quinta-feira, 8 de julho de 2021

A saudade


A menina e o pássaro encantado
por Rubem Alves
"Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

* * *
Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…"
Rubem Alves, in As mais belas histórias , Lisboa, Edições Asa, 2003

terça-feira, 6 de julho de 2021

Homenagem a Gomes Leal

Um poema inédito de Eugénio Lisboa que nos honra publicar.

Homenagem a Gomes Leal
(No centenário da sua morte, em 1921)

Morre o povo aí pelas esquinas,
com a fome que também matou Camões.
Abrigam-se os pobres nas ruínas,
com gestos e ademanes de ladrões.

Com fome e frio, o povo abandonado,
sacode o mundo, tenebrosamente:
dá-me tu, ó Musa, um furor sagrado,
que nos levante, poderosamente!

Uma lira feita só de vinganças,
uma lira cuspindo ameaças!
Uma lira que abale as seguranças
dos que vivem de rapina e trapaças!

Dá-me um canto canoro e eloquente,
que seja para os pobres como um sol,
pai dos párias e astro transcendente,
que faz do pobre grato girassol!

Ó Musa, quero a gana do Poeta,
que me ajude a castigar este horror,
a varrer, com vigor, esta sarjeta,
onde copulam gula e impudor!
 
06.07.2021
Eugénio Lisboa, depois de reler “A Fome de Camões”, de Gomes Leal.

Io t'abbraccio

 

Nathalie Stutzmann e Philippe Jaroussky, no famoso  dueto de Cornelia e Sesto,  "Son nata a lagrimar",  da ópera Giulio Cesare, de Georg Friedrich Händel . Peça gravada para o novo álbum de Nathalie Stutzmann, "Heroes from the Shadows",na Warner Classics &Erato.
Philippe Jaroussky e Nuria Rial , em Io t'abbraccio, de Georg Friedrich Händel (Halle an der Saale, 23 de Fevereiro de 1685 — Londres, 14 de Abril de 1759).
   
RODELINDA e BERTARIDO
 Io t'abbraccio.
 E più che morte, aspro e forte,
 è pel cor mio questo addio, 
che il tuo sen dal mio divide. 

Ah mia vita! 
Ah mio tesoro! se non moro, 
è più tiranno quell'affanno, 
che dà morte, e non uccide.

Palavras sonantes

"Tal como acontecera já em Espanha, a Crónica do Rei Pasmado foi um grande êxito em Portugal. Nada mais natural. É que este «scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado», como o próprio autor lhe chama, é um livro particularmente saboroso, hábil e irónico, narrado com a mestria e a sabedoria de um escritor como Ballester. A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água. “Numa sociedade como a de hoje, onde o erotismo tantas vezes deixou de ter um papel relevante porque a conquista é demasiado fácil, é importante reler estas páginas, onde o humor e a sátira nos encantam." Daniel Sampaio,  in Prefácio à "Crónica do Rei Pasmado"

Retomamos a deliciosa  leitura desta  obra para transcrever um pequeno excerto e o trailer da respectiva adaptação ao cinema: 
“- Refiro-me, Excelência aos pecados do Rei; mas, pensando bem, há algo de muito mais grave: o Santo Tribunal da Inquisição está em mãos sem força, não por fraqueza, mas por indolência. Toda a gente sabe muito, mas ninguém acredita em nada, nem sequer no que sabe. Imagina Vossa Excelência qual foi o resultado [no Tribunal da Inquisição] de uma tarde inteira de disputas? A nomeação de quatro comissões encarregadas de averiguar se, de acordo com a doutrina, os Reis Nossas Majestades estão realmente casados; se houve ou não adultério nos devaneios do Rei, Nosso Senhor; se é ou não pecado que o Rei veja a Rainha nua e, assombre-se Vossa Excelência!, se os pecados do monarca têm ou não influência na fortuna ou infortúnio destes reinos. Nos tempos que correm já não há doutrinas estáveis. É de enlouquecer. (...)
- E Vossa paternidade propõe algum remédio?
- A longo prazo , Excelência, substituir o Inquisidor-mor, no caso de aparecer alguém disposto a semelhante  sacrifício, com a balbúrdia que o espera! Mas o remédio a curto prazo tem que ser acordado agora mesmo entre Vossa Excelência e eu.
-  De que remédio se trata?
- De impedir que o Rei veja a Rainha nua. Os pecados da noite passada são suficientes para pôr em perigo a monarquia e, com ela , a verdadeira cristandade; se a isto acrescentarmos essa monstruosa contemplação proibida pelas leis humanas e divinas, não me atrevo a imaginar o que será de nós.
- Refere-se Vossa Paternidade a si e a mim?
- Refiro, como Vossa Excelência pode compreender , ao futuro do único país que no mundo defende a doutrina de Deus e da sua santa Igreja.
- São palavras sonantes, as que utilizou.
- São  as que  se ajustam ao caso."
Gonzalo Torrente Ballester, in Crónica do Rei Pasmado, Círculo de Laitores,pp.90,91

