sábado, 11 de outubro de 2025

O espaço da memória adormecida

 


O Lugar era constituído por uma antiga casa senhorial, com largas fachadas de pedra trabalhada na entrada, encimada por um brasão que denunciava um passado de nobre linhagem.
Estava implantado numa grande propriedade com um frondoso arvoredo.
Naquela manhã, enquanto descia a escadaria que partia do terraço fronteiro ao salão de convívio, sentiu no ar o cheiro de mil flores. Poderia distingui-los um a um. E essa sensação acalmou o seu coração. E de repente o Lugar transformou-se. Já não era  apenas a cela com grades onde pretendiam enclausurá-la, mas antes o  espaço catalisador  das fragrâncias  da memória  adormecida.
Só mais tarde viria a descobrir que o Lugar era tão somente a cela do abandono, a cela do esquecimento.
Olhou à sua volta e  viu-se numa rotunda atapetada em  calçada à portuguesa, tendo ao centro  um lago adornado por um majestoso Neptuno que bramia repuxos de água desenhando na contraluz do horizonte  uns arabescos frescos e transparentes  que ressoavam  pelos ares as notas gotejantes e cadenciadas  da água em movimento.
Da rotunda partiam vários caminhos ladeados  por árvores ou por pequenos arbustos. A circundar a rotunda estavam distribuídos vários bancos de pedra forrados a azulejo, protegidos pela sombra das acácias que brotavam dos canteiros intercaladas  com  as rosas, com os cravos, com as dálias , com os jacintos, com as glicínias  e com  tantas outras flores  que naquele momento embriagavam  o seu olfacto. Era um jardim esplendoroso.
Sentou-se num banco e respirou profundamente, tentando sorver o ar para não sufocar e gradualmente foi invadida por um torpor que ia adormecendo os receios que renitentemente a vinham há muito atormentando.
E teve vontade de sonhar e, de supetão, recordou Fernando Pessoa e os seus heterónimos pois sempre os entendeu como a vontade de alguém ter várias e diferentes vidas. Os poetas eram os  verdadeiros “ fingidores” do devir, os fazedores  da palavra redimida, da palavra saldada, da palavra revelada, da palavra validada, da palavra sonhada.
E aqui estava ela  sentindo uma outra vida redimida e validada pelas palavras que lhe chegavam de Pessoa  no   poema  “Horizonte” [1] :  
“O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.”
Maria José Vieira de Sousa, in O Lugar, memórias de um romance, Junho de 2008, pp. 15,16

[1] In Mensagem, Pessoa, Fernando, Obras completas de Fernando Pessoa, Colecção Poesia, 6ª Edição, Edições Ática, Lisboa 1959.

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