quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Eventos e Novidades Literárias em Dezembro

Casa da América Latina
De 30 novembro a 8 dezembro 2024 decorrerá mais uma edição da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, este ano tendo como país Convidado de Honra a Espanha.
Do vastíssimo programa que ocupará os 9 dias de realização da FIL destacamos a cerimónia de entrega do Prémio FIL de Literaturas em Línguas Românicas ao amplamente reconhecido escritor moçambicano Mia Couto. Nos mais de 30 anos da sua existência, é a quarta vez que o Prémio FIL é atribuído a um escritor de língua portuguesa, depois de Nélida Piñón (1995), António Lobo Antunes (2008) e Lídia Jorge (2020). Este Prémio, no valor de 150 mil dólares, é o mais importante dos galardões atribuídos anualmente pela FIL, uns em colaboração com outras instituições mexicanas ou internacionais, como é o caso da Homenagem ArpaFIL (reconhecimento anual dado a um arquitecto “cuja trajetória profissional tenha contribuído para o engrandecimento artístico do património mundial”), outros por sua única iniciativa como é o caso do Prémio Sor Juana Inés de la Cruz (atribuído ao trabalho de uma escritora no último ano), ou o Prémio de Mérito Editorial (que premeia a visão e o ofício de uma figura fundamental no mundo dos livros).
O programa compreende atividades no âmbito da Literatura (FIL Literatura), da Ciência (FIL Ciência)), uma programação dedicada aos mais novos, a FIL Jovem e a FIL Ninõs, outra dedicada exclusivamente à América Latina (Latinoamérica Viva ) e a FIL Pensamento trabalhada em conjunto com a Universidade de Guadalajara. No âmbito da celebração do vigésimo quinto aniversário em 2011, a FIL Guadalajara lançou o programa “Os 25 segredos mais bem guardados da América Latina”, cujo sucesso, tanto entre o público em geral como entre os profissionais do livro, deu origem ao Latinoamérica Viva. A edição de 2024 do programa Latinoamérica Viva contará com a participação de quinze autores de destaque de nove países, que participarão em cinco mesas redondas.
Outras atividades paralelas, festejando o país Convidado de Honra, como o ForoFIL (9 noites de música ao vivo) ou a FILCine com uma programação de cinema, são realizadas durante a FIL. Para além destas atividades a FIL promove, durante o período em que dura o certame e mesmo ultrapassando-a no tempo, exposições de Artes Visuais e representações teatrais ou de bailado.
A FIL de Guadalajara, reconhecida como a segunda maior feira do livro do mundo, acolhe cerca de 100.000 visitantes diariamente (em 2023 foram 857.315) entre público em geral e profissionais do Livro (100 editoras participaram no Centro de Direitos de Autor, em 2023).
Manuela Júdice,
Secretária-Geral da Casa da América Latina em Lisboa – Portugal.

Programa Latinoamérica Viva
A edição de 2024 do programa Latinoamérica Viva contará com a participação de quinze autores de destaque de nove países, que participarão em cinco mesas redondas.
A literatura da América Latina não está unida apenas pelas línguas românicas, mas também pela diversidade de temas e géneros de onde emanam nomes essenciais para a literatura universal. De Gabriel García Márquez a Jorge Luis Borges, sem esquecer Gabriela Mistral ou Mario Vargas Llosa, esta região continua a gerar uma literatura prodigiosa. No programa América Latina Viva da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, isso será evidente com cinco mesas de diálogo, nas quais participarão quinze escritores destacados da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Uruguai e Venezuela. Esta edição decorrerá de segunda-feira, 2 de dezembro, a sexta-feira, 6 de dezembro.
O primeiro painel será realizado na segunda-feira, 2 de dezembro, e reunirá três vozes marcantes da literatura latino-americana contemporânea. As escritoras Magalí Etchebarne (Argentina), Daniela Catrileo (Chile) e Isabel Zapata (México) irão discutir as suas obras e abordar temas como a identidade e o feminismo, bem como as suas perspetivas e experiências criativas. Por sua vez, Legna Rodríguez Iglesias (Cuba), Héctor Abad Faciolince (Colômbia) e Virginia Mórtola (Uruguai) partilharão as suas reflexões sobre a literatura na América Latina, as suas influências e a sua ligação com a realidade social dos seus países, na segunda sessão que terá lugar na terça-feira, 3 de dezembro.
Juan Álvarez (Colômbia), María Fernanda Ampuero (Equador) e Óscar Contardo (Chile) serão os encarregados de dar vida ao terceiro dia deste encontro, que terá lugar na quarta-feira, 4 de Dezembro, e no qual, entre outros temas, cada um abordará as preocupações que atravessam as suas respetivas obras. A quarta mesa será realizada na quinta-feira, 5 de dezembro, com a presença de Santiago Wills (Colômbia), Magela Baudoin (Venezuela) e Djamila Ribeiro (Brasil). Os participantes, através das suas experiências enquanto autores e ativistas, irão discutir a intersecção entre a literatura e aspectos sociais, como as questões de género, os direitos humanos e a equidade racial.
A última sessão do Latinoamérica Viva estará a cargo das autoras Lucrecia Zappi (Brasil) e Tamara Silva Bernaschina (Uruguai), que serão acompanhadas pelo escritor Carlos Aletto (Argentina), que partilharão as suas perspetivas sobre a narrativa contemporânea. Esta conversa, que terá lugar na sexta-feira, dia 6 de dezembro, será uma excelente oportunidade para descobrir o trabalho de três visões com estilos e trajetórias muito diferentes.
No âmbito da celebração do seu vigésimo quinto aniversário em 2011, a FIL Guadalajara lançou o programa “Os 25 segredos mais bem guardados da América Latina”, cujo sucesso, tanto entre o público em geral como entre os profissionais do livro, deu origem ao Latinoamérica Viva. A décima segunda edição deste encontro é organizada pela FIL Guadalajara com o apoio das editoras Páginas de Espuma, Almadía, Editora Lugar Común-Alliteration e Mandacarú Editorial, bem como dos ministérios das Culturas, Artes e Património do Governo do Chile, AC/E, Educação e Cultura do Uruguai, Culturas, Artes e Conhecimento da Colômbia, Negócios Estrangeiros, Comércio Internacional e Culto da República Argentina e da Universidade de Oregon.
Latinoamérica Viva
De segunda-feira, 2 de dezembro, a sexta-feira, 6 de dezembro
18h00 às 18h50
Expo Guadalajara
Toda a informação no site oficial https://www.fil.com.mx/info/info_fil.asp

