sábado, 11 de julho de 2020

Arte

City of towers, 1956, Maria Helena da Silva
Arte
«Partilhei contigo ideias que há muito me interessavam. Portugal viera de uma ditadura, tinha décadas de atraso em relação ao mundo. Muitas questões não tinham provavelmente resposta nem precisavam dela, porque eram estimulantes em si próprias.
Havia por exemplo esta pergunta: até que ponto a arte contemporânea conseguia impor-se por si mesma, como objecto plástico, ou precisava de palavras como suporte? Isto é, até que ponto a arte se convertera em pretexto para um exercício fascinante de hermenêutica, que de algum modo ocupava uma parte do seu espaço?
Era fácil dizer que a verdadeira obra plástica não precisava de palavras, que seriam sempre redundantes, porque o que nela havia de essencial não era verbalizável. Pertencia a outro campo, visual. Por isso era plástica.»
No entanto isto não era inteiramente verdade. Podíamos dizer que por vezes as artes plásticas valiam não tanto por si mesmas mas pelo que suscitavam, e só podiam ser traduzidas em palavras: curiosamente o que sobre elas se dizia e escrevia podia ser muito mais interessante do que elas mesmas. Tornavam-se de algum modo veículo para outra coisa, que ficava para além delas. “Vampirizavam” secretamente as palavras? Talvez, mas isso podia ser estimulante, um novo ponto de partida. E por outro lado também a literatura – o campo da palavra – se alargava e invadia outros domínios, procurava novas formas de se tornar visível, parecia já não lhe bastar o mundo confinado e silencioso do livro. Estava-se numa época de viragem, em que as formas se contaminavam e tudo era possível: outras maneiras de contar, mostrar, dar a ver, partilhar, experimentar, tornar visível. O leitor-espectador-visitante passava a ter um papel cada vez maior.
Era levado a entrar nas obras, a circular por dentro delas, a perder-se e encontrar-se nelas.»
Teolinda Gersão, in A cidade de Ulisses, Editora Sextante, 3.ª ed. , Outubro 2012

