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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Canção monótona

Monotonia...
Sempre a imagem das cousas que nos pesa...
A mesma cor vermelha de Alegria,
O mesmo claro-escuro da Tristeza...

Sempre, no mesmo corpo, a mesma doença: a vida!
Sempre a mesma elegia, em sílabas de mágoa...
Sempre o mesmo perfil de serra empedernida,
Onde o Inverno, a chorar, desenha espectros de água.
Bocas de tédio a envenenar o mundo...
Uma noite perpétua, emudecida e calma...
Negro pego de lágrima profundo,
Estagnação da Dor, em ermos longes de alma...
A memória em planície estéril e deserta.
Ouvir, durante o dia, o choro de uma fonte...
Sempre a mesma janela, eternamente aberta,
Sobre o mesmo horizonte...
Nos olhos, sempre a mesma indefinida imagem...
Sempre a mesma roseira a florescer por mim...
Sempre o mesmo silêncio, em formas de paisagem;
Ave a cantar, manhã de sol sem fim!
Um perpétuo sorriso, à flor do mesmo rosto...
Num gélido cristal, a mesma face absorta...
Sob um eterno sol-posto,
Eterna planície morta...
Em sons de espuma e névoa, a eterna voz do Mar,
A morrer, a viver nos areais de além...
Um eterno sepulcro, à luz de eterno luar...
A mesma vida, em nós, vivida por ninguém...
Constante calmaria, eterno mar parado...
Este íntimo Alentejo em que se perde a gente...
Em nosso próprio ser, o Tempo desmaiado...
O mesmo, o mesmo, o mesmo, em nós, perpetuamente!
Teixeira de Pascoaes, in "Poesia de Teixeira de Pascoaes",Lisboa, Círculo de Leitores, 2004

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Urgente


Urgente é construir serenamente
seja o que for, choupana ou catedral,
é trabalhar a pedra, o barro, a cal,
é regressar às fontes, à nascente.

É não deixar perder-se uma semente,
é arrancar as urtigas do quintal,
é fazer duma rosa o roseiral,
sem perder tempo. Agora. Já. É urgente.
Urgente é respeitar o Amigo, o Irmão,
é perdoar, se alguém pede perdão,
é repartir o trigo do celeiro.

Urgente é respirar com alegria,
ouvir cantar a rola, a cotovia,
e plantar no pinhal mais um pinheiro.
Fernanda de Castro, in "Poesia II" (1969)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Origem

Venho do branco perímetro das areias
do sal e da espuma
das rochas povoadas de mariscos
venho das estrelas do mar
do som dos caramujos
e de milhares de conchas recolhidas.
Venho das grandes calmarias
de suaves brisas
e fortes ventanias.
Venho de úmidas ribeiras
de costões e ribanceiras
e das areias peneiradas pelo vento.
Venho de marés e lua cheia
de uma paisagem ensolarada
venho de aquarelas deslumbrantes
e das auroras e dos crepúsculos de verão.

Venho de um arquipélago de canoas
de velas infladas
de rudes pescadores
das grandes redes deitadas sobre o mar
dos colares de cortiça estendidos sobre as águas
das tarrafas se abrindo como flores.

Venho dos covos e das puçás com suas iscas
de siris e caranguejos
dos lances de tainhas contadas aos milhares
dos invernos com seus cardumes bem ovados
de sardinhas bem lanhadas
venho do bom caldo de peixe

do pampo, do sargo e da betara
da salsa, da alfavaca e do cominho.

Venho da saudade de uma praia
de uma infância azul e branca
de um batel e dos meus remos
de um suave rio desembocando
e daquela “Ilha Feia” colocada no meio do horizonte.

Venho de um cenário que o tempo sepultou
meus esconderijos, meus atalhos
minha pequenina lagoa... onde está ???
tudo é aço e concreto nesta orla vertical
nesta inevitável invasão
nesta passarela de aparências
neste progresso que aterrou meu manguezal.
Curitiba, Abril de 2004
Manoel de Andrade , in “ Cantares” Fev. de 2007, Editora Escrituras, São Paulo,Brasil

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cantar




Minha pátria tem montanhas,
não mar.

Ondas de trigo e trigais,
não mar.

Espuma azul os pinheirais
não mar.

Céus de esmalte fundido
não mar.

E o coro rouco do vento
sem mar.

Óscar Cerruto in “Obra Poética”

Oscar Cerruto (1912- 1981) nasceu em La Paz, Bolívia. Poeta, diplomata, jornalista é uma das grandes figuras da Literatura boliviana do Sec. XX .

terça-feira, 7 de junho de 2011

O meu compromisso não é contigo

O meu compromisso não é com a memória
com os pedaços de pele
que deixei na boca dos cães
com a inquietação das ondas
que me temperaram de sal e tempestade

O meu compromisso não é com o riso
nem com os gritos nem com as lágrimas
O meu compromisso não é com os olhares
com os murmúrios com o vento

O meu compromisso não é contigo
por mais que eu te ame
e sejas o voo da minha liberdade

O meu compromisso místico e solene
é com o corpo exacto fugidio sedutor
equívoco imperativo do não dito

O meu compromisso
é com as palavras.

