sexta-feira, 16 de abril de 2021

A tragédia da Hungria

Sophia de Mello Breyner Andresen
Um «Depoimento» esquecido e enterrado
por Vasco Rosa
" «Esta é a madrugada que eu esperava | O dia inicial inteiro e limpo | em que emergimos da noite e do silêncio | e vivos habitamos a substância do tempo» são versos para lá de famosos e repetidos – e com razão – de Sophia de Mello Breyner Andresen, mas embora a sua oposição ao anterior regime seja hoje bastante conhecida, a escritora marcou numa outra ocasião de grande introspecção moral – e política – uma igualmente vincada posição ética de que, todavia, todos os ensaios biográficos, estudos literários, entrevistas e artigos avulsos se esqueceram, ou quiseram fazer esquecido.
A 20 de Novembro de 1956, conjuntamente com o poeta e grande amigo Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes e o advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares, com quem se casara havia dez anos certos – todos católicos e monárquicos ligados ao Centro Nacional de Cultura -, Sophia assinou na primeira página do Diário Popular um veemente «Depoimento» em repúdio frontal à violência soviética contra a revolta libertária húngara, esmagada duas semanas antes, e em resposta ao apelo internacional dos intelectuais daquele país.
Intervenções russas desse calibre e pinta abriram conhecidas rachas e dissensões nas fileiras «humanistas» europeias, como não podia deixar de ser, mas dificilmente se compreende que o documento que adiante se divulga – um caso sem tradição na cultura portuguesa -, não tenha sido registado ou comentado na biografia de Isabel Nery (Esfera dos Livros, 2019), e inútil se torna folhear as actas do colóquio internacional promovido pelo Centro Nacional de Cultura em 2011, ou números monográficos de revistas literárias. Tão-pouco Peter Stilwell o menciona no seu magistral A Condição Humana em Ruy Cinatti (Presença, 1995) ou dele vi sinais na recolha de textos políticos de Francisco de Sousa Tavares organizada por seu filho Miguel (Escritos Políticos, 2 vols., Figueirinhas, 1996). Maria Carneiro de Sousa também não o notou no livro subintitulado Obra de 1944-1962, precursora do Concílio Vaticano II no contexto político e eclesial português (2004), nem mesmo quando avalia os seus «pontos de contacto» com o poeta de O Livro do Nómada Meu Amigo, saído em 1958 pela Guimarães Editora, com um poema-prefácio de Sophia de Mello Breyner.
No seu livro Um Combate Desigual. Ensaios de Sociologia Portuguesa, impresso em edição de autor em 1960, quatro anos depois deste «Depoimento», Francisco de Sousa Tavares escreveu: «O totalitarismo fascista e a tirania marxista foram no mundo moderno as grandes explosões políticas duma atitude filosófica verdadeiramente anticristã. […] A democracia é o regime que exige dos homens maior nível moral; que requere educação, autodomínio, respeito íntimo e profundo pela dignidade dos outros. Sem o absoluto duma lei moral e dum direito natural, a democracia arrastar-se-á prostituída pelas ruas, à mercê da massa e do tirano. A disciplina democrática é de dentro para fora e não de fora para dentro. Tem de existir na consciência dos homens para que possa viver na consciência da cidade» (pp. 186-87).
Por omissão, cumplicidade ou indiferença – que persistem -, o libelo de Sophia, Cinatti e Sousa Tavares não terá tido reverberações na sociedade portuguesa, enfeixada também ela entre duas dominações. O antifascismo tornou-se narrativa única, e não precisamos de ler Júlio Pomar. O Pintor no Tempo de Irene Flunser Pimentel (2018) para o perceber… Mas talvez agora, relendo este depoimento, ganhem outra tonalidade os versos do poema «Exílio», que em 1962 Sophia incluiu no seu Livro Sexto, e clamam assim: «Quando a pátria que temos não a temos | Perdida por silêncio e por renúncia | Até a voz do mar se torna exílio | E a luz que nos rodeia é como grades»…"
Vasco Rosa, em CNC, 26 Dezembro, 2020
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A tragédia da Hungria: depoimento
"1956. Crepúsculo sangrento de um ano que a saudade não conserva. Com o cair das folhas neste Outono frio e inundado de sol, a horrível tragédia de Tróia e de Cartago, o grito lancinante das cidades mortas, de novo se desdobra e clama na terra martirizada da Europa antiga.
De novo o Mundo assistiu, cobarde e quieto, ao massacre do pudonor gentil de uma raça, ao estrangulamento frio e fundo do humano grito de liberdade ou morte. Encharcada no sangue dos seus filhos, sagrada pelo martírio incrível de uma geração, a terra plana da Hungria avulta aos nossos olhos como a viva imagem da tortura moral e física do homem escravizado pelo homem, massacrado pela força, atingido na sua dignidade, na sua honra e no seu sentido de justiça.