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Nunc Est Bibendum

Eugénio Lisboa
Eugénio Lisboa nasceu no dia 25 de  Maio de 1930 . Celebrou, neste ano de 2020,  o 90º aniversário. 
Livres Pensantes teve o prazer de o  entrevistar. O resultado foi  uma extensa e rica entrevista, publicada no dia do seu aniversário, que tem sido continuadamente procurada pelos  mais diversos leitores. 
Eugénio Lisboa é um escritor ímpar. Detentor de uma enorme erudição tem, porém,  o distinto traço que o torna  diferente  de muitos outros grandes escritores e que faz dele  um homem inteiro. É um homem simples.  A  simplicidade é nele natural. Acolhe e cativa quem o procura. Tudo nele é autêntico, sem qualquer repercussão das honrarias  que toldam algumas  das mentes dos  intelectuais deste país e do mundo. 
Durante este período pestífero  de confinamento, premiou-nos com um diversificado poemário que foi construindo  quase diariamente. O conhecimento e a agilidade na métrica e na forma poética deram  origem a belos e originais poemas que tivemos o privilégio de ler e de publicar alguns. Conhecemos e deleitamo-nos com   a sua obra . As Memórias, apostas em sete volumes, são sempre um chamamento irresistível. Resolvemos revisitá-las, indo ao primeiro volume , ao tempo iniciático , para saudar o   nascimento deste escritor maior.  
A casa das Tias ( desenho de Dana)
Nunc Est Bibendum 
por Eugénio Lisboa
"A cidadezinha de Lourenço Marques podia passar por uma das mais bonitas do continente africano – era-o nos anos trinta, que foram os da minha infância e era-o, tanto ou mais, em 1976, ano em que a deixei para sempre. Viver ali, crescer ali, aprender ali, amar ali foi uma dádiva de que, todos os dias, tive aguda consciência. Sabia que era bom e repetia com os meus botões: é tão bom estar aqui, não te distraias, repara, minuto a minuto, como é bom o nascer do dia, o pôr-do-sol, o Índico grande, generoso e ameaçador! Goza, sabendo que gozas! Olha que o paraíso não se repete... O paraíso é isto, este espaço, estas praias, estas ruas, estes cinemas, estas livrarias, esta família, estas árvores a que trepamos com fúria, estes amigos. É isto, foi-te dado uma vez e os deuses não gostam de repetir estes dons. É só uma vez – fá-lo durar dentro de ti. Nasci ali, em 1930, num bairro limítrofe, isto é, pobre, não muito longe do cais: o Quebra-Bilhas. Embora eu não tenha dado por nada, esse ano de 1930 nem por isso deixou de ser fértil em acontecimentos de alguma nota. Em 20 de Janeiro desse ano, para começar, o célebre aviador americano Charles Lindberg aterra em Nova Iorque, tendo estabelecido um novo recorde para a travessia aérea do país (14,75 horas) e, logo três dias depois, foi fotografado o planeta Plutão, pelo astrónomo norte-americano Clyde Tombaugh. Em 29 do mesmo mês, demite-se, em Espanha, o general e ditador Primo de Rivera e, dois dias depois, pela primeira vez, na história da aeronáutica, um planador da Marinha dos Estados Unidos da América é lançado de um dirigível, embora a ideia de um porta-aviões aéreo nunca tenha chegado a concretizar-se. Fevereiro não deu nada de assinalável (que eu saiba), mas, em 12 de Março, o líder indiano Gandhi e 78 dos seus seguidores deram início a uma marcha de 241 milhas em direcção ao mar, em protesto contra o monopólio britânico do sal. Foi no dia 31 de Março (sempre de 1930!) que os produtores e distribuidores de filmes, na América, adoptaram formalmente o notório Código de Produção que, durante 30 anos, iria impor regras rígidas ao tratamento cinematográfico do sexo, crime, religião, violência e outros temas controversos (por exemplo, num filme, podia mostrar-se a coxa de uma mulher, mas não a parte de dentro. Soube-se, depois, que Hayes, o autor do código, era um tarado sexual que julgava ser o umbigo o órgão sexual da mulher...) Em 4 de Abril do meu ano, foi demonstrado, pela primeira vez, o videofone bidimensional, com uma ligação feita entre os “Laboratórios Bell” e a sede da “AT & T”, em Nova Iorque. No mês de Junho, no dia 30 (sempre em 1930!), o golfista americano Bobby Jones venceu o Open britânico, abrindo caminho para a vitória do Grande Slam e de outros Opens da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. Julho e Agosto não deram nada de assinalável ou deram e eu não dei por isso, mas, no dia 2 de Setembro, aviadores franceses completaram o primeiro voo sem escala, da Europa aos Estados Unidos, a bordo de uma nave baptizada com o lindo nome de Point d’Interrogation. O dia 5 de Setembro trouxe um acontecimento original e patusco: dois nova-iorquinos terminaram, nesse dia, a sua viagem de ida e volta a Los Angeles, tendo feito o percurso num Ford, modelo A, de 1929, em marcha atrás! Nove dias depois, no dia 14 de Setembro, os eleitores alemães cometeram uma das maiores borradas da história do mundo, ao elegerem 107 nazis para o Reichstag (Parlamento), elevando esse partido (nazi) ao estatuto de partido principal, com as consequências que se conhecem. Para dar continuidade a este clima de terror, em 29 do mesmo mês, começaram as filmagens do clássico Drácula, interpretado pelo actor Bela Lugosi, o qual desempenhara o mesmo papel no teatro, ao longo dos três anos precedentes. Setembro, como se vê, foi um mês fértil, mas Outubro também não foi nada mau. Logo no dia 5, a aviadora americana Laura Ingalls tornou-se a primeira mulher a atravessar a América do Norte, pelo ar, entre Nova Iorque e Glendale (Califórnia), em 39 horas e 27 minutos. E, logo em 20 do mesmo Outubro, o detective fictício inventado por Conan Doyle (Sherlock Holmes), fez a sua estreia na rádio, interpretado por William Gillette (a série duraria 26 anos). Em 2 de Novembro, o imperador da Etiópia outorga a si próprio o nome de Hailé Selassié, que significa, mítica e sumptuariamente, “O Poder da Trindade”. O dia 5 do mesmo mês deu ao escritor americano Sinclair Lewis (Main Street, Babbitt e Arrowsmith) o “Prémio Nobel”. E o ano fecha, em acontecimentos de nota, com o dia 10 de Dezembro, data em que o famoso Duke Ellington e a sua orquestra de jazz gravaram o que se tornou um dos seus discos mais famosos: Mood Indigo, da “Victor Records”. Ora bem, por