sábado, 4 de julho de 2026

Sobre o Amor em "Orgulho e Preconceito"

Jane Austen (1775-1817)
 
Jane Austen, em “Orgulho e Preconceito”: “A felicidade no casamento é uma questão de pura sorte.”
por Sarah Romero
"A autora britânica – nascida há precisamente 250 anos* – deixou-nos uma das frases mais certeiras e devastadoras sobre o amor romântico naquele que é, possivelmente, o seu romance mais famoso.
Numa época em que o casamento era mais uma necessidade social do que uma decisão afectiva ou relacionada com o amor na sua acepção mais pura, a autora britânica Jane Austen (1775-1817) escreveu um dos romances mais influentes da literatura universal, Orgulho e Preconceito (publicado em 28 de Janeiro de 1813), onde não só retratou a condição da mulher à altura, mas também desmontou a idealização do amor, derrubando o romantismo diante de uma realidade social.
Trata-se de um dos diálogos mais memoráveis do livro, no qual a personagem Charlotte Lucas (a amiga sensata e resignada de Elizabeth Bennet) pronuncia uma frase que, mais de dois séculos depois, continua tão provocadora quanto verdadeira, afastando-se do sentimentalismo e lançando um dardo directo à realidade mais incómoda do seu tempo (que também pode ser o nosso):
PALAVRA DE JANE AUSTEN
“— Bem – disse Charlotte –, desejo muito sucesso a Jane; e se ela se casasse com ele amanhã, acho que teria tantas possibilidades de ser feliz quanto se passasse um ano a estudar o carácter dele. A felicidade no casamento é pura casualidade. Se as disposições de ambos forem bem conhecidas, ou forem muito semelhantes de antemão, isso não contribui em nada para a sua felicidade. Eles sempre conseguem tornar-se suficientemente diferentes depois para ter a sua quota de desgostos; e é melhor saber-se o mínimo possível sobre os defeitos da pessoa com quem se vai passar a vida.”
É simples: mesmo conhecendo bem o casal, ninguém tem garantias de sucesso. Essa é a conclusão mais clara das palavras de Austen, que, apesar de ter recebido um pedido de casamento e ter tido alguns pretendentes, nunca se casou. Ela decidiu permanecer solteira e dedicar os seus 41 anos de vida à carreira de escritora. (Austen morreu devido à doença de Addison, uma condição muito rara que causa, entre outras coisas, astenia, fraqueza, irritabilidade gástrica e escurecimento da pele).
UMA VISÃO PRAGMÁTICA DO AMOR
Através da personagem Charlotte, no capítulo 6 de Orgulho e Preconceito, Austen deixa claro em poucas linhas que o amor – pelo menos em termos de convivência – é volátil, imprevisível e nem sempre está sob controlo racional. Não se trata de um comentário cínico, mas de uma observação precisa sobre a complexidade dos seres humanos.
Na Inglaterra do início do século XIX, o casamento era meramente uma transacção social: as jovens mulheres em idade de casar conseguiam, ao contrair o matrimónio, estabilidade económica, respeito e, muitas vezes, garantiam o futuro de toda uma família. Se o amor aparecesse nesse caminho, era uma grande sorte e, acima de tudo, algo adicional no processo. Por isso, não é surpreendente que a personagem Charlotte, com 27 anos e poucas perspectivas, aceitasse casar com o pedante Sr. Collins sem estar apaixonada por ele. A sobrevivência acima de tudo.
Não é que Jane Austen fosse inimiga do amor, mas sim do amor idealizado. Por isso, através das suas heroínas, que sempre apresentava como pessoas inteligentes, observadoras e moralmente íntegras, ela mostrou que o verdadeiro sucesso no amor exigia mais do que pura atracção: compatibilidade, respeito mútuo e, sim, um pouco de sorte. A sorte que tiveram Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy: a excepção que confirma a regra.
Hoje, as expectativas e as formas incertas de conhecer pessoas, por exemplo através de aplicações de encontros, estão a seguir caminhos novos, mas ainda há românticos e românticas que perseguem o mesmo final que Darcy e a senhorita Bennet. No entanto, a literatura de Austen, muito tempo depois, convida-nos a questionar, a olhar para além do amor à primeira vista e a compreender que o sucesso amoroso não é uma fórmula, mas uma combinação variável de vários factores."
Revista National Geographic ( 16 de Dezembro de 2025)
*- 251 anos , na data actual.

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