“Levam tudo, e estragam tudo”
As mulheres da Ria não querem mais do que proteger o ecossistema em que vivem, na Culatra, e assegurar a sobrevivência da família. Conheça este projeto de participação cívica para a ação climática
Vivem na ilha da Culatra, do outro lado da Ria Formosa, entre Olhão e o oceano Atlântico, cerca de mil pessoas. A comunidade, com 200 anos, depende a 90% da pesca e de atividades ligadas ao mar.
Madalena conhece cada centímetro daquela ilha. Boa conversadora, chama cada banco de areia pelo nome – nomes que não vêm nos mapas, mas que se têm perpetuado, passando de geração em geração. Mariscadora, casada com um pescador, como grande parte dos casais culatrenses, sente diariamente a pressão das 4 000 pessoas que, no verão, “invadem” a ilha, das dezenas de barcos que lá se instalam, com as suas quilhas e âncoras a destruírem as pradarias marinhas daquele ecossistema tão sensível. Vê as formas desregradas como pescadores de outras águas vêm apanhar marisco de arrasto e não se conforma ao ver o seu sustento em risco de desaparecer.
A mariscadora bem pode protestar e lamentar-se, mas a sua voz nem sempre é ouvida. E é aqui que entra Valentina e a Sciaena, Associação de Ciências Marinhas e Cooperação. Apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, esta associação montou o projeto Mulheres da Ria para dar voz aos culatrenses e ajudá-los a criar instâncias formais e informais de troca de informação e de participação comunitária. Tem como objetivos finais criar uma proposta de zona de proteção de área marinha de iniciativa comunitária, respetivo plano de gestão, e implementar um projeto piloto de proteção das pradarias marinhas, que são importantes sumidouros de carbono azul e contribuem ativamente para a promoção do equilíbrio ambiental nos ecossistemas costeiros.
Em paralelo, e porque reconhece a importância destas mulheres como pilares da comunidade, como as primeiras protetoras do ambiente local, “porque são mães”, a Sciaena visa “não apenas proteger o meio, mas também fortalecer a coesão social, capacitando-as e contribuindo para o desenvolvimento comunitário sustentável que respeita e valoriza os seus conhecimentos únicos, promovendo uma abordagem integrada que vai para lá da ação climática.”
Neste projeto, a Sciaena conta com vários parceiros: a Associação de Moradores da Ilha da Culatra, o Centro de Ciências do Mar (CCMAR), a Câmara Municipal de Faro e o OCEAN ALIVE – Cooperativa para a educação criativa marinha CRL.

Salavisa European Dance Award
Dois artistas inovadores são os vencedores do Salavisa European Dance Award 2024
Dorothée Munyaneza e Idio Chichava são os dois distinguidos na primeira edição deste prémio de dança. Ao longo de 2025 apresentarão as suas obras em vários palcos europeus
Os cinco finalistas, diversos em interesses, geografias e perfis, já eram, para o júri, “exemplos de compromisso e excelência”. Mas de entre os cinco, Dorothée Munyaneza e Idio Chichava destacaram-se “pelas suas abordagens artísticas particularmente bem-sucedidas nos seus trabalhos recentes, bem como pela profunda ligação que mantêm com os seus contextos artísticos, comunidades e colaboradores.” Tanto as obras de Dorothée como as de Idio “estão enraizadas não apenas em interesses artísticos pessoais, mas também numa compreensão complexa do mundo que os rodeia e do papel crucial que a dança pode desempenhar em discussões sociais mais amplas.”
Dorothée Munyaneza é uma artista multifacetada. Cantora, música, bailarina, atriz, escritora e coreografa, recusa fronteiras, utilizando a música, o canto, o texto e o movimento para abordar a rutura como força dinâmica e criar espaços de ressonância e esperança. Nascida no Ruanda, estudou música e ciências sociais em Londres, após o que se mudou para Paris, onde trabalhou com vários coreógrafos. Em 2013, criou a sua própria companhia, Kadidi. Para o júri, Dorothée aborda onde mais dói, “articulando história, trauma, mas também amor e esperança, com uma profunda compreensão do corpo e do seu potencial para contar histórias e criar espaços emocionais.”
Idio Chichava é bailarino, coreógrafo e diretor artístico da companhia de dança Converge+, em Moçambique, para onde regressou depois de uma carreira de sucesso em frança. No seu país natal, tem promovido o ensino gratuito da dança, junto das comunidades locais, e investido em produções multidisciplinares e criações colaborativas onde cada um tem espaço para explorar o seu mundo interior. Para o júri, o trabalho de Ídio “é uma afirmação poderosa da energia coletiva e do desejo de criar e coexistir.”
Dorothée e Ídio são os dois primeiros vencedores do Salavisa European Dance Award, prémio criado em 2023 pela Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com outras seis instituições artísticas europeias – ImPulsTanz – Vienna International Dance Festival (Áustria), KVS (Bélgica), Dansehallerne (Dinamarca), Maison de la Danse/Biennale de la Danse (França), Joint Adventures (Alemanha), e Sadler’s Wells (Reino Unido) – com o objetivo de distinguir artistas de todo o mundo que demonstrem talento ou qualidades especiais que mereçam ser mais conhecidos para além das suas fronteiras nacionais.
Selecionados por três especialistas independentes – Mette Ingvartsen, Nayse López e Fu Kuen Tang –, os vencedores partilharão o prémio de 150.000€ e terão a oportunidade de apresentar o seu trabalho nos palcos de seis instituições culturais parceiras.
Song of the Land, de Chikako Yamashiro
Chikako Yamashiro (n.1976) apresenta Song of the Land [Canção da Terra], composta por duas peças distintas, que explora o entrelaçamento das memórias corporais com questões sociais e políticas específicas da história e das mitologias das ilhas de Okinawa, no Japão.
Mud Man (2016) [Homem de Lama] é uma instalação vídeo que tem como cenário a ilha de Okinawa (Japão) e as ilhas de Jeju (Coreia do Sul), locais onde a presença do exército dos Estados Unidos é alvo de grande controvérsia.
Apresentado pela primeira vez na Europa na sua versão original com 3 canais, o filme conta a história de uma comunidade que é confrontada com excrementos de pássaros que se assemelham a pedaços de lama que caem do céu.
Estes excrementos despertam as pessoas que estavam meio-adormecidas, as quais começam a apanhar os pedaços de lama para ouvir as vozes que emanam do seu interior e lhes falam de história e património, da natureza e de outras comunidades.
Abordando as camadas de memória histórica contidas num determinado território, esta obra debruça-se sobre a complexa construção da identidade enquanto comunidade, no que respeita à autonomia e à agência.
Em Seaweed Woman (2008) (Mulher-Alga], Yamashiro imagina-se como criatura mitológica do mar para personificar o corpo político de Okinawa.
Flutuando no oceano, coberta de algas marinhas que escondem e revelam partes do seu corpo, esta obra imersiva, composta por fotografias e vídeo projetados, mergulha o espetador num mundo místico, apresentando a muito contestada relocalização da base militar americana a partir de uma perspetiva subaquática.
Yamashiro seleciona elementos visuais ambíguos e fragmentados que convidam a múltiplas leituras. Canalizando as memórias e os conflitos de outros através do seu próprio corpo, a artista procura fomentar o discurso sobre a história de Okinawa, do Japão e de toda a Ásia Oriental.
Engawa – Temporada de arte contemporânea japonesa
Engawa é uma programação que traz a Lisboa um conjunto de criadores do Japão e da diáspora japonesa, muitos dos quais pela primeira vez em Portugal. Saber mais
29 nov 2024 – 13 jan 2025
Local
Espaço ProjetoCentro de Arte Moderna Gulbenkian
Preço
Entrada gratuita
Mediante levantamento de bilhete no próprio dia

