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sábado, 21 de janeiro de 2012

A vida não cabe numa teoria

 "A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós.
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar."
Miguel Torga, in "Diário II" (Abrecôvo, 27 de Dezembro de 1941) , Circulo de Leitores

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sobre a Poesia X

Justificação
Monótono cantor à porta do destino,
Tenho a desculpa da monotonia
Do sofrimento humano.
Dói-me, e a dor não varia:
É um inverno que dura todo o ano…
                 Miguel Torga ,Coimbra 25 de Outubro de 1960, in “ Diário IX”

Miguel Torga teceu uma extensa obra em diversos géneros literários que vão desde o Conto, em que é mestre,o Teatro, o romance, à Poesia , domínio da excelência que jamais deixará de nos surpreender. O registo diarístico que processou ao longo da sua vida é um painel rico e diverso do seu génio literário. Repartido por dezasseis volumes, o Diário apresenta poemas, esboços de contos e magníficos textos que retratam a realidade existencial do poeta e da época da sua produção. Em Junho de 1977, Miguel Torga foi a Bruxelas receber um Prémio de Poesia da Bienal Internacional de Knokke-Heist que lhe tinha sido atribuído. Sobre essa viagem, no Diário XII , registou, no dia da chegada, algumas reflexões sobre o seu percurso de vida e, no dia da entrega do galardão, o Discurso que proferiu . Registos que transportam a imagem de um homem que se construiu pela força do trabalho, por uma tenaz vontade de aprender e que sempre se afirmou íntegro, independente, vertical e humilde. Pela riqueza, pela mestria e pelo fascínio literário que patenteiam as palavras deste excepcional poeta, a X edição de “ Sobre a Poesia” pertence-lhe.
Bruxelas, 4 de Junho de 1977 - As voltas que a vida dá, e como acaba por atar as pontas para se fechar num círculo simbólico! Quando há sessenta anos, como emigrante, desembarquei no Rio de Janeiro do porão de um navio, esperava-me no cais um sujeito desconhecido com a minha fotografia na mão , a fim de me identificar; há pouco , ao descer do avião, aconteceu coisa parecida: uma senhora, igualmente estranha, erguia à porta de saída um grande cartão onde li, entre comovido e divertido, o meu nome. O rapazinho de outrora ia comer o pão que o diabo amassou; o velho de agora vinha receber um prémio internacional. O prémio de ser fiel às origens, e de ter sempre, como os antepassados, mourejado na mesma humildade e tenacidade , de enxada na mão ou de caneta na mão. Miguel Torga in “ Diário XII”


“A poesia foi sempre um pesadelo e uma fascinação para os poderosos..” Miguel Torga

Discurso de Miguel Torga na entrega do galardão que lhe foi atribuído, o Prémio de Poesia da XII Bienal Internacional de Poesia de Knokke-Heist.

Bruxelas, 6 de Junho de 1977 ­­­- Palavras que vim hoje aqui dizer :

