segunda-feira, 15 de abril de 2024

O meu mais belo começo de romance

Eugénio Lisboa

 O MEU MAIS BELO COMEÇO DE ROMANCE 
por Eugénio Lisboa

"Sempre pensei que o destino de um romance se decide na frase que lhe serve de começo. São justamente célebres e inesquecíveis os começos de Le Rouge et le Noir, de La Chartreuse de Parme (ambos de Stendhal), de Ana Karenina ( Tolstoi) ou de Du Côté de Chez Swan (de Proust). Podia dar muitos outros exemplos. “Todas as famílias felizes se assemelham mas cada família infeliz é-o à sua própria maneira”,dizia Tolstoi, a abrir a Karenina – e logo nos deixa sonhadores: aconchegamo-nos melhor no sofá, para nos prepararmos, com delícia, para as soberbas infelicidades que se anunciam... Como vai ser interessante! Com um começo destes... Ou então, isto: “No dia 15 de Maio, o general Bonaparte fez a sua entrada em Milão, à frente daquele jovem exército que acabava de atravessar a ponte de Lodi e de anunciar ao mundo que, depois de tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor.” Que leitor pode deparar com isto sem sentir que se levanta do chão? Sem sentir um mundo prenhe de promessas que o grande romance de Stendhal – La Chartreuse de Parme – não irá senão confirmar e reconfirmar ad omnia saecula saeculorum? Régio costumava dizer, em conversa, que quem encontra um título encontra um livro. A minha tese pode ser outra: quem encontra um bom começo encontra um bom livro. Tive sempre receio de começar um livro, um artigo, um ensaio, um poema, sem ter a prévia sensação de que achara, para eles, um bom começo ou, para empregar uma expressão popular, de que entrara com o pé direito. Hemingway tem começos memoráveis e eu imagino o trabalho e as tentativas sucessivas que ensaiou até chegar a começos de uma simplicidade pungente, escorrida e trágica, como são os de tantas das suas célebres narrativas. 
Ando agora a agenciar munições para umas memórias1 que quero escrever antes de, para sempre, fechar a oficina. Vou inventariando acontecimentos, emoções, sítios, pessoas, datas, encontros, ideias, desencontros, alegrias, tristezas, esperanças, desilusões, descobertas... Procuro reerguer, com o vigor que me for possível, todo um mundo interior que gostaria de tornar importante, não por eu ter estado nele, mas por ele ter estado em mim – eu, veículo, sem importância, de magias que são importantes. Como me é peculiar, começou por me devorar a angústia de encontrar um bom começo. E logo me ocorreu o que para mim tem sido o mais belo começo de romance, aquele que, nos meus catorze ou quinze anos, me agarrou para sempre e me grudou ao seu encanto anunciador de delícias-a-haver: refiro-me à primeira frase, do primeiro capítulo do romance de Stendhal, Le Rouge et le Noir : “A cidadezinha de Verrières pode ser considerada uma das mais lindas do Franco-Condado”. Este acorde, em que a simplicidade rivaliza com a beleza premonitória, gravou-se para sempre no meu espírito e no meu coração. E fiquei sempre convencido de que só ele teria competência para me levar até à minha insaciada paixão pela Senhora de Rênal. Permaneceu em mim, espécie de canto profundo e mozartiano, propiciador de tudo quanto na vida há de mais fundo, de mais belo e de mais trágico. Pensei, portanto, que uma pequena paráfrase dele me garantiria, melhor do que qualquer outra alternativa, o começo (auspicioso) das minhas memórias. Ficará assim: “A cidadezinha de Lourenço Marques pode ser considerada uma das mais lindas do continente africano.” Assim amparado na bengalinha sortílega do que considero o mais belo começo de romance, espero salvar do esquecimento rápido, não o total das minhas memórias, mas, ao menos, a sua primeira frase. "
1 - Eugénio Lisboa publicou as memórias em sete volumes, entre Novembro de 2012 e Novembro de 2017. (N.O.)

domingo, 14 de abril de 2024

Ao Domingo Há Música

Hoje , este espaço é totalmente preenchido com a reposição de um registo musical, extraído de uma crónica de Eugénio Lisboa, dedicada ao seu filho João Luís Lisboa.
Amante de Música, Eugénio Lisboa tinha a sensibilidade justa para tecer palavras que ilustrassem qualquer peça ou voz que tenham exercido sobre ele o tal encanto, êxtase,  a sedução profunda que leva aos primórdios, àquelas grandes emoções primárias e fundadoras, de que os “sofisticados” têm tanta vergonha.
Era assim Eugénio Lisboa, um escritor maior , multifacetado e sem pejo de dizer num franco falar , ao jeito dos verdadeiros génios da Literatura. 

June Tabor
por Eugénio Lisboa
Ao João Luís
"Não gosto de escrever sobre artes que não pratico e sobre as quais tenho uma educação à la diable, isto é, muita frequentação e pouco estudo sério. Tenho visto muita pintura, escultura e desenho, como tenho ouvido muita música, e até possuo uma discoteca considerável. Mas não tenho educação musical, num sentido técnico.
Tenho obsessões e vaidades como, por exemplo, possuir os 180 CDs, que compõem. na edição da Philips, a obra completa de Mozart. Tenho, neste sector, um gosto ecléctico: música clássica, jazz, música folclórica (alguma), fado, música dos Beatles, do Zeca Afonso, da Edith Piaf, do Jacques Brel, do Regiani, da Béatrice Arnac e tutti quanti.
Por intermédio do João Luís [ Lisboa, declaro aqui o meu interesse], cheguei à cantora britânica June Tabor, que tenho ouvido, naquele estado de “bestialidade espiritual, que é o êxtase musical ou místico”, para usar uma expressão forte de Montherlant, ao referir-se ao “canto profundo” do sul de Espanha e do Norte de África, de onde é oriundo.
Não tenho, repito, educação musical técnica, embora tenha um ouvido bem treinado a ouvir centenas se não milhares de horas de música. Não comentarei por aí além a qualidade das baladas cantadas por June Tabor; apenas direi, candidamente, como elas agem em mim. Com Tabor, estou um pouco à vontade porque ela, como eu, também não tem o que se chama educação musical. Usa o ouvido, a imaginação, a emoção, a obstinação, o talento e a alma. Estas coisas acontecem.
Em suma, não irei pretender.(...)
Vou, portanto, dizer duas ou três coisas singelas sobre esta cantora de sedução prodigiosa, que nos “apanha” por algo de profundo e de definição delicada.
Voltei, agora, a ouvir, dela, dois discos: Ashore (2011) e A Quiet Eye (1999). Dizem-me que a actual voz (a de Ashore), quase “rouca”, cheia de graves, foi uma chegada: que, em canções muito mais antigas, predominavam os agudos. A voz actual, profunda, às vezes quase áspera, arrastada, lembra-me o “cante jondo” (canto profundo) espanhol, herdado dos cantores do Norte de África (do século X ao século XV). Montherlant, obstinado “voyageur traqué” naquelas paragens, onde o deserto predomina e o sol queima, dizia ser o “cante jondo” “uma manifestação da alma, como o seu nome indica, e não um exercício de virtuosidade.” Virtuosidade técnica tem-na, por certo, Tabor, mas não é isso que nos toca ou simplesmente impressiona.
O que vem até nós é a alma profunda dos mistérios, abismos e insídias do mar, as suas histórias de “naus catrinetas” ou assim, autênticas “histórias de pasmar”. Falando sempre do “canto profundo”, insiste Montherlant, obviamente tocado: “Regras, seja, mas, antes de mais nada, uma pessoa humana.” Na voz, interessa mais que seja expressiva, do que seja ampla... A voz de Tabor é superiormente expressiva. Os críticos de língua inglesa falam, a propósito desta cantora, de “voz arrepiante” que “transmite um oceano de emoções sem qualquer artifício” (The Weekend Australian), ou, a propósito, precisamente, do album Ashore, de “colecção profundamente comovente de histórias do mar.” A tónica sempre posta – e bem, a meu ver – na expressividade, na alma e não no teatro, na virtuosidade, na técnica. Ouvir canções como “ The Grey Funnel Line”, “Shipbuilding” ou “The Great Selkie of Sule Skerry”, entre outras, mexe connosco até profundidades insuspeitadas.
E volto ao “canto profundo” e aos emocionados comentários do severo Montherlant: “ No «canto profundo»”, nota o autor de Service Inutile, “cada um lança dentro de si como que uma tubagem de bomba, para chegar à toalha subterrânea da alma; cada um lança-a mais ou menos longe, sem chegar à água da alma; enfim, aparece alguém que a lança a tal profundidade, que a água da alma é atingida, sobe e aparece na voz.” É o caso da cantora June Tabor, que eleva as canções “até novos níveis impossivelmente altos” (Sydney Morning Herald). Cantando, em “Shipbuilding”, versos como os dilacerantes “Diving for dear life / When we could be diving for pearls”, June Tabor ascende a cumes da expressividade e da emoção, como raramente teremos ouvido em tempos recentes. Mesmo ao preço de alguma candura e de uma mais ou menos detestada “naturalidade”. Com esta voz, com estes textos, com esta expressividade removente, June Tabor leva-nos, sem vergonha, aos primórdios, àquelas grandes emoções primárias e fundadoras, de que os “sofisticados” têm tanta vergonha. Hoje, fala-se minimalisticamente do que se sente em pequenina dimensão. Tabor vai ao fundo dos tempos, quando não havia vergonha das emoções em grande e a nu.
Montherlant, sempre crítico da França, fazia fogo frontal na direcção dessa grande “conspiração francesa contra a simplicidade e o natural.” E dizia, escarninho, que o mot d’ordre da nata intelectual gaulesa era: “nada de lirismo, nada de fantasia, nada de visão directa da realidade, nada de expressão directa do que se sentiu, tudo isso é ridículo e chocante: um povo, ontem com peruca, hoje com certificado de estudos, não consegue suportá-lo,”
Gostaria de terminar, dizendo que esta voz grave e cheia de graves, ocasionalmente quase beirando a “rouquidão”, suspensa, por vezes “travada”, fortemente apelativa, sugerindo distâncias, sóis e abismos, melancolias e lutas me comoveu tanto como me comove o “canto profundo” , que Montherlant celebrou." 
Eugénio Lisboa, in JL.

