quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Crónica para o meu pai

 
Crónica para  o meu  pai

Vinte e oito migrantes foram detectados a desembarcar na ilha Deserta, situada na ria Formosa (Algarve) ao início da tarde desta terça-feira (15 de Setembro). De acordo com as informações recolhidas pelo DN, o grupo, cuja nacionalidade ainda não foi confirmada, está a ser acompanhado por elementos da Polícia Marítima, da GNR e do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).
De acordo com as informações da Polícia Marítima o grupo é constituído por 24 homens, três mulheres (uma delas grávida) e uma criança.
A embarcação em que os 28 migrantes chegaram à ilha tem cerca de sete metros e é semelhante às usadas nos outros cinco desembarques ilegais registados na região desde Dezembro. O grupo será transportado para a Base de Apoio Logístico de Quarteira, onde será sujeito à realização de testes de despiste à covid-19, prevendo-se que seja depois entregue ao SEF.
Com  este  grupo sobem para  cerca de 80 os migrantes que chegaram às
praias algarvias desde Dezembro de 2019, quando foram detidos os primeiros 26.   
( Diário de Notícias)

Este é um excerto que retirei de uma notícia do Diário de Notícias de ontem, 15 de Setembro de 2020 e que acaba de ser retomada e desenvolvida nos noticiários  televisivos de hoje, 16 de Setembro. 
Certamente que foi intencional a inclusão deste recorte no início desta conversa a haver consigo, pai. É dia do seu aniversário. É um dia de celebração que sempre manteve ao longo da sua vida. O pai nunca se escusou . Juntou-nos sempre neste dia e a partir de aquilo a que se chama o ocaso do nosso percurso existencial, éramos nós, os filhos, que reagrupávamos, em local sempre a designar,  toda a família.
Hoje venho apenas eu para lhe  dizer que tudo se vai alterando. O recorte da notícia atesta-o. O mundo está em crise. Uma crise que se arrasta e que cresce. Portugal não escapa. Não, pai, não regressámos ao autoritarismo , à falta de Liberdade. O regime democrático permanece. O pai rejubilou com a revolução de Abril. Não tema, pai. Ela está por aí. Talvez com matizes novos, diferentes de alguns sonhos que nos alentavam, com ausência da utopia que nos sustentava, mas está ainda por aí, ou seja, por aqui.
O que aconteceu, pai. É o mundo a desembarcar em nós. Nós que queríamos derrubar muros. Nós que saltávamos fronteiras , somos agora uma porta que se quer aberta para outros que procuram mundo. Um mundo novo. 
Lembra-se como dois  dos seus filhos  transpuseram fronteiras para fugir a uma guerra que não queriam?  Lembra-se de que tantos e tantos, em excesso, partiam para longe , para  as colónias, as tais  parcelas de Portugal, assim diziam os governantes , e enfrentavam  o horror do desterro e da guerra em plena juventude? Lembra-se como outros  abandonavam esse destino e partiam  pela calada da noite , em busca de outro mundo? Era-lhes também roubada essa mocidade jubilosa. Partiam. 
E,  a par desses , outros partiam por outros motivos. Era a utopia de um futuro melhor. Num país  pobre, tanta pobreza doía. E fugia-se à dor  por portas ínvias. Havia mundo para lá do nosso. E saltavam-se fronteiras, tal como hoje tentam estes nossos novos migrantes. Vêm de longe. Do Norte de África em demanda da mesma utopia. Somos o outro mundo a alcançar.
Mas, pai, a situação agravou-se. Há a Covid-19. A peste que chegou , aqui, em Março. Veio de longe, após ter contaminado meio mundo, até se transformar em pandemia. Uma pandemia que ninguém ainda sabe como estancar. Mitigam-na apenas. Estes migrantes enfrentam mais riscos. A peste pode travá-los neste novo mundo. Serão  inspeccionados, testados e talvez intimados a regressar à origem após  um intermitente e indeterminado penar temporário.
Se o pai aqui estivesse  seria , tal como eu, membro de um grupo de risco. Aquele cuja idade determina e que é considerado mais vulnerável à doença.  E imagine estivemos em confinamento, ou seja, fomos obrigados a uma imigração de dois meses em casa. As ruas ficaram desertas. Portugal enclausurou-se e mergulhou num silêncio que chegou a assustar as pedras da calçada. No  Largo,  Camões,  sozinho,  tentava  remar  irado  contra a intempestiva peste   que belicosa pretendia ofuscar a tromba marítima e as outras valorosas intempéries do seu lusitano poema. 
E, pai, agora acabou a clausura, porém  a peste pende sobre nós. Somos ditados por mil e uma prescrições comportamentais. O uso de máscara, a lavagem de mãos com desinfectante, o afastamento social e a proibição de manifestações afectivas. Neste dia do seu aniversário não o poderia abraçar, beijar. Os afectos  estão proibidos. Sentem-se mas não se efectivam ou efectuam. O pai diria melhor tudo isto. Sabia expressar-se maravilhosamente. Aprendi consigo . Apenas fiz essa aprendizagem. Não o superei.
O que quero dizer, expressar-lhe , pai,  é o meu amor por si. É esta saudade que não cessa e que, neste dia, se alimenta de muita memória. Memória de si , da mãe,  de todos nós, nesse tempo feliz em que existimos todos ao mesmo tempo. 
Parabéns, pai. Neste mundo crísico , tenho em si a referência de um outro mundo sonhado e partilhado. 
Um beijo, pai.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A escrita humana espelha a do universo

