terça-feira, 28 de julho de 2026

Viajar por Évora


Eugénio Lisboa registou, nos Diários, que foi escrevendo ao longo da sua vida, muitas páginas de grande relevância sobre viagens que realizou. Publicou algumas, em 2017 , num tomo único, a que deu o título " Diário de Viagens Fora da Minha Terra".
Hoje ,transcrevemos  páginas inéditas de uma viagem a Évora , acompanhado da sua mulher, Maria Antonieta.

Évora, 15.07.2005 – Pousada dos Lóios
por Eugénio Lisboa
"Há 3 dias em Évora, neste convento transformado em pousada. O convento, dizem os historiadores, foi mandado construir por D. Rodrigo de Melo, em 1481, logo após a morte de D. Afonso V (28 de Agosto desse ano), com quem andara à espadeirada aos mouros, no norte de África. Diz-se que o velho fidalgo se encontrava, por esta altura da sua vida, “entristecido e carregado de anos”. Não custa muito imaginar que uma juventude de matança, mesmo de “infiéis” e mesmo ao serviço de um rei de quem se é amigo e fiel servidor, conduza a uma velhice entristecida. Que imagens de corpos trespassados, de gritos de aflição sem resolução, de olhos espantados e devastados de surpresa nos podem dar à velhice uma aura de tristeza sem remédio? Estarei a especular? Penso que não. O facto de D. Rodrigo ter pedido que após a sua morte (sua mulher, D. Isabel fora à frente), se rezasse, no convento, “missa quotidiana por sua alma e de sua mulher” é sinal inconfundível de que os fantasmas (mesmo de infiéis) atormentavam, mais do que ligeiramente, os últimos anos do fidalgo.
Seja como for, mandou construir este magnífico convento, onde nos encontramos, eu e a Maria Antonieta, há três dias. Vamo-nos, de regresso a S. Pedro, daqui por três horas. O convento é magnífico, amplo e, nos claustros em que antes se ouvia o silêncio majestoso das meditações, agora come-se, profanamente, os requintados manjares que a Babette local, D. Francisca, congemina, para nosso deleite. Pode ser que se cozinhe tão bem, noutros lugares deste Portugalinho atraente e turístico. Melhor, duvido. Que riqueza, na simplicidade airosa (e capitosa!) dos menus! Não é de admirar que os empregados de mesa nos perguntem, não se tudo está bom, mas, antes, se tudo está óptimo! O “bom” seria uma litote ofensiva…
Os quartos que habitamos chamam-se “celas” porque foram as celas que os frades habitaram, nos tempos de convento que o convento já teve. Tudo é grande, amplo, generoso, neste convento que se originou numa grande vontade de redenção. D. Rodrigo de Melo não pensou pequeno: ele lá sabia as razões que tinha.
Uma piscina moderna – e muito a propósito para nos ajudar na luta contra o calor alentejano – dá um ar de saborosa profanação que se acrescenta ao capitoso ultraje de repastos sensuais a desflorar a paz mística dos claustros…
Não sei o que D. Rodrigo pensaria de tudo isto. Mas julgo que tudo isto nos leva, irresistivelmente, até ele – e a pensar nele. Não é uma forma de lhe preservar a presença, entre nós? Não é um modo de lhe garantir um modicum, ainda que modesto, de eternidade?
Em Évora, cidade património do Alto Alentejo, passámos, eu e a Maria Antonieta, três dias de revisitas a lugares vários (a catedral, a Igreja de S. Francisco, a Praça do Giraldo, a  Biblioteca Pública, a Igreja de S. João Evangelista – adjacente ao convento – etc.) Sempre sediados no convento, a que regressávamos, magneticamente atraídos pelos filtros mágicos da Babette eborense e para fins de restauro de forças, pelo sono celular…
Vamos agora deixar Évora e o Convento dos Lóios. Para voltarmos cá? Gostaria de pensar que sim!"
Eugénio Lisboa, in Aperto Libro III ( obra inédita)
 
Évora, património da humanidade, partindo da zona monumental, chamada de acrópole, mostro um percurso pelo centro histórico, mostrando a Sé Catedral, Igreja do Convento dos Lóios, Palácio dos Duques de Cadaval, Cerca Velha, Universidade, Porta de Moura, Igreja da Misericórdia, Igreja do Convento da Graça, Igreja do Convento de S.Francisco, Praça de Giraldo, seu Chafariz e Igreja de Santo Antão, a Porta da Selaria, as ruas encostadas à antiga Cerca Velha, vendo as suas antigas Torres, o Aqueduto da Água de Prata, a Porta de D.Isabel, e a Cerca Nova ou muralha medieval.

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