 
June Tabor, em  Don't Think Twice, com Huw Warren ao piano
 
June Tabor, em  Shipbuildingrack 5, do  Ashore album (2011, Topic Records Ltd.). Elvis Costello escreveu esta canção.
 
 June Tabor (live), em Grey Funnel Line .
 
June Tabor, em Finisterre, do álbum "An Introduction to June Tabor".

sábado, 13 de abril de 2024

Brincando (a sério) aos editores

 

Brincando (a sério) aos editores
por Eugénio Lisboa
 
I’ll publish, right or wrong.
          Lord Byron
 
Publication is the male equivalent
of childbirth.
          Richard Aclan
 
“(…) É sobretudo, de uma das áreas da nossa actividade [na Anglo Portuguese Foundation] – a edição de livros – que quero hoje aqui falar. E foi nela, servindo-se, é claro, do apoio dos meus conhecimentos de literatura e cultura portuguesas, que Kim Taylor terá deixado marca mais duradoura. Duradoura? Já iremos falar nisso. Kim tinha bons conhecimentos sobre a «fabricação» de livros e sobre os meandros do seu marketing. Sabia formatá-los com o apoio competente e sensível do seu irmão – sabia negociar protocolos com as casas editoras (e fê-lo chegando a um acordo com uma das melhores editoras do país, a Carcanet Press, de Manchester), em tudo pondo uma atenção, uma determinação e uma meticulosidade que rapidamente o faziam passar da fase do sonho à da realização. Tudo ia acontecendo, num protocolo teimoso de formiga que, grão a grão, enche o seu celeiro.
O problema era escolher o nosso catálogo. Publicar o quê? Nisto, eu e o Kim alinhávamos bem no mesmo projecto: obras de qualidade, sim, obras representativas, claro, mas não obras boas apenas para uns happy few, que um público mais alargado e um pouco menos sofisticado rejeitasse. Poesia, ficção, história, grandes clássicos e clássicos modernos. Em suma: alta qualidade que não espantasse a caça. Estávamos bem conscientes da dificuldade dilemática que Santayana tão bem emblematizara, nestes termos: “A cultura acha-se nos cornos deste dilema: se nobre e profunda, é só para raros; se mais comum, torna-se insignificante.” Nós visávamos o nobre e profundo que se não tornasse, por outro lado, inacessível: tanto em antigos como em contemporâneos. Julgo que a nossa lista inicial de grandes escritores traduzidos não serviu mal este propósito: Camões – o épico e o lírico – numa nova tradução de Keith Bosley, omnívoro tradutor de várias línguas, incluindo o finlandês…, Fernão Mendes Pinto, Eça de Queirós (quase toda a ficção, com uma primeira e admirável tradução de Alves & Cia), Fernando Pessoa (incluindo o Livro do Desassossego que, nesse mesmo outono de 1991, viu quatro versões em inglês, três em Inglaterra e uma nos Estados Unidos, e uma volumosa antologia de poesia e prosa, organizada por mim e por Kim Taylor, incluindo, em tradução inglesa, o famoso ensaio de Octavio Paz sobre o encenador dos heterónimos, além de contribuições de Tabucchi, José Blanco e outros), Miguel Torga (Contos e Novos Contos da Montanha e A Criação do Mundo), José Régio (Histórias de Mulheres), Jorge de Sena (Sinais de Fogo), José rodrigues Miguéis (Páscoa Feliz), David Mourão-Ferreira (Um Amor Feliz), uma substancial antologia do conto português dos séculos XIX e XX, por mim organizada e incluindo contos de Eça, Fialho, António Patrício, Fernando Pessoa, Irene Lisboa, José Régio, Rodrigues Miguéis, Domingos Monteiro, Branquinho da Fonseca, Miguel Torga, Joaquim Paço d’Arcos, Manuel da Fonseca, José Marmelo e Silva, Maria Judite de Carvalho, David Mourão Ferreira, Herberto Hélder e Mário de Carvalho, e também (embora não com o meu voto), um romance de Saramago… [o meu voto contra teve sobretudo este significado: Saramago era já um nome comercial, que não precisava do apoio de uma organização como a nossa, que devia reservar os seus esforços e dinheiro, para promover autores que, de outro modo, dificilmente encontrariam editor. Poder-se-ia perguntar se Camões e Pessoa estariam nesta caso: de Camões, quisemos traduzir peças ainda não traduzidas ou promover nova tradução de outras já traduzidas; de Pessoa, quisemos incluir textos em prosa e uma melhor tradução de poemas já anteriormente traduzidos.] Mas não nos ficámos por traduções de obras de ficção e poesia, de consumados autores portugueses: obras de história e ensaio tiveram também lugar: três clássicos de Charles Boxer (The Portuguese Seaborne Empire, The Christian Century in Japan – 1549/1650 e The Golden Age of Brazil), o fascinante livro de Silvio Bedini, The Pope’s Elephant, que conta a saborosa história da oferta de um elefante feita pelo rei D. Manuel ao papa Leão X, o clássico de Maurice Collis, The Grand Peregrination, sobre a vida e época de Fernão Mendes pinto, uma bela tradução de longos excertos da própria Peregrinação, do grande aventureiro português, e o 2º volume do livro de Rose Macauley, They Went to Portugal Too, cujo 1º, publicado em 1946, utilizara apenas metade do material textual disponível, devido ao, então, rigoroso racionamento de papel.
Nem todos estes livros foram lançados no mercado durante o período em que Kim Taylor foi director da Gulbenkian, em Londres: reformado em 1989, permaneceu, no entanto, até 1995 (ano em que também eu saí de Londres), como «executive editor», de parceria com Michael Schmidt, da Carcanet Press, das séries «Aspects of Portugal» (capa dura e sobrecapa de papel) e «From the Portuguese» (série de traduções em formato de livro de bolso, de capa macia, dedicada a autores portugueses do século XX). Já fora dos escritórios da Gulbenkian, as suas reuniões comigo – Michael Schmidt vivia em Manchester e, em qualquer dos casos, pouco interferia nas séries – tinham lugar, ora na embaixada – onde suámos sangue, suor e lágrimas sobre a maciça e meticulosa antologia que fizemos de Pessoa – A Centenary Pessoa – ora num minúsculo pied-à-terre que o Kim possuía em Bloomsbury, no nº 22 da Conway Street, London W1, a dois passos da Livraria Dillon’s e no centro do universo outrora habitado ou simplesmente frequentado por Virginia Woolf, Lady Ottoline Morrell, Bertrand Russell, Aldous Huxley, D. H. Lawrence e tantos outros que são hoje do património cultural inglês e universal. Eu chegava por volta do meio dia, sentava-me e ia manipulando papéis e tomando notas, enquanto o Kim, que mal cabia no espaço disponível do seu habitáculo, se debruçava sobre o fogão, preparando, com uma mestria fácil e despretensiosa, a refeição que, regada sempre com um vinho bem escolhido, servia de motor de arranque para a nossa tarde de trabalho. Foram momentos inesquecíveis e famosamente produtivos. Kim tinha sentido de humor e afinadíssima cultura, a um tempo profunda e discreta, a que me encostava sem ter muito a impressão de que me era imposta. Conversávamos e trabalhávamos e os livros, lentamente, iam-se construindo. Nem sempre estávamos de acordo: eu verguei-me, com dificuldade, à reimpressão de certas traduções de Eça, que me pareciam ou levianas (O Primo Basílio) ou francamente medíocres (O Crime do Padre Amaro), mas acabei por ceder ao sentido de pragmatismo ou de urgência – ou ambos – do Kim. A mim, em particular, deu-me um singular prazer trabalhar na antologia de contos (em dois volumes) e na antologia pessoana. Quanto a esta última, não foi pequeno o orgulho que senti ao ler as 6 ou 7 páginas que George Steiner lhe viria a consagrar na prestigiosa revista americana The New Yorker. Reeditar Os Maias ou A Ilustre Casa de Ramires (que levou Jonathan Keates a presumir que Flaubert teria assassinado para escrever algo tão bom), fazer verter admiravelmente para inglês – e pela primeira vez – uma das mais singulares ficções de Eça – Alves & Cª - trazer para a língua de Swift as belíssimas Histórias de Mulheres, de Régio, ou a Páscoa Feliz, de Miguéis, ou os Sinais de Fogo de Jorge de Sena – são privilégios que nos enchem de um gozo profundo, mesmo quando as instâncias oficiais deitam sobre o caso um olho negligente e vagamente enfastiado. A verdade é que tanto o Kim como eu não estávamos ali a trabalhar, naquelas tardes sossegadas da Conway Street ou nalgumas manhãs alongadas de Belgrave Square, para benefício ou contentamento de quaisquer entidades oficiais ou outras: profundamente egoístas, no sentido mais nobre do termo, fazíamos o que fazíamos, «for the sake of it», como dizem os britânicos ou, se preferirdes, pelo gozo de fazermos – se possível, bem – aquilo que fazíamos. Já o velho filósofo americano Ralph Waldo Emerson se apercebera disso, quando dissera: “A recompensa para uma coisa bem feita é termo-la feito.” Os livros iam-se construindo, numa língua bem diferente daquela em que tinham sido concebidos, numa obstinada e saborosa lentidão – um dia haviam de ser obra concluída e iriam provocar, se tivessem sorte, a atenção de uma gente menos habituada àquela literatura diferente e oriunda de paragens menos exploradas. Lentamente… O tempo que levou a peneirar, a escolher, a fazer traduzir, a rever a tradução, a «encher» de depoimentos, de prefácios, de tábuas informativas, de material adjacente e necessário, essa bela antologia de Pessoa que legámos à língua inglesa: ainda recentemente, um grande editor português me veio pedir que a «vertesse» para português! Ela teve já duas reimpressões em «paperback» e há-de levar «mais Pessoa» a leitores de língua inglesa do que, durante muito tempo, se julgou possível… Tudo feito com teimosia e lentidão. Há uma passagem belíssima, de um texto da grande pintora americana Georgia O’Keefe, que eu aqui gostaria de transcrever, como homenagem suprema à eminente e empenhada contribuição de Kim Taylor para a divulgação da cultura portuguesa no Reino Unido. Dizia ela: “À tarde, eu saio para o deserto e passo horas a ver o sol descer, só pelo gozo imenso que isso me dá, e todos os dias volto a sair para de novo olhar para ele. Desenho um bocadinho e fica ali um pouco de pintura e assim os dias vão correndo.” Também connosco, todos os dias ficava ali um bocadinho de livro e assim os dias iam passando, até um dia haver, finalmente, um livro. A lusofilia, a de Kim, ia assim fazendo crescer, simultaneamente, um livro e uma amizade.
Peço licença, para transcrever, traduzindo-as, por me parecerem de interesse, algumas breves passagens dos comentários que Kim Taylor recentemente me enviou, acerca do modo como «viveu» a construção de alguns dos livros que editámos:
  1. O livro A Centenary Pessoa foi, de todos o que mais me agradou, na série «Aspects» [of Portugal]. Investiu-se, como se lembra, um grande volume de trabalho na sua criação e composição. A minha única mágoa é a tradução de Bosley da «Tabacaria», embora fiel, não competir com a versão mágica de Suzete Macedo, mas a verdade é que não podíamos insistir nessa intromissão particular no trabalho cuidadoso de Bosley. O design do livro – em grande parte, obra do meu irmão – é excelente.
  1. O livro de Rose Macauley [They Went to Portugal Too] tem, é claro, um lugar muito especial no reino dos meus afectos. Publicar tanto material «novo» de um tal autor foi uma oportunidade rara. Por via dele, pude conhecer, em visitas repetidas, a encantadora Susan Lowndes. As ilustrações funcionam bem e o livro é excepcionalmente belo.
  1. A Peregrinação exigiu uma enorme quantidade de trabalho editorial. A tradução original de Lowery de passagens seleccionadas era vívida e legível mas, como miscelânea, não dava uma impressão adequada do original maciço. Felizmente, a edição completa de Rebecca Katz tinha aparecido poucos anos antes e foi-me possível fazer resumos narrativos de ligação. O produto final é um texto digno.
  1. Os livros de Boxer eram, é claro, dignos de serem reeditados. Penso que as novas ilustrações, os frontispícios, as sobrecapas, etc. os tornaram adicionalmente atraentes. Incidentalmente, os numerosos arquivos e museus de Portugal que providenciaram as inúmeras ilustrações para os livros da série nunca, em caso nenhum, exigiram pagamento – o mesmo não se podendo dizer das fontes de informação inglesas e francesas. Penso que The Golden Age of Brazil e The Christian Century in Japan são do meu especial agrado.
  1. The Pope’s Elephant foi uma EXPERIÊNCIA! Michael Schmidt tentou liquidar o projecto depois de termos gasto horas nele, para grande fúria de Bedini. O manuscrito original estava escrito em americano e necessitava de uma grande dose de tradução para inglês (Bedini mostrou-se encantado, quando lhe fazíamos sugestões) e ele [Bedini] tinha tendência a presumir um pouco razoável conhecimento da história europeia, da parte dos seus leitores. As suas ilustrações eram uma confusão. Meu irmão e eu passámos 10 dias no meu apartamento em Londres tentando dar àquele fardo mal amanhado uma configuração viável, com trabalho editorial a acrescentar… O produto final é um tributo ao efeito que os Descobrimentos tiveram no alargamento da consciência europeia. O livro vendeu-se particularmente bem na América e veio a tornar-se um «paperback» da Penguin nos Estados Unidos.
Salto algumas passagens do depoimento de Kim, mas não resisto às palavras finais da sua carta recente:
“Olhando para trás, quão feliz estou por termos embarcado nas duas séries. Michael Schmidt não foi exactamente um colaborador entusiástico (os seus interesses situavam-se sobretudo na poesia e na vanguarda) e quanto a Ben Whitaker [sucessor de Kim na Gulbenkian]… Contudo, trabalhar nos livros contigo, querido Eugénio, foi para mim um grande e duradouro prazer. Os livros na minha estante continuam a significar um duradouro tributo a anos de amizade e a uma colaboração que foi sempre confortável, bem humorada e criativa e, frequentemente, puro deleite!
Afectuosamente
Kim”