 
XXVIII
" Ditas ou escritas, as palavras avançam e inscrevem-se umas atrás das outras  no seu espaço próprio: a folha de papel, a parede  de ar. Vão daqui para ali, traçam um caminho: transcorrem, são tempo. Apesar de não pararem de se mover  de um ponto para outro , desenhando assim uma linha horizontal ou vertical ( conforme a índole da escrita), de outra perspectiva, a simultânea ou convergente, que é  a da poesia , as frases que compõem o texto surgem como grandes blocos imóveis e transparentes : o texto não transcorre, a linguagem deixa de fluir. Quietude vertiginosa  por ser um tecido de claridades : em cada página reflectem-se as outras  e cada uma é o eco da que a precede ou sucede - o eco e a resposta, a rima e a metáfora .  Não há fim e também não há princípio: tudo é centro: Nem antes nem depois, nem à frente  nem atrás, nem fora nem dentro, : tudo está em tudo. Como com o caracol do mar, todos os tempos são este tempo de agora que não é nada excepto, como quartzo de cristal de rocha, a condensação instantânea dos outros tempos numa claridade insubstancial. A condensação e a dispersão, o sinal de inteligência que se faz a si mesmo, o agora no momento de se dissipar. A perspectiva simultânea não contempla a linguagem como um caminho porque não é orientada pela procura do sentido. A poesia não quer saber o que existe no fim do caminho; concebe o texto como uma série  de estratos  translúcidos  em cujo interior as distintas partes - as distintas correntes  verbais e semânticas - , ao se entrelaçarem , reflectirem  ou anularem , produzem configurações momentâneas . A  poesia procura, contempla-se, funde-se e anula-se nas cristalizações da linguagem. Aparições, metamorfoses, volatilizações, precipitações de presenças  Essas configurações são tempo cristalizado: apesar de estarem  em perpétuo movimento , dão sempre a mesma hora - a hora da mudança. Cada uma delas contém as outras, cada uma está nas outras: a mudança é apenas a repetida e sempre metáfora da identidade.
A visão da poesia é a da convergência de todos os pontos. Fim do caminho. É a visão de Hanuman ao saltar (géiser) do vale para o pico do monte ou ao precipitar-se (aerólito) do astro até ao fundo do mar: a visão vertiginosa e transversal que revela o universo não como uma sucessão, um movimento mas como uma assembleia de espaços e tempos, uma quietude. A convergência é quietude porque no seu cume os distintos movimentos, ao fundirem-se, anulam-se; ao mesmo tempo, do alto dessa imobilidade, percebemos o universo como uma assembleia de mundos em rotação. Poemas: cristalizações do jogo universal da analogia, objectos diáfanos que ao reproduzirem o mecanismo e o movimento rotativo da analogia, são fonte de novas analogias. Neles, o mundo brinca ao mundo, que é o jogo das semelhanças geradas pelas diferenças e o das semelhanças contraditórias. Hanuman escreveu nas rochas uma peça de teatro, “Mahanataka”, cujo tema era o mesmo de Ramayana; ao lê-la, Valmiki temeu que esta ofuscasse o seu poema e suplicou-lhe que a ocultasse. O Macaco cedeu ao pedido do poeta, quebrou a montanha e lançou as rochas para o oceano. A tinta e a pena de Valmiki no papel são uma metáfora do raio e da chuva com que Hanuman escreveu o seu drama nos penhascos. A escrita humana espelha a do universo, é a sua tradução, mas igualmente a sua metáfora, diz algo totalmente diferente e diz o mesmo...
