terça-feira, 13 de abril de 2021

A luz que há na sombra


«Elogio da Sombra» é uma das principais obras de Junichiro Tanizaki (1886-1965) e um dos mais fascinantes ensaios sobre as diferenças entre o Ocidente e o Oriente.
Para os ocidentais, o mais importante aliado da beleza foi sempre a luz, a ausência de sombras. Para a estética tradicional japonesa, do rosto das mulheres às salas dos templos, o essencial está na sombra e nos seus efeitos.
Neste ensaio de 1933, Tanizaki fala-nos da cor das lacas, dos actores de nô, das paredes dos corredores, dos beirais das casas, da luz que há na sombra, para nos prevenir contra tudo o que brilha.
Revela-nos o que sentia ao olhar o papel dos shôji, a visão de um universo ambíguo onde luz e sombra se confundem numa impressão de eternidade."
Eis as primeiras páginas:  
“Um amante de arquitetura que queira construir nos dias de hoje uma residência de puro estilo japonês deve preparar‑se para ter bastantes dissabores com a instalação da electricidade, do gás e da água, e ainda que não tenha passado pessoalmente pela experiência de construir, basta entrar numa sala de casa de encontros, de restaurante ou pousada, para se dar conta dos esforços que terá sido preciso despender para integrar harmoniosamente esses dispositivos numa divisão de estilo japonês. A menos que seja um desses amantes de chá que, na sua suficiência, tratam com desprezo os benefícios da civilização científica, e que estabelecem a sua «choupana» no fundo de algum campo distante, desde que se esteja à frente de uma família de certa importância e se viva na cidade, não vejo porque se virariam as costas, a pretexto de se querer ter uma casa tão japonesa quanto possível, aos caloríferos, aos candeeiros, às instalações sanitárias, ele‑ mentos todos eles indispensáveis da vida moderna. Bem entendido, um homem razoavelmente meticuloso irá torturar os miolos com a mais pequena coisa, por exemplo o telefone, que desterrará para debaixo de uma escada, ou para um canto do corredor, ali onde chame menos a atenção. Mandará enterrar os fios elétricos no jardim, dissimular os comutadores em armários de parede, sob as estantes, correr as linhas interiores à sombra de biombos, de tal forma que acontece, por vezes, que no fim de tanto engenho se experimenta alguma irritação face a este excesso de artifício. Uma lâmpada elétrica é, doravante, coisa familiar aos nossos olhos; então, porquê estas meias‑medidas em vez de deixar muito simplesmente o bolbo a nu, com um simples abat­‑jour de vidro fino e leitoso, que dará a impressão de naturalidade e simplicidade. À noite, olhando o campo através da janela de um comboio, aconteceu‑me avistar, à sombra dos shōji
1 de uma casa de camponês, uma lâmpada que brilhava solitária sob um desses finos abat­‑jours antigos, e achar isso de um gosto requintado. Pelo contrário, um ventilador é outra história, pois nem o seu ruído nem a sua forma combinam facilmente com o estilo de uma divisão japonesa. Numa casa particular, se não se gostar dele, pode‑se muito bem dispensá‑lo; mas um estabelecimento destinado a acolher clientes no verão não pode sujeitar‑se apenas aos gostos do proprietário. O meu amigo, dono do Kairakuen, conhecedor bastante subtil em matéria de arquitectura, considera os ventiladores um horror e durante muito tempo recusou‑se a mandar instalá‑los nos quartos; mas todos os anos, mal chegava o verão, tinha de suportar os queixumes dos clientes, de forma que acabou por ceder. Eu próprio, que vos falo disto, gastei o ano passado uma fortuna pouco compatível com a minha situação na construção de uma casa, o que me valeu uma experiência do mesmo género; como quis tratar de todos os pormenores, dos tabiques móveis até ao último dos acessórios, debati‑me com imensas dificuldades. Os shōji, por exemplo: sob pretexto de bom gosto, não quis colocar‑ lhe vidraças, e decidi não utilizar estritamente mais nada além de papel; daí surgiram contrariedades em matéria de iluminação, além de fecharem mal. Em desespero de causa, pensei forrá‑los interiormente com papel e colocar vidraças no exterior. Para isso, foram precisas molduras duplas, face e verso, e a despesa aumentou na mesma proporção; quando por fim foram colocados no seu lugar, descobri que, vistos de fora, eram vulgares portas envidraçadas e que, vistos de dentro, por causa do vidro que duplicava o papel, já não tinham o relevo e a suavidade dos autênticos shōji; em