Minhas Senhoras e meus Senhores :
A poesia está de festa. Não porque a vemos neste momento celebrada na pessoa de um poeta qualquer, mas porque uma das tonalidades da sua voz foi finalmente ouvida e reconhecida num conclave onde até hoje nenhum Espírito Santo a fizera descer. É o português uma velhíssima e nobre língua latina espalhada pelos cinco continentes. Nela cantaram e cantam grandes vultos inspirados, de Camões a Fernando Pessoa, de Bernardim Ribeiro a Teixeira Pascoaes. Capaz de dar guarida às mais desabusadas fúrias épicas e às mais discretas confidências líricas, dúctil e colorida em todos os paralelos geográficos que nas suas andanças visitou, poucas a igualam nos fecundos dons proteicos, na sua barroca plasticidade. Mas a Europa culta conhece-a mal, e a lira temperada nos confins ibéricos «onde a terra se acaba e o mar começa», embora com todas as cordas a vibrar de extremo ocidente a extremo oriente, tem sofrido, séculos a fio, a injusta condenação de se ver privada de participar no polifónico coro das nações, e de emprestar à orquestração universal o inesperado concurso de uma vivida e natural simpatia cósmica. Felizmente que o encanto se quebrou por obra e graça do vosso arbítrio. Seja essa a precária virtude dos meus versos : contribuir, na sua exacta medida, para que a singularidade expressiva de um povo, simultaneamente loquaz e sucinto, urdidor de romanceiros e sintetizador de rifões, possa de ora avante patentear à curiosidade cosmopolita toda a sua riqueza e originalidade. É mais um benefício que ficamos a dever às bienais de Knocke a ao seu clarividente fundador. Arredondar o mundo da poesia – como Fernão de Magalhães, um lusitano sem fronteiras, fez ao mundo físico - , é dar-lhe a total dimensão que ela deve ter na mais dilatada aspiração da sensibilidade humana.
Hora de regozijo, pois, para todos nós, servidores de Orfeu. Mas hora igualmente amarga se a meditarmos a outra luz menos apaixonada. Se a projectarmos para além desta grata circunstância concreta em que às letras da minha pátria toca o maior quinhão. Fora de tais limites, já o vinho com que brindamos tem menos doçura. A negra realidade do que é sobrepõe-se à clara irrealidade do que parece, e um pertinaz mal-estar esmaece a passageira euforia do nosso mútuo encontro.
Bem sabemos que no longo caminho da História muitas vezes a poesia é coroada de rosas. Na Grécia de Péricles, na Roma de Augusto, nas cortes provençais, na Florença dos Medicis, assim sucedeu. Mas coroada pela tácita confluência de uma admiração espontânea e generalizada, e não pelo expresso voto dos seus obreiros, feitos advogados em causa própria, como é o nosso caso. Uma assembleia de poetas a premiar um dos seus pares não significará que a poesia, longe de se mirar no límpido espelho da sua glória, se vai esquivando da melhor maneira que pode ao doloroso reconhecimento da sua imagem diminuída? Por muito que nos doa, tais simulacros de sucesso, permutados em circuito fechado, disfarçam mal a evidência de uma crise de identidade que nenhuma retórica consegue exorcizar.
Já lá vão uns anos, numa mensagem enviada a um congresso de poetas, realizado perto da Via Ápia, aludi às catacumbas de resistência, onde a poesia, num reflexo de integridade ofendida, teria de se recolher para preservar o seu milagre sempre renovado de criação. Gritava então do fundo de um poço de angústia, na incerteza de encontrar ressonância nos meus companheiros na crença e na desgraça. Era no apogeu das triunfantes ideologias de massas em que ser poeta inconformado valia por um atestado civil de maldição. A presença de qualquer de nós no seio da sociedade correspondia, no critério das ditaduras vigentes, à presença aberrante de um tumor maligno nas entranhas de um corpo homogéneo. E enchíamos os Cáceres como os demais cidadãos que se sabiam e queriam diferentes e livres. Mas essa violência estava na lógica das coisas. Ao mesmo tempo incómoda e sedutora, a poesia foi sempre um pesadelo e uma fascinação para os poderosos. Em todas as épocas os Césares pretenderam simplesmente aniquilá-la ou, mais argutamente, utilizá-la, até ao ponto de usurpar-lhe os méritos. Confusamente conscientes de que para cada verso existe um eco, que o verbo se faz carne em cada poema, que onde esteja um poeta e haja quem saiba ouvi-lo se gera uma corrente de comunicação a partir da qual já nenhuma inquietação se deixa iludir de boa fé, nada mais natural de que o desejo de mobilizar essa força em proveito próprio, arremedando-lhe os processos encantatórios ou prestigiando os vates oficias, promovidos a príncipes da rima. E foi, não a pensar neles, nesses olímpicos rojados aos pés do poder, mas de olhos postos no heroísmo de António Machado e no martírio de Lorca, meus vizinhos e contemporâneos, que toquei a reunir. Mal imaginava eu que não tardaria muito estaríamos diante de nova calamidade: a praga mefítica do poeta refugiado nas suas qualidades menores, a cantar de ouvido hinos que deveriam irromper das funduras da alma, a iludir o que não quer revelar, ou a encobrir com palavras de superfície a debilidade do estro. Furtando-se à tutela dos totalitarismos expressos, mas envergonhada da sua condição e a render-se com armas e bagagens a padrões que nem pelo facto de serem mais subtis deixam de ser menos tirânicos, não deslizará irremediavelmente a poesia para os abismos de um totalitarismo implícito? Solidário mas autónomo, o poeta é um rebelde que sabe que a poesia apenas subverte porque transfigura, e que será esse sempre o seu vanguardismo. A cantar ao sabor da moda, um poeta vestido de bardo não é menos trágico do que um poeta ataviado de fâmulo.
É nessa encruzilhada de perguntas e dúvidas que radicam as minhas apreensões, agravadas dia a dia perante a evidência do isolamento progressivo em que no íntimo vivemos todos. Os que resistiram à tentação e os que se deixaram tentar. Os que persistem em ser descomprometidos apóstolos da liberdade; os que cederam à comodidade de pôr a poesia ao serviço de causas que lhe são alheias; e ainda os que, perplexos, à mingua de um ponto de aplicação, a escamoteiam em jogos herméticos e ambíguos, onde ela se perde como a melhor água numa esponja de areia. Uns por razões de fora, outros por razões de dentro, outros por incidência de ambas, todos vivemos exilados dentro de nós, mesmo quando assim conviventes, a repartir irmamente, num acto compensatório, os louros sagrados do Parnaso. Porque não vale a pena encobrir a verdade. Temos de o confessar lealmente: embora tais festões constituam um mútuo estímulo e um lenitivo, murcha-lhes o viço não sei que sombra de solidão. Talvez a certeza melancólica de que apenas nos dariam inteira alegria na hora em que conseguíssemos merecê-los e recebê-los das mãos rendidas e limpas daqueles que connosco comungassem na convicção de que a poesia, na transparência da poesia, só não trai o semelhante quando não se trai a si próprio."
Miguel Torga in “ Diário XII”, Círculo de Leitores

