terça-feira, 4 de outubro de 2022

A nossa vida é uma viagem com muitas viagens dentro

Eugénio Lisboa e Onésimo Teotónio de Almeida, Universidade de Aveiro
na homenagem que foi prestada ao escritor
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Eugénio Lisboa, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro e professor da Universidade de Aveiro, entre 1996 e 2002, foi homenageado com a edição do livro “Eugénio Lisboa: vário, intrépido e fecundo – Uma Homenagem”, lançado a 22 de Outubro de 2011, na mesma Universidade , por ocasião do seu 80º aniversário.
“Leitor omnívoro e possuidor de vastíssima cultura, Eugénio lê furiosamente. Lê de tudo porque tudo se dispõe a aprender. E, se privilegia a literatura, é porque acreditou sempre nela como meio especialmente capaz de penetrar na realidade poliédrica do mundo, feita não apenas de números e ideias, mas também das emoções que a arte permite fundir num todo”, escrevem, na introdução ao livro, Otília Martins, professora da Universidade de Aveiro, e Onésimo Teotónio de Almeida, professor da Brown University, responsáveis pela organização do volume que reúne 70 contributos de outras tantas personalidades. Eis o singular – e inspirador – percurso deste intrépido visitante das duas culturas, num texto escrito pela sua própria mão e lido no final da apresentação do livro .
Eugénio Lisboa e Maria Barroso, na Universidade de Aveiro,
na homenagem que foi prestada ao escritor.
A NOSSA VIDA É UMA VIAGEM
por Eugénio Lisboa
"Mas é uma viagem com muitas viagens dentro. Não é por isso uma viagem arrumada, limpidamente euclideana, com um guião rectilíneo impecável. É uma viagem aos trambolhões, cheia de sobressaltos e de objectivos não realizados, cheia de fracassos e, até, de alguns acertos.
A primeira vez que sonhei com este conceito de viagem foi na minha adolescência, em Lourenço Marques (Moçambique): como era bom aluno, sabia que meu pai tudo faria para me mandar para Portugal, para aqui tirar um curso, uma vez concluído o liceu, naquela cidade do Índico.
Nessa altura (anos quarenta, do século passado), não havia viagens de avião entre Lourenço Marques e Lisboa. Por isso, teria que viajar de barco, durante cerca de um mês. Ia fazer grande parte do percurso que fizera Vasco da Gama, contado nos Lusíadas, que os bons professores do liceu laurentino não me tinham feito odiar. A eles – a estes notáveis professores, a quem rendo homenagem de gratidão – devo não ter preferido as ciências às letras nem o seu inverso. Gostei de tudo e o único problema, ao longo da minha vida, foi o embaraço da escolha ou, antes, a estúpida impossibilidade da escolha. Se me perguntassem: “De qual gostava mais: da álgebra, da geometria de Euclides ou das letras?”, teria respondido com a inocência lúcida das crianças: “Gosto mais das três”.
A viagem, começada em 10 de Setembro de 1947 e terminada, com a chegada a Lisboa, em 5 de Outubro (25 dias), deu-me o gosto deslumbrado das viagens e a suspeita de que esta era apenas um antegosto de uma viagem maior e mais turbulenta, que está agora muito perto de terminar. Nessa outra e mais pequena viagem – com muita gente diversa concentrada na pequena superfície de um navio – comecei a perder alguma inocência e adquiri, com espanto e sofrimento, temperados de ironia e cepticismo, alguma incipiente sabedoria. Aprendi até o amargo desencanto da chegada, ao verificar que Lisboa me pareceu quase repulsiva por ter o enorme e irredimível defeito de não ser Lourenço Marques. Quando se sai de um ninho, o lugar que se encontra a seguir não resiste nunca à comparação.
Depois, habituei-me a Lisboa, resignei-me e, com o tempo, acabei mesmo por me render aos seus encantos, aos seus recursos e à sua beleza. Mas não perdi nunca o amor fundo pela terra onde nasci e onde voltei, concluído o curso, para ali ficar mais vinte e um anos inesquecíveis: de convívios estimulantes, de aventuras profissionais e culturais, de emoções aquecidas ao rubro, de leituras, que o tempo, dilatado pelo calor, permitia com abundância. E havia o Índico que inculcava a olhos vistos, grandeza e viagem.
