, julgou-se  muito pequena mas, ao mesmo tempo,  muitíssimo  importante. Por momentos, dominou-a o sentimento de ser extraordinariamente importante.
 George estava outra vez a ler.
 Ela foi  sentar-se em  frente do toucador   e mirou-se no espelho de mão.  Observou o perfil, primeiro de um lado, depois doutro. Em seguida a nuca e o pescoço.
- Não te parece  que seria  boa ideia  eu deixar crescer o  cabelo? – perguntou, inspeccionando , de novo, o perfil.
George reparou-lhe  na  nuca, desguarnecida  como a de um rapaz.
 George não lhe ligava. Lia o seu livro.  Pela janela a  mulher olhava  para a praça  que acabava de se iluminar.

A americana, de pé , junto da vidraça, olhava para fora. No jardim, mesmo  debaixo da janela, um gato estava  aninhado sob  uma das mesas verdes de onde a água escorria. Encolhia-se todo   para evitar a chuva.

– Vou lá abaixo e trago aquele bichano - disse a americana.
-  Vou lá eu  - propôs o  marido , ainda na cama.
- Não, irei eu . O pobrezinho faz tudo para se abrigar  debaixo de uma  mesa.
 O marido continuou a ler. Estava deitado com a cabeça  apoiada em dois almofadões.
- Não te molhes..
Ela desceu. O proprietário do hotel levantou-se e cumprimentou-a. A sua mesa estava ao fundo do escritório, que era um compartimento escuro.  Era um  cavalheiro idoso e muito alto.
- Il piove –  disse ela que simpatizava  imenso com o hoteleiro.
- Si, si, Signora, brutto tempo. Está péssimo!
Falava de pé , no fundo do escritório, que era um compartimento  escuro. A senhora nova gostava muito  dele e da sua calma , quando recebia qualquer reclamação. Apreciava –lhe o porte digno, a afabilidade e, enfim, a maneira como compreendia o cargo.  Admirava-lhe o rosto grave e idoso, as grandes mãos.
Neste estado de espírito,  abriu a porta e olhou para fora. Chovia fortemente. Um homem, com impermeável de borracha,  atravessava  a praça deserta , em direcção ao café. O gato devia estar algures , à direita. Talvez ela pudesse seguir junto à parede, abrigada pelo telhado. Esperava no limiar ,  quando um guarda-chuva se abriu por detrás dela. Era a criada de quarto do seu andar.
- Não há necessidade de V.Ex.ª  se molhar! –  disse, em italiano e a sorrir.
Certamente  fora ordem do hoteleiro, sempre atento e gentil. Resguardada  pelo guarda-chuva, que a criada  segurava , ela  seguiu pela vereda de saibro  até debaixo da sua  janela. A mesa lá estava, muito  verde e luzente sob a  chuva, mas o gato desaparecera. A  senhora sofreu uma súbita decepção!
A criada olhou-a .
- Ha perduto qualque cosa, Signora?
- Estava aqui um  gato – respondeu a rapariga  americana.
- Um gato?
- Si, il gatto.
- Um gato? – exclama a empregada rindo -  Um gato à chuva!
- Sim, debaixo da mesa. – disse a americana. Oh! Como eu tenho empenho nele! Queria um bichano!
 Quando a  americana falava inglês, a expressão da criada fechava-se.
- Faça favor de vir, Signora! É preciso voltar para dentro, se  não encharca-se toda!
Sim … certamente –concordou a americana.
Depois, subiu a escada  e abriu a porta do quarto. George lia, estendido  na cama.
- Então, encontraste o gato? –inquiriu, pousando o livro.
- Desapareceu.
- Onde se meteria?– comentou, levantando  os olhos do livro.
Ela sentou na cama.
- Não supões como eu queria aquele gato! – exclamou  . - Não sei porquê, mas tinha enorme empenho nele!  Queria aquele pobre bicho. Que engraçado estar um gato lá fora à chuva!
- Eu gosto assim.
- Já estou tão farta dele . Estou tão farta de parecer um rapaz!
George mudou de posição na cama. Não tinha desviado os olhos dela , enquanto a ouvia..
- Tu és muito bonita! – comentou.
Ela pousou o espelho no toucador  e foi até à  janela  olhar  para a rua. A noite caía.
- Quero apanhar  atrás os  meus cabelos, esticá-los bem  lisos, e fazer um rolo no pescoço  que possa sentir perfeitamente. Quero ter um gato sobre os joelhos, que rosne quando o acaricie!
-Ah! Sim?  – volveu-lhe George.
- Quero comer à  mesa no meu serviço de prata  e  quero velas! Quero que já seja Primavera, quero escovar os meus cabelos diante do espelho! E  quero uma gatinho e vestidos  novos.
- Oh! Cala-te e pega  num livro! – atalhou o marido. Pôs-se a ler outra vez.
Sua mulher  foi  olhar através da janela. Já era completamente noite  e continuava a chover  sobre as palmeiras.
- Mas  quero um gato!  Quero um gato, pronto! Quero um gato imediatamente! Se não posso ter cabelos compridos , e se não posso divertir-me, ao menos  posso ter um gato!
Alguém bateu à porta..
Avanti – disse George, erguendo  os olhos .
 A criada surgiu à porta.  Apertava nos braços um enorme gato, cinzento como uma carapaça de tartaruga.
- Queiram desculpar. O patrão mandou-me trazer isto para a Signora.”
Ernest Hemingway, in “As torrentes da Primavera seguido de Um gato à chuva”, Edição  “Livros do Brasil”, Lisboa, pp.115-119