O Zero e o Infinito. O esmigalhamento da personalidade e do sonho humano de uma cidade em que os homens sejam livres e seguros, em que a lei seja a trincheira que defende todos e cada um do monstro abstracto e sem alma em que pode degenerar o poder dum Estado político.
O grande, o inanarrável drama que sintetiza e explica para a História o século XX – o drama do poder totalitário do Estado – encheu mais um capítulo de horror na História moderna; mais uma vez o diálogo mortal do direito e da força subiu à tona do destino humano, iluminado pelos clarões de uma cidade agónica e de um povo em desespero. O silêncio pesado e brutal amortalhou os últimos clamores da festa magnífica em que um povo inteiro celebrou, embriagado, o direito de ser livre, o direito de ser senhor da sua vida, do seu destino e… do seu governo.
A Hungria morreu. Mas o sangue derramado em jorro sobre as pedras antiquíssimas de Buda e de Pest, o sangue que tingiu a água ocidental e europeia do Danúbio não pode ser perdido. Como semente de heroísmo, como módulo da determinada e estóica resistência individual à tirania da força, cimenta em cada um de nós, ocidentais e europeus definitivos, a profunda vontade de estruturar a nossa liberdade cívica e vital e a nossa cristã dignidade de homens, em termos claros e iniludíveis, em termos de repugnância instintiva a toda a forma de prepotência ou de arbítrio contra a lei.
Baudelaire dizia que o poeta não é de nenhum partido, pois se o fosse seria um simples mortal.
Independentemente de qualquer partido, as terríveis violências praticadas na Hungria põem de luto a inteligência e a alma de todos aqueles que esperavam que o seu tempo não fosse um tempo de suplícios, de traição e de mentira.
Põem de luto a alma de todos aqueles que, com a sua inteligência ou a sua arte, tentaram encontrar a verdade de um universo puro e de uma ordem real.
E, na fúria anormal e desumana com que a liberdade da Hungria é esmagada, o regime russo mostrou que não trazia em si nenhum ideal, mas unicamente política. Unicamente um partido.
E ninguém pode suportar o horror de um mundo onde um homem não é um homem mas unicamente um número que, quando convém, pode ser suprimido.
A violência e o abuso que estão sendo praticados na Hungria são o resultado natural de uma maneira de ser onde, sem respeito pela individualidade, pela solidão e pela diginidade humanas, os homens chamam uns aos outros camarada. A palavra camarada, palavra que exprime promiscuidade e desidentificação, é uma palavra que tende a destruir aquele dado essencial de toda a poesia de que cada homem é em si um valor único e insubstituível. É uma palavra que serve de máscara e de incentivo àquela antiga perversão do instinto de espécie que faz com que o homem seja o lobo do homem.
Nenhuma inteligência objectiva pode aceitar uma justificação para a repressão da revolução húngara. Nenhum poeta pode deixar de chorar sobre a esperança e a claridade destruídas.
Quisemos prestar esta homenagem à grandeza e ao heroísmo da mocidade cobardemente assassinada. Nela ressurgiu o sentido esquecido da palavra homem. E não pudemos calar o eco solitário e impotente que em nós levantou o apelo angustiante dos intelectuais húngaros; temos horror de pertencer a um Mundo em que esse grito se perdeu sem que a indignação levantasse as almas e os homens se erguessem para a morte, porque a vida fica sem destino e sem leveza quando já nada se defende nem nada se combate. Ao grito dos nossos irmãos perdidos e abandonados, a todos os heróis mortos por nós, pela nossa liberdade e pelo nosso destino, nada temos para dar além deste testemunho de admiração, de piedade e de tristeza imensa.
Não podemos aceitar o massacre de uma cidade.
Não podemos aceitar nenhuma confusão de planos entre o massacre da Hungria e a luta do Suez. Porque, nesta, a inteligência, a sensibilidade e o conhecimento histórico se podem dividir em possibilidade dialéctica. Sobre o cadáver de uma cidade martirizada nenhuma discussão é possível. E, sobretudo, não aceitamos essa confusão de planos quando ela é feita por aqueles que na literatura constantemente invocam a palavra humano, e se esquecem do homem, filho de Deus, na realidade concreta.
Pelo homem húngaro, achincalhado e morto, sem discussão e sem perdão, aos assassinos nos erguemos em claro, definitivo e revoltado protesto."
Sophia de Mello Breyner Andresen, Ruy Cinatti e Francisco de Sousa Tavares
Diário Popular, Lisboa, 20 de Novembro de 1956, pp. 1, 6

