Mostrar mensagens com a etiqueta Romance. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Romance. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Novo romance de José Saramago

A Editorial Caminho vai editar o romance “Clarabóia” de José Saramago que foi recusado pelo seu editor cinco  décadas antes de o português receber o Nobel da Literatura. « Claraboia» de José Saramago foi  escrito sob pseudónimo.O escritor acabou de escrevê-lo em 1953 e deixou-o inédito até ao fim da vida. Está em pré-lançamento e chegará às livrarias a partir de 17 de Outubro.
Sinopse
"A acção do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respectiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respectivo filho – nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respectiva mulher e uma “mulher por conta” no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respectiva filha no início da idade adulta.
O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.
O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate – debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis” – com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante? "
“Claraboia “ de José Saramago
Edição/reimpressão: 2011
Editor: Editorial Caminho
ISBN: 9789722124416
Colecção: Obras de José Saramago
Excerto
"Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pela das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.
Num movimento mais lento de rotação, deitou as pernas para fora da cama. As coxas magras e as rótulas tornadas brancas pela fricção das calças que lhe desbastavam os pelos entristeciam e desolavam profundamente Silvestre. Orgulhava-se do seu tronco, sem dúvida, mas tinha raiva das pernas, tão enfezadas que nem pareciam pertencer-lhe.
Contemplando com desalento os pés descalços assentes no tapete, Silvestre coçou a cabeça grisalha. Depois passou a mão pelo rosto, apalpou os ossos e a barba. De má vontade, levantou-se e deu alguns passos no quarto. Tinha uma figura algo quixotesca, empoleirado nas altas pernas como andas, em cuecas e camisola, a trunfa de cabelos manchados e sal-e-pimenta, o nariz grande e adunco, e aquele tronco poderoso que as pernas mal suportavam.
Procurou as calças e não deu com elas. Estendendo o pescoço para o lado da porta, gritou:
- Mariana! Eh, Mariana! Onde estão as minhas calças?
(Voz de dentro:)
- Já lá vai!
Pelo modo de andar, adivinhava-se que Mariana era gorda e que não poderia vir depressa. Silvestre teve de esperar um bom pedaço e esperou com paciência. A mulher apareceu à porta:
- Estão aqui.
Trazia as calças dobradas no braço direito, um braço mais gordo que as pernas de Silvestre. E acrescentou:
- Não sei que fazes aos botões das calças, que todas as semanas desaparecem. Estou a ver que tenho de passar a pregá-los com arame…
A voz de Mariana era tão gorda como a sua dona.»

