"Esta é a newsletter que mando a quem gosto e a quem faz a Guerra e Paz e a Gradiva, autores, tradutores, revisores. Mas é sobretudo a vontade de receber abraços amigos de todos os que gostam de livros."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra e Paz e da Gradiva.
Os meus livros Guerra e Paz
"Será Julho um mês orgástico? Dir-me-ão que lá venho eu com as obscenidades do costume! Pois bem, deixo só um aviso: corre um abaixo-assinado na selva para cancelar o primeiro dos meus livros de Julho. 30 Milhões de Orgasmos, A Vida Sexual dos Animais, o saboroso e voluptuoso texto de Minh Tran Huy, com imagens deliciosas de Jul, actual ilustrador de Lucky Luke, corre o véu da sexualidade animal, do pénis perfurador do percevejo ao clitóris-falo da hiena, passando pelo comportamento sexual hippie do bonobo, esse primata nosso primo. O livrinho, a cores, é um deleite visual, uma tela aberta ao espanto e ao permanente sorriso. Genial.
Cleópatra, de Christian-Georges Schwentzel, é mais do que uma biografia dessa última rainha do Egipto, que subiu ao trono com 18 anos. Para quem pensa que já sabia tudo, oh, que audácias e que argúcia estratégica nos revelam as últimas descobertas arqueológicas! Será este livro, da colecção A Minha Estante, uma adaga espetada no coração do mito-Cleópatra? Lê-se depressa: duas noites com Cleópatra. Quem resiste?
Pequena História da Matéria e do Universo é um livro do maior dos astrofísicos, Hubert Reeves, com oito amigos: os amigos são Étienne Klein, Nicholas Prantzos e mais seis franceses, todos astrofísicos também. São nove dos humanos que no mundo mais sabem sobre a física de partículas, sobre a matéria escura e sobre física quântica e escreveram juntos um livrinho: 106 páginas luminosas sobre o Universo, a sua história e os seus componentes. Da colecção A Minha Estante, tudo explicado com a simplicidade de quem sabe e quer que mesmo uma criança de cinco anos fique também a saber.
Às vezes esquecemo-nos de quem somos e do bem que tantos pensaram e fizeram para chegarmos aqui. Carta de Amor de Um Imigrante ao Ocidente lembra-nos com ternura o que andamos todos os dias a esquecer. Konstantin Kisin, o autor, vem de fora, cresceu nas brumas de uma União Soviética sinistra, sem conforto, direitos ou liberdade. Comeu o pão que o sacana do diabo amassou. Vê neste nosso Ocidente a doce terra de leite e mel que os nossos olhos, tapados por uma certa abundância, não querem, de tanta jeremiada e cepticismo, aceitar que é o «melhor». Este livro vem dizer-nos ao ouvido: «Acreditem em mim – o Ocidente é o melhor!» Às vezes, é preciso ouvir quem as amargou. Para ler em Julho, mês de tanta luz que só pode ser, também, mês de amor.
A euforia e os dark sports
Os meus livros Gradiva
Na Gradiva, começo Julho pelo magnífico exercício de nostalgia e por esse pequenino ressentimento que sucede à agonia do amor longamente silenciado, a que o Nobel da Literatura Kazuo Ishiguro chamou Os Despojos do Dia. E será que, hoje, alguém consegue ler este romance, também vencedor do Booker Prize, sem sentir que se lhe vêm sentar ao colo Anthony Hopkins e Emma Thompson? Como é que se chega – como chegou Ishiguro – ao prodígio de uma escrita embalada a dúbia dignidade, desconsolo e dorida delicadeza? (e peço desculpa pela involuntária aliteração…)
Nunca nos deixaremos de interrogar sobre a arte, sobre a sua ancilar funcionalidade ou sobre a sua sublime inutilidade: é o que faz Lev Tolstoi em O Que É a Arte?, mas é também o que faz Paula Cristina Cunha em Entre a Arte e o Algoritmo - Criadores portugueses confrontam a Inteligência Artificial, à conversa com Gonçalo M. Tavares, Pedro Abrunhosa, Sam the Kid, Helena Amaral, Rita Redshoes e José Jorge Letria entre outros. Pode a máquina ter os devaneios de imaginação e sensibilidade que julgávamos um exclusivo desses bípedes que se passeiam pelo planeta como humanos. A Sociedade Portuguesa de Autores é nosso co-editor e merece a nossa vénia.
Outra arte foi a que o Mestre Wei Liao descreveu num dos grandes clássicos militares chineses, A Arte Militar, obra que roça ombros com a célebre Arte da Guerra, de Sun Tzu. A Arte Militar, de Wei Liao é o livro que o nosso primeiro-ministro bem poderia ler, tão actual é o seu sentido de organização. A versão que publico, feita a partir do inglês, francês, espanhol e italiano, bem como o respectivo enquadramento e notas, vem assinada por um tal Manuel S. Fonseca. É provável que seja eu próprio.
Qual o papel da irreverência na ciência? Nada como deixar falar o Prémio Nobel da Medicina e da Fisiologia, James Watson, no seu A Dupla Hélice, um clássico da literatura científica e da colecção Ciência Aberta. Watson tinha 24 anos quando descobriu, com outros investigadores, a estrutura em dupla hélice do ADN, a molécula que contem o código da hereditariedade. Eis o que permitiu à ciência conhecer a transmissão genética e a forma como, de geração em geração, se organiza a vida, esta nossa vida às vezes infeliz, mas tantas vezes feliz.
E é sobre a vida, a vida no cosmos, que versa o novíssimo livro da Ciência Aberta. Com prefácio de Nuno Crato, é da autoria do professor Luís M. Aires, formado em biologia, física e química. Além da Terra, a astrobiologia e a busca de um sentido cósmico para a vida interroga a possibilidade da vida «lá para cima», fora do nosso planeta. Faz perguntas simples: o que é a vida? Como surge? Como transforma mundos? As respostas fazem-nos olhar de outra maneira para o cintilante universo em que, erectos, caminhamos.
São os meus livros de Julho, prendas que para mim mesmo reservei – perto do fim do mês a Marilyn (a Monroe) talvez me cante «happy birthday» – e que partilho com os leitores da Guerra e Paz e da Gradiva."
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra e Paz e da Gradiva.

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