quinta-feira, 15 de abril de 2021

O sol não é para todos


O sol quando se põe não é para todos
por Dulce Maria Cardoso
“Antigamente era obrigada a abordá-los na rua, Sabe dizer-me, por favor, como faço para ir para…, adivinhando--lhes o desdém ou a complacência no sorriso que me dispensavam, atarantava-me ao decorar o emaranhado de indicações cheio de esquerdas e direitas em que invariavelmente me perdia
Sou uma desorientada espacial. Invejo aqueles que sabem sempre onde estão, que indicam com segurança os pontos cardeais e se comportam como se o mundo, enigmático e mudo para mim, lhes fornecesse informações que os conduzem com segurança a todo o lado. Imagino os cérebros deles diferentes do meu, com mapas interativos no hipocampo ou no córtex frontal a revelar-lhes, segundo a segundo, os melhores atalhos para os destinos que traçam e a permitir-lhes escolher sem hesitação casas com orientação nascente-poente. Antigamente era obrigada a abordá-los na rua, Sabe dizer-me, por favor, como faço para ir para…, adivinhando-lhes o desdém ou a complacência no sorriso que me dispensavam, atarantava-me ao decorar o emaranhado de indicações cheio de esquerdas e direitas em que invariavelmente me perdia, Depois do café com o toldo amarelo era a primeira à esquerda e segunda à direita ou primeira à direita e segunda à esquerda? Já não preciso de nada disso, agora tenho dentro do meu telemóvel milhares de mapas com que umas quantas aplicações me guiam pelos lugares mais extraviados do mundo. No entanto, continuo sem saber onde vai cair a sombra do que me rodeia.
Que belo sítio, pensei, quando estendi a toalha de praia, incapaz de antever que, em breve, a enorme parede de rocha derruiria sobre mim a sombra das volumosas ampliações que o hotel Albatroz, encavalitado lá em cima, sofrera nas últimas décadas. Até isso acontecer, estranhei que, com tanto espaço disponível, a maioria dos banhistas se argamassasse mais à frente, incumprindo os alertas que existiam por toda a praia sobre a necessidade de distanciamento social. Os vizinhos mais próximos do que pensei ser o meu privilegiado lugar eram os pais de um bebé com poucos meses, depois, dois velhos convalescentes, uma mulher de chapéu e lenço como as atrizes dos anos cinquenta acompanhada por um macambúzio de auriculares e óculos escuros, mais além era difícil distinguir os magros dos gordos, os altos dos baixos, os negros dos caucasianos, os novos dos velhos, os calados dos barulhentos, a distância e o sol esborratavam-mos, Aqui estão elas, as bolinhas de Berlim, tão quentinhas e amarelas, tenho muitas só para si, apregoou o homem carregado com duas enormes caixas plásticas, uma em cada ombro, tinha um corpo pequeno e compacto. Para lá da massa indistinta de corpos, estendia-se a zona concessionada, uma dúzia de chapéus de sol com a inscrição The Charm of the Atlantic Coast. Usufruía-se do prometido charme, duas espreguiçadeiras e uma mesinha sob um chapéu de sol, por 25 euros ao dia. Quando fui comprar um refresco ao bar, avistei um casalinho a beber vinho branco em copos altos, bastante afastado de um outro, estrangeiro e mais velho, que dividia a atenção entre a leitura de livros de bolso e a vigilância de três filhos pequenos e louros em brincadeiras à beira-mar. De resto, eram apenas chapéus de sol num fim de verão, mal aconchegando mesinhas vazias e espreguiçadeiras sem ninguém.
Naquele quarto decrescente de praia, o céu destapava-nos a todos, azul e amplo, o vento amainava, o mar entretinha os mais novos com um carrossel de ondas, ouviam-se os gritos e as gargalhadas dos seus corpos jovens quando a água os empurrava baixo e cima, era uma tarde perfeita de praia apesar do rugido da gigantesca máquina do ar condicionado do hotel pendurada na parede de rocha. Cinco estrelas, vista frontal de mar, 50 quartos para não fumadores, um restaurante e bar/lounge, uma piscina exterior, business center aberto 24 horas, transporte de/para o aeroporto, serviço de babysitter, serviço de limpeza a seco/lavandaria, salas de conferências, soberbo pequeno-almoço, internet sem fios e estacionamento, o meu telemóvel está convencido de que sabe tudo, quer que eu confirme se estou onde ele julga que eu estou e que dê a minha opinião, 540 hóspedes deixaram comentários sobre o hotel, atribuindo-lhe uma pontuação média de 9,7 em 10. Nenhum deles referiu a sombra do hotel que avançava. Os banhistas moviam-se para o sol cada vez mais encurralados. Entre a maré a subir e o Charme da Costa Atlântica, uma massa humana aprisionada despedia-se do verão.
Grande parte da areia já estava à sombra, quando as gaivotas invadiram a praia. Começaram a andar entre nós em aflições guinchadas de fome, algumas delas iguais às das ilustrações, asas escuras, cabeça e peito brancos, patas e bico amarelo-clarinhos, a maioria desconforme com os livros escolares, gaivotas imperfeitamente pintalgadas, com falhas na plumagem, pernas mutiladas por anzóis, bicos cortados. Apanhavam tampas de garrafas de água, bocados de esferovite, de cartão, caroços secos de maçãs, beatas, lixo deixado na areia. Estacavam à nossa frente e viravam a cabeça para nos fixar demoradamente com o despudor de que só os outros animais são capazes. Uma delas parou tão perto de mim que lhe tocava se estendesse o braço. Não reagiu aos meus assobios nem às minhas outras tentativas ridículas de comunicação. Lembrei-me de como em certas praias, na maré baixa, dezenas, centenas de gaivotas pousam numa só perna, perfiladas numa enigmática formação veneradora do pôr do sol, Porque farão aquilo? Não dei conta de o bando de crianças se ter formado. Eram mais de uma dúzia, bronzeadas pelo sol gentil, os corpos espigados a crescerem com vontade, Vamos matar esta, gritavam ao escolherem uma presa, Esta, vamos matar esta, a gaivota perseguida conseguia levantar voo para gáudio da pequenada, Também quero matar uma, dizia um dos que iam na cauda do grupo, Há gaivotas para todos, garantiam os mais velhos, Aquela ali é coxa, é fácil de apanhar. Os meninos louros da zona concessionada não faziam parte do bando, não entendiam por certo as palavras dos outros, mas reconheciam-lhe o propósito e acompanhavam-no, entretidos, como os adultos. Os gritos das gaivotas abafaram os das crianças. Até que tudo se calou. Game over.
Saí apressada da praia.
Não foram registados quaisquer contactos de proximidade com elevado risco de contágio, garantiu-me a Stayaway Covid no meu telemóvel, quando o atirei para dentro da sacola. E se também eu estiver a transformar-me numa personagem de um jogo de computador? Será que vou começar a matar por aí?
Sinto-me perdida nesta irrealidade, Alguém sabe dizer-me, por favor, como faço para ir para casa?”
Dulce Maria Cardoso, em Crónica publicada na VISÃO 1438 de 24 de Setembro