que vos trago eu, aqui, no início das minhas tão adiadas memórias, tudo isto? Assinalar o ano de 1930, porquê? Com que fim enfeitar a data do meu nascimento com todas estas guirlandas? Ora porquê! Porque eu acho de bom conselho seguir sempre os grandes exemplos. E não era o escritor norte-americano, de origem arménia, William Saroyan, quem escrevia isto: “Não gosto de gabarolices, mas gostaria de saber por que diabo teria nevado no ano em que eu comecei a escrever, quando, antes disso, desde 1856, nunca tinha nevado em toda a história do Vale de San Joaquín”? Eu diria, pondo-me em eufórica sintonia com o autor de O Rapaz do Trapézio Voador, que, não sendo de gabarolices, muito gostaria que me dissessem porquê, sim, porquê, no ano em que nasci, ocorreram tantas coisas dignas de registo! Poderão responder-me que, provavelmente, em todos os anos, têm ocorrido coisas dignas de registo, mas eu vejo nessa resposta uma má vontade digna do maior registo! Posto o que, passemos adiante. Meu pai era, por altura do meu nascimento, um pequeno funcionário dos Correios, de escassos meios financeiros e com muitos filhos: seis, ao todo, embora eu só tenha tido consciência de mais dois irmãos (os outros morreram antes de poder dar por eles). Embora inteligentíssimo e dotado de uma grande iniciativa e capacidade de trabalho – apenas com a quarta classe de instrução primária, chegaria a director – nos anos que corresponderam à minha infância e adolescência, tinha um ordenado pequeno. Como era honesto, nunca teve proventos exteriores ao salário de funcionário público e isso fez com que, até muito tarde, vivêssemos em residências modestas de bairros bastante excêntricos – longe da estação central dos Correios, na Baixa, para onde ia, todos os dias, a pé: de manhã e depois do almoço, regressando, igualmente, a pé. No verão e outono, com o calor e humidade (que chegava aos 98%) não era pequeno feito. Mas havia que poupar nos transportes, como havia que poupar em quase tudo. Falei em paraíso, mas aquela cidade, aquele espaço quase infinito, aquela África não era um paraíso bem distribuído: brancos, pretos, mulatos, monhés e chinas não tinham quinhões iguais. Mas crescer, habituado àquela diferença, muito fazia para amortecer as picadas da consciência. Embora, desde muito novo, e porque habitava zonas limítrofes – a Rua Norte, no Alto-Mahé, o Largo João Albasini, a Estrada do Zixaxa – tive como companheiros de brincadeira garotos e garotas de todas as raças. E o Benjamim – mufana na nossa casa do Zixaxa – era como se fosse irmão e qualquer contencioso entre ele e a minha mãe, tinha-me automaticamente a tomar partido por ele.
(...) No Alto-Mahé, no extremo (pouco chic) da Avenida Pinheiro Chagas, ficava a “casa das tias”, as irmãs do meu pai, tuteladas, com mão pesada, pelo tio Tropa, marceneiro habilidoso, dotado de fortes bigodes à Staline e de espessas convicções comunizantes, embora eu nunca tenha averiguado se ele sabia bem o que era o comunismo... Trabalhava muito e com arte e fazia, com isso, pouquíssimo dinheiro, talvez por escrúpulo em avaliar no seu devido valor a qualidade da sua arte. A casa do Alto-Mahé, com rés-do-chão e primeiro andar, imortalizada, para nós, num desenho a tinta-da-china, da Dana Michaelles (pintora florentina encalhada em Lourenço Marques), era, a meus olhos de periférico, um palácio mítico, construído, de ponta a ponta, pelo tio Tropa, com contribuição financeira de meu pai e, creio, do meu tio Fernando, irmão de meu pai. Tinha uma imponente – e pesadíssima – porta de entrada, de madeira trabalhada, uma elaboradíssima escada interior, também de madeira, que unia o rés-do-chão ao primeiro andar e, neste, uma varanda com grades de ferro arrebicadamente lavrado. Ainda hoje lá está, maltratada, massacrada, vandalizada, canibalizada, conspurcada... – da última vez que por ali passei, numa das minhas visitas a Lourenço Marques, olhei-a de fugida, com o coração transido, como quem acaba de assistir a uma profanação. A casa das tias era o lugar de peregrinação, que eu e os meus irmãos visitávamos em certas ocasiões, como quem pisa solo sagrado – vivendo nós em residências modestas, do Largo João Albasini ou da Estrada do Zixaxa ou mesmo, mais tarde, da Rua Mendonça Barreto, todas elas sem frigorífico, sem electricidade (excepto a última), sem telefone e sem telefonia (para nós, em Moçambique, “rádio”), a casa das tias parecia ter tudo, incluindo uma telefonia quase do tamanho de um camião. Majestosa, sim, mas, ainda assim, insuficiente para se ouvir, nas ondas curtas, a BBC, em tempo de guerra... Na pequena “sala pobre”, onde a tia Alice fazia costura, nos intervalos de cozinhar e tudo o resto de que o casarão necessitava, jaziam, há séculos, repousados, solenes, inacessíveis, volumes encadernados de Victor Hugo, Zola e Stefan Zweig. Eu cocava-os, à sorrelfa, deslumbrado, salivando, sabendo que o tio Tropa os lera e eu ainda não. Um dia, aí pelos meus 11 ou 12 anos, achando-me sozinho na saleta, abri, sem ruído, a porta envidraçada da estante, imobilizada no tempo, e surripiei o Amok, do Stefan Zweig. Pus-me a ler, absorvido, sem perceber muito bem certas alusões (só mais tarde vim a saber que se falava ali de um aborto...). De repente, senti uma presença suave, de alguém que entrara na saleta e me espreitava de cima: era a tia Florinda, a tia que eu sempre preferira: achava-a bonita, doce, boa conversadora, sorridente, passa-culpas. Mas senti-me apanhado, balbuciei não sei o quê. Com doce malícia, perguntou-me: “Estás a gostar?” Corando, balbuciei um “sim”, que me incriminava. Mas, para meu espanto deslumbrado, a tia Florinda disse-me, quase com cumplicidade: “Se estás a gostar, leva-o e acaba de o ler em casa. Depois, diz-me se gostaste.” Fiquei a adorar ainda mais a tia Florinda: casaria com o tio Tropa (seu tio também), teria um filho, o Mário e morreria de leucemia, pouco depois. Foi, para mim, uma verdadeira perda: ela fora, de entre todas as minhas tias, a única que se regozijara, sem sombra de ressentimentos, com os meus triunfos no liceu."
Eugénio Lisboa, in Acta Fabula Est, Memórias I, Lourenço Marques - 1930-1947, Editora Opera Omnia, pp. 15-19

