Jane Austen, em “Orgulho e Preconceito”: “A felicidade no
casamento é uma questão de pura sorte.”
por Sarah
Romero
"A autora britânica – nascida há precisamente 250 anos* –
deixou-nos uma das frases mais certeiras e devastadoras sobre o amor romântico
naquele que é, possivelmente, o seu romance mais famoso.
Numa época em que o casamento era mais uma necessidade
social do que uma decisão afectiva ou relacionada com o amor na sua acepção
mais pura, a autora britânica Jane Austen (1775-1817) escreveu
um dos romances mais influentes da literatura universal, Orgulho e
Preconceito (publicado em 28 de Janeiro de 1813), onde não só
retratou a condição da mulher à altura, mas também desmontou a
idealização do amor, derrubando o romantismo diante de uma realidade
social.
Trata-se de um dos diálogos mais memoráveis do livro, no
qual a personagem Charlotte Lucas (a amiga sensata e resignada
de Elizabeth Bennet) pronuncia uma frase que, mais de dois séculos depois,
continua tão provocadora quanto verdadeira, afastando-se do sentimentalismo e
lançando um dardo directo à realidade mais incómoda do seu tempo (que
também pode ser o nosso):
PALAVRA DE JANE AUSTEN
“— Bem – disse Charlotte –, desejo muito sucesso a Jane; e
se ela se casasse com ele amanhã, acho que teria tantas possibilidades de ser
feliz quanto se passasse um ano a estudar o carácter dele. A felicidade no
casamento é pura casualidade. Se as disposições de ambos forem bem conhecidas,
ou forem muito semelhantes de antemão, isso não contribui em nada para a sua
felicidade. Eles sempre conseguem tornar-se suficientemente diferentes depois
para ter a sua quota de desgostos; e é melhor saber-se o mínimo possível sobre
os defeitos da pessoa com quem se vai passar a vida.”
É simples: mesmo conhecendo bem o casal, ninguém tem
garantias de sucesso. Essa é a conclusão mais clara das palavras de Austen,
que, apesar de ter recebido um pedido de casamento e ter tido alguns
pretendentes, nunca se casou. Ela decidiu permanecer solteira e dedicar os
seus 41 anos de vida à carreira de escritora. (Austen morreu devido à doença de
Addison, uma condição muito rara que causa, entre outras coisas, astenia,
fraqueza, irritabilidade gástrica e escurecimento da pele).
UMA VISÃO PRAGMÁTICA DO AMOR
Através da personagem Charlotte, no capítulo 6 de Orgulho
e Preconceito, Austen deixa claro em poucas linhas que o amor –
pelo menos em termos de convivência – é volátil, imprevisível e nem sempre
está sob controlo racional. Não se trata de um comentário cínico, mas de uma
observação precisa sobre a complexidade dos seres humanos.
Na Inglaterra do início do século XIX, o
casamento era meramente uma transacção social: as jovens mulheres
em idade de casar conseguiam, ao contrair o matrimónio, estabilidade económica,
respeito e, muitas vezes, garantiam o futuro de toda uma família. Se o amor
aparecesse nesse caminho, era uma grande sorte e, acima de tudo, algo adicional
no processo. Por isso, não é surpreendente que a personagem Charlotte,
com 27 anos e poucas perspectivas, aceitasse casar com o pedante Sr. Collins
sem estar apaixonada por ele. A sobrevivência acima de tudo.
Não é que Jane Austen fosse inimiga do amor, mas sim do amor
idealizado. Por isso, através das suas heroínas, que sempre apresentava
como pessoas inteligentes, observadoras e moralmente íntegras, ela mostrou que
o verdadeiro sucesso no amor exigia mais do que pura atracção:
compatibilidade, respeito mútuo e, sim, um pouco de sorte. A sorte
que tiveram Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy: a excepção que confirma a
regra.
Hoje, as expectativas e as formas incertas de conhecer
pessoas, por exemplo através de aplicações de encontros, estão a seguir
caminhos novos, mas ainda há românticos e românticas que perseguem o mesmo
final que Darcy e a senhorita Bennet. No entanto, a literatura de Austen, muito
tempo depois, convida-nos a questionar, a olhar para além do amor à primeira
vista e a compreender que o sucesso amoroso não é uma fórmula, mas
uma combinação variável de vários factores."
Revista National Geographic ( 16 de Dezembro de 2025)
*- 251 anos , na data actual.
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