"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
sábado, 11 de maio de 2024
TARASS BULBA
O Haver
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo,e esse medo
Vínicius de Moraes, in "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.
quinta-feira, 9 de maio de 2024
A Carta para Eugénio Lisboa
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| Eugénio Lisboa (Lourenço Marques. 30.05.1930 - Lisboa, 09.04.2024) |
Passou um mês que nos deixou. Será impossível deixar de evocar Eugénio Lisboa. Tem uma obra volumosa, plural e de soberbo fascínio. Lê-lo é e será sempre um imperioso anseio de prazer, de aprendizagem de descoberta. A Cultura perdeu o seu maior intelectual dos tempos hodiernos. A Literatura, apesar de enriquecida com o seu fértil legado , não poderá ser acrescentada e iluminada com novas e fecundas contribuições deste grande escritor.
Como homem, Eugénio Lisboa foi um ser humano singular que tocava pela afabilidade, pelo desprendimento da coisa efémera , pela atenção ao outro.
Tocou- nos profundamente.
É para Eugénio Lisboa que se fixa o nosso olhar e se humedece o nosso coração de saudade.
Assim, Livres Pensantes publica, hoje, uma carta inédita que José Régio poderia ter escrito a Eugénio Lisboa , na época do lançamento do V volume das suas Memórias, "Acta Est Fabula, Memórias V - Regresso a Portugal (1995-2015)".
Vila do Universo
17/11/2015
Não encarrego o nosso Orlando Taipa de escrever estas linhas porque, no lugar onde me encontro, as máquinas escrevem o que lhes ditamos. A minha incapacidade foi resolvida sem que me tivesse sido imposta a recuperação total daquelas complicações penosas que me debilitaram rudemente. Longe vai o agoiro do Lumiar. Aquele casarão ainda me assombra. Lisboa nunca me seduziu. Fugi-lhe sempre, mas apanhou-me pela doença.
Não imagina o que tenho pensado em si e há que tempos estou para lhe escrever e corrigir a minha incorrecção na questão de responder aos amigos. Abuso , pois, da sua benevolência e já nem lhe peço perdão da longa demora desta carta. Mas de hoje em diante, o caso muda. Agora estou livre. Se eu , agora, não lhe responder, ao menos com relativa prontidão, zangue-se comigo. Mas, meu amigo, deixemos esse capítulo.
Falemos de si. Venho, sobretudo, para lhe dizer que muito me regozijo por ter escutado a minha “ admoestação” e se ter resolvido a dar-nos livros. Tinha esse dever perante si próprio, perante os Seus, perante os amigos…e perante a cultura nacional. Repeti-lhe estas palavras inúmeras vezes. Se fosse hoje, eu diria perante a cultura universal já que se tornou um cidadão do mundo.
A 19 de Novembro de 2015, será o lançamento do V volume das suas Memórias que optou por estender, apenas, até 20 de Abril deste ano de 2015.
“Acta Est Fabula” relata uma longa e brilhante trajectória de um jovem talentoso que conheci como oficial miliciano, em Portalegre, há sessenta e um anos. Fazer parte desse relato é um prazer que muito me orgulha porque a minha crença em si era real. O facto de me ter descoberto pela prosa e não pela poesia, revelava já muito da sua argúcia, da sua verdadeira índole. Possuía a necessária sensibilidade e a subtil agudeza de espírito para perscrutar e apreender a essência de uma obra , o valor autêntico de um escritor e o prazer indizível da escrita.
A profusão e variedade de juízos e perspectivas que sugeriu sobre a minha obra descem a particularidades de análise com tal arte e minúcia que todas as sombras que teimavam nela resistir se iluminaram com uma intensa e singular claridade. Transformou a minha obra num luminoso monumento literário que, por vezes, se me insinua mais seu do que meu. O leitor, o estudioso, neste caso, ultrapassou o escritor. E ao ultrapassá-lo, excedeu-o em talento, génio e significado.
Em suma: só tenho vontade de o aplaudir. E para isso aqui me tem.
Se tivesse que destacar alguns dos momentos que mais apreciei durante todos estes anos, escolheria, além daquele que vai celebrar no dia do lançamento do quinto tomo das suas Memórias, o tempo que passou em Londres e os anos de intensa produção e actividade literária em Portugal. Sei que tem um apreço especial pelo tempo africano.
Desse tempo, pudemos partilhar algumas confidências e impressões. Recordo ainda o seu desafio para ir a Lourenço Marques. Como lamento não o ter aceitado, pois sonhava às vezes com essa ida. Mas estava a envelhecer, meu amigo, e até para as viagens mais curtas que projectava me ia faltando energia , ou entusiasmo.