Prix Goncourt
À l’ombre des jeunes filles en fleurs, La Condition humaine, Les Mandarins, Le Roi des Aulnes, Rue des boutiques obscures, et, dernièrement, Rouge Brésil, Les Bienveillantes, Trois femmes puissantes, L’Art français de la guerre, Chanson douce… le prix Goncourt a récompensé depuis sa création en 1903 quarante romans parus à l’enseigne de la NRF.


Kamel Daoud
Houris
« Je suis la véritable trace, le plus solide des indices attestant de tout ce que nous avons vécu en dix ans en Algérie. Je cache l’histoire d’une guerre entière, inscrite sur ma peau depuis que je suis enfant. »
Aube est une jeune Algérienne qui doit se souvenir de la guerre d’indépendance, qu’elle n’a pas vécue, et oublier la guerre civile des années 1990, qu’elle a elle-même traversée. Sa tragédie est marquée sur son corps : une cicatrice au cou et des cordes vocales détruites. Muette, elle...
La Revue NRF
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Seja bem-vindo…
… ao guia de presentes da Guerra e Paz.

Aqui, vai encontrar os livros mais arrojados, graficamente elegantes e, por vezes, provocatórios do mercado editorial português. Entre edições exclusivas de luxo e limitadas, vai encontrar o presente ideal para colocar debaixo da árvore.Celebramos a ficção, a não-ficção e a poesia nesta seleção feita a pensar em si, devorador de livros.
Cabaz de NATAL -  
Sugestões de Natal


Relógio D'Água Editores
Planeamento Edirorial:
Novembro
— Atos de Desespero, de Megan Nolan
— Desfile, de Rachel Cusk
— My Friends, de Hisham Matar (Vencedor Prémio Orwell na categoria de ficção política, Longlist Booker Prize 2024 e Longlist National Book Award 2024)
— Songlight, de Moira Buffini (1.º volume de The Torch Trilogy)
— Duna III (Romance Gráfico), de Frank Herbert, adaptado por Brian Herbert e Kevin J. Anderson
— Franny e Zooey, de J. D. Salinger
— Investigações Filosóficas, de Ludwig Wittgenstein
— Macbeth, de William Shakespeare (Projecto Shakespeare)
— Como o Grincho Perdeu o Natal, de Dr. Seuss
— Desaparecida, de Maria Stepánova
— MARTYR!, de Kaveh Akbar (Longlist National Book Award 2024)

Dezembro
— Kairos, de Jenny Erpenbeck (Vencedor International Booker Prize 2024)
— Reading Genesis, de Marilynne Robinson
— Heretics of Dune (5.º volume da série Duna), de Frank Herbert
— The Carnation Revolution: The Day Portugal’s Dictatorship Fell, de Alex Fernandes
— Conversas entre Amigos, de Sally Rooney
— O Estranho Desaparecimento de Esme Lennox, de Maggie O’Farrell
— Os Emigrantes, de W. G. Sebald.

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Lettre-Pleiade-2024

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Quando os caminhos se encontram

Em Sami Yusuf (Cantor, Maestro e Compositor), todos os caminhos se encontram. Eis  a  maior razão para continuarmos a ouvi-lo , em When Paths Meet ( Vol.2 ). Acompanham-no The  Sami Yusuf Ensemble  , a Scoring Orchestra of Paris, The Métaboles,  solistas e músicos especializados, numa colaboração impressionante.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