Director: Imanol Uribe | Guionista: Baseado na novela de Gonzalo Torrente Ballester "Crónica del Rey Pasmado". Artistas : Fernando Fernán Gómez, María Barranco, Gabino Diego, Anne Roussel, Juan Diego, Laura del Sol, Javier Gurrutxaga, Joaquim de Almeida, Eusebio Poncela.  Prémios: - Prémio Especial Calidad Ministerio de Cultura - Premio Especial del Jurado del Festival de Biarritz - Premio de Interpretación Masculina a Juan Diego, Festival de Biarritz - Makila de Plata - El País de las Tentaciones (Mejor Director) - El Mundo (Mejor Película) - Premio Especial del Jurado Festival de Chamrousse (Francia) - Premio de la Asociación de Críticos del Espectáculo de Nueva York. -  14 nomeações para os  Prémios Goya, tendo obtido oito prémios: - Mejor Guión Adaptado (Juan Potau y Gonzalo Torrente) - Mejor Actor Secundario (Juan Diego) - Mejor Dirección Artística (Félix Murcia) - Mejor Sonido (Gilles Ortion) - Mejor Maquillaje (Romana González) - Mejor Dtor. De Producción (Andrés Santana) - Mejor Banda Sonora (José Nieto) - Mejor Vestuario (Javier Artiñano.

domingo, 4 de julho de 2021

Ao Domingo Há Música


La vie sans musique est tout simplement une erreur, une fatigue, un exil.
                            Friedrich Nietzsche
Vivre, c'est danser, j'aimerais mourir à bout de souffle, épuisée, à la fin d'une danse ou d'un refrain.
Joséphine Baker 
 
A dança expressa o que não se consegue dizer em palavras mas que também não pode de forma alguma permanecer em silêncio, palavras do  célebre escritor francês Victor Hugo que completam as  epigrafes em destaque.
Para nós, a Música e a Dança são  a simbiose perfeita da expressão humana, o encantamento de quem a interpreta  e o deslumbramento de quem a entende,  sente  e absorve.
E para que não fiquem em silêncio  e  não deixem de ser vistos, apresentamos dois vibrantes registos que  trouxemos da  Ópera Nacional de Paris. 

"Heart & Soul”,  Roseaux (ft. Olle Nyman) , do álbum  Roseaux II,  numa interpretação do ballet da Ópera Nacional de Paris,  extraida do  ballet “The Season's Canon”,  de Crystal Pite. 
Opéra National de Paris,   ARTE Concert.
   
Fragmento do ballet The season's Canon , de  Crystal Pite", interpretado  pelo ballet da Ópera Nacional de Paris,  sob os sons da guitarra e acordeão.
 

sábado, 3 de julho de 2021

Aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra


"Todos nós hoje nos desabituámos, ou antes nos desembaraçámos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos 
com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou — apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos — «Este é uma besta! Aquele é um maroto!» Para proclamar — «É um génio!» ou «É um santo!» oferecemos uma resistência mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo."
Eça de Queirós, in “A correspondência de Fradique Mendes”, Livros do Brasil

"Creio que para fazer bom jornalismo devemos ser, antes de mais, homens bons ou mulheres boas: seres humanos bons. Pessoas más não podem ser bons jornalistas.
(…)
Neste sentido, a única maneira de fazer bem o nosso trabalho é desaparecermos, esquecermo-nos da nossa existência. Nós só existimos como indivíduos que existem pelos outros, que partilham os seus problemas e tentam resolvê-los ou, pelo menos, descrevê-los.
(…)
Há muitos casos como este, mas era só para dizer que no nosso ofício, muitas vezes, temos de prestar mais atenção ao que se passa simplesmente à nossa volta – que faz, exactamente, parte dos imponderabilia -, do que ao que se diz na rádio, na televisão ou nas conferências de imprensa.
(…)
Hoje, se queremos perceber para onde estamos a ir», sustenta Kapuscinski, «não é necessário olhar para a política, mas sim para a arte. Sempre foi a arte que indicou, com grande antecipação e clareza, o rumo que o mundo ia tomando e as grandes transformações que se preparavam. É mais útil entrar num museu do que falar com cem políticos de profissão.»
Ryszard Kapuscinski, in Os Cínicos Não Servem Para Este Ofício, Relógio D’Água

