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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

"Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas. (…)”
Carlos Drummond de Andrade, in “Confidência do itabirano”



O mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) fez poesia e prosa. Escreveu sonetos e aforismos. Arriscou-se nos poemas-piadas e se glorificou nas crónicas jornalísticas. Rabiscou aquilo que via — e aquilo que imaginava também. Semeou o modernismo na Semana de Arte de 1922 e, anos mais tarde, lutou pelo surgimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sabia o valor da memória e sentia necessidade de preservá-la. Drummond povoou seus textos com assuntos que vão do político e notório ao mais íntimo e pessoal. Falou de guerras e amores, de pequenas cidades e grandes metrópoles, de amigos perdidos e inimigos conquistados. Tímido, fez confissões eróticas e cuspiu fogo. Sempre com palavras, sem nunca perder a elegância. Por isso — e por muito mais — ele ganha uma data para ser só sua. No que depender de seus admiradores, a partir deste ano, o 31 de Outubro (quando se comemora seu nascimento) passa a ser o Dia D, só de Drummond, e será sempre recheado de eventos em torno de sua obra — algo como acontece na Irlanda com o Bloomsday, dedicado ao escritor James Joyce (1882-1941).Diário de Pernanbuco

Lutar com Palavras
"Lutar com palavras é a luta mais vã. Enquanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia que as traga de novo ao centro da praça."
Carlos Drummond de Andrade, in “Poesia Completa”


A Palavra
Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.
Carlos Drummond de Andrade, in “A Paixão Medida”

Em Portugal, Casa Fernando Pessoa assinala aniversário Drummond de Andrade"
O aniversário do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade é assinalado hoje, em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, com o «Dia D», inteiramente dedicado ao escritor, numa associação ao Instituto Moreira Salles, do Brasil, que lançou a iniciativa.
A estreia mundial do documentário «Consideração do Poema», sobre o escritor, prevista para as 18:30, culmina a jornada iniciada às 10:00, com a projeção do filme «No Meio do Caminho», feito a partir da leitura do poema homónimo de Drummond de Andrade em diferentes línguas, segundo a programação anunciada pela Casa Fernando Pessoa.
«Consideração do Poema» estabelece um panorama sobre a obra de Drummond de Andrade, a partir de leituras feitas por figuras da cultura brasileira, como o escritor e compositor Chico Buarque, os músicos Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto, as atrizes Fernanda Torres e Marília Pera, o filósofo e poeta Antonio Cícero e o escritor Milton Hatoum."in Diário Digital / Lusa
Leitura do poema "No meio do caminho"  de Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Nascer em Tempo de Guerra

Feliz Aniversário

Sinto ainda o frémito  de alegria e  de medo idêntico ao que experienciei naquele dia  25 de Fevereiro. Quando entrei para a sala de partos,  a cidade estava debaixo de fogo. Os rebentamentos dos morteiros  ecoavam ameaçadores e as tracejantes cruzavam os ares sem rumo certo ou descortinável. Estava num país em guerra e à beira da catástrofe.
Nessa madrugada, quando acordara, sabia que estava prestes a renovar em mim o papel tutelar da maternidade. O meu filho iria nascer dentro de pouco tempo e as  metralhadoras continuavam num fogo intenso que fazia estremecer as casas num desamparado ranger. Um profundo temor comprimiu-me . O convívio quotidiano com aquele cenário de guerra criara uma relação estranhamente pacificada, que se esvaía naquele momento. A consciência do risco emergiu avassaladora. A facticidade do parto projectou  com terrível nitidez  a imagem de uma incapacidade real em  poder defender e proteger o meu filho durante o seu nascimento. E, nesse momento, percepcionei o perigo que correm todos os  que nascem em tempo de guerra. A vida começa confrontada com o que ela mesma  tem de indefinidamente inaugural, com a sua própria sobrevivência.
Quando o choro do meu filho ecoou na sala todos os temores desapareceram.  A celebração da maternidade encheu de completude  os espaços. E cumpriu-se o “duplo sentido do nascimento: por ele a vida começa ; e por ele a vida é recebida.”
Abandonámos esse país distante. O meu filho cresceu, fez-se homem. O fascínio da descoberta fê-lo voltar à cidade natal. E porque a paz já lá morava  e crescia, reencontrou o chão telúrico da afirmação inicial que, até hoje, o mantém cativo.
A guerra não deixou sequelas irreparáveis na minha vida; apenas  convive com as lembranças que todos os anos afloram neste dia.
Parabéns, meu filho. Feliz aniversário.