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Música do Mundo

Répondez-moi

Je vis dans une maison sans balcon, sans toiture
Y a même pas d'oiseaux, même pas la nature
C'est même pas une maison
J'ai laissé en passant quelques mots sur le mur
Du couloir qui descend au parking des voitures
Quelques mots pour les grands
Même pas des injures
Si quelqu'un les entend
Répondez-moi
Répondez-moi
Mon cœur a peur d'être emmuré entre vos tours de glace
Condamné au bruit des camions qui passent
Lui qui rêvait de champs d'étoiles, de colliers de jonquilles
Pour accrocher aux épaules des filles
Mais le matin vous entraîne en courant vers vos habitudes
Et le soir, votre forêt d'antennes est branchée sur la solitude
Et que brille la lune pleine
Que souffle le vent du sud
Vous, vous n'entendez pas
Et moi, je vois passer vos chiens superbes aux yeux de glace
Portés sur des coussins que les maîtres embrassent
Pour s'effleurer la main, il faut des mots de passe
Pour s'effleurer la main
Répondez-moi
Répondez-moi
Mon cœur a peur de s'enliser dans aussi peu d'espace
Condamné au bruit des camions qui passent
Lui qui rêvait de champs d'étoiles et de pluie de jonquilles
Pour s'abriter aux épaules des filles
Mais la dernière des fées cherche sa baguette magique
Mon ami, le ruisseau dort dans une bouteille en plastique
Les saisons se sont arrêtées aux pieds des arbres synthétiques
Il n'y a plus que moi
Et moi, je vis dans ma maison sans balcon, sans toiture
Où y a même pas d'abeilles sur les pots de confiture
Y a même pas d'oiseaux, même pas la nature
C'est même pas une maison.

As vozes quando se juntam  derrubam paredes , enchem de magia   os espaços que se abrem .
Le Grand choral de Francis Cabrel e Fred Pellerin ,interpretam  Répondez-moi  , na 31ª edição des Nuits de Champagnes - Grand choral 2018 . Francis Cabrel  é o autor da canção Répondez-moi.

 
Kat McPhee, Celine Dion, Josh Groban & outros cantam  'SMILE'.

 