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Uma entrevista a Eugénio Lisboa (2ª parte)

Eugénio Lisboa

Apresentamos, hoje, a segunda e última parte de uma longa entrevista a Eugénio Lisboa  , concedida, há algum tempo, ao quinzenário As Artes Entre As Letras.

AeL – Acha que as políticas editoriais têm um papel saudável na promoção cultural? E a comunicação social?
E.L. – Não sei bem a que se refere com “políticas editoriais”. Das editoras particulares? Quanto a isto, devia haver uma lei anti-trust, que impedisse que um grande grupo financeiro, que nada se interessa por livros, devorasse quase todo o mercado produtor e distribuidor de livros. O que se passa é quase obsceno. E mete medo. Entrar em quase 90% das livrarias causa náuseas: é o reino do mono-estilo, com a promoção sistemática e despudorada do que há de pior: o pimba, o piroso, o sensacionalão, o grande “best-seller” de lá de fora e de cá de dentro. O chover no molhado: promover, a grandes custos, o que por natureza da sua própria mediocridade já está promovido. Os grandes heróis dos editores e dos livreiros são os senhores-da-televisão-que-também-escrevem-livros e que despertam a concupiscência dos jovens e não tão jovens que sofrem de iliteracia aguda e por isso gostam de comprar os livros daqueles senhores e senhoras que aparecem muito no “petit écran”. A promoção via “petit écran” é, quanto a mim, um abuso de confiança.
A comunicação social – televisão, jornais vários – faz como Deus é servido, quando Deus fica mal servido (roubo esta perfídia ao Pessoa – é para isso que servem os clássicos).
AeL – Por detrás do Conselheiro Cultural, do pensador, do crítico, do estudioso, do pedagogo, espreita o poeta. Diga-nos alguma coisa dele, do premiado autor de Matéria Intensa.
E.L. – O poeta – em sentido formal – tem, em mim, aparecido pouco e quase clandestinamente. Eu sei que ser-se discreto, em Portugal, sai caro: quando falamos em voz baixa, o silêncio dos outros, a nosso respeito, é garantido. É fácil fazer desaparecer quem, já de si, aparece pouco. Mas julgo saber da poesia, por dentro, um pouco mais do que tantos que a escrevem sem nunca terem pensado a sério no que ela seja nem como funciona o mecanismo da criação poética. A ignorância versificatória de tantos dos nossos vates é simplesmente fabulosa. No nosso país pensa-se que ser moderno é escrever verso livre. O resultado é, em geral, fazer-se uma coisa que nem é verso nem é livre: o arbitrário justapor de palavras não é, necessariamente, uma metáfora... Há por aí poema e poeta muito louvado, que não resiste a um escrutínio severo: a excessiva liberdade corre o risco de desaguar no arbitrário e no contra-senso. Fazer poesia sem constrangimentos e sem rede dá, quase sempre, palavreado sem sentido.
Tem-me servido a poesia – como me tem também servido a prosa, que pode ser igualmente poética – para sondar os meus assombros e os meus fantasmas: que são muitos e nunca inteiramente resolvidos.
AeL – Por fim, com aquela frontalidade alheada de previsíveis incómodos que é sua marca distintiva, responda-nos: apesar dos condicionalismos de toda a natureza deste país a um passo do abismo, vai continuar a “Cantar a gente surda e endurecida”?