Todos os poemas dizem o mesmo e cada poema é único. Cada parte reproduz as outras e cada parte é distinta. Ao começar estas páginas decidi seguir literalmente a metáfora do título da colecção a que estão destinadas, “Los Caminos de La Creación”, e escrever, traçar um texto que fosse efectivamente um caminho e que pudesse ser lido, percorrido como tal. À medida que ia escrevendo, o caminho de Galta apagava-se e eu desviava-me e perdia-me nos seus despenhadeiros. Vezes sem conta tinha de voltar ao ponto de partida. Em vez de avançar, o texto rodava sobre si mesmo. A destruição é criação? Não sei, mas sei que a criação não é destruição. A cada curva o texto desdobrava-se num outro, simultaneamente a sua tradução e a sua transposição: uma espiral de repetições e reiterações que se consolidaram numa negação da escrita enquanto caminho. Agora me apercebo de que o meu texto não ia a lado nenhum, a não ser ao encontro de si mesmo. Advirto também que as repetições  são metáforas  e que as reiterações são analogias: um sistema de espelhos que pouco a pouco foram revelando outro  texto. (...)"
Octávio Paz, in O Macaco Gramático, Biliotex Editor, pp.123-126
Sobre o autor
"Octavio Paz (1914-1998) é um escritor mexicano  com duas faces (poeta e ensaísta) que viveu simultaneamente em dois séculos XX– “o mexicano e o mundial, nem sempre coincidentes” – e em três continentes, segundo o historiador Francisco Javier Garciadiego Dantán, presidente do Colegio de México
Octavio Paz era um defensor da democracia , da Liberdade. Em  Novembro de 1991,  em Sevilha , declarou o seguinte  sobre a democracia: “Não sou historiador nem sociólogo, nem politicólogo: sou um poeta. Os meus escritos em prosa estão estreitamente associados à minha vocação literária e às minhas preferências artísticas. Prefiro falar de Marcel Duchamp ou de Juan Ramón Jimenes que de Locke e de Montesquieu. A filosofia política sempre me interessou, porém nunca tentei nem tentaria escrever um livro sobre a justiça, a liberdade ou a arte de governar. Não obstante, publiquei muitos ensaios e artigos sobre a situação da democracia em nossa época: os perigos externos e internos que a ameaçaram e a ameaçam, as dúvidas e provas a que ela enfrenta”. E sobre a Liberdade , ao receber o Prémio Tocqueville em 1989,  no discurso de agradecimento , recordou que desde cedo compreendeu que a defesa da poesia é inseparável da defesa da liberdade e esta requer, numa dialéctica de complementaridade, a democracia: sem liberdade a democracia é despotismo; sem democracia a liberdade é uma quimera ."