O Instituto Superior Técnico, onde fizera o curso de engenharia electrotécnica, era uma escola de grande prestígio, mas nem tudo era ouro, na altura em que o frequentei. Se havia ainda professores c como Mira Fernandes, António da Silveira, como Mira Fernandes, António da Silveira, Ferreira Dias, Moncada, gente de grande gabarito, abundava também um verdadeiro enxame de mediocridades confrangedoras que nos davam vergonha de lhes frequentar as aulas. Tive dali momentos bons e até invulgares, alguns inesquecíveis, mas na generalidade, a frequentação das aulas era deprimente e, em não poucos casos, a solução era não ir lá e estudar em casa ou, em vez disso, ler Proust e Stendhal, de bem melhor alimento...
Saído definitivamente de Moçambique em Março de 1976, e após um total de 38 anos lá vividos, devido a mudanças que eram inevitáveis e desejadas, mas que não trouxeram, inevitavelmente de começo, as soluções mais apropriadas, a viagem continuou por Joanesburgo, Paris, Estocolmo, Londres (17 anos) e, finalmente, Lisboa e Aveiro. Deixar o Índico não foi fácil: terra de estudo, trabalho, amores e amizades, ali sentira – e isso, nada mo tira – “embalado no berço das profundidades” marítimas, para citar uma senhora que provavelmente nunca lá esteve. Joanesburgo significou o deliberado mergulho na técnica nua e crua, alheado de vez dos problemas e dramas da gestão a quente dos humanos, em tempos de mutação política, social e profissional, como fora o último ano e meio, em Moçambique: sem tempo para reflectir e muito menos para dormir. Estocolmo foi o sanatório, a utopia, o ter tempo para tudo, para pensar, para escrever (dois livros, no ano que ali passei, com dias de um sol prolongado quase até à meia-noite), para pensar no que diria ser a minha vida, no regresso a um Portugal desarrumado, empobrecido, mal fichu, cheio de utopias e de cofres vazios. Caiu-me inesperadamente no colo uma oferta feita por esse príncipe da cultura, que foi David Mourão-Ferreira: ir para Londres, como Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal, solução quase miraculosa para o buraco negro que se me abria à frente. Fui – e foram dezassete anos fabulosos de Inglaterra. Mas, de que Inglaterra? Eis a grande questão! É que a Inglaterra é, no espírito das pessoas, muito mais do que aquilo que é realmente a Inglaterra. Esse estrangeiro George Mikes, um dos grandes escritores cómicos do século XX, que se tornou inglês, para ser capaz de os caracterizar e deles troçar como poucos, nessa obra-prima de humor britânico que é o livro How to be an Alien (1946), observa, a certa altura, com muita justeza: “Quando as pessoas dizem Inglaterra, querem, às vezes, dizer Grã-Bretanha, às vezes Reino Unido e, às vezes, Ilhas Britânicas – mas nunca querem dizer Inglaterra.”