Por causa desse amor por África, saltou, em Acta Est Fabula, o relato da época em que esteve em Lisboa a estudar e veio fazer o serviço militar a Portalegre, circunstância que possibilitou o nosso encontro. Uma época que nos marcou para sempre. Não só a mim. Os nossos amigos comuns de Portalegre, muito falaram de si, lamentando não o ter mais entre nós.
Aguardarei, com curiosidade impaciente, esse tomo que sei já ter iniciado a escrita. A verdade é que a sua obra me agradou muito, e tenho verdadeiro prazer em lho dizer.
Estou enjoado ( é o termo) da imensa maioria de livros que por aí se escreve, nacionais ou estrangeiros. Tudo isso é , por vezes, muito hábil e bem calculado para bom resultado, junto não só do público, mas até de alguns críticos. Mas nenhuma ( ou quase nenhuma) sinceridade humana, nenhuma intenção verdadeiramente séria, nenhuma fantasia original ou nenhuma poesia autêntica nessas obras cujo principal fim é o comércio. Falta-lhes autenticidade que é o essencial. Ora a sincera alegria que me deu a sua obra – foi precisamente de ter encontrado uma que é excepção.
Com todas as minhas impertinências e rudezas ( de que aliás não desisto porque sou brutalmente sincero, precisamente com os amigos que mais estimo!) não vá pensar que eu não estou convicto de que Deus lhe deu dons que não pode guardar já, e com que tem de contar a nossa cultura. A verdade foi sempre uma das minhas fundas tentações ( e das mais perigosas ) a despeito de todos os embustes acumulados na minha vida.
Sei da sua intenção antiga de escrever um romance e uma peça de teatro (Henrique de Sagres) da qual já tem vários diálogos. Uma peça precisa de qualquer história-pretexto como base, como sustentação. Tendo já essa história-pretexto deveria ter começado a escrevê-la, ou ter dado prioridade à sua escrita. Sei que não se deve precisar datas ou impelir alguém a escrever. Mas , a verdade é que uma obra pode viver obscuramente dentro de nós para sempre - sem nunca chegar a ser obra: Obra.
Veja, no meu caso, a “ Confissão dum Homem Religioso” e o sexto volume da “ Velha Casa”. E logo a “ Confissão” que saía com uma facilidade espantosa porque andava a ser feita dentro de mim há tantos anos. Não a acabei. E a “ Velha Casa”, uma grande casa, tão minha, ficou sem outro volume, sem continuidade. Incompleta.
Senti-me infindamente lisonjeado e vaidoso quando sobre mim escreveu, no tal fatídico dia de 1969, em que deixei de estar visível. Recordo-o com emoção:
“ José Régio morreu há pouco.(…) Era um espírito autónomo e corajoso. (…) Régio lega-nos uma obra incompleta por ter sido ambiciosa. A Velha Casa era por si só uma empresa de vastas proporções. Mas foi metendo pelo meio outros livros que também trazia no ventre. Por isso, não pôde acabar coisas que começou, ou não chegou a empreender outras com que sonhou. « O que não possas acabar, isso mesmo te engrandece.», dizia Goethe sob o olhar aprovativo de Thomas Mann. José Régio, na fase final, pensava ainda poder escrever uma peça por ano…”
Não se permita o mesmo. Escreva o que germina em si. O tal romance está todo construído na sua forma e conteúdo dentro de si. Vive consigo em desassossego. Solte-o e será um magnum opus. Eu e o mundo ficar-lhe-emos gratos e felizes.
E não se esqueça das palavras que colocou sobre mim , num dos seus livros ,de tão magnânima produção que me faz credor de uma dívida muito superior àquela que o nosso país tem vindo a contrair. No livro, José Régio,- A Obra e o Homem, o meu perspicaz amigo afirma : “ A obra de Régio não nos deixa uma esperança. Não é uma obra optimista. Nada resolve. Mas enche-nos de uma estranha felicidade e mesmo alegria, pelo simples facto de ser uma grande obra. (…) Nascida de um ser frágil, o artista , a obra acaba por sustentá-lo em vez de sustentar-se dele. Acaba também por fazer-nos um pouco a todos nós.
(…) O desprezo de José Régio por modas e cartilhas era genuíno e, direi mesmo, quase espectacular. Nada enfurecia tanto aquele homem de uma grande serenidade aparente como ver diante de si um papagaio debitando, numa justaposição “à la page” e sem nexo, todos os “mots du jour” aceites sem crítica nem esforço interpretativo. (…) Régio se muito se entregava, muito se fechava também «com os seus mistérios».(…)
José Régio morreu. Morreu o nosso maior escritor dos últimos trinta anos. Enquanto vivo soube resistir a todas as tentativas de sedução e absorção. Tentaram-no com tudo: com palavras de ameaça e de promessa, com prémios , com punições, com silêncio. A tudo opôs a grandeza de um não , conforme prometera no Cântico Negro.”