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Conquistador

“Acreditei durante muito tempo ter vindo ao mundo de um modo diferente de toda a gente. Foi minha avó Catarina – e as avós nunca mentem – quem me meteu esta ideia na cabeça. Costumava contar-me que, num dia de inverno, de manhã cedo, apesar do nevoeiro, o faroleiro João de Castro tinha ido à praia da Adraga apanhar polvos, quando deu comigo metido num ovo enorme, com a cabeça, as pernas e os braços de fora.
Como testemunhas presenciais minha avó citava um cavaleiro maneta, mestre equestre, que para ali ia montar acompanhado pelos seus três peões de brega, recrutados entre os mais aparvalhados das aldeias. Eles e o faroleiro assistiram estremunhados ao estranhíssimo espectáculo. E os cinco disputaram entre si quem iria ficar comigo. A meio da discussão foram atacados por uma cobra-marinha que estava a guardar-me. Mas João de Castro, com a lança que lhe servia para espetar os polvos entre as rochas, cortou à cobra monstruosa a cabeçorra diabólica, assim conquistando o direito à minha posse.
Este faroleiro, de aqui em diante meu pai, vivia com a mulher, Joana Correia de Castro, no cabo da Roca, e por não terem filhos lhe interessava ficar com o enjeitado, quase normal uma vez saído da casca. E lá me levou, ora ao colo ora às costas, por atalhos e a corta-mato, até às pedregosas alturas da Roca, na esperança de não encontrar ninguém mais, para não ser obrigado a explicar quem era a criança a chorar esfomeada. Nunca na vida meu pai desmentiria a sogra, que não lhe perdoava a pobreza nem o ter-lhe roubado a única filha, três vezes mais nova que ele. E Joana, minha mãe para todos os efeitos, deve ter gostado desse filho-mistério que primeiro a assustou porque tinha seis dedos no pé direito, e logo a comoveu por vir roxo de frio, mal embrulhado numa capa impermeável.
Por muito que meus pais receassem irritar os ânimos difíceis de Catarina se pusessem em causa o seu relato, não compreendo que o não fizessem mais tarde, caso fosse outra a verdade. Sempre subscreveram a versão da minha avó, e aos poucos me acostumei a ser uma ave rara.
Na véspera do meu nascimento caíra sobre a serra de Sintra a tempestade mais tremenda de que as pessoas se lembram. A aurora chegara enrolada em nimbos baixos, tão carregados de cúmulos em forma de couve-flor de chumbo, que nunca, em muitos anos de embarcado, meu pai observara tal espessura de nuvens, tal secura de trovões confirmando o rifão: se trovão seco no céu reboa, tempo violento nos apregoa. João de Castro era um repositório destas regras rimadas, de teorias proverbiais com que explicava as estranhezas que rodearam o dia memorável: relâmpagos ao norte e vento forte, se do sul vem, chuva também.(…) Muitas vezes, hoje mesmo, os sonhos me trazem imagens da catástrofe. Sinto arrepios ao evocar as circunstâncias que precederam e que de certo modo predisseram o instante em que vi a luz do dia.(…) Esta avó Catarina viria a ser decisiva na minha vida. Desde que me disse como nasci, devo tê-la considerado uma deusa tutelar. Aos quinze anos e nove meses passei a morar em sua casa, o que nos aproximou cada vez mais. Controladora dos meus prematuros namoros, assim se indemnizava pelas libertinagens do seu Falecido. Não que o meu aspecto físico ou a minha índole introvertida me tornassem um símile desse avô semimítico que só vi em fotografias de família: olhos azul-escuros e vivaços, estatura meã, o ventre testemunhando os abusos da mesa e do álcool, têmporas cedo esbranquiçadas, orelhas agigantadas, atentas à música do mundo que ele tanto amava. (…)Em comum, só uma ambígua atracção pelo desconhecido, e o gosto pelo risco. Gosto a que minha mãe também cedeu, ao fugir de casa com um marinheiro capaz de ser seu pai. Essa traição ao amor paterno terá levado o coração do meu avô a desfazer-se lentamente, até parar por desistência. Tinha eu ano e meio quando ele morreu. Recordo apenas, vagamente, a teimosa tristeza de minha mãe, que passava dias sem falar, fechada sobre si, mais entregue ao luto que a própria Catarina, a qual, quando nos visitava, nunca vinha de preto. Assim que a avó chegava, o mundo mudava de cor. Dormíamos no mesmo quarto ela contava-me histórias, passeava comigo, punha o meu mimo em dia. Sobretudo procurava convencer-me a começar a falar. Porque os mutismos de Joana encontraram em mim um zeloso discípulo: embora desse mostras de entender o que me diziam, eu não pronunciava nem um som, quanto mais uma palavra.(…)
A minha história preferida, e que não me cansava de ouvir , era a daquele Rei com quem me orgulhava de partilhar o nome e que nasceu quatro séculos certos, dia por dia, antes de mim. Hoje concordo que nomen est omen. E Catarina achava que, por S. Sebastião ter sido mártir da Cristandade, o rei meu homónimo se sentiu provavelmente obrigado a lançar-se numa absurda batalha contra os árabes, em pleno deserto, no mês de Agosto, sob um sol de quarenta graus. Com arrepiantes requintes, Catarina descrevia o massacre sofrido pelo luso exército, que incluía milhares de mercenários vindos de vários países. Vendo-me mortificado por terrível sina, a avó dava-me alento dizendo que um dia o Rei voltaria, numa madrugada, no meio da neblina.
Desde aí gosto de acordar em manhãs de nevoeiro. Sinto-me protegido da nitidez excessiva das formas e dos ruídos, que me chegam abafados como debaixo de um lençol. Assaltado pelo supersticioso receio de não viver mais que D. Sebastião, e mergulhado em súbita melancolia perante a precariedade da vida, refugiei-me há um mês , durante o Natal do ano passado, na ermida da Peninha. Os primeiros solitários escolheram este sítio oito séculos atrás. Percebo que o fizessem. Diz-se que o fundador do eremitério aguentou, metido numa gruta, isolado no alto da Serra, entre a aspereza dos penedos, trinta e cinco anos seguidos. Não pretendo atingir tal meta. Só quero repensar, até ao ameaçador mês de Agosto, o que fiz e não fiz de mim.
Destes cumes contemplo os lugares da minha meninice, a Foz do Falcão perdida na névoa, manchas brancas de casas, um telhado caiado lá para os lados das Azenhas do Mar. Em dias claros vê-se a Pedra de Alvidrar saindo do mar em que me perco a olhar. Comecei a reconstruir uma antiga pousada de peregrinos, para nela atravessar a invernia. O trabalho manual fatiga-me e faz esquecer outros mais agradáveis, em que porém suei também, aperfeiçoando as minhas artes. De nada mais preciso neste vinte de Janeiro de mil novecentos e setenta e oito, dia do meu vigésimo quarto aniversário.”
Almeida Faria, in “ O Conquistador”, Ed. Círculo dos Leitores, Setembro de 1994