O Dicionário

O Dicionário
por Machado de Assis
"Era uma vez um tanoeiro, demagogo, chamado Bernardino, o qual em cosmografia professava a opinião de que este mundo é um imenso tonel de marmelada, e em política pedia o trono para a multidão. Com o fim de a pôr ali, pegou um pau, concitou os ânimos e deitou abaixo o rei; mas, entrando no paço, vencedor e aclamado, viu que o trono só dava para uma pessoa, e cortou a dificuldade sentando-se em cima.
– Em mim, bradou ele, poderia ver a multidão coroada. Eu sou vós, vós sois eu.
O primeiro ato do novo rei foi abolir a tanoaria, indemnizando os tanoeiros, prestes a derrubá-lo, com o título de Magníficos. O segundo foi declarar que, para maior lustre da pessoa e do cargo, passava a chamar-se, em vez de Bernardino, Bernardão. Particularmente encomendou uma genealogia a um grande doutor dessas matérias, que em pouco mais de uma hora o entroncou a um tal ou qual general romano do século IV, Bernardus Tanoarius; - nome que deu lugar à controvérsia, que ainda dura, querendo uns que o rei Bernardão tivesse sido tanoeiro, e outros que isto não passe de uma confusão deplorável com o nome do fundador da família. Já vimos que esta segunda opinião é a única verdadeira.
Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardão que todos os seus súditos fossem igualmente calvos, ou por natureza ou por navalha, e fundou esse ato numa razão de ordem política, a saber, que a unidade moral do Estado pedia a conformidade exterior das cabeças. Outro ato em que revelou igual sabedoria, foi o que ordenou que todos os sapatos de pé esquerdo tivessem um pequeno talho no lugar correspondente ao dedo mínimo, dando assim aos seus súbditos o ensejo de se parecerem com ele, que padecia de um calo. O uso dos óculos em todo o reino não se explica de outro modo, sendo por uma oftalmia a que afligiu a Bernardão, logo no segundo ano de reinado. A doença levou-lhe um olho, e foi aqui que se revelou a vocação poética de Bernardão, porque, tendo-lhe dito um de seus dois ministros, chamado Alfa, que a perda de um olho o fazia igual a Aníbal, - comparação que o lisonjeou muito, - o segundo ministro, Ômega, deu um passo adiante, e achou-o superior a Homero, que perdera ambos os olhos. Esta cortesia foi uma revelação; e como isto prende com o casamento, vamos ao casamento.
Tratava-se, em verdade, de assegurar a dinastia dos Tanoarius. Não faltavam noivas ao novo rei, mas nenhuma lhe agradou tanto como a moça Estrelada, bela, rica e ilustre. Esta senhora, que cultivava a música e a poesia, era requestada por alguns cavalheiros, e mostrava-se fiel à dinastia decaída. Bernardão ofereceu-lhe as coisas mais sumptuosas e raras, e, por outro lado, a família bradava-lhe que uma coroa na cabeça valia mais que uma saudade no coração; que não fizesse a desgraça dos seus, quando o ilustre Bernardão lhe acenava com o principado; que os tronos não andavam a rodo, e mais isto, e mais aquilo. Estrelada, porém, resistia à sedução.
Não resistiu muito tempo, mas também não cedeu tudo. Como entre os seus candidatos preferia secretamente um poeta, declarou que estava pronta a casar, mas seria com que fizesse o melhor madrigal, em concurso. Bernardão aceitou a cláusula, louco de amor e confiando em si: tinha mais um olho que Homero, e fizera a unidade dos pés e das cabeças.
Concorreram ao certame. Que foi anónimo e secreto, vinte pessoas. Um dos madrigais foi julgado superior aos outros todos: era justamente o do poeta amado. Bernardão anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro; mas então, por uma inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que não se empregassem palavras que tivessem menos de trezentos anos de idade. Nenhum dos concorrentes estudara os clássicos: era o meio provável de os vencer.
Não venceu ainda assim, porque o poeta amado leu à pressa o que pode, e o seu madrigal foi outra vez o melhor. Bernardão anulou esse segundo concurso; e, vendo que no madrigal vencedor as locuções antigas deram singular graça aos versos, decretou que só se empregassem as modernas e particularmente as da moda. Terceiro concurso, a terceira vitória do poeta amado.
Bernardão, furioso, abriu-se com os dois ministros, pedindo-lhes um remédio pronto e enérgico, porque, se não ganhasse a mão de Estrelada, mandaria cortar trezentas mil cabeças. Os dois, tendo consultado algum tempo, voltaram com este alvitre:
- Nós, Alfa e ômega, estamos designados pelos nossos nomes para as coisas que respeitam à linguagem. A nossa ideia é que Vossa Sublimidade mande recolher todos os dicionários e nos encarregue de compor um vocabulário novo que lhe dará a vitória.
Barnardão assim fez, e os dois meteram-se em casa durante três meses, findo os quais depositaram nas augustas mãos a obra acabada, um livro a que chamaram Dicionário de Babel, porque era realmente a confusão das letras. Nenhuma locução se parecia com a do idioma falado; as consoantes trepavam nas consoantes, as vogais diluíam-se nas vogais, palavras de duas sílabas tinham agora sete e oito, e vice-versa, tudo trocado, misturado, nenhuma energia, nenhuma graça, uma língua de cacos e trapos.
- Obrigue Vossa Sublimidade esta língua por decreto, e tudo está feito.
Bernardão concedeu um abraço e uma pensão a ambos, decretou o vocabulário, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo para obter a mão da bela Estrelada. A confusão passou do dicionário aos espíritos; toda a gente andava atônita. Os farsolas cumprimentavam-se na rua pelas novas locuções: diziam, por exemplo, em vez de: 'Bom dia, como passou?' - 'Pflerrgpxx, rouph, aa?' A própria dama, temendo que o poeta amado perdesse afinal a campanha, propôs-lhe que fugissem; ele, porém, respondeu que ia ver primeiro se podia fazer alguma coisa. Deram noventa dias para o novo concurso e recolheram-se vinte madrigais. O melhor deles, apesar da língua bárbara, foi o do poeta amado. Bernardão, alucinado, mandou cortar as mãos aos dois ministros, e foi a única vingança. Estrelada era tão admiravelmente bela, que ele não se atreveu a magoá-la, e cedeu.
Desgostoso, encerrou-se oito dias na biblioteca, lendo, passeando ou meditando. Parece que a última coisa que leu foi uma sátira do poeta Garção, e especialmente estes versos, que pareciam feitos de encomenda:
   O raro Apeles,
Rubens e Rafael, inimitáveis,
Não se fizeram pela cor das tintas;
A mistura elegante os fez eternos."
Machado de Assis, in Páginas recolhidas, Rio de Janeiro: W.M. Jackson Inc. Editores, 1952, pp. 27-32
Sobre o Autor:
"MACHADO DE ASSIS (Joaquim Maria Machado de Assis) nasceu no Rio de Janeiro a 21 de junho de 1839; aí faleceu a 29 de novembro de 1902. Autodidata, tornou-se o mais importante escritor brasileiro, e um dos maiores da língua portuguesa.
O lugar especial reservado a Machado de Assis na literatura brasileira justifica-se plenamente pela obra ficcional que escreveu; mencione-se Memórias póstumas de Brás Cubas, romance que marca a maturidade do escritor. Escreveu entre outros romances de grande importância, Dom Casmurro, obra que ainda hoje é lida e discutida nos meios literários e nos meios escolares
Para José Verissimo, Machado de Assis foi “a mais eminente figura de nossa literatura”; para Carlos Fuentes, Machado de Assis e o argentino Jorge Luis Borges são os dois grandes nomes da literatura da América Latina; em suas palavras: “Borges foi o primeiro narrador de língua espanhola nas Américas (Machado de Assis já o havia conseguido, milagrosamente, na língua portuguesa do Brasil)”, enfatiza Fuentes, um dos mais importantes escritores latino-americanos.
Machado também foi mestre no conto, como bem realça o Professor Sergius Gonzaga: “Mestre inquestionável do género, Machado de Assis experimentou as diferentes possibilidades de construção do relato curto (...) o conto tradicional, também conhecido como anedótico, o conto moderno e o conto de caracteres (...)”.

domingo, 1 de dezembro de 2024

Ao Domingo Há Música

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
           Álvaro de Campos, Poemas

Há sempre quem possa escrever uma outra história.  Há quem tente e a represente de um modo diverso , inclusivo.
A Música é, por excelência, o palco onde todos se erguem , onde todos se representam, onde todos têm lugar, onde todos contam.

