quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sobre os homens


"Os homens que têm a mania das mulheres dividem-se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que eles próprios têm da mulher como ela lhes aparece em sonhos o que é algo de subjectivo e sempre igual. Aos outros, move-os o desejo de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objectivo. A obsessão dos primeiros é uma obsessão lírica; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque, como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra. Como a desilusão que os faz andar de mulher em mulher dá, ao mesmo tempo, uma espécie de desculpa melodramática à sua inconstância, não poucos corações sensíveis acham comovente a sua perseverante poligamia. A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projecta nas mulheres um ideal subjectivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo. E esta impossibilidade de desilusão encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do femeeiro épico não tem remissão (porque não é resgatada pela desilusão). (...) Na sua caça ao conhecimento, os femeeiros épicos (...) afastam-se cada vez mais da beleza feminina convencional (de que depressa se cansam) e acabam infalivelmente como coleccionadores de curiosidades." Milan Kundera, in “A Insustentável Leveza Do Ser”, Ed.D. Quixote

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Tomás Segovia e Rubens Figueiredo

Enquanto
Enquanto não queira o tempo
Soltar a minha mão
Sairei cada manhã
A buscar com a mesma reverência
Minha diária salvação pela palavra
                                    Tomás Segovia


México - "O poeta espanhol Tomás Segovia, que chegou exilado ao México em 1940, faleceu na segunda-feira, aos 84 anos, na capital mexicana vítima de cancro, informou o Instituto Nacional de Belas Artes (INBA).
"Segovia é um dos poetas mais importantes das letras em língua espanhola. O seu talento, sabedoria e grande humanismo enriqueceram a vida cultural de nosso país desde que chegou, expulso pela guerra civil espanhola", afirmou Teresa Vicencio Álvarez, directora geral do INBA.
Nascido em Valencia, Tomás Segovia desembarcou no México em 1940 e  tornou-se uma importante figura da vida intelectual mexicana." Lusa


Prémio Portugal Telecom Literatura
O livro "Passageiro do Fim do Dia" de Rubens Figueiredo foi o vencedor da edição deste ano do Prémio Portugal Telecom de Literatura, em cerimónia realizada esta terça-feira em São Paulo.
Rubens Figueiredo ,escritor e tradutor brasileiro, é um autor galardoado com vários prémios ,incluindo dois Prémios Jabuti de Literatura e já tinha recebido este ano o Prémio São Paulo de Literatura.
O "Passageiro do Fim do Dia" conta o que os olhos de Pedro vêem enquanto atravessa a cidade do Rio de Janeiro até chegar ao bairro onde vive. Com um livro velho nas mãos, que vai lendo, a personagem criada por Rubens Figueiredo vai observando as relações e as desigualdades sociais no Brasil.
«Tentei concentrar-me em pequenos factos ou situações, às vezes detalhes mesmo pequeninos», contou o escritor, referindo ainda que abordou a «distância entre as pessoas» e «a dificuldade de ver os outros como iguais a nós mesmos».
O vencedor do prémio Portugal Telecom de Literatura escreveu o primeiro romance aos 23 anos. Nasceu em 1956, no Rio de Janeiro e vive nessa cidade. Foi professor e actualmente é tradutor, tendo mais de 40 traduções publicadas.
Mesmo com todo um currículo marcado pelo envolvimento com a língua, o autor diz não ser movido apenas pela palavra. "Eu só começo a escrever quando tenho alguma coisa para dizer".
Os dez finalistas do prémio deste ano foram Rubens Figueiredo, com "Passageiro do fim do dia" (Editora Companhia das Letras), João Tordo, com "As três vidas" (Editora Língua Geral), Gonçalo M. Tavares, com "Uma viagem à Índia" (Editora Leya), José Castello, com "Ribamar" (Editora Bertrand), João Almino, com "Cidade Livre" (Editora Record), Marina Colassanti, com "Minha guerra alheia" (Editora Record), Alberto Martins, com "Em Trânsito" (Editora Cia das Letras), Elvira Vigna, com "Nada a dizer" (Editora Cia das Letras), Ricardo Aleixo, com "Modelos Vivos" (Editora Crisálida) e Donizete Galvão, com "O homem inacabado" (Portal/Dobra Editorial). Notícia  da Comunicação social

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Fernando Pessoa em “ O Devir -Eu "

