terça-feira, 20 de agosto de 2019

Um mundo sem fronteiras

A ideia de um mundo sem fronteiras 
Por Achile Mbembe
"A utopia da livre circulação entre os países é hoje solapada pelo reforço das restrições de movimento que reproduzem e intensificam a vulnerabilidade de grupos estigmatizados e mais marcados racialmente
A capacidade de decidir quem pode mover-se, quem  pode  estabelecer-se onde e sob quais condições, ocupa cada vez mais o centro de lutas políticas por soberania, nacionalismo, cidadania, segurança e liberdade. Com a expansão colonial do ocidente, e de modo mais decisivo com o advento do capitalismo, a raison d’être da fronteira  relaciona-se a questões­-chave como: a quem pertence a terra? Quem tem o direito de reivindicar partes dela e os vários seres que nela habitam? Quem determina a sua distribuição ou divisão? Ao enquadrar a questão da fronteira dessa forma, estou a tentar mostrar que o poder da fronteira está na capacidade de regular as múltiplas distribuições das populações – humanas e não humanas – sobre o corpo da terra, e, assim, afectar as forças vitais de todos os tipos de seres.
No século XXI, torna-­se evidente um desejo global renovado dos cidadãos e de seus respectivos Estados por um controle mais rígido da mobilidade. Para onde quer que se olhe, o impulso é em direcção ao cerco ou, em todo caso, a uma dialéctica mais intensa de territorialização e desterritorialização, de abertura e fechamento. Ganha força a crença de que o mundo seria mais seguro se ao menos os riscos, as ambiguidades e as incertezas pudessem ser controladas, se ao menos as identidades pudessem ser fixadas de uma vez por todas. Técnicas de gestão de risco estão se tornando, cada vez mais, um método para governar a mobilidade. Sobretudo na medida em que a fronteira biométrica se expande para múltiplos domínios, não apenas na vida social, mas também no corpo, o corpo que não é meu.
Gostaria de prosseguir nessa linha de argumentação sobre a redistribuição da terra. Não apenas por meio do controle dos corpos, mas do controle do movimento em si e de seu corolário, a velocidade, pois é a isso que as políticas de controle migratório estão de facto relacionadas: controlar os corpos, mas também o movimento. Mais especificamente, quero investigar se, e sob quais condições, poderíamos reengendrar a utopia de um mundo sem fronteiras, e, por extensão, reengendrar um mundo sem fronteiras, uma vez que, pelo que sei, a África é parte do mundo. E o mundo é parte da África.
É importante levar em consideração que a questão de um mundo sem fronteiras é uma intenção obviamente utópica. Desde a sua origem, o “movimento”, ou mais precisamente “a ausência de fronteiras”, tem sido central para várias tradições utópicas. O próprio conceito de utopia refere-­se ao que não tem fronteiras, a começar pela imaginação em si. O poder da utopia consiste na capacidade de representar a tensão entre a ausência de fronteiras, o movimento e o lugar, uma tensão – se observarmos com cuidado – que marcou as transformações sociais na era moderna. Essa tensão continua nas discussões contemporâneas sobre processos sociais baseados no movimento, especialmente a migração internacional, as fronteiras abertas, o transnacionalismo e até o cosmopolitismo. Nesse contexto, a ideia de um mundo sem fronteiras pode ser um recurso poderoso, embora problemático, para o social, o político e até mesmo para a imaginação estética. Por causa da actual atrofia da imaginação utópica, o espírito do nosso tempo foi colonizado por imaginários apocalípticos e narrativas de desastres cataclísmicos e futuros desconhecidos. Mas que política as visões do apocalipse e da catástrofe engendram, se não uma política da separação, em vez de uma política da humanidade, de espécies começando a existir plenamente? Porque nós herdamos uma história em que a norma é o sacrifício recorrente de algumas vidas para a melhoria de outras, e porque estes são tempos de medos profundamente enraizados, incluindo o medo de um planeta dominado por outras pessoas de raças diferentes; por tudo isso, a violência racial está amplamente codificada na linguagem da fronteira e da segurança. Como resultado disso, as fronteiras contemporâneas correm o risco de se tornarem lugares de reforço, reprodução e intensificação da vulnerabilidade para grupos estigmatizados e desrespeitados, para os mais marcados racialmente, cada vez mais dispensáveis, aqueles que, na era do desamparo neoliberal, pagam o preço mais alto pelo período em que mais se construíram prisões em toda a história humana. Aqui me refiro à prisão, às paisagens carcerárias de nosso mundo, precisamente como a antítese do movimento, da liberdade de se mover. Não há oposição mais dramática à ideia de movimento do que a prisão. E a prisão é uma característica-­chave da paisagem dos nossos tempos.
Ao propor um reexame da questão de uma África sem fronteiras e de um mundo sem fronteiras, gostaria de manter distância dos tratamentos dominantes que esse assunto tem recebido. Isto é, sob o signo de Kant e a  sua promessa de um cosmopolitismo sem limites, e sob o signo de um individualismo liberal visto como antídoto para os impulsos fascistas arraigados na governança e na burocracia europeias. Embora pareçam dois mundos diferentes, ambas as abordagens são articuladas em torno do conceito das quatro liberdades.

AS QUATRO LIBERDADES DE MOVIMENTO
No pensamento liberal clássico, existem três liberdades fundamentais: antes de tudo, a liberdade de ir e vir. Dentro da liberdade de ir e vir, existe a liberdade de movimentação do capital, a maior prioridade. Mas, uma vez que não há capital sem bens, existe a liberdade de movimentação dos bens. A terceira é a dos serviços, e, especialmente nestes nossos tempos, a liberdade de movimento daqueles que podem prestá-­los. Essas são as três liberdades fundamentais; a quarta é a liberdade de movimento das pessoas. Os compromissos tradicionais com a ideia de um mundo sem fronteiras visavam precipitar o advento dessa quarta liberdade. De acordo com essa configuração, num mundo sem fronteiras haveria liberdade de movimento para: o capital, os bens, os serviços e as pessoas. Essa movimentação, essa liberdade de movimento não seria restrita ao núcleo de países ou Estados economicamente ricos, como é o caso actualmente. O Tratado de Schengen,1 por exemplo, inclui apenas um núcleo de países europeus. De facto, se  tem um passaporte americano, basicamente pode ir aonde quiser. O mundo pertence-lhe. Mas não é assim que funciona para todo habitante do nosso planeta. Na configuração que mencionei, a quarta liberdade, a capacidade de se mover pelo planeta, não estaria mais restrita a europeus e americanos. Seria um direito radical que todos os indivíduos teriam pelo simples facto de serem humanos. Um direito estendido aos pobres da terra. Voltamos sempre à questão da terra. Não haveria vistos, em algumas instâncias da quarta liberdade de movimento não haveria cotas, e nenhuma categoria bizarra na qual se enquadrar. Seria possível simplesmente pegar a estrada, um avião, um trem, um barco, uma bicicleta. O direito de não ser discriminado seria estendido a todos. Nos Camarões, até o início dos anos 1980, era possível viajar para a França apenas com o cartão de identidade. A maioria das pessoas ia à França e voltava. Não iam porque queriam se estabelecer lá. A maioria das pessoas quer viver no lugar ao qual “pertence”. Mas querem poder ir e vir. E é mais provável que vão e venham quando as fronteiras não são hermeticamente fechadas. Logo, o mundo sem fronteiras imaginado pela quarta liberdade de movimento é baseado em duas premissas: o direito à não discriminação e os arranjos circulatórios e pendulares de migração.
Para elucidar ou apresentar de modo diferente as questões de um mundo sem fronteiras é preciso contrastar dois paradigmas. Examinar a ideia liberal de um mundo sem fronteiras por meio do conceito de liberdade de movimento, e contrapô-­la aos modos como se compreendia a movimentação no espaço da África pré­-colonial. O contraste entre esses dois paradigmas nos dará, espero, recursos conceituais para expandir o projecto utópico de um mundo sem fronteiras.