domingo, 13 de setembro de 2020

Ao Domingo Há Música


Tudo deve ocorrer à pessoa vindo de sua própria natureza. De nada adianta dizer-lhe algo que ela não sente e não pode compreender.
                                                                  Oscar Wilde, " De profundis"

A voz de Bruce Springsteen, The Boss, enche um palco, um mundo. A versatilidade  é uma das suas características. Tanto arrebata com um lamento, numa balada onde exalta o amor, como leva ao rubro, com um ritmo mais frenético, num rock duro e puro  . Vem da sua própria natureza.
Bruce Springsteen , em Lift Me Up. Música  e letra de  Bruce Springsteen. (C) 2003 
Licenciado ao YouTube por SME (em nome de Columbia); CMRRA, Sony ATV Publishing, UMPG Publishing, LatinAutor, Global Music Rights LLC, LatinAutor - UMPG, UMPI, UNIAO BRASILEIRA DE EDITORAS DE MUSICA - UBEM e 8 sociedades de direitos musicais.
Bruce Springsteen e a mulher,  Patti Scialfa, em   If I Should Fall Behind, num espectáculo em  Dublin. 

Yeah, I'll wait for you
Should I fall behind
Wait for me
I'll wait for you
Should I fall behind
Wait for me.

sábado, 12 de setembro de 2020

A tarefa de Tolstoi

 18 de Janeiro de 1906. Iásnaia Poliana.
"Ainda não me sinto bem. Trabalho um pouco no " Círculo de Leitura".
Hoje pensei : o que devo eu fazer , um homem velho? Tenho poucas forças , que me vão faltando de maneira notável. Várias vezes na minha vida achei que estava perto da morte. E , coisa tola, esquecia , procurava esquecer isso - esquecer o quê? Que morrerei, e que em qualquer caso, 5,10,20, 30 anos , a morte  está sempre muito próxima. Agora, pela minha idade, considero-me naturalmente perto da morte e não há por que esquecer isso, e não é possível esquecer. O que hei-de fazer, eu, um velho sem forças? - perguntei-me. E achei que não tenho que fazer nada. Mas hoje compreendi muito claramente a clara e alegre resposta. O que fazer? Já está provado que morrerei. Essa é agora , e sempre foi , a minha tarefa.  E é preciso cumprir essa tarefa  o melhor possível: morrer, e morrer bem. A  tarefa  está à tua frente, nobre e inevitável,  e tu à procura  de uma tarefa. Isto foi para mim uma grande alegria. Começo a habituar-me a olhar a morte, a agonia, não como o fim da  tarefa, mas como a própria tarefa. (...)"
 
3 de Abril de 1910. Iásnaia Poliana.

 (...) " Esta  manhã tencionava escrever  sobre o meu funeral e aquilo que nele deve ser lido. Lamento não ter escrito. Sinto cada vez mais a aproximação da morte. Sem dúvida, a minha vida , e provavelmente a vida de todas as pessoas, torna-se mais espiritual com o passar dos anos. O mesmo acontece com a vida de toda a humanidade. Nisso reside a essência  e o sentido da vida de todos e de cada um,  e por isso o sentido da minha vida está apenas nessa espiritualização.  Ao ter consciência  disso, e agindo  em conformidade, sabemos que cumprimos a tarefa que nos foi destinada: espiritualizarmo-nos  e contribuirmos com a nossa vida ao menos um pouco para a espiritualização geral-para o aperfeiçoamento."
Lev Tolstoi, in  Os últimos escritos, (Diários-selecção), Relógio D' Água Editores, Setembro de 2018,  p. 286, 295

