A DESCOBERTA DO MUNDO é um excelente livro de crónicas, de Clarice Lispector, de onde foram extraídas estas apropriadas reflexões:
❝ Não, quem tem razão é este meu coração indireto, mesmo que os fatos me desmintam diretamente.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a es- perança.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝Ser às vezes sangra.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ Nem sempre esmiuçar demais dá certo.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil -, fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ O que não será jamais elucidado é o meu destino.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ Estou habituada a não considerar perigoso pensar.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ Como vão vocês? Estão na carência ou na fartura?
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ […] milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
Ir para
Esta noite um gato chorou tanto que tive uma das mais profundas compaixões pelo que é
vivo. Parecia dor, e, em nossos termos humanos e animais, era. Mas seria dor, ou era “ir”, “ir para”?
Pois o que é vivo vai para.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
O processo
– Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou
aguentando viver.
– Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o
desespero é uma luz, e um amor.
– E depois?
– Depois vem a Natureza.
– Você está chamando a morte de natureza?
– Não. Estou chamando a natureza de Natureza.
– Será que todas as vidas foram isso?
– Acho que sim.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
Sim
Eu disse a uma amiga:
– A vida sempre super exigiu de mim.
Ela disse:
– Mas lembre-se de que você também super exige da vida.
Sim.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ … os dias seguintes eram a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
Medo do desconhecido
"Então isso era a felicidade. E por assim dizer sem motivo. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa
desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
❝ Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
"É preciso parar
Estou com saudades de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim – enfim, mas que medo – de mim mesma.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco,2020
❝ Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade” refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
Não entender
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo. Rocco, 2020
Entre aspas
"Quando mexo em papeis antigos, isto significa exteriormente alguma poeira, e interiormente raiva de mim mesma: porque, nunca me convencendo que tenho má memória, copio entre aspas frases ou textos e depois, passado um tempo, como não anotei, pensando que não esqueceria, o nome dos autores, já não sei quem os disse. Por exemplo:
“Vemos que aqui na terra os opostos se misturam, que um valor positivo se compra ao preço de um valor negativo. E, talvez, a experiência metafísica a mais profunda – a que vem quando o ser toma consciência do absoluto, o que lhe dá estremecimento do sagrado e deixa-o entrever a felicidade, aquela que lhe permite o acesso ao sobrenatural – talvez essa experiência só seja possível quando a alma está tão deslocada que não lhe é mais possível reerguer-se de sua ruína.”
“O que parece incoerente à fria análise pode às vezes estar carregado de sentido para o coração, e este o entende.”
“Não se saberia adquirir o conhecimento intuitivo de um outro universo sem sacrificar uma parte do entendimento que nos é necessário no mundo presente.”
— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020
Sobre o Livro
Sinopse
"Este livro reúne as crónicas de Clarice Lispector, publicadas no Jornal do Brasil de 1967 a 1973. Permitem compreender melhor a escrita da autora que se consagrou como uma das maiores escritoras do Brasil. Se nos contos e romances o mistério de uma narrativa envolve o leitor num processo quase que iniciático, nas crónicas esse mistério vai aos poucos sendo desvendado, revelando o mundo pessoal e subjetivo da autora enigmática que viveu no Leme, próximo às areias e ao mar de Copacabana, que tanto apreciava.
Ao aceitar o convite do JB para escrever uma coluna aos sábados, Clarice Lispector sente a estranheza entre ser escritora e jornalista: "Na literatura de livros permaneço anónima e discreta. Nesta coluna, estou de algum modo me dando a conhecer", comenta na crónica de 21 de setembro de 1968.
Género leve, ameno, de leitura mais fácil, a crónica traz quase sempre a interpretação de um fato conhecido por todos, investido pela subjetividade de quem comenta o assunto, dando um sabor novo ao acontecido. Com a sua despretensão, a crónica quebra o monumental, o extraordinário, celebrando o cotidiano, o dia a dia e mostra belezas insuspeitáveis através da argúcia, da graça, do humor de quem a escreve. A informalidade investe de leveza uma linguagem cuja densidade busca revelar o segredo das coisas mais simples, o cotidiano transfigurado pelo olhar de Clarice, que redescobre nas Macabéas de todo dia a luminosidade de uma presença estelar. Entre flanelas e vassouras, mulheres simples e humildes se transformam em personagens que se eternizam. Aninha, Jandira, Ivone ou Aparecida são algumas dessas estrelas que saem de suas vidas apagadas para serem reveladas pelo olhar atento e sensível, onde escapa, por vezes, um leve e sorrateiro toque de humor, como no caso da empregada que fazia análise, ou da "mineira calada", que gostava de ler livros complicados."
Sobre a autora
"Clarice Lispector foi uma das mais importantes escritoras da literatura brasileira do século XX. Nascida em 10 de dezembro de 1920, na aldeia de Tchetchelnik, na Ucrânia, e falecida em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, ela se destacou por uma produção literária marcada pela introspecção, pela investigação da consciência humana e por uma linguagem altamente original.
Embora tenha nascido na Europa Oriental, Clarice chegou ao Brasil ainda criança e construiu toda a sua trajetória intelectual, literária e profissional em território brasileiro. Sua obra ocupa lugar central na literatura em língua portuguesa, especialmente por renovar a forma narrativa e por explorar experiências interiores, conflitos subjetivos e questões existenciais com grande intensidade.
Uma escritora decidida a desvendar as profundezas da alma. Essa é Clarice Lispector, que escolheu a literatura como bússola em sua busca pela essência humana.
Sua tentativa de transcender o cotidiano revela-se em personagens na iminência de um milagre, uma explosão ou uma singela descoberta. Todos suscetíveis aos acontecimentos do dia a dia.
Vidas que se perdem e se encontram em labirintos formados por uma linguagem única, meticulosamente estruturada. E é por essa linguagem que Clarice Lispector constrói uma obra de caráter tão profundo quanto universal."
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