segunda-feira, 3 de maio de 2021

A viagem à China

A viagem à China
Ilustração: Susa Monteiro
Viagem à China
por António Lobo Antunes
"Meu Deus o que eu teria gostado de, aos cinco anos, viajar à China com o meu pai. Ou sozinho. O problema é que não conheço muito bem o caminho, não estou certo se para a China se vira antes ou depois do Marquês de Pombal, se é necessário passar pelo Areeiro, se há uma seta nos Olivais com a palavra China por baixo
O actor João Villaret, de quem gostava muito porque dizia poemas lindos e eu adoro ouvir versos, começo logo a levitar, feliz, de olhos fechados, todo eu só um sorriso maior que a minha boca, o actor João Villaret, que já agora bem podia repetir, só para mim, a Toada de Portalegre, de José Régio, contou uma vez
(ou duas, já não me lembro)
uma história acerca de um filho do escritor D. João da Câmara, chamado Tomázinho, que só trazia problemas aos pais. Tinha cinco ou seis anos e passava o tempo a fugir de casa. (Isto, julgo eu, no princípio do século vinte.) Uma ocasião foi até à Amadora, outra ocasião até Vila Franca, às vezes demorava mais de um dia a ser encontrado e D. João da Câmara e o resto da família preocupadíssimos. Até que o Tomázinho exagerou: descobriram-no perto de Vendas Novas ou isso, após um tempão de angústias e aflições, e D. João da Câmara, que devia ser uma pessoa muito compreensiva e muito complacente, decidiu tomar uma atitude firme: Chamou o filho para uma conversa séria e disse-lhe, mais ou menos, Tomázinho, nós gostamos todos tanto de ti e tu estás sempre a ires-te embora, não calculas as preocupações que nos dás, não tens o direito de nos fazer sofrer assim, todos te tratamos bem cá em casa, queremos que sejas feliz conosco, o que se passa contigo?
Seguiu-se um silêncio interminável até o Tomázinho se explicar
– Pai, é que eu quero tanto ir à China.
E então, contava João Villaret, D. João da Câmara ficou que tempos em silêncio a olhar o menino à sua frente, que o olhava também. Deve ter sido uma das pausas mais compridas que já houve no mundo, até que D. João da Câmara se levantou da cadeira, colocou a mão no ombro do filho e disse-lhe
– Olha, da próxima vez que te apetecer ir à China diz-me, que eu talvez vá contigo.
Esta história, que eu ouvi há muitos anos, nunca mais me deixou. Meu Deus o que eu teria gostado de, aos cinco anos, viajar à China com o meu pai. Ou sozinho. O problema é que não conheço muito bem o caminho, não estou certo se para a China se vira antes ou depois do Marquês de Pombal, se é necessário passar pelo Areeiro, se há uma seta nos Olivais com a palavra China por baixo, se algum ramal do metro nos conduz até lá. Não conheço nenhum mapa que nos ajude, esses aparelhos com uma voz que explica tudo calam-se acerca do assunto, parece que o mundo inteiro anda a esconder a China de mim. Parece não, é verdade: o mundo inteiro anda a esconder a China de mim. Qual o motivo de me quererem impedir de a visitar, qual o motivo de me proibirem? Nem em casa existe, como existe em todas as outras, um prato de sopa com chineses risonhos impressos, búfalos num arrozal, raparigas de olhos oblíquos, pontezinhas delicadas sobre riachos com juncos? Porque não tenho, no bengaleiro, chapéus cónicos de palha? Quando era miúdo havia sempre chineses a venderem gravatas em Lisboa, sorrindo para toda a gente, sorrindo inclusive, às vezes, para mim. Que é deles? Além disso os chineses não morrem, não sei de uma só criatura no mundo que confesse haver assistido ao enterro de um chinês e portanto são eternos. Onde estão eles que nem debaixo da cama ou no cesto da roupa para lavar encontro um? O Tomázinho tê-los-á descoberto em Vila Franca ou em Vendas Novas e guardado o segredo para ele só? Conheço alguns chineses de nome, Confúcio, Mao Tse Tung, mas nunca me cruzei com eles. Tive uma colega chinesa na Faculdade, chamava-se Raquel, mas desapareceu de súbito no fim do curso e não tornei a vê-la. Até nos dávamos bem porque ela, de vez em quando, me sorria de longe. O que te aconteceu Raquel, tens algum contacto com os búfalos nos arrozais? Com o sol da meia noite? Com a Grande Muralha? Mas sobretudo indica-me o que posso fazer para ir à China, porque tem de existir um atalho, uma solução, um caminho. Que pena João Villaret haver desaparecido: se ainda por aí estivesse, e como sabia tão bem a história do Tomázinho, ensinava-me tudo acerca da China e até pode ser que me acompanhasse recitando ao meu lado a Toada de Portalegre. Era da maneira que matava dois coelhos de uma cajadada e com sorte, já agora, o Tomázinho acompanhar-me-ia a Pequim."
António Lobo Antunes, em Crónica publicada na Revista Visão , em 31.10.2018