Rosa Lobato de Faria, in "Poemas Escolhidos e Dispersos", Roma Editora,
Lisboa, 1997, p 78.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

E as crianças?

Num país onde todos os dias o desemprego aumenta, os abonos de família são cortados e duas em cada cinco crianças vivem em condições de pobreza, celebrar o Dia Mundial da Criança é decidir que os Direitos fundamentais têm de passar da palavra escrita  à palavra vivida.
Matilde Rosa Araújo deu-lhes forma justa e  poética. Recordá-los é obrigatório.


A Criança,
Toda a criança.
Seja de que raça for,
Seja negra, branca, vermelha, amarela,
Seja rapariga ou rapaz.
Fale que língua falar,
Acredite no que acreditar,
Pense o que pensar,
Tenha nascido seja onde for,
Ela tem direito…
… A ser para o homem a
Razão primeira da sua luta.
O homem vai proteger a criança
Com leis, ternura, cuidados
Que a tornem livre, feliz,
Pois só é livre, feliz
Quem pode deixar crescer
Um corpo são,
Quem pode deixar descobrir
Livremente
O coração
E o pensamento.
Este nascer e crescer e viver assim
Chama-se dignidade.
E em dignidade vamos
Querer que a criança
Nasça,
Cresça,
Viva…
…E a criança nasce
E deve ter um nome
Que seja o sinal dessa dignidade.
Ao Sol chamamos Sol
E à vida chamamos Vida.
Uma criança terá o seu nome também.
E ela nasce numa terra determinada
Que a deve proteger.
Chamemos-lhe Pátria a essa terra,
Chamemos-lhe antes Mundo…
…E nesse Mundo ela vai crescer.
Já sua mãe teve o direito
A toda a assistência que assegura um nascer perfeito.
E, depois, a criança nascida,
Depois da hora radial do parto,
A criança deverá receber
Amor,
Alimentação,
Casa,
Cuidados médicos,
O amor sereno de mãe e pai.
Ela vai poder
Rir,
Brincar,
Crescer,
Aprender a ser feliz…
…Mas há crianças que nascem imperfeitas
E tudo devemos fazer para que isto não aconteça.
Vamos dar a essas crianças um amor maior ainda.
E a criança nasceu
E vai desabrochar como
Uma flor,
Uma árvore,
Um pássaro,
E
Uma flor,
Uma árvore
Um pássaro
Precisam de amor – a seiva da terra, a luz do Sol.
De quanto amor a criança não precisará?
De quanta segurança?
Os pais e todo o Mundo que rodeia a criança
Vão participar na aventura
De uma vida que nasceu.
Maravilhosa aventura!
Mas se a criança não tem família?
Ela tê-la-á, sempre: numa sociedade justa
Todos serão sua família.
Nunca mais haverá uma criança só,
Infância nunca será solidão.
E a criança vai aprender a crescer.
Todos temos de a ajudar!
Todos!
Os pais, a escola, todos nós!
E vamos ajudá-la a descobrir-se a si própria
E os outros.
Descobrir o seu mundo,
A sua força,
O seu amor,
Ela vai aprender a viver
Com ela própria
E com os outros:
Ela vai aprender a fraternidade,
A fazer fraternidade.
Isto chama-se educar:
Saber isto é aprender a ensinar.
Em situação de perigo
A criança, mais do que nunca,
Está sempre em primeiro lugar…
Será o sol que não se apaga
Com o nosso medo,
Com a nossa indiferença:
A criança apaga, por si só,
Medo e indiferença das nossas frontes…
A criança é um mundo
Precioso
Raro.
Que ninguém a roube,
A negoceie,
A explore
Sob qualquer pretexto.
Que ninguém se aproveite
Do trabalho da criança
Para seu próprio proveito.
São livres e frágeis as suas mãos,
Hoje:
Se as não magoarmos
Elas poderão continuar
Livres
E ser a força do Mundo
Mesmo que frágeis continuem…
A criança deve ser respeitada
Em suma,
Na dignidade do seu nascer,
Do seu crescer,
Do seu viver.
Quem amar verdadeiramente a criança
Não poderá deixar de ser fraterno:
Uma criança não conhece fronteiras,
Nem raças,
Nem classes sociais:
Ela é o sinal mais vivo do amor,
Embora, por vezes, nos possa parecer cruel.
Frágil e forte, ao mesmo tempo,
Ela é sempre a mão da própria vida
Que se nos estende,
Nos segura
E nos diz:
Sê digno de viver!
Olha em frente!

