quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Nobel da Literatura para Louise Glück

"A poeta norte-americana Louise Glück é a vencedora do Prémio Nobel da Literatura de 2020. O galardão foi-lhe atribuído pela sua “voz poética inconfundível que, com beleza austera, torna a existência individual universal”. O anúncio foi feito ao final da manhã desta quinta-feira, na Academia Sueca, em Estocolmo. O comité do Nobel já falou com a vencedora: “A mensagem foi recebida com surpresa mas, pelo que me pareceu, foi bem acolhida”, adiantou um membro. Foi também revelado que, devido à “situação pandémica”, os vencedores dos Nobel de 2020 não irão juntar-se este ano na habitual cerimónia de dezembro em Estocolmo. “Em vez disso, a cerimónia do prémio e os discursos” serão transmitidos online, com sessões individuais para cada categoria. “Os laureados vão ser convidados para a cerimónia do próximo ano em Estocolmo.”
O crítico William Logan, do "The New York Times", descreve a escrita de Glück como "o resultado lógico de um certo tipo de verso confessional, faminto de adjetivos, reduzido a um conjunto nervoso de verbos, intenso, quase ultrapassado. Os seus poemas são sombrios, difícil desviar o olhar deles". 
Com a vitória de Louise Glück, o Prémio Nobel já tem quatro mulheres laureadas  neste ano. A primeira foi Andrea Ghez, que dividiu o prémio com dois cientistas pela pesquisa em buracos negros. Além dela, Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna ganharam o Prémio Nobel 2020 em Química pela descoberta do Crispr, método de edição do genoma.
Este ano, o prémio para cada uma das categorias do Nobel é de 10 milhões de coroas suecas."
As mulheres  laureadas com o Prémio Nobel 
Apenas dezasseis mulheres receberam  o Prémio Nobel de Literatura entre uma centena de homens,  desde a sua criação, em 1901.  A  última laureada  foi  Olga Tokarczuk, em 2018. 
·1909 – Selma Lagerlöf 
·1926 – Grazia Deledda 
·1928 – Sigrid Undset
·1938 – Pearl Buck 
·1945 – Gabriela Mistral 
·1966 – Nelly Sachs 
·1991 – Nadine Gordimer
·1993 – Toni Morrison
·1996 – Wislawa Szymborska 
·2004 – Elfriede Jelinek
·2007 – Doris Lessing 
·2009 – Herta Müller 
·2013 – Alice Munro 
·2015 – Svetlana Alexievich 
·2018 – Olga Tokarczuk 
·2020 - Louise Glück 
(Artigo composto   com  informações  retiradas da  Imprensa.)

Sonhar e afrentar

"Dreamers of Dreams"  foi filmado na Nazaré. A Música, "All is not lost", é de Tony Anderson. O Poema é de  Arthur O'Shaughnessy, declamado por David Bailie. A produção pertence a LCS Shoot Producer - Ed Temperley, Magicseaweed. 

ODE 
We are the music-makers,
And we are the dreamers of dreams,
Wandering by lone sea-breakers
And sitting by desolate streams;
World losers and world forsakers,
On whom the pale moon gleams:
Yet we are the movers and shakers
Of the world for ever, it seems.

With wonderful deathless ditties
We build up the world’s great cities.
And out of a fabulous story
We fashion an empire’s glory:
One man with a dream, at pleasure,
Shall go forth and conquer a crown;
And three with a new song’s measure
Can trample an empire down.

We, in the ages lying
In the buried past of the earth,
Built Nineveh with our sighing,
And Babel itself with our mirth;
And o’erthrew them with prophesying
To the old of the new world’s worth;
For each age is a dream that is dying,
Or one that is coming to birth.
Arthur O'Shaughnessy, in Music and Moonlight (1874).

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Os "Poemas em Tempo de Peste" de Eugénio Lisboa

A versatilidade de Eugénio Lisboa é um constante deslumbramento. Cada livro que publica aguça a nossa curiosidade . Traz sempre  uma nova  descoberta  para nos provocar e seduzir.  E esta subjuga-nos,  de imediato. É um livro fascinante de poesia. 
Eugénio Lisboa compô-lo em tempo de confinamento. E, se a Peste o ditou, a Literatura acabou por ganhar uma nova obra de grande qualidade. E porque o tempo o exigia, Eugénio Lisboa soube  brincar,  satirizar e exortar a  quem e com quem  lhe muito bem aprouve. Detentor de um apurado sentido de humor e de uma brilhante oficina poética, Eugénio Lisboa produziu  um livro que encanta  e nos faz sorrir. 
"Poemas em Tempo de Peste" está já nos escaparates das livrarias. Abra-o e comece por  esta elucidativa e provocadora Introdução do poeta Eugénio Lisboa: 

