quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Alexis Jenni vence Prémio Goncourt

Alexis Jenni ganha o Prémio Goncourt com o romance “L'art français de la guerre” da Gallimard, seu primeiro romance, longo de 640 páginas e cujo título soa a tratado do século XVII. Esta escolha da Academia Goncourt  impõe respeito
Antecipando-se, Frédéric Beigbeder já apresentava desde Agosto passado, aquando da rentrée,  as condolências aos outros romancistas ao afirmar-se  ” Desolado pelos 600 autores eclipsados por este novo romancista: ele esmaga a rentrée”. Le Magazine littéraire  também o considerava uma obra-prima na medida em  que  reelevava a arte e o desejo salvadores.  
E assim foi . Alexis Jenni , professor de SVT , de 48 anos , acaba de ganhar o mais alto galardão literário francês. Com este prémio será catapultado para a fama e vendido em todo o mundo.

“Enfant prodige: Ce roman est celui de ce qu'Alexis Jenni appelle la "guerre de vingt ans", qui va de 1940 à l'indépendance de l'Algérie en passant par le bourbier indochinois. Il s'agit, aussi, du premier roman d'un enseignant de SVT âgé de 48 ans, qui confiait il y a quelques jours à la presse s'être toujours considéré comme un "écrivain du dimanche". Un personnage aux antipodes de la star cuvée 2010 : Michel Houellebecq, l'éternel enfant terrible, recevant au café Drouant l'adoubement des Goncourt en présence d'une meute médiatique survoltée. Alexis Jenni, lui, avoue volontiers qu'il n'est guère habitué aux questions des journalistes, et qu'il lui coûte de composer avec "cet afflux de regards" nouveau. “Le Point  sobre Alexis Jenni ,em 27/10/2011 às 20:39

Académie Goncourt


      Les Dix membres de l’Académie Goncourt, chez Drouant.
               Photo © Benjamin Decoin / Visual

Actualités:
lundi 31 octobre 2011
Le prix Goncourt 2011
sera décerné mercredi 2 novembre à 12h 45, chez Drouant.

mardi 25 octobre 2011
3° Sélection pour le prix Goncourt 2011
Sorj Chalandon Retour à Killybegs Grasset
Alexis Jenni L’Art français de la guerre Gallimard
Carole Martinez Du Domaine des Murmures Gallimard
Lyonel Trouillot La belle amour humaine Actes Sud

Michel Houellebecq, Prix Goncourt 2010
pour La carte et le territoire,
publié chez Flammarion.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ruy Belo, o poeta

"Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro"

Ruy Belo, Poema quotidiano,in "Aquele Grande Rio Eufrates"


E Tudo Era Possível

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo, "Homem de Palavra[s]"
Lisboa, Editorial Presença, 1999,5ª ed


Os 50 anos da obra de "Aquele Grande Rio Eufrates", de Ruy Belo, vão ser assinalados, a 3 e 4 de Novembro, na Fundação Gulbenkian, com um colóquio dedicado ao autor. Já este mês, o novo número da Colóquio/Letras publicou duas cartas inéditas do escritor.
Celebrando o cinquentenário da publicação de "Aquele Grande Rio Eufrates" (1961), este colóquio destina-se a homenagear a obra de um dos poetas centrais da segunda metade do século XX. Aberto a estudiosos da obra de Ruy Belo, mas também a especialistas da poesia portuguesa do século XX e da teoria e crítica literárias, este encontro pretende pôr em relevo os múltiplos problemas que a sua poesia coloca, os universos de referência e o seu lugar no panorama da poesia contemporânea.