Almeida Faria nasceu em Montemor-o-Novo (Alentejo), a 6 de Maio de 1943. É licenciado em Filosofia, e professor de Estética na Universidade Nova de Lisboa. Viveu como escritor residente (1968-69) nos Estados Unidos (International Writing Program, Iowa City) e em Berlim, onde fez parte do Berliner Künstlerprogram no qual participaram, entre outros, Gombrowicz, Michel Butor, Peter Handke e Mario Vargas Llosa.
Almeida Faria tem uma vasta obra publicada e premiada. Obteve ,em 1962 , o Prémio Revelação de Romance da Sociedade Portuguesa de Escritores com o livro “Rumor Branco” era ainda um jovem escritor.Seguiu-se a tetralogia lusitana composta por “ Paixão” (1965), “Cortes”(1978) que foi Prémio Aquilino Ribeiro da Academia das Ciências de Lisboa, “Lusitânia” (1980) Prémio Dom Dinis da Fundação da Casa de Mateus, e "Cavaleiro Andante" (1983) Prémio Originais de Ficção da Associação Portuguesa de Escritores.
O romance “O Conquistador”(1990) é uma fábula sobre a condição humana cujo título provoca interpretações diversas e intencionalmente convergentes. O conquistador é o rei D. Sebastião da História de Portugal, reinventado na personagem omnipresente da narrativa ficcional. O logro que magistralmente se desenvolve através de uma ambivalente situação, “Conquistador/Sedutor”, faz desta narrativa um desafio constante ao leitor. Marcado pela referência histórica, o romance é o resgate de um tempo anterior para a descoberta do tempo actual através de uma interacção efectiva. É uma obra excelentemente provocatória , elaborada com fina ironia e humor requintado que merece ser revisitada.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A finitude da vida