"Aos estudiosos ( e também, por que não, aos simples curiosos) da obra de Fernando Pessoa, este pequeno volume de José Gil que nos tem habituado a leituras sóbrias, aparentemente simples mas sempre incisivas da criação em Fernando Pessoa.
Este devir-eu, esta forma de nos dizer de que modo, entre outros, Pessoa se foi encontrando a si mesmo - pelos caminhos múltiplos da sua própria obra - recolhe um conjunto de reflexões feitas a partir do Livro do Desassossego, da Correspondência de Ofélia-Pessoa, e da função do inconsciente da Sensação no poema Passagem das Horas.
Três ensaios, três leituras obrigatórias.
No meu caso, que sempre me apercebi da estruturação, da função e do peso do inconsciente na obra de Pessoa, é-me especialmente agradável, dezenas de anos depois, encontrar uma leitura que não é igual (nunca o poderia ser ) mas devolve a essa função da nossa psique o seu lugar na obra de um dos nossos maiores poetas.
Faltaria, mas não foi intenção do autor e a sua liberdade tem de ser respeitada, a referência ao papel que a paixão pelos conhecimentos esotéricos, iniciáticos, desempenhou, tanto na produção poética como na relação, que se viria a quebrar, com a sua namorada. Ofélia queria um casamento tradicional, filhos, família; Pessoa queria atingir, na Iniciação, o ponto mais elevado. Se o atingiu é segredo bem guardado - mas sabe-se que sonhou, sabe-se que estudou, aguardando um sinal..
Relembro, pois tem sido um trabalho de cuidadosa investigação, recolha e transcrição de inéditos do espólio, o volume X da edição crítica de Fernando Pessoa, sobre o Sensacionismo e outros ismos. (Mantenho, na citação, a escrita do original)
Num apontamento de 1914 declara o poeta que tomou a decisão de ser ele mesmo:
"Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver á altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a idéa do reclame, e plebêa sociabilização de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Genio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu caracter nato quer que eu seja, e meu Genio, com elle nascido, me impõe que eu não deixe de ser.
Attitude por attitude, escolher a mais nobre, a mais alta e a mais calma.Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios á plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palahaço; é de renuncia e de silencio que se veste
(...) Recobrei - ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de 'lançar o interseccionismo' - a tranquila posse de mim.
Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.
(...)
D'oravante vêr se estudo, trabalho, elaboro. As minhas angustias espirituais continuarão em muitos pontos; mas n'um cessaram, na busca de mim que, no amago de tudo, me trazia irrequieto porque não me encontrára.
Marinetti, tudo isso - o grau superior de clown, mais nada.
Associar-me menos com os outros.
Deus esteja comigo".

Mas não esqueçamos que se trata aqui de recolha de fragmentos soltos, ordenados, quando possível, por datas, e que logo noutros momentos a decisão que parecia definitiva é contrariada por outras propostas e reflexões filosóficas e estéticas que recuperam, com minúcia, o caminho aparentemente antes recusado.
Na sua ânsia de extrema liberdade tudo afinal deseja experimentar.
O poeta é de pensamento irrequieto, como ele próprio reconhece, e o seu desejo de tudo abarcar, tudo pensar, sentir e sistematizar, mais para si do que para os outros, cai em contradições que, embora despoletem momentos de genial criação, não lhe permitem levar até ao fim um modelo que se pudesse dizer coerente, completo e disponível na sua universalidade.
Os modelos teóricos de Pessoa são, no fundo, para uso próprio, exclusivo, - não terá nem poderia ter seguidores, e é isso que faz dele, entre outras coisas, o ser múltiplo e único que ele é."  Yvette Centeno , in “Literatura e Arte”

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Noventa e dois anos de Sophia

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de Novembro de 1919 (1919-2004). Completaram-se , ontem , 92 anos do seu nascimento. A poesia que nos deixou tem sido constantemente aplaudida e relembrada em todo o mundo. Hoje, também a recordamos.


As rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.


Sophia de Mello Breyner,  in "Dia do Mar" (1º ed. Ática 1947, incluído no vol. I da "Obra Poética", ed. Caminho)

A anémona dos dias

Aquele que profanou o mar
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória
Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como de um Messias
Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anêmona dos dias.

Sophia de Mello Breyner, in “No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 67

domingo, 6 de novembro de 2011

Há Música ao Domingo

 "Como sabemos, todo Estado é uma sociedade, a esperança de um bem, seu princípio, assim como de toda associação, pois todas as acções dos homens tem por fim aquilo que consideram um bem." Aristóteles, in "A Política"
“A decisão é, na verdade, o que de mais próprio concerne a excelência e é melhor do que as próprias acções no que respeita à avaliação dos carácteres humanos.
(…)Um desejo pode opor-se a uma decisão, mas já não poderá opor-se a um outro desejo. O desejo tem em vista o que é agradável e o que é desagradável. A decisão, contudo, não é feita em vista do desagradável nem do agradável.”Aristóteles, in “Ética a Nicómaco “
Assim pensou e escreveu Aristóteles (384 - 322 a.C.) um dos maiores filósofos gregos da Antiguidade. Hoje a Grécia de Platão, de Aristóteles e de tantos outros gloriosos sábios debate-se com problemas de sobrevivência, onde as grandes decisões têm de prevalecer sob o bem de um povo que foi pioneiro na história da Democracia.
Vangelis Papathanasiou , compositor grego, é um dos grandes vultos da música mundial.  Em 1997, no Panathenean Stadium, em Atenas  produziu e dirigiu um espectáculo perante noventa mil espectadores.   Montserrat Caballe e Montserrat Marti, mãe e filha, cantaram  "The Pray of the World" uma das muitas composições aí apresentadas. E porque na Grécia  a história se escreveu com o seu povo, celebrar o talento actual de um deles é acrescentar uma outra página nesse grande livro da memória grega.