Citei esta última passagem porque ela fala por si e porque me aquece o coração. Mas entristece-me também um pouco, porque nela figura, por duas vezes, o adjectivo «duradouro». Se o adjectivo fica bem – e é justo – quando qualifica o prazer e o tributo, deixa-me, no entanto, melancólico pelas dúvidas que me surgem quanto à durabilidade do nosso investimento. Dizia Valéry que o problema com o nosso tempo é que o futuro já não é o que costumava ser. Quando Kim e eu trabalhávamos na nossa sementeira, parecia-nos que investíamos num futuro não duvidoso. Hoje, porém, tenho dúvidas. Um empreendimento destes não é concebido para um período limitado de uma dúzia de anos: precisa de continuidade que o prolongue e, de tempos a tempos, ressuscite os títulos já esgotados. É, por assim dizer – e perdoem-me a hipérbole – um projecto para a eternidade. Infelizmente – e estas coisas têm que ser ditas – os nossos governantes não acreditam a sério na cultura, porque nem sequer a compreendem – nem a ela, nem ao seu valor que vai muito para além do que é em si. Hoje, em Londres, of all places, o posto de conselheiro cultural encontra-se extinto. Um ministro dos negócios estrangeiros, quando quis ver-se livre de uma titular do pelouro cultural [alegadamente] pouco produtiva, mas ainda a meio do contrato, não achou melhor maneira de a despedir, sem a indemnizar, do que recorrer ao expediente radical de extinguir o lugar. Faço ideia do que devem hoje pensar os altos funcionários do Foreign Office e do British Council. Extinguir um cargo destes numa capital como Londres é, no mínimo, um gesto terceiro-mundista, sem ofensa para o Terceiro Mundo. Estou ciente de que estas palavras são duras, mas creio que ficam à proporção da irresponsabilidade da decisão ministerial.
Faz pena. Porque, sem continuidade que assegure ao esforço de poucos alguma garantia de presença, investimentos como os de Kim Taylor e também o meu correm o risco, para dar a uma frase célebre de Churchill a merecida amplidão metafórica, de vir a ficar soterrados “nos ingratos desertos da Mesopotâmia”. Assim seja, se assim for. Fica-nos a esperança de que, num dia qualquer de um futuro incerto, um leitor imaginário, vagueando por uma biblioteca ou navegando na internet, descubra alguns dos títulos com que, durante uma década e meia, o Kim Taylor, com algum acompanhamento meu, tentou mostrar aos britânicos que a cultura portuguesa existe e vale a pena ser conhecida.”
Eugénio Lisboa , in “L. C. Taylor: malhas que a lusofilia tece”, texto  apresentado num colóquio na Universidade de Aveiro, em 2012).