Se observar os suecos, me intrigava e, às vezes, me deprimia, observar os ingleses, os seus hábitos e costumes, deixava-me perplexo e divertia-me. Em primeiro lugar, os ingleses não cessam de se maravilhar com a grandíssima sorte que é ter-se nascido inglês! Enquanto o português só pensa em ser outra coisa, o inglês não concebe que se possa não ser inglês. A gabarolice não começou mas atingiu as proporções de medalha, com esse construtor de impérios, que se chamou Cecil Rhodes: “Lembra-te”, advertia ele, “que és um inglês e que, por conseguinte, te saiu o primeiro prémio na lotaria da vida.” E o impagável juiz Lord Denning, que ainda mexia, quando eu por ali andei, não fazia a coisa por menos, quando afirmava: “Há muitas coisas, na vida, mais meritórias que o dinheiro. Uma delas é ser criado e educado nesta nossa Inglaterra que é ainda a inveja de terras menos felizes.” Ser inglês é tão bom, que se sobrevive a todos os malefícios, incluindo o de uma culinária próximo de intragável: alguém dizia que a Inglaterra é o único país do mundo em que a culinária é francamente mais perigosa do que o sexo. Há ali, na terra de Dickens, de tudo e para todos os gostos. Há, eminentemente, o prazer indiscutível, para eles, de se manter a diferença de classes: “Sem a diferença de classes, a Inglaterra deixaria de ser o teatro vivo que ainda é,” observava Anthony Burgess, o celebrado autor de A Laranja Mecânica. Os ditos e dichotes, sobre os ingleses, abundam – e são, quase todos, ferinamente certeiros (e os ingleses adoram, masoquistamente, ver-se assim caricaturados). A culinária inglesa é o alvo predilecto de povos para os quais a comida é importante para o paladar, para o estômago e para a conversa. Assim, Domenico Caracciolo, governador da Sicília, observava, com não escondido desprezo: “Na Inglaterra, há sessenta religiões diferentes e um só molho.” A grande capacidade organizadora dos ingleses, que chega à mania, mas funciona admiravelmente – imaginem que uma coisa marcada para as quatro horas começa mesmo às quatro horas! – não se furta à caricatura: o impagável e já citado George Mikes, no seu clássico How to be an allien, observa: “Um inglês, mesmo quando está sozinho, forma logo uma bem ordenada fila de um.” Há várias maneiras de se pronunciar o inglês, as quais se desprezam mutuamente com alguma convicção. Por isso, Alan Jay Lerner, o co-autor de My Fair Lady, observava com humor certeiro: “O modo de um inglês falar classifica-o irremediavelmente. No momento em que fala leva logo outro inglês a desprezá-lo.” Mas ainda a melhor maneira de um estrangeiro ali viver é seguir a recomendação do escritor americano Henry James, que aconselhava: “É bom ter um pé na Inglaterra, ou, pelo menos tão bom, ter o outro fora dela.
Uma coisa que irrita ou, pelo menos, desassossega os estrangeiros que, como eu, ali foram abundantemente felizes, durante dezassete anos, é a chamada sobriedade inglesa. Reagem pouco e seco, mesmo aos maiores deslumbramentos cósmicos. O conhecido romancista E.M. Forster (A Passage to India), observava, a este respeito: “Um inglês não deve nunca expressar grande alegria ou tristeza, ou mesmo abrir demasiado a sua boca, enquanto fala – corre o risco de o seu cachimbo cair, se o fizer.” Também inquieta o meridional mais sanguíneo, notar a já aludida e não muito oculta tendência para um certo masoquismo cristão. Todos os anos, um ou mais britânicos de monta vão aos Estados Unidos, a convite, celebrar com humildade supostamente louvável, a coça que os americanos deram aos britânicos, na luta pela independência. E faz parte do protocolo serem submetidos ao mais acutilante ridículo e achincalhamento. É quase tão mau como as praxes nas universidades portuguesas. Mas os filhos de Albion sofrem tudo com um sorriso estóico e, se calhar, gostam. Como dizia o já citado E.M. Foster, “o inglês é incapaz de gostar de alguém que o não ponha K. O.” Seja como for, gosto dos ingleses, com todas as suas manias e tics, mesmo do seu formalismo um bocadinho hirto, que levou o impagável Bob Hope a dizer de um certo lugar: “O sítio é tão inglês, que eu não ficaria surpreendido se visse os ratinhos todos de monóculo.”
Foi numa Inglaterra mais ou menos assim (e não dei, da missa, metade...), que fui abundantemente feliz, durante dezassete anos, tentando mostrar aos ingleses, sempre desconfiados, que em Portugal havia alguma cultura não totalmente desprezível e, de caminho, abastecendo-me com a deles, que é muita, mesmo quando sabe a pouco. Fi-lo com a ajuda de muita gente, alguma na Embaixada, como, por exemplo, o meu amigo e excepcional diplomata Francisco Seixas da Costa, outra, fora da embaixada, como o meu amigo Kim Taylor, director da Gulbenkian, em Londres, e grande amigo e conhecedor das coisas lusas. Não vou maçar-vos com pormenores – direi, apenas, com sobriedade pilhada aos britânicos, que procurei não dormir em serviço. Um dia, nas minhas memórias – se os deuses deixarem – darei alguns exemplos. Para isso, não vai ser preciso dizer mal de ninguém e vai ser um privilégio e um prazer dizer bem de muita gente. Dei e recebi, com júbilo e sem cansaço, porque, como dizia o sábio Samuel Johnson, “quem está farto de Londres, está farto da vida”.