terça-feira, 13 de abril de 2021

A luz que há na sombra


«Elogio da Sombra» é uma das principais obras de Junichiro Tanizaki (1886-1965) e um dos mais fascinantes ensaios sobre as diferenças entre o Ocidente e o Oriente.
Para os ocidentais, o mais importante aliado da beleza foi sempre a luz, a ausência de sombras. Para a estética tradicional japonesa, do rosto das mulheres às salas dos templos, o essencial está na sombra e nos seus efeitos.
Neste ensaio de 1933, Tanizaki fala-nos da cor das lacas, dos actores de nô, das paredes dos corredores, dos beirais das casas, da luz que há na sombra, para nos prevenir contra tudo o que brilha.
Revela-nos o que sentia ao olhar o papel dos shôji, a visão de um universo ambíguo onde luz e sombra se confundem numa impressão de eternidade."
Eis as primeiras páginas:  
“Um amante de arquitetura que queira construir nos dias de hoje uma residência de puro estilo japonês deve preparar‑se para ter bastantes dissabores com a instalação da electricidade, do gás e da água, e ainda que não tenha passado pessoalmente pela experiência de construir, basta entrar numa sala de casa de encontros, de restaurante ou pousada, para se dar conta dos esforços que terá sido preciso despender para integrar harmoniosamente esses dispositivos numa divisão de estilo japonês. A menos que seja um desses amantes de chá que, na sua suficiência, tratam com desprezo os benefícios da civilização científica, e que estabelecem a sua «choupana» no fundo de algum campo distante, desde que se esteja à frente de uma família de certa importância e se viva na cidade, não vejo porque se virariam as costas, a pretexto de se querer ter uma casa tão japonesa quanto possível, aos caloríferos, aos candeeiros, às instalações sanitárias, ele‑ mentos todos eles indispensáveis da vida moderna. Bem entendido, um homem razoavelmente meticuloso irá torturar os miolos com a mais pequena coisa, por exemplo o telefone, que desterrará para debaixo de uma escada, ou para um canto do corredor, ali onde chame menos a atenção. Mandará enterrar os fios elétricos no jardim, dissimular os comutadores em armários de parede, sob as estantes, correr as linhas interiores à sombra de biombos, de tal forma que acontece, por vezes, que no fim de tanto engenho se experimenta alguma irritação face a este excesso de artifício. Uma lâmpada elétrica é, doravante, coisa familiar aos nossos olhos; então, porquê estas meias‑medidas em vez de deixar muito simplesmente o bolbo a nu, com um simples abat­‑jour de vidro fino e leitoso, que dará a impressão de naturalidade e simplicidade. À noite, olhando o campo através da janela de um comboio, aconteceu‑me avistar, à sombra dos shōji
1 de uma casa de camponês, uma lâmpada que brilhava solitária sob um desses finos abat­‑jours antigos, e achar isso de um gosto requintado. Pelo contrário, um ventilador é outra história, pois nem o seu ruído nem a sua forma combinam facilmente com o estilo de uma divisão japonesa. Numa casa particular, se não se gostar dele, pode‑se muito bem dispensá‑lo; mas um estabelecimento destinado a acolher clientes no verão não pode sujeitar‑se apenas aos gostos do proprietário. O meu amigo, dono do Kairakuen, conhecedor bastante subtil em matéria de arquitectura, considera os ventiladores um horror e durante muito tempo recusou‑se a mandar instalá‑los nos quartos; mas todos os anos, mal chegava o verão, tinha de suportar os queixumes dos clientes, de forma que acabou por ceder. Eu próprio, que vos falo disto, gastei o ano passado uma fortuna pouco compatível com a minha situação na construção de uma casa, o que me valeu uma experiência do mesmo género; como quis tratar de todos os pormenores, dos tabiques móveis até ao último dos acessórios, debati‑me com imensas dificuldades. Os shōji, por exemplo: sob pretexto de bom gosto, não quis colocar‑ lhe vidraças, e decidi não utilizar estritamente mais nada além de papel; daí surgiram contrariedades em matéria de iluminação, além de fecharem mal. Em desespero de causa, pensei forrá‑los interiormente com papel e colocar vidraças no exterior. Para isso, foram precisas molduras duplas, face e verso, e a despesa aumentou na mesma proporção; quando por fim foram colocados no seu lugar, descobri que, vistos de fora, eram vulgares portas envidraçadas e que, vistos de dentro, por causa do vidro que duplicava o papel, já não tinham o relevo e a suavidade dos autênticos shōji; em suma, o efeito era dos mais desagradáveis. Perguntamo‑nos então se não teria valido mais a pena colocar umas portas envidraçadas decentes, e mordemos os dedos; de outra qualquer pessoa talvez troçássemos, mas, tratando‑se de nós, torna‑se difícil admitir que nos enganámos enquanto não tivermos experimentado tudo. Encontramos nas lojas, nestes últimos tempos, candeeiros eléctricos com a forma de lanternas portáteis, ou de suspensão, ou cilíndricos, ou ainda com a forma de castiçais, mais de harmonia com uma divisão japonesa; no entanto, não me agradam nada e procurei em casas de antiquários candeeiros de petróleo, lamparinas, e candeeiros de cabeceira de antigamente, e adaptei‑lhes lâmpadas elétricas. Foram, porém, os aparelhos de aquecimento que me deram mais dores de cabeça. De todos os que se designam pelo termo genérico de «fogão de sala», não existe de facto um único cuja forma possa convir a uma divisão japonesa. O fogão a gás emite além do mais um zumbido contínuo e, a menos que se tenha previsto uma chaminé de ventilação, causa, num instante, uma dor de cabeça; o fogão eléctrico seria ideal a este respeito, se as suas formas não fossem tão desgraciosas. É certo que poderíamos dispor sob as prateleiras radiadores parecidos com os que se utilizam nos eléctricos, mas deixar de ver o clarão vermelho do lume aboliria todo o encanto do inverno, e a intimidade familiar sofreria com isso. Para mim, após múltiplas cogitações, mandei construir uma espécie de forno central, como os que encontramos nas casas de camponeses, e instalei aí uma lareira elétrica; este dispositivo permite‑me conservar quente a água do chá e aquecer a divisão e, reserva feita ao elevado custo da operação, de um ponto de vista estético é, mesmo, um êxito. Tinha então resolvido o problema do aquecimento de maneira satisfatória, mas a casa de banho e as retretes iriam causar‑me novas preocupações. O dono do Kaira‑ kuen2, recusando‑se a empregar ladrilhos para as banheiras e escoamento, tinha mandado construir as casas de banho dos clientes todas em madeira, mas está visto que o ladrilho é mil vezes mais económico e mais prático. Podíamos utilizar uma bela madeira japonesa para o tecto, os pilares, e os tabiques, e resignarmo‑nos para o resto a um desses ladrilhos vistosos, mas o contraste seria chocante. Quando tudo ainda é novo, ainda vá, mas quando com o passar dos anos a madeira das tábuas e dos pilares tiver adquirido pátina, e apenas o ladrilho houver conservado o seu branco brilhante e polido, teremos literalmente «casado a madeira com o bambu». Para a casa de banho, porém, as coisas podiam resolver‑se, em rigor, sacrificando um pouco o lado prático em benefício do bom gosto. Mas quando passei às retretes é que os problemas incómodos surgiram mais intensamente. De cada vez que, num mosteiro de Kyoto ou de Nara me indicam o caminho das retretes construídas à maneira de outros tempos, meio escuras e no entanto de uma limpeza meticulosa, sinto intensamente a qualidade rara da arquitectura japonesa. Um pavilhão de chá é um local agradável, admito, mas as retretes em estilo japonês, isso sim, é algo que verdadeiramente foi concebido para a paz de espírito. Sempre à parte do edifício principal, estão colocadas ao abrigo de um bosquezinho de onde nos chega um aroma de folhagem verde e musgo; depois de, para lá chegar, se ter seguido por uma galeria coberta, de cócoras na penumbra, envoltos na luz suave dos shōji e mergulhados em pensamentos, experimenta‑se, contemplando o espetáculo do jardim que se estende sob a janela, uma emoção impossível de descrever. Ao número de prazeres da sua existência, o mestre Sōseki3 adicionava, segundo parece, o facto de ir todas as manhãs aliviar‑se, insistindo em que se tratava de uma satisfação de ordem essencialmente fisiológica; ora, para apreciar plenamente este prazer, não há local mais adequado que as retretes de estilo japonês onde podemos, abrigados por paredes muito simples, de superfície limpa, contemplar o azul do céu e o verde da folhagem. Correndo o risco de me tornar repetitivo, acrescentarei além do mais que uma determinada qualidade de penumbra, uma limpeza absoluta e um silêncio tal que o canto de um mosquito perturbaria o ouvido, são condições indispensáveis. Sempre que me encontro num sítio assim, agrada‑me ouvir cair uma chuva suave e regular.(…)
Junichiro Tanizaki, in Elogio da sombra, Relógio D’Água Editores, pp. 9-13