sexta-feira, 12 de abril de 2024

As Palavras de Eugénio Lisboa


AS PALAVRAS

No poema, as palavras encontram outras palavras,
que nunca tinham visto, mas logo se enamoram,
uma da outra, porque se sentem próximas
uma da outra, atraídas por uma química
irresistível.
As palavras, no poema,
fazem casamentos singulares, inesperados, fecundos,
e, juntas, exploram o mundo,
como, antes, nunca tinha sido explorado.
Palavras banais, em que ninguém repara
e andam para aí usadas, quase sem serem vistas,
surgem de novo, com outra força, com outra luz,
com outra sedução, que lhes dá o poeta,
com a sua lâmpada de Aladino.
Friccionando bem as palavras,
o poeta trá-las de novo à vida
como o Cesário, que, tuberculoso,
sonhava com uma mulher,
imaginem,
“aromática e normal”!
O Cesário, doente e, por isso,
nada normal,
ficou seduzido, não por uma mulher muito bela
ou muito vistosa ou muito inteligente,
mas por uma mulher que tivesse
aquilo que ele não tinha e não voltaria a ter:
a normalidade da saúde que,
naquela mulher sonhada, se iluminara, de repente,
como a coisa mais apetecida do mundo.
A palavra “normal” foi assim ressuscitada da sua morte aparente
pela fragilidade criativa do Cesário.
É que as palavras têm tesouros escondidos,
só há que encontrá-los, para transformar palavras murchas
em palavras cintilantes e acabadinhas de nascer.
Não se esqueçam das palavras, mesmo as mais humildes:
há nelas possibilidades que ninguém imagina.
Os especialistas destas coisas chamam-se poetas.
Eugénio Lisboa
06.09.2021

Eugénio Lisboa deu forma às palavras e criou magníficos poemas. Provou-nos, (obstinadamente), que o poeta é o melhor especialista das palavras. Conhece-lhes todos os segredos. Provou-nos também que é um excepcional escritor de plurais formas e um homem maior enquanto ser humano. Conhecê-lo foi um prazer. Ter a sua amizade foi um privilégio.
Gostava de citar muitos autores célebres. Paul Valéry era um deles. São dele as  palavras que roubamos para bem definir  Eugénio Lisboa, que vai hoje a sepultar:
Os homens verdadeiramente grandes estão muito próximos dos outros pela mesma simplicidade que os afasta até ao infinito. Porque os homens verdadeiramente grandes conservam, na sua relação com as coisas profundas e difíceis com as quais estabelecem sua intimidade, as mesmas atitudes que têm com toda a gente; são ao mesmo tempo familiares, delicados e verdadeiros. (Paul Valéry)
Requiescat in pace.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

A Arte de prodígios de Eugénio Lisboa

Estocolmo, Suécia

A CONSTRUÇÃO DE UM POEMA
por Eugénio Lisboa
                                                          
                                                                    Para Giulia Lanciani
 
"Em Dezembro de 1976, saí definitivamente de África, rumo à Suécia, via Lisboa. Em África começava por essa altura o verão, quente, espesso, húmido, envolvente e propício a uma lassidão prolongada: anunciador de vida, sol, alegria, languidez e algum perigo. O Norte, a Escandinávia, para onde ia e onde cheguei em princípios de Janeiro de 1977, era outro mundo: frio, coberto, fechado – a neve tudo tapava com a sua beleza branca e anestesiante. Saía do fulgor da vida para uma espécie de sanatório confortável, bem organizado e vagamente entorpecedor. Saía um pouco de uma vida intensa para  uma espécie de morte agradável porque o era sem bem o ser. O contraste foi tão violento que quase obliterou a minha memória de tantos anos em que estivera tão feliz e tão vivo. Aquela neve branca, aquele conforto bem arranjado, aqueles alunos bem tratados e vagamente entediados, toda aquela ordem, todo aquele frio exterior exactamente compensado por um tão eficaz aquecimento interior, toda aquela facilidade de ir vivendo embora vivendo pouco – deixavam para trás, num apagamento súbito, radical e inevitável, todo um passado de aprendizagens, aventuras, leituras, amizades e paixões: era como se nada daquilo tudo – que era tanto – tivesse alguma vez existido. A neve, o conforto, a calma – eu ia dizer: a apatia – de tal modo contrastavam com os tempos de vida, calor, criação e perigo que vinha de viver, que corria claramente o risco de me esquecer de toda uma parte importante da minha vida. A vivência desse contraste violento e a consciência dolorosa e forte desse iminente esquecimento desencadearam em mim uma vontade irresistível de registar, de imediato, tudo isso: podia, eventualmente, desaparecer, em mim, dentro de mim, mas o texto ficaria para outros. Mesmo que eu próprio, que tão fortemente o vivera, mais tarde, ao lê-lo, já o não reconhecesse, ou o não reconhecesse com toda a força e evidência que em mim tivera, no momento de o viver – e de o escrever.
Que forma dar-lhe?, foi a pergunta que a mim próprio fiz. Uma carta a um amigo? Uma página de diário? Um pequeno ensaio? Um conto? Mais ambiciosamente: um romance? Um poema? Logo se impôs, como quase inevitável, a ideia de um poema; com a sua linguagem concentrada, intensa, alusiva, metafórica, um pouco (mas só um pouco) enigmática, de algo que se vela mesmo quando se desvela, opaco e transparente, provocador e sedutor. E logo me ocorreu um personagem com quem convivera em Moçambique e que, para mim, personificava esse mundo de “húmida, vegetal espessura” de que vinha para a “neve que faz mal”: José Craveirinha, de quem fora (e ainda sou) amigo, com quem conversara quase quotidianamente e sobre quem escrevera (e, na Voz de Moçambique, publicara o primeiro texto de fundo que, sobre a sua poesia se publicou). Craveirinha seria a referência, a imagem humana que me sustentaria na elaboração do poema e, mais ostensivamente, aquele a quem o poema seria dedicado para que melhor se descodificasse, no poema, o sentido um pouco secreto.
No mesmo momento em que tudo isto congeminava, lia, um pouco ao acaso, textos de Pessoa recolhidos por David Mourão-Ferreira no livro O Rosto e as Máscaras. Muito em particular, o poema “O último sortilégio”, de que um ou outro verso serviu, para mim, de motor de arranque. Pessoa perturba-me, às vezes repele-me, mas frequentemente estimula-me. Quem tem um verso (que provoca) e uma vontade irresistível de “fixar” qualquer coisa – tem um poema. A angústia de ter de escrever, que precede o acto de realmente escrever começou a ser rapidamente substituída pela convicção (forte) de que o poema estava garantido. Uns versos propiciadores (ou fracções de versos) – os de Pessoa -, uma vivência forte e quase intolerável, que se não podia perder nas fragilidades da memória, uma referência aglutinadora e simbólica (José Craveirinha), eis os principais fermentos de que dispunha para consumar a alquimia do poema. Enquanto o não realizasse não teria paz. A neve de um lado a e a verde espessura do outro criavam um diferencial propiciador que o medo do esquecimento (obliteração) ajudava a mover-se em direcção ao poema. Começava a sentir-me melhor, por outras palavras, quase indiscretas, começava a sentir que estava quase salvo. Certas palavras começaram a impor-se: “neve”, “mineral”, “gelado”, para simbolizarem o exílio, a emigração arrefecedora que me caíra em sorte; ou, do outro lado, a “chuva” que “fecundava” a “terra de ouro” e propiciava a “vegetal espessura” de um mundo que ficara para trás... Com esta vontade forte de me salvar, de me não deixar esquecer, apoiado no arranque que  me propiciavam um ou dois versos de Pessoa (também, para mim, símbolo de um certo frio de que  às vezes fujo), munido de alguns vocábulos que na minha cabeça e na minha sensibilidade se impunham obsessivamente, o poema, dentro de mim, construía-se. Construía-se no sentido de lhe faltar só o que era realmente importante: uma linguagem articulada capaz de produzir, nas palavras de Valéry, “algo de novo e de capital importância” (nem que só para mim). E construía-se com uma estranha pressa, como se tivesse receio de se desvanecer pelo caminho se rapidamente se não deixasse agarrar. E foi assim que, numa tarde branca mas sem luz, numa Estocolmo onde lambia feridas arranjadas num paraíso que acabava de perder, foi assim, digo, que, numa espécie de transe e com uma rapidez improvável, compus o poema que abaixo transcrevo e mais tarde (oito anos mais tarde) viria a incluir no meu primeiro livro de poesia. Parecia-me que tinha encontrado, para a minha obsessão, uma articulação necessária e a música adequada, uma espécie de balanço inevitável capaz de me salvar e salvar um pouco de um passado intenso que aquela peculiar e fria latitude ameaçara obliterar.
 
 
NO TEMPO EM QUE, FERNANDO
 
 
Era terra de sol e alegria,
de húmida, vegetal espessura:
ali a minha voz acontecia,
com o ritmo do sangue e da negrura.
 
Agora, a neve branca cobre a estrada,
com seu manto de noite e solidão.
Já, se o círculo traço, não há nada,
se não fora gelada vibração.
 
Era terra de ouro fecundada,
força macha, leal, apetecida.
Era chuva, magia visitada,
era sal, sugestão de força ardida.
 
Agora é só o branco que faz mal
ao filho cujo sal já emigrou.
A vida, agora, é lisa, mineral,
o coração, gelado, sossegou.
 