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Portugal

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso  aventureiro da ilusão,
Surdo às do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga, 16 de Dezembro de 1963, in " Diário X", volumes IX a XII , Círculo de Leitores

 “Portugal, the beauty of simplicity” é um filme de promoção turística do nosso país.  Produzido pela Krypton, foi distinguido, no dia 2 de Julho, em Varsóvia, Polónia, no Film, Art & Tourism Festival, na categoria “The best film promoting country, region or city” com o segundo prémio, entre 220 filmes candidatos. O autor da banda sonora é Nuno Maló.  A banda   está nomeada para os Jerry Goldsmith Awards 2011 na categoria de "Best Promotion Score" talvez pela peculiar e excepcional sonoridade que empresta ao filme.
"O músico português, que vive nos Estados Unidos, já foi premiado pela banda sonora de «Amália - O Filme», de Carlos Coelho da Silva, para a qual compôs vinte temas orquestrais interpretados pela Filarmónica de Budapeste. Este ano, recebeu nos USA, o prémio na   categoria de compositor revelação, onde além de Nuno Malo, estavam também nomeados os Daft Punk, Óscar Araujo, Arnau Bataller e Herbert Gronemeyer.
Nuno Malo nasceu na Madeira em 1977, estudou composição para cinema em Los Angeles e é autor de várias bandas sonoras de filmes lusos, entre os quais «Assalto ao Santa Maria», de Francisco Manso, «Contraluz», de Fernando Fragata, «O Julgamento» e «A Arte de Roubar», ambos de Leonel Vieira, «Filme da Treta», de José Sacramento, e «A Mulher Polícia», de Joaquim Sapinho. «A Profecia Celestina» (2006), de Armando Mastroianni, e «The Lost and Found Family» (2009), de Barnet Bain, foram produções internacionais para as quais compôs a música original. Já tinha sido antes distinguido pelo seu trabalho, com o Prémio de Composição Henry Purcell."