 Poemas para baratinar a peste
"Em tempos de peste e de confinamento mais ou menos rigoroso, tendemos todos à melancolia, quando não ao desespero. É nestas alturas que se recorre e deve recorrer ao humor e à faceirice, para desanuviar o ambiente. Lembremo-nos do célebre Decameron, segundo o qual aqueles protagonistas, para fugirem aos horrores e ao perigo da peste negra, se isolaram num certo local a contarem-se histórias ladinas, picarescas, apimentadas, licenciosas, para afastarem do espírito a mortandade que, lá fora, assolava as populações. Nietzsche dizia que a tragédia só poderia ter sido inventada por um povo feliz, como os gregos. Em contrapartida, a comédia deve ter sido inventada por um povo infeliz, como antídoto à melancolia. Alguém perguntou um dia a Anatole France que tal tinha sido a cerimónia da recepção do Prémio Nobel. Respondeu: «Triste como um casamento e alegre como um enterro.» Porque é um facto: é nos funerais que se contam mais anedotas, não por falta de respeito ao morto e seus familiares, mas como reacção ao horror da morte e da perda. Cultivar o triste e o sombrio, quando a peste nos cerca, é um erro calamitoso. Quando a melancolia nos devora, deve recorrer-se ao humor e à traquinice. Quase todos os grandes humoristas, como Mark Twain ou Marcel Aymé, eram, no fundo, pessoas tristes a lutar contra essa tristeza. Estes poemas foram sendo escritos a pensar nos amigos cercados pela peste e pelo humor merencório. Agora, formatados em livro, servirão para quem os quiser ler. 
Eugénio Lisboa, in Poemas em Tempo de Peste, Guerra e Paz Editores, pp. 13-14
 
E, agora, delicie-se com estes dois poemas:

Brincando com  a redondilha maior: 
The Waste Land 

Abril é o mês mais cruel, 
dizia um poeta inglês 
que deitava no papel
infernos de nitidez. 

Vejam: morremos aos molhos, 
depois de viver sozinhos 
atrás de sete ferrolhos, 
ao abrigo dos vizinhos. 

O inimigo escondido 
ataca-nos de surpresa 
com um furor incontido 
pra deixar uma certeza: 

Se a vida era coisa breve, 
nos tempos de antes de agora, 
hoje a morte que me leve
fá-lo com menos demora. 

As ruas ficam desertas 
e os laços que a vida laça 
logo tu os desapertas 
ao ver a morte que passa. 
               31 de Março do Ano da Peste
Eugénio Lisboa, in Poemas em Tempo de Peste, p.17
Amor Virtual em Tempo de Peste

Usa-se o computador,
nestes dias desolados,
para fazer amor,
mas com pífios resultados.

O computador imita,
faz só aquilo que pode:
se o amor, com força, excita,
o computador implode!

Este amor só pelo éter,
sem um toque na cereja,
é como apalpar o sweater
em vez da teta que almeja!

Amar por computador,
nesta época tão triste,
é como fazer amor
com alguém que não existe!
                            21.04.2020

Eugénio Lisboa,
que nada tem contra os computadores, antes pelo contrário, mas que não pode, em boa consciência, não lhes reconhecer os limites.

Eugénio Lisboa, in Poemas em Tempo de Peste, Guerra e Paz, Editores, S.A., Setembro de 2020, pp. 13, 14, 18, 43

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O que há mais além?