Estocolmo, 31.0l.77                                                        
 
P.S. - Quando falo em “salvar-me”, estou consciente da modesta relatividade da minha salvação. Salvar-se, na memória dos outros, salvam-se, de facto, muito poucos. Os prodígios não estão ao alcance de todos. Já Borges lembrava, com o acerado da sua lucidez, que “A arte é essa Ítaca/De verde eternidade, não de prodígios”.. Conseguir, a modéstia de uma “verde eternidade”, que só muito de vez em quando viesse a ser capaz de captar a atenção momentânea e errática de algum vasculhador de bibliotecas num futuro remoto e nebuloso seria já compensação que bastasse para o esforço urgente de registo a que me senti chamado naquele dia de inverno branco, não demasiado longe do Polo Norte."
Crónica de Eugénio Lisboa

Nota de Livres Pensantes -. Eugénio Lisboa acaba de parafrasear Jorge Luis Borges para, na sua sempre recatada humildade,  auspiciar atingir a modéstia de uma verde eternidade. Não o conseguiu .  Foi  mais longe. O talento e a monumentalidade rica da sua produção literária ao longo da  vida levaram-no  ao mais alto  patamar da eternidade, onde o verde é sempre florescentemente prodigioso, ou seja, à grande Arte de Prodígios.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Até sempre, Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa,
(Lourenço Marques, 1930- Lisboa, 2024) 

Eugénio Lisboa escrevia diariamente. Era um poeta extraordinário que laborava numa oficina de excelência. Em três anos publicara três livros de poesia e tinha já um outro a juntar-se-lhes. Partiu hoje. A saudade vai encher-nos, mas a sua magnífica obra ficará para sempre. Ler e reler Eugénio Lisboa será sempre um momento de prazer, de descoberta, de aprendizagem.
Homem de uma extrema e aguda lucidez  tinha  um sentido profundo  da precariedade e da efemeridade da vida. Evocamos, com muita dorida emoção,  três sonetos que, distantes no tempo,  o evidenciam. 
Até sempre, Eugénio Lisboa.
AUTOBIOGRAFIA

Uma vida escreve-se devagar,
embora se viva muito depressa:
mal se partiu, já se está a chegar,
mesmo que, no meio, muito aconteça!

Escrevê-la é moroso e complicado:
a memória guarda mas também esquece
e, se parte fica resguardado,
o resto, ingloriamente, fenece!

Escreve-se a vida, pra vencer a morte,
para dar à vida uma outra vida,
fechando-a, enfim, num cofre forte.

No cofre guardada e não esquecida,
pensa quem escreve, mal sabendo
quanto tudo o tempo vai roendo!
                             08.12.2022
Eugénio Lisboa, in Soneto, modo de usar, Editora Guerra & Paz, Abril de 2024
Eugénio Lisboa

 BAGAGEM LIMITADA

Por muito curta que seja a vida,
há nela tantas coisas que acontecem!
E só agora, que estou de partida,
me dou conta de outras que esquecem.

Há ganhos e há perdas no viver:
nem tudo o que se ganha se guarda
e se a memória guarda muito haver,
nem tudo o cuidado resguarda.

No fim, guardamos só o que lembramos,
que é só uma parcela do que fomos..
E é assim: de tudo o que ganhamos

salva-se apenas o que ainda somos,
na hora inevitável de partir:
mas com pouco se faz um bom sair.
                        28.05.2022
Eugénio Lisboa, in Poemas em Tempo de Guerra, Editora Guerra & Paz, Setembro de 2022, p. 86
Eugénio Lisboa, na Livraria Ferin 
LE ROI SE MEURT

Ouvir o anúncio da minha morte
foi como ouvir uma língua estranha:
deram-me um esquisito passaporte,
sem dizerem se é pra vale ou montanha.

Pouco me vale reinar em qualquer Espanha,
a morte quer é haver-se comigo.
Porquê mostrar, a mim, sua gadanha,
achará que sou, pra ela, um perigo?

O que perturba é ela conhecer-me,
parecer saber, de há muito, quem sou,
andar atrás de mim a envolver-me!

Mas agora o momento chegou:
ser rei já muito pouco adianta,
quando a morte me aperta a garganta.
                           01.03.2024
Eugénio Lisboa,( poema inédito)

NOTA: LE ROI SE MEURT é o título de uma notabilíssima peça de teatro, de Eugène Ionesco, que vi, encenada em Paris. Como o título me convinha, roubei-lho. É assim que se faz.

Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa ( 1930-2024)
Morreu Eugénio Lisboa. A nossa inextinguível e sempre celebrada gratidão pelo privilégio de o ter tido entre nós. É com muito pesar e emoção que recordamos este insígne escritor e amigo .
Eugénio Lisboa foi uma das  personalidades  maiores,   senão a mais erudita e sábia, do actual panorama literário e cultural português. Poesia, Crónica, Ensaio, Crítica Literária, Memórias, Diário,  Docência, Diplomacia Cultural e  Gestão  de Companhias Petrolíferas são algumas das áreas a que se dedicou  este homem singular. Engenheiro electrotécnico de formação, Eugénio Lisboa cultivou com argúcia e sabedoria as Humanidades. Não seria um mais brilhante homem da nossa Literatura, se tivesse optado por outra formação académica. Aliou ao sentido claro  e rigoroso da Ciência a beleza de uma subtil sensibilidade humanista  que guindam   a sua elegante escrita a um patamar de excelência. 
Eugénio Lisboa  nasceu a 25 de Maio de 1930, em Lourenço Marques, a capital da  memória, como afirma. Em 1947 , veio para Lisboa, frequentar o IST. Cumpriu o serviço militar em Mafra e Portalegre, onde conheceu José Régio. Licenciado , regressou a Moçambique para ser feliz e, aí,  residir  até 1976.
Em 1977, é colocado na Universidade de Estocolmo, como Professor e coordenador dos cursos de Literatura Portuguesa e responsável do ensino da Língua Portuguesa na Suécia. De 1978 a 1995, vive em Londres, como Conselheiro Cultural da Embaixada Portuguesa no Reino Unido. Em 1995, instala-se definitivamente em Portugal , onde passa a exercer o cargo de Presidente da Comissão Nacional da UNESCO até 1998. Entretanto , foi sendo um académico distinto, leccionando sucessivamente nas universidades de Lourenço Marques, Pretória, Estocolmo, Londres e finalmente Aveiro até 2002.
Recebeu um Doutoramento Honoris Causa  em Letras na Universidade de Nottingham, Inglaterra e outro  da Universidade de Aveiro, em Portugal. 
Tem publicadas várias dezenas de obras ,  quase uma centena, que receberam os mais diversos   Prémios Literários como Prémio da Cidade de Lisboa, Prémio Jacinto do Prado Coelho, Prémio da Literatura Biográfica da APE, Prémio Tributo de Consagração ( 2018).
Homenageado  e celebrado,  foi  distinguido pelo estado português com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1980), da Ordem de Mérito (1993) e da Ordem de Sant'Iago da Espada (2019).
A este grande intelectual,   de que seremos sempre devedores de tantas páginas de grande e profunda riqueza literária, repomos, em jeito de homenagem,  a entrevista que concedeu a este blog ( Livres Pensantes) , no dia do  seu nonagésimo aniversário, 25  de  Maio de 2020.
Eugénio Lisboa

Entrevista

EUGÉNIO LISBOA , UM SINGULAR ESCRITOR UNIVERSAL

Livres Pensantes - Há dez  anos,   na época do  seu octogésimo   aniversário, cerca de 70 personalidades   prestaram-lhe  uma homenagem de que resultou o livro, “Eugénio Lisboa: vário, intrépido e fecundo – Uma Homenagem”.
Otília Martins, professora da Universidade de Aveiro, e Onésimo Teotónio de Almeida, professor da Brown University, foram os organizadores dessa obra. Na introdução, apresentam-no  como um “Leitor omnívoro e possuidor de vastíssima cultura, Eugénio lê furiosamente. Lê de tudo porque tudo se dispõe a aprender. E, se privilegia a literatura, é porque acreditou sempre nela como meio especialmente capaz de penetrar na realidade poliédrica do mundo, feita não apenas de números e ideias, mas também das emoções que a arte permite fundir num todo.”
Terá sido este traço importante da sua personalidade que fez de si um escritor?
Eugénio Lisboa - A leitura de grandes escritores, na adolescência – Stendhal, Tolstoi, Dostoiewsky, Turguenev, Thomas Mann, Anatole France, André Gide, Montaigne, Roger Martin du Gard, Oscar Wilde, Eugene O’Neill, José Régio, António Nobre, Camões, entre outros – foi-me, sem dúvida, um grande incentivo e uma espécie de motor de arranque. Quando estes inesquecíveis artistas nos atingem, se o desejo de escrever já então nos desassossega, sonhamos com o dia em que nos poderemos parecer com eles…  Quando li o cintilante teatro de Oscar Wilde – teria os meus quinze anos – imediatamente achei intolerável não poder ser tão brilhante como ele… E nunca esquecerei de que, ao ler a extraordinária novela – Tonio Kröger – , de Thomas Mann, pensei que aquela obra tinha sido escrita para mim, e que, de qualquer maneira, me tinha sido roubada.  A leitura de Le Rouge et le Noir, de Stendhal, numa magnífica tradução de José Marinho, despertou em mim um desejo incontrolável de escrever um romance com a escrita límpida, acerada e voltaireana do grande romancista francês. E o mais grave é que empreendi a escrita de um romance com o título revelador de História de Julião… Não me pergunte o que fiz dele. A diáspora deve ter-lhe dado o destino que merecia!
Mas não só os gigantes nos perturbam e influenciam. Não estaria a ser honesto, se ocultasse que, teria eu os meus treze anos, a leitura do Fel, de José Duro, me levou a querer emulá-lo, pondo-me a escrever sonetos horrivelmente fúnebres. Não tem, afinal, importância. Goethe, do alto da sua grandeza, confessava que tudo o influenciava, até os poetas de quinta categoria…
João Gaspar Simões confessou que o encontro com José Régio foi decisivo para a sua vida literária. Creio que aconteceu o mesmo com Eugénio Lisboa . A aproximação com José  Régio  tornou-se capital também para si?
Eu diria, antes, que foi capital, para mim, não o encontro com José Régio, pessoa, mas sim o encontro com a sua obra de poeta, ficcionista, dramaturgo e ensaísta. Quando, em 1954, conheci, pessoalmente, o escritor, em Portalegre, já conhecia praticamente toda a sua obra publicada até então e já sofrera o forte abalo provocado por esse grande artista. O encontro pessoal com ele foi importante, no entanto, por duas razões: primeiro porque o conhecimento do homem veio confirmar, de modo impressivo, o que a obra já me proporcionara. Valéry aconselhava a nunca confundir o homem que fez a obra com o homem que a obra faz supor. Às vezes têm-se grandes desilusões, quando se conhece o homem por detrás da obra. Benjamin Crémieux, por exemplo, dizia ironicamente, que era um grande privilégio não se ter conhecido Marcel Proust em pessoa… A segunda razão por que foi importante, para mim, privar pessoalmente com Régio, durante um ano, em Portalegre, foi que, ao grande escritor se ficou a dever ter-me eu iniciado na escrita ensaística. Foi um acto de grande generosidade e atrevimento da sua parte.