suma, o efeito era dos mais desagradáveis. Perguntamo‑nos então se não teria valido mais a pena colocar umas portas envidraçadas decentes, e mordemos os dedos; de outra qualquer pessoa talvez troçássemos, mas, tratando‑se de nós, torna‑se difícil admitir que nos enganámos enquanto não tivermos experimentado tudo. Encontramos nas lojas, nestes últimos tempos, candeeiros eléctricos com a forma de lanternas portáteis, ou de suspensão, ou cilíndricos, ou ainda com a forma de castiçais, mais de harmonia com uma divisão japonesa; no entanto, não me agradam nada e procurei em casas de antiquários candeeiros de petróleo, lamparinas, e candeeiros de cabeceira de antigamente, e adaptei‑lhes lâmpadas elétricas. Foram, porém, os aparelhos de aquecimento que me deram mais dores de cabeça. De todos os que se designam pelo termo genérico de «fogão de sala», não existe de facto um único cuja forma possa convir a uma divisão japonesa. O fogão a gás emite além do mais um zumbido contínuo e, a menos que se tenha previsto uma chaminé de ventilação, causa, num instante, uma dor de cabeça; o fogão eléctrico seria ideal a este respeito, se as suas formas não fossem tão desgraciosas. É certo que poderíamos dispor sob as prateleiras radiadores parecidos com os que se utilizam nos eléctricos, mas deixar de ver o clarão vermelho do lume aboliria todo o encanto do inverno, e a intimidade familiar sofreria com isso. Para mim, após múltiplas cogitações, mandei construir uma espécie de forno central, como os que encontramos nas casas de camponeses, e instalei aí uma lareira elétrica; este dispositivo permite‑me conservar quente a água do chá e aquecer a divisão e, reserva feita ao elevado custo da operação, de um ponto de vista estético é, mesmo, um êxito. Tinha então resolvido o problema do aquecimento de maneira satisfatória, mas a casa de banho e as retretes iriam causar‑me novas preocupações. O dono do Kaira‑ kuen2, recusando‑se a empregar ladrilhos para as banheiras e escoamento, tinha mandado construir as casas de banho dos clientes todas em madeira, mas está visto que o ladrilho é mil vezes mais económico e mais prático. Podíamos utilizar uma bela madeira japonesa para o tecto, os pilares, e os tabiques, e resignarmo‑nos para o resto a um desses ladrilhos vistosos, mas o contraste seria chocante. Quando tudo ainda é novo, ainda vá, mas quando com o passar dos anos a madeira das tábuas e dos pilares tiver adquirido pátina, e apenas o ladrilho houver conservado o seu branco brilhante e polido, teremos literalmente «casado a madeira com o bambu». Para a casa de banho, porém, as coisas podiam resolver‑se, em rigor, sacrificando um pouco o lado prático em benefício do bom gosto. Mas quando passei às retretes é que os problemas incómodos surgiram mais intensamente. De cada vez que, num mosteiro de Kyoto ou de Nara me indicam o caminho das retretes construídas à maneira de outros tempos, meio escuras e no entanto de uma limpeza meticulosa, sinto intensamente a qualidade rara da arquitectura japonesa. Um pavilhão de chá é um local agradável, admito, mas as retretes em estilo japonês, isso sim, é algo que verdadeiramente foi concebido para a paz de espírito. Sempre à parte do edifício principal, estão colocadas ao abrigo de um bosquezinho de onde nos chega um aroma de folhagem verde e musgo; depois de, para lá chegar, se ter seguido por uma galeria coberta, de cócoras na penumbra, envoltos na luz suave dos shōji e mergulhados em pensamentos, experimenta‑se, contemplando o espetáculo do jardim que se estende sob a janela, uma emoção impossível de descrever. Ao número de prazeres da sua existência, o mestre Sōseki3 adicionava, segundo parece, o facto de ir todas as manhãs aliviar‑se, insistindo em que se tratava de uma satisfação de ordem essencialmente fisiológica; ora, para apreciar plenamente este prazer, não há local mais adequado que as retretes de estilo japonês onde podemos, abrigados por paredes muito simples, de superfície limpa, contemplar o azul do céu e o verde da folhagem. Correndo o risco de me tornar repetitivo, acrescentarei além do mais que uma determinada qualidade de penumbra, uma limpeza absoluta e um silêncio tal que o canto de um mosquito perturbaria o ouvido, são condições indispensáveis. Sempre que me encontro num sítio assim, agrada‑me ouvir cair uma chuva suave e regular.(…)
Junichiro Tanizaki, in Elogio da sombra, Relógio D’Água Editores, pp. 9-13