 " Deus escondido. Natureza corrupta. Deus abandona-nos à cegueira - até à chegada  de Cristo. Todo o pensamento de Pascal , todo o seu cepticismo, a sua ironia, a sua negação, se dirigem claramente a uma afirmação de Cristo. O duplo caminho do homem, a sua dupla paixão - passagem e sofrimento - pela terra é aquilo  que , aos olhos  de Pascal, nos assimila a todos  à própria passagem de Cristo pela terra, à sua paixão. Não posso evitar a certeza de que toda a andaimaria levantada por Pascal  para a nossa profissão de equilibristas é como uma ponte lançada entre o
Dieu caché que não só abandonou Jesus , como a humanidade e o próprio Jesus...
" Se não me tivesses encontrado, não me procurarias", diz  Cristo nos maços descosidos, que tanto cito, de Pascal. Quer dizer: Pascal não pode nem quer evadir a questão da fé, a questão do ser humano que crê.  Não  pela sua filiação nesta ou naquela religião, mas sim porque procura o mais precioso que já traz em si ( o coração que sabe as razões que a razão ignora)  e o procura consciente de que provém de um limite , nascer, e se encaminha para outro limite, morrer.  Não é a provável filiação religiosa que determina o valor da vida em Pascal, mas sim a fé na sua acepção mais vasta, a certeza de que podemos ser portadores de valores que queremos radicar no mundo precisamente porque nos interrogamos: o que há mais além?
As ideias recebidas, as inércias da prática, eis o que Pascal rejeita e por isso, como tantos outros, exalta a figura de Cristo como homem activo, inconformado, exigente com o seu tempo, o modelo que já encontrámos sem o saber, mas que devemos perseguir para termos consciência do que cada um de nós pode ser, pode esgotar ou a que deve renunciar.
«Acredito porque é absurdo » , disse Tertuliano, insuperavelmente , da fé.  Não explica a razão, mas sim esse «coração» que tem razões que a razão ignora.  Wittgenstein, judeu irresistivelmente atraído  para o catolicismo, admite  que o pensador religioso é um «equilibrista». E ele próprio o é. Se por um lado nos diz que a fé é absurda e não é o que distingue o cristianismo, mas sim a prática , quer dizer , viver como Jesus viveu, por outro lado declara que a fé é fé naquilo de que o coração e a alma necessitam, e não o que « a minha inteligência especulativa» exige. Porque « é a minha alma com as suas paixões ... que exige ser salva , e não o meu pensamento abstracto». Daí  que seja menos certa ou aparente a contradição  fé-prática no pensamento de Wittgenstein, uma vez que essa «alma» e essas «paixões» que são as suas submetem a fé ao desafio prático de viver  como Jesus. «... Só a prática cristã, uma vida como a do que morreu na cruz, é cristã... e ainda hoje é possível» - acrescenta Wittgenstein - « para certos homens, necessária até : o cristianismo genuíno , primitivo, será possível em todos os momentos». O cristianismo surge a Wittgenstein, afinal, como uma fé que é um fazer ou não apenas « um acreditar, mas sim um fazer». O cristianismo não se pode reduzir a sustentar que isto ou aquilo é verdade. O cristianismo é prática, não dogma.
A inteligência imensa de Ludwig Wittgenstein leva-o a entender que não há razão pela qual a fé religiosa não possa fazer parte da herança cultural «que me permite distinguir entre o verdadeiro e o falso». Só um homem desta integridade filosófica e moral pode dizer ao morrer: « Deus disse-me: Julgo-te pelo que saiu da tua boca. As tuas próprias acções fizeram-te tremer de desgosto quando viste outros  repeti-las.» Porque «É a minha alma e as suas paixões , e não a minha inteligência abstracta, que precisa de se salvar ».
Não sei se há declaração filosófica mais valiosa e definitiva do que esta. "
Carlos Fuentes, in "Aquilo em que acredito" , Publicações Dom Quixote, pp.281, 282, 283

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Onde é o meu lugar?

Raul Brandão (1867- 1930)  foi contemporâneo da implantação da República em Portugal. O autor de "Húmus", obra de referência  da literatura nacional, registou, em Outubro de 1910,nas suas Memórias ,estas tão intemporais reflexões: 

" Oh meu Deus; nestas ocasiões é que eu queria ver por dentro estes homens lívidos e com um sorriso estampado na cara, que sobem as escadas dos ministérios , para aderirem à República!  É este e aquele, os que estão ameaçados de perderem os seus lugares , as altas situações, o poder. Os tipos não importam - o que importa é o fantasma que transparece atrás da figura; o que importa é o monólogo interior, as verdadeiras palavras que não se pronunciam, o debate que não tem fim, o que nestas ocasiões de crise ruge lá dentro sem cessar. Escutá-los  a todos ! Possuir o dom mágico através das paredes e dos corpos!...Toda a noite, toda a noite de cinco de Outubro quantos perguntaram ansiosos:  - Quem vai vencer? Onde é o meu lugar?... Bem me importam a mim as tragédias e as mortes!...Interesses, ambição, medo, tantos fantasmas que nem eu supunha existir e que levantam a cabeça!...
Não há nada que chegue a estes momentos históricos em que o fundo dos fundos se agita e remexe, para cada um se avaliar e saber o que vale uma alma...
E o desfile segue - o desfile dos tipos que sobem as escadarias dos ministérios, dos que descem as escadarias dos ministérios, uns já com o olhar de donos, mas vacilantes ainda, sem poderem acreditar na realidade, outros com um sorriso estampado que lhes dói. Estamos todos lívidos por fora e por dentro..."
Raul Brandão, in "Memórias", Quetzal Editores,  pp. 262, 263

domingo, 4 de outubro de 2020

Ao Domingo Há Música


Je t'aime éperdument, et je te le dis, et je te le répète, et mes paroles te l'expriment, et mes baisers te le prouvent, et quand j'ai fini... je recommence. Je voudrais recommencer ainsi pendant l'éternité, et chaque soir, je regrette la nuit qui va s'écouler sans toi, et chaque matin, j'en veux au soleil de briller, comme aujourd'hui, quand tu n'es pas dans mes bras.                                                                                                                     Victor Hugo