Nota sobre o autor  
" Lev Tolstoi nasceu a 28 de Agosto de 1828, em Iásnaia Poliana (Tula) e morre  a 20 de Novembro de 1910, na estação  ferroviária de Aastapovo. Está  sepultado em Iásnaia Poliana. É celebrado como um dos maiores escritores de sempre. Tem uma obra mundialmente (re)conhecida  de que fazem parte os célebres romances "Guerra e Paz" e "Ana Karenina"  ou "A Morte de Iván Ilitch”, obra considerada pelos críticos como a mais perfeita novela já escrita. 
Ao longo da sua  vida passou por diversas fases que marcaram o seu percurso pessoal. Com nove anos, Tolstoi ficou órfão de pai e mãe, sendo criado por duas tias, como mandava os costumes da Rússia de 1800. Foi educado por diversos preceptores.
Em 1841, morre uma das tias e Tolstoi resolve mudar-se para Kazan. Em 1844, ingressou na Universidade, onde estudou Ciências Jurídicas e Línguas Orientais.
Com 16 anos já era um jovem culto e solicitado, destacando-se nos meios intelectuais do ambiente que frequentava.
Como a vida no campo sempre o atraiu, resolveu abandonar os estudos e decidiu administrar a sua propriedade. Era chamado de “Conde de Tolstoi”.
Levou uma juventude dividida em contradições, ora  se ocupava dos servos, ora  se entusiasmava com o luxo e as frivolidades.
Até 1851, Tolstoi viveu ora em sua propriedade, ora em Tula ou em São Petersburgo, caçando, jogando cartas, bebendo, levando a vida na sociedade, porém ansioso de ver a sua vida tomar um rumo.
A partir de 1857, Tolstoi realiza diversas viagens pelo Ocidente. Esteve na Alemanha, França e Suíça. Durante as  suas viagens procurou estudar os métodos de ensino e resolveu criar uma escola rural. Dedica-se totalmente à educação de seus empregados chegando a escrever livros de leitura para o uso deles.Em 1860,  retorna para a sua propriedade e demonstra  interesse pelos camponeses.
Aos 34 anos, Tolstoi casou com Sofia Behrs. Juntos, tiveram 13 filhos e uma relação bastante complicada.
Nos últimos tempos, o autor de Guerra e Paz vive em hesitação consigo mesmo, veste como um camponês, anda descalço e divide os imóveis da família entre a mulher e os filhos. No dia 28 de Outubro de 1910 abandona a sua casa em companhia de sua filha mais nova. 
Antes de morrer, na estação de Astapovo, Tolstoi murmura aos médicos que o assistiam:
"Sabeis como morrem os camponeses? Há uma multidão deles sem assistência porque não se chamam Lev Tolstoi. Por que os senhores não me deixam em paz e não vão cuidar deles?"
Lev Tolstoi morre,  aos 82 anos,  de pneumonia na estação ferroviária de Astapovo  na província de Riaz, Rússia, em  Novembro de 1910."

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Amapola de Ennio Morricone

Amapola, versão de Ennio Morricone , do filme "Once Upon A Time In America"  . 
Licenciado ao YouTube por UMG (em nome de Mercury Records); Hexacorp (music publishing), BMI - Broadcast Music Inc. e 4 sociedades de direitos musicais.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A ruralidade vestia-nos a todos


 […] para cada pessoa há coisas que lhe despertam hábitos mais duradouros que todos os demais. Neles são formadas as aptidões que se tornam decisivas em sua existência. E, porque, no que me diz respeito, elas foram a leitura e a escrita, de todas as coisas com que me envolvi em meus primeiros anos de vida, nada desperta em mim mais saudades que o jogo das letras. 
                                                                      Walter Benjamin

(...)Foi um sonho que sobra ainda pelo encanto que me provocou a aprendizagem da leitura e da escrita. Dizia Proust – “ a leitura é uma amizade.(…) Na leitura, a amizade é subitamente reduzida à sua primeira pureza.”
Nunca, então, me acudiu a mais ínfima inquietação de que esse encanto, essa assombrosa aprendizagem não estivesse ao alcance de todos. Quando descobri a verdadeira realidade do meu país, a minha passagem pela Escola Primária já tinha findado  . 
A Escola trazia-nos um tempo diferente que nos ia fazer crescer  e  alargar a compreensão do que nos rodeava. Eram estas algumas das palavras que nossos pais nos diziam sobre a necessidade de ir para a Escola. As crianças não têm uma compreensão real  da sociedade. E a sociedade que me rodeava, nesse tempo remoto era muito  limitada. Talvez, nessa  definição do papel da Escola, os meus pais estivessem  a querer dizer-nos , de forma velada, o que  nos competia descobrir no futuro, quando o conhecimento alargasse os nossos horizontes. Que a vida não se confinava àquilo que os nossos olhos de criança viam.
Viver numa quinta era viver longe do mundo. E para quem tinha uma família numerosa, o mundo era quase constituído pela gente  que a compunha.
Tudo o que nos rodeava era um aglomerado de campos tão semelhantes ao nosso.  E como gostava deles e da gente que os possuía, lavrava ou habitava. Proprietários, lavradores, trabalhadores, camponeses eram todos pessoas como nós. A ruralidade vestia-nos  a todos.  Era o traço que distinguia e definia os meninos que , tal como eu, iam, nesse  dia, para a Escola. A noção de mundo  resumia-se a essa percepção.
As aulas decorreram, nesse primeiro ano, em  constante e maravilhosa descoberta. Os sons dos ditongos, das sílabas e a respectiva concatenação em palavras que se uniam em frases e fabricavam textos que me levavam para lá de qualquer sala, onde quer que estivesse , foi o despertar mais importante da minha vida. Se pudesse determinar o meu real nascimento, colocá-lo-ia nesse ano. O outro ano, em que se registou  o meu  verdadeiro nascimento, passaria a designar-se como o ano zero, o ano em que me puseram num mundo ainda em trevas."
Maria José Vieira de Sousa, in "O livro que já escrevi", pp.114-116