domingo, 2 de maio de 2021

Ao Domingo Há Música

Mother, Mother
Mother do not cry
Queen of Heaven
Protect me always.
 
Não há grito mais lancinante e comovedor que este do movimento 2 das "Sorrowful songs". Neste dia dedicado à Mãe, foi esta bela e insubstituível melodia que me ocorreu para requisitar este espaço. Já aqui foi evocada , mas retorna porque a pujança do seu apelo obriga a que não se esqueça. O Holocausto foi a maior ignomínia, o mais hediondo  crime do século passado. 
"A Sinfonia n.º 3, Op. 36, também conhecida como  "Sorrowful Songs" é uma sinfonia em três andamentos, do compositor polaco  Henryk Górecki , Henryk Mikołaj Górecki , (1933-   2010),  escrita para orquestra e soprano,  entre Outubro e Dezembro de 1976
A solista canta um texto em língua polaca, diferente em cada um dos três andamentos: no primeiro, um lamento atribuído à Virgem Maria, escrito no século XV; no segundo, uma mensagem escrita na parede de uma cela da Gestapo durante a Segunda Guerra Mundial; e, no terceiro, uma canção folclórica sobre uma mãe que procura o seu filho, assassinado, durante a insurreição na Silésia em 1919. 
O tema central da sinfonia é a maternidade e a separação dos entes queridos por causa da guerra.  Para o segundo movimento, Górecki ouvira falar de uma inscrição gravada na parede de uma prisão da Gestapo em Zakopane, situada no sopé das Montanhas Tatra, sul da Polónia. As palavras pertenciam à adolescente de 18 anos Helena Wanda Blazusiakówna, presa  em 25 de Setembro de 1944. A inscrição diz: «O Mamo nie placz nie—Niebios Przeczysta Królowo Ty zawsze wspieraj mnie» (Mãe, Mãe, não chores,/Casta Rainha dos Céus/Apoia-me sempre). O compositor recorda assim: «...estas palavras  que encontrei  na parede eram diferentes das outras ,  quase uma desculpa ou uma explicação por se ter metido nesta situação; procura consolo com palavras simples, mas significativas de  uma jovem de 18 anos, quase uma menina. Ela é diferente. Não desespera, não chora, não exige vingança. Não pensa em si mesma, se merece ou não este destino. Em troca, pensa na sua mãe, que é quem experimenta o verdadeiro desespero. Esta inscrição é algo extraordinário. E realmente fiquei fascinado».
A Sinfonia n.º 3 é dedicada à mulher  de Górecki, Jadwiga Ruranska. Quando lhe perguntaram o porquê, respondeu: «A quem seria suposto que a devesse dedicar.»
Górecki nunca procurou explicar a sinfonia como uma resposta a um evento político ou histórico. No entanto, defende que a sua obra é uma evocação dos vínculos entre uma mãe e a sua filha."