Escreveu muito apesar de tanta diáspora e de uma dedicação extrema a todas as funções laborais que desempenhou. Como conciliava essa dedicação à escrita com uma actividade profissional tão exigente?
Não me foi difícil conciliar a minha actividade profissional com a escrita, porque nenhuma delas me aborrecia. Ser técnico não era, para mim, menos estimulante do que ser escritor. No liceu fui um óptimo aluno de matemática e de físico-química e gostei sempre, igualmente, de literatura. Claro que, durante os cerca de 20 anos que trabalhei como gestor de petróleos, isto condicionava muito o tempo disponível para o exercício da literatura. A minha actividade literária, nesses vinte anos, em Lourenço Marques, foi portanto mais reduzida. Fiz o que pude. Só a partir de 1977 comecei a dedicar-me mais intensamente à escrita literária.

Escreve sempre à mão e  em cadernos iguais.  Não faz rasuras ou o que  escreve é já o texto final?
Qual o destino que pensa dar a todos esses cadernos? É organizado na gestão dos seus escritos por publicar?
Escrevo sempre à mão e só depois teclo para o computador. Faço correcções tanto no manuscrito como depois no texto já passado ao computador. Comecei já relativamente tarde a servir-me do computador. Nessa altura, estava já tão habituado a escrever à mão, que não colhia prazer em escrever directamente para o computador. Um crítico inglês, fazendo a recensão de um livro de ensaios da admirável Cynthia Ozick, observou que o livro era tão bom, que só podia ter sido escrito à mão… Eu sou muito dessa escola de pensamento!
Quanto ao destino dos meus manuscritos, receio ter de dizer que sou muito desleixado. Da Biblioteca Nacional, já há muito mos pediram, mas eu vou arrastando os pés. Confesso que me não preocupa muito o destino desses papéis.
2018, Eugénio Lisboa, com Jorge Martins e Ernesto Rodrigues,
 no lançamento do seu livro "Aperto Libro -Páginas de Diário I -1977-1990"
Acredita na grafologia? Que pode dizer a sua caligrafia de si?
Sim, acho que a grafologia tem fundamentos sérios. Quanto ao que a minha diz de mim, terá que perguntar aos grafólogos. Eu nunca o fiz.

Que é para si escrever? Um acto de realização pessoal? Uma pulsão incontrolável , um  indelével prazer ou o seu “canto profundo”?
Escrever é, para mim, usar a escrita, com um máximo de prazer, para explorar, interminavelmente, os meus próprios assombros. A tónica no prazer é fundamental. Quem escreve sem prazer não comunica prazer aos outros. Prazer e clareza. Não cultivo a opacidade como um valor. Dizia Wittgenstein que, quando se não consegue exprimir um pensamento com clareza, é porque esse pensamento ainda não está maduro para ser expresso. Dar isto de purga a muita gente…

Utiliza epígrafes em todos os seus textos. Ao lê-lo, sentimo-las sair numa apropriação clara , rica,  exemplar, na exacta medida. São o sinal de um espírito sagaz , culto, quase enciclopédico. Como nos explica essa circunstância?
A epígrafe é simplesmente uma chamada de atenção ao leitor. Está ali para lhe dizer: tem isto em mente, em tudo quanto vais ler a seguir. Quando se leu muito, ocorre-nos facilmente aquela frase que encapsula de modo perfeito o miolo do que vamos escrever.
Livro premiado, em 2000, com o Prémio Jacinto do
Prado Coelho (Associação Internacional dos Críticos Literários).
Tem  títulos das sua obras em Latim , outros retirados de livros de conhecidos  autores. António Osório considera  um  título “ a quinta essência, no sentido medieval , ou seja,  a concentração mais pura obtida  de um corpo. Não só os títulos  dos livros, também os dos poemas devem ser extracto, irradiação, âmago liberto.”
O que é, para si, o título de um livro? Concorda com esta definição? 
Um título é um anúncio: anuncia, de um modo não demasiado preciso, mas muito assertivo, a ideia geral da obra. Por exemplo: Adeus às Armas, Por Quem os Sinos Dobram, As Vinhas da Ira, Em busca do tempo perdido, Histórias de Mulheres, Os Maias, Só, A Comédia Humana.
Alguns títulos são particularmente felizes e expressivos. Régio dizia que quem encontra um título encontra um livro

“Acta est Fabula”, a sua obra memorialística,  está distribuída  por sete volumes. Como é que se preparou para a redacção desta grande obra?
Fui fazendo, ao longo de muitas semanas, uma lista o mais completa possível, de personagens, lugares, situações, acontecimentos da minha vida escolar e outra, leituras, filmes que vi, exposições, peças de teatro, etc. Só depois de estar convencido de que me não esquecera de nada de essencial é que me pus a redigir o texto das minhas memórias. Já depois de publicadas, verifiquei que omitira muita coisa, mas nada há agora a fazer.
Depois, organizei a obra em volumes: o primeiro, para os meus primeiros dezassete anos em Lourenço Marques; o segundo, para os meus anos de Lisboa e Portalegre; o terceiro, para os subsequentes vinte e um anos de Lourenço Marques, após o regresso de Lisboa, em 1955; o quarto, para os anos de peregrinação (Joanesburgo, Paris, Estocolmo e Londres) e o quinto, regresso a Lisboa.
1973, Eugénio Lisboa com a mulher, Maria Antonieta ,
em Port Roya
l
“Epílogo” é o último volume com que termina  as Memórias. Não o tinha previsto. Trata-se de um livro muito  doloroso. Um livro que comove e nos enche de lágrimas.  Por que razão decidiu escrevê-lo?
Em princípio, acabaria as minhas memórias com o quinto volume. Mas, entretanto, deu-se o falecimento de minha mulher, Maria Antonieta, que muito profundamente me abalou. Fora minha inesquecível companheira de vida durante 57 anos. Achei que omitir esse infausto acontecimento nas minhas memórias, não fazia sentido. Foi muito doloroso escrever esse Epílogo, mas senti que tinha de o fazer.

Não é religioso. Não é crente. É ateu ou agnóstico, conforme  afirma no terceiro volume das suas Memórias,  Acta Est Fabula. Aí também escreveu (cito): “ a religião é um tema legítimo , como a guerra ( que também não aprecio) , ou o ódio (que abomino), ou a inveja ( que acho odiosa), ou a luta de classes ( que preferia que não fosse necessária) , ou o racismo ( que detesto).”
O que pretendia transmitir com estas afirmações?
O que quis dizer teve que ver com isto. Muita gente que conheci, e até gente inteligente e culta, estranhava que eu, agnóstico admirasse tanto a obra de José Régio e lhe dedicasse tanto do meu tempo. Creio mesmo que muita da reserva que alguns críticos de esquerda lhe punham tinha que ver com esse carácter “religioso” da obra do grande escritor. Acontece que Régio nem era crente e muito menos católico. Mas que o fosse. A grande pintura, a grande música, a grande escultura, a grande literatura não têm grandes obras impregnadas de preocupações religiosas? Vamos desprezar aquele que considero o mais belo quadro do mundo – A Virgem Santa Ana e o Menino, de Leonardo da Vinci – só por que trata de personagens da tradição religiosa cristã? Se se não objecta à música religiosa de Mozart ou Beethoven, por que se há-de fazer boquinhas à poesia com preocupações da área da religião, de Régio? Acho que há nisto um enorme preconceito e os preconceitos tornam pouco inteligentes as pessoas inteligentes… Todas as vivências e conflitos humanos podem ser temas de obras de arte. Eu não preciso de ser católico para admirar a poesia de Claudel, nem preciso de aceitar a religião dos antigos gregos, para admirar Ésquilo ou Sófocles. Por favor não abram uma excepção só para o Régio…
1989, Eugénio Lisboa com David Mourão-Ferreira
Não faz da análise, do ensaio , da crítica literária um exercício à mercê das correntes ocasionais que atacam e enfermam  a abordagem textual. À   linguagem abstrusa  dos  seguidores dos múltiplos –ismos contrapõe a simplicidade , a clarividência de um espírito culto, inteligente e erudito. É o texto que lhe interessa. Há luminosidade e clareza na sua escrita.  Concorda com a afirmação de  que alterou o  modo como se fazia crítica literária, em Portugal?
Não concordo, porque antes de mim houve notáveis críticos e ensaístas que sempre visaram a clareza, a atenção ao texto, a ausência de preconceitos ideológicos e a despreocupação com “ismos” e escolas. António Sérgio, José Régio, Jacinto do Prado Coelho, David Mourão-Ferreira e José Palla e Carmo foram notabilíssimos críticos e ensaístas literários. Não gostaria de excluir Mário Sacramento, ensaísta de grande valor, que se não deixou dominar, sendo comunista, por qualquer preconceito ideológico.