1 Shōji — Tabique móvel constituído por uma armação de ripas em quadrados pequenos, sobre a qual é colado um papel branco espesso que deixa passar a luz mas não o olhar. Os shōji eram, até há relativamente pouco tempo, a única forma de encerrar a casa japonesa. À noite, são reforçados no exterior por portadas maciças (amado), também de correr. Hoje em dia, os shōji são frequentemente precedidos, ou até mesmo substituídos, por portas envidraçadas. (N. da T.)
2 Kairakuen — Literalmente o termo significa um «parque para ser gozado em companhia». É também o nome de um muito famoso jar‑ dim japonês situado em Mito (Ibaraki). Neste caso, e tendo em conta o contexto, é de crer que Tanizaki se refira a um ryokan, um hotel tradicional japonês. Acrescente‑se que em Nagasaki existe um ryokan com este nome, ainda em atividade, e cuja construção data de 1830. (N. de PS = Nota de Pedro Serrano.)
3 Natsume Sōseki (1867‑1916) — Pseudónimo de Natsume Kinno‑ suke, o romancista mais conhecido e popular da era Meiji (1868‑ ‑1912) foi, simultaneamente, um descobridor de talentos, e um grande número de escritores da era seguinte (Taïshō, 1912‑1926) considerava‑o seu mestre. Para além de romancista, as suas obras mais conhecidas são Kokoro e I Am a Cat, foi também um poeta que cultivou o haiku e os poemas concebidos em estilo chinês. Refira‑se, a título de curiosidade, que o seu retrato ornou, entre 1984 e 2004, as notas de 1000 ienes do Banco do Japão. (N. da T. e de PS.)

Sobre o autor
Junichiro Tanizaki nasceu em Tóquio, em 1886 e  morreu em 1965. Estudou Literatura Japonesa na Universidade Imperial de Tóquio. Publicou o primeiro trabalho em 1909, numa revista literária que ajudou a fundar. A sua obra de juventude revela forte influência de Poe, Baudelaire e Oscar Wilde. A partir de 1923, deixou-se absorver pela cultura de seu país e abandonou a inclinação ocidental, vivendo nesse momento uma crise intelectual e emocional que contribuiu decisivamente para torná-lo um dos nomes centrais da literatura japonesa do século XX. Em 1949, recebeu o pré
mio Imperial de Literatura.   Em 1964, foi eleito Membro Honorário da American Academy e do National Institut of Arts and Letters, sendo o primeiro escritor japonês a receber essa honra. É autor, entre outros, de O Diário de um velho louco."

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