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sábado, 29 de outubro de 2011

Marguerite Duras

Haveria uma escrita do não escrito.
Um dia isso há-de acontecer.
Uma escrita breve, sem gramática,
Uma escrita apenas com palavras.
Palavras sem gramática a apoiá-las.
Ali, escritas. E logo abandonadas.

Marguerite Duras


 O  “Magazine littéraire”,nº 513 de Novembro 2011, propõe um dossier consagrado a Marguerite Duras no momento em que a  prestigiada colecção “La Bibliothèque de la Pléiade” da Editora  Gallimard publica os dois primeiros volumes da sua obra completa.  Ser publicado na Bibliothèque de la Pléiade representa  o maior reconhecimento literário  que se pode prestar a um autor.  Marguerite Duras merece-o . Como afirmou « Escrever  durante uma vida inteira  ensina a escrever. Não salva de nada » mas a invenção literária salvou-a do anonimato e abriu-lhe as portas da imortalidade. A nós, seus leitores, ofereceu-nos instantes indizíveis de graça, momentos de intenso desespero, horas de alegrias iradas em intensas paixões, meses de obstinada vertigem entre a vida e a morte e uma eternidade de fascínio literário.
Escritora, dramaturga, realizadora, resistente, autora de uma imensa obra, Marguerite Duras nasceu em Gia Dinh, na Indochina, no dia 4 de Abril de 1914, e faleceu   no dia 3 de Março de 1996, em Paris, com 81 anos de idade. Um dia após a sua morte ,  Bertrand Poirot-Delpech escreve no jornal "Le Monde": "Quando esse pequeno pedaço de gente com grandes óculos e voz de final de comício participa da resistência ou faz política, quando acredita no comunismo e depois o execra, ela o faz com as suas entranhas, sem moderação nem prudência."
Duras escrevia como vivia: na urgência até ao esgotamento.
" Era mais do que uma escritora: ela encarnava a escrita. Borges : era a erudição. Hugo: a riqueza ,a facilidade e a mania de tudo dizer. Mas havia em Marguerite Duras aquele  furor poético, para falar como os antigos, aquela fé na escrita - (e pouco importava onde ela conduzisse) -  pois  nunca alguém ainda a tinha mostrado e que lhe permitia de confessar, confiante e trémula:  : «La solitude, ça veut dire aussi : Ou la mort, ou le livre» (Écrire). "
Em 1950, com ”Uma barragem contra o Pacífico”, Duras esteve muito próxima de ganhar o Prémio Goncourt. Só volvidos 30 anos (1984) a justiça é celebrada com a atribuição do prémio por unanimidade ao romance "O Amante".  
"O Amante" é  o relato exacerbado de uma paixão na adolescência inquieta da escritora que a tornou conhecida mundialmente. Este romance teve uma tiragem de aproximadamente três milhões de exemplares, traduções em quarenta línguas, um sucesso mundial, mais tarde foi adaptado para cinema pelo realizador Jean-Jacques Annaud.
 “Não podemos fazer mais do que amar - ou execrar - essa pequena mulher provocante, rodeada dos seus fantasmas (...). Essa pequena mulher, que roda sobre ela mesma como uma valsa solitária, terá sido uma senhora? Foi sobretudo uma mulher voraz de uma literatura que é um grito de amor ao longo de todas as páginas. Uma Piaf.” - Jean-François Josselin.

Muito cedo foi tarde demais
“Penso frequentemente nesta imagem que sou a única a ver ainda e de que nunca falei. Está sempre aí no mesmo silêncio, deslumbrante. É de todas, a que me agrada de mim própria, onde me reconheço, onde me encanto.
Muito cedo na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos era já tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezassete anos aquando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezanove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído.(...)
Eu perguntava-lhe se teria querido que as coisas se passassem assim. Ele quase ria, dizia: não sei, neste momento talvez sim. A sua meiguice tinha ficado inteira na dor. Não falava dessa dor, nunca dissera uma palavra sobre ela. Às vezes o seu rosto estremecia, fechava os olhos e cerrava os dentes. Mas calava-se sempre sobre as imagens que via por trás dos olhos fechados. (...)

Ela não soube quanto tempo depois da partida da rapariga branca ele executou a ordem do pai, quando fez aquele casamento com a rapariga designada pelas famílias há dez anos, também ela coberta de ouro, de diamantes, de jade. Uma Chinesa, também ela oriunda do Norte, da cidade de Fu-Chuen, que veio acompanhada pela família. (...)
Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele veio a Paris com a mulher. Telefonara-lhe. Sou. Ela reconhecera-o logo pela voz. Ele dissera: queria só ouvir a sua voz. Ela dissera: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, tinha medo como dantes. A sua voz tremia de repente. E com o tremor, de repente, ela voltara a encontrar a pronúncia da China. Ele sabia que ela tinha começado a escrever livros, soubera-o pela mãe dela que voltara a ver em Saigão. E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.
Néauphle-le-hateau – Paris
Fevereiro-Março de 1984  "
Marguerite Duras, in “O Amante”, DIFEL, Difusão Editorial.Lda, Lisboa