1 Shōji — Tabique móvel constituído por uma armação de ripas em quadrados pequenos, sobre a qual é colado um papel branco espesso que deixa passar a luz mas não o olhar. Os shōji eram, até há relativamente pouco tempo, a única forma de encerrar a casa japonesa. À noite, são reforçados no exterior por portadas maciças (amado), também de correr. Hoje em dia, os shōji são frequentemente precedidos, ou até mesmo substituídos, por portas envidraçadas. (N. da T.)
2 Kairakuen — Literalmente o termo significa um «parque para ser gozado em companhia». É também o nome de um muito famoso jar‑ dim japonês situado em Mito (Ibaraki). Neste caso, e tendo em conta o contexto, é de crer que Tanizaki se refira a um ryokan, um hotel tradicional japonês. Acrescente‑se que em Nagasaki existe um ryokan com este nome, ainda em atividade, e cuja construção data de 1830. (N. de PS = Nota de Pedro Serrano.)
3 Natsume Sōseki (1867‑1916) — Pseudónimo de Natsume Kinno‑ suke, o romancista mais conhecido e popular da era Meiji (1868‑ ‑1912) foi, simultaneamente, um descobridor de talentos, e um grande número de escritores da era seguinte (Taïshō, 1912‑1926) considerava‑o seu mestre. Para além de romancista, as suas obras mais conhecidas são Kokoro e I Am a Cat, foi também um poeta que cultivou o haiku e os poemas concebidos em estilo chinês. Refira‑se, a título de curiosidade, que o seu retrato ornou, entre 1984 e 2004, as notas de 1000 ienes do Banco do Japão. (N. da T. e de PS.)

Sobre o autor
Junichiro Tanizaki nasceu em Tóquio, em 1886 e  morreu em 1965. Estudou Literatura Japonesa na Universidade Imperial de Tóquio. Publicou o primeiro trabalho em 1909, numa revista literária que ajudou a fundar. A sua obra de juventude revela forte influência de Poe, Baudelaire e Oscar Wilde. A partir de 1923, deixou-se absorver pela cultura de seu país e abandonou a inclinação ocidental, vivendo nesse momento uma crise intelectual e emocional que contribuiu decisivamente para torná-lo um dos nomes centrais da literatura japonesa do século XX. Em 1949, recebeu o pré
mio Imperial de Literatura.   Em 1964, foi eleito Membro Honorário da American Academy e do National Institut of Arts and Letters, sendo o primeiro escritor japonês a receber essa honra. É autor, entre outros, de O Diário de um velho louco."

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Bafta 2021


"Nomadland" foi, no passado domingo, dia 11, o grande vencedor da 74.ª edição dos prémios da Academia Britânica das Artes Cinematográficas e da Televisão (BAFTA).
O filme da realizadora sino-americana Chloé Zhao conta a história de uma mulher, interpretada por Frances McDormand, que viaja pela América como nómada, vivendo numa caravana, trabalhando em empregos temporários e sobrevivendo na estrada, na sequência de uma crise económica.
Chloé Zhao tornou-se na segunda mulher a ganhar o BAFTA de "Melhor Realização", e a primeira asiática, sendo que, na madrugada do passado domingo, já tinha sido distinguida com o mesmo prémio, mas pelo Sindicato dos Realizadores da América.
Chloé Zhao, que recebeu os prémios relativos a "Melhor Filme" e "Melhor Realização", agradeceu à comunidade nómada, destacando a forma como esta partilhou "os seus sonhos e sofrimento", durante as filmagens.
"O filme diz-nos muito sobre a nossa sociedade e sobre o que precisamos de melhorar", disse Chloé Zhao no discurso.
"Nomadland - Sobreviver na América", que já venceu dois Globos de Ouro e está nomeado para sete Óscares, também venceu o prémio de "Melhor Atriz", ganho pela norte-americana Frances McDormand, e o de "Melhor Fotografia".
A película "Rocks" venceu dois prémios: o de "Melhor Elenco" e "Melhor Atriz Emergente", entregue a Bukky Bakray.
"Rocks" é um drama sobre uma adolescente que passa a viver na rua com o irmão mais novo, depois de ambos terem sido abandonados pela mãe.
Nas interpretações secundárias, foram distinguidos Daniel Kaluuya, em "Judas and the Black Messiah", e Yuh-Jung Youn, em "Minari".
"Soul" venceu o prémio de "Melhor Filme de Animação" e "Melhor Banda Sonora", enquanto "Sound of Metal" triunfou nas categorias de "Melhor Som" e de "Melhor Montagem".
O filme "The Father" arrecadou o prémio de "Melhor Actor", atribuído a Anthony Hopkins, e o de "Melhor Guião Adaptado". "A Promising Young Woman" venceu os prémios de "Melhor Filme Britânico" e de "Melhor Guião Original". "The Mother of Blues" venceu nas categorias de "Melhor Caracterização" e de "Melhor Guarda-Roupa".
O BAFTA de "Melhor Filme em Língua Não Inglesa" foi para "Another Round" e o relativo à "Maior Contribuição para o Cinema Britânico" foi entregue a Noel Clarke.
Tanto "Nomadland - Sobreviver na América", como "Rocks" somavam sete nomeações para os BAFTA, mas apenas o filme de Chloé Zhao, que tem recebido vários prémios nas últimas semanas, estava nas categorias de "Melhor Realização" e "Melhor Filme".
Este ano, a cerimónia dos BAFTA deveria ter acontecido em Fevereiro, mas foi adiada para Abril, por causa da pandemia Covid-19, seguindo a decisão tomada pela Academia dos Óscares, que adiou a entrega para finais de Abril.
O anúncio dos BAFTA aconteceu apenas online, a partir do Royal Albert Hall, em Londres."