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Sobre os livros

A vitória e os segredos dos livros proibidos
"De Virgílio a Rushdie, a história está repleta de ataques à liberdade de expressão. Werner Fuld lembra o facto num livro e alerta sobre os cacoetes inquisitoriais nas artes
por Winston Manrique Sabogal 
Muitas vezes o fogo ficou órfão, para alegria da eternidade. Estão aí a Eneida e Lolita, separadas por mais de vinte séculos, mas irmanadas, para além da beleza literária, pelas chamas infrutíferas que seus próprios autores lhes prometeram e com aquelas com que ameaçaram alguns auto nomeados guardiões das ideias políticas, religiosas, sociais, éticas ou morais.
Uma aura de cinzas parece ter sido a sina de muitos livros ao longo dos 35 séculos da criação da escrita. O autor e crítico literário alemão Werner Fuld segue esse rasto vergonhoso do ser humano para relatar a história das obras que foram salvas da censura e perseguição, em Breve historia de los libros prohibidos (RBA). Um livro importante, de todos os tempos e as civilizações, sobre os obstáculos e armadilhas à criação literária que se converte numa chama que traz à tona a necessidade de estarmos sempre alertados  para a perpétua tentação de vigilantes e inquisidores com listas de livros proibidos e um fósforo na mão.
“Não há como negar que a maior parte da literatura universal estimula o pensamento próprio. No interesse da paz social, essa perturbação é intolerável”, afirma em tom irónico Werner Fuld, recordando a crítica de Ray Bradbury em Fahrenheit 451.
As páginas iluminam as passagens que possibilitaram o milagre de podermos desfrutar desses textos “suspeitos” e de escritores salvos quando balançavam à beira do abismo, além de outros que chegaram a cair ou os que foram resgatados, como Jonas da baleia.
Virgilio, Diderot, Dos Passos, Voltaire, Zola, Nabokov, Ovídio, Rousseau, Sartre, Hemingway, Balzac, Faulkner, Gorki, Kant, Melville, Hammett, Joyce, Descartes, Proust, Quialong, Beauvoir, Cleland, Goethe, Wilde, Genet, Solzhenitsyn, Kafka, Flaubert, Lorca, Zweig, Baudelaire, Lawrence, Mandelstam, Sade, Sagan, Ibsen, Hernández, Ginzburg, Bulgákov, Rushdie…
Existem várias classes de mortes, proibições e ressurreições literárias: a dos livros dos quais, depois de criados, o seu próprio autor se arrepende, não mais querendo lhes dar vida; a dos livros que querem viver e cujo autor busca isso a todo custo, mas alguém, um editor ou um amigo, se nega a lhes dar esse direito; e há os livros que uma pessoa mais poderosa, desde um governante até uma instituição religiosa, ou em nome da sociedade, procura eliminar.
“Saber ler (e escrever) é um acto de apropriação do mundo. Aquele que aprende a ler algumas quantas palavras ‘em pouco tempo poderá ler todas as palavras’, como diz Alberto Manguel. E, se compreende que com uma frase se apropriou de uma parte do mundo, não se dará por satisfeito com uma frase apenas”, explica Fuld num ensaio. Uma celebração da maneira em que a criação burlou o destino.
E um brinde àqueles que não deram ouvidos aos derradeiros desejos de muitos escritores de não deixar vestígios de seus textos. Um dos primeiros foi Virgílio. Não se sabe por que, em seu testamento ele ordenou que fosse queimada a Eneida. Por sorte, o imperador Augusto ignorou a sua última vontade. Vinte séculos após os factos que permitiram que o mundo lesse a Eneida, Franz Kafka queimou manuscritos que não lhe agradavam. Mais tarde, porém, o executor de seu testamento, Max Brod, não respeitou a sua vontade, e o mundo pode ler O castelo e O processo.
Um caso em que se juntam no autor o impulso de eliminar primeiro e de publicar depois é o de Vladimir Nabokov com Lolita, clássico do século XX que, quando ainda era um rascunho intitulado O feiticeiro, Nabokov quis queimar e a sua mulher Vera resgatou das chamas. Até que, em 6 de Dezembro de 1953, o autor o concluiu, iniciando uma via sacra em que foi rejeitado por quatro editoras que consideraram a obra “imoral” e muitas coisas mais, até que, dois anos mais tarde, conseguiu publicá-la em Paris pela editora Olympia Press, especializada em obras eróticas. Lolita saiu nos Estados Unidos apenas em 1958, após uma batalha judicial.
A esses fogos individuais somam-se as fogueiras que já acenderam ou quiseram acender governantes de todos os níveis e instituições religiosas ou outras, em nome do bem comum. Desde o mesmo Augusto, que em um dia feliz salvou a Eneida e em outro dia lamentável ordenou a primeira queima maciça de livros em Roma por razões religiosas, até ao nazismo, aos regimes chineses ou aos conflitos nos Balcãs, no Iraque e Irão. A própria Espanha sofreu decisões desse tipo com Francisco Franco, quando em 1939, recém-chegado ao poder que ocuparia por 36 anos, ele ordenou a retirada das obras de autores ditos “degenerados” das bibliotecas. “Franco era católico”, recorda Fuld. “Poderia ter tomado o Index romano como referência, mas a verdade é que não aparecem nesse catálogo nem Goethe nem Ibsen, que faziam parte da lista espanhola.”
São episódios sombrios e assombrosos que têm um capítulo na literatura, porque vários escritores já incluíram essas experiências em seus romances. Entre os casos mais recentes estão Balzac e a costureirinha chinesa, de Dai Sijie, O livreiro de Cabul, de Asne Seierstad, e Lendo Lolita em Teerão, de Azar Nafisi.
As ideias políticas, religiosas ou morais com interesses particulares teriam primazia sobre a arte? A história demonstra que o que existe para além do índice acusador é a vitória da beleza proibida. Do recordar a origem quando a palavra era vida, mas não vivia. Era como a luz do vaga-lume, intermitente, volátil, impossível de segurar, até que os sumérios começaram a dar–lhe corpo com signos traçados com estilete ou buril sobre tabuletas de argila, pedra, madeira ou qualquer objecto nobre que os recebesse. Assim deram início ao caminho para a arte, a eternidade, a viver diante de quem as decifra com a leitura, e a viver e viver diante de quem as revive na própria  boca para lhes dar sons, como estes versos de As flores do mal, de Baudelaire, salvos da inquisição literária:

Vens do céu profundo ou emerges do abismo,
Ó beleza? Teu olhar, infernal e divino,
Verte confusamente o favor e o crime,
E por isso podemos comparar-te ao vinho.