O amor pode ser cantado em todas as línguas. Victor Hugo fê-lo em francês . Outros escritores e poetas  teceram-lhe  loas belíssimas pelo mundo inteiro.  Houve quem o vivesse intensamente e quem o soubesse traduzir num filme memorável: Titanic.

De James Horner,  Titanic suite, pela soprano Ildiko Raimondi, acompanhada pela   ORF Radio Symphonic Orchestra, conduzida pelo maestro  David Newman. O registo foi realizado   no Film Music Gala Concert, "Hollywood in Vienna", em 3 e 4 de Outubro de 2013. James Horner esteve presente para receber o  Max Steiner Award.
   

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Vinicius de Moraes pela neta Mariana

Vinicius de Moraes  (1913-1980)

A história de Vinicius de Moraes, contada pela neta Mariana, revela o artista que exaltou a alma brasileira
Em homenagem aos 40 anos de morte do poeta, a actriz e cantora Mariana de Moraes resgata em curso as histórias por trás das canções e poemas do avô, que fez o Brasil grande mundo afora
por Joana Oliveira, São Paulo 
“Vinicius de Moraes (1913-1980) sempre escreveu canções, desde muito jovem, mas o fazia às escondidas. Para um jovem poeta cultuado na Academia, pegava mal ser compositor. “Era como se ele tivesse duas personalidades que se ocultavam mutuamente, uma não contava que existia para a outra”, comenta a actriz e cantora Mariana de Moraes, de 50 anos, neta do Poetinha que cantou como ninguém o amor e a saudade. A primeira composição foi feita aos 15 anos, em 1928, mas Loura ou morena só foi musicada em 1932, por Haroldo Tapajós. Agora, em homenagem aos 40 anos de sua morte, Mariana resgata as histórias por trás dessa e de outras letras e poemas do avô num curso online de quatro aulas. Em 25 de Janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, ela iniciou as homenagens com um show cantando o repertório de Vinicius, que pretendia transformar em álbum ainda neste ano. Mas a pandemia do novo coronavírus atrasou os planos.
Ao longo de quase 30 anos de carreira, Mariana, que é filha do fotógrafo Pedro de Moraes e da actriz Vera Barreto Leite, participou de diversos projectos mundo afora sobre Vinicius e, ainda que até este ano não tivesse gravado as músicas do avô, sempre se debruçou  sobre a obra dele. “Não por ser neta, mas por ser uma fiel seguidora do João Gilberto, que foi o primeiro e grande intérprete de Vinicius”, diz ela. Actriz de formação —e discípula do Teatro Oficina de Zé Celso—, Mariana sempre mistura poesia, histórias e música em seus shows. A oportunidade de preparar um curso sobre o avô, que começa no dia 10 de Agosto, deu-lhe a ideia de levar suas histórias aos palcos, quando a quarentena acabar. “Quero contar as histórias dele, a história das músicas dele e dos valores éticos que ele passou para a família, sobre como viver a vida”.
Uma dessas histórias é sobre como o jovem poeta consagrado, que recebeu uma bolsa de estudos para a Universidade de Oxford, conheceu aquele com quem construiria quiçá a maior parceria do cancioneiro brasileiro: Tom Jobim. Vinicius escreveu a peça O Orfeu da Conceição e moveu mundos e fundos —pedindo empréstimos a amigos e endividando-se— com o sonho de encená-la no Teatro Municipal. Enquanto buscava um compositor para o musical, conheceu Tom Jobim. E o sonho deu certo. A peça foi apresentada durante três noites e entrou para a história como a primeira vez em que 36 negros se apresentaram no panteão das artes cénicas brasileiras. O Orfeu da Conceição  tornar-se-ia o filme Orfeu Negro (ou Orfeu do Carnaval), de 1959, dirigido pelo francês Marcel Camus, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes.
“Em alguns de seus textos, Vinicius revela o desenvolvimento dessa ideia de transpor o mito grego de Orfeu para a favela carioca e de ele não ser um herói helénico que toca lira, mas um negro que toca violão”, conta Mariana, que destaca a admiração de Vinicius por toda a cultura africana e afro-brasileira. Não à toa, uma das aulas do seu curso será dedicada aos afro-sambas que Vinicius compôs com o amigo Baden Powell. “Uma das grandes bandeiras na vida de Vinicius era mostrar que a arte popular não é menor que a arte erudita ou académica e ousar unir ambas. A trajectória dele mostra como essa poesia erudita se infiltrou no artista popular e fez com que a música no Brasil ganhasse uma dimensão que nunca tinha tido”, diz Mariana.
Dessa fusão surgiu a bossa nova e a sua santíssima trindade: Vinicius, Tom e João Gilberto. “Essas e outras amizades são um capítulo muito importante da vida dele. Todo mundo fala das nove mulheres que ele teve, mas, na verdade, o que ele mais cultivou foram amigos, de todas as áreas”, afirma a neta. De Pablo Neruda a Carybé, Manuel Bandeira, Rubem Braga, o mestre Pixinguinha, até Carmen Miranda e o cineasta Orson Welles, que conheceu em Los Angeles, o primeiro posto de Vinicius de Moraes como adido cultural do Itamaraty.
Foi precisamente depois de ele deixar a carreira de diplomata, que exerceu entre 1943 a 1963, que Mariana conviveu mais tempo com o avô, que morreu quando ela tinha 11 anos, no dia 9 de Julho de 1980. “Quatro anos antes disso, fui viver o exílio na França com meus pais. Foi justamente nesse período que ele foi demitido do Itamaraty pela ditadura militar e ficou livre para ser um artista de palco. É sua fase popstar”, lembra ela, referindo-se aos shows que Vinicius passou a fazer no exterior. “Ele sempre me levava aos shows que fazia em Paris e, pelo menos três vezes no ano, era a única pessoa da família que eu encontrava. A lembrança que eu tenho é de um avô muito amoroso”. 
Mariana, que cantava com afinação desde pequena, era um dos xodós do poeta. “Ele tinha o maior orgulho de mim porque eu cantava e era uma criança afinada que sabia todas as músicas do João Gilberto”, ri ela, que lembra com carinho de quando Vinicius a presenteou com um gravador para que ela treinasse como cantora. Mariana fala com igual carinho da tia, Susana de Moraes, primogénita de Vinicius. “Ela fez por mim o que ele teria feito, foi uma grande amiga e conselheira”. Foi a tia quem aconselhou Mariana a não cantar o repertório do avô enquanto não tivesse uma carreira consolidada. “Ela dizia que primeiro eu tinha que me colocar no mundo e ser reconhecida pela minha própria voz”, diz Mariana sobre a tia, para quem Vinicius compôs Valsa de Eurídice, para celebrar seus 15 anos, muito antes de se lançar oficialmente como compositor.