A TRADIÇÃO LIBERAL INDIVIDUALISTA
Falar em pensamento clássico liberal, sabemos, é extremamente complicado. Estou propondo um arquétipo, que precisa ser desconstruído adequadamente. E aqui vou me referir em especial a uma obra recente, Movement and the Ordering of Freedom, de Hagar Kotef, uma académica israelita que lecciona na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres. Pode usar a imaginação e adivinhar por que uma israelita está interessada nisso. O que Kotef demonstra nessa obra é como o pensamento político liberal, ao imaginar a possibilidade de um mundo sem fronteiras, carregou sempre uma contradição. Seu argumento é que essa contradição decorre da forma como o pensamento liberal compreende o movimento. Ela mostra que, de facto, dentro do pensamento liberal clássico, duas configurações dominantes de movimento entram constantemente em conflito, de modo que, às vezes, uma anula a outra. O movimento aqui é visto, ao mesmo tempo, como manifestação das liberdades e como interrupção, ameaça à ordem. Uma das funções do Estado é, portanto, fabricar conceitos de ordem, estabilidade e segurança que possam ser conciliados com seus conceitos de liberdade e movimento. Essa é a contradição. Kotef argumenta que o Estado liberal clássico é inimigo das pessoas que circulam incansavelmente. Essas pessoas se tornam um outro inassimilável. Não se pode assimilá-­los. Eles estão em movimento constante. Em tudo isso, há uma repercussão colonial. O maior problema do Estado colonial no continente africano, do século XIX em diante, era garantir que as pessoas ficassem no lugar. Foi difícil. Elas circulavam constantemente. Eram “incapturadas”.
Portanto, o negócio do Estado é conseguir capturá-­los. Sem isso, a soberania não significa nada. Soberania significa capturar um povo, capturar um território, delimitar fronteiras. Isso, por sua vez, permite que se exerça o monopólio do território, claro, o monopólio sobre as pessoas nos termos do uso legítimo da força e, o que é muito importante – porque todo o resto depende disso –,   o monopólio sobre a cobrança de impostos. Não se pode cobrar impostos de quem não tem endereço. O Estado vê essas pessoas como inimigas – tanto da liberdade, porque eles não a exercem dentro dos limites, quanto da segurança e da ordem. Não se pode construir uma ordem com base no que é instável.
O mesmo Estado é amigo do movimento autorregulado. Porquê? Porque a liberdade nesse caso é entendida como uma questão de moderação, de autorregulação. Não está associada ao excesso – o movimento excessivo imediatamente invoca problemas de segurança. Kotef então mostra que o movimento não só precisa ser contido por um aparato de mecanismos disciplinares, como deve ser reconciliado com a liberdade e, em certa medida, com o autocontrole. Mas não se supõe que todos os sujeitos tenham capacidade de controlar ou regular a si mesmos. Nem todo mundo consegue se conter. Portanto, alguns movimentos são rotulados como liberdade, e outros são considerados impróprios e percebidos como uma ameaça. Essa é a bifurcação que existe no pensamento clássico liberal. É o espectro que assombra os Estados liberais clássicos, desde aquela época até agora. Ainda não nos livramos desse espectro.
Os Estados liberais clássicos tentaram resolver essa contradição pelo gerenciamento da mobilidade, que está de volta à pauta agora na Europa e até na África do Sul, onde tenho feito alguns trabalhos com o Departamento de Assuntos Internos a respeito da regulação de migrações interafricanas. O conceito-­chave é “mobilidade gerenciada”. Então, no quadro da mobilidade gerenciada, certas categorias da população são vistas o tempo todo como possível ameaça, não apenas para si mesmas e sua própria segurança, mas também para a segurança dos demais. Acredita-­se que essa ameaça pode ser reduzida se os movimentos dessas pessoas forem limitados e se elas forem domesticadas e submetidas a algum tipo de reforma.