De ali, em 1995, com a alma a sangrar, saí, de regresso a Lisboa. Não sangrava por vir para Lisboa, mas tão só por deixar Londres – onde havia o melhor teatro do mundo e o mais que aqui não vou dizer.
Depois foi a UNESCO e, ao fim de um ano, em acumulação que me atirou a tensão arterial para 19, a Universidade de Aveiro, entre 1996 e 2002. Aqui, nesta Universidade agora classificada internacionalmente como a melhor universidade portuguesa e uma das 400 melhores do mundo, conheci e fiz amizade com colegas, conheci e fiz amizade com alunos, conheci e fiz amizade com pessoas que não eram nem colegas nem alunos e fiz amizade com Aveiro, que é uma cidade lindíssima e o que, de Veneza, se pode aqui arranjar... Ensinei alguma coisa, aprendi muito e fui, como em Londres, extraordinariamente feliz. Dizia um bispo inglês, o bispo de Creighton, que “o único e verdadeiro objecto da educação é deixar uma pessoa em condições de fazer perguntas.” Também o penso e assim procurei fazer: como professor, como escritor, como conviva, busquei sempre incitar os meus alunos, os meus leitores, os meus amigos e convivas a não irem nisso, a pensarem por si, a exercerem o espírito crítico, a não aceitarem a tirania dos ventos que sopram (mesmo quando soprados por senhores de grande aparato e de alegado génio incontornável), a verificarem por si se, por acaso, o rei não vai nu. Infelizmente, nem as universidades (algumas, pelo menos), – esse terreno, por excelência, do debate e do exercício do espírito crítico – se têm revelado constantemente imunes à tirania da moda, do nome sonante (que é importante citar, para não parecer que se perdeu o comboio). Era talvez neste sentido que esse espírito arguto e intemerato, que foi Bertrand Russell, observava, com mais do que alguma justiça: “Deparamos [hoje] com o paradoxo de que a educação se tornou o principal obstáculo à inteligência e à liberdade de pensamento.” Contra tudo isto procurei lutar e precaver os meus alunos, porque eram meus alunos e porque viriam a ser cidadãos que eu gostaria de ver de espírito livre, galhardamente autónomo e corajoso: marimbando-se, regiamente, para os génios de serviço, os quais também debitam, no dia-a-dia, o seu par de egrégios disparates.
Esta longa viagem – a vida – é uma viagem em que se parte do não-ser e a ele se regressa. Faz lembrar o dito: “Ele viajava apenas para poder regressar a casa.” Neste caso, a casa de onde se parte e a que se regressa – é o nada. A ele me acolherei, num dia não muito longínquo, com a serenidade e a filosofia que me for dado municiar. Confesso-vos que não tenho pressa: como dizia o célebre actor e cançonetista francês, Maurice Chevalier, “prefiro uma idade avançada à outra alternativa”. Levo comigo alguns contentamentos e alguns remorsos. Entre estes, o que mais me aflige é o de alguma desatenção com que possa ter ferido quem de mim esperava atenção. Nunca foi por mal, mas tão só porque não se dispõe nunca de recursos ilimitados. Seja como for, creio que a atenção que se não dá é sempre uma ferida funda que se inflige. Poder tê-lo feito punge-me, nesta hora de balanços. E tanto mais, quanto sou eu próprio, hoje e aqui, alvo de uma carinhosa e imerecida atenção de colegas e amigos, que quiseram, caridosamente, vir dizer-me que talvez não tenha feito apenas coisas erradas. Mesmo que não seja tão verdade como dizem, faço de conta que acredito e agradeço-lhes do coração com um singelo “Muito obrigado!”
Eugénio Lisboa, texto  lido na sessão de 22 de Outubro de 2011, integra a edição nº 16 da Linhas - Revista da Universidade de Aveiro de 29.12.2011

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