Le bien et le mal

 
" Quand vous  dîtes que vous ne sentez pas la distinction du bien et du mal, prise littéralement, cette parole n'est pas sérieuse, puisque vous parlez d'un autre homme en vous, qui est évidemment le mal en vous; vous savez bien - et dans les cas d'incertitude un examen attentif peut , au moins la plupart du temps , amener à savoir - ce qui dans vos pensées, vos paroles et vos actes nourrit cet autre  à vos dépens, ce qui vous nourrit aux siens. Ce que vous voulez dire, c'est que vous n'avez pas encore consenti à reconnaître  cette distinction comme celle du bien et du mal. 
Ce consentement n'est pas facile, car il engage sans retour. Il ya une espèce de virginité de l'âme à l'egard du bien qui ne se retrouve pas plus, une fois le consentement accordé, que la virginité d'une femme après qu'elle a cédé à un homme. Cette  femme peut devenir infidèle, adultère, mais elle ne sera plus jamais vierge. Aussi a-t-elle peur quand elle va dire oui. L'amour triomphe de cette peur.
Pour chaque être humain, il y a une date, inconnue de tous et de lui-même avant tout, mais tout à fait determinée au-delà de laquelle l'âme ne peut plus garder cette virginité.  Si avant cet instant précis, éternellement marqué, elle n'a pas consenti à être prise par le bien, elle sera aussitôt prise malgré elle par le mal."
Simone Weil, in "Le ravissement de la raison", Editions Points, Janvier 2009, pp.81,82

domingo, 11 de abril de 2021

Ao Domingo Há Música


A veces la música tiene licencia, licencia para dolerte por dentro, para acariciarte el alma. A veces te baja las sabanas sin pedirte permiso, sin saber hasta donde ni hasta cuando. A veces la música te escuece dentro y otras se convierte en magia. Porque hay quien sabe ser magia aunque nunca llegue a saberlo...

A Música é sempre música venha ou seja de onde for. Quando os sons se lançam  e as vozes os interpretam  a barreira da língua deixa de existir. 
Neste domingo, os sons demonstram quão forte é esta verdade. Vozes de lugares distantes  e de estilos diferentes provocam magia semelhante  porque  cantam a dor, a perda , a saudade,  a alegria...a vida. 

 Bruce Springsteen, em  I'll See You In My Dreams (Lyric Video)
Niña Pastori e Miguel Poveda , em Ya No Quiero Ser .
 
Vanesa Martín, em Arráncame.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Baudelaire - 200 anos

"Extremamente rica, a personalidade de Charles Baudelaire (9 de Abril de 1821 - 31 de Agosto de 1867) , por muitos considerado o primeiro , em data, dos poetas modernos , tem suscitado uma vastíssima bibliografia  em que essa figura  quase lendária do poeta maldito  tem sido encarada sob múltiplos aspectos, que vão da interpretação crítica ou estética  da sua obra à análise psicológica ou sociológica , passando pelos aliciantes domínios da biografia 
Jean-Paul Sartre faz parte desse conjunto de bibliógrafos  , embora recrie  de um outro ponto de vista a experiência baudelairiana. Ao iniciar o seu livro Baudelaire  afixa o seguinte: 
 « Não teve a vida que merecia. Dir-se-ia  que a vida de Baudelaire foi uma magnífica ilustração desta consoladora máxima. Não merecia , sem dúvida, aquela mãe, aqueles perpétuos embaraços, aquele conselho de família, aquela amante mesquinha, nem aquela sífilis  - e que pode haver de mais injusto do que o seu fim prematuro?(...)
Quando seu pai morreu, Baudelaire  tinha 6 anos e vivia na adoração da mãe; fascinado, rodeado de atenções e cuidados, ainda não sabia  que existia como pessoa, mas sentia-se ligado ao corpo  e ao coração da mãe por uma espécie de participação primitiva e mística; afundava-se no doce calor daquele amor recíproco; (...) eu vivia sempre em ti , escreverá Baudelaire  mais tarde à mãe, tu eras exclusivamente minha. Eras ao mesmo tempo um ídolo e um camarada.(...)
Em Novembro de 1828, aquela mulher tão amada  volta a casar, com um militar; Baudelaire vai interno para um colégio. Data desta época  a famosa "quebra". Crépet cita, a este respeito, uma nota muito significativa  de Buisson: " Baudelaire tinha uma alma muito delicada, muito fina, original e terna que se quebrara no primeiro choque  da vida." Havia na sua existência, um acontecimento que não pudera suportar: o segundo casamento de sua mãe. Era inesgotável quando se tratava deste assunto e a sua lógica terrível resumia-se sempre no seguinte: Quando se tem um filho como eu " - "como eu" era subentendido -  não se volta a casar.
Este brusco rompimento e o desgosto  que daí resultou lançaram-no , sem transição, numa existência pessoal." Jean-Paul Sartre, in "Baudelaire", Publicações Europa-América, Maio de 1966, pp.15-17
Esse acontecimento  é evocado, mais tarde,  por Charles Baudelaire no seu livro "O meu coração a nu": 
XII
Sentimento de solitude , desde a minha infância. Apesar da família, e no meio dos camaradas, sobretudo, sentimento de destino eternamente solitário.
Todavia, gosto muito vivo da vida e do prazer

No mesmo livro , escreve na página seguinte:
XIII
Quase toda a nossa vida é empregada em curiosidades néscias. Em compensação,  há coisas que deveriam excitar a curiosidade dos homens no mais alto grau, e que , a avaliar pelo seu modo de vida normal, não lhes inspiram nenhuma.
Onde estão os nossos amigos mortos? 
Porque estamos nós aqui?
Vimos de alguma parte?
O que é a liberdade?
Pode ela conciliar-se com a lei providencial?
O número das almas é finito ou infinito?
E o número das terras habitáveis? 
Etc., etc.

 e continua na página 71:
LXXIII
Muito criança, senti no coração dois sentimentos contraditórios: o horror da vida  e o êxtase da vida. É bem ao gosto de um preguiçoso nervoso.
Charles Baudelaire, in  " O meu coração a nu ",  Guimarães Editores, pp. 44, 45, 71