Destruições maciças de livros
A primeira destruição maciça de livros ocorreu na Suméria (entre os rios Tigre e Eufrates) cerca de 5.300 anos atrás, por deterioração, desastres e conflitos bélicos.
A primeira queima de livros em Roma foi ordenada por Augusto no século XII a.C. com obras oraculares e proféticas. Ele queria que ninguém questionasse as suas ideias políticas.
A biblioteca de Alexandria, fundada no início do século III a.C., terminou por motivos múltiplos: incêndios bélicos, ordem de destruição por parte dos árabes, ataques de cristãos, terremotos e falta de recursos.
No século XVI a Igreja Católica criou o Índice de Livros Proibidos, que teve muitas edições, até ser suprimido, em 1966, pelo papa Paulo VI.
Em 1933, na Alemanha, foi promovido o chamado “bibliocausto” nazi , exemplo paradigmático de como a política atenta contra as obras de arte."
Winston Manrique Sabogal, El País, 22.12 2013

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Ricorderemo sempre Ennio Morricone


Dulce Pontes & Ennio Morricone, em "Your Love"

"Ennio Morricone morreu aos 91 anos, nesta segunda-feira, dia 6 de Julho de 2020, em  Itália. Estava internado há 10 dias numa clínica em Roma após sofrer uma queda e fracturar o fémur. Um comunicado divulgado por Giorgio Assuma, advogado e amigo do artista, informa de que o maestro italiano morreu "nas primeiras horas de 6 de Julho, no conforto de sua família".
Morricone nasceu a 10 de Novembro de 1928, em Roma, e começou a compor aos seis anos.  Foi com Sergio Leone, antigo colega de escola e realizador com quem manteve uma importante e frutuosa colaboração, que conquistou reconhecimento e construiu o título de compositor fundamental da história do cinema. Compôs mais de 500 músicas para cinema e 100 peças clássicas, entre as quais melodias como a que criou para o filme “O Bom, o Mau e o Vilão” (1966), também de Sergio Leone,  o protagonizado por Clint Eastwood. Até hoje, vendeu mais de 70 milhões de discos.
A sua estreia no cinema foi em 1961, aos 33 anos, com o filme “Il Federale”, de Luciano Salce, e, ao longo da sua vida, trabalhou em filmes dos mais variados géneros, como “Os Intocáveis”, “O Bom, o Mau e o Vilão”, “A Missão”, “Cinema Paraíso” ou “Aconteceu no Oeste”, e algumas das suas composições são até mais famosas do que os próprios filmes.Trabalhou com diferentes realizadores, com os maiores da arte: Hitchcock, Nino Rota e Fellini, Bertolucci, Brian De Palma, Rolland Joffé ou Pasolini, Terrence Malick, Barry Levinson, Mike Nichols ou Quentin Tarantino. Foi, aliás, um filme deste último, “Oito Odiados”, que lhe deu a oportunidade de escrever a obra que lhe garantiria um Óscar da Academia, em 2016, para Melhor Banda Sonora Original, nove anos após ter recebido o Óscar Honorário das mãos de Clint Eastwood.
Outras distinções da galeria de prémios recebidos por Morricone inclui três Grammys, quatro Globos de Ouro, seis BAFTAS, 10 prémios David di Donatello, 11 Silver Ribbons, dois European Film Awards, um Leão de Ouro de carreira e um Polar Music Prize. Já este ano, o compositor foi distinguido com o Prémio Princesa das Astúrias das Artes, juntamente com o norte-americano John Williams, “por terem enriquecido centenas de filmes com o seu talento”, segundo o júri.
Sob   o título, È morto Ennio Morricone, il mondo del cinema piange il maestro delle colonne sonore, o  jornal italiano "la Repubblica" noticiou, hoje,  o seguinte: Così il presidente della Repubblica, Sergio Mattarella, ricorda il compositore. "Desidero far giungere alla famiglia del Maestro il mio profondo cordoglio e sentimenti di affettuosa vicinanza", conclude il messaggio del capo dello Stato.  La sera prima dell'inaugurazione del nuovo ponte progettato da Renzo Piano, l'Orchestra del Teatro Carlo Felice di Genova eseguirà Tante pietre a ricordare, il brano per orchestra, coro e voce bianca che il maestro Ennio Morricone ha composto, in memoria delle vittime del crollo del Ponte Morandi. Evocativa e commovente, dura quattro minuti ed è l'ultima partitura completata dal maestro.

Segundo Giorgio Assuma, o advogado e amigo do artista ,  o maestro queria escrever sobre  si e a sua morte na primeira pessoa. No texto, Morricone declara o  seu amor e despede-se da mulher , Maria Travia, dos filhos, netos, amigos e do director de cinema Giuseppe Tornatore . 
Eis o obituário escrito por Morricone:
"Ennio Morricone está morto. Anuncio a todos os amigos que sempre estiveram próximos de mim e também aos que estão um pouco distantes e os saúdo com muito carinho.
Impossível nomear  todos. Mas uma lembrança especial vai para Peppuccio e Roberta, amigos fraternos muito presentes nos últimos anos de nossa vida. Há apenas uma razão que me leva a cumprimentar todos assim e a ter um funeral privado: não quero incomodá-los.
Saúdo calorosamente Inês, Laura, Sara, Enzo e Norbert por terem compartilhado grande parte da minha vida comigo e com minha família. Quero lembrar com carinho as minhas irmãs Adriana, Maria, Franca e seus entes queridos e que elas saibam o quanto eu as amava.
Uma saudação completa, intensa e profunda aos meus filhos Marco, Alessandra, Andrea, Giovanni, minha nora Monica e aos meus netos Francesca, Valentina, Francesco e Luca. Espero que eles entendam o quanto eu os amava.
Por último mas não menos importante (Maria). Renovo-lhe  o extraordinário amor que nos uniu e que lamento abandonar. Para si, o adeus mais doloroso."
Artigo elaborado com informação  dos media.