E.L. – É como se diz no mito de Sísifo: apesar de o penedo que levámos até ao cimo da colina voltar a cair, voltando ao ponto de partida, há que recomeçar. Até por uma questão de “panache”. Goethe dizia que o erro está constantemente a repetir-se, sendo por isso necessário estar constantemente a combatê-lo. Não há solução para a nossa mortalidade mas, como dizem os franceses, il faut faire semblant. Podemos ser felizes apesar de mortais, assim como podemos sê-lo apesar de cantarmos para gente surda. A tragédia, não o esqueçamos, foi inventada por um povo feliz – disse-o Nietzsche. Cantar a gente surda e endurecida é, em geral, em pura perda. O importante, porém, é perseverar – há nisso uma elegância que pode inspirar os outros. A vida é absurda mas podemos fazer de conta que não é. Não sou melancólico: sou colérico. A maior partida que podemos pregar aos governantes é fingirmos que acreditamos neles e continuarmos a moer-lhes a molécula. A uma beata que se queixava a um padre muito conhecido de que se fartara, em vão, de rezar a Nossa Senhora, por uma benesse qualquer, o padre respondeu: ”Insista, criatura, insista, chateie Nossa Senhora!”
AeL – Através da sua obra divulga escritores e artistas plásticos de outras nacionalidades, para além dos portugueses. E dá ênfase aos PALOPs. Considera que há um esquecimento propositado pelas obras destes povos da parte dos portugueses?
E.L. – Não diria que há um esquecimento propositado. É simples alheamento e indiferença, logo: desconhecimento. Aliás, foi sempre assim e, no passado, ainda foi pior. Escritores como Rui Knopfli, Glória de Sant’Anna, Ascêncio de Freitas ou João Pedro Grabato Dias nunca aqui tiveram, no passado e no presente, verdadeira implantação. Os escritores dos PALOPs não são desta paróquia e isso torna-os desinteressantes e pouco apelativos. Se o Porto fica longe de Lisboa, Luanda ou o Maputo ainda ficam mais. Não se fala com eles, quotidianamente, não se lhes contam as “nossas” anedotas, não se conspira ou intriga com eles, “não são dos nossos”, embora escrevam em português (aliás, um português que não é bem o nosso e se suspeita que seja um pouco inferior...). Um escritor português que se ausente para França, Inglaterra ou Alemanha, fica, por assim dizer, “morto”. Longe da vista, longe do coração (e da atenção). Não é da nossa paróquia, não ri das mesmas piadas nem chora com as mesmas lamechices. Os PALOPs, apesar da retórica oficial, não são “dos nossos”. Nem sequer são bem estrangeiros, porque estes, deslumbram facilmente o nosso provincianismo de pacóvios. Disto tudo, salva-se sempre o inevitável Mia Couto, que é muito traduzido “lá fora” e vem cá muitas vezes. A esse, nem o talento lhe faz mal.
AeL – A Lusofonia é bem tratada entre nós?
E.L. – Julgo ter-lhe já respondido. Enfim, a Lusofonia existe pouco, fora de uma anémica retórica oficial e de alguns congressos, sempre um pouco distraídos. Aliás esses congressos são sempre uma espécie de “ghettos” em que “eles” falam para “eles”. Depois, há o patusco Acordo Ortográfico, inventado, curiosamente, para unificar a língua... O Acordo é uma idiotice: nem com a língua tem que ver, tem só que ver com uma mera convenção de escrita e, mesmo aqui, fazem-se barbaridades que traem e fazem esquecer a origem dos vocábulos. O que é importante, na língua – o glossário, a gramática e a música da língua – divergem e vão continuar a divergir, alegre e saudavelmente, o que faz, de resto, a grandeza do Português. O Acordo Ortográfico só tem, que eu veja, uma virtude – permite, aos seus fautores, durante um período alargado, viajarem abundantemente, para “trocarem impressões” e negociarem cedências, criando assim um “acordo” que, ao fim de algum tempo, julgado decente, precisará de novos “ajustes”, isto é, de mais viagens.Assim um “acordo” que, ao fim de algum tempo, julgado decente, precisará de novos “ajustes”, isto é, de mais viagens. Tudo está o melhor possível no melhor dos mundos possíveis."

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Uma entrevista a Eugénio Lisboa (1ª parte)

Eugénio Lisboa

Pelo interesse e riqueza que sempre revestem as palavras de Eugénio Lisboa, transcrevemos a primeira parte de uma longa entrevista, concedida, há algum tempo, ao quinzenário As Artes Entre As Letras.
A segunda parte desta entrevista será transcrita amanhã .