Grandeza do Homem

Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates", Lisboa : Ática, 1961


Ruy Belo nasceu em S. João da Ribeira em 1933. Estudou Direito, primeiro na Universidade de Coimbra, depois na Universidade de Lisboa, onde se diplomou em 1956. Doutorou-se em Direito Canónico na Universidade de S. Tomás de Aquino, em Roma. Em 1967, concluiu a licenciatura em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa .De 1971 a 1977 foi Leitor na Universidade de Madrid. Tal como Jorge de Sena foi forçado a sair de Portugal porque não arranjou trabalho. Neste país, não houve lugar para estes dois grandes poetas que foram próximos, amigos. "Portugal não é pátria, mas país" escreveu Ruy Belo.
Professor, editor, poeta , jornalista, tradutor, ensaísta, crítico literário, Ruy Belo morreu subitamente aos 45 anos de idade, em 1978.
O seu nome ocupa um lugar de excelência na poesia portuguesa da segunda metade do séc. XX. Poesia que não é militante, elaborada com uma linguagem inovadora e revolucionária, fora dos cânones do neo-realismo e de qualquer escola. Ruy Belo viveu muito atento à passagem do tempo, à efemeridade, à inquietação, à angústia e fez disso poesia, " a minha vida passou para o dicionário que sou".
Da sua obra poética fazem parte "Aquele Grande Rio Eufrates" (1961), "O Problema da Habitação" (1962), "Boca Bilingue" (1966), "Homem de Palavra(s)" (1969), "Transporte no Tempo" (1973), " País Possível "(1973), " A Margem da Alegria" (1974), "Toda a Terra" (1976),"Despeço-me da Terra da Alegria" (1977).
A Editorial Presença, com organização e comentários de Joaquim Manuel Magalhães, tem publicada em dois volumes a obra Poética de Ruy Belo. Entretanto, o Círculo de Leitores e a Assírio & Alvim reuniram-na num único volume, publicando-a sob o título de "Todos os Poemas".

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

"Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas. (…)”
Carlos Drummond de Andrade, in “Confidência do itabirano”



O mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) fez poesia e prosa. Escreveu sonetos e aforismos. Arriscou-se nos poemas-piadas e se glorificou nas crónicas jornalísticas. Rabiscou aquilo que via — e aquilo que imaginava também. Semeou o modernismo na Semana de Arte de 1922 e, anos mais tarde, lutou pelo surgimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sabia o valor da memória e sentia necessidade de preservá-la. Drummond povoou seus textos com assuntos que vão do político e notório ao mais íntimo e pessoal. Falou de guerras e amores, de pequenas cidades e grandes metrópoles, de amigos perdidos e inimigos conquistados. Tímido, fez confissões eróticas e cuspiu fogo. Sempre com palavras, sem nunca perder a elegância. Por isso — e por muito mais — ele ganha uma data para ser só sua. No que depender de seus admiradores, a partir deste ano, o 31 de Outubro (quando se comemora seu nascimento) passa a ser o Dia D, só de Drummond, e será sempre recheado de eventos em torno de sua obra — algo como acontece na Irlanda com o Bloomsday, dedicado ao escritor James Joyce (1882-1941).Diário de Pernanbuco

Lutar com Palavras
"Lutar com palavras é a luta mais vã. Enquanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia que as traga de novo ao centro da praça."
Carlos Drummond de Andrade, in “Poesia Completa”


A Palavra
Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.
Carlos Drummond de Andrade, in “A Paixão Medida”

Em Portugal, Casa Fernando Pessoa assinala aniversário Drummond de Andrade"
O aniversário do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade é assinalado hoje, em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, com o «Dia D», inteiramente dedicado ao escritor, numa associação ao Instituto Moreira Salles, do Brasil, que lançou a iniciativa.
A estreia mundial do documentário «Consideração do Poema», sobre o escritor, prevista para as 18:30, culmina a jornada iniciada às 10:00, com a projeção do filme «No Meio do Caminho», feito a partir da leitura do poema homónimo de Drummond de Andrade em diferentes línguas, segundo a programação anunciada pela Casa Fernando Pessoa.
«Consideração do Poema» estabelece um panorama sobre a obra de Drummond de Andrade, a partir de leituras feitas por figuras da cultura brasileira, como o escritor e compositor Chico Buarque, os músicos Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto, as atrizes Fernanda Torres e Marília Pera, o filósofo e poeta Antonio Cícero e o escritor Milton Hatoum."in Diário Digital / Lusa
Leitura do poema "No meio do caminho"  de Carlos Drummond de Andrade

domingo, 30 de outubro de 2011

Fado num Domingo de Outubro

Portugal apresentou a candidatura do   Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade. Em resposta , foi divulgado, durante a semana que findou,  o apoio da  UNESCO afirmando que o género musical português é um dos fortes vencedores. O comité de peritos da UNESCO recomendou que o Fado conste na Lista Representativa, como um dos patrimónios culturais da humanidade. Elogiou a típica música portuguesa como "um género de grande versatilidade poética e musical" com "um forte sentimento de pertença e ligação a Lisboa".
Além de não apresentarem qualquer restrição à aprovação da candidatura, os peritos intitularam o fado como uma das sete melhores referências a concurso. No seu relatório, os especialistas elogiam a candidatura portuguesa e apontam-na como um exemplo de boas práticas a seguir por outros países na preparação de novas candidaturas.
O Comité Inter-Governamental da Convenção da UNESCO vai proceder à votação entre os dias 22 e 29 de Novembro, em Bali na Indonésia.