Cesso de o citar porque não é de mim que venho falar. Faço-o para ilustrar o que sempre pensei e pelo orgulho que tenho na sua obra. Ela reflecte o homem inteiro. E ao reflectir, pretendo que esse homem não esmoreça. Que complete a sua obra. Sei que, sobre ele, já muito foi escrito. Não esqueço a homenagem que lhe prestaram, em Aveiro. Tenho o livro que daí resultou, ( Eugénio Lisboa, vário, intérprido e fecundo). Como lamento não ter podido comparecer e/ou através de um texto ( acredite que seria produzido com a mais inabalável isenção) integrar a lista de tantos admiradores prestigiados. Conheço e distingo, com muita nitidez, os galardões que mereceu a sua produção literária, embora recatado e probo como o meu amigo é, sempre se tenha furtado a essa exposição , a essa premiação. Outros virão e muitos dirão ainda mais da sua obra, com maior intensidade verídica e em crescente e merecido cariz laudatório . Ela é superiormente uma grande obra - uma obra viva. Uma obra diferente . Original.
Em arte , é vivo tudo o que é original . É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais intima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. O meu amigo tem-na.
Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço.
Tão ligados estamos , de há tantos anos, que umas palavras minhas sobre a sua obra poderiam ser precipitadamente julgadas partidárias. Quero dizer viciadas , do ponto de vista crítico, por uma velha amizade. Mas não é justo, nem leal fazer tal juízo.
A arte já definiu e vestiu a sua obra. Além do mais e recordando a famosa frase do meu dilecto Fernando Pessoa - O que em mim sente está pensando- contraponho, com muita veemência, sublinhando para si: O que em mim pensa está sentindo.
Ah, se toda a gente soubesse como eu gosto de ver toda a gente a dar tudo quanto pode! Cá por mim , sempre foi o meu sonho ser ao mesmo tempo um criador e um operário.
O seu sonho foi o mesmo. Já o cumpriu, embora não nos resignemos que nos diga “ Acta Est Fabula”. Cumpre-lhe ainda muito mais para nosso gáudio e consolação.
Reserve para mim a apresentação da sua próxima obra. Um outro magnum opus. Estive atento a todos os oradores a quem entregou essa distinção. A 19 de Novembro será o seu estimado e brilhante amigo Marcelo Duarte Mathias. Escutá-lo-ei . Prometo que saberei honrar a sua nova obra , fazendo da cerimónia de apresentação o mais sublime momento . Aquele que aguarda . Não pelas minhas palavras, mas pela riqueza da sua nova obra. Aquele momento que lhe permite ainda surpreender-se porque o assombro sempre o manteve e manterá de pé.
Um abraço do velho amigo.
José Régio
terça-feira, 7 de maio de 2024
Eugénio Lisboa por ele próprio
domingo, 5 de maio de 2024
Ao Domingo Há Música
sábado, 4 de maio de 2024
No dia da cor preta
Os MortosOs mortos mais do que os vivos, estão vivos.Surgem, fortes, intensos, aparecem,depurados e cheios de motivos.Visitam-nos e acham que merecemTodo o vigor da nossa atenção.A morte deu-lhes, pensam, nova vida:vê-se neles uma concentraçãode virtudes - de vida reflectida.Os mortos ensinam-nos a viver:dão um valor novo ao que nos rodeia,dão ao quotidiano acontecerum brilho vivo que nos incendeia.Os mortos acendem, em nós, a chamade uma nova vida. Julgo que pedemque olhemos fundo a luz que se derrama.Exigem. Clamam. Os mortos não cedem.Eugénio Lisboa
"O tempo adensara-se. A aproximação do fim provocava-lhe alguma soturnidade, o vislumbre de estados de alma que nunca experimentara. Tinha-lhes um total desconhecimento. Nunca os sentira. Era avesso a qualquer estado de alma. Apenas cuidava das palavras. Afiná-las era restituir-lhes a alma. A alma que lhes dava cor e sentido.
Conviver com a finitude nunca o atemorizara. Sabia-lhe o ventre. Quase que a sua própria gestação fora o prelúdio de um processo bifrontal. Nascera com a certeza de morrer, como um acto que se realiza a dois tempos .