O MODELO AFRICANO
No modelo clássico liberal, segurança e liberdade passam a ser definidas como um direito de exclusão. A ordem, nesse modelo, diz respeito à garantia de uma organização desigual das relações de propriedade. Assegurar as fronteiras da nação acompanha a afirmação dos limites da raça. Agora, redefinir os limites da raça nesse modelo exige uma definição apropriada dos limites do corpo; a centralidade do corpo nos cálculos de liberdade e de segurança.
Antes de mais nada, devo dizer que a África pré­-colonial pode não ter sido um mundo sem fronteiras, pelo menos não no sentido em que as temos definido; as fronteiras existentes sempre foram porosas e permeáveis. A função de uma fronteira, na realidade, é ser cruzada. É para isso que elas servem. Não há fronteira concebível fora desse princípio, a lei da permeabilidade. Como atestam as tradições de comércio de longa distância, a circulação era essencial. Era fundamental na produção de formas culturais, arranjos políticos, configurações económicas, sociais e religiosas. O veículo mais importante para a transformação e a mudança era a mobilidade. Não era a luta de classes, no sentido em que a compreendemos. A mobilidade era o motor de qualquer tipo de transformação social, económica ou política. Aliás, era o princípio indutor por trás da delimitação e da organização do espaço   e dos territórios. Assim, o princípio primordial da organização espacial era o movimento contínuo. E isso ainda é parte da cultura hoje. Parar é correr riscos. Precisa de estar em constante movimento. Sobretudo em situações de crise, essa é a própria condição da sobrevivência. Se  não se move, as chances de sobreviver diminuem. Logo, o domínio sobre   a soberania não era expresso exclusivamente por meio do controle de território, marcado fisicamente com fronteiras. Como era, então? Se não se controla um território, como se pode exercer a soberania? Como se pode extrair qualquer coisa, uma vez que, pelo que sabemos, o poder se expressa também, se não essencialmente, por meio de alguma forma de extracção?
Tudo isso era representado pelas redes. Redes e encruzilhadas. A importância das redes e das encruzilhadas na literatura africana é impressionante. Leia Soyinka, leia Achebe, leia Tutuola.2 Estradas e cruzamentos estão por toda parte na literatura deles. As encruzilhadas, os fluxos de pessoas e os fluxos da natureza, ambos em relações dialécticas, porque nessas cosmogonias as pessoas são impensáveis sem o que chamamos de natureza. Isto posto, enquanto a virada do Antropoceno parece uma novidade em parte do nosso mundo hoje, nós sempre vivemos assim. Não é nenhuma novidade. Porque não se pode pensar nas pessoas sem pensar nos não humanos. Leia Tutuola, é um mundo de humanos e não humanos interagindo, agindo uns com os outros. Não quero exagerar. Espaços geográficos fixos, como cidades e vilas, existiam. Pessoas e coisas poderiam estar concentradas num local específico. Esses lugares podiam até se tornar a origem do movimento, e havia ligações entre eles, como estradas e rotas de voo, mas os lugares não eram descritos por pontos ou linhas. O mais importante era a distribuição do movimento entre os lugares. O movimento era a força motriz da própria produção de espaço e deslocamento, se acreditarmos em algumas daquelas cosmogonias. Tenho agora em mente a cosmogonia Dogon, que foi estudada particularmente por Marcel Griaule, ou outras cosmogonias na África Equatorial analisadas por antropólogos e historiadores como Jan Vansina, John M. Janzen e outros. O movimento em si não era necessariamente relacionado ao deslocamento. O mais importante era o quanto os fluxos e suas intensidades se cruzavam e interagiam com outros fluxos, as novas formas que estes poderiam assumir quando se intensificavam. O movimento, especialmente entre os Dogon, poderia levar a desvios, conversões e intersecções. Isso era mais importante do que pontos, linhas e superfícies, que, como sabemos, são as referências cardeais na geometria ocidental. Logo, o que temos aqui é outro tipo de geometria, da qual derivam conceitos próprios de fronteiras, poder, relações e separação.
Se quisermos captar recursos alternativos, como um vocabulário conceitual, para imaginarmos um mundo sem fronteiras, eis aqui uma fonte. Não é a única. Mas queremos reunir os arquivos do mundo em geral, não apenas os documentos ocidentais. Na verdade, os arquivos ocidentais não nos ajudam a desenvolver a ideia de um mundo sem fronteiras. O arquivo ocidental está baseado na cristalização da ideia de fronteira.
Nessa configuração, riqueza e poder, ou a riqueza nas pessoas, digamos assim, sempre superou a riqueza nas coisas. Há duas formas de riqueza. Pode ser rico de acordo com a sua capacidade de aglutinar em torno de si clientes, familiares etc. Ou pode ser rico simplesmente por ter acumulado uma quantidade imensa de coisas. Eis aqui uma dialéctica de quantidades e qualidades. E múltiplas formas de associação sempre estiveram disponíveis. Como alguém se tornava parte de algo? Através de qual janela se pode entrar na casa? Havia muitas formas de associação, não classificações rígidas de que se é ou um cidadão ou um forasteiro. Entre um e outro havia todo um repertório de formas alternativas de associação – construir alianças por meio de negócios, casamento ou religião, incorporar aos regimes existentes novas relações comerciais e pessoas refugiadas ou em busca de asilo – essa era a regra. A dominação se dava por meio da integração dos forasteiros. Todo tipo de forasteiros. E a noção de povo – não a de nação – incluía não apenas os vivos, mas também os mortos, os não nascidos, os humanos e os não humanos. A comunidade era impensável sem algum tipo de dívida fundadora, com duas formas principais de endividamento. Existe a dívida expropriatória, como alguns de nós estamos devendo para bancos. Mas, nessas constelações, há um tipo diferente de dívida que constitui a própria base da relação. É o tipo de dívida que abrange não só os vivos, o presente, mas também aqueles que vieram antes e os que virão depois de nós e com quem também temos obrigações – a corrente de seres que inclui, mais uma vez, não apenas humanos, mas também animais e o que chamamos de natureza.

O DIREITO À MORADIA
Gostaria de concluir apresentando uma ideia que retirei da constituição de Gana. Ela desenvolveu um conceito que não encontrei em nenhum outro lugar. É um novo direito fundamental que eles chamam de “direito à moradia” e que querem incluir na lista dos direitos humanos tradicionais. A ideia desse direito à moradia me parece a pedra fundamental para qualquer tentativa de reimaginar a África como um espaço sem fronteiras. Em um nível histórico profundo, os africanos e as lutas diaspóricas pela liberdade e pela autodeterminação sempre estiveram entrelaçados à aspiração de se mover sem amarras. Seja em condições de escravidão ou sob domínio colonial, a perda de nossa soberania resultou automaticamente na perda de nosso direito à livre circulação. Essa é a razão pela qual o sonho redentor de uma nação africana livre e poderosa tem sido ligado de modo inextrincável à recuperação do direito de ir e vir sem obstáculos ao longo de nosso continente colossal. De facto, a nossa história na modernidade tem sido, em grande medida, de constante deslocamento e confinamento, migrações coagidas e trabalhos forçados. Pense no sistema de plantation nas Américas e no Caribe. Pense nos Black Codes e Pig Laws,3 ou no status de vagabundagem depois do fracasso da reconstrução dos Estados Unidos em 1887. Pense nas chain gangs,4 trabalhando em empreitadas como construção de estradas, escavação de valas, demolição e desmatamento. Pense no Code de l’indigénat,5 pense nos Bantustões,6 nas reservas de trabalho no sul da África e na indústria de complexos carcerários hoje nos Estados Unidos. Em cada exemplo, ser africano e ser negro significa ser relegado a um entre os muitos espaços de confinamento que a modernidade inventou.
A corrida para a África no século XIX e a demarcação de suas fronteiras de acordo com as linhas coloniais transformaram o continente num enorme espaço carcerário e fizeram de cada um de nós um imigrante ilegal em potencial, impedido de circular salvo sob condições cada vez mais punitivas. Na realidade, o aprisionamento se tornou a precondição para a exploração do nosso trabalho, e por isso as lutas pela emancipação racial e por melhorias das condições de vida dos negros são tão entrelaçadas às lutas pelo direito de circular livremente. Se quisermos concluir o trabalho de descolonização, precisamos derrubar as fronteiras coloniais em nosso continente e transformar a África num vasto espaço de circulação para os africanos, para seus descendentes e para todos aqueles que quiserem ligar seus destinos ao nosso continente."
Achille Mbembe , em ensaio publicado na Revista Serrote nº 31. Tradução de Stephanie Borges
  1. Tratado que criou uma zona de livre circulação de cidadãos entre países europeus, na qual os controles de fronteira foram abolidos, salvo em casos excepcionais. Começou com cinco países, em 1985, e hoje reúne 26 Estados. [N. da T.]
  2. O autor se refere a três dos principais autores da literatura nigeriana do século XX: Wole Soyinka (1934), premiado com o Nobel de Literatura em 1986; Chinua Achebe (1930-­2013); e Amos Tutuola (1920­-1997). [N. da T.]
  1. Black Codes eram leis discriminatórias promulgadas após o fim da guerra civil nos EUA, que permitiam a pessoas negras o direito à propriedade privada, mas as proibiam de votar, testemunhar contra brancos ou servirem como jurados. As leis que criminalizavam o desemprego como vagabundagem e puniam pessoas negras por roubo de comida ficaram conhecidas como Pig Laws. [N. da T.]
  2. Com o fim da Guerra Civil e da escravidão nos EUA, os estados do Sul passaram a usar o trabalho forçado de prisioneiros, na maioria negros, em obras de infraestrutura. Os grupos eram conhecidos como chain gangs por serem acorrentados pelos pés para evitar fugas. [N. da T.]
  3. Leis coloniais francesas que restringiam os direitos da população muçulmana da Argélia em 1881, extintas apenas depois da guerra de independência argelina, em 1962. [N. da T.]
  4. Territórios onde os povos bosquímanos foram segregados pelo apartheid em territórios supostamente autónomos dentro da África do Sul. [N. da T.