AeL – Fale-nos do seu percurso. Qual o papel da sua formação em engenharia na vasta obra que produziu?
E.L. – Não foi, em si, a formação em engenharia que marcou a obra que tenho feito mas aquilo que me levou a ir para engenharia: o meu gosto pela matemática e pelas físico-químicas, que precedeu (e excede) o curso de engenharia. Aliás, se tivesse escolhido bem, teria ido para ciências puras e não para engenharia, embora esta nunca me tenha feito mal, antes pelo contrário.
Julgo que o gosto pela ciência e também pela filosofia ajuda não pouco a não se dizerem e a não se escreverem aquelas coisas arbitrárias e atrabiliárias que todos os dias se dizem e se escrevem em jornais e até em publicações supostamente mais doutas. O respeitinho pelas palavras e pelas ideias (claras) aprende-se,  convivendo com a história das ideias e do pensamento científico. o pensamento daqueles que estavam mais interessados em compreender do que em lançar foguetes. O discurso literário é, com uma frequência alarmante, um foguetório sem grande sentido, onde habitam os mais rotundos disparates, que se tornam emblemas duráveis e acarinhados. Disto, infelizmente, nem a universidade se livra. O gurú literário da segunda metade do século XIX, Ferdinand Brunetière, professor da prestigiosa École Normale Supérieure e director da influente Revue des Deux Mondes, afirmava, do alto do seu desprezo de humanista pelas ciências “duras”, que “haveria menos alcoólicos (...) se a química tivesse feito menos progressos” .  E, não contente com isso, aludindo ao livro de Darwin – A Origem das Espécies – proclamava: “Essas ideias devem ser falsas, porque são perigosas.” Raciocínio brilhante, que, por certo, não teria feito, se tivesse molhado um pouco o bico no lago portentoso da ciência ou tivesse “cheirado” minimamente um bom manual de filosofia... Porque os seus dislates de grande guru literário não se ficaram pelas alusões à ciência: o que disse de Baudelaire figura hoje nos bons “dictionnaires de la bêtise”.
AeL – As suas experiências cosmopolitas modelaram de alguma forma o seu pensamento?
E.L. – Tenho, de facto, viajado muito e, sobretudo, vivido longamente em latitudes e longitudes diversas: tenho 38 anos de Moçambique, onde nasci, 17 de Inglaterra, 23 de Lisboa, um ano de África do Sul e um ano de Suécia. Isto ajuda poderosamente a um alargamento de perspectivas. Mas o cosmopolitismo não depende só – ou fundamentalmente – disto: está dentro de nós. Adolescente, em Moçambique, fui francês com Voltaire, Balzac, Stendhal, Anatole France ou Roger Martin du Gard, inglês, com Dickens, Charlotte Brontë, Wilde, D. H. Lawrence, Conrad ou Huxley, alemão, com Thomas Mann, italiano com Pirandello e D’Annunzio, romeno, com Panait Istrati, americano, com Mark Twain, Hemingway, Faulkner, Saroyan ou Steinbeck, russo, com Tolstoi, Dostoiewsky, Turguenev, Tcheckov ou Sologub. A filosofia, na adolescência, levou-me a Atenas, a Paris ou a Londres (e a mais de uma cidade na Alemanha e na Suíça...) Estive em Paris, sem estar em Paris e em Londres sem estar em Londres. O provincianismo é um estado de espírito e não uma consequência da geografia. Viajar ajuda mas não é tudo. Os lisboetas que olhavam de alto para a presença, porque esta se fazia em Coimbra, sofriam de provincianismo interior, aquele que de facto estreita perspectivas. Eugénio de Andrade não precisou, para nada, de viver em Lisboa, para ser o grande poeta que foi: bastou-lhe o Porto. Há provincianos em Nova Iorque e cosmopolitas em remotas terras do interior. Quando, em 1947, vim de Lourenço Marques para Lisboa, para cursar engenharia, eu, africano do cabo do mundo, achei que a maior parte dos meus colegas de curso era mentalmente e inacreditavelmente provinciana.
AeL – O que releva da sua experiência de Conselheiro Cultural?
