"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
quinta-feira, 8 de julho de 2021
A saudade
terça-feira, 6 de julho de 2021
Homenagem a Gomes Leal
Um poema inédito de Eugénio Lisboa que nos honra publicar.
Homenagem a Gomes Leal(No centenário da sua morte, em 1921)
Morre o povo aí pelas esquinas,
com a fome que também matou Camões.
Abrigam-se os pobres nas ruínas,
com gestos e ademanes de ladrões.
Com fome e frio, o povo abandonado,
sacode o mundo, tenebrosamente:
dá-me tu, ó Musa, um furor sagrado,
que nos levante, poderosamente!
Uma lira feita só de vinganças,
uma lira cuspindo ameaças!
Uma lira que abale as seguranças
dos que vivem de rapina e trapaças!
Dá-me um canto canoro e eloquente,
que seja para os pobres como um sol,
pai dos párias e astro transcendente,
que faz do pobre grato girassol!
Ó Musa, quero a gana do Poeta,
que me ajude a castigar este horror,
a varrer, com vigor, esta sarjeta,
onde copulam gula e impudor!
Eugénio Lisboa, depois de reler “A Fome de Camões”, de Gomes Leal.06.07.2021
Io t'abbraccio
Palavras sonantes
Retomamos a deliciosa leitura desta obra para transcrever um pequeno excerto e o trailer da respectiva adaptação ao cinema:
“- Refiro-me, Excelência aos pecados do Rei; mas, pensando bem, há algo de muito mais grave: o Santo Tribunal da Inquisição está em mãos sem força, não por fraqueza, mas por indolência. Toda a gente sabe muito, mas ninguém acredita em nada, nem sequer no que sabe. Imagina Vossa Excelência qual foi o resultado [no Tribunal da Inquisição] de uma tarde inteira de disputas? A nomeação de quatro comissões encarregadas de averiguar se, de acordo com a doutrina, os Reis Nossas Majestades estão realmente casados; se houve ou não adultério nos devaneios do Rei, Nosso Senhor; se é ou não pecado que o Rei veja a Rainha nua e, assombre-se Vossa Excelência!, se os pecados do monarca têm ou não influência na fortuna ou infortúnio destes reinos. Nos tempos que correm já não há doutrinas estáveis. É de enlouquecer. (...)
- E Vossa paternidade propõe algum remédio?
- A longo prazo , Excelência, substituir o Inquisidor-mor, no caso de aparecer alguém disposto a semelhante sacrifício, com a balbúrdia que o espera! Mas o remédio a curto prazo tem que ser acordado agora mesmo entre Vossa Excelência e eu.
- De que remédio se trata?
- De impedir que o Rei veja a Rainha nua. Os pecados da noite passada são suficientes para pôr em perigo a monarquia e, com ela , a verdadeira cristandade; se a isto acrescentarmos essa monstruosa contemplação proibida pelas leis humanas e divinas, não me atrevo a imaginar o que será de nós.
- Refere-se Vossa Paternidade a si e a mim?
- Refiro, como Vossa Excelência pode compreender , ao futuro do único país que no mundo defende a doutrina de Deus e da sua santa Igreja.
- São palavras sonantes, as que utilizou.
- São as que se ajustam ao caso."
Gonzalo Torrente Ballester, in Crónica do Rei Pasmado, Círculo de Laitores,pp.90,91
domingo, 4 de julho de 2021
Ao Domingo Há Música
La vie sans musique est tout simplement une erreur, une fatigue, un exil.
Friedrich Nietzsche
Vivre, c'est danser, j'aimerais mourir à bout de souffle, épuisée, à la fin d'une danse ou d'un refrain.
Joséphine Baker
sábado, 3 de julho de 2021
Aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra
"Todos nós hoje nos desabituámos, ou antes nos desembaraçámos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou — apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos — «Este é uma besta! Aquele é um maroto!» Para proclamar — «É um génio!» ou «É um santo!» oferecemos uma resistência mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo."
(…)
Neste sentido, a única maneira de fazer bem o nosso trabalho é desaparecermos, esquecermo-nos da nossa existência. Nós só existimos como indivíduos que existem pelos outros, que partilham os seus problemas e tentam resolvê-los ou, pelo menos, descrevê-los.
(…)
Há muitos casos como este, mas era só para dizer que no nosso ofício, muitas vezes, temos de prestar mais atenção ao que se passa simplesmente à nossa volta – que faz, exactamente, parte dos imponderabilia -, do que ao que se diz na rádio, na televisão ou nas conferências de imprensa.
(…)
Hoje, se queremos perceber para onde estamos a ir», sustenta Kapuscinski, «não é necessário olhar para a política, mas sim para a arte. Sempre foi a arte que indicou, com grande antecipação e clareza, o rumo que o mundo ia tomando e as grandes transformações que se preparavam. É mais útil entrar num museu do que falar com cem políticos de profissão.»
Ryszard Kapuscinski, in Os Cínicos Não Servem Para Este Ofício, Relógio D’Água
sexta-feira, 2 de julho de 2021
Uma entrevista a Eugénio Lisboa (2ª parte)
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| Eugénio Lisboa |
quinta-feira, 1 de julho de 2021
Uma entrevista a Eugénio Lisboa (1ª parte)
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| Eugénio Lisboa |









