Nos rastros da Utopia
Prólogo
por Manoel de Andrade
"Faltou muito pouco para que este livro não fosse escrito. Os primeiros capítulos dessas memórias,
iniciadas em Santiago, no verão de 1972, foram abandonados por trinta anos, na solidão de uma gaveta.
Em abril de 2002, quando iniciei os procedimentos para enviar ao Ministério da Justiça meu processo de
anistia, resumi em 70 páginas a história de minha peregrinação pela América Latina, a fim de passar aos
seus futuros relatores fatos que pudessem informá-los sobre as razões do pedido. Acabei não enviando o
texto, por acreditar que não estavam ali, e sim nos documentos públicos anexados, as peças essenciais
para legitimar o processo. Novamente engavetei minha breve história em face da luta pela sobrevivência
familiar, que não deixava tempo nem motivação para reavivar meu velho sonho de escrevê-la. O projeto
estava completamente esquecido, como esquecida esteve também, por trinta anos, a minha condição de
poeta quando, na primavera de 2002, a inspiração bateu, súbita e magicamente em minha porta, e cinco
anos depois seus frutos resultaram na publicação do livro Cantares. Finalmente, em 2009, meu primeiro
livro, Poemas para la libertad, lançado em La Paz em 1970 e com outras sete edições no exterior, era
publicado, numa edição bilíngue, no Brasil. Foi essa inesperada volta à Literatura e a persistente sugestão
de parentes e amigos, que me fizeram voltar a escrever os fatos aqui relatados.
A América Latina que conheci há quarenta anos vivia de joelhos, marcada por brutais
desigualdades, regida por forças reacionárias, pela violência das instituições e um profundo abismo entre
uma riqueza orgulhosa e a pobreza humilhada. A exploração desumana do trabalho no campo, as massas
indígenas deserdadas e famintas, o êxodo rural, a exclusão urbana e a face inconsolável da miséria eram
os seus traços vivos e chocantes, marcados pela sobrevivência do feudalismo e pela persistência dos
privilégios colonialistas, que a Independência não modificou. Atravessei toda a região quando seu
território era, literalmente, o “quintal” dos Estados Unidos e os interesses imperialistas dominavam os
grandes “negócios” do continente. Era um tempo em que a direção dos nossos passos era determinada em
Washington, e seu ritmo pelo poder político das burguesias urbanas e das oligarquias agrárias. Na década
de 70 --- indelevelmente marcada pela Guerra Fria --- as esquerdas, em todo o continente,
mobilizavam-se para reverter todo esse processo de pilhagem, dependência e marginalidade, preocupadas
com a teoria e a prática revolucionárias, visando a conquista de soberania, justiça social e liberdade. Em
torno dessa tese se discutia a natureza da revolução, dividida entre nossa excepcionalidade indo
americana e a visão eurocêntrica do socialismo. Este anseio de liberdade foi um momento fascinante da
história latino-americana e aqueles que puderam vivenciá-lo, quer como observador ou como um
militante, jamais puderam apagar da alma as luzes das utopias que iluminaram aquele tempo. Fui um
desses observadores e o que proponho, nestas páginas, é fazer um inventário não só daquela época,
marcada por tanta diversidade e que prodigalizou as mais justas promessas, mas também uma revisão
histórica dos conflitos sociais que marcaram os quinhentos anos das lutas libertárias do continente. Os
rastros mais antigos e heroicos desses embates foram deixados pelos araucanos no Chile e pelas
revoluções indígenas da Bolívia e do Peru. Seus exemplos de bravura e de martírio vivem até hoje nas
imagens imperecíveis de Lautaro, Caupolicán, Túpac Katari e Túpac Amaru. Suas mensagens abriram, na
década de 70, não apenas novas trincheiras através de todo o continente -- onde tantas vanguardas revolucionárias honraram seus Movimentos com o nome desses heróis -- mas também iluminaram
poetas e prosadores, cujas obras se engajaram nessa saga libertária.
A década de 1970 foi uma época de contrastes. De luzes que ofuscaram o mundo e de sombras que
abateram os povos. De ideais que incendiaram corações e de corações incendiados pelo ódio. Se é
verdade que naqueles anos semeou-se tantos sonhos, também colheu-se profundas desilusões, cujas
cicatrizes continuam abertas em quase todos os países da América. Compromisso, resistência e
clandestinidade fizeram o contraponto com a repressão, o exílio e a morte.
Este não é um livro político e aqui não se discute as grandes teses que polarizaram o ideário
daquela época. Ainda assim, hoje perguntamos: De que valeram o rigor das posições dogmáticas e tantos
debates teóricos, ante o despojamento e o sacrifício daqueles que entregaram a vida por um sonho?
Entre brisas e ventanias, muitos visionários, com seus ideais ou com seu sangue, construíram o
barco da esperança para cruzar aquele mar tempestuoso em que se transformara o continente.