E.L. – O gosto de fazer coisas e, também, o gosto de fazer coisas com alguém. E promover a cultura portuguesa, em Inglaterra, era, a um tempo, dificílimo e excitante. Os ingleses são exigentes, competitivos  e rigorosos na negociação. Em Londres a competição é feroz. Podemos ter um grande produto a mostrar, mas é preciso publicitá-lo intensamente e isso custa dinheiro. Somos um país pobre, mas somos, sobretudo, um país em que os poderes políticos não gostam de gastar dinheiro com a cultura nem com os seus agentes que são, por regra, incómodos. É uma vergonha que o orçamento para a cultura ande ainda pelos mesquinhos 0.5% ou menos. E é uma vergonha para todos os partidos que têm estado no poder. Nisto, acabam sempre por ter a última palavra os detestáveis ministros das finanças, que percebem pouco de finanças e rigorosamente nada de cultura. Portugal não tem muito que lhe ajude a promover uma forte imagem: se despreza a cultura, despreza uma das mais poderosa influências subliminares que se conhecem. Ortega y Gasset escreveu, sobre isto, páginas admiráveis, que os nossos políticos evidentemente não leram. Ainda assim, promovi, em Londres, a tradução de clássicos antigos e modernos e a reedição de traduções já feitas mas esgotadas. Com o auxílio do meu amigo L. C. Taylor (director, ao tempo, da Gulbenkian, em Londres), fizemos uma boa sementeira editorial de que muito nos orgulhamos. Além de muitas outras actividades ligadas ao teatro, à pintura, à música, etc.
Paralelamente à actividade propriamente profissional, viver em Londres 17 anos  é um privilégio que só não publicito mais para não irritar os deuses.
AeL – Voltemo-nos para o presente. Que futuro para a educação?
E.L. – Nenhum, se não houver a coragem política – e não há! – para se desencadear um autêntico terramoto, que leve de enxurrada os bons sentimentos, a choradeira do facilitismo e também alguns sindicatos, que se preocupam com tudo menos com uma adequada educação ministrada aos alunos (sem falar na duvidosa legitimidade e competência que eles tenham para se imiscuirem em tudo e mais alguma coisa). O estado a que chegou a incompetência dos alunos, a inconcebível falta de disciplina e o peso horroroso de uma burocracia sufocante – é de fazer medo. Nunca pensei poder vir a dizer isto, mas digo: o liceu que frequentei, em Lourenço Marques, no tempo do Estado Novo, envergonha isto a que hoje se chama ensino secundário. E o processo de Bolonha está a ser um autêntico massacre para as universidades. Com esta qualidade de educação – a todos os níveis – o país jamais arrancará para um crescimento digno desse nome: não haverá mão de obra qualificada, em quantidade suficiente. O fantasma da Matemática tem também que ver com alguma má docência, aliás, mais do que alguma. Melhores professores (na generalidade, porque há sempre honrosas excepções), melhor disciplina, mais exigência, mais autoridade para os professores e para a direcção das escolas, autonomia com responsabilidade – eis aquilo, sem o que, não há qualquer possibilidade de futuro. É um pesadíssimo caderno de encargos – mas é para um governo de um partido que aceite, patrioticamente, perder as eleições seguintes.A políticos assim, capazes de arriscarem as suas carreiras ou até a vida, chamou Kennedy “perfis de coragem”. Ainda haverá disso entre nós? Mário Soares foi um desses, mas não sei se as gerações posteriores produziram gente deste gabarito. Penso que, para melhor garantia de continuidade de um programa exigente (que os sindicatos combateriam...), teria que haver, no mínimo, um pacto de regime. Ou isto ou a perpetuação do pântano.
AeL – Haverá em Portugal uma política cultural? Será que se sabe o que é cultura, pelo menos tal como a desvenda nos seus livros?
E.L. – Os governos que costumam ter “políticas culturais” são os das ditaduras: a Alemanha nazi, a Itália fascista, a União Soviética ou o Portugal de Salazar tiveram “políticas culturais”. A América ou a Inglaterra ou a Dinamarca não têm políticas culturais. Quem faz a cultura são as pessoas, individualmente, por iniciativa própria ou em associações de interesses culturais. Ao Estado pedem-se apoios financeiros ou outros e que cuide do património construído e do outro. O Estado deve ser discreto, caso contrário, corre o risco de se tornar manipulador. Quando o Estado se põe a ter ideias temos quase sempre o caldo entornado. O Camões, o Eça, o Mosteiro da Batalha, o Carlos Seixas são meus e teus, não são do Estado. Mas compete ao Estado velar por eles, pela sua preservação, mas sem os utilizar a seu favor. Quando se trate de celebrá-los e promovê-los, a iniciativa deve ser de nós todos, com o Estado, porque não, a apoiar mas não a dirigir.
Quanto a saber-se o que é cultura, parece-me difícil defini-la de forma competente e abrangente. Mas gosto sempre de lembrar as belas palavras de Ortega y Gasset: “A cultura não é a vida na sua totalidade, mas apenas o seu momento de segurança, força e claridade.” (continua)