Com desassombro, impoluto  mas intrépido nunca se reservou ao silêncio, quando presta ou lhe é exigida uma avaliação. A frontalidade , a  independência intelectual marcam-no. Utiliza aquele falar  franco característico de Stendhal. Como lida com a soberba intelectual e com a mediocridade encapotada que grassam no mundo académico e entre a gente das Letras?
Lido mal. A soberba e arrogância dos que julgam descobrir no último “ismo” a solução definitiva para todos os problemas presentes e futuros é geralmente sinal de falta de cultura e de inteligência. A mediocridade é sempre atrevida, mas a mediocridade ressentida é um perigo público. Infelizmente, a ignorância e a falta de respeito por tudo quanto é sério andam por aí à solta nas redes sociais e adjacentes. Mas há quem lhes dê guita. Há por aí proclamados génios, aplaudidos, premiados e traduzidos, que são um autêntico susto.

A voz de EL tem espessura e transmite confiança numa consistência fundamentada e sábia. Considera que foi um continuado espanto, que, desde muito jovem, o desafiou, que  fez de si o celebrado escritor e erudito homem de  cultura  de hoje?
Julgo que o espanto é o motor de arranque para todo o progresso do indivíduo. Quem não se espanta não descobre. Há aqueles para quem tudo é evidente. Ficam para sempre parados e não descobrem nada. E há aqueles, para quem tudo merece ser escarafunchado, para quem as evidências dos outros são para eles cheias de alçapões. Há grandes virtudes em se ficar especado, em não se compreender nada à primeira vista. Os “rápidos” nunca descobrirão uma teoria da relatividade.
2002, Eugénio Lisboa com George Steiner,na Fundação Luso-
-Americana, a ser cumprimentado por Vasco Graça Moura.
Não tenho a certeza se foi sobre David Mourão-Ferreira  de quem alguém  disse que ele tinha dedicado mais tempo às obras dos outros do que à sua própria obra. Apropria-se o mesmo a Eugénio Lisboa. Entregou o seu tempo aos  outros. Tem uma volumosa obra dedicada ao estudo dos mais variados  textos de muitos escritores nacionais e estrangeiros. É o mais notável crítico literário da actualidade.
Foi uma escolha deliberada?  Não sente que limitou a sua própria produção literária? 
Se calhar, sim, limitei. Se pudesse recomeçar, talvez me apetecesse seguir um percurso diferente. Mas como nunca andei muito com os olhos numa posteridade em que não acredito grande coisa, fui fazendo o que fui fazendo. Em todo o caso, até a falar dos outros, podemos ser criativos. Há mais criatividade num grande ensaio de George Steiner do que em noventa e nove por cento do que por aí se apresenta como “criação” literária. Seja como for, um dia estaremos todos mortos.

Será , por isso, que confessou ter ainda por realizar a escrita de um romance? Sei que já o iniciou, há algum tempo?  Pensa completá-lo?
Para ser franco, tenho as minhas dúvidas. Nesta altura do campeonato, falece-me a pedalada. Há muita narrativa nas minhas memórias e nos meus ensaios.

Como leitora , acredito que seria um dos melhores romances do século. Por  que  motivo optou por o não escrever ?
Será então o grande romance do século que nunca foi escrito…

Quem lê  as suas memórias fica preso à narração. É como se de um romance se tratasse.  Não sente ter essa vocação narrativa?
Sem dúvida que sinto. Ela está presente, como disse atrás, nos meus ensaios e nas minhas memórias. Quem primeiro, com muita argúcia, chamou a atenção para isso, ainda em Lourenço Marques, foi a minha amiga Maria de Lourdes Cortez.
1986, Eugénio Lisboa com Fernando Namora,
na sua casa de Londres.
Que é para si um bom romance ?
É um romance que leio e releio durante toda a minha vida, descobrindo nele, de cada vez que lhe pego de novo, coisas novas. Um romance que, uma vez mergulhado nele, me deixa cortado de toda a realidade exterior. Um romance que me deixa sonambulizado, para usar uma expressão de Ortega y Gasset. Por acaso, até não faz mal que o romance conte uma boa história e tenha personagens inesquecíveis que ensinem muito sobre a vida e sobre mim próprio. Um romance que, falando de coisas que eu julgo conhecer, mesmo assim me surpreende. Um romance que eu gostaria muito de ter escrito. Está-se mesmo a ver que não estou a falar do Ulisses, de Joyce…

Ao ler o romance “ Le rouge et le noir” , de Stendhal, enamorou-se de  Madame de Rênal  Que idade tinha? A que atribui esse enamoramento, se era apenas uma criança?
Tinha catorze anos quando li o romance de Stendhal. Apaixonei-me por ela, logo no princípio do romance, quando ela se dirige à portinhola da casa e, perante o jovem seminarista, Julien Sorel, pergunta, com doçura: “Que voulez-vous ici, mon enfant?”  Madame de Rênal é, ao mesmo tempo, beleza, candura, paixão e coragem. E sempre a vi como um misto improvável de mãe, irmã, amante e amiga. Só à hora da morte é que o pateta ambicioso do Julien Sorel se apercebe de que aquela linda mulher era ouro puro.

Era uma criança sonhadora, ávida de leitura e tímida.  Esses traços da sua personalidade tiveram alguma repercussão na sua vida? Pode precisar.
Tiveram, claro, uma repercussão muito grande. A timidez e o afinamento cultural têm imensas consequências. Vou indicar só uma: o meu horror ao poder e aos que gostam do poder. Seja que poder for: político, literário, etc.
1937, Eugénio Lisboa com o irmão Fernando, falecido em 1944,
em Lourenço Marques.
Quando o seu irmão morreu, era ainda criança. Nem sempre a compreensão do espaço de cada um foi entendida. Tem memória do que sentiu nessa época? O contacto com a morte  marcou-o?
Marcou-me profundamente. Tinha catorze anos e ver o meu irmão num caixão a ir para baixo da terra apavorou-me. Depois, naquela época, havia o luto, durante um ano. Não se ia ao cinema, nem a festas, nada. Quem me salvou foi o meu amigo José Tiago Oliveira, que não só me facultou a leitura de um ensaio do poeta Luciano, sobre o luto, como também a leitura dos trágicos gregos que, de algum modo, me “purgaram”. Além disso, com a sua frontalidade característica, disse aos meus pais que se deixassem dessas coisas e nos permitissem que continuássemos a ir ao cinema.  Eles acederam logo. Mas este encontro com a morte, tão perto de mim, deixou-me ver que afinal éramos mesmo mortais.

