sábado, 11 de maio de 2024

TARASS BULBA

TARASS BULBA
por  Nikolai Gógol
I
 
“— Ora vira‑te para cá, filho! Que cómico que tu estás! Que sotainas de padre são essas que vocês trazem? É assim que andam todos lá na academia?
Foi com estas palavras que o velho Bulba recebeu os dois filhos, que haviam estudado no seminário em Kiev e que voltavam para casa do pai. Os filhos acabavam de desmontar dos cavalos. Eram dois jovens alentados, que ainda olhavam de soslaio, como dois seminaristas acabados de formar. Os seus rostos vigorosos, saudáveis, estavam cobertos das primeiras penugens da barba, ainda não tocadas pela navalha de barbear. Muito embaraçados por serem recebidos desta maneira pelo pai, mantinham‑se imóveis, de olhos pregados no chão.
— Deixem‑se estar, deixem‑se estar! Deixem‑me olhar bem para vocês — continuou o velho, virando‑os. — Que longas sotainas! Que sotainas! Pensei que não existiam sotainas como essas neste mundo. Estou a olhar, a ver se elas não vos caem, se não se arrastam pelo chão.
— Não te rias, não te rias, paizinho! — disse, por fim, o mais velho dos dois.
— Olha tu, que pomposo! Porque é que não hei de rir?
— Porque, embora sejas meu pai, se te ris de mim, palavra que te bato!
— Ai, que filho me saíste! Como assim, bater no teu pai? — disse Tarass Bulba, recuando alguns passos, surpreendido.
— Ainda que sejas meu pai. Por uma ofensa, não olho nem respeito ninguém.
 — E como é que tu queres lutar comigo, com os punhos? — De qualquer maneira. — Bem, pois seja com os punhos! — replicou Tarass Bulba arregaçando as mangas. — A ver que homem és tu com os punhos.
E pai e filho, ao fim de uma longa separação, em vez de se saudarem, puseram‑se a desferir murros um no outro, nos flancos, na cintura e no peito, ora recuando e observando, ora voltando a atacar.
— Vejam, boa gente. O velho endoideceu! Perdeu completamente o juízo! — dizia a mãe, pálida, magra e bondosa, de pé à porta de casa, que nem conseguira abraçar os seus filhos. — Vêm os filhos para casa, não os víamos há mais de um ano, e ele deu‑ ‑lhe para fazer sabe‑se lá o quê: lutar aos murros.
 - Mas ele luta muito bem! — dizia Bulba. — Muito bem, palavra! — continuou, recompondo‑se um pouco e parando. — De tal maneira que o melhor é não experimentar! Vai ser um bom cossaco! Ora muito bem, filho! Beijemo‑nos! — E o pai e o filho trocaram beijos. — Muito bem, meu filho! É assim que deves bater a qualquer um, como me surraste. Não desculpes ninguém! Em todo o caso, tens uma vestimenta ridícula: que corda é essa aí pendurada? E tu, palerma, para que estás aí parado, de braços caídos? — disse ele, dirigindo‑se ao filho mais novo. — Filho de um cão, não me dás uns murros?
— Vejam só do que mais se havia de lembrar! — dizia a mãe, que, entretanto, abraçava o mais novo. — Que o filho batesse no pai. Ao que isto chegou agora, que um filho jovem, cansado depois de percorrer um tão longo caminho… (este filho tinha um pouco mais de vinte anos e apenas uma braça de altura), o que precisava agora era de dormir e comer alguma coisa, e ele obriga‑o a lutar!
— Ei, mas, ao que vejo, tu és um maricas! — disse Bulba. — Não dês ouvidos ao que a tua mãe diz, filho: ela é mulher, não sabe nada. De que carinho é que vocês precisam? O vosso carinho é um campo aberto e um cavalo: esse é que é o vosso carinho! E estão a ver esta espada? Esta é a vossa mãe! E isso com que vos enchem a cabeça, são disparates: as academias, e todos esses livros, essas cartilhas, e as filosofias, tudo é lixo! Isso não me podia interessar menos! — Neste momento, Bulba soltou uma palavra que nem se deve pôr por escrito. — O melhor é que já na próxima semana eu vos mande para Zaporójie. Ali é que está a ciência. Essa é que é a vossa escola; só ali vocês ganharão juízo.
 — E vão ficar em casa só uma semana? — disse a velha mãe, lamentosa, com as lágrimas nos olhos. — Nem têm tempo para se divertir um pouco, nem para conhecer a casa paterna, nem eu tenho tempo para olhar bem para eles!
- Chega de gemer, velha, já chega! Um cossaco não é para andar atrás das mulheres. Tu querias era escondê‑los aos dois debaixo da saia e ficar sentada em cima deles, como a galinha em cima dos ovos. Anda lá, anda lá, vai‑nos pôr a mesa com tudo o que temos. Não precisamos de filhós, nem de bolos de mel, de papoila ou outras delicadezas; traz‑nos carneiro e hidromel! E vodca com fartura, não poupar na vodca, mas de branca espuma, para que espumeje e fervilhe como doida.
Bulba conduziu os filhos para a sala de visitas, de onde saíram a correr duas bonitas criadas, vestidas de vermelho, que estavam a arrumar as salas. Pelos vistos, assustaram‑se com a chegada dos jovens senhores, não gostavam de deixar entrar ninguém, ou simplesmente queriam manter o seu costume feminino: gritar e fugir à pressa, ao ver um homem, e depois ficarem longamente a espreitar, cobrindo‑se com a manga do vestido. A saleta estava decorada ao gosto daquela época — de que restam vivos indícios apenas nas canções e nas baladas populares, que já não são cantadas na Ucrânia por velhos barbudos e cegos, acompanhadas por uma bandurra dedilhada, diante do povo em redor — ao gosto daqueles tempos guerreiros, difíceis, em que começaram a desencadear‑se na Ucrânia as pelejas e batalhas pela união*. Tudo era limpo, pintado em cores claras. Nas paredes havia espadas, látegos, redes para pássaros, redes para pesca, espingardas, um chifre muito bem preparado para a pólvora, um freio dourado para o cavalo e peias com chapas de prata. As janelas da sala eram pequenas, com vidraças redondas e baças, como as que hoje só se encontram nas velhas igrejas e através das quais só era possível olhar soerguendo os vidros móveis. Em torno das janelas e das portas havia faixas vermelhas pintadas. E sobre as prateleiras, aos cantos, jarras, garrafas e frascos de vidro verde e azul, taças de prata lavrada, cálices dourados de toda a espécie: venezianos, turcos, circassianos, que foram parar à sala de Bulba de maneiras várias, através de segundas, terceiras e quartas mãos, o que era habitual naqueles tempos distantes. Havia bancos de entrecasca de bétula a toda a volta da sala; ao canto anterior, uma mesa respeitável sob os ícones; um grande fogão, decorado com azulejos de padrões multicores em relevo. Tudo isto era muito bem conhecido dos dois jovens, acostumados a voltar a casa todos os anos nas férias escolares, a pé, porque ainda não tinham cavalos e porque habitualmente não era permitido aos alunos viajarem a cavalo. Tinham apenas longas madeixas, pelas quais qualquer cossaco armado lhes podia puxar. Só quando eles terminaram o curso, Bulba lhes enviou da sua manada uma parelha de jovens garanhões.
Para festejar o regresso dos filhos, Bulba mandou reunir todo o esquadrão e todos os graduados do regimento que estivessem disponíveis, e quando chegaram dois deles com o capitão Dmitro Tovkatch, seu velho camarada, apresentou‑lhe de imediato os filhos, dizendo «Ora vejam, que rapagões! Vou mandá‑los à Sietch**, não tarda nada». Os convidados deram os parabéns a Bulba e aos dois jovens e disseram‑lhes que essa era uma boa decisão, e que não havia melhor ciência para um jovem do que a fortaleza de Zaporójie.
— Ora bem, meus senhores e irmãos, sentai‑vos à mesa, cada qual onde achar melhor. Bem, filhos! Antes de mais nada, bebamos uma pinga de vodca! — disse Bulba. — Deus nos abençoe! Saúde, meus filhos: tu, Ostap, e tu, Andrei! Deus permita que sejam sempre bem‑sucedidos na guerra! Que derrotem sempre os infiéis, os turcos e os tártaros, quando eles começarem a tramar ações contra a nossa fé. Vá, ergue o teu cálice; que tal, é uma boa vodca? E como se diz vodca em latim? Ora bem, os latinos eram uns tolos: nem sabiam que havia vodca no mundo. Como é que se chamava aquele que escrevia versos em latim? Eu não sou lá muito letrado, por isso não sei: Horácio, não era?
 «Vejam como é o pai!», pensou para consigo o filho mais velho, Ostap. «Sabe tudo, o velho cão, e ainda se finge ignorante.»
 — Penso que o arquimandrita não vos dava vodca nem a cheirar — confirmou Tarass. — Mas confessem, filhos, que vos açoitaram bem com varas de bétula e de ginjeira nas costas e em tudo o que um cossaco tem. Ou talvez, quando se tornaram demasiado espertos, vos tenham surrado com o látego; provavelmente, não apenas aos sábados, mas também às quartas e quintas‑feiras?
 — Não há nada para lembrar, paizinho — respondeu Ostap. — O que houve já passou!
— Que experimentem agora — disse Andrei, que alguém tente agora experimentar; que algum tártaro experimente agora, e ficará a saber o que é um sabre cossaco!
 — Está bem, filho! Muito bem, palavra! Mas quando chegarmos a isso, eu próprio irei convosco! Palavra que vou. De que diabo fico eu aqui à espera? Havia de ficar para aqui como um agricultor, a olhar pela casa e cuidar das ovelhas e dos porcos e atrás das saias da mulher? Que vão para o diabo: eu sou um cossaco, não quero isso! E o que tem que não haja guerra? Vou com vocês para Zaporójie, dar um passeio; palavra que vou! — E o velho Bulba excitou‑se pouco a pouco, excitou‑se, e finalmente irritou‑se por completo, levantou‑se da mesa e, armado em valente, bateu o pé. — Amanhã mesmo partimos! Porquê adiar? De que inimigo podemos ficar aqui à espera? Para que precisamos desta cabana? Para que queremos tudo isto? Para que queremos estes potes? — Dizendo estas palavras, começou a arremessar e a quebrar os vasos e as garrafas.
A pobre velha, já acostumada a tais procedimentos do marido, olhava com tristeza, sentada num banco. Não se atreveria a dizer nada; mas, ao ouvir aquela horrível decisão, não pôde conter as lágrimas; olhou para os seus filhos, com os quais a ameaçava uma tão rápida separação — e ninguém poderia descrever a força silenciosa da sua amargura que parecia palpitar‑lhe nos olhos e nos lábios, convulsivamente cerrados.
Horrivelmente teimoso, Bulba tinha um daqueles caracteres que só podiam surgir no difícil século XV, em algum recanto meio selvagem da Europa, quando toda a Rússia meridional primitiva, abandonada pelos seus príncipes, estava devastada, completamente assolada pelas constantes incursões dos rapinantes mongóis; quando, privado de casa e de teto, o homem se ergueu aqui intrépido; quando na terra queimada, à vista dos vizinhos ameaçadores e ao perigo eterno, ele se estabeleceu e se habituou a olhá‑los a direito nos olhos, se desacostumou de querer saber se existe algum medo neste mundo; quando, como uma chama guerreira, alastrou o espírito eslavo do mundo antigo e se organizaram os cossacos, esse modo generoso e desenfreado da natureza russa, e quando todos os vales, todas as passagens, todas as zonas ribeirinhas e todos os lugares propícios ao povoamento se cobriram de cossacos, cujo número ninguém conhecia, e os seus camaradas audaciosos se sentiram no direito de responder ao sultão, que quis saber o número deles: «Quem é que sabe?! Estamos espalhados por toda a estepe: em cada cabeço, há um cossaco». E era de facto uma manifestação invulgar da força russa: a pederneira das desgraças fê‑la eclodir no peito do povo. “
Nikolai Gógol , in TARASS BULBA, Relógio D’Água Editores, Março de 2024, pp.7-12
 
