sábado, 19 de agosto de 2023

Segredos para usar

 
O segredo há de estar
em coisas muito vulgares,
em palavras com vagar,
sem desejo de negares,
 
em mistérios muito claros,
em claridades que escondem
recônditos muito raros
e amores que respondem.
 
As leis da felicidade
são leis sem complicação:
simplificar a verdade
que vive no coração.
 
Gostar de homens e bichos,
que em tudo são iguais;
descobrir os certos nichos,
nos lugares mais banais!
                19.08.2023
Eugénio Lisboa

Viajar com Ulisses

       
                        "Ulisses Enganando Polifemo”, de William Turner
Viajar com Ulisses
(A propósito de Camões)
por Eugénio Lisboa


"Um verso célebre do poeta francês do século XVI, Joachim du Bellay, reza assim, na densidade austera da sua infinita riqueza:  “Feliz quem, como Ulisses, fez uma boa viagem”.  Na verdade profunda que contém, o verso esconde um facto notório e algo perturbante: é que a famosa odisseia de Ulisses esteve emperrada nove alongados anos, com o herói encalhado nos braços sedutores de Calypso.  E, quando deles se libertou, foi menos para se dar de novo aos prazeres da viagem do que para regressar, obediente e provavelmente cansado, a Ítaca e se abandonar à rotina da vida doméstica (com, pelo meio, também é verdade, um derradeiro urrah! de vigoroso guerreiro votado à chacina dos atrevidos pretendentes de Penélope).  Esqueçamos, no entanto, como dizia a inesquecível Suze, de António Patrício, estes “pormenores” e erijamos, sem escrúpulos de maior, Ulisses como símbolo da viagem.  Fazer como Ulisses uma boa viagem!  Quem não passou por sonhar isto, sobretudo os da minha geração – que pouco ou nada viajava, antes de uma certa idade – e os que, como eu, adolescentes, viviam confinados num Moçambique, remoto e
esquecido, ainda que vivificado pelo sol e pelo Índico, omnipresentes, obsessivos e fecundos.
  Vivendo literalmente dentro do Índico, em que nos banhávamos diariamente, como quem carrega baterias, sentíamo-nos sensual e misticamente ligados aos mundos a que o mar – aquele mar – conduzia.  “A voz do mar”, dizia a grande romancista norteamericana, Kate Chopin, “fala-nos à alma.  O toque do mar é sensual, envolvendo-nos o corpo no seu abraço apertado e macio”. O mar, “cúmplice do desassossego humano”, como dizia Conrad, que nele viveu e sobre ele magistralmente escreveu, simultaneamente nos aplacava, nos seduzia e nos inquietava.  Vivíamos nele e com ele, mas seria despropositado dizer que falávamos com ele de igual para igual.  O mar acariciava-nos e fazia-nos ilimitadas promessas mas, por outro lado, sentíamos que nos ameaçava com a sua irresponsável enormidade.  Os poetas sabem destas coisas, quero eu dizer que sabem vê-las e sabem dizê-las para que nós delas tenhamos, depois, mais clara consciência.  Carl Sandburg, poeta audacioso dessa América desmedida e um pouco brutal, observava que “o mar fala uma língua que as pessoas educadas nunca repetem.  É um colossal calão de abutre e não respeita coisa nenhuma.”  Era nesse intemperado e temível calão, forte e selvaticamente poético, que o Índico, nos anos quarenta, nos fazia ameaças, mas nos aliciava também com inesgotáveis promessas.  A alguns de nós ele prometia, sobretudo, uma viagem.  Nesse tempo, não havia ainda Universidade naquelas margens do Índico em que se falava português.  Estudar implicava mudar, isto é, viajar.  Viajar, isto é, ir descobrir – ir ver, claramente vistos, outros horizontes, outros sóis, outras gentes.  Ir fazer, em sentido inverso, grande parte da viagem que fizera Vasco da Gama em 1498 e Camões cantara nos Lusíadas em que os nossos quinze anos se tinham, quase deslumbradamente, iniciado  O “largo mar”, “o longo mar”, “o duvidoso mar” e, também, hélas!, “o irado mar”, entre Lourenço Marques e o Cabo das Tormentas, e, depois, o resto, mais calmo, até Lisboa, ia ser nosso durante um mês de viagem.  