Portugal  (re)descobre-se na gente que o coloca na gávea do futuro . 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Aniversário de Miguel Torga


Terra , minha medida!
Com que ternura te encontro
Sempre inteira nos sentidos!
Sempre redonda nos olhos,
sempre a cheirar a fermento!
Terra amada!
Em qualquer sítio e momento,
enrugada ou descampada,
Nunca te desconheci!
Berço do meu sofrimento,
Cabes em mim, e eu em ti.
                           Miguel Torga, in " Diário XI"

Miguel Torga, pseudónimo de  Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de Agosto de 1907 em S. Martinho de Anta e faleceu em Coimbra, a 17 de Janeiro de 1995.  Assina uma extensa e notável obra com este nome literário  porque torga é a urze, planta humilde, brava e ignota do reino vegetal , que nasce livre e espontânea na agrura das terras, mas predominantemente  nas serras nortenhas, tal como ele , homem transmontano.
“ Inicialmente, ainda com o nome de Adolfo Rocha, Miguel Torga fez parte do grupo da Presença. Dirigiu, depois, com Branquinho da Fonseca, a revista Sinal (1930) e, mais tarde, a revista Manifesto. Mas , com a independência quase agressiva do seu temperamento, cedo se colocou à margem de todos os clãs literários. A sua posição, nas nossas letras, continua a ser a de um grande isolado - que , no entanto ( ou por isso mesmo), consubstancia e representa, da forma mais directa ou através de inevitáveis símbolos , quanto há de viril, vertical, insubornável , no homem português”(1)
“Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós” -,escreveu Miguel Torga.
Hoje, dia em que se deve comemorar o  aniversário deste grande poeta, revisitamos o seu Diário e destacamos o que registou no dia em que atingiu os sessenta anos.
"Miramar, 12 de Agosto de 1967 – Sessenta anos. Felizmente que ninguém deu pela conta, e pude calmamente, secretamente, meditar na significação deste dia crucial. Até há pouco, ia contando. Trinta, quarenta, cinquenta… Não era a juventude , evidentemente, mas havia ainda pano para mangas. Mais vinte , mais quinze…Tempo de sobra, enfim. Agora é que toda a ilusão se desvaneceu. Nem quarteirão, nem dúzia. Inexorável, a razão apenas me promete a decadência e o desenlace, no molho amargo de que tudo está feito e por fazer. É essa, de resto, a grande lição de humildade que a vida nos dá , se a esclerose não lavrou de mais e consente ao espírito o resgate duma lúcida contrição. Vamos seguindo confiados pela estrada fora. De repente, olhamos para trás , e que terramoto de ilusões! O que parecia grande mede um palmo, o que julgávamos sólido abana, o que dava a impressão de voar, patinha. Incrédulos, esfregamos os olhos. Mas não há dúvida. Desacertos sobre desacertos, erros palmares, ingenuidades confrangedoras. O saco de viagem abarrotado de falências. E de nada vale perguntar se as coisas se poderiam passar de outra maneira. Os factos são irreversíveis. No meu caso, então, só por milagre. Comecei mal e tarde. Enquanto outros partiram do saber, eu parti do sofrimento. Nenhuma porta se me abriu sem eu a arrombar. Lutei contra a pobreza, lutei contra a ignorância , lutei contra a idade, lutei contra os homens, lutei contra Deus, lutei contra mim. Uma infância rolada, de bola à mercê dos pontapés do mundo, uma juventude esfalfada, de estafeta atrasado na maratona da cultura , uma maturidade crispada, de indesejável na pátria. A criança desaninhada e perplexa nas encruzilhadas do destino, o rapaz a tentar a ferro e fogo fazer-se gente , o homem cercado de incompreensões. De maneira que era praticamente impossível que a árvore desse outros frutos. Tudo se conjugou nela e fora dela para um Outono sáfaro, que verifico nesta singeleza despida de ilusões. E triste , mas não há voltas a dar-lhe. Resta-me apenas uma consolação: embora derrotado, consegui chegar ao fim da aventura na pureza com que a iniciei, e remir pela consciência dum velho poeta a sangrar a inocência dum jovem poeta de versos de pé quebrado."
Miguel Torga, in “ Diário X “, Círculo de Leitores
(1) in “ Dicionário de Literatura, Direcção de Jacinto Prado Coelho, 4º volume, Editora Figueirinhas /Porto, 1987

terça-feira, 26 de julho de 2011

Exposição de fotografia sobre Miguel Torga

"Uma exposição de fotografia sobre Miguel Torga, a partir de imagens captadas nos anos de 1990, é inaugurada quarta-feira em Coimbra pelo fotojornalista Carlos Jorge Monteiro (Cajó), com a participação de António Arnaut, advogado e estudioso do escritor.
A mostra reúne imagens da entrega de dois prémios ao escritor em 1992 e ainda de uma distinção feita em sua casa pelo então presidente da Caixa Geral de Depósitos, Rui Vilar, quando já eram evidentes os sinais avançados da doença que o iria vitimar a 17 de Janeiro de 1995.
As fotografias recordam a atribuição do prémio Vida Literária, entregue em Março de 1992, em Lisboa, pela Associação Portuguesa de Escritores, e o Prémio Écureuil de Literatura Estrangeira do Salão do Livro de Bordéus, França, entregue na Câmara Municipal de Coimbra, em Setembro do mesmo ano.
Nessas homenagens a Torga, segundo o autor, conhecido nos meios jornalísticos por Cajó, aparecem também retratados, entre outros, o escritor brasileiro Jorge Amado, a poetisa portuguesa Natália Correia, o antigo Presidente da República Mário Soares e o ex-secretário de Estado da Cultura Pedro Santana Lopes.
A exposição ficará patente até 27 de Agosto no Espaço de Arte do Recordatório Rainha Santa Isabel/Alfredo Bastos, em Santa Clara, Coimbra, e a sua inauguração contará com uma intervenção do advogado António Arnaut.
António Arnaut revelou à agência Lusa que na sua intervenção na abertura da exposição irá abordar a faceta cívica de Miguel Torga.
O orador destacou que a inauguração acontece no dia 27 de Julho, data do casamento do escritor com a professora universitária Andrée Crabée Rocha, em 1940, e que ainda se manterá patente na data do seu nascimento, 12 de agosto (1907).
A exposição de fotografia sobre Miguel Torga é comissariada pelo pintor surrealista Santiago Ribeiro." in Jornal I


Quase um Poema de Amor
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga, in 'Diário V'

sexta-feira, 18 de março de 2011

A História repete-se?

A escrita de Miguel Torga acompanhar-me-á  enquanto viver. A sua produção literária é de uma riqueza tão grande que nunca cessa de  nos espantar, surgindo excelentemente actual e fascinante. Quer seja em prosa, quer seja em verso, Miguel Torga deixou-nos um legado que jamais nos deixará de surpreender.
Hoje, reabrindo um dos volumes do seu Diário, deparei-me com o que ele escreveu em 18 de Março de 1952, ou seja, há 59 anos. As palavras, as frases conjugavam-se num postulado que  mais parecia ter sido escrito neste mesmo dia de 2011. E se Miguel Torga assim o escreveu, não há dúvida de que a História se repete.
Atente-se, pois, no que ele registou em " Coimbra, 18 de Março de 1952 - A erosão do tempo! Durar é , na verdade, a única arma certeira do político. Quem é que poderá resistir ao desgaste duma realidade inexorável, que insiste, persiste, se prolonga e não dá esperanças de demissão?  Quase  ninguém. Olha -se, e é como um cemitério. Para os rarissimos heróis resta apenas uma saída: durar também. Opor  uma força activa de obstinação à persistente longevidade opressora. E acabará por vencer o que tiver mais fôlego."

Miguel Torga,  " Diário VI" , in Obra Completa , Círculo de Leitores