Inicia-se , hoje, o V Congresso Nacional do Idoso - Geriatria 2011 que  irá decorrer até  16 de Junho de 2011, no Centro de Congressos de Lisboa.
Entre as razões que são enumeradas para a sua realização estão as seguintes:" Apesar do declínio fisiológico determinado pela idade ser inevitável, e o processo de envelhecimento imutável, os profissionais de saúde podem e devem minorar a expressão da doença no Idoso, através da prevenção, do aconselhamento e do tratamento adequados. E, tendo em conta o aumento da esperança média de vida verificado nos últimos 30 anos, torna-se indispensável adequar a formação médica e os padrões sociais a esta nova realidade."
Numa reportagem emitida por um canal televisivo sobre gente que sobrevive, apareceu o registo de uma idosa , modista reformada, vivendo numa casa, quase em ruínas, na nossa bela capital, Lisboa, e tendo como rendimento uma pensão de miséria. Apesar de tanta adversidade, a idosa , movendo-se já com  dificuldade, residia sozinha, enfrentando os desafios diários naquele que era o seu lar , considerando que a vida era apenas uma passagem. A firmeza que a sustinha vinha-lhe, certamente, da tal  força interior que se cultiva ao longo da vida e que se afirma  também com o lugar de pertença, o chão da casa, o tecto das próprias raízes, nem que ele esteja a cair. 
Criar condições para que se dignifique uma existência, passa pelo auxílio na manutenção/recuperação das casas degradadas daqueles que nada têm para o fazer.Arrancá-los , no ocaso da vida, do  lugar de pertença, retirando-os das suas próprias casas , será condená-los a perder a própria identidade. A finitude da vida merece um olhar diferente daquele que, nestes dias de ira, leva a condenar os mais velhos a um ostracismo indesejado e a colocá-los, geralmente à revelia, em Lares da dita 3ª idade, impondo-lhes um  espólio de toda uma vida .  
Todas as políticas relativas a este grupo etário devem partir do respeito pela individualidade de cada um. Zelar pelos idosos é propiciar que  possam  preservar,  com dignidade, uma identidade subjacente a um percurso existencial que tem referenciais próprios que não podem ser apagados.
Pela sua  actualidade, transcreve-se um pequeno excerto de um romance que desenvolve esta temática:
 “(…)Quando acordara naquele dia não enxergara de imediato onde estava. A sua vida nos últimos anos obrigara-a a mudar constantemente de lugar, pelo que invariavelmente quando acordava tinha dificuldade em reconhecer o quarto.
Assim, quando respirou fundo e abriu bem os olhos e os sentidos todos começaram a funcionar, pareceu-lhe ouvir a seu lado um ruído descompassado, pesado e quase ofegante. Sentou-se na cama e viu-se num quarto sombrio, com uma claridade tenuemente difusa que se espalhava, mostrando-lhe mais duas camas onde jaziam também dois vultos que não foi capaz de identificar.
Então, recordou repentinamente a noite anterior. Tinham-na levado para o Lugar. Ali estava ela no meio de estranhos, não imaginando sequer quem eram eles, mas compartilhando já o quarto.
Apesar de tudo em qualquer das casas por onde andara, até na que deixara de lhe pertencer, tinha tido sempre um quarto só para ela. Os filhos tinham preservado essa sua necessidade mínima de independência. E era lá que se renovava e se refortalecia para os combates que foram sucessivamente travados num plano de  aparente desigualdade. Ela fora sempre vencedora, pois estava íntegra. Nunca fora tão forte a sua energia interior. Conseguira resistir aos desmandos dos filhos e aceitara de face lavada a entrada no Lugar.
E assim começava o primeiro dia da mudança mais radical e inesperada da sua vida. Sozinha no meio de tanta gente.
Como a história da vida, por vezes, trai. Tenta-se construí-la de uma maneira e ela desenrola-se de outra. Quando os filhos eram crianças, tinha sonhado criá-los a todos em casa, confrontando firmemente Mário Alberto que, de acordo com a época, teimava em interná-los em colégios para usufruírem de uma rígida educação. Sempre considerou que o ambiente familiar era o melhor suporte para um crescimento saudável, regulador de qualquer educação.
Todos estudaram em bons colégios particulares, mas em regime de externato. Assustava-a a ideia de os ver isolados entre estranhos, repartindo o quarto na noite grande e dominadora. Só a filha mais velha fora internada na fase da adolescência, aos catorze anos, quando completou o antigo 5º Ano do Ensino Liceal para seguir um curso de línguas estrangeiras, num colégio afamado que ficava distante.
Tornou-se uma jovem rebelde e fez um casamento desastroso com o tal inglês desvairado que a deixou sem meios e com três filhos. Foi progressivamente convertendo-se numa mulher amargurada e azeda. Atribuiu sempre ao internamento e, por tal, à consequente separação do ambiente familiar este evoluir da sua personalidade.
Afinal a história escrevia-se agora contra ela. Eram os filhos que  a tinham internado. E a noite grande e dominadora tinha sido passada num quarto partilhado a três.
Levantou-se e, lá ao fundo, descobriu uma porta. Era a casa de banho. Era grande, interior, mas bem iluminada por uma profusa luz artificial. Estava limpa e dispunha de uma grande banheira e de uma zona separada para o duche. Abriu as torneiras e a água começou a jorrar aquecida e transparente.
-“Que alívio”. Poderia tomar um bom banho e depois começar a reconhecer o Lugar.
Acabado o banho, retornou para o quarto e os vultos continuavam inertes nas camas impossibilitando o seu reconhecimento. As respirações prosseguiam ofegantes com intervalos irregulares, ora roncando sinistramente, ora sibilando titubeantemente. Seriam estas as suas companheiras dos tempos vindouros?
Tinha de sair rapidamente do quarto e libertar-se deste ambiente desolador. As forças necessitavam de ser retemperadas num processo preventivo de defesa.
- Será que poderei sobreviver neste Lugar? - pensou pela primeira vez em surdina e até com medo de se ouvir. “ 
Maria José Vieira de Sousa, in "O Lugar, memórias de um romance”, Junho de  2008                             