 Vinicius atemporal

Mariana ressalta que a figura de Vinicius de Moraes, assim como a sua obra, é atemporal, apesar de, segundo ela, “estar fora de moda” actualmente no Brasil. “Os artistas do país estamos abandonados. A música popular brasileira está abandonada no Brasil. É uma tristeza, porque o que a música popular deu para o Brasil, como o futebol no desporto, foi uma identidade. Desde o Cartola ao [Heitor] Villa-Lobos.”, lamenta ela, que critica a falta de política cultural do Governo de Jair Bolsonaro.
A artista acredita que, se estivesse vivo hoje, o avô se posicionaria, “com seu pragmatismo amoroso”, contra essa realidade. “Ele foi importante para a carreira de praticamente todo mundo que faz música popular brasileira hoje. Tenho certeza de que, se estivesse aqui, estaria usando de seu privilégio para se colocar politicamente contra o atual panorama sociopolítico do país, de fascismo, racismo, ignorância”, diz e logo acrescenta, saudosa: “Como eu gostaria de ter tomado um porre com meu avô!”.
Mas é também nas memórias do avô que Mariana encontra paralelos e lampejos de esperança. “Achei outro dia um texto dele sobre a Segunda Guerra Mundial, em que ele fala da dor daquele momento e chega a usar a palavra quarentena ao referir-se à situação dos familiares dos soldados que foram para a Guerra. Foi um momento difícil, mas que passou”. Como escreveu em Chega de saudade, Vinicius de Moraes faz lembrar que o amor prevalece e que “a distância não existe”.
Joana Oliveira, São Paulo , Brasil, artigo publicado no jornal El País, em 03.08. 2020

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Watching you

Bob Halverson Band, em Watching You.  Bob Halverson Band é um trio composto por Bob Halverson ,  Brian Kirksey e  Dale Eubank. Estes  talentosos músicos actuam como trio desde 2000.