Nele iríamos saudável e, por vezes, penosamente, aprender e desaprender.  Deixar lastro velho e ardido (preconceitos, crenças, falsos conhecimentos) e adquirir, ao sopro fresco do observado em primeira mão, conhecimentos novos.  Enquanto líamos sobre a Europa nos romances que apaixonadamente devorávamos (O Lírio Vermelho oferecia-nos Florença, Os Thibault abriam-nos as portas de Paris, do mesmo modo que Lawrence nos ofertava a Inglaterra e o México, ou Panait Istrati os cardos do Baragan romeno, ou, ainda, Eça de Queirós nos iniciava em Lisboa e nos seduzia com Sintra), enquanto líamos, sonhávamos com a longa viagem que nos levaria da Ítaca lourenço-marquina à Europa onde lançaríamos o nosso cerco de que resultaria a conquista final e inevitável!  Seria, como ensinava Gide, uma longa viagem de desinstrução que nos garantiria, subsequentemente, uma nova (mas também provisória) instrução.  Toda a viagem – e a do Gama, nos Lusíadas e na realidade, não foi excepção – é simbolicamente, uma busca da verdade ou de uma verdade melhor, ou da sabedoria ou de uma sabedoria melhor, ou da paz, ou de um bom comércio ou da imortalidade ou de uma maior simplicidade ou simplificação das nossas vidas (Gide notava que ia muitas vezes viajar apenas para fugir ao peso dos seus bens).  O viajar bom e produtivo é sempre um fugir à rotina, ao que já se sabe muito bem, ao onde se está demasiado bem.  Viajar deve ser um abandono do que já nos não excita, uma desinstrução necessária a bem de uma nova instrução que nos recria e nos faz viver de novo.  Nesse livro de um lirismo arrebatador, que perturbou e agitou jovens de todas as latitudes e longitudes do Globo terrestre, no final do século passado e sobretudo no primeiro quartel do nosso século – refiro-me a Les Nourritures Terrestres – André Gide proclamava com provocante despudor: “Enquanto outros publicam ou trabalham, eu passei três anos de viagem a esquecer, pelo contrário, tudo o que tinha aprendido de cabeça.  Essa desinstrução foi lenta e difícil; foi-me mais útil do que todas as instruções impostas pelos homens e foi, verdadeiramente, o começo de uma educação”.  Mais adiante, dirigindo-se a um discípulo imaginário, exorta-o nestes termos:  “Nataniel, eu quero aprender o fervor.  [...] não te demores ao pé daquilo que se parece contigo; não permaneças nunca, Nataniel.  Desde que um ambiente se começou a parecer contigo ou tu com ele, deixou de ser, para ti, proveitoso.  É preciso deixá-lo.  Nada é mais perigoso para ti do que a tua família, do que o teu quarto, do que o teu passado.”  Era este mesmo André Gide que afirmava ter escolhido como seu herói favorito não Ulisses – por causa de Ítaca que definitivamente o roubou à viagem – mas, sim, Sindbad, o marinheiro, de uma das histórias de Scheerazade, n’As Mil e Uma Noites; porque, conforme explicava Klaus Mann, na célebre biografia que consagrou ao autor das Nourritures, “Sindbad não tem Ítaca à sua espera, nem esposa, nem filho, nem cão.  Nem existem nele sentimentos capazes de extinguir-lhe o fervor.”
Sindbad era, em suma, a disponibilidade absoluta para a viagem, a aventura – a aprendizagem.  Como a marinhagem de Vasco da Gama, que se fez ao mar disponível para aprender do que seus olhos vissem “claramente visto”, em flagrante desrespeito da cultura oficiosa que Aristóteles por tantos séculos legara, assim nós, ainda que a medo, largávamos em Lourenço Marques e caminhando em sentido inverso, casa, quarto, família, passado e cão – ao encontro de conhecimentos novos que pudéssemos ver claramente vistos.  Equipados unicamente de abertura de espírito, audácia e olhos, os marinheiros do Gama exercitavam-se, com orgulho quase triunfalista e não pouca euforia, a ver os fenómenos que a natureza generosamente lhes propiciava:
 
Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto
Ver as nuvens do mar, com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.
 