O seu ensaio “ Morrer de velho”   é uma obra de arte. Publicou-o em Novembro de 1963, no semanário  “ Voz de Moçambique”, sob o pseudónimo A. Vieira  de Sá. Que motivo o levou a esconder a sua identidade?
Nesse ensaio eu glosava, com alguma crueza, à boleia de um notabilíssimo romance de Montherlant, o problema da velhice e da morte. Ora eu tinha alguns amigos idosos, que eram pessoas cultas e que iriam provavelmente ler o jornal em que o meu texto era publicado. Para evitar embaraços de parte a parte, resolvi ocultar-me por detrás de um pseudónimo. O que até me custou, porque eu prezava particularmente esse texto e, em princípio, até gostaria de que as pessoas, em geral, soubessem que era eu o autor.
Eugénio Lisboa , em Paris, no Quai Voltaire-nº25,
residência de Henry de Montherlant, um dos seus "eleitos".
Celestino Marcilla é a personagem principal do romance ”Le Chaos et la Nuit” de Henry de Montherlant, um dos seus escritores de culto. Quando começa o romance , esta personagem tem 67 anos e está prometida à morte, sem que o saiba. Qual foi o fascínio que ele exerceu em si para o levar a escrever , aos 33 anos, este  fabuloso ensaio sobre a morte, “Morrer de velho”?
Embora não morresse velho, a morte de Reinaldo Ferreira abalou-me muito. E, depois, houve, por essa altura, a morte de alguns idosos à minha volta, incluindo um velho jardineiro negro, que trabalhava para a firma em que eu estava. Foi nesta altura que comprei, em Paris, o romance de Montherlant, Le Chaos et la Nuit, em que o autor se purga, com uma lucidez infernal, do pavor do envelhecimento e da morte. Tudo isto se conjugou para me dar um desejo irresistível de me purgar a mim mesmo…

O que o atrai nos escritores do século XX, como Gide, Camus, Montherlant, Proust, Hemingway, Régio, Wilde, Orwell e outros tantos de quem foi e é fervoroso leitor?
São todos eles escritores que souberam correr grandes riscos, na vida e na obra. Grandes perscrutadores da condição humana e cada um deles portador de um estilo pessoalíssimo que veio enriquecer o património universal.
Talvez o menos cuidadoso em matéria de estilo tenha sido Proust, porque, como ele próprio admitiu, não podia dar-se ao luxo de investir muito tempo a afeiçoar a prosa porque sabia que a morte se aproximava. Em todos eles houve uma grande integridade artística. A prosa de Orwell, limpa, clara como cristal e despojada de quaisquer enfeites, é simplesmente admirável e inesquecível. Mas são todos eles grandes senhores da arte de escrever.
1986, Helder Macedo, Eugénio de Andrade e
Luís Miguel Nava, na casa de Eugénio Lisboa , em Londres.
1982, José Blanco e Mécia de Sena, viúva de Jorge de Sena,
amigo de Eugénio Lisboa, na casa deste último , em Londres.
Em poesia, utiliza a métrica  e a forma  com extraordinária perfeição. Salta do soneto para a redondilha  de um só fôlego.
Por que razão preteriu a poesia em prol de uma provada prosa de excelência, embora tenha publicados dois livros de poesia que foram premiados?
Não preteri. Fui escrevendo um ou outro poema, mas, de facto, uma vez que se domina a oficina poética, não me apeteceu “explorar o sucesso”, como se diz em linguagem militar. Sabendo como funcionava a máquina, por dentro, não quis aproveitar-me. Não vi vantagem em publicar um livro por ano. No fundo, o que fica, mesmo dos melhores é, com muita sorte, meia dúzia de poemas que o ouvido não esquece.
1989, Eugénio Lisboa com Craveirinha no Café Continental,
em Lourenço Marques
Sei que neste tempo de peste, um tempo diferente e inesperado, tem produzido, quase diariamente, poemas em métrica e forma variadas. Será que deixou acordar , de novo, o poeta que há em si? Ou é o tempo , que reduz e limita,    o compulsa ao verso que tão bem constrói?
Talvez o confinamento tenha ajudado. E apeteceu-me de alguma forma ajudar a animar os espíritos vergados pela hipocondria. Foi uma espécie de desafio e de dever cívico: levantar o ânimo em tempo de peste. Durante uma peste avassaladora, em Londres, Shakespeare retirou-se para o campo e aproveitou o retiro para aperfeiçoar o texto das suas peças. E Pascal aconselhava-nos a fazermos um bom uso das doenças. Simplificando: deu-me para aí!

Como foi para si este tempo de peste? Tinha imaginado que esta hecatombe se abateria sobre  todo o mundo?  Se tivesse de a traduzir apenas numa frase como o faria?
Foi desmotivador, ao máximo. Não era este fim de festa que eu esperava ter no final da minha vida. Viver cercado por um inimigo invisível, insidioso e altamente mortífero, para o qual se não vê fim rápido, não é grande petisco. Vivemos num mundo extremamente perigoso e liderado, infelizmente, por asnos de grande gabarito.

A quem daria o título de maior estadista  desta nossa era? Que critério utilizou?
Muito provavelmente, Franklin Delano Roosevelt. Como um dia observou o escritor John Steinbeck, a seguir ao terrível desastre que foi o grande “crash” de 1929, só com a entrada em cena de Roosevelt, apareceu alguém que realmente começou a preocupar-se com os desafortunados da vida. Foi um homem de coração e de visão.

Se pudesse escolher a época e o século para viver, qual escolheria? Pode justifcar.
Escolheria o século XX, que foi aquele em que nasci. Por ser aquele em que o avanço da ciência nos deu uma vida de melhor combate à dor e à doença. E foi o século de uma nova grande arte: o cinema.
1982, Eugénio Lisboa com Manoel de Oliveira,
na sua casa de Londres
O fascínio pelos livros e  pelo cinema acompanham-no desde sempre.  Em Moçambique, fundou o Cineclube de Lourenço Marques. Pode falar-nos dessa relação com o cinema ao longo da sua vida?  Quem considera ser o mais brilhante realizador de sempre?
Muito cedo na vida, teria para aí cinco anos, comecei a ir a um cinema novo que se inaugurou no bairro limítrofe do Alto Mahé, em Lourenço Marques. O cinema chamava-se Cine Variedades e foi lá que vi, fascinado, os filmes de “cowboys”, com o Tom Mix, que foi um dos grandes ídolos do público de então.  Aí vi também, com fascínio não mitigado, os filmes de Tarzan, com o inesquecível  Johnny Weissmuller. Depois, no Scala, no Gil Vicente (menos) e no Varietá, enchi o papinho e fui afinando o gosto.  Vi filmes do Orson Welles, do Hitchcock, do John Ford, Robert Siodmak, e por aí fora. Incluindo o mítico Casablanca, que em Moçambique não foi censurado. O cinema cedo se me tornou um alimento essencial e uma arte maior, ao lado das outras Artes. Não fundei cineclube nenhum, mas ajudei a fundar dois e para eles trabalhei bastante, comentando filmes para os sócios e escrevendo artigos para a revista do cineclube de Lourenço Marques. Como estudante, em Lisboa, ia regularmente ao cinema e não me terá escapado nenhum filme de qualidade, fosse ele americano, inglês, francês, italiano ou alemão. E foi sempre assim pela vida fora. Actualmente, vou menos ao cinema, porque não gosto de ir sozinho. Mas sempre vou vendo ou revendo algum filme em casa.
Seria para mim muito difícil destacar um único realizador entre os vários que ponho no topo da escala. Até porque se correm riscos grandes. Ainda há pouco fiquei estarrecido quando soube que um júri qualquer seleccionou o filme de Hitchcock, Vertigo, como o melhor de sempre, destronando o célebre Citizen Kane, de Welles. Admiro Hitchcock, como um senhor que sabe muito de cinema e que mete medo às pessoas com muita eficácia, mas não consigo estar de acordo com o meu querido Truffaut, quando este vê nele magnos e transcendentes significados. Admiro diferentes realizadores por diferentes razões. Mas, de certo, uma curta e exigente lista dos melhores não deixaria de fora Eisenstein, Jean Renoir, Visconti, Kubrick, John Ford, Orson Welles, Kurosawa , Terence Malick,  Ingmar Bergman para não falar nesses dois génios do cómico mudo, Charlie Chaplin e Buster Keaton. Isto deixa de fora uma quantidade de outros que têm feito as minhas delícias, mas a minha “short-list” não deve andar muito longe de ser aquela que indiquei. Desses, escolher um – ser-me-ia impossível.

Qual é a obra que lhe deu mais prazer escrever?
O ensaio “Morrer de Velho”, o meu livro “José Régio – A Obra e o Homem”, alguma poesia e as minhas memórias.
2019, Eugénio Lisboa, na Folio, em Óbidos
O que pensa do panorama literário actual em Portugal?  E no mundo?
Parece-me bastante desorientadora, com a promoção desvairada de gente menoríssima a píncaros inimagináveis.
Perdeu-se completamente o sentido das proporções e andam a inventar-se escritores que me fazem perder o sono. Assim, não.

Considera que , na actualidade, a Cultura está mais enriquecida? Existem grandes homens da Cultura, nesta nossa era? Quer nomear algum?
Grandes homens da cultura nunca há muitos em qualquer época. Mas poderia citar, por exemplo, o Professor Aguiar e Silva, como um grande personagem da nossa cultura.
Estão já editados dois volumes da sua obra diarística “Aperto Libro”. Quando sairá o próximo volume? E  em  quantos volumes prevê a sua edição?
Tenho dois volumes já prontos para publicação e um terceiro em fase avançada. Se tudo estivesse normal, publicaria um volume ou dois este ano. Mas com a pandemia tudo se complicou. Ver-se-á.

Em “ Crónica dos Anos da Peste” tem um extraordinário ensaio sob o título “Artista é sempre plural” . Da  explicitação dessa tese, passo a citar  algumas frases :” todo o grande artista , todo o artista autêntico, seja qual for a espécie de humanidade que aparentemente subjaz à sua obra, é sempre muito mais  do que ele próprio; falando do que parece particular, ele não sabe visar senão o que é  universal ( nem há outro modo  de eficazmente se atingir o universal a não ser por via do particular- em arte).”
Poderia continuar a citá-lo. Não o faço porque todos aqueles que  tiveram o prazer de o ler sabem da universalidade da sua obra. Fez Arte. Na arte, o homem singular torna-se plural.
Assim é Eugénio Lisboa , um singular  escritor universal, a quem muito agradeço esta entrevista.