sábado, 5 de novembro de 2011

Um sorriso claro solar


"Mas insensivelmente os lábios foram-se separando um pouco. Um dente. Subtil iluminado de pacificação, serenidade alegria de ser - se te demorasses um pouco. E seres aí a vida rodeada de verdade por todos os lados. Um dente visível. Mas os lábios separaram-se mais e são agora um sorriso claro solar. E instintivamente deixei que se demorasse aí até eu poder reconhecer-lhe o esplendor. É um riso, não vou cometer a imprudência de o perder. Está na linha do céu e do mar, não vou. A juventude sem uma força excessiva de o ser. A confiança - não vou. O futuro dos séculos a quererem vir. A segurança contra o medo a vileza a degradação. A morte. Nem na realidade há nele futuro algum. Porque todos os séculos do futuro e do passado se conglomeram ali no instantâneo presente. O riso. Sem olhos nem face. Nem cabelos. Porque toda a sua ausência está lá. São olhos iluminados de uma festa terrível, cabelos de ar. Fixar-te para sempre, riso da minha pacificação."
Vergílio Ferreira, in "Na Tua Face", Bertrand Editores, 1993 *

*"Na Tua Face" é um dos últimos romances de Vergílio Ferreira e aquele que mais traduz uma aspiração do próprio autor.Ser pintor tal como Daniel,a personagem deste romance. Em "Conta-Corrente", obra diaristica, Vergílio Ferreira anotou: «Não preferi a minha arte. Calhou-me. Ou talvez seja essa a sorte de todas as preferências: escolhe-se sempre o que nos coube, ou seja o que se é. Mas a verdade é que, se na escolha se escolhesse, escolheria a pintura».

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Como comunicamos uns com os outros?

Estudo revela que as pessoas utilizam um ritmo à base de "descargas"
"Um estudo espanhol, que analisou nove mil milhões de chamadas durante quase um ano, é o primeiro a identificar as características do processo de comunicação e a quantificar o impacto sobre a divulgação de informações.
“Isto é muito importante em processos como a difusão de informações comerciais, mas também em situações como espalhar boatos, opiniões, políticas, etc.”, explica um dos autores da investigação, Esteban Moro, da
Universidade Carlos III de Madrid.
A principal conclusão do estudo, publicado na revista Physical Review E, é que as pessoas comunicam em rajadas. Ou seja, o nosso comportamento não ocorre uniformemente ao longo do tempo mas em ritmo de "descargas".
“Este aspecto da actividade humana, que também tem sido observado noutras actividades, tais como nos e-mails, visitas à internet ou em operações de mercado de acções, regulam a comunicação entre as pessoas”, concluem os cientistas.
O efeito das explosões é que retarda a disseminação de informações, já que os longos períodos de inactividade na comunicação entre duas pessoas são menos propensos a transferir informações de uma para a outra.
O estudo também destaca outro aspecto importante da comunicação humana: as discussões de grupo. Apesar destas acontecerem em rajadas, ocorrem ao mesmo tempo entre os membros do grupo social, o que acelera a difusão de informações dentro desses grupos.
O principal objectivo do estudo é tentar compreender o padrão temporal de comunicação entre pessoas numa rede social. “Diante da visão estática de uma rede social, o nosso estudo procura compreender quando, como e como essas relações sociais são produzidas”, diz o professor Stephen Moro. E com dois propósitos: o primeiro, ver se o ritmo da comunicação entre duas pessoas nos permite conhecer um pouco das características da relação (família, amigo, conhecido, colega, etc.); o segundo, para investigar o impacto desses ritmos na disseminação de informações em redes sociais, em processos de marketing, recomendação de produtos, etc."In Ciência Viva, 2011-09-06

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A actualidade em cartoon


Referendo grego
Ranson, Le parisien Fr.
Kroll, Le Soir


Elrich, El País



Elrich, El País
Rodrigo, Expresso


Rodrigo, Expresso


The daily cartoon, The Independent
The daily cartoon, The Independent

Ramon, El País

Elias o sem Abrigo,  de R.Reimão e Aníbal F, JN