Charles-Pierre Baudelaire foi um dos maiores poetas do século XIX, tendo influenciado decisivamente toda a poesia moderna. Rebelde, combateu a censura e a intolerância, sendo ao mesmo tempo controverso e célebre no seu tempo.  Poeta, ensaísta, jornalista, crítico de arte (Salons 1845, 1846, 1859), nasceu em Paris em 1821. Em 1833 mudou-se com a nova família para Lyon, onde frequentou uma escola militar – mas acabou expulso. Após o episódio voltou a Paris e passou a viver no Quartier Latin, onde começou a escrever. Em 1838 escreveu o poema Incompatibilité. Nessa mesma época teria contraído sífilis. Na tentativa de separá-lo do mundo boémio, em 1841,  a mãe e o padrasto  colocaram-no  num navio rumo à Índia. A viagem de nada adiantou, já que Baudelaire abandonou o navio e retornou a Paris. De regresso, participou na Revolução de 1848.
Em 1844 , a sua mãe recorreu à Justiça para limitar a destruição da sua própria fortuna, ficando então a gestão da  fortuna nas mãos de um notário -tutor.  E, nesse mesmo ano, passou a colaborar anonimamente ou sob pseudónimo para várias publicações parisienses.
Envolveu-se com a actriz Marie Daubrun, a cortesã Apollonie Sabatier e ainda com a actriz Jeanne Duval, uma mulata por quem se apaixonou e a quem dedicou o ciclo de poemas «Vénus Negra». Em 1846, ainda sob o pseudónimo de Baudelaire-Dufaÿs, publicou ensaios sobre acontecimentos artísticos, além de poemas em várias publicações parisienses. . Em 1852 ,publicou Edgar Allan Poe:  vida e  obra e, um ano depois, traduziu O Corvo, de Poe. Dois anos depois, enviou vários poemas para Mme. Sabatier, que passou a ser uma figura da maior importância na sua vida. Baudelaire, no entanto, passou a viver o drama de dois amores: Mme. Sabatier e Jeanne Duval, situação que será o tema baudelairiano da double postulation.
No ano de 1855, entre outras publicações, destacou-se o aparecimento na Revue des Deux Mondes de dezoito poemas que apareceram pela primeira vez sob o título geral de As Flores do Mal. O  título não foi dado pelo poeta e sim pelo amigo Hyppolyte Babou. A 25 de Junho de 1857,  foi lançado o livro As Flores do Mal. No dia 5 de Julho, saiu a crítica do jornalista e crítico literário Gustave Bourdin, denunciando a publicação de As Fores do Mal; acredita-se  que este artigo tenha motivado as medidas judiciais que foram tomadas contra o poeta e o seu livro. Em 11 de Julho, Baudelaire envia uma carta a Poulet-Malassis, comunicando a apreensão dos livros à venda em Paris e pedindo ao editor que esconda os livros ainda não distribuídos. Escreve para Mme. Sabatier, perguntando se ela poderá interceder a seu favor junto aos juízes.
Em Agosto, começou o processo de As flores do Mal. O promotor foi Ernest Pinard, que já havia acusado Flaubert, no processo contra Madame Bovary,  em Janeiro desse mesmo ano. O resultado do julgamento foi desastroso para o poeta, sendo condenado juntamente com o editor sob a acusação de ter  conspirado  contra “a moral pública e os bons ­costumes”. Foram  cortados  vários versos e seis poemas suprimidos integralmente ( Lesbos, Femmes damnées, Le  Léthé, À celle qui est trop gaie, Les bijoux, Les Métamorphoses du vampire). Estes poemas condenados  aparecerão mais tarde em 1866 , em Bruxelas , numa  brochura com o título "Les Épaves". Entretanto,  Baudelaire recebeu carta de Victor Hugo, em que este grande escritor da literatura francesa afirma : “As suas flores do mal resplandecem e deslumbram como estrelas”.
A  sentença  desta condenação  foi reformada judicialmente somente em 1949.  
Baudelaire foi um dos maiores poetas franceses de todos os tempos,  Embora muito criticado, tinha entre muitos admiradores além de Victor Hugo, outros como Gustave Flaubert, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine.
Em Fevereiro de 1865, Baudelaire ficou gravemente doente e ,em Março,  sofreu um mal súbito numa igreja em Namur. Teve que ser internado.  Em Julho, já privado da voz, mas perfeitamente lúcido, Baudelaire retornou a Paris trazido pela mãe. Foi internado na Casa de Saúde do Doutor Duval, onde passou a receber grandes figuras da poesia francesa, como Sainte-Beuve, Banville, Leconte de Lisle e outros. Em 31 de Agosto de 1867, morreu, aos 46 anos, nos braços de sua mãe. Imediatamente a Revue nationale publicou os seus últimos poemas em prosa. Foi enterrado a 2 de Setembro no cemitério de Montparnasse . Junto ao túmulo do poeta, discursaram os  amigos poetas Banville e Asselineau."


LXVIII

LA MUSIQUE

La musique souvent me prend comme une mer!
Vers ma pâle étoile,
Sous un plafond de brume ou dans un vaste éther
Je mets  à la voie;

La poitrine en avant et les poumons gonflés
Comme de la toile,
J'escalade le dos des flots amoncelés
Que la nuit me voile;

Je sens vibrer em moi toutes les passions 
D'un vaisseau qui souffre;
Le bon vent, la tempête et ses convulsions

Sur l'immense gouffre 
Me bercent. - D'autres fois, calme plat, grand miroir
De mon désespoir!

CIII
À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair… puis la nuit! — Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?
Ailleurs, bien loin d’ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!
Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal , Editions Barnard, 1949, pp.107, 158