O camaronês Achille Mbembe (1957) é professor de história e ciência política da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e na Duke University, nos EUA. É um dos mais originais pensadores contemporâneos nas questões relacionadas à descolonização, à escravidão e ao racismo. É autor de Crítica da razão negra e Necropolítica, ambos publicados no Brasil pela n-­1. Este ensaio foi apresentado em Março de 2018 como parte da tradicional série Tanner Lectures on Human Values, na Universidade Yale.
Figura ascendente na arte africana contemporânea, Serge Alain Nitegeka (1983) nasceu no Burundi, mas ainda na infância se viu forçado ao exílio com a família devido a conflitos políticos locais. Passou por vários países africanos até se instalar em Joanesburgo, na África do Sul, onde vive desde 2003. As obras aqui publicadas pertencem à série Ode To Black, cortesia da galeria Stevenson (Cidade do Cabo e Joanesburgo).

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Nunca me lembrei senão de mim

"Aquilo de que mais gosto no mundo é a Sicília, já pode ver, e ainda do cimo do Etna, em plena luz do dia, sob condição de dominar a ilha e o mar. Java também, mas na época dos alíseos. Sim, estive lá, em novo. De uma maneira geral gosto das ilhas. É mais fácil imperar aí.
Mandar é respirar, não é desta opinião? E até os mais deserdados chegam a respirar. O último na escala social tem ainda o cônjuge ou o filho. Se é celibatário, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se sem que outrem tenha o direito de responder. «Ao pai não se responde», conhece a fórmula? Em certo sentido, ela é singular. A quem se responderia neste mundo senão a quem se ama? Por outro lado, ela é convincente. É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão, a toda a razão pode opor-se outra: nunca mais se acabava. A força, pelo contrário, resolve tudo. Levou tempo, mas conseguimos compreendê-lo. Por exemplo, deve tê-lo notado, a nossa velha Europa filosofa, enfim, da melhor maneira. Já não dizemos, como nos tempos ingénuos: «Eu penso assim. Quais são as suas objecções?» Tornámo-nos lúcidos. Substituímos o diálogo pelo comunicado.
Cá entre nós, a servidão, de preferência sorridente, é pois inevitável. Mas não o devemos reconhecer. Quem não pode fugir a ter escravos, não valerá mais que os chame homens livres? Por princípio, em primeiro lugar, e depois para os não desesperar. É-lhes bem devida esta compensação, não acha? Deste modo eles continuarão a sorrir e nós manter-nos-emos de consciência tranquila. Sem o que, seríamos forçados a voltar-nos para nós mesmos, ficaríamos loucos de dor, ou até modestos, tudo é de temer.
Sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, sentia-me liberto em relação a todos pela excelente razão que me considerava sem igual. Julguei-me sempre mais inteligente do que ninguém, disse-lhe eu, mas também mais sensível e mais destro, atirador de escol, volante inigualável, e melhor amante. (…) Não me reconhecia senão superioridades, o que explicava a minha benevolência e a minha serenidade. Quando me ocupava de outrem, era pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia a meu favor: eu subia um degrau no amor a mim mesmo.
Com algumas outras verdades, descobri a pouco e pouco estas evidências, durante o período que se seguiu à noite de que lhe falei. Não imediatamente, não, nem com grande nitidez. Tive, antes de mais, de recuperar a memória. (…) Até ali, tinha sido sempre ajudado por uma espantosa faculdade de esquecimento. Esquecia tudo e em primeiro lugar as minhas resoluções. No fundo, nada contava. Guerra, suicídio, amor, miséria, prestava-lhes atenção, é certo, quando as circunstâncias a isso me obrigavam, mas de uma maneira cortês e superficial.
(…) Eu não era lá de muito bom estofo para perdoar as ofensas, mas acabava sempre por esquecê-las. E, se alguém se julgasse detestado por mim, não se livrava de se ver saudado com um largo sorriso. Consoante a sua natureza, admirava então a minha grandeza de alma ou desdenhava a minha baixeza, sem pensar que a minha razão era mais simples: eu tinha esquecido até o seu nome.
Avançava assim à superfície da vida, por palavras, de certo modo, nunca na realidade. Todos esses livros mal lidos, esses amigos mal amados, essas cidades mal visitadas, essas mulheres mal possuídas! Eu fazia gestos por enfado ou por distracção. Os seres vinham logo atrás, queriam agarrar-se, mas não havia nada, e era a infelicidade. Para eles. Porque, quanto a mim, eu esquecia. Nunca me lembrei senão de mim mesmo.
A verdade é que todo o homem inteligente, como o senhor bem sabe, sonha em ser um gangster e em imperar sobre a sociedade unicamente pela violência. Como isso não é tão fácil como a leitura de romances da especialidade o pode fazer crer, envereda-se geralmente pela política e corre-se para o partido mais cruel. Que importa, não é assim, humilhar o próprio espírito, se desse modo se consegue dominar o mundo inteiro? Eu descobria dentro de mim gratos sonhos de opressão.
Daria dez entrevistas com Einstein por um primeiro encontro com uma bonita figurante. É verdade que, ao décimo encontro, eu suspiraria por Einstein ou por umas fortes leituras. Em suma, nunca me incomodei com os grandes problemas senão nos intervalos dos meus pequenos desregramentos.
O acto de amor, por exemplo, é uma confissão. Aí o egoísmo grita, ostensivamente, a vaidade aí pavoneia, ou então aí se revela a verdadeira generosidade." 
Albert Camus, in " A Queda", Edições Livros do Brasil, Lisboa

domingo, 18 de agosto de 2019

Ao Domingo Há Música

                       
                                                        Pobre velha música!
                                                        Não sei por que agrado,
                                                        Enche-se de lágrimas
                                                        Meu olhar parado.
                                                                   Fernando Pessoa
   
Há canções que nos ficam para sempre. Há nelas qualquer fogo  que nos incendeia , qualquer força que nos eleva, qualquer brilho que nos ilumina sem que possamos resistir. Deixamo-nos ir , como se de nós nada mais restasse. Por vezes, não são extraordinárias , nem a singularidade as define. Mas  tocam-nos  e enlevam-nos, colando-se à memória dos sons que nunca deixarão de nos  cativar.  