« Os Direitos da Criança », de Matilde Rosa Araújo ,in” As Crianças, Todas as Crianças,”
Livros Horizonte, Lisboa, 1979.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Panfleto contra a paisagem I

Vogo nas ondas
com uma nereida ao pescoço
a segredar-me de frio
na espuma da voz do mar:

«Esquece, esquece o desânimo do mundo
no sopro da minha pele
onde adormecem tufões
nas algas de polvo e enleio.

«Dá-me os teus pulsos
para algemá-los de frio.
Dá-me o teu coração
para pesá-lo de refúgio.
Dá-me as tuas lágrimas
para a sede dos espelhos.
Dá-me a tua boca
para sorri-la de enfeite.
Dá-me os teus cabelos
para afagá-los de mãos iluminadas.
Dá-me os teus olhos
para pintá-los de violino.
Dá-me o teu peito
para espreguiçar-me mulher nos teus braços.
Dá-me...»

Basta, nereida verde
de corpo de espuma frio
todo em ondas de embalar!
Sou firme como o não dum homem
e não há sereia ou mulher
que me tente de traição.

Sou firme como o não dum homem
e não há ninguém no mundo
que me arranque com cetins
ou garras de sangrar sóis
este Remorso Militante
que trago na pele e nos gritos
como a minha arma inútil de combate!

José Gomes Ferreira,in " Poesia I", Lisboa, Portugália Editora, 1969

sábado, 21 de maio de 2011

O Marinheiro e seu barco

    Para Daniela
Lembro-me de um tempo imenso,
de um menino de espumas e areia
do mar que tive em minha infância.
Depois a vida cresceu dentro de mim,
as tardes me acostumaram com os barcos partindo
e no meu pequeno peito nasceu um sonho de marinheiro.

Recordo que em mim tudo era barco
e que a existência chamava-me de todos os portos do mundo.
Recordo meus salgados olhos tatuados com invisíveis rotas
navegando errantes sobre o horizonte.

Sim, há coisas tristes na vida
como um sonho de criança
quando morre em nosso coração de homem.
E hoje,
quando vejo minha pátria naufragada
e meu povo reconstruir com sangue
seu barco despedaçado,
sinto que em mim renasce transformado
o mesmo sonho antigo;
então meu coração se banha com as águas amargas desses anos
e penso naquele transparente canto de pérolas e algas
que herdei de ondas remotas
em tudo que em mim ficou de verde e de imenso;
e sonho novamente com um visionário caminho para a vida,
com seus barcos de pão e de peixes
com gaivotas jovens
e sua brancura abrindo-se com o amanhecer.

E penso o meu tempo                                                            
com seus caminhos longos e difíceis
e o sinto com a esperança das águas nas nascentes
e seu deslumbramento da desembocadura.
E mais além
penso em um oceano com novas longitudes,
em uma bússola  de estrelas
guiando meu povo a uma aurora boreal.
E penso nesses povos antigos
que partiram um dia em busca de uma terra longínqua,
em busca de novos campos para suas sementes
e de um berço de sol para seus filhos.

Ah irmãos!
quantos mares desconhecidos nos esperam!
Quantos caminhos até chegar à nossa sonhada Canaã!

Sim... há coisas belas na vida...
como o homem com seu barco e seu destino
como a alma extraordinária dos camaradas
a ternura escondida em seus punhos
e seus gestos de vida e de amor.
E penso nesse porto ainda distante
no trigo maduro
na doçura das laranjas na próxima estação.
Penso em uma iluminada manhã
quando voltar a pisar o chão da pátria
e  abraçar minha filha bem amada.

Manoel de Andrade, in " Poemas para a Liberdade", Lima, Dezembro de 1969, Ed. Escrituras

terça-feira, 17 de maio de 2011

Poema das coisas

Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.

Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.
Abre-se a porta e o próprio ar nos fala.
As cortinas de rede, exactamente aquelas,
a cadeira onde a memória está sentada,
a mesa, o copo, a chávena, o relógio,
o móvel onde alguém permanece encostado
sem volume e sem tempo,
nós próprios, quando os olhos indignados
nas pálpebras se encobrem.
Põe-se a pedra na mão, e a pedra pesa,
pesa connosco, forma um corpo inteiro
Fecha-se a mão, e a mão toma-lhe a forma,
conhece a pedra, entende-lhe o feitio,
sente-a macia ou áspera, e sabe em que lugares.
Abre-se a mão, e a mesma pedra avulta.
Se fosse o amor dos homens
quando se abrisse a mão já lá não estava.
António Gedeão, in "Poesia Completa" , Edições João Sá da Costa, Lisboa

domingo, 1 de maio de 2011

Poemas à Mãe

Para Sempre
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade, in "Lição de Coisas"



Poema Cansado de Certos Momentos
Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar distâncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e não olhaste os pegos nem as cobras,
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
— e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?
Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Amor

Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam.
Jorge de Sena, in "Peregrinatio ad loca infecta" (1969)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Transparência

Morrer é só não ser visto,
é sair de ao pé de ti,
apagar-me em tudo isto,
deixar de ver o que vi.