Sami Yusuf , em  L’Amour Vivant | When Paths Meet (Vol. 2).
 
"Sami Yusuf é um cantor, compositor, multi-instrumentista e compositor britânico de ascendência azerbaijana. O domínio das linguagens musicais do compositor Sami Yusuf deslumbra em ‘L’Amour Vivant’. O andamento inicial desenvolve-se na intrincada geometria do estilo barroco, forma que ficou impressa na alma do compositor durante a sua formação em Londres e que continua a ser uma inspiração acarinhada. Desde o início que ouvimos o encontro subtil de caminhos musicais no ritmo baladi árabe que fundamenta a graciosa melodia. A transição para o segundo andamento transporta os ouvintes para o coração de outra herança musical de Sami Yusuf, mergulhando-os no mundo do Azerbaijão da Ásia Central. O terceiro andamento revisita o som barroco antes de incorporar as tonalidades ricas e os ritmos matizados do Médio Oriente e da Pérsia, fundindo-os perfeitamente numa paisagem sonora arrebatadora. Seguem-se os sons meditativos da kora da África Ocidental e os tons sensuais do erhu chinês. O andamento final funciona como uma carta de amor às tradições clássicas mundiais aqui encapsuladas, entrelaçando habilmente as inúmeras emoções vividas ao longo desta viagem sonora. ‘L’Amour Vivant’ é uma das composições de Sami Yusuf do segundo concerto da sua série ‘When Paths Meet’. Apresenta o Sami Yusuf Ensemble, a Scoring Orchestra of Paris, The Métaboles e solistas e músicos especializados numa colaboração impressionante. ‘L’Amour Vivant’ é um cruzamento de estilo clássico no que há de mais inovador. Apresentou-se na Filarmónica de Paris."

sábado, 30 de novembro de 2024

Os meus livros de Dezembro

Hoje, sugiro raridades para trocar entre amigos: antes que acabem. Obrigado por lerem esta newsletter

Os meus livros de Dezembro
Ah, e se o tamanho conta
por Manuel S. Fonseca
“O que eu gostava da Senhora Dona Agustina. Sem ela, talvez eu nunca tivesse sido editor. E é meia-mentira, porque devo à Senhora Dona Mécia, mulher de Jorge de Sena, como ela gostava de dizer, a outra metade de ser eu editor.
Mas o que eu queria dizer é que o tamanho conta e um centímetro faz cá – e lá – muita diferença. Ora, os primeiros livros que fiz com Agustina e Mécia eram quadrados perfeitos com 30 cm de largura por 30 cm de altura. São livros tão lindos que estão esgotados. E são irrepetíveis. Como os que agora apresento e que, felizmente, não estão esgotados e ainda podem oferecer este Natal.
Na imagem, à cabeça destes livros de Dezembro estão dois 30 por 30, que me trazem lembranças ternas. O Fama e Segredo na História de Portugal foi, ia jurar, o último livro que Agustina Bessa-Luís escreveu antes de ir para os grandes e etéreos salões onde deve haver bailes e bonecas como a que ela tinha, e me mostrou, tão grande e sem uma perna. Esse livro, como As Meninas, com Paula Rego, (o mais irreverente e tão picantemente provocatório ensaio sobre arte que o mundo já leu), como o Livro de Agustina, uma autobiografia em que aprendi e nunca me esqueço que «há poucos homens que saibam amar as mulheres e merecê-las», são todos encomendas minhas, muito conversadas em idas à Buenos Aires e até ao Gólgota, à casa e jardim tão bonito que Agustina cultivava no Porto.
Estes livros – o mais delirante livro sobre a história de Portugal, Fama e Segredo, aqui na versão grande e na edição de bolso, mas capa dura, as Meninas e o Livro de Agustina – foi o destino que os pôs na minha mão? E já ouço Agustina a segredar-me: «O destino não é uma fatalidade, é um conflito breve com um sonho.»
No meio da imagem dos meus livros de Dezembro está uma capa toda em ouro: foi a que eu quis dar ao Físico Prodigioso, de Jorge de Sena. Ai o tamanho! É mais de um metro de capa. Desdobra-se em quatro pastas, guardas pintadas pela Mariana Viana – o miolo também. O desdobramento da capa, diga-se, responde ao superlativo erotismo desta novela seniana. Leio O Físico e invejo-o ao vê-lo despertar com Dona Urraca a abraçar-lhe as pernas e a dizer-lhe: «És um deus, és um deus, és um deus.» Olho para esta edição de luxo e penso se não foi em Santa Bárbara, à conversa na cozinha com Mécia de Sena, que o sonho deste livro começou, e que as conversas com Isabel de Sena completaram.
De um erotismo mais directo, carnal e cama, a roçar uma ostensiva pornografia, é a poesia de Claude Le Petit, o último poeta a morrer numa fogueira em Paris. Sobre o seu O Bordel das Musas derramou-se, no entanto, a subtileza do traço a negro do escultor João Cutileiro. Como é que o convenci a fazer estes 22 desenhos (ou são mais?). Foi pela admiração que mostrei ao pingo de descontraída vaidade com que ele me mostrou o seu atelier em Évora? Sei é que os desenhos de Cutileiro conferem ao livro um erotismo de delicados lábios e lábil anca, que um delicioso emaranhado de cabelos – tantos cabelos – despenteia e… perturba.
Haverá um erotismo pessoano? Se há, foi o que a pintora Ana Vidigal encerrou, velado, a fazer o pino às escondidas, na pintura com que abriu Minha Mulher a Solidão, a antologia em que reuni toda a concupiscência de Fernando Pessoa. É o livro graficamente mais inventivo que o Ilídio Vasco, designer da Guerra e Paz, já fez.
Capas duras, papéis especiais, grafismo a rasgar como o vento, pintura, fotografias, lombadas a nu, eis o que todos os meus livros de Dezembro ostentam com pundonor. É assim, também, a edição especial do Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, com ilustrações do notável pintor que foi Rogério Ribeiro e que só pude publicar pela gentileza de Vasco Teixeira, da Porto Editora. Tudo já preparado pela mão hábil de editor, o meu amigo José da Cruz Santos. São os últimos exemplares.
Linda, com cartas e poemas, é a Contradança de Camões, com as ilustrações de Hans Huyghen van Linschoten, talentoso espião holandês na Goa do século XVI. Há contradança entre poemas e cartas, como há contradança entre as ilustrações,  os poemas e as cartas.
E são de Camões, as imagens que fazem o retrato do último livro que Vasco Graça Moura escreveu e me quis deixar: em Retratos de Camões, Graça Moura defende que talvez o único retrato verdadeiro do poeta seja o que dá capa ao livro «saído da mão do próprio Camões, num momento de narcisismo autocontemplativo».
Como  Fama e Segredo, de Agustina, como este livro de Vasco Graça Moura, também o Nacional e Transmissível, outro imponente 30 por 30, foi o último livro que Eduardo Prado Coelho escreveu antes de ir para a grande viagem – e tenho mais alguns «últimos livros» que muito prezo. O Eduardo vinha à editora tomar café e atacar um ou outro pastel de nata. O livro foi um desafio que lhe lancei: o que é mesmo ser português em 22 tópicos, do bacalhau às sopas e ao «senhor doutor». As coisas que, por serem nossas, nos amam. E, respondeu-me o Eduardo: «Ninguém gosta de não ser amado.»
Os meus livros de Dezembro são livros de amor, uns com mais beijos do que outros, lembranças de luxo em livros de luxo. São livros grandes, que se podem mesmo medir aos palmos, de um editor de palmo e meio.”
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz

Pensamento do dia

Carta de Kafka ao amigo Oskar Pollak
“Penso que devemos ler apenas os livros que nos ferem, que nos apunhalam. Se o livro não nos acorda com um golpe na cabeça, por que o estamos lendo, então? Porque isso nos deixa felizes, como vós escreveis? Meu Deus! Seríamos mais felizes se não tivéssemos livro nenhum. E o tipo de livro que nos deixa felizes é aquele que nós mesmos facilmente escreveríamos se precisássemos. Mas nós precisamos dos livros que nos afectam como um desastre, que nos atormentam profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser jogado numa floresta isolada de todos, como um suicídio. Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.”
Franz Kafka,  em carta a Oskar Pollak, amigo da época da escola, datada de 27 de Janeiro de 1904.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

A Floresta Adormecida

 
A Floresta Adormecida
por Raul Brandão
30 de Junho (1926)
“As Flores e o Corvo erguem-se uma defronte da outra, separadas por um canal de quinze milhas, o Corvo espesso e nu, as Flores violeta e verde com rochas violetas e os cimos dum pasto delicado. Pelos altos das falésias povoações esparsas, o Monte, a Fazenda, Cedros, Ponta Ruiva, entre colinas arredondadas e renques de hortenses que dividem os campos. Lá para o fundo três pináculos escuros e mais longe alguns cerros de um azul quase negro. A costa vai-se aproximando com saliências e negrumes, e o verde tenro das ervas cada vez mais tenro, destacando-se da massa espessa, onde emergem os píncaros cada vez mais escuros. Um esguicho de sol cai de entre nuvens pesadas, ilumina e doira, desfaz-se em poeira sobre o primeiro piano, enquanto o outro se conserva esfumado. Mais pesada é a massa dos montes, o recorte dos penedos; só a água dum verde-claro estremece a meus pés. Entramos pelas rochas afiadas do porto de Santa Cruz. Duas outras ruas muito limpas, a igreja, a praça, o convento, e logo por trás uma colina esmeralda de formas regulares e perfeitas como um seio túmido apontando o bico para o céu.
1 de Julho
Hoje, outro dia enevoado. Com este tempo turvo, amanhece tudo cheio de orvalho, as árvores, os milhos, o trevo em flor, as fitas prateadas da erva, cujas hastes estremecem e não podem com o peso. Olho num espanto a volúpia do monte verde cortado por sebes azuis de hortenses, com uma grande nuvem cor de chumbo em cima; a falésia monstruosa em roxo e verde, a luz carregada de humidade com clarões esbranquiçados de nevoeiro, que alastram e se desfazem em névoa peneirada e fina; o Corvo ao longe, desaparecendo na humidade e reaparecendo, quando a cortina se descerra – a fisionomia estranha da terra, a vida efémera da água, da chuva e do tempo fantasmagórico. O carácter desta paisagem é a serenidade com uma pontinha de tristeza...Sempre. enevoada e fresca, húmida, como aquele monte voluptuoso ao fundo, é uma paisagem casta, que se oculta e revela, uma paisagem feminina no momento único em que se desnuda com pudor. A chuva é leve, as névoas molhadas não passam de orvalho doirado que o sol ilumina e atravessa. E quando cai (cai muitas vezes), é em borrifos que vêm lá de cima de uma brancura, sobre o calor abafado. De repente aparece o Sol – de repente tudo muda à vista, como um cenário, tornando-se difuso e turvo.
As nuvens nos Açores têm uma vida extraordinária, uma vida que não percebo bem! Hoje uma sobre o Corvo lembra uma auréola magnética. Amontoam-se no horizonte, surgem outras em bando, esguias nas extremidades, a que chamam baleotes e que indicam mudança de tempo. Há-as escuras com claridades extraordinárias pelo lado de trás; há-as que viajam no céu com importância de deuses... Tenho a impressão de que há nas Flores a luz mais delicada dos Açores, a luz vaporizada que se sensibiliza a todos os momentos. É talvez da cor, que é única, do pó roxo, do verde dos pastos sempre tenro e uniforme – é talvez da mistura dos nervos do mar, da chuva de Verão, do sol que se desfaz em oiro sobre tudo isto, e destas nuvens mágicas que interceptam a luz ruborizando-se como grandes velários de cor – para logo se desfazerem diante de meus olhos em arabescos, em fios ténues, em farrapos... Todas as cores se fundem e acabam por se apagar em cinzento, deixando só resquícios na atmosfera húmida. Nunca assim vi ambiente tão rico em prestigio, sempre diverso e sempre em movimento. É o cinzento que predomina – mas um cinzento colorido onde bóiam cores húmidas, principalmente o verde e o violeta –jorrando, atabafando em pardo e violeta montes verdes a escorrer. Éo que dá prestigio a esta terra molhada, onde o próprio sol parece molhado molhado e doirado, tão leve que mal trespassa o cinzento... Então, um momento iluminado, o panorama respira, arfa devagarinho como um seio, ainda orvalhado do banho e aquecido pelo Verão, ruborizado e sorrindo por ter de despir a camisa diante da gente. Outras vezes tudo desaparece ou toma proporções fantasmagóricas e a água goteja doirada. Água, ar e bruma intimamente se casam para produzirem esta impressão casta e cinzenta ou toda violeta como a obra de arte de uma individualidade estranha.