* Os polacos pretendiam unificar as igrejas católica e ortodoxa, com predomínio dos católicos e obediência ao Vaticano. (N. T.)
** Sietch (Sietch de Zaporójie): Organização dos cossacos da Ucrânia nos séculos XVI - XVIII . Até 1654 assumiu a designação de «república», dirigida por uma assembleia (Rada) e por um atamane. (N. T.)

Sobre o Livro:
TARASS BULBA, de  Nikolai Gógol
Tradução (do russo) de António Pescada.
"Tarass Bulba descreve a vida de um antigo cossaco de Zaporójie, Tarass Bulba, e dos seus dois filhos, Andrei e Ostap. Os filhos, que estudam na academia de Kiev, regressam a casa, de onde os três homens partem numa jornada para a Sietch de Zaporójie (a sede dos cossacos de Zaporójie, localizada no sul da Ucrânia), onde se juntam a outros cossacos e vão para a guerra contra a Polónia.
A personagem principal é baseada em várias personalidades históricas, e o enredo pode ser entendido no contexto do movimento de nacionalismo romântico na literatura, que se desenvolveu em torno de uma cultura étnica histórica.
«Um dos dez melhores livros de todos os tempos.» [Ernest Hemingway]"
Autor: Nikolai Gógol 
Editora: Relógio D’Água
Data de publicação: 18/03/2024
Nº de páginas: 160
Acabamento: capa mole
Peso: 256 gramas
Preço: 17,00€-15,30€
Sobre o autor:
"Nikolai Gógol nasceu em 1809, na cidade de Sorotchintzii, situada na Pequena Rússia, atual Ucrânia. Estudou no Liceu Nejin. O pai, proprietário de terras, faleceu quando ele tinha dezasseis anos.
Em 1828, partiu para São Petersburgo. Segundo uma das lendas, que ele próprio criou, a primeira coisa que fez ao chegar à cidade foi visitar Púchkin. Ao certo sabe-se que gastou cerca de 350 rublos em roupas novas, deambulou em busca de emprego e publicou dois poemas que escrevera dois anos antes. Hanz Kuechelgarten foi recebido com silêncio apenas interrompido por uma impiedosa crítica no Telégrafo de Moscovo. Gógol e o seu criado foram às livrarias comprar todos os exemplares disponíveis e queimaram-nos.
Em agosto desse ano, Gógol viajou pelo norte da Alemanha, de onde regressou em finais de setembro para ingressar na função pública.
No início de 1830, publicou o seu primeiro conto, com a assinatura «OOOO».
Em 1834, com o apoio de alguns amigos literários, é nomeado professor assistente de História Mundial da Universidade de São Petersburgo, matéria em que era bastante ignorante. Em 1835, publicou dois volumes de contos com o título Mirgorod e Tarass Bulba.
É nessa época que escreve O Nariz, a história dum infeliz cujo nariz se separou dele. É também nesse período que escreve O Inspetor-Geral, cuja representação em 1836 foi autorizada por Nicolau I, sendo ainda hoje considerada por alguns a maior peça de teatro escrita em russo.
Em junho de 1836, Gógol parte para o estrangeiro, onde viverá até 1848, regressando à Rússia apenas por breves períodos.
É já na Suíça, em outubro de 1836, que começa a Primeira Parte de Almas Mortas, que continuará nos anos seguintes, em Paris. Em 1837 e 1838, está em Roma, onde conclui O Capote. Em 1842, publica a Primeira Parte de Almas Mortas (da Segunda Parte apenas deixou os primeiros capítulos).
Entre 1842 e 1848, viaja de um lado para o outro à procura de inspiração e saúde. Depois regressa a Moscovo, Odessa, Vassilevka e, em 1852, novamente a Moscovo, onde acaba por falecer.
Como escreve Nabokov, «Nikolai Gógol, o mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia, morreu numa quinta-feira de manhã, um pouco antes das oito horas, a 4 de março de 1852, em Moscovo. […] O esgotamento físico total resultante duma greve de fome voluntária (com a qual a sua melancolia mórbida tentara opor-se aos desígnios do Diabo) culminou numa anemia aguda do cérebro (associada, provavelmente, a uma gastroenterite devida à inanição), e o tratamento de purgas e sangrias vigorosas a que foi submetido apressou a morte dum organismo já gravemente diminuído pelas sequelas da malária e da má alimentação».