"A Change is Gonna Come" ,  junta as vozes de pai e filho, Thomas e  Brian Owens ,numa recriação magnifica da  clássica  canção  de Sam Cooke . 
O registo foi realizado  no Shock City Studios , em  St. Louis, MO.
A direcção e edição são de  Benjamin Kaplan; a produção  de Nicole Hudson  e Benjamin Kaplan. 
Filmagem de  Scott Smith, Mike Speckhard, Ian Wasserman, Sean Funcik.

A voz soberba de Ray Charles, em  Song For You , num espectáculo ao vivo, em  Montreux 1997.

sábado, 17 de agosto de 2019

Sobre os escritores


"O escritor não vale só pela estreme escolha dos vocábulos que emprega, pela sua vernaculidade, limpeza e colorido; vale amiúde (quando é grande) muito mais pelas analogias que lhes descobre no sentido, aproveitando-as em metáforas que alargam a significação e fortalecem o carácter das coisas que descreve. É a sua parte criadora que leva um entendedor da força de Castilho a dizer do Padre Bernardes: "A linguagem que ele deixou pesa e va­le o dobro da que ele achou".
"Todos os grandes escritores têm a sua música pessoal que, insensivelmente, lhes ritma a prosa."
Manuel Teixeira-Gomes, in Carnaval Literário

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Livros : as novidades

NOVIDADES


JULHO

1 — Histórias Falsas, de Gonçalo M. Tavares
Um ligeiro desvio do olhar em relação à vida conhecida de algumas personagens históricas.


2— Pessoas Normais, de Sally Rooney
Connell e Marianne cresceram na mesma pequena cidade da Irlanda, mas as semelhanças acabam aqui. Na escola, Connell é popular e bem-visto por todos, enquanto Marianne é uma solitária.

Pessoas Normais é uma história de fascínio, amizade e amor mútuos, que acompanha a vida de um jovem casal que tenta separar-se mas que acaba por entender que não o consegue fazer. Mostra-nos como é complicado mudar o que somos e o modo como aprendemos sobre sexo e poder, o desejo de magoar e ser magoado, de amar e ser amado.
O livro obteve o Prémio Costa 2018 para Melhor Romance (Rooney foi a autora mais nova a vencer este prémio, com apenas 27 anos), foi livro do ano pela Waterstones e finalista do Man Booker Prize 2018, do Women’s Prize for Fiction 2019 e do Dylan Thomas Prize 2019. O The Guardian considerou-o “o fenómeno literário da década” e “um futuro clássico”, e o The Times “melhor romance do ano”.


3 — A Balada do Medo, de Norberto Morais
O autor de O Pecado de Porto Negro retoma personagens que parecem saídas do que de melhor produziu a literatura de uma América Latina aqui reinventada.


4 — Agnes Grey, de Anne Brontë
Agnes Grey é baseado na experiência da autora. O romance pretende responder, através da história de uma jovem mulher que se vê obrigada a trabalhar como preceptora, à pergunta: Qual o lugar da mulher na sociedade vitoriana?


5 — Pequenas Misérias da Vida Conjugal, de Honoré de Balzac
Balzac revela-se aqui um divertido observador da intimidade dos casais.

No essencial, apresenta-nos dois tipos humanos. De um lado, Adolphe, de desesperante aridez mental; do outro, Caroline, reduzida à dependência. Os dois jovens esposos vão percorrer o caminho que leva das promessas de felicidade às desilusões.


6 — Memórias, Sonhos, Reflexões, de Carl Gustav Jung
Trata-se de uma antologia de artigos e entrevistas do que depois de ter sido o mais talentoso discípulo de Freud elaborou uma das mais influentes teorias psiquiátricas do século xx.

O livro foi escrito quando, aos 81 anos, Jung decidiu contar a história da sua vida.


7 — Provocações — Ensaios Escolhidos, de Camille Paglia
O feminismo heterodoxo e combativo de Paglia continua a chocar os que mergulham na letargia do politicamente correcto. Mostra-se capaz de ter em conta os aspectos biológicos do ser humano, sem esquecer as dimensões sociais e culturais nem cair no conservadorismo.


8 — O Custo de Vida, de Deborah Levy
Neste livro, parte de uma trilogia, a autora percorre os caminhos da independência da mulher nos tempos de hoje.

A autora reflecte sobre o que é viver com significado e prazer, procurando a liberdade última, que é a de escrever a nossa própria vida, reflectindo ao mesmo tempo sobre a obra de artistas e pensadores como Simone de Beauvoir, James Baldwin, Elena Ferrante, Marguerite Duras, David Lynch e Emily Dickinson.
Deborah Levy recebeu este ano a terceira nomeação para o Man Booker Prize.


 AGOSTO

1 — Casas de Vidro, de Louise Penny
Num frio dia de Novembro, uma misteriosa figura aparece na povoação de Three Pines, provocando incómodo, alarme e confusão entre quem a vê.

O Superintendente-Chefe Armand Gamache percebe que qualquer coisa está profundamente errada, mas só pode observar, esperando que os seus piores receios não se concretizem.
No entanto, quando a misteriosa figura desaparece e é descoberto um cadáver, Gamache tem de se lançar nas investigações.

O livro venceu o Agatha Award 2017 na categoria de Melhor Romance Contemporâneo.


2 — A Mesa dos Gatos-Pingados, de Michael Ondaatje
No começo dos anos 50, um rapaz de onze anos embarca com destino a Inglaterra. Durante as refeições, é sentado à “mesa dos gatos-pingados”, onde há adultos e outros dois rapazes. À medida que o navio atravessa os mares, os rapazes saltam de uma aventura para outra. Durante a noite, espiam um prisioneiro algemado. O crime que cometeu e o seu destino são um mistério que os atormentará para sempre.

O Wall Street Journal considera que a obra é “tão conseguida como a sua magnum opus, O Doente Inglês”.

 SETEMBRO

1 — O Sermão do Fogo, de Agustina Bessa-Luís
Através de Amélia, uma vidente que é protagonista do romance, conhecemos uma série de personagens e destinos arrastados na sua órbita. Esta filha de camponeses, e criada de servir, vai conhecer um destino surpreendente.


2 — Correspondência entre Agustina Bessa-Luís e Juan Rodolfo Wilcock (Prefácio de Ernesto Montequin)
É uma correspondência (inédita) entre dois intelectuais com afinidades, que relatam as suas viagens e falam de literatura e das suas vidas.


3 — O Abismo de Fogo, de Mark Molesky
O historiador norte-americano de Harvard escreveu a principal obra sobre o terramoto de Lisboa de 1755, um verdadeiro “Apocalipse da Ciência e da Razão”.


4 — Tudo no Seu Lugar, de Oliver Sacks
Uma das obras póstumas do autor de O Homem Que Confundiu a Mulher com Um Chapéu, que nos fala dos seus primeiros amores e nos narra as suas últimas histórias.


5 — Correspondências + Minhas Queridas, de Clarice Lispector
Nas suas cartas, a autora entreabre o seu “coração selvagem” aos leitores.


6 — Pensar sem Corrimão (antologia), de Hannah Arendt
Estes ensaios abordam temas que vão desde “Karl Marx e a Tradição do Pensamento Político Ocidental” até “Transições”, passando pelo totalitarismo e a violência na sociedade americana.


7 — Superinteligência, de Nick Bostrom
O autor, investigador em Oxford, examina um problema essencial do nosso tempo, a possibilidade humana de controlar o avanço para a superinteligência antes de ser demasiado tarde.

O livro foi altamente recomendado por Bill Gates e Elon Musk, entre outros.

8 — Atlas do Corpo e da Imaginação, de Gonçalo M. Tavares
Este livro atravessa a literatura, as artes e o pensamento, tendo como temas a identidade, a tecnologia, a morte e as ligações amorosas, a racionalidade e a loucura, a alimentação e o desejo. Uma obra dirigida a todos os sentidos.


9 — Antologia, de João Miguel Fernandes Jorge
Joaquim Manuel Magalhães escolheu o que para si são os melhores poemas de João Miguel Fernandes Jorge.


10 — O Senhor Swedenborg e as Investigações, de Gonçalo M. Tavares
O Senhor Swedenborg realiza as suas investigações geométricas, enquanto escuta uma conferência do Senhor Eliot. Entre muitas outras coisas, apresenta um método para esquecer um acontecimento desagradável.


11 — Os Invisíveis, de Roy Jacobsen
Na primeira metade do século xx, a vida dos pescadores e camponeses daquela ilha não é fácil. Mas à família Barrøy não faltam recursos. O pai de Ingrid sonha com mais filhos, uma ilha maior, e um molhe que o ligue ao continente. A mãe pretende uma ilha mais pequena, mais filhos e uma vida diferente. Ingrid cresce entre o oceano e as tempestades, os pássaros e o amplo horizonte. Mas o ciclo das tarefas e dos dias vê-se interrompido pela súbita irrupção do mundo exterior.

Finalista do Man Booker International Prize 2017.

12 — A Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset

«O homem vulgar, antes dirigido, resolveu governar o mundo. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele automaticamente assim que amadureceu o novo tipo de homem que ele representa.»

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Mas era o Mar...




Mas era o Mar que me ocupava. (...) O mar de todos os dias. Que bramia, que cantava, que ria, que chorava.  Desde que nascia até que se punha , o mar era rei. O deslumbramento  dos primeiros raios, prateando as águas  de um brilho reluzente ao esplendor dos pores de sol que o tornava num mar de fogo, convertendo as ondas em chamas para queimarem de espanto os meus olhos.
Maria José Vieira de Sousa, in "O Livro que já escrevi", Maio de 2018, p105

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Viajar, a saudade de estar fora



Viajar um paraíso de loucos
por Diogo Vaz Pinto
"A viagem é uma escola terrível, talvez a mais antiga e, certamente, a mais dura. E os grandes viajantes são como os membros solitários de uma religião sem preceitos fixos e que se dedica à arte do fracasso.
Por mais impulsos de que se faça valer, com todas as síndromes que possa desencadear, nunca houve termos clínicos que pudessem aplacar essa inquietação que toma conta de alguns e os convence a largar tudo e ir à boleia de todas as estranhezas. Hans Christian Andersen falou na “dolorosa agitação de viajar” como uma espécie de achaque incitante que tomava conta dele depois de uns tempos no conforto da sua casa. Identificou-a como uma patologia: a “saudade de estar fora”. E se a narrativa de viagem é a mais antiga do mundo, como nos diz Paul Theroux, e se é provável que o engenho literário descenda dessas histórias que o errante contava ao povo reunido à volta da fogueira depois do seu regresso de uma jornada, o mais provável é que na própria engenharia do género humano deva estar inscrita a tentação do desconhecido, esse desejo que faz do além, do que está alhures, uma espécie de pulsante emboscada que se mostra irrecusável para muitos homens. E com tantos viajantes célebres, tantos e tão cativantes relatos, e mesmo com os fluxos imparáveis e atordoantes do turismo de massas, esse ânimo ainda não foi estragado. A viagem permanece como uma demanda desse sentido para a vida de que apenas a própria sensação de estranheza pode aproximar-se. Assim, como Theroux nos elucida no seu A Arte da Viagem, “a viagem é fuga e perseguição em partes iguais”.
Para tornar o mais acidentada e fabulosa possível a distância que vai da vida à morte, o tempo não pode fazer muito se a imaginação não se animar a pintar fora dos seus contornos. E no arranque da sua obra-prima, Céline lembrava que viajar é muito útil por fazer a imaginação trabalhar. Mas há que ter em conta ainda a prenhez das distâncias, isso que justifica essa jazida de impressões e sensações que nos saem ao caminho e dominam o viajante, muitas vezes de forma brusca, violenta, e que deixam nele a indelével noção de que ele próprio se perde e apaga se não estiver disposto a confrontar-se com essa forma de desamparo e até de derrota. Afinal, a viagem tira um lucro espantoso do inesperado, do que corre mal, das frustrações e do martírio, ao ponto de Theroux ter notado que “é muitas vezes um prazer triste e em parte masoquista - a chegada a lugares obscuros e pitorescamente horríveis é um dos deleites do viajante”. No fundo, o que se busca é tudo isso que fica “do outro lado da vida” (Céline). E é por isso que a verdadeira viagem se faz a favor do mundo e contra si mesmo. Só um viajante experiente poderá não estranhar quando Kafka defendeu: “Na luta entre ti e o mundo, torce a favor do mundo”. De resto, como notou Paul Bowles, “o tema dos melhores livros de viagens é o conflito entre o escritor e o local”. E adianta que “não é importante qual deles ganha, desde que a luta seja fielmente registada”.
Num texto do terceiro número da revista Electra, cujo dossier é dedicado ao fenómeno do turismo, o sociólogo e etnólogo Jean-Didier Urbain constrói uma defesa desse “viajante maltratado” que é o turista, e se não oferece uma defesa muito convincente e pouco faz para redimir este “homem que viaja não por urgência ou necessidade, mas segundo os seus desejos, em busca de prazeres todos eles associados a uma erotização do mundo”, consegue justificar e encará-lo como uma figura central, indo ao ponto de afirmar que “o turista é a (má) consciência da nossa sociedade”. Mas o mais importante na intervenção de Urbain não está tanto no esforço para resgatar o turista da posição de réu enquanto “descendente desocupado da viagem, herdeiro ocioso e supranumerário”. Se mais temível do que a sentença parece ser o tom desdenhoso com que mesmo os funcionários mais insignificantes do tribunal se lhe dirigem, o que se mostra mais persuasivo nem é o álibi de que se serve para recuperar-lhe a honra e reintegrar o turista na família dos viajantes, mas a forma como, com esse fim em vista, acaba por formular uma admirável explicação sobre este impulso do homem de ser arrancado às circunstâncias que tanto o enraízam como imobilizam. “Na verdade”, diz-nos Urbain, “na origem de qualquer viagem existe uma experiência comum, no âmbito da qual, estúpidos, medrosos ou inaptos, nos tornamos maus viajantes”. E prossegue: “Grande repórter, ervanário, humanitário, caçador de borboletas, homem de ciência, comerciante, médico, turista, agente secreto ou de viagens, essa experiência vivida por cada um é aquela na qual, mais cedo ou mais tarde, experimentamos a nossa estupidez em viagem”. Para este etnólogo, o que é insuportável é a forma como o turista vem sendo maltratado e “frequentemente entendido como uma anomalia: um avatar mercantil indesejável do viajante, unicamente tolerado pelo seu interesse económico, e pobre em modelos e em valores”. Urbain prefere dirigir o seu repúdio à sua própria classe, a essa forma de incómodo diante deste “bastardo embaraçoso” e de um fenómeno global que, na mesma medida em que assume proporções descontroladas,  merece um repúdio do campo intelectual que parece querer diluí-lo no absurdo ao invés de interpretar os “comportamentos e projectos, os desejos colectivos e as fobias de época de uma cultura, de um país e de uma nação”. Se Marc Augé fala no turista como “um consumidor que se toma por um viajante”, Urbain deplora este entendimento que enferma de um elitismo serôdio, enfeitado com a sua bijutaria mistificadora, um quadro idealizado no qual o turista aparece como um fungo, “uma forma degenerada de viagem, sem origem nem função definida, sem verdadeira história a não ser a de uma corrupção que degrada as virtudes cardeais dos primogénitos, membros de uma aristocracia da Viagem da qual o turista se encontra excluído...”
Para este etnólogo, pouco importa se o que define a demanda turística é o carácter de lazer da viagem. O que Urbain assinala é que a condenação do turista - para lá da irritação face aos efeitos destrutivos sentidos por aqueles que participam neste fenómeno de forma passiva, no papel de indígenas, às vezes até de colonizados - está eivada de um conteúdo ideológico. Urbain encara o turismo como um sintoma da sociedade e defende que, enquanto tal, não merece “ser estigmatizado como um concentrado de vícios e defeitos congénitos de todo o tipo, e condenado a expiar as faltas, crimes e delitos dos seus antepassados”. No fundo, este especialista em turismo aponta para a difusão de um típico preconceito de classe que se tem generalizado, beneficiando dos efeitos de massificação para, tal como acontece com a distribuição desigual da riqueza, servir-se das consequências - a pobreza - para justificar a injustiça das causas. “Porque mesmo renegado, este bastardo existe, inclusivamente na família dos etnólogos, dos missionários e dos exploradores. E erraríamos grosseiramente de alvo se, desta vez, confundíssemos não o género e a espécie, ou a causa e o efeito, mas o sujeito (o turista) e o fenómeno (a indústria do turismo)”.
Ora, para se ter uma noção - mesmo que muito abstracta, como é sempre aquela que os números servem -, por um outro texto daquela revista, a propósito do impacto que os voos low-cost tiveram na massificação do turismo, ficamos a saber que, se em 1990 o número de turistas andava à volta dos 450 milhões, em 2002 já eram 750 milhões e, no próximo ano, será ultrapassada a marca de 2 mil milhões. Assim, esta é já hoje a principal actividade económica a nível mundial mas, curiosamente, é a própria indústria do turismo quem mais contribui para acentuar a diferença entre o turista e o viajante, como sinaliza António Guerreiro. Se sempre que se acentua essa diferença “é para denegrir o primeiro como uma manifestação grotesca do viajante sem qualidades”, o editor da Electra nota que “a esta caricatura é difícil escapar porque a indústria do turismo a ela se conformou completamente, fazendo com que ganhasse um carácter coercivo”.
Seja como for, parece haver um contrassenso decisivo entre essa bruxuleante luz que se acende a espaços, guiando o viajante, e o catálogo das motivações que levam o turista a escolher um destino a partir de um longo cardápio, atendendo às suas promessas, sempre com vista à satisfação dos seus caprichos. Mesmo se, como nota Guerreiro, “nada é tão familiar ao turista quanto o cansaço, o tédio, a decepção” e ainda que, “por mais que ele se recuse a admitir, enquanto cumpre o seu programa turístico, a sua satisfação está muito aquém do que lhe era prometido”, o certo é que a busca do prazer é o grande móbil de quem gosta de coleccionar carimbos no passaporte. Ora, Albert Camus foi bastante eloquente ao defender que, no fundo, nem há prazer em viajar. Nos seus cadernos, defende que é, pelo contrário, o medo aquilo que dá valor a uma viagem. “É o facto de, num certo momento, quando estamos tão longe do nosso próprio país (…) sermos tomados por um vago receio, e pelo desejo instintivo de voltar para a protecção dos velhos hábitos. Este é o mais óbvio benefício da viagem. Nesse momento estamos febris, mas também porosos, de modo que o mais pequeno toque faz-nos tremer até às profundezas do nosso ser”.
Assumindo também uma visão bastante depreciativa do turismo, Paul Theroux diz que, se a viagem deve envolver sempre um certo grau de transgressão, “vender aventura parece ser um tema do sector de viagens, e as viagens tornaram-se troféus”. Neste aspecto, a indústria não fez outra coisa senão aplicar às viagens “a regra primeira da mercadoria, que prescreve como princípio a vontade do freguês”, lembra Guerreiro, e para “optimizar” a experiência, o que se mostrou necessário foi precisamente limitar a aventura para que o inesperado não a desviasse das expectativas ao ponto de encaminhar o turista para algo que tenderá a descrever como um pesadelo. Assim, todo o risco, toda a pretensão de aventura deve enquadrar-se num percurso predefinido em que as sensações, inclusivamente o medo, são doseadas em limites aceitáveis. De outro modo, o mais provável é que o turista se queixe de ter sido vítima de alguma forma de terrorismo. E, como se sabe, hoje basta um vídeo para fazer germinar o pavor nas redes sociais e dar cabo de um negócio.
Os esforços para conformar o território às expectativas que se criam a partir do postal foram o que levou o escritor e filólogo alemão Gerhard Nebel a profetizar que este fenómeno seria sentido como uma doença que descaracteriza de tal modo o espaço que parece irromper “numa série de abcessos”. Classificando o turismo como um dos maiores movimentos niilistas, há várias décadas, Nebel avisava: “Um país que se abre ao turismo fecha-se metafisicamente - oferece a partir daí um cenário, mas já não a sua mágica potência”. Por sua vez, Henri Michaux, alguém que apesar da sua saúde débil foi um grande viajante e que, com toda essa vulnerabilidade, provou ser um dos gigantes nessa poesia que se alimenta do confronto entre os nervos e o mundo, era, apesar de tudo, bastante pessimista e prenunciou esta forma de vazio que alastra com o parque de diversões turístico a engolir o mundo: “Já estou mentalizado. Toda a viagem é uma armadilha. A viagem não nos alarga tanto as vistas quanto nos torna sofisticados, ‘actualizados’, apanhados pelo superficial com aquele aspecto realmente estúpido de um tipo que faz de júri de um concurso de beleza”.
Mas, contra todo o pessimismo, a viagem continuará a produzir os seus abalos enquanto o estrangeiro persistir, enquanto a própria ideia de alhures não se deixar reduzir ao cenário de um pobre simulacro. Mais até do que o convite do desconhecido, e a convicção de Bruce Chatwin era de que a própria evolução gravou em nós esta noção de que as chaves para se  ir mais fundo na descoberta de si mesmo só nos são dadas explorando o que nos estranha. “A Selecção Natural projectou-nos - da estrutura das nossas células cerebrais até à estrutura do dedo grande do pé - para uma carreira de jornadas sazonais a pé através de uma terra causticante de arbustos espinhosos ou deserto”, escreveu o autor de O Canto Nómada. E é neste ponto que podemos retomar a valiosa lição de Jean-Didier Urbain sobre a verdadeira natureza das viagens.
O especialista em turismo reforça a ideia de que a viagem é uma escola do fracasso. A sucessão de obstáculos inesperados, muitos deles convidando à própria errância - essa deambulação decidida a meias entre as oportunidades e os acidentes que nos encontram e o nosso ânimo -, tudo aquilo que lança a expectativa para um lugar recuado verga a ansiedade, tudo isso resgata os sentidos para uma postura alerta, “o olho a apreender tudo vagarosamente, os pés doridos a imporem o lazer para observar” o que se tem em volta. E é este, segundo Urbain, o traço que liga o turista à família dos viajantes. “Essa arte partilhada do falhanço constitui um não saber-fazer comum que confere a toda a viagem um ‘ar de família’”. Paul Theroux escreveu num dos seus livros de viagens que “estar enganado é a essência da história do viajante”, e Urbain esclarece que, ao viajarmos, “a nossa inteligência é submetida às provas sucessivas da dificuldade de compreender (face a um real que nos escapa) e da necessidade de tomar uma decisão”.
“Não é que a viagem nos torne fracos de espírito, mas que a relação de ininteligência com o Outro, com o Mundo e mesmo Consigo próprio tende a acentuar-se”, esclarece. É a desorientação, garante Urbain, o espeto que irmana todos os viajantes. É uma inevitável condição de intruso o que se torna “a causa de uma experiência comum de inadaptação susceptível de nos tornar a  todos idiotas, seja qual for a espécie de viajante”. E a razão por que esta é uma arte tão partilhada é porque “não existe intrusão conseguida”. “E a história da viagem, considerada deste ponto de vista, é a saga de intrusões mais ou menos falhadas...” Ora, tendo isto em conta, e sendo evidente também como o Outro é quem está na condição de nos estranhar, de aprofundar essa falha, de se reflectir em nós ou deixar que o façamos nele, quando corrige as nossas suposições erradas sobre ele, sobre a sua cultura ou o seu país, o Outro impede-nos de chegar ao fim, de nos trancarmos dentro dos nossos limites." Diogo Vaz Pinto, em artigo publicado no Jornal i, em 26/07/2019 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Uma estátua em pedestal móvel

Ponta do Altar , Ferragudo -Algarve
Ponta do Altar, rio Arade e barra de Portimão
"Vento mareiro fresco, encapelando levemente a água, em ondas verdes, floridas de espuma efémera. Aragem que sacia os pulmões.
À sombra de um leixão, deitado na areia seca e fina, eu lia ver­sos, respirando o ar iodado, ou corria com a vista a curva do vasto hori­zonte, embalado pela canção cristalina do mar.
Perto da praia, o casco todo negro, pesado e sem graça, de um vapor, com uma grande bandeira vermelha desfraldada à popa, e logo o contraste: um iate cinzento-claro, que se balouça com elegância.
De todos os pontos do horizonte surgem a cada instante as velas dos batéis de pesca, velas agudas, que se cruzam como asas simbólicas, que se perseguem, que se reviram e param, que prosseguem dispersas, precipitadas, numa desordem de fuga, ou caminham reguladamente em grupos, de conserva, e tudo vai direito à barra, cuja entrada estreita um rochedo esconde.
Outro batel, com a vela toda panda, sai, sozinho, a barra e entra no mar saltando sobre as ondas de vidro verde, franjadas de espuma, como cavalo fogoso que atravessa um prado cheio de erva.
O céu, de um azul intensíssimo, está como que esponjado de peque­nas nuvens; a Ponta do Altar perfila-se com o seu recorte siracusano, e pouco a pouco, ao declinar do Sol, acende-se em oiro.
Vai vazando a maré, alargando-se a mais e mais a faixa de areia molhada onde o céu se reflecte como num infinito espelho...
Era a hora da tarde em que os banhos recomeçam, e como de costu­me, naquela praia cheia de recortados leixões, os banhistas despiam-se junto às rochas pendurando nelas o seu fato.
Em volta do leixão, a cuja sombra eu me acolhera, havia roupas de mulheres, que sem dúvida pertenciam ao grupo de serrenhas que ali próximo, de mãos dadas e soltando gritos selvagens, tomavam à babugem da água um desses infindáveis banhos aconselhados pelos preceitos da higiene sertaneja. Pareceu-me reconhecer nelas umas criaturas sem interesse, com que amiúde me cruzara pelos caminhos, entre as quais sobressaía certa moça forte, cheia e espadaúda, que andava sempre de olhos baixos, exibindo um pudor que ninguém, certamente, desejaria ofender.
Naturalmente, a minha vista não se distraía do encanto da paisa­gem ou da intimidade do livro, para seguir no banho as evoluções mais ou menos grotescas daquelas sereias, quanto a mim muito pouco ou nada voluptuárias, e foi assim que elas saíram do mar, e vieram para o leixão onde estava a sua roupa, e ao qual voltava costas, sem eu dar por tal.
De repente, senti que alguém tossia, fazendo-o para chamar a minha atenção. Voltei-me instintivamente: era a serrenha pudenda que se limpava, acocorada, numa anfractuosidade da rocha que formava nicho.
Tão depressa verificou que se encontrava em foco, ergueu-se, abriu os braços e soltou o lençol.
Prodígio de elegância, perfeição e graça escultural, se me patenteou então o seu corpo enrijecido pela frialdade da água, cujas gotas ainda lhe escorriam pela carne marmórea. O peso da água afeiçoara-lhe na cabeça hirsuta um toucado de estátua antiga, e os seios disparavam como duas pombas que vão voar.
Impassível, sem um sorriso e lentamente - tal uma estátua em pedestal móvel -, ela rodou sobre si mesmo, franqueando à minha vista sôfrega as mais secretas maravilhas do seu corpo.
Terminada a volta agachou-se, meteu-se no lençol, e chamou por outra mulher, que a veio limpar.
Daí a nada passava por mim já vestida - entrouxada nas suas vestimentas de serrenha lorpa -, arrastando os sapatos de bezerro, estúpida, a boca mole e inexpressiva, os olhos baixos...
Espreitei-a depois, no banho, vezes sem conto, a ver se a cena se repetia, mas inutilmente.
Outras tentativas, de natureza mais prática, foram igualmente infrutíferas...
Concluí que assistira, por acaso, à passagem pelo seu corpo de uma alma de nereida encontrada dentro de água e enganada pelo aspecto helénico daquela praia..."
Manuel Teixeira-Gomes,in  Inventário de Junho, Portugália Editora, Lisboa, 1960