Não sendo uma certeza imposta é uma verdade intestina e intemporal. Contudo uma verdade nem sempre assimilada. Um acto de gnose que nem todos exploram. Entre a resistência e a resiliência , vai acumulando pó em muitas mentes que pretendem esquecer o mesmo pó em que se transformarão.
Ligar a cor preta ao acabado , ao terminado, ao fim passa por algumas situações de dolorosa rejeição. Ninguém quer o preto com esse peso simbólico, com essa radicalidade semântica. Num tempo francês da primeira metade do século XIX, o preto era o irmão do vermelho – a cor da sotaina eclesiástica ou o fascínio rouge da farda militar. Preto como negrume de alma, o ódio que replica da cor do sangue, a cor do amor, da paixão que Stendhal imortalizou. O amor e o ódio. (Rouge ou noir , une partie de vie ou de mort). Rouge comme le sang, noir comme l’hypocrisie. Julien, o herói de “Le rouge et le noir”, representa-o em excelência. Stendhal a fechar o cerco ao negrume da cor. O Homem gerador de extremos , o homo sensiblis que se atraiçoa a si mesmo.
Mas no preto insurge a silhueta da morte. Veste –se de negro para muitos. Um negrume que não se esquece. Que dilacera a alma. Quando se assiste a uma morte, além de uma dor indescritível, guarda-se um episódio marcante para sempre.
Tolstoi criou um denso e agónico Ivan Ilich , enquanto personagem de uma obra de puro requinte literário. No leito da morte , Ivan não encontra alívio para as dores funestas que vão aumentando o seu martírio. Numa prolongada agonia, de estertor em estertor , esvai-se num crescendo doloroso, interminável durante três longos dias. Uma orquestra de gritos, de urros lancinantes até que tudo se transforma num suspiro derradeiro, quando a morte desce para o pacificar. O suspiro da finitude, da serenidade, da aceitação. A consciência do nada sobre o nada. A sabedoria do último instante que só emerge e se desenha na poeira do adeus. Morrer é longo.
O preto e a morte. Há outras mortes. Nem sempre vestem preto. Acontecem numa cor dorida que soma todas as cores e cor nenhuma. É a cor da inevitabilidade. A cor da impotência. Aquela que guarda dentro de si, escondida, no fundo onde o olhar se perde e os braços não alcançam. Alguém que amou. Viu-a morrer. Ali, sem o socorro que lhe exigia o coração. Morria com ela sem entender a certeza que tanto apregoava - somos finitude desde que nascemos. Soava-lhe como uma falácia , a maior naquele momento. Quando a morte entrou naquele corpo, soltou-se um som cavo, vindo do mais fundo daquele ser amado. Soube que acabara. Era o fim. Já não pertencia àquele corpo. Saíra. Partira. E o corpo ali estava inerte. Sereno sem vida. Nesse momento, o coração quase explodira. Sucumbia. A angústia matava-o também. Desejara ir . Que a perda era maior do que a vida.
A morte é o fim que nos espera e que nos surpreende. Porém, tudo dói quando ela colhe quem amamos.
Na literatura universal, há um enorme e rico filão de grandes amores que arrebata e rouba lágrimas, quando a força das palavras retrata a morte que une ou separa. Desde Sófocles a Racine , de Luís de Camões a Shakespeare, de Stendhal a Tolstoi, de Dostoievski a Charlotte Brontë, de Camilo Castelo Branco a Turguenev, de Petrarca a Pablo Neruda, de Goethe a Jane Austen, de Gabriel García Márquez a Julio Cortázar, de Eça de Queirós a Erico Verissimo. Uma fascinante galeria de grandiosidade dramática que soube vestir sumptuosamente as palavras quer para a vida , quer para a morte. Os mestres da palavra, qual plêiade universal da medida exacta da palavra.
Em O caos e a noite, o notável escritor Henry de Montherlant produziu a obra prima à volta da morte. Uma morte patética, mas grandiosa na efabulação. Um registo soberbo de como a morte pode ser inconscientemente procurada pela loucura, pela alienação da realidade. Um exercício inteligente na exploração da mente humana, traduzido em palavras com uma singular e magistral destreza. Um discurso claro, rico e exuberante que causa profundo prazer literário.
1 - Leon Tolstoi, in “ A Morte de Ivan Ilich”, Editorial Verbo, p 73
quinta-feira, 2 de maio de 2024
Em memória de Eugénio Lisboa (1930-2024)
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| Eugénio Lisboa |
Na minha idade, o que menos que me convinha era assistir a mais uma revolução. Mas a tentação é grande, só para ver metidos na pildra, sumariamente, alguns destes meninos.
Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula


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