Navegávamos sob um céu sombrio e sem a certeza de uma “terra prometida” onde pudéssemos aportar
nosso destino. Por toda parte deparávamos com tensões sociais, com a imagem combativa das vanguardas
guerrilheiras e estudantis e indignados ante um cotidiano de prepotência, espoliação e miséria. Em meus
passos pelo continente, muitas vezes misturei minhas lágrimas com as lágrimas dos ofendidos,
humilhados e excluídos. Compaixão e revolta foram os sentimentos que escreveram os versos daqueles
poetas que comprometeram seu canto para denunciar as iniquidades e a opressão daqueles anos.
Com este livro entrego o testemunho de um longo caminhar. Ao deixar o Brasil em março de 1969,
meus passos cruzaram 16 países num prolongado auto-exílio pelo continente. A América Latina foi minha
verdadeira universidade e nestas páginas palpita o espírito curioso de quem buscou saciar sua sede na
leitura apaixonada da História, da Literatura e da Arte de tantos povos. Palpita o significado de
experiências humanas vividas no convívio caloroso das grandes amizades, na tribuna combativa da poesia
e nos amargos momentos da solidão dos cárceres. Palpita ainda um coração angustiado com os passos
sem rumo, o olhar vazio e os gestos suplicantes dos filhos do calvário. Este livro é, sobretudo, o relato de
um poeta itinerante, de um bardo errante, profundamente identificado com seu tempo e com sua condição
de latino-americano. Um confidente solitário, comprometido com o resgate de uma América povoada de
utopias e com a saga lendária daqueles que ousaram sonhar com um “admirável mundo novo”.
Quando mergulhamos no nosso passado e no passado da História, é estimulante compreender que
tudo começou muito antes dos nossos passos e que novos caminhos serão abertos pelos sonhadores do
porvir. Para aqueles que não viveram no fascínio daqueles anos, que nasceram depois da tempestade, este
livro traz uma consigna, uma mensagem, poeticamente resumidas na coragem de optar e no assombro de
viver. Esse é o vinho mais capitoso, que nos embriaga e nos comove. “O sábio --- observou Gide --- é
quem com tudo se espanta”, e eis porque parte do que sei e do que sou, segue guardado nas emoções
que
geraram estas lembranças.
Meu registro é tão somente uma mínima parte da memória esquecida dos anos 60-70 e que ainda
está por ser escrita. Seus protagonistas foram aqueles que, entre as flores e os espinhos, construíram um
ninho, um berçário de ideias e promessas que nem todos os sobreviventes que ascenderam ao poder
souberam honrar nos atos e nos fatos. Nestes embates, a poesia rebelde ocupa uma honrosa galeria de
mártires, lembrando dezenas de poetas que empenharam suas vidas e o encanto de suas metáforas para
cantar a mística revolucionária pela lírica dimensão da poesia. Eis porque estas memórias contam também
a aventura de um livro chamado Poemas para la libertad. Um livro que nasceu nas edições panfletárias
de estudantes peruanos e cujos versos foram publicados em jornais, revistas, opúsculos, cartazes e em
milhares de panfletos por todo o continente. Seus poemas foram ouvidos em universidades, teatros, galerias de arte, festivais de cultura, congresso de poetas, sindicatos, reuniões públicas, privadas e
clandestinas e até no interior das minas de estanho da Bolívia. Suas edições se esgotavam rapidamente e
seus exemplares percorreram a América Latina e o sudoeste dos Estados Unidos levados pelos
mochileiros latino-americanos e pelos estudantes e intelectuais chicanos. Um livro proibido, confiscado e
tendo que cruzar certa fronteira na bagagem de contrabandistas. Seus versos são filhos do sonho de
liberdade que percorria o mundo. Alguns foram escritos no Brasil e nasceram silenciados pelo medo e
pela impotência, numa pátria esmagada pela opressão. Outros foram se desfraldando ao longo de novas fronteiras, registrando os passos de uma imensa luta que incendiou a América há quarenta anos.
Enfim, estas páginas saem em busca de um passado nem sempre venturoso, e por isso sucedem-se,
para contar, sobretudo, a história dos vencidos. Vivemos num tempo em que todos os sonhos foram
despedaçados e se escrevo estas memórias, é para que se possa ouvir o eco dos hinos que ficaram tão
distantes. Meu livro é, acima de tudo, a longa crônica de um poeta que sonhou com o impossível, e
cruzou tantas fronteiras acreditando que pudesse mudar o mundo com seus versos. Passados quarenta
anos, há entre o que fui e o que sou uma profunda fidelidade. Intactos estão a disposição de indignar-me
com as injustiças, um coração solidário e um sentimento imperecível de gratidão..., aos amigos que
ficaram, ao Bom Deus, que amparou meus passos, e à vida, por permitir que eu chegasse até aqui! Eis
porque, caro leitor, convido-o a viajar comigo por caminhos e por um tempo fascinante, em que o sonho e
a esperança comandavam os rumos da História. Ventura e desventura, encanto e desencanto são os
sabores com que estão temperados os fatos que
passarei a relatar."
Manoel de Andrade, in Nos rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina, nos anos 70, Escrituras Editora e Distribuidora d Livros, São Paulo , Brasil, 2014, pp 25-29

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