E porque nesta semana andaram  no ar  os acordes do fado , vamos recordar a intérprete que melhor o simboliza. Ela confunde-se com o ritmo  quebrado, com o trinado repetido e prolongado do lamento sentido, do sussuro ardente, da alegria encoberta , do amor descontente, da saudade do futuro   que nele se celebram.  Ela é  Amália Rodrigues. Cantou-o e glorificou-o durante uma vida inteira.

Escutemo-la em  "Abandono", também conhecido como o Fado de Peniche pelas referências tão explícitas a esse  Forte prisão.  Fado que foi  considerado um hino aos  presos políticos que lá se encontravam vilmente enclausurados, vítimas da Ditadura. " Abandono" foi escrito para Amália  e veio a ser  proibido pela censura .
O poema é de David Mourão Ferreira e a música de Alain Oulman.

ABANDONO

Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento.
E apenas ouves o mar.

 
Levaram-te a meio da noite:
a treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
de todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
e nunca mais se fez dia.


Ai dessa noite o veneno
persiste em me envenenar.
Ouço apenas o silêncio
que ficou em teu lugar
Ao menos ouves o vento!
Ao menos ouves o mar!

Poema de David Mourão Ferreira
Música de Alain Oulman

E mais Amália  celebrando a poesia num "Fado Português"


Fado Português

O fado nasceu um dia,
Quando o vento mal bulia
E o céu o mar prolongava,
Na amurada dum veleiro,
No peito dum marinheiro
Que, estando triste, cantava,
Que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
Meu chão, meu monte, meu vale,
De folhas, flores, frutas de oiro,
Vê se vês terras de Espanha,
Areias de Portugal,
Olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
Do frágil barco veleiro,
Morrendo a canção magoada,
Diz o pungir dos desejos
Do lábio a queimar de beijos
Que beija o ar, e mais nada,
Que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
Que aqui te faço uma jura:
Que ou te levo à sacristia,
Ou foi Deus que foi servido
Dar-me no mar sepultura.

Ai, que lindeza tamanha,
Meu chão, meu monte, meu vale,
De folhas, flores, frutas de oiro,
Vê se vês terras de Espanha,
Areias de Portugal,
Olhar ceguinho de choro.

Poema de José Régio
Música de Alain Oulman

sábado, 29 de outubro de 2011

Marguerite Duras

Haveria uma escrita do não escrito.
Um dia isso há-de acontecer.
Uma escrita breve, sem gramática,
Uma escrita apenas com palavras.
Palavras sem gramática a apoiá-las.
Ali, escritas. E logo abandonadas.

Marguerite Duras


 O  “Magazine littéraire”,nº 513 de Novembro 2011, propõe um dossier consagrado a Marguerite Duras no momento em que a  prestigiada colecção “La Bibliothèque de la Pléiade” da Editora  Gallimard publica os dois primeiros volumes da sua obra completa.  Ser publicado na Bibliothèque de la Pléiade representa  o maior reconhecimento literário  que se pode prestar a um autor.  Marguerite Duras merece-o . Como afirmou « Escrever  durante uma vida inteira  ensina a escrever. Não salva de nada » mas a invenção literária salvou-a do anonimato e abriu-lhe as portas da imortalidade. A nós, seus leitores, ofereceu-nos instantes indizíveis de graça, momentos de intenso desespero, horas de alegrias iradas em intensas paixões, meses de obstinada vertigem entre a vida e a morte e uma eternidade de fascínio literário.
Escritora, dramaturga, realizadora, resistente, autora de uma imensa obra, Marguerite Duras nasceu em Gia Dinh, na Indochina, no dia 4 de Abril de 1914, e faleceu   no dia 3 de Março de 1996, em Paris, com 81 anos de idade. Um dia após a sua morte ,  Bertrand Poirot-Delpech escreve no jornal "Le Monde": "Quando esse pequeno pedaço de gente com grandes óculos e voz de final de comício participa da resistência ou faz política, quando acredita no comunismo e depois o execra, ela o faz com as suas entranhas, sem moderação nem prudência."
Duras escrevia como vivia: na urgência até ao esgotamento.
" Era mais do que uma escritora: ela encarnava a escrita. Borges : era a erudição. Hugo: a riqueza ,a facilidade e a mania de tudo dizer. Mas havia em Marguerite Duras aquele  furor poético, para falar como os antigos, aquela fé na escrita - (e pouco importava onde ela conduzisse) -  pois  nunca alguém ainda a tinha mostrado e que lhe permitia de confessar, confiante e trémula:  : «La solitude, ça veut dire aussi : Ou la mort, ou le livre» (Écrire). "
Em 1950, com ”Uma barragem contra o Pacífico”, Duras esteve muito próxima de ganhar o Prémio Goncourt. Só volvidos 30 anos (1984) a justiça é celebrada com a atribuição do prémio por unanimidade ao romance "O Amante".  
"O Amante" é  o relato exacerbado de uma paixão na adolescência inquieta da escritora que a tornou conhecida mundialmente. Este romance teve uma tiragem de aproximadamente três milhões de exemplares, traduções em quarenta línguas, um sucesso mundial, mais tarde foi adaptado para cinema pelo realizador Jean-Jacques Annaud.
 “Não podemos fazer mais do que amar - ou execrar - essa pequena mulher provocante, rodeada dos seus fantasmas (...). Essa pequena mulher, que roda sobre ela mesma como uma valsa solitária, terá sido uma senhora? Foi sobretudo uma mulher voraz de uma literatura que é um grito de amor ao longo de todas as páginas. Uma Piaf.” - Jean-François Josselin.

Muito cedo foi tarde demais
“Penso frequentemente nesta imagem que sou a única a ver ainda e de que nunca falei. Está sempre aí no mesmo silêncio, deslumbrante. É de todas, a que me agrada de mim própria, onde me reconheço, onde me encanto.
Muito cedo na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos era já tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezassete anos aquando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezanove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído.(...)
Eu perguntava-lhe se teria querido que as coisas se passassem assim. Ele quase ria, dizia: não sei, neste momento talvez sim. A sua meiguice tinha ficado inteira na dor. Não falava dessa dor, nunca dissera uma palavra sobre ela. Às vezes o seu rosto estremecia, fechava os olhos e cerrava os dentes. Mas calava-se sempre sobre as imagens que via por trás dos olhos fechados. (...)

Ela não soube quanto tempo depois da partida da rapariga branca ele executou a ordem do pai, quando fez aquele casamento com a rapariga designada pelas famílias há dez anos, também ela coberta de ouro, de diamantes, de jade. Uma Chinesa, também ela oriunda do Norte, da cidade de Fu-Chuen, que veio acompanhada pela família. (...)
Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele veio a Paris com a mulher. Telefonara-lhe. Sou. Ela reconhecera-o logo pela voz. Ele dissera: queria só ouvir a sua voz. Ela dissera: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, tinha medo como dantes. A sua voz tremia de repente. E com o tremor, de repente, ela voltara a encontrar a pronúncia da China. Ele sabia que ela tinha começado a escrever livros, soubera-o pela mãe dela que voltara a ver em Saigão. E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.
Néauphle-le-hateau – Paris
Fevereiro-Março de 1984  "
Marguerite Duras, in “O Amante”, DIFEL, Difusão Editorial.Lda, Lisboa

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

As Memórias de Jorge Amado

"Ele está lá, Jorge Amado, nestas páginas, as suas prisões, os seus exílios,as  suas farsas e armadilhas, em emoções infindáveis,os  seus olhos grandes, o seu riso, a sua mulher tanto amada, Zélia Gattai, o seu gosto pelos mares, o seu meio século de comunismo, os seus 50 romances, como  igualmente os negros, os pobres, as prostitutas e os pecadores da sua cidade adorada, Salvador da Bahia de Todos os Santos."
                         Gilles Lapouge, Qunizaine Littéraire

“Navegação de Cabotagem,Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei ”, Jorge Amado , 1992, Editora Europa–América, Mem- Martins é um  livro surpreendente e  memorável, não apenas porque guarda as memórias de Jorge Amado, mas porque representa o exercício retrospectivo de quase um século  por um dos maiores escritores universais.
Jorge Amado começou a escrevê-lo  em Janeiro de 1986, em Nova  Iorque, cidade para onde se deslocara com a sua mulher, Zélia Gattai,  a fim de participar no Congresso Internacional do Pen Club. Doente e debilitado por uma pneumonia , não pode comparecer às Conferências e começou a redigir algumas notas à medida que elas  afluiam . O registo das memórias, que abrangem um longo período do século XX (  a década de 20 até ao início dos anos 90), terminaria em 1992 , data da publicação do livro.
 “Oitenta anos vividos intensa, ardentemente, de face para a vida, em plenitude. Minha criação romanesca decorre da intimidade, da cumplicidade com o povo. Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato, em verdade sou um obá em língua iorubá da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da - sabedoria do povo.
Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e por vezes de participar de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes. Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar ideia do como e do porque. Trata-se, em verdade, da liquidação em preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida. Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale à pena escrevê-las, não lhes encontro a graça?”
Em 1992, quando terminou o livro, estava com oitenta anos. "O momento histórico, para quem viveu, na infância, o impacto da Primeira Guerra e da Revolução Russa, era avassalador: “O mundo nascido de duas guerras mundiais e da revolução socialista se esboroa e nas ruas se discute e se planeja uma nova carta geográfica e política, quando o impossível acontece, ruem muros, nações, impérios”. Apesar das transformações radicais, Jorge Amado não se mostra saudoso: “Só tenho pena de não me restar o tempo necessário para ver em que tudo isso vai dar. Bem que gostaria”.
Como já referimos  em edições anteriores ,  no ano de 2012 celebra-se  o centenário do nascimento de Jorge Amado (1912-2001). Recordá-lo através de um excerto do livro das suas memórias é uma forma antecipada de lhe prestar homenagem.

“Aproxima-se a data dos oitenta anos, por que se considera tão curto tempo de vida façanha a celebrar, empreitada a saudar com estrondo e festa? De toda parte, do Brasil e do estrangeiro, chegam convites para comemorações, atropelam-se as notícias, os projetos, programas infindáveis de solenidades, cresce a pressão para que aceite ir aqui, ali e acolá de ceca em meca, ouvir discursos, pronunciá-los, agradecer elogios de corpo presente, participar de atos, seminários, fóruns, almoços e jantares, quanta coisa se inventa para proclamar-se a caduquice. A generosidade dos amigos, o carinho dos leitores me comovem, mas todo esse cerimonial parece-me conter laivo de despedida, tem ar de adeus em necrológio: aqui repousa em paz, epígrafe em mausoléu, letras de ouro em campo santo.
Digo não ao discurso, à medalha, à fanfarra e aos tambores, à sessão solene, ao incenso, à fotografia de fardão ou em mangas de camisa exibindo as pelancas e a dentadura, não sou andor de procissão. Dá-me tua mão de conivência, vamos viver o tempo que nos resta, tão curta a vida!, na medida de nosso desejo, no ritmo de nosso gosto simples, longe das galas, em liberdade e alegria, não somos pavões de opulência nem gênios de ocasião, feitos nas coxas das apologias, somos apenas tu e eu. Sento-me contigo no banco de azulejos à sombra da mangueira, esperando a noite chegar para cobrir de estrelas teus cabelos, Zélia de Euá envolta em lua: dá-me tua mão, sorri teu sorriso, me rejubilo no teu beijo, laurel e recompensa. Aqui, neste recanto do jardim, quero repousar em paz quando chegar a hora, eis meu testamento.
Nasci empelicado, de bunda para a lua, uma estrela no peito, a sorte me acompanha, tenho o corpo fechado à inveja, a intriga não me amarra os pés, sou imune ao mau-olhado. A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei. Vivi ardentemente cada dia, cada hora, cada instante, fiz coisas que Deus duvida, conivente com o Diabo, compadre de Exu nas encruzilhadas dos ebós. Briguei pela boa causa, a do homem e a da grandeza, a do pão e a da liberdade, bati-me contra os preconceitos, ousei as práticas condenadas, percorri os caminhos proibidos, fui o oposto, o vice-versa, o não, me consumi, chorei e ri, sofri, amei, me diverti.
Fujo aos festejos, ao fogo de artifício, ao banquete, fujo ao necrológio, estou vivo e inteiro. Amanhã, passado o obituário de reverências, voltarei ao romance, Bóris, o Vermelho me espera na esquina da máquina de escrever com seu desafio de trapaça e juventude. Obstinado, vou prosseguir com orgulho e humildade a tarefa de emprenhar nos esconsos da cidade, conceber e parir homens e mulheres, capitães da areia, mestres de saveiro, jagunços, vagabundos, putas, são a inocência e a fantasia, nascem de minhas entranhas fecundadas pelo povo, do coração, dos miolos e das tripas, dos culhões
.” Jorge Amado , in “ Navegação de Cabotagem, Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei ”,  1992, Editora Europa–América, Mem- Martins

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Por uma América latina unida e livre

Memorial da América Latina, obra de Niemeyer
 "Na América Latina, a tendência democrática, progressista e de esquerda se afirma e se qualifica em seus sectores mais avançados. Tempos atrás constatamos que ocorreu na região uma mudança na correlação de forças políticas e sociais: a burguesia neoliberal e seus partidos sofreram derrotas político-eleitorais em vários países e perderam espaços nos aparelhos administrativos do Estado; emergiram alguns governos progressistas como resultado da busca de mudança por parte de nossos povos e dos combates contra governos entregues abertamente ao capital estrangeiro e aos interesses das classes dominantes locais.
Sem dúvida alguma esse novo cenário latino-americano significou um passo positivo para os povos, para as forças democráticas, progressistas e de esquerda, pois alimentou o desejo de mudança existente entre as massas e afirmou sua confiança na possibilidade de superar um sistema que só trouxe fome e desesperança para os trabalhadores e os povos. Como questão fundamental, o novo momento pôs na mesa de discussão a perspectiva do socialismo como alternativa ao decadente sistema capitalista.
Entretanto, com o passar os anos, pudemos constatar os limites políticos que afectam esses governos. Uns, mais rapidamente que outros, iniciaram giros à direita, traindo as expectativas do início de tempos novos para quem sempre tem vivido na opressão. Tratados de livre comércio com países ou blocos imperialistas, leis de corte antipopular, processos de criminalização do protesto social, entrega das riquezas naturais ao capital estrangeiro e medidas económicas neoliberais foram assinados por quase todos esses governos que ofereceram a mudança.
De regimes que respiravam a perspectiva de executar profundas mudanças económicas, políticas e sociais, e, por isso, abriam espaços para que as organizações de esquerda avançassem no processo de acumulação de forças revolucionárias, a maioria se transtornou em diques para o avanço da luta das massas, para a perspectiva da revolução e do socialismo.(...)
O desejo de mudança continua presente, manifesta-se nos protestos contra o desemprego, por educação, pela terra, pela água, contra os impostos, por democracia - para que seja escutada sua voz na hora de tomar decisões nas esferas de governo.Nesse aspecto é fundamental a política de unidade com os setores e forças interessadas na defesa das aspirações e direitos dos trabalhadores e dos povos e por defender os interesses soberanos do país.Mas a unidade deve ultrapassar as fronteiras nacionais, pois, sendo a revolução um processo que deve concretizar-se em cada um dos países, em sua essência é um movimento de caráter internacional" Comunicado do 15º Seminário Internacional "Problemas da Revolução na América Latina", Quito, 15 de Julho de 2011

 Num tempo em que se celebram os 500 anos do continente sul americano, recordar a  luta por uma América Latina livre e unida  que tem vindo a ser  feita, ao longo dos anos, através de movimentos guerrilheiros, de revoluções, de golpes de estado, mas essencialmente através do sofrimento e da abnegação do povo sul americano é um dever imperioso. Poetas, escritores, artistas , cantores  glorificaram e promoveram os ideais de um novo continente onde  a justiça social e a liberdade fossem uma realidade coesa e   indestrutível. Essa luta ainda se mantém e dela ecoam muitas vozes.
Mercedes Sosa, cantora maior da Argentina , foi uma dessas vozes. Uma das canções  que  interpretou é um hino à união da América Latina, "Canción Con Todos". Em sua memória e justa homenagem faz-se a reprodução dessa memorável e emblemática canção.

Canción Con Todos

Salgo a caminar
Por la cintura cósmica del sur
Piso en la región
Más vegetal del tiempo y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de América en mi piel
Y anda en mi sangre un río
Que libera en mi voz
Su caudal.
Sol de alto Perú
Rostro Bolivia, estaño y soledad
Un verde Brasil besa a mi Chile
Cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña América y total
Pura raíz de un grito
Destinado a crecer
Y a estallar.
Todas las voces, todas
Todas las manos, todas
Toda la sangre puede
Ser canción en el viento.
¡Canta conmigo, canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz
!

Aramando Tejado Gómez e César Isella