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Centenário de Ruben A.


A vertigem da escrita de Ruben A.
por Fernando Pinto do Amaral
"De seu nome completo Ruben Alfredo Andresen Leitão, nasceu há cem anos, que se completaram no  dia 26 (Maio), em Lisboa, e morreu a 26 de Setembro de 1975, em Londres. A sua obra é das mais originais do primeiro quartel da segunda metade do século XX, seja na pura ficção, seja nos três volumes da autobiografia O Mundo à minha Procura e nos cinco de Páginas - que acrescem aos trabalhos do historiador, ensaísta e crítico. 
Se me pedissem para condensar numa só palavra tudo o que a escrita de Ruben A. evoca em mim, escolheria “vertigem”. Ler as suas páginas leva-nos a um território onde as palavras parecem sempre novas para as coisas que dizem, numa água corrente de factos, ideias, lugares, objectos, imagens, emoções – tudo o que pode caber numa cabeça humana. Se digo vertigem e a relaciono com a escrita, aludo a isso que qualquer leitor fiel de Ruben A. reconhecerá sem esforço: uma qualidade de dizer coisas diferentes por palavras que também parecem diferentes, embora sejam as mesmas que utilizamos todos os dias.
 A arte de tornar diferentes tais palavras é um imenso mérito de Ruben A., que não conheci pessoalmente – tinha 15 anos quando ele morreu, em 1975 – , mas que leio hoje como um desses autores cujo lastro que lhes fica da vida se infiltra sempre na mecânica da sua escrita, nos seus temas, nas suas personagens, nas suas histórias. Para quem não o conhece, uma excelente porta de entrada nesta obra singularíssima na prosa portuguesa do século XX poderão ser os três volumes da sua autobiografia, O Mundo à Minha Procura (Assírio & Alvim, 1992), em que Ruben Alfredo Andresen Leitão – era este o seu nome civil, sob o qual se licenciou em Histórico-Filosóficas e se dedicou à pesquisa historiográfica, com uma paixão especial por D. Pedro V – regressa ao seu amado Porto e à juventude passada nessa Quinta do Campo Alegre por onde também andou a sua prima Sophia de Mello Breyner Andresen, quase da mesma idade. E é dele uma das melhores descrições de um certo Porto que todos conhecemos: “Vivíamos no Campo Alegre rodeados de ingleses. […] Eram todos simpáticos, todos acolhedores a quem quisesse participar dos seus jogos e das suas ceias na Feitoria ou no Clube Inglês. Esta colónia inglesa criou na região do Campo Alegre e no povoado da Foz uma colónia portuguesa, que os ia imitando na maneira de vestir, que começou a jogar golfe em Espinho, que se lançou no ténis pela mão dos manos Bull, que jogava rugby com todo o entusiasmo […] Uma cidade de árvores grandes tão ao gosto inglês, com chuva boa para fumar cachimbo, cidade onde não se fala ao telefone horas seguidas.”
Foi longa a citação, mas perdoar-ma-ão porque também eu admiro a cidade do Porto e porque este fragmento nos serve desde logo para situar Ruben A. no ambiente social que era o seu, nascido numa certa elite portuense que o recebia, o prezava e lhe reconhecia os múltiplos talentos de polígrafo, sem todavia deixar de o ver como uma avis rara ou ser um pouco estranho, dotado de uma curiosidade humana e de uma inquietação existencial que fascinavam quem o conhecia.
Talvez essa atmosfera tenha contribuído para lhe reforçar a noção de uma identidade pessoal muito singular mas por isso mesmo intrigante ou problemática, o que viria a ter consequências em boa parte da sua obra. De qualquer modo, Ruben A. não ficaria preso a preconceitos de nenhuma espécie e, mesmo falando de um ponto de vista estritamente literário – seja lá o que isso for –, nunca foi um autor que se cingisse a convenções ou regras estabelecidas, preferindo correr o risco de aplicar inovações estruturais em algumas narrativas, nas quais usa um humor e uma ironia pouco frequentes no Portugal sério e sisudo dos anos 50 e 60, analisando com mentalidade aberta e cosmopolita as idiossincrasias portuguesas.