sábado, 23 de abril de 2011

O universo do Livro

Cartaz de João Vaz de Carvalho sobre  Dia Mundial do Livro 2011

"Le livre ne se donne pas si on le parcourt. Le grand lecteur est celui qui sait «s’abandonner totalement à lui,esprit comme corps, esprit plongeant dans les pages comme la tête ». Charles Dantzig

Gabriel García Márquez afirmou que " A literatura é tão importante para conservar, como para inovar , como para criar." Autor de livros fabulosos, mestre do imaginário fantástico traduzido de forma sublime numa prosa mais poética que alguma da melhor poesia, este grande homem das letras  terá sempre o seu nome associado a qualquer acto que tenha como objecto o livro. O exercício do encanto que pratica magistralmente nos seus romances sobre a condição humana transforma o leitor num amante incondicional. O talento deste escritor mede-se pela fruição vertiginosa que a leitura das suas obras provoca. Romances  como " Amor em Tempo de Cólera ", composto de 400 páginas mágicas sobre a intemporalidade do amor, estruturadas circularmente através da recuperação de uma memória imaculada sem qualquer infíma  mancha  de esquecimento ou como a outra extraordinária  obra-prima  " Cem Anos de Solidão", romance eterno e registo perfeito de um realismo sublimado, são lidas em puro estado de deslumbramento . Garcia Márquez não é apenas um símbolo da referenciada como  nova era do  romance latino americano é  primordialmente o ícone da excelência do romance .
Milan Kundera, outro grande escritor,  em " Arte do Romance" enuncia a importância de quatro séculos de romance europeu para a compreensão dos tempos Modernos e de todos os grandes temas existenciais. Para ele o fundador dos tempos Modernos não é apenas Descartes mas também Cervantes ou seja: " Um por um, o romance descobriu à sua própria maneira , pela sua própria lógica, os diferentes aspectos da existência : com os contemporâneos  de Cervantes  interroga-se sobre o que é a aventura ; com Samuel Richardson, começa a examinar " o que se passa no interior ", a desnudar a vida secreta dos sentimentos ; com Balzac descobre o enraizamento do homem na História; com  Flaubert explora a terra até então incógnita do quotidiano; com Tolstoi debruça-se sobre a intervenção do irracional nas decisões e no comportamento humanos. Sonda o tempo ;  o fugidio momento passado com Marcel Proust; o fugidio momento presente com James Joyce. Interroga-se , com Thomas Mann, o papel dos mitos que , vindos do fundo dos tempos, teleguiam os nossos passos. Et caetera, et caetera.
O romance acompanha o homem constante e fielmente desde o começo dos Tempos modernos. A "paixão de conhecer" ( aquela que Husserl considera a essência da espiritualidade europeia) apoderou-se então  dele para que prescrute a vida concreta do homem e a proteja contra " o esquecimento do ser "; para que mantenha " o mundo da vida " sob uma iluminação perpétua. É nesse sentido que compreendo e partilho  a obstinação com que Hermann Broch repetia : Descobrir aquilo que só um romance pode descobrir , é a única razão de ser de um romance . O romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência , é imoral. O conhecimento é a única moral do romance."
Os livros e aquilo que encerram enriquecem  as mentes e recriam o mundo. O romance não examina a realidade, mas sim a existência.O romancista não é um  historiador  nem um profeta: é um explorador da existência.
Ler e mergulhar nos livros intensamente é  um momento decisivo porque é um acto de abandono , uma acto de entrega e de isolamento quase um acto de pura solidão de leitor com o texto que vai descobrir. E nessa entrega constrói-se uma relação que tão depressa é densa como suave, de paixão como  de ódio, de sonho como de pesadelo, de paz como de violentação,  de amor como de raiva, de combate como de entrega , enfim é uma relação dialógica do intérprete com o seu texto.
E é assim a glória da leitura e o milagre do livro. Prestemos-lhe homenagem neste dia mundial do Livro.