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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Convite


Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade
o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma
nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo de um braço
nesta fase em que o amor é não ler os jornais
podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam pombas -
podes vir e sentar-te e falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz
porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores.
Egito Gonçalves, in «366 Poemas que Falam de Amor", antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Mapa do Tesouro

Este livro, “ O Mapa do Tesouro” de Egito Gonçalves, é todo ele uma obra de arte, desde a impressionante harmonia gráfica e o desenho de David de Almeida aos notáveis poemas em prosa de Egito Gonçalves, belíssimos pela originalidade imagética, pelo tratamento subtil dos temas do amor e da viagem, da descoberta do outro. Egito nunca exprimiu com tanta força e novidade o encantamento amoroso, o olhar dos amantes na mesma direcção, a figura da mulher como guia e como luz no percurso da existência.
A vitória do amor sobre a morte, o achamento desse estado de suprema euforia, di-lo Egito Gonçalves em muitos destes poemas e especialmente no que concretamente se refere à «ilha do tesouro». «A Solidão é uma paisagem árida, uma perdida ilha rochosa, onde cada um de nós é um país secreto no fundo do horizonte. O mapa do tesouro é o encontro com o outro, a descarga entre pólos que revela uma nova paisagem cujos elementos dispomos ao longo dos dias nesse jogo de olhares que pode fazer nascer flores carnívoras ou campinas suaves sobrevoadas pelo canto dos pássaros azuis. Só então sabemos como deter o inexorável.» Recensão de Urbano Tavares Rodrigues, in " Rol de Livros, Leitura Gulbenkian", 1998



”Beijo não é palavra  de  poema. É o  raiar da  madrugada, o  anúncio de  um dia longo, o final da tensão que ameaçava partir a corda: podemos escolher imagens, comparações, fazer literatura. Será sempre outra coisa, meu amor, o beijo do poema. É como o branco que dizem ser a fusão de todas as cores. Não se retira um beijo do poema, este é apenas a fotografia de alguns pormenores. Um beijo é o corpo que antes não existia e ali nasce, uma nova estrutura óssea que suporta um pulsar único, um aposento onde o esplendor apaga todas as lágrimas que conseguiram viver até chegar ali."

"As palavras são mágicas, sobretudo quando se proferem para afirmar o amor. A primeira vez que o fizeste, atravessaste a rua sob a chuva, pensando que eu ficaria no lugar, preso à música da afirmação. Enquanto entravas no carro, ligavas o motor e arrancavas, eu saí do meu corpo para te seguir. Passeámos de mãos dadas na orla de uma floresta de castanheiros, olhando os ouriços maduros e dourados por cima dos quais voavam aves que no momento não nos preocupámos em identificar."
«Os meus dedos percorriam os teus, falange, falanginha, falangeta, como se interrogasse as pétalas de um afirmativo malmequer. Para lá dos vidros, o som das nossas vozes apagava-se, marulhava nos nossos ouvidos como um oceano secreto contido numa concha. Outubro era um teclado, uma página aberta, um arbusto de veias».

"Entre o teu sono e o meu há um estreito corredor que ao olhar dos outros se apresenta como um simples espelho. Atravesso-o para encontrar os lábios que no sono me procuram, realizando-me como sombra amável que se transfigura no clima lunar de uma paixão que soube evitar os violentos tremores de terra. O sono é um país enevoado onde nos insinuamos, fingindo ser fantasmas, pássaros invisíveis, pelo prazer de criar um jogo no qual a meia-noite figura como simples referência de um beijo que une os dois seres que na noite profunda dormem um para o outro."

“Uma declaração de amor não é acontecimento de domínio público, uma baleia que vara na praia sob o sol dos desastres e convoca multidões, desalinhando hábitos quotidianos; uma declaração de amor é um acto de grande intimidade que ergue um véu transparente de onde brotam mel e pássaros azuis. As palavras directas ou indirectas, ditas ou escritas, suscitam a carícia única, irrepetível, a leve percussão que desenha no silêncio a imagem do que se ama. E assim terá de se guardar. Num lugar seguro onde os sismos não possam encontrar o mapa do tesouro.”
Egito Gonçalves, in “ O Mapa do Tesouro”, Editora Campo das Letras, 1998 , Colecção “O Aprendiz de Feiticeiro”