Relembre as trilhas sonoras marcantes

domingo, 5 de julho de 2020

Ao Domingo Há Música

                               
                                 A minha esperança mora
                                No vento e nas sereias -
                                        É o azul fantástico da aurora 
                        E o lírio das areias.
                                Sophia de Mello Breyner Andresen , Dia do Mar

Novalis disse que a poesia é o real absoluto. E Beethoven acrescentou: A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia.
Desde sempre,  a  Música  e a Poesia são a tal  circunstância   que pode trazer  a esperança e o deslumbramento a qualquer dia.  
O  famoso Adagio For Strings, Op. 11 de  Samuel Barber pela Vienna Philharmonic, sob a direcção do Maestro  Gustavo Dudamel.  Uma composição de uma grande beleza que serviu para ilustrar  as trágicas imagens da guerra do Vietname , no filme "Platoon" de Oliver Stone, e que serve para nos inspirar de acordo com aquilo que pode fazer sentir a cada um de nós. A música tem essa capacidade. É o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos.
Este registo foi realizado no Summer Night Concert 2019, no esplendoroso parque do Schönbrunn Palace , em Viena de Áustria.
Licenciado ao YouTube por © 2019 Sony Classical, a division of Sony Music Entertainment.
Summer Night Concert 2019 em retrospectiva.