Esta atmosfera explica que a ilha esteja quase toda a regime pastoril. Deixam de cultivar os campos para obter mais erva: é o menor esforço. O gado que não dá leite, farta-se e engorda para o mercado. Anda durante o Verão, dia e noite, nas relvas; só de Inverno o trazem para a porta e o metem nos palheiros. Quase não há lavrador, mesmo pobre, que não tenha três vacas leiteiras. Erva – erva – erva fofa que cresce, é logo devorada e sai pelas tetas dos bichos. De todo este verde casto brota, incha, corre um jorro constante de leite que todos os dias se transforma em manteiga. Não se vê correr como as águas da Fazenda ou da Ribeira, mas o seu volume é muito maior. Carne e leite, eis o resultado do calor abafadiço e da nuvem persistente que cobre a ilha e não a larga, amornando-a e humedecendo-a. Todas as aldeias do litoral, viradas para o mar, têm uma dúzia de campos de milho e de batata-doce e cultivam alguns olheiros de inhames necessários para a sua alimentação. O resto é pasto. À volta e sempre, relvas, ondulações verdes de colinas. Dão leite os montes e vales, e até dão leite as crateras dos pacíficos vulcões, que às vezes abrigam uma aldeia no seio. Um grande jorro branco corre de toda a parte para as fábricas, se transforma em manteiga e é embarcado para esse mundo. A grande canseira da lavoura florentina é ordenhar duas vezes por dia as vacas enormes que trazem a rasto um úbere monstruoso como uma doença. Da transparência verde e oiro, mágica e aérea, toda molhada e calma, com grandes píncaros aparecendo e desaparecendo nas nuvens desgrenhadas – quase imaterial – sai leite branco e tépido, como se o ar, o verde, a chuva, os clarões esbranquiçados, a atmosfera móvel, se convertessem em leite, e esta fantasmagoria cinzenta e roxa que a gente só vê nas nuvens fugidias, doiradas pelo sol e que arremedam todas as imagens, fosse gerada de propósito para ama de criação. Tudo tende para o mesmo fim. A erva vê-se crescer dum dia para o outro, regada pelo céu e sob uma luz velada de estufa. Por isso aquele grande monte voluptuoso se me afigura simbólico. É um seio que se tumifica: do bico apontado para o céu escorre um jorro perene de leite.
(…)
Subo lá acima àquele seio túmido e doirado, cuja pele atinge a magnificência dos veludos. Lá do alto abrange-se parte da ilha, os vales cheios de árvores, a costa recortada, os grandes plainos do fundo retalhados como uma manta pobre, farrapo mais claro de trigo, farrapo amarelo de centeio já maduro. Às vezes vem do mar um chuveiro e toda a amplidão desmaia ou se turva e afasta. Entre a cortina vaporosa distingo o dorso arredondado das relvas, uma casota branca donde irrompe um cedro dum verde de sepulcro, riscos escuros de pinheirais, e pouco a pouco desvendando-se, toda a amplidão sossegada, o anfiteatro da Ribeira de Barqueiros, a chapada quase negra da falésia, o Corvo violeta, e a meus pés a vila em relevo. A impressão é de frescura e calma, de névoas misturadas de oiro. Esta paisagem molhada e verde é vaga como um sonho: entreabre-se, fecha-se, sorri e adormece... Um silêncio enorme (todos os ruídos são abafados pela névoa), uma amplidão de ervas gotejando, uma luz serena e toldada.
Duas estradinhas de alguns quilómetros acabam logo ali, uma no Boqueirão, outra na Ribeira da Cruz, seguindo por entre casinhas brancas, quintalejos, hortas, milhos envernizados de novo, renques de faias formando abrigo para o vento. Pastos e mais pastos, e os tourinhos deitados na erva com a barriga cheia e que já não podem comer mais. Todos os bichos estão fartos. Dos taludes rebentam moutas de sardinheiras, pés de malvões ou de hortenses viçosas. Mais postos sempre... É o paraíso das vacas: negras, amarelas, malhadas, com uma grande dignidade e o sentimento da sua importância, tomam o caminho, com o extremo das pontas doirado e os úberes enormes a rasto pelo chão. Outras afogam-se na erva tenra e comem e digerem, dormem e comem de dia e de noite, olhando quem passa com desprezo. Por um rasgão vê-se o mar espelhado onde a luz esbranquiçada das nuvens se reflecte, e lá no fundo a Ribeira de Barqueiros com um biombo de montes muito verdes. Todos os tons do verde estão aqui representados, cheios de viço e frescura − o verde-azul e derretido nos fundos, o verde-escuro dos lagos de inhames, o verde macio das relvas, o verde-negro das faias, apagados e fundidos no orvalho. Em direcção oposta segue outra estrada pelas Alfavacas, cultivadas a milho, a batata-doce e a tabaco, disposto em linhas regulares e com as folhas pontiagudas entreabertas. Sempre a mesma humidade e a mesma cor... E este verde sossegado insinua-se pouco e pouco e pacifica. Fica-nos na retina a cor verde e nos ouvidos a flauta afastada dos melros que assobiam sem interrupção no arvoredo formando biombo aos campos de milho. Esta linda estrada estaca de repente diante da falésia e em frente da baiazinha de S. Pedro. Espero o pôr do Sol doirado por trás das nuvens cinzentas, espero a irrealidade do crepúsculo nesta luz sempre cheia de surpresas. A costa para o nascente desdobra-se em cinzento, em roxo e negro no primeiro plano, com uma grande nuvem cor de chumbo a desfazer-se-lhe em cima e um rasgão de céu mais alto e claro, de planície etérea cor-de-rosa. Da névoa esfarrapada sai um clarão de fogo – riscos de oiro atravessam a poeira incendiando tudo em explosão. Por baixo a falésia alta derruba-se sobre o mar, com filamentos verdes derretidos nas águas. No segundo plano o azul mistura-se ao roxo e ao negro requeimado de grandes penedos. E no fundo anda pó verde do mar entranhado no pó roxo que dilui tudo na mesma tonalidade – as águas, o céu, as rochas aguçadas e dramáticas. Mais um momento e o drama chega ao auge: um crepúsculo em que a gente vê as cores despenharem-se num abismo uma atrás da outra – o azul, o roxo, o lilás, enquanto o horizonte se incendeia. Tudo isto, diante dos meus olhos deslumbrados, escurece, torna-se violeta, afoga-se em névoa, morre num estertor violeta e cinzento. E, por trás dos montes já negros, levanta-se, aumenta e nunca mais cessa a fumarada prodigiosa das nuvens...”
Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas, Quetzal Editores