O Haver

O Haver
 
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
 
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
 
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
 
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
 
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
 
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
 
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
 
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
 
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
 
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
 
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
 
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
 
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo,
e esse medo 
 infantil de ter pequenas coragens.
                                      15/04/1962
Vínicius de Moraes, in "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A Carta para Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa
 (Lourenço Marques. 30.05.1930 - Lisboa, 09.04.2024)

Passou um mês que nos deixou. Será impossível deixar de evocar Eugénio Lisboa. Tem uma  obra volumosa, plural e de soberbo fascínio. Lê-lo é e será sempre um imperioso anseio de prazer, de aprendizagem  de descoberta. A Cultura  perdeu o seu maior intelectual dos tempos hodiernos. A Literatura,  apesar de enriquecida com o seu fértil legado , não poderá ser acrescentada e iluminada  com novas e fecundas contribuições deste grande escritor.
Como homem, Eugénio Lisboa  foi um ser humano singular que tocava pela afabilidade, pelo desprendimento da coisa efémera , pela  atenção ao outro.
Tocou- nos profundamente. 
É para Eugénio Lisboa que se fixa o nosso olhar  e se humedece o nosso coração de saudade.
Assim, Livres Pensantes publica, hoje, uma carta inédita que José Régio poderia ter escrito a Eugénio Lisboa , na época do lançamento do V volume das suas Memórias, "Acta Est Fabula, Memórias V - Regresso a Portugal (1995-2015)".