Eis o  grito  dorido, a súplica de uma jovem à  Mãe  para que não chore  e a proteja . 
Gorecki Symphony n 3 ,"Sorrowful Songs", mov 2  - Lento e Largo ,Tranquillissimo , na voz da Soprano Isabel Bayrakdaraian, acompanhada pela Sinfonietta Cracovia, sob a direcção do Maestro John Axelrod. 
 

sábado, 1 de maio de 2021

1º de Maio de 74 : o relato dos festivos factos


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André responde a Sónia como sabe e pode: 
Lisboa, «1.º 1º de maio vermelho»
"Cara Ingrata,
a  tua partida sem despedida foi um golpe duro para o meu orgulho, e a carta ontem recebida custou-me a engolir. (...) O  meu fraco talento escriturário não vai conseguir descrever o que foi este 1º de maio com milhares de pessoas desfilando nas ruas , gente de todas as idades, de quase todas as classes , coisa que a nossa geração  e as anteriores já desistiam de sonhar. Assistir nem é o termo, havia uma participação espontânea até daqueles como eu, não alinhados. Impossível ficar a olhar de fora, esta movimentação de massas não tinha fora; foi decerto a maior jamais acontecida na capital da pacatice, da chatice adormecida por dois séculos de burguesia estéril, por alguns mais de fidalguia estática de papo para o ar a receber rendimentos do chamado ultramar, desse além-mar-em-África onde percebo que queiras ficar embora não concorde com separação tão apressada, antes de termos tempo ou possibilidade de decidir acerca do futuro, se vamos viver juntos ou se isto não passou de fogo-fátuo. Veremos lado a lado o próximo 1º de maio?
(...) Retomo o relato  dos festivos factos: a grande surpresa  foi para mim a invenção  florista de aparecerem por todo lado  cravos vermelhos à venda, que comprávamos como se não os comprar  fosse pecado.  A Arminda , o Samuel  e eu não fugimos à regra, ele sempre muito activo com  a sua mania  de gerente de gente, deixando-nos para ir ter com outros  militantes da margem esquerda, regressando  em crescente euforia, dinamismo tipo místico, dirigindo grupos pequenos e obedientes , fazendo figura de chefe que pode vir a ser, multiplicando  pão e peixe em forma de slogans, palavras de ordem , canções de vário folclore. Apesar dessa frenética actividade  ainda se lembrou  de dar os pêsames aos seus inimigos-de-classe pela morte do nosso pai, esclarecendo que o povo não o matou  porque o povo não mata ninguém.  Não era a ora da violência ou sequer da divergência, sabendo sem saber que por  nós passava aquele panteísta espírito colectivo que por momentos torna a multidão um todo, perigoso nas mãos de ditadores, mas exaltante e religioso. Foi a Fátima laica com cravos encarnados em vez dos alvos lenços da procissão do Adeus. Religião , é bom lembrar, significa ligar. nestas manifestações há  muito orgasmo.
Eu, que costumo distanciar-me em relação a multidão, desta feita não resisti  ao fascínio da festa, pura ilusão , unidade fictícia, terminada apenas os interesses de cada grupo começarem a minar o corpo social.  Acabada a manif, as cantigas e falas  no estádio  agora baptizado « 1º de maio» vão parecer ridículas  sobretudo a mim que detesto estádios , lembram-me futebol & Hitler. Por isso não fiquei até ao fim, vim para o quarto dum amigo escrever-te a ver se a carta ainda segue amanhã de manhã. (...)
Ouço ao longe os cláxons dos carros  Avenida da Liberdade abaixo. Nossas contradições: festejaste o 25 sozinha , eu passo o 1º de maio sem ti.  O teu convite  para ir ter contigo aí, se me agrada até entusiasma, não vejo como realizá-lo. Compreendo as razões que me dás, justas , sábias , só sensatas demais. Tenho horror ao bom senso como se dizia que os corpos têm horror ao vazio. Amo a loucura, a aventura , o que há em ti quando te conheci.(...)Que trabalho poderia ser aí o meu , caso consiga partir? Posso acabar o curso em Luanda, menos evidente é subsistir. Aceito sugestões. (...)  "
 Teu 
André
Almeida Faria, in Lusitânia ( romance), edições 70, 1980,  pp.71-74