Ruben A. gostava desse risco – tinha mundo e leituras para isso – e foi capaz de o correr desde a sua estreia no romance com Caranguejo (1954), livro que apresenta a característica original de um encadeamento invertido, isto é, levando a história a recuar cronologicamente à medida que avançam as páginas. O seu espírito independente precisava desse desafio, encarado quase como um jogo, e agradava-lhe esse género de provocações ao leitor, mas também a um meio literário atraído e ao mesmo tempo assustado pela irreverência deste homem e por todas as suas invulgares e talvez demasiadas qualidades.
 E no entanto, no olho do furacão, no centro um pouco irreal desse meteoro que foi a sua vida, é difícil saber quem era Ruben A., ou quem era o Ruben A. que vemos transparecer ao longo de linhas que nos seduzem pelo modo como nelas se contaminam vida e obra, mas sabendo fugir em várias ocasiões para universos que o autor criava na sua curiosa imaginação, mundos nos quais subverte as leis da verosimilhança realista, como acontece naquele que é talvez o seu romance mais lido ou conhecido. Estou a falar d’ A Torre da Barbela (1964), livro estranho, movimentado e desconcertante, centrado em torno de um velho solar ou castelo minhoto, a “Torre da Barbela”, por onde desfilam os oito séculos da História de Portugal através de personagens vivas e mortas que dialogam umas com as outras num ambiente fantasmagórico e de recorte quase surrealista. É uma das mais vertiginosas experiências de leitura que podemos ter, simbolizando também a profundíssima ligação de Ruben A. com a paisagem do Alto Minho, onde se ergue a Torre da Barbela: “É verdade, entre mim e o Alto Minho existe um entendimento puro, de sonho, saudado em azul e pôr do Sol.”
Detenho-me ainda em mais duas obras que me apetece sempre reler, por exemplo nesses momentos em que, na confusão das nossas casas, encontramos um livro e o abrimos ao acaso, sem conseguir fechá-lo. Refiro-me, em penúltimo lugar, a uma novela intitulada O Outro Que Era Eu (1966), ao longo da qual navegamos pela cabeça de um homem, ali escrito em primeira pessoa, quase em regime de monólogo interior, ao ponto de tal navegação nos fazer submergir dentro dessa cabeça e no labirinto introspectivo das suas dúvidas, dos seus desejos, das suas mais inconfessáveis angústias: “Eu pensava muito durante as longas horas das noites em que o silêncio me fazia companhia. Então mergulhava dentro de mim e tentava iluminar o escuro que nos arcaboiços trazia. Vivia em trânsito.
 Custava-me parar o redemoinho sentimental que inconsciente me levava a ir procurar conforto num ser distante que também era eu. E o mais terrível é que começava a sentir-me só, desamparado, quase com a lepra medonha que a sociedade atribui aos que são diferentes da sua massa, para não dizer do seu pensar.”
Reservo um espaço final para aquele que é pessoalmente o “meu” livro na obra deste homem que foge a quaisquer classificações.
 Estou a falar de Silêncio para 4, que veio pela primeira vez a lume em 1973, numa edição da Moraes, e que em 1990 conheceu uma 2ª edição na Assírio & Alvim, acrescida de um iluminador prefácio de Eduardo Lourenço. Ao percorrê-lo, entramos naquilo a que poderíamos chamar uma “zona da verdade” na qual tiramos todas as máscaras e nos deixamos contaminar livremente, incluindo uma eventual troca de vírus. E no entanto, Silêncio para 4 não é isso a que se chama um livro “confessional” – outros haverá na obra de Ruben A. capazes de merecerem mais tal adjectivo.