Vila do Universo
17/11/2015

                                                               Meu caro Eugénio Lisboa
 
Não encarrego o nosso Orlando Taipa de escrever estas linhas porque, no lugar onde me encontro, as máquinas escrevem o que lhes  ditamos. A minha incapacidade foi resolvida sem que me tivesse sido imposta a  recuperação total  daquelas complicações penosas que me debilitaram rudemente. Longe vai o agoiro do Lumiar. Aquele casarão ainda me assombra. Lisboa nunca  me seduziu. Fugi-lhe  sempre, mas apanhou-me pela  doença.
Não imagina o que tenho pensado em si e há que tempos estou para lhe escrever e corrigir a minha incorrecção na questão de responder aos amigos. Abuso , pois, da sua benevolência e já nem lhe peço perdão da longa demora desta carta. Mas de hoje em diante, o caso muda. Agora estou livre. Se eu , agora, não lhe responder, ao menos com relativa prontidão, zangue-se comigo. Mas, meu amigo, deixemos esse capítulo.
Falemos de si. Venho, sobretudo, para lhe dizer que muito me regozijo por ter escutado a minha “ admoestação” e se ter resolvido a dar-nos livros. Tinha esse dever perante si próprio, perante os Seus, perante os amigos…e perante a cultura nacional. Repeti-lhe estas palavras inúmeras vezes.  Se  fosse  hoje, eu diria perante a cultura universal já que se tornou um cidadão  do mundo.
A 19 de Novembro de 2015, será o lançamento do V volume  das suas Memórias que optou por estender,  apenas,  até 20 de Abril deste ano de 2015.
“Acta Est Fabula” relata uma longa e brilhante trajectória de um jovem talentoso que conheci como oficial miliciano, em Portalegre, há sessenta e um anos. Fazer parte desse relato é um prazer que muito  me orgulha porque a minha  crença em si era real. O facto de me ter descoberto pela prosa e não pela poesia, revelava já muito da sua argúcia, da sua verdadeira índole. Possuía a necessária sensibilidade e a subtil agudeza de espírito  para perscrutar e apreender a essência de uma obra  , o valor autêntico de um  escritor e o prazer indizível da escrita.
E o caminho foi feito. Sinto-me no dever de lhe participar que não  deixei de estar atento ao seu percurso, desde aquele dia fatídico de 1969. A construção da sua carreira literária foi firme , sábia , rica e profunda.
A profusão e variedade de juízos e perspectivas que sugeriu sobre a minha obra descem a particularidades de análise  com tal arte e minúcia que todas as sombras que  teimavam nela resistir se iluminaram com uma  intensa e singular claridade. Transformou a minha obra num luminoso monumento literário que, por vezes, se me insinua mais seu do que meu. O leitor, o estudioso,  neste caso, ultrapassou o escritor. E ao ultrapassá-lo, excedeu-o  em talento, génio e significado.
Em suma: só tenho vontade de o aplaudir. E para isso aqui me tem.
Se tivesse que destacar alguns dos momentos que mais apreciei durante todos estes anos, escolheria,  além daquele que vai celebrar no dia do lançamento do quinto tomo das suas Memórias, o tempo que passou em Londres e os anos de intensa produção e actividade literária em Portugal.  Sei que tem um apreço especial pelo tempo africano.
Desse tempo, pudemos partilhar algumas confidências e impressões. Recordo ainda o seu desafio para ir a Lourenço Marques. Como lamento não o ter aceitado, pois sonhava às vezes com essa ida. Mas estava a envelhecer, meu amigo, e até para  as viagens mais curtas  que projectava me ia faltando energia , ou entusiasmo.
Por causa desse amor por África, saltou, em Acta Est Fabula, o relato da época em que esteve em Lisboa a estudar e veio fazer o serviço militar a Portalegre, circunstância que possibilitou   o nosso encontro. Uma época que nos marcou para sempre. Não só a mim. Os nossos amigos comuns de Portalegre, muito falaram de si, lamentando não o ter mais  entre nós.
Aguardarei, com curiosidade impaciente, esse tomo que sei já ter iniciado a escrita. A verdade é que a sua obra me agradou muito, e tenho verdadeiro prazer em lho dizer.
Estou enjoado ( é o termo)  da imensa maioria de livros que por aí se escreve, nacionais ou estrangeiros. Tudo isso é , por vezes, muito hábil e bem calculado para bom resultado, junto não só do público, mas até de alguns críticos. Mas nenhuma ( ou quase nenhuma) sinceridade humana, nenhuma intenção verdadeiramente séria, nenhuma fantasia original ou nenhuma poesia autêntica nessas obras cujo principal fim é o comércio. Falta-lhes autenticidade que é o essencial. Ora a sincera alegria que me deu a sua obra – foi precisamente de ter encontrado uma que é excepção.
Com todas as minhas impertinências e rudezas ( de que aliás não desisto porque sou brutalmente  sincero, precisamente com os amigos que mais estimo!) não vá pensar que eu não estou convicto de que Deus lhe deu dons que não pode guardar já, e com que tem de contar a nossa cultura. A verdade foi sempre uma das minhas fundas tentações ( e das mais perigosas ) a despeito de todos os embustes acumulados na minha vida.
Sei da sua intenção antiga de escrever um romance e uma peça de teatro (Henrique de Sagres) da qual já tem vários diálogos.  Uma peça precisa de qualquer história-pretexto como base, como sustentação. Tendo já essa história-pretexto deveria ter começado  a escrevê-la, ou ter dado prioridade à sua escrita.  Sei que não se deve precisar datas ou impelir alguém a escrever. Mas , a verdade  é que uma obra pode viver obscuramente  dentro de nós para sempre  - sem nunca chegar a ser obra: Obra.
Veja, no meu caso, a “ Confissão dum Homem Religioso” e o sexto volume da “ Velha Casa”. E logo a “ Confissão” que saía com uma facilidade espantosa porque andava a ser feita dentro de mim há tantos anos. Não a acabei. E a “ Velha Casa”, uma grande casa, tão minha, ficou sem  outro volume, sem continuidade. Incompleta.
Senti-me infindamente lisonjeado e vaidoso quando sobre mim escreveu, no tal fatídico dia de 1969, em que deixei de estar visível.  Recordo-o com emoção:
“ José Régio morreu há pouco.(…) Era um espírito autónomo e corajoso. (…) Régio  lega-nos uma obra incompleta por ter sido ambiciosa. A Velha Casa era por si só uma empresa de vastas proporções. Mas foi metendo pelo meio outros livros  que também trazia  no ventre.  Por isso,  não pôde acabar coisas que começou, ou não chegou  a empreender  outras com que sonhou. « O que não possas acabar, isso mesmo te engrandece.», dizia Goethe sob o olhar aprovativo de Thomas Mann. José Régio, na fase final, pensava ainda poder escrever uma peça por ano…”
Não se permita o mesmo. Escreva o que germina em si. O tal romance está todo construído na sua forma e conteúdo dentro de si. Vive consigo em desassossego. Solte-o e será um magnum opus. Eu e o mundo ficar-lhe-emos gratos e felizes.
E não se esqueça  das palavras  que colocou sobre mim , num dos seus livros ,de tão magnânima produção que  me faz credor de uma dívida muito superior àquela que o nosso país tem vindo a contrair. No livro, José Régio,- A Obra e o Homem,  o meu perspicaz amigo afirma  : “ A  obra  de Régio não nos deixa uma esperança. Não é uma obra optimista. Nada resolve. Mas enche-nos de uma estranha felicidade e mesmo alegria, pelo simples facto de ser uma grande obra. (…) Nascida de um ser frágil, o artista , a obra acaba por sustentá-lo em vez de sustentar-se dele. Acaba também  por fazer-nos um pouco a todos nós.
(…) O desprezo de José Régio por modas e cartilhas era genuíno e, direi mesmo, quase espectacular. Nada enfurecia tanto aquele homem de uma grande serenidade  aparente como ver diante de si um papagaio debitando, numa justaposição “à la page” e sem nexo, todos os “mots du jour” aceites sem crítica nem esforço interpretativo. (…) Régio se muito se entregava, muito se fechava também «com os seus mistérios».(…)
José Régio morreu. Morreu o nosso maior escritor dos últimos trinta anos. Enquanto vivo soube resistir a todas as tentativas de sedução e absorção. Tentaram-no com tudo: com palavras de ameaça e de promessa, com prémios , com punições, com silêncio. A tudo opôs a grandeza de um não , conforme prometera no  Cântico Negro.”
Cesso de o citar porque não é de mim que venho falar. Faço-o para ilustrar o que sempre pensei e pelo orgulho que tenho na sua obra. Ela reflecte o homem inteiro. E ao reflectir, pretendo que esse homem não esmoreça. Que complete a sua obra. Sei que,  sobre ele,  já muito foi escrito. Não esqueço a homenagem que lhe prestaram, em Aveiro. Tenho o livro que daí resultou, ( Eugénio Lisboa, vário, intérprido e fecundo). Como lamento não ter podido comparecer e/ou através de  um texto ( acredite que seria produzido com a mais inabalável isenção) integrar a lista de tantos admiradores prestigiados. Conheço e distingo, com muita nitidez, os galardões que mereceu a sua produção literária, embora recatado e  probo como o meu amigo é, sempre se tenha  furtado a essa exposição , a essa premiação. Outros virão   e muitos dirão ainda mais da sua obra, com maior intensidade verídica e em crescente e  merecido cariz laudatório . Ela é superiormente uma grande obra - uma obra viva. Uma obra diferente . Original.
Em arte , é vivo tudo o que é original . É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais intima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. O meu amigo  tem-na.
Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço.
Tão ligados estamos , de há tantos anos, que umas palavras minhas sobre a sua obra poderiam ser  precipitadamente julgadas partidárias. Quero dizer viciadas , do ponto de vista crítico, por uma velha amizade. Mas não é justo, nem leal fazer tal juízo.
A arte já  definiu e vestiu a sua obra. Além do mais e recordando  a famosa frase do  meu dilecto Fernando Pessoa - O que em mim sente está pensando-  contraponho, com muita  veemência, sublinhando para  si: O que em mim pensa está sentindo.
A verdade não se esconde. Rebelde , ela emerge sempre. Fez Arte : genuína, autêntica e intemporal ao edificar  um  ímpar e grandioso  monumento literário.
Ah, se toda a gente soubesse como eu gosto  de ver toda a gente a dar tudo quanto pode! Cá por mim , sempre foi o meu sonho ser ao mesmo tempo um criador e um operário.
O seu sonho foi o mesmo.  Já o cumpriu, embora não nos resignemos que  nos diga “ Acta Est Fabula”.  Cumpre-lhe ainda muito mais para nosso gáudio e consolação.
Reserve para mim a apresentação da sua próxima obra. Um outro magnum opus.  Estive atento a todos os oradores a quem entregou essa distinção. A 19 de Novembro será   o seu estimado e brilhante amigo Marcelo Duarte Mathias. Escutá-lo-ei . 
Prometo que saberei honrar a sua nova obra , fazendo da cerimónia de apresentação  o mais sublime momento . Aquele que aguarda . Não pelas minhas palavras, mas pela riqueza da sua nova obra. Aquele momento  que lhe permite ainda surpreender-se porque o assombro sempre o manteve e manterá  de pé.
Tem o meu perene apreço e a minha total  estima. Dê-me notícias suas.
Um abraço do velho amigo.
José Régio

terça-feira, 7 de maio de 2024

Eugénio Lisboa por ele próprio

TOADA ÍNDICA
(Apontamento biográfico
em versos de sete sílabas)

Em tempos de antigamente,
quando andava no liceu,
numa terra que era quente,
com um mar que era meu,
ali sendo o paraíso,
de pouco fazendo tudo,
muito não sendo preciso,
buscando prazer no estudo,
estudando-me já eu,
a descobrir os mistérios
do sexo no apogeu
e dos dramas do império,
nesses tempos, eu dizia,
em que tudo era grande
e o amor descobria
que a vida se expande,
nesses tempos de começo
de um mundo que se abria,
de viagens sem regresso,
num tempo em que já sabia
que a dor também existe
e que o triunfo se paga,
mesmo quando se não desiste,
pelo preço de uma chaga
que o tempo não amacia;
naquele tempo enriquecido
por tudo que acontecia
e era por mim sentido
ser tesouro amealhado,
- eu sonhava, com fervor,
num futuro apontado
à grandeza e ao amor!
Que sonhar, nessa idade,
mesmo sendo o sonho alto,
não é grande enfermidade
nem dá grande sobressalto!
Foi assim que certo dia,
- havia sol e promessa
e meu coração ardia –
parti, com dor e com pressa,
deixando amores e festas,
a caminho do futuro
que eu pensava sem arestas,
radioso e bem seguro!
Quando se deixa um tesouro,
em busca de outro maior,
trocamos talvez um ouro
por outro muito pior.
E foi assim que parti,
nesse dia de Setembro,
saindo de onde nasci
-ai como disso me lembro!
Foi o futuro o que foi,
cheio do bom e do mau,
pleno de tudo o que dói,
logo que saí da nau.
Nas águas de um novo mar,
comecei nova aventura,
aprendi outro voar
e ganhei grande fartura!
Mas foi no outro oceano,
lá longe, no além mar,
que eu abri todo o pano
e me pus a navegar!
15.05.2020

Eugénio Lisboa,
Num regresso ao meu passado Índico, a um tempo que nunca mais esquecerei!
Eugénio Lisboa , in Poemas em Tempo de Peste, Editora Guerra & Paz, Setembro de 2020, pp.67-69


A surpresa do natural, a autobiografia de Eugénio Lisboa
"Falar de mim, na primeira pessoa, não é, talvez, o protocolo que melhor me convém. O homem é menos ele próprio, quando fala em seu próprio nome, sugeria o pérfido e certeiro Oscar Wilde. Nos desvãos da pouca poesia que escrevi e no romanesco clandestino em que me escondo como quem se revela, quando escrevo ensaios, está talvez algo de mim que é mais fundo e genuíno, nesse «fingimento», do que em textos que dão abertamente voz ao nu e haïssable moi.
Por outro lado, dizer muito em 8500 caracteres…
Tentarei.

Descobri o incrível e improvável milagre de existir, na antiga Lourenço Marques, uma das mais bonitas cidadezinhas do continente africano.
Não nasci num berço de ouro e quase dou graças aos deuses por esse dom que me ofertaram: o da pobreza. Meu pai, natural de Alcobaça, era um homem altamente inteligente e um estudioso cheio de iniciativa, mas, tendo apenas a instrução primária,começou a vida como pequeno funcionário dos CTT de Moçambique. Por mérito, chegaria a director; porém, em 1930, quando nasci, o funcionário era ainda pequeno e o salário ainda mais pequeno, o que me fez vir ao mundo com estatuto de quase marginal. Vi a luz num bairro limítrofe e paupérrimo o Quebra Bilhas, numa casa de madeira e zinco, que o sol sub-tropical aquecia impiedosamente. Este estatuto de outsider, em outros pelouros, iria permanecer comigo pela vida fora.
Ser pobre tem vantagens eminentes: ganha-se um gosto prodigioso pelas coisas que se quer ter.
Leva-se mais tempo a consegui-las e, enquanto se não conseguem, passa-se o tempo a namorá-las.
Quantas horas não passei a cocar, com desejo sofreado, as montras da Minerva Central, de onde me desafiavam O Retrato de Dorian Gray, O Moinho à Beira do Rio ou os Filhos e Amantes. Os meus colegas mais ricos tinham belos estojos de desenho, imponentes godés, pastilhas para aguarelas e abundantes bisnagas para guaches, dicionários novos e reluzentes, livros de Salgari e Júlio Verne.
Iam ao Scala e ao Gil Vicente ver tudo quanto havia de bom e de mau no cinema. Eu ficava-me pelas «borlas» do Scala e invejava, de longe, os filmes da Metro e da 20th Century Fox, que passavam só no Gil Vicente. Mas, a mim, sabia-me melhor e mais fundo o pouco que ia conseguindo e com que sonhara muito, antes de conseguir.
Na Escola Primária, tive óptimas professoras: a D Ernestina Machado, na Infantil e na 1ª classe grande pedagoga que nos pôs a ler e a contar com uma energia fácil e bondosa e a D. Laurinda Magalhães que, com a sua voz um pouco rouca e calorosa, nos metia no coração e nos fazia gostar da gramática e de outras coisas. Era uma espécie de mãe substituta, bondosa sem pieguice e bastante competente. E não gostava de nos bater. A escola era a Paiva Manso e ficava no extremo pobre da Avenida 24 de Julho, ao lado do Esquadrão de Dragões, que nos fascinava por causa dos cavalos.
Ali não havia meninos ricos e o director, de cabelos já brancos, era o sr. Garradas, espécie de avozinho passa-culpas, a quem as mães pediam, em vão, que nos «chegasse». A campainha estridente e amiga anunciava os intervalos libertadores: a meio da manhã, eu comia um pãozinho de forma circular e massa fofa, com manteiga, e bebia uma garrafa de leite com Toddy. A minha mãe lá se arranjava para esticar o parco dinheiro e nos permitir esses luxos. Da escola à casa que ficava no Alto Mahé, isto é, na Lourenço «profunda» ia a pé, por caminhos quase só de areia.
A escola e, depois, ainda mais, o liceu, eram lugares sagrados e os professores uns senhores veneráveis que olhávamos com um misto de respeito e inveja. Deviam saber muito e, desse muito, ensinavam-nos apenas umas pepitas avaras, para não nos magoarem demasiado.
O Liceu, que se chamara 5 de Outubro e passou a chamar-se Salazar no ano em que nele entrei 1940, ficava no extremo afluente da 24 de Julho, entre esta e o Cabo Submarino.
Foi aí que entrei num Novo Mundo. Muitos dos meus colegas eram obviamente bem aviados de finanças: tinham bonitos relógios de pulso, vestiam com algum requinte, sobraçavam pastas com as quais eu nem sonhava e os pais vinham buscá-los de carro, no fim das aulas.
E, à tarde, tinham as chamadas «aulas de estudo», pagas, durante as quais lhes davam «explicações» e os ajudavam a fazer os deveres. E comiam amendoim torrado, que dava, ao ambiente das aulas, um cheirinho forte que ainda hoje me «atinge» a memória bem mais fundo do que todas as pífias madeleines de quantos Prousts haja por aí.
Os meus colegas afluentes não eram diferentes só pelo que tinham e eu não tinha: sentiam-se sobretudo à vontade com um certo vocabulário sofisticado que, para mim, vindo dos subúrbios, era chinês. Lembro-me, em particular, da estranha palavra «ironia», para a qual eles se voltavam com desenvoltura e eu à rasca sem saber o que aquilo queria dizer. Talvez, por isso, mais tarde, para me desforrar e ir mais longe do que «eles», pus-me a aprofundar a «ironia transcendente» do Antero e a «ironia trágica» do Jaime Franco, isto é, do Régio (rindo-me, à socapa, da pífia ironia «deles»). Dizia implicitamente, com os meus botões: «Só queria que eles me vissem agora, a saber mais de ironia do que eles todos juntos!» Recalques…
Mas, em suma, sabia que andava a travar uma luta desigual: eles, equipados até aos dentes, eu, com armas desadequadas que escondia, envergonhado.
Por isso, melhor me soube a vitória de que nunca me jactei quando me comecei a destacar como aluno. Tive, no liceu, professores inesquecíveis: o Reis Costa, imprevisível, perigoso cultíssimo e sedutor (de Francês), o Jaime Rebelo (também de Francês, exímio pedagogo e ex-futebolista, além de oposicionista convicto), o Vieira Júnior (excepcional professor de Matemática que nos transformou a todos em «viciados» em problemas de Álgebra e Geometria), o Duarte Marques, o «caçador» (declamatório, enfático, falando com itálicos sublinhadíssimos mas entusiasta genuíno de literatura, com um poder de quase exaltante -só lhe não perdoo ter preferido Balzac a Stendhal…), a Maria Luísa Soares, a «mamba» (mulher sábia e brilhante, professora de «tudo» e, no meu caso, de Filosofia, de que me tornei, para sempre, freguês), o Cardigos dos Reis (fascinante, sardónico, poseur, pronto no bote, ecléctico, geógrafo, jurista, historiador, encantador de serpentes, provocador, no melhor sentido, fazia-nos pensar: «Quero ser como ele…»), tantos outros! Foram anos de aprendizagem e descoberta. Mesmo sem grandes meios, acabei por ler muito: meu pai, sabendo-me esfomeado, baratinava a minha mãe e comprava-me livros à sorrelfa. Por outro lado, os colegas de meu pai, que iam de licença graciosa à metrópole, por vários meses, deixavam as suas estantes com livros em nossa casa e eu ia-me refastelando. Melhor ainda: em viagem de Lisboa para Lourenço Marques, muitos dos livros encomendados pelas livrarias «apanhavam» água nos porões e chegavam imprestáveis para venda e iam para o refugo.
Mas ficavam legíveis. Foi assim que me chegou um dia às mãos, todo estragado mas convidativo, cheio de luzes e buzinas, o romance de Stendhal, Le Rouge et le Noir, numa primorosa tradução de José Marinho. Apaixonei-me logo pela Senhora de Rênal para o resto da minha vida e tomei como modelo sedutor a vivacidade, a clareza, a frontalidade e a acutilância da prosa de Stendhal.
Li Voltaire, Charlotte Brontë, Thomas Mann, Lawrence, Plutarco, Platão, Panait Istrati, Balzac Edgar Poe, Hemingway, Conrad, Saroyan, Martin du Gard e tutti quanti e, em 1947, despedindo-me de Lourenço Marques e do Nero, embarquei para Lisboa, que me desapontou, mas a que me fui habituando (o principal defeito de Lisboa era não ser Lourenço Marques).
Fiz o curso de Engenharia, que começou por ser civil mas passou a electrotécnica, no 4º ano fui a Paris, em Volkswagen de amigos, em 1953 (retive, dessa viagem, dois highlights, o Museu Rodin e o quadro de Leonardo, «A Virgem, Santa Ana e o Menino» e, é claro, os grandes boulevards), retomei o serviço militar que tinha começado em Moçambique, num período que ali passei, em 1952, fui colocado, como oficial miliciano, em Portalegre (por mau comportamento em Mafra) e, aproveitando para meu bem o mal que os deuses fazem, conheci ali e frequentei-os assiduamente o Régio, o dr. Feliciano Falcão e o inesquecível capitão Carlos Saraiva (hoje, coronel Saraiva, reformado, mas, para mim, o incomparável, discreto, bondoso, compreensivo, subtil e empenhado capitão Saraiva que me salvou de tantas tropelias e «protegeu», com riscos óbvios, as minhas idas a Lisboa para concluir o último ano da licenciatura).
Em 1955 regressei a Moçambique, onde tinha nascido e onde fiquei até 1976. Foi um período cheio, a que se sucederam a Suécia, Londres e, de novo, Portugal. Mas isso é outra História que aqui não cabe… Em tudo o que tenho dito e escrito, procurei usar sempre daquela «surpresa do natural » de que falava Pascal. Tem custos mas vale a pena."
Eugénio Lisboa, autobiografia publicada no JL 979, em 2008 .

domingo, 5 de maio de 2024

Ao Domingo Há Música

"
"As vozes chegavam até mim, numa mistura de sons e de harmonia desconhecida. Parei. A rua enchia-se de magia. Havia qualquer coisa no ar que me impedia de respirar. Era algo que não queria perder, que me seduzia e me sufocava. Num momento, voava para paraísos novos e num outro, sentia-me no chão, embalada por mil e um tons de um cântico. Era a felicidade que chegava. Discreta e pujante, num ritmo que se confundia em vários andamentos. Um cântico que se transformava em hino . Estava ali. Bem perto. Naquelas vozes que me entonteciam e me faziam exultar. E a revelação fez-se. Era a música que se me descobria numa rua estreita e ignota. "
Maria José Vieira de Sousa, em " Memórias de um tempo feliz"

Num domingo em que se celebra a maternidade, chegam vozes femininas que, pela beleza e claridade   ,  dão aos sons a  espessura da magia:   ora suave, ora jubilosa.
Laura Bretan, na excelente interpretação de Adagio, de Tomaso Albinoni ,com letra de Lara Fabian.
 
Amira Willighagen & Mzansi Youth Choir ,  em  Amen (Live at Sun Arena / Lexus Pop Classics 2023)
 
Ilse de Lange & New Amsterdam Orchestra, em I still cry . 

sábado, 4 de maio de 2024

No dia da cor preta

No dia da cor  preta
 
                                      
Os Mortos
Os mortos mais do que os vivos, estão vivos.
Surgem, fortes, intensos, aparecem,
depurados e cheios de motivos.
Visitam-nos e acham que merecem
Todo o vigor da nossa atenção.
A morte deu-lhes, pensam, nova vida:
vê-se neles uma concentração
de virtudes - de vida reflectida.
Os mortos ensinam-nos a viver:
dão um valor novo ao que nos rodeia,
dão ao quotidiano acontecer
um brilho vivo que nos incendeia.
Os mortos acendem, em nós, a chama
de uma nova vida. Julgo que pedem
que olhemos fundo a luz que se derrama.
Exigem. Clamam. Os mortos não cedem.
                                  Eugénio Lisboa
   
 
"O tempo adensara-se. A aproximação do fim provocava-lhe alguma soturnidade, o vislumbre de  estados de alma que nunca experimentara.  Tinha-lhes  um total desconhecimento. Nunca os  sentira. Era avesso a qualquer estado de alma. Apenas cuidava das palavras. Afiná-las  era restituir-lhes a alma.  A alma que lhes dava cor e sentido.
Conviver com a finitude nunca o atemorizara. Sabia-lhe o ventre. Quase que a sua própria gestação  fora o prelúdio  de um processo bifrontal. Nascera com a certeza de morrer, como um acto que se realiza a dois tempos .
Não sendo  uma certeza imposta é  uma verdade intestina e  intemporal.   Contudo uma verdade nem sempre assimilada. Um acto de gnose que nem todos exploram. Entre a resistência e a  resiliência , vai acumulando pó em muitas mentes que pretendem esquecer o mesmo  pó em que  se transformarão.
Ligar a cor preta ao acabado , ao terminado, ao fim passa por algumas situações de dolorosa rejeição. Ninguém quer o preto  com esse peso simbólico, com essa radicalidade semântica. Num tempo francês da  primeira metade do século XIX, o preto era o irmão do vermelho – a cor da sotaina eclesiástica  ou o fascínio  rouge da farda militar. Preto como negrume de alma, o ódio que replica da cor do sangue, a cor  do amor, da paixão  que Stendhal imortalizou. O amor e o ódio. (Rouge ou noir ,  une partie de vie ou de mort). Rouge comme le sang, noir comme l’hypocrisie. Julien, o herói de “Le rouge et le noir”, representa-o em excelência. Stendhal a fechar o cerco ao negrume da cor. O Homem gerador de  extremos , o homo sensiblis   que se atraiçoa a si mesmo.
Mas no preto insurge a silhueta da morte. Veste –se de negro para muitos. Um negrume que não se esquece. Que dilacera a alma. Quando se assiste a uma morte, além de uma dor indescritível,  guarda-se  um episódio marcante para sempre.
Tolstoi criou um denso e  agónico  Ivan Ilich , enquanto personagem de uma obra de puro requinte literário. No leito da morte , Ivan não encontra  alívio para as dores funestas que vão aumentando o seu martírio. Numa prolongada agonia, de estertor em  estertor , esvai-se num crescendo doloroso, interminável durante três longos dias. Uma orquestra de gritos, de urros lancinantes até que tudo se transforma num suspiro derradeiro, quando a morte desce para o pacificar. O suspiro da finitude,  da serenidade, da aceitação. A  consciência do nada sobre o nada. A sabedoria do último instante que só emerge  e se desenha na poeira do adeus. Morrer é longo.
O preto e a morte. Há outras mortes. Nem sempre vestem preto. Acontecem numa cor  dorida que soma todas as cores  e cor nenhuma. É a cor da inevitabilidade. A cor da impotência. Aquela que guarda dentro de si, escondida, no fundo onde o olhar se perde e os braços não alcançam. Alguém que amou. Viu-a morrer. Ali, sem o socorro que lhe exigia o coração. Morria com ela sem entender a certeza que tanto apregoava - somos finitude desde que nascemos. Soava-lhe como uma falácia , a maior naquele momento. Quando a morte entrou naquele corpo,  soltou-se um som cavo, vindo do mais fundo daquele ser amado.  Soube que acabara. Era o fim.  Já não pertencia àquele corpo. Saíra. Partira. E o corpo ali estava inerte. Sereno sem vida. Nesse momento, o coração quase explodira. Sucumbia. A angústia matava-o também. Desejara ir . Que a perda era maior do que a vida.
A morte é o fim  que nos espera e que nos surpreende. Porém, tudo dói quando ela colhe quem amamos.
Na literatura universal,  há um enorme e rico filão de grandes amores que  arrebata e rouba lágrimas, quando a força das  palavras   retrata  a morte que  une ou  separa. Desde  Sófocles  a Racine , de Luís de Camões a Shakespeare, de Stendhal a Tolstoi, de Dostoievski a Charlotte  Brontë, de Camilo Castelo Branco a  Turguenev, de Petrarca a Pablo Neruda, de Goethe a Jane Austen, de Gabriel García Márquez  a Julio Cortázar, de Eça de Queirós a Erico Verissimo. Uma fascinante galeria de grandiosidade dramática que soube  vestir  sumptuosamente as palavras  quer para a vida , quer para a morte. Os mestres da palavra, qual plêiade universal da medida exacta da  palavra.
Em O caos e a noite, o notável  escritor Henry de Montherlant produziu a obra prima à volta da morte. Uma morte patética, mas grandiosa na efabulação. Um registo soberbo de como a morte pode ser inconscientemente procurada pela loucura, pela alienação da realidade. Um exercício  inteligente  na exploração da mente humana, traduzido em palavras com uma singular e magistral  destreza. Um discurso claro,  rico e exuberante  que causa profundo prazer literário.
Por onde andaria todo esse eloquente manancial de palavras. Algumas revira por entre aquelas que fora afinando. Outras estavam adormecidas, emparedadas sem que alguém as soubesse manejar. O joio tomara conta das searas.Agora  era o tempo final . O tempo que não se anuncia, que não se poupa, que não se procura.  Mas que chega. Firme e certeiro. O tempo que dá tempo ao Homem, para descobrir  que é tudo e nada  num só corpo. Igual a todos os outros.  E, apenas, ficará  dele ,  a marca  que souber  deixar em quem   lhe sobreviver. Será essa marca  que definirá a sua passagem. E aqueles, que por ela forem tocados, lembrá-lo-ão. E, se fizer acender a chama de uma nova vida,  perdurará na lembrança dos tempos até que  a era  crepuscular se vista de preto.
A noite  chegara. Era agora o seu  não-tempo. Partiria.
 
Morreu! - disse alguém  que se debruçava sobre ele . Ele ouviu estas palavras  e deixou que  a sua alma  as repetisse  em leve variação.  «Terminou  a morte – disse . – A morte  não existe. » Fez uma inspiração, ficou a meio, inteiriçou-se  e adormeceu na morte.1
 
Em verdade, naquela noite, o Afinador de Palavras  vestira-se do mais intenso e espantoso preto."
Maria José Vieira de Sousa, in O Afinador de palavras, 2016, pp.16-18 
 
1 - Leon Tolstoi, in “ A Morte  de Ivan Ilich”, Editorial Verbo, p 73 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Em memória de Eugénio Lisboa (1930-2024)

Eugénio Lisboa
Em memória de Eugénio Lisboa (1930-2024)
por Vamberto de Freitas

Na minha idade, o que menos que me convinha era assistir a mais uma revolução. Mas a tentação é grande, só para ver metidos na pildra, sumariamente, alguns destes meninos.
Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula

"Por certo que as palavras de Eugénio Lisboa citadas aqui não transmitem de modo algum o centro do que são os temas predominantes do V volume das suas memórias, Acta Est Fabula: Regresso a Portugal (1995-2015). Por outro lado, essas palavras resumem perfeitamente o estado de espírito do autor não só enquanto escrevia as páginas que agora tenho aqui à minha frente, como descrevem o estado em que Portugal se encontra desde há décadas a esta parte. Eugénio Lisboa regressa a Portugal depois de ter vivido e trabalhado em Londres durante 17 anos como Conselheiro Cultural da nossa embaixada naquela cidade, e muito depois de ter deixado Moçambique, a sua terra de nascença, em 1976, nas condições que bem sabemos. Aos 85 anos de idade, um dos nossos mais proeminentes escritores tem esse direito – e dever – de também denunciar a sua sorte num livro que dá conta da uma vida ao serviço da nação, em várias frentes. O seu passado na ex-colónia africana está documentado em volumes anteriores destas memórias e escritas-outras. Com a sua chegada permanente ao nosso país, seria ainda Presidente da Comissão Nacional da UNESCO, Professor Catedrático Visitante na Universidade de Aveiro, e participante constante em inúmeros encontros literários e culturais nos mais diversos países, sempre em defesa e divulgação do que é nosso, do que é o nosso melhor e o menos corrompido. A memória coletiva de um povo reside aí, nas suas artes, na sua literatura, nas suas academias, nenhuma destas instâncias da realidade ou da imaginação, no entanto, aqui como em toda a parte, estão livres dos roedores parasitas escondidos nas suas brechas. Um escritor, pois, fala de si e das circunstâncias em que escreve as memórias de um percurso intelectual, as memórias que vão muito além de si próprio, debruçando-se constantemente sobre todos os outros que deram forma e sentido à sua existência numa vida constantemente examinada, avaliada, contextualizada. Antes de mais, pois, seria um lapso de enorme desonestidade literária ignorar esse estado de espírito num preciso momento, que suspeito afligir muitos mais para além de Eugénio Lisboa. “Pilhar muito e depressa, do mesmo passo que se aconselha às vítimas as virtudes cristãs da pobreza resignada é o breviário por que se regem os que atualmente nos desgovernam. Nunca tantos foram tão roubados por tão poucos”.
Este volume de Acta Est Fabula intercala a prosa narrativa de Eugénio Lisboa com abundantes entradas do seu diário correspondente aos vinte anos aqui relatados. É um recurso formal que nos conta o mais memorável dos dias vividos, e desperta no leitor a vontade de agora ler o diário integralmente, algo que nos está prometido. Vejo nesta opção do autor uma vantagem que reforça a “verdade” desses dias e andanças dispersas, dando-nos não a memória irremediavelmente seletiva com a passagem dos anos e de outros acontecimentos, que tendem a anular ou acrescentar sub-conscientemente ao que na realidade foi experimentado, vivido ou sentido, e sim a sua reação ou pensamento imediato ao que então o envolveu. São páginas fulgurantes pouco comuns entre nós, o falso pudor da maioria dos nossos escritores impede-os de confessar publicamente o que reservam para as mesas dos cafés e outros redutos de má língua e ressentimento. Mais do que isso, Eugénio Lisboa demonstra como a vida de um escritor não precisa de ser a chateza do dias e das noites. Um mero encontro com um livro inesperado numa estante qualquer, uma conversa relaxada e que vá além do último mexerico na república das letras, a visita a um museu, a assistência a uma peça de teatro ou musical, tornam-se tão relevantes e apetecíveis como uma viagem ao país mais desconhecido ou falado. É-me essencial ler Eugénio Lisboa também por estas razões – a vida da mente, a vida intelectual e literária como centro de um percurso totalmente dedicado à contínua reinvenção da Tradição criativa de uma língua global e cultura erudita que contêm em si mais relevância e consequência do que toda a política de um país, ou de que todo o ruído falsamente ideológico. O autor diz-nos a dada altura que numa viagem ao Peru leu num jornal citadino a resposta de um escritor à maldita pergunta de “para que serve a cultura?”, também muito comum entre nós. Serve, respondeu o articulista, para que esta pergunta nunca mais seja feita. Eugénio Lisboa tenta separar aqui a noção de autobiografia e memórias, mas felizmente a sua prosa conjuga os dois géneros perfeitamente. Não é necessário contar-nos pormenorizadamente “os factos”, relembrando aqui Philip Roth, naturalmente noutro contexto e por outros motivos literários. As reações de Eugénio Lisboa às inúmeras figuras familiares, políticas, intelectuais ou do mero acaso que se cruzam na sua vida dizem-nos mais sobre a sua pessoa do que qualquer informação fria sobre si, ou sobre seja quem for. Só um mestre da escrita consegue estes efeitos nos leitores, transpor para o lado de fora os seus estados interiores nas mais variadas situações, nos mais inesperados acontecimentos, ante qualquer interlocutor ou descoberta no vasto campo das artes. Outra grande virtude de memórias escritas numa determinada fase da vida, em que todas as “dívidas” já foram pagas, todas as ambições concretizadas, ou mais realisticamente, ultrapassadas, todos os fretes agora absolutamente desnecessários: as “verdades” relevantes para a sua obra literária estão aqui sem reticências, tudo quanto, para nós leitores, explica ou formaliza o seu lugar numa cultura que se estende por vários continentes e ilhas fica devidamente contextualizado. Entre nós, algumas destas questões raramente vão além do paroquial e do pateticamente tido como sendo imortal, tudo reduzido a dois ou três nomes em cada época lusa. Eugénio Lisboa é-nos a voz rara que está simultaneamente nas margens e no centro, vendo ora árvore na floresta, ou a floresta com todas as suas árvores. Poderá residir há muitos anos ali nos arredores, mas para ele há, sempre houve, mais vida criativa na língua portuguesa noutras geografias longe da nossa capital, e de Coimbra mais acima. Eugénio Lisboa não escreve como um cosmopolita de fabrico nacional – ele é um dos símbolos vivos do cosmopolitismo autêntico, esse que viveu e se sente em casa no mundo, nunca esquecendo as suas origens, neste caso moçambicanas e ancestrais na terra portuguesa. 
 Acta Est Fabula é um livro de ternura ante família e amigos em Portugal e em toda a parte, e um delicioso ajuste de contas com muitos outros, especialmente certos escritores da nossa praça, para quem o seu umbigo era e é o centro do universo, os que, em retrospetiva ou na atualidade têm dado ou dão muito menos do que a sua imaginação tenta impor. A prosa de Eugénio Lisboa é outra lição de como a linguagem escorreita e de semântica clara se torna arte pura na exposição ou discussão de qualquer tema, por mais complexo que seja. Um dos sinais de um grande escritor é nunca temer os outros, em qualquer língua, nunca deixar de homenagear aqueles ou aquelas que o próprio autor considera seus mestres ou referências essenciais. Dos seus gostos e paixões já sabemos de outros volumes destas memórias. Mesmo assim, Eugénio continua deixando cair passo a passo as suas leituras, os seus outros autores de eleição, em literatura de diversos géneros e temas, os thrillers em língua inglesa sempre presentes nos dias ou momentos de descontração. Vai fazendo o leitor sorrir quando menciona um desses nomes de literatura de aeroporto, e o que pensariam certos “sofredores” da nossa praça, especialmente Vergílio Ferreira, sendo que lhe serve mais frequentemente de gozo sem negar o seu valor literário entre nós, fazendo-nos sorrir em reconhecimento sem desrespeito, relembrando-nos das obsessões do autor de Manhã Submersa pelos prémios literários, que nunca eram suficientes para este e para uns tantos escritores lusos. Sobre outros ainda, como com Eduardo Prado Coelho, mesmo depois da sua morte, não poupa uma letra no seu desdém qualificativo. Não esqueçamos que Eugénio Lisboa pertence a um grupo único na nossa literatura desde meados do século passado até aos nossos dias: os escritores que por razões políticas ou sorte de nascimento e circunstâncias históricas são considerados “estrangeirados”, e cujos nomes, de Adolfo Casais Monteiro a Hélder Macedo são bem conhecidos, todos os eles, queiram ou não os que de cá nunca saíram, ocupando um espaço indelével no nosso cânone literário. Em todas estas questões, Eugénio Lisboa sempre desconsertou os arranjinhos domésticos na nossa feira de vaidades, literárias e académicas. Por fim, expressa a melancolia que é fazer um balanço de uma vida bem vivida, e que continua a ser um ponto de honra nas nossas letras. “O volume V das minhas memórias – escreve já em Abril deste ano – aproxima-se do fim. E ocorre-me tudo quanto lá deveria ter posto e não pus. O que mostra como a nossa vida, na sua riqueza, não cabe nunca, no papel de um livro, mesmo avantajado. Fazemos o que podemos, mas podemos pouco”.

Pouco? Deixe esse juízo com os seus leitores. Eles também vão achar isso, mas por razões diferentes da sua. É muito, afinal – e é do melhor da nossa literatura.
Vamberto Freitas, crónica publicada  no blog Nas Duas Margens, em 19.04.2024

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula. Memórias – V – Regresso a Portugal: (1995-2015), Guimarães, Opera Omnia, 2015.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

A propósito do 1º de Maio


COM ESTAS MÃOS
 
Com estas mãos semeamos flores.
Com estas mãos teremos a liberdade.
Com estas mãos  lutaremos para que a nossa Pátria não morra.
Com estas mãos poderemos dizer não à guerra.
Com estas mãos juntas teremos uma família de irmãos.
Com estas mãos darei uma flor a minha mãe e farei o sol.
Com estas mãos  não haverá problemas.
Com estas mãos semearemos pão , flores e amizade.
Com estas mãos a minha carreira é a mais bonita.
Com estas mãos levantarei o braço com um cravo de Abril e gritarei mais alto que todos: Liberdade!
Com estas mãos darei sempre de comer ao ratinho. 
Com estas mãos semearemos mais árvores.
Com estas mãos não nos explorarão.
Com estas mãos não hão--de entrar mais golos no meu clube. 
Com estas mãos construiremos o Futuro.
                   Texto colectivo , Almada .1º Ano  - 2ª fase  1981
Maria Rosa Colaço, in A criança e a vida, colectânea de textos infantis, Publicações Europa-América, p. 86