Morrer é não estar em ti,
e mais do que não te ver,
é não ser visto por ti,
no deserto do não ser.

Morrer é como apagar-se
a chama que houve em nós,
é uma espécie de ficar-se
vazio da própria voz.

Vive o amor da atenção
que se tem por quem se ama.
Mas a morte atiça em vão
o fio que não dá chama.

Morrer é só não ser visto,
é passar a pertencer
a um livro de registo
que guarda o nosso não-ser.
Eugénio Lisboa , poema  cantado por Amélia Muge no álbum  “Não sou daqui” de 2006

domingo, 24 de abril de 2011

Convite para um Domingo de Páscoa

Convite
Vamos, ressuscitados , colher flores!
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço...
Vamos àquele cabeço
Engrinaldar a esperança!
Temos a primavera na lembrança;
Temos calor no corpo entorpecido;
Vamos! Depressa!
A vida recomeça!
A seiva acorda, nada está perdido!
Miguel Torga , Coimbra , 2 de Abril de 1961 , in " Diário IX", Ed. Círculo de Leitores


O Domingo de Páscoa na Liturgia Cristã
Jesus e os discípulos de Emaús, Evangelho segundo S. Lucas, capítulo 24, 13-31
"24, 13 E eis que,  nesse dia, dois deles estavam a caminho duma aldeia chamada Emaús, que distava  de Jerusalém sessenta estádios.  14 Conversavam eles entre si acerca de tudo o que tinha acontecido,   15 e sucedeu que ao conversarem  e discutirem entre si, o próprio Jesus aproximando-se, se pôs a caminhar com eles.  16 Os olhos deles estavam impedidos de o reconhecer.  17 Disse-lhes, pois: “ Que conversas são essas que discutis entre vós, enquanto caminhais?”  E eles pararam, entristecidos.  18 Respondendo, um deles, de nome Cleofas, disse-lhe: “ Tu és o único  forasteiro de Jerusalém que não sabes o que lá aconteceu nestes dias?”  19 E ele disse-lhes: “ O quê?”  Eles disseram-lhe: “ O que diz respeito a Jesus de Nazaré, que era um profeta poderoso em obra e palavra diante de Deus e de todo o povo.  20 Como o entregaram os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes em condenação à morte, e o crucificaram.  21 Nós, porém, esperávamos que ele fosse aquele que devia remir Israel. Mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que tudo isto aconteceu.  22 É certo que algumas mulheres dentre os nossos nos perturbaram; tendo ido de manhã cedo ao túmulo.   23 e não encontrando o corpo dele, voltaram, dizendo que tinham tido uma visão de anjos que dizem que ele vive.   24  E indo alguns dos nossos ao túmulo encontraram tal como as mulheres tinham dito; a ele, porém,  não o viram.”   25 Então ele disse-lhes: “ Ó insensatos e lentos de coração para acreditar em tudo o que disseram os profetas!    26 Acaso não devia o Cristo sofrer isso e entrar na sua glória?”   27 E começando de Moisés e de todos os profetas interpretava-lhes em todas as Escrituras as coisas acerca dele mesmo.   28 Aproximaram-se da aldeia para onde iam, e ele fingiu ir mais longe.    29 Mas eles instavam com ele, dizendo: “ Fica connosco, porque é tarde e o dia  já declina.”  E entrou para ficar com eles.   30 Sucedeu que, ao sentar-se à mesa com eles, tomando o pão, deu graças e, partindo, dava-lho.  31 Seus olhos abriram-se, então, e reconheceram-no; mas ele tornou-se invisível."

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Poemas da Liberdade

Amor Combate

Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.
Amor intenso. amor imenso. amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.
Joaquim Pessoa, in “Amor Combate

terça-feira, 12 de abril de 2011

Chamamento

Da  margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega,vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer,no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja,longe,
num outro lugar.

Luísa  Dacosta, in " A Maresia e o Sargaço  dos Dias"

quinta-feira, 31 de março de 2011

O tu e o eu na paisagem

Não é o restolhar do vento.
É a tua lembrança
que se ergue em mim.

Não é a rosa do sol a esfolhar-se.
É a minha boca -sede e romã-
que sangra na tarde.

Não é a noite que desce.
É a sombra dos teus olhos
a fechar o horizonte.

Luísa Dacosta, in " A Maresia e o Sargaço dos Dias"