Em três linhas
"Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões. Tinha ouvido a um oficial de marinha que a paisagem do arquipélago valia a do Japão. E talvez valha... Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nas leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos!..."
1926.
R.B ( Raul Brandão)

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

As palavras de Churchill e a vitória dos aliados

 
                           Winston Churchill,30 de Novembro de 1874 - 24 de Janeiro de 1965) 
As palavras de Churchill ajudaram na vitória dos aliados na Segunda Guerra?
"Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor".
"No discurso inaugural como primeiro-ministro do Reino Unido, em 1940, Winston Churchill apontou como as palavras teriam papel importante, durante a sua liderança, no combate  a Hitler e à Segunda Guerra.
Este e outros discursos memoráveis de Churchill testemunham a importância dada pelo estadista à retórica. Com apenas 22 anos, por exemplo, ele escreveu: "De todos os talentos concedidos aos homens, nenhum é tão precioso como a graça da oratória. Quem dela desfruta possui um poder mais duradouro do que o de um grande rei".
Mas falar publicamente não foi algo natural para Churchill. 
Saiba como ele superou ridicularizações e problemas na fala para ser um dos oradores mais reconhecidos da política mundial.
Língua presa
Churchill odiava a sua língua presa quando estava na escola, tentando eliminá-la com exercícios.
Mas, quando já era primeiro-ministro, ele percebeu que a característica poderia ser uma arma no esforço de guerra ,  dando-lhe uma marca autêntica em transmissões de rádio. Então, suas dentaduras eram confeccionadas de forma a preservar a língua presa.
Um conjunto de dentaduras do estadista foi leiloado em 2010 pelo valor de cerca de 15 mil libras ( cerca de 17.995,00 Euros). Outro conjunto está hoje no Museu Hunterian, em Londres.
"Estes são realmente os dentes que salvaram o mundo", diz Jane Hughes, representante do museu. "Eles foram vitais no esforço de guerra"
Um orador disciplinado
Quando Churchill se tornou primeiro-ministro, logo reconheceu a importância da oratória em inspirar uma nação em guerra. Inicialmente, ele enfrentou críticas sobre a sua oratória e vocabulário, frequentemente vistos como antiquados. Mas eventos traumáticos durante o verão de 1940 levaram o drama a um nível que foi ao encontro da prosa do estadista.
A informalidade não era uma característica de Churchill - na verdade, ele gastava muito tempo preparando e treinando a sua fala. Era uma forma de superar o nervosismo em falar publicamente, algo que ele sentiu desde cedo.
Diferente de muitos políticos modernos, Churchill não contava com redactores de discursos. Ele era o dono de sua palavra, defendendo que "a história será gentil comigo, porque eu pretendo escrevê-la".
Rascunho e versão final do discurso de Churchill de 18 de Junho de 1940;
estadista formatava textos em formato de 'salmos'
| Foto: Churchill Archives Centre, Churchill College,
Cambridge, reproduzido com a permissão de Curtis Brown, London

Ele foi um grande escritor, ganhando o prémio Nobel de Literatura em 1953. Entre seus métodos revelados, escrevia  o texto em formato de salmos. As passagens fraseadas ajudavam-no a manter uma cadência na fala, entremeada por um ritmo próprio e pausas dramáticas.
Ele também usava uma linguagem emotiva e metáforas, além de estimular fortemente a imaginação dos ouvintes - quase simulando a presença destes no campo de batalha. Dominava ainda a arte da aliteração (repetição em sequência de algum fonema), frequentemente repetindo as palavras mais sonoras para maximizar o impacto.
As palavras e a batalha
Provavelmente, o mais famoso discurso de Churchill foi o de 18 de junho de 1940, quando a Grã-Bretanha ficou sozinha na guerra, após a derrota da França, que teve parte do território ocupado pelo exército alemão.
Cópias do discurso hoje alocadas na Universidade de Cambrigde revelam quanto tempo o estadista gastou fazendo rascunhos e mais rascunhos dele.
Allen Packwood, director do sector de arquivos relacionados a Churchill na universidade, explica como o político editou o discurso até o último minuto.
"A página é coberta por anotações suas feitas à mão. Ele sabia do peso daquilo, mas foi capaz de produzir o discurso naquele momento de extremo stress", explica Packwood.
Hoje, o discurso ganha crédito importante por dar ânimo ao Reino Unido, nas vésperas do combate  aéreo entre alemães e britânicos sobre as águas do Canal da Mancha. Mas, segundo o pesquisador Stephen Bungay, a reação inicial ao discurso foi muito entusiasmada.
"Churchill falou na Câmara dos Comuns, à tarde, e a transmissão aconteceu à noite. O seu secretário escreveu que 'ele havia falado pior do que na ocasião anterior'. O parlamentar Harold Nicolson disse que Churchill soou 'péssimo'. Para Cecil King, proprietário de um jornal, ele (Churchill) soava como quem estivesse doente ou bêbado. Churchill falou o tempo inteiro enquanto fumava um charuto, o que somado à sua antiga dificuldade em pronunciar a letra 'S' pode ter feito parecer que ele estava bêbado", diz Bungay.
Apesar do cepticismo inicial, as palavras de Churchill inspiraram os britânicos e, para vários historiadores, teve papel relevante em impulsionar a vitória dos aliados na Segunda Guerra.
Um relatório do Ministério da Justiça britânico (Home Office) apontou que o discurso foi considerado "corajoso e esperançoso". A popularidade também cresceu, de acordo com uma pesquisa da empresa Gallup - que indicou uma taxa de aprovação de 88% em Julho.”
BBC, 11.02.2018