sábado, 4 de julho de 2020

A loucura fundamentalista

A loucura fundamentalista
por Eugénio Lisboa

 "Vai, por esse mundo fora, uma loucura fundamentalista, que sopra como um vendaval destrutivo dos marcos milenares da História. Tudo, a pretexto do horrível assassinato de um negro americano por um polícia violento e racista.
Há poucos crimes tão repulsivos e mesmo hediondos como o racismo, que existe, implantado – mesmo quando escondido – em todas as sociedades. Como há poucos ressentimentos tão irracionais e grotescos como os que atormentam os temperamentos misóginos. Mas, infelizmente, o mundo está cheio de uns e de outros.
É profundamente natural e até saudável que tenham aparecido, por todo o lado, movimentos de protesto contra o que se passou nos Estados Unidos  e se poderia ter passado noutros países. O ódio racial ofende a ética, ofende a estética e ofende o simples bom senso. É, repito, um crime repulsivo. Dito isto, não se justifica que a reacção a este crime sirva para promover a indiscriminada e pouco democrática destruição, a torto e a direito, de estátuas comemorativas de determinados personagens de vulto da história universal. Não há heróis perfeitos e as imperfeições que põem, aos nossos olhos de hoje, alguma nódoa nos currículos desses gigantes de ontem, devem ser vistas com a devida perspectiva, que nos sussurra terem sido tais defeitos menos inaceitáveis no tempo em que se manifestaram. Nenhum ser humano, nem mesmo de excepção, é feito de uma só peça. A estátua de Churchill, para dar um só exemplo, foi vandalizada e aumentam as pressões de grupos radicais no sentido de ser apeada. Churchill foi um político conservador – e nessa política não me revejo – e um apologista da supremacia da raça branca. Seja dito de passagem que, nessa época, mais de noventa por cento da população branca do globo pensava exactamente o mesmo, ainda que o não confessasse. Mas Churchill não foi só isto. Foi também o homem que, sozinho, nos primeiros tempos da segunda guerra mundial, quase sem armas, com poucos aviões e pouquíssimas munições, enfrentou o poderoso, vitorioso e imparável agressor nazi. Com uma Europa totalmente conquistada e amordaçada e com uma América inicialmente paralisada, este espantoso orador e homem de uma coragem de buldogue, afrontou a máquina militar alemã e infligiu-lhe a primeira estrondosa derrota, na famosa Batalha da Inglaterra em que nunca tantos ficaram a dever tanto a tão poucos pilotos da Real Força Aérea, que, em grande desvantagem numérica, escreveram páginas inesquecíveis. Inesquecíveis, disse: e eu não sou dos que se esqueceram. Apear a estátua deste homem a quem a humanidade tanto deve, só porque acarinhou ideias que, no seu tempo, eram as que prevaleciam – é, quanto a mim, monstruoso. Como seria igualmente monstruoso “apagar”, dos manuais, o século de Péricles e o fulgor de toda a Grécia Antiga, só porque os gregos tinham escravos e tanto estes como as mulheres não tinham direito de voto. Lá se iam pela borda fora Platão, Aristóteles, Pitágoras, Arquimedes… As exigências éticas do século XX (e XXI) não estavam em vigor nos séculos passados. Platão teve treze escravos mas legou-nos portentosos diálogos filosóficos. E não se limitou a ter escravos: deixou-nos inequívocas declarações de misoginia. Exemplos? Aqui vão dois: “A natureza da mulher é inferior à do homem, na sua capacidade para a virtude” ou este: “Os homens cobardes que foram injustos durante a sua vida serão provavelmente transformados em mulheres quando reencarnarem.” Que vamos então fazer de Platão: riscá-lo da História da Filosofia? Mas o grande Aristóteles não lhe fica atrás, quando se trata de denegrir a mulher. Além de afirmar, sem nunca se ter dado ao trabalho de o ir verificar, que a mulher tinha menos dentes do que o homem, disse coisas deste jaez: “A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior.” O que dirão as feministas, mesmo as mais razoáveis, de tudo isto? Mas não se ficou por aqui o alegado fundador da Ética, ofertando-nos mais esta pérola: “A mulher é um homem incompleto, um homem castrado.” Ou ainda esta: “A mulher é como se fosse um macho estéril”. Vamos definitivamente abolir Aristóteles, afim de acalmar as teóricas do feminismo? Vamos reescrever a História da Filosofia? Mas não fiquemos por qui. O sábio e venerável Confúcio, que nos legou os seus preciosos Analectos, que são tidos como autênticas lições de vida, não se acanhou ao falar do sexo frágil: "A mulher", ponderou o subtil sábio, “é o que há de mais corrupto e corruptível no mundo.”  E, já agora, que tal esta do impoluto e severo Catão?: “É preciso trazê-la [à mulher} de rédea curta.” Os teólogos e mesmo os santos não se coibiram de dar a sua cotovelada misógina, que era, pelos vistos, a coisa mais natural na época. O teólogo máximo, Tomás de Aquino, não teve papas na língua, dizendo a quem o quisesse ouvir: “A mulher é um ser acidental e falhado. O seu destino é viver sob a tutela do homem.” E que disse o grande Santo Agostinho? Apenas estas coisas suaves: “As mulheres não deviam ser educadas ou ensinadas de modo nenhum. Deveriam, na verdade, ser segregadas, já que são a causa de horrendas e involuntárias erecções em santos homens.” Já o grande protestante Lutero se sentia à vontade para ejacular isto: “Não há maior defeito numa mulher do que desejar ser inteligente.” E até o grande Petrarca, o inventor do soneto e grande poeta do amor, que dedicou as suas Rime Sparse à imortal e inacessível Laura, escreveu, à revelia de tanto amor não correspondido (vingança?) , isto: “Inimiga da paz, fonte de inquietação, causa de brigas que destroem toda a tranquilidade, a mulher é o próprio diabo.”
Por outro lado, Hegel, o filósofo temeroso, nebuloso e muito alemão, tão acarinhado pelas esquerdas duras, também não quis deixar de meter a mão na massa: “A mulher”, disse ele, condescendentemente, “pode ser educada, mas a sua mente não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e a algumas das artes.” Mas pior, muito pior: já me ia esquecendo que Pitágoras, o grande Pitágoras, o grande homem do número e da harmonia do número e das relações matemáticas e daquele célebre teorema que todos visitámos, este enorme Pitágoras tinha também uma opinião muito firme e muito radical a respeito da mulher. Aqui vai ela: “Existe um princípio bom que gerou a ordem, a luz e o homem; há um princípio mau que gerou o caos, as trevas e a mulher.” Por fim, o próprio Nietzsche, que amou perdidamente a cobiçada Lou Salomé, talvez por efeito da ressaca, escreveu esta coisa cruel: “A mulher foi o segundo erro de Deus”.
Somerset Maugham, que nos legou alguns dos mais notáveis contos que se escreveram no século XX e que é talvez o mais consumado herdeiro do grande Maupassant, nem por isso deixa de exibir nas entrelinhas e até nas linhas das suas estupendas “short-stories” traços inequívocos de misoginia e também de algum racismo (relativamente a orientais e não a negros). A misoginia de Hemingway é evidente, mesmo para o mais distraído leitor e manifesta-se de modo flagrante num dos seus mais notáveis contos: “The Short Happy Life of Francis Macomber”. Vamos apear dos manuais o maior inovador do conto moderno e o inesquecível autor de A Farewell to Arms?
Igualmente misóginos foram-no, até certo ponto, Voltaire, Flaubert, Schopenhauer, Freud, Strindberg, Dostoiewsky, Wilde, Groucho Marx e por aí fora. Vamos bani-los todos e empobrecer monstruosamente toda a nossa cultura? Ou vamos, mais humildemente e mais produtivamente, reconhecer que os seres humanos não são feitos de uma só peça, havendo, até nos mais excepcionais, facetas menos estimáveis? Melhor do que ninguém, disse-o Nietzsche, ao deixar para a posteridade esta fulgurante medalha: “Além de ser um decadente, eu sou também o contrário”.  Fique isto para meditação dos fundamentalistas mais assanhados." 
Eugénio Lisboa, em Crónica publicada na rubrica PRO MEMORIA,  do JL nº1298,  de 1 a 14 de Julho de 2020

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Portugal por Miguel Torga

Castelo de Guimarães
Trás- os- Montes
Casa do Seminário, Gralhas , Montalegre
"Coimbra, 25 de Setembro de 1988 - Meditação para servir de preâmbulo a um roteiro francês da nossa realidade:

PORTUGAL
Há nações que nascem feitas e nações que se fazem. Portugal é das que se fizeram, contra todos e contra tudo, e nunca teve sossego nas fronteiras  que chegaram a situar-se nos cinco continentes. Começou o seu caminho independente nas brumas da pré-história, dolménico, litoral magro, debruado por um mar aberto e convidativo, que navegou desde logo  em todas as direcções e transformou mais tarde no palco de uma das maiores façanhas de que a civilização ocidental se pode orgulhar . Microcosmos variegado, ora montanhoso, ora ondulado e plano, de cada miradoiro  é inédito e diverso. Árido aqui, verdejante ali, terroso acolá, passeá--lo é conhecer  em miniatura as feições  aráveis da Terra. Sulcado por rios líricos ou dramáticos , consosnat o leito, espelha-se neles ao natural o perfil da paisagem.  Um Minho bucólico, uma Estremadira monumental , um Ribatejo toureiro. Invadido sucessivamente por muitos povos , a nenhum  se submeteu inteiramente.  Antes pelo contrário, resistiu-lhes a conviver . Na essência, permaneceu o mesmo, dono e senhor da sua personalidade profunda, livre , visionário, aventureiro, obstinado. E sempre cordial. Quem percorre o país  de norte a sul pode queixar-se de tudo, menos dos panoramas e , ainda menos, das gentes. Austeras em Trás-os Montes, sóbrias nas Beiras, graves no Alentejo, reservadas no Algarve, identifica-as, no entanto, a mesma índole solícita, prestante, disponível. Criaturas simples, chegadas ao húmus, tudo nelas tem ainda o sabor saudável do autêntico e primordial. Na maneira como trabalham, cantam, dançam, rememoram , o observador autêntico pode descobrir  os sinais vivazes de uma sã tradição rural, comunitária, o vizinho a dar a mão ao vizinho, o velho a ensinar o novo, o prudente a avisar os incautos. Marginal à Europa,  nem sempre a acompanhou nas suas proezas técnicas e antropotécnicas. E , nesse capítulo, à primeira vista, pode parecer retrógrado. Mas essa falsa inércia , esse ilusório sono letárgico, é apenas  a paz de boa consciência de quem conhece o preço de certas cedências ao progresso. De quem lhe pressente a efemeridade. No decorrer dos séculos , este povo pacífico, que sempre se soube defender e nunca soube agredir, aparentemente parado no tempo, foi a própria encarnação do espírito renovador, na tolerância , na curiosidade, na inventiva. O primeiro a abolir a pena de morte, a dar a independência a uma das suas maiores colónias, a dobrar os muitos cabos das Tormentas. Original na maneira de ser, de sentir e de pensar, a cultura universal deve-lhe um modo específico de encarar a vida e os valores. Nos seus Cancioneiros, no seu rifoneiro, no seu artesanato, está documentada uma singularidade temperamental e intelectual que faz a admiração de quem a conhece. Todos os viajantes de boa-fé que nos visitaram  no passado e nos visitam no presente a testemunham  e enaltecem. Fundadora de novas pátrias , esta pequena pátria, que com os descobrimentos marítimos realizou a maior epopeia  dos tempos modernos , arredondando definitivamente o globo nas mentes  coevas, ainda hoje  a povoar e a unir a orbe,  num fluxo emigratório constante.  E é essa vocação planetária, essa inquietação dispersiva que faz do português um peregrino das sete partidas , um cidadão  do mundo. Despido de pruridos raciais, uma vez em terra alheia , miscigena-se, adapta-se, integra-se , mas sem perder nunca os traços nativos.  E quando a saudade  - um sentimento sem tradução afectiva e vocabular - o crucifica , regressa e retoma, na aldeia de onde saiu, o seu lugar de membro da junta de freguesia ou de mordomo de festa.
Claramente que, ao lado deste Portugal telúrico e arcaico, ainda não desfigurado na alma, escudado na sua castidade moral, existe um outro, contemporâneo do presente, cosmopolita e cultivado, que tem pergaminhos nas artes , nas letras, nas ciências, na política e na religião.  Que erigiu Alcobaça e os Jerónimos, que escreveu Os Lusíadas , que pintou os painéis de S. Vicente, que comentou Aristóteles e deu à Igreja  um Papa e um Doutor. Mas o Portugal letrado, por muito que tenha feito, não pode, nem de longe, nem de perto, comparar-se ao iletrado , pela tenacidade, pela honradez, pela audácia, pela graça espontânea e pela nobreza de sentimentos. É que o Portugal eterno, o que nunca traiu , o que dá esperança , é o das revoluções populares, o que trabalha dia e noite sem esmorecer, o que acaba sempre por ter a última palavra nos acontecimentos, o do arado e do remo. É ele que, anónimo e humilde, não cabe nas crónicas , mas avaliza alguns dos mais significativos passos da história da humanidade."
Miguel Torga, in "Obra completa , Diário XV" , Círculo de Leitores,   pp. 1527, 1528, 1529

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Cem anos de Amália Rodrigues


Amália Rodrigues nasceu há cem anos , em Julho de 1920, quase no início do sec. XX. O dia exacto do seu nascimento não é certo , obrigando a cantora a optar por o celebrar a 1 de Julho. É , pois, hoje o dia do seu aniversário.
Amália foi e é a "senhora" do Fado Português. Levou-o e divulgou-o pelos palcos de todo o  mundo. Em Portugal , Amália ficou para sempre a pioneira do grande fado.  A poesia passou a ser cantada  pela sua voz, emprestando ao fado a beleza de duas grandes formas de Arte: a Música e a Poesia.
David Mourão-Ferreira , um dos nossos maiores poetas do séc. XX, escreveu poemas belíssimos para  Amália que ficaram imortalizados. Foi a grande revolução do Fado. Um poeta maior escrever para o Fado. Apesar de, na época, algumas críticas de pseudo intelectuais  deste país, a parceria com Amália prosseguiu .
Sobre esse facto, veio  David Mourão-Ferreira,(1927-1996), a confidenciar: "Em qualquer parte do mundo aonde o desejo ou as circunstâncias me têm arrastado – do Brasil ao Japão, dos Estados Unidos à União Soviética – , basta alguém saber que sou português para de imediato saltar a terreiro o nome de Amália. E, se acaso por acréscimo vêm também a saber que Amália Rodrigues interpreta uma dúzia e meia de letras da minha autoria – e entre elas o Barco Negro – então aí logo fico todo a cintilar, imerecido satélite, da luz reflexa do seu nome e renome." 
Barco Negro

De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.[Bis]

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.
David Mourão Ferreira