 Em comparação, este tem a particularidade de poder ser lido como um texto dramatúrgico, já que é todo ele estruturado em diálogos entre um homem e uma mulher a respeito do amor, da amizade, do sexo e das suas ramificações. E a verdade é que, pelo menos numa certa classe social que era a de Ruben A., foi durante este início da década de 1970 que mais se fizeram sentir as consequências da chamada “libertação sexual” dos anos 60.
 É a partir desse contexto que um livro como este nos fala e nos prende da primeira à última página. Como habitualmente sucede com o autor, deparamos também aqui com uma espantosa agilidade verbal, bem definidora de um modo peculiar de conduzir um ritmo que neste caso não é apenas nem exactamente o de uma história, mas sim o de um entrelaçamento de falas que nos tornam cúmplices das suas lúcidas reflexões a propósito do amor e da paixão. O resultado consiste num texto absolutamente único na literatura portuguesa, dotado de virtualidades cénicas que talvez permitissem a sua representação por dois actores cujas imagens e cujas vozes podemos imaginar. Sabemos que Ruben A. escreveu teatro, que tinha o sentido dos diálogos, e temos também em Silêncio para 4 uma prova cabal disso mesmo.
 Mas qual é, então, a situação de onde partem estas páginas? Pois bem, trata-se de um longo e ininterrupto diálogo que durante uma tarde chuvosa e clandestina irá entreter um homem e uma mulher confinados ao tradicional papel de “amantes”, aconchegando-se na cama de um quarto que lhes serve de refúgio e aí protegidos na sequência de uma ligação amorosa já duradoura, com cerca de cinco anos: “Sabes, gosto desta conversa de alcova. Então, quando está a chover, não há nada como uma tarde assim, uma tarde cúmplice da vida, de humor perro, tarde entreolhada, sono de pouco logo a seguir ao orgasmo, sono vizinho da eternidade, pressentimentos que batem à porta, não faz mal, genuflexório expurgado de falsa religião, a nossa religião do amor, crença, uma crença grávida, bêbeda, de chá a ferver, biológica, prenha, de um para o outro. Achas que eu não gosto de ti? Só se vive pelo amor ou pelo dinheiro, mesmo quando se mata por ódio, a morte é por amor, outros matam por questões de dinheiro, de águas, de rixas de família”.
Haveria neste excerto matéria para mais algumas reflexões – mas termino sublinhando até que ponto este livro nos transmite isso que é, de certo modo, uma sensação de destino a cumprir-se, ou seja, a “capacidade de acreditar bem lá no fundo naquilo que é o que não é” – possível hipótese de definição do amor.”
Fernando Pinto do Amaral,  em artigo publicado no JL,  21.05.2020

domingo, 6 de setembro de 2020

Ao Domingo Há Música



Passemos , tu e eu devagarinho,
    Sem ruído, sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
A pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, num torvelinho
De folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber  o precioso vinho,
A rara embriaguez deste momento.

E se a tarde  vier, deixá-la vir...
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas...

De costas para o Sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.
                Reinaldo Ferreira, " Poemas"

Neste primeiro domingo de Setembro, tudo se combina , poesia e música , para permitir que encantamento e magia se possam fundir. A belíssima Suite bergamasque, L.75: III. Clair de Lune de  Debussy, interpretada pelo virtuoso Lang Lang,  sob o esplendor dos céus de Paris,  talvez o faça acontecer.
Produced by Christopher Alder
Video Producer: Phillippe Schirer
Video Director: Anthony Forestier
Video Director: Donat Lefebvre