Neste orgulho de confiar no que os olhos viam – o Renascimento começava a estar em vigor – Camões põe na boca do Gama, em pouquíssimas estrofes, nada menos que oito vezes o verbo ver.  Ver, acreditar no que se via e não no que diziam as escrituras (fossem elas religiosas, filosóficas ou científicas) tornava-se, por fim, postura normal do cientista ou do estudioso tout-court.  Ver, antes de sentenciar.  Por isso observou Bertrand Russell, alguns séculos depois e com não pouco humor, que Aristóteles teria podido evitar a afirmação de que as mulheres têm menos dentes do que o homem, pelo expediente fácil de pedir à Senhora Aristóteles que abrisse a boca.  O Gama e os seus marinheiros não pediam exactamente à natureza que lhes abrisse a boca, mas solicitavam-lhe, isso sim, que se abrisse, com os seus infinitos segredos, à perscrutação que sobre ela, gostosa e assombradamente, iam exercitando.  Fazer confiança na observação é um tópico que Camões canta com vigor e algum panache: na boca do Gama, põe estas palavras que quase intersectam um justificado orgulho ou até arrogância:
 
Eu o vi certamente (e não presumo
Que a vista me enganava) levantar-se
No ar um vaporzinho e sotil fumo
E, do vento trazido, rodear-se;
De aqui levado um cano ao polo sumo
Se via, tam delgado, que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia;
Da matéria das nuvens parecia.
 
...”E não presumo que a vista me enganava”.  Eis o emblema triunfal de um novo homem: o homem do saber de experiências feito, o homem que confia no que a natureza lhe diz e não no que lhe sopram as escrituras e... os inquisidores.  Há no canto de Camões um petulante e matinal desafio às chamadas “autoridades”:
 
Vejam agora os sábios na escritura
Que segredos são estes da Natura!
 
Se os antigos filósofos, que andaram
Tantas terras por ver segredos delas,
As maravilhas que eu passei passaram,
A tam diversos ventos dando as velas,
Que grandes escrituras que deixaram!
Que influição de signos e de estrelas,
Que estranhezas, que grandes qualidades!
E tudo sem mentir, puras verdades.
 
 
Nos Lusíadas, Camões canta a história de Portugal, por intermédio de Vasco da Gama que a conta ao Rei de Melinde, mas canta, sobretudo – e com que energia, claridade, alegria e abençoada arrogância – o nascimento de um homem novo e de um mundo novo – a exigirem cuidados de manipulação carinhosa e de cautelosa gestão de que o honrado velho do Restelo duvidara já que fôssemos totalmente capazes.  O velho do Restelo e, com o decorrer do tempo, certamente, o próprio Camões.  Um império se fundou que, melhor ou pior, foi durando.  Mas a decadência instala-se cedo.  Sobrecarregadas de produtos, de ganância e do frenesi de enriquecer depressa e mal, mal mantidas e superficialmente reparadas, as naus da História Trágico-Marítima indicam que o fim do Império começara cedo – a dar razão ao “honrado velho” – e se foi arrastando por quase quatro séculos: morrer, sim, mas devagar, emblematizara D. Sebastião que, pelos vistos, era louco mas não era parvo...  No “Camões na Ilha de Moçambique”, escrito em 20 de Julho de 1972, de visita à “Isle Joyeuse”, Jorge de Sena pinta já, na altura do interrompido regresso à pátria do poeta d’Os Lusíadas, o início da decadência, a mesquinha pelintrice de um império mal gerido e mal “fichu”, em que os vadios e pedintes comem d’amigos ou das migalhas parcas que o Rei vai, apesar de tudo, deixando cair...:
 
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas,
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriam. (...)
 
Embora com a pátria morrendo, o poeta, em 1580, a sua obra foi ficando e inspirando outros poetas, do mesmo passo que o império, com mais ou menos sobressaltos de vida artificial, se foi finando: as suas duas finais e minúsculas parcelas em breve se irão para novas vidas e novos destinos.  Mas os impérios são uma coisa e quem os canta outra muito diferente.  Camões tem ficado, no mundo de fala portuguesa, como referência capital.  Tenho encontrado, por todo o mundo, em África, no Brasil, na América, gente não portuguesa que recita, de cor e com paixão, estrofes dos Lusíadas, sonetos, canções, odes do grande poeta português.  No fundo, todo o grande poeta de língua portuguesa sofre, saudavelmente, da angústica de não ser Camões: uns tentam igualá-lo ou superá-lo, do mesmo passo que ensaiam diminui-lo, com qualificativos redutores;  outros julgam tê-lo, de facto, igualado ou superado: a paranóia é a virtude cartesianamente mais bem distribuída – mais ainda do que o bom senso, de que é saborosa antípoda... Fernando Pessoa, por exemplo, imaginou-se supra-Camões, sugerindo, contraditoriamente, não ser isso grande feito, porque o “italianizado” autor de “Alma Minha” pouco mais lhe merecia do que desprezo;  Jorge de Sena ter-se-á mesmo perguntado se tal projecto –supra-camonear-se – seria sequer digno da sua (de Sena) magnitude; Régio, que admirava sem reservas o bardo renascentista seguiu-lhe, simplesmente, e sem bravata, o estro e a toada, nas oitavas escaldantes da “Sarça Ardente”:
 
Assim, mãe, mãe de enigmas e de assombros,
Natureza!, me achei a ti alçado;
Assim, por entre os cúmulos e escombros
Dos teus cenários, me perdi, jogado;
E assim, mãe, me surgiste, o azul aos ombros,
Ofertando e premindo o seio inchado
De aragens, néctares, hálitos, eflúvios,
Himalaias, Atlânticos, Vesúvios...
 
Rui Knopfli, moçambicano da Terra da Boa Gente, menos atrevido, mais modesto, abertamente fascinado pelo bardo de Sôbolos Rios, limitou-se a querer prolongá-lo para além da glória até ao momento exacto do fim, num Roteiro melancólico da Ilha de Moçambique, que nos entregou como quem se despede do Império e da sua intoxicante vastidão (que criticou mas amou) e da vida, de que nunca gostou por aí além:
 
Uma humidade escura [diz, referindo-se à Ilha] e pegajosa, alastrará
                                                                                             de novo
sobre o teu dorso de brancos e amarelos, desenhando
nele estranhos, esquálidos arquipélagos fantásticos.
A gangrena e a lepra do tempo minarão
 
encarniçadamente o teu arcaboiço atarracado,
modelando-te à imagem e semelhança do bizarro
solo osteoporoso em que – memória cristalizada –
repousas entorpecida de mar e ausência,
 
esmerilado e exacto monumento à vã cobiça
aos erros graves e à grandeza desmedida que os gerou.
Sob a metálica indiferença de um céu anil,
 
porto de olvido na rota perdida das Índias,
volverás assim um ressentimento da areia,
soluço de pedra ao sabor da monção.
 
Assim cantam os grandes poetas o nascimento, crescimento, decadência e morte dos impérios: morrem as estruturas materiais mas salva-se o canto.  De resto, dizia já o velho Mestre de Santiago, da grande peça de Montherlant, que “as colónias são feitas para serem perdidas.  Nascem com a cruz da morte estampada na fronte”.  A poucos meses de se desligarem de Portugal as duas minúsculas parcelas de um império que foi grande, mesmo quando mal governado, e atracadas que forem as naus portuguesas no cais do regresso definitivo, restar-nos-á fazermos como os marinheiros do Gama, que se foram desinstruindo para melhor se instruirem de fresco, e desaprendermos todo um modo de viver e estar no mundo para podermos aprender uma nova maneira de abrirmos espaço à nossa volta – um espaço que não será físico mas espiritual, cultural, científico – e mais fraterno.  Arrumadas as caravelas no museu do património de que não temos só que nos envergonhar – porque muito há de positivo e até de grande a celebrar -, compete-nos aprender a viajar noutro veículo que herdámos, com um esplendor nunca depois excedido, de Camões – a língua portuguesa, que ele manipulou com astúcia, subtileza, inteligência, intuição e – não sejamos modestos – génio e inventiva e emoção, dela fazendo um instrumento de peculiar eficácia com que nós e outros que por esse mundo visitámos pudéssemos explorar o nosso comum e vário assombro: aquele assombro que é motor de arranque para tudo quanto o homem tem produzido de inconfundivelmente grande.  Se Camões outra coisa não fosse – e foi um grande e inimitável poeta, isto é, um promotor e decifrador de espantos – ficaria sempre como o patrono privilegiado de uma língua que só é grande na medida em que é partilhada e trabalhada e saborosamente modificada por tantos que se distribuem pelas mais desvairadas latitudes e longitudes, fecundados por sóis diferentes e batidos por ventos diversos.
 
Em três versos densos e tersos, o poeta António Ferreira, contemporâneo de Camões, cometeu à língua portuguesa, o seguinte e audacioso caderno de encargos:
 
Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
a portuguesa língua, e lá onde for
Senhora vá de si, soberba e altiva.
 
Em memória de Camões e a pensar nos que hoje, em todo o mundo, dele herdam o esplendor da língua, resta-me desejar que o mandato de António Ferreira possa ter, pelos séculos dos séculos, cabal cumprimento. 
Eugénio Lisboa, Junho de 1999

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Um virtuoso violinista

  

David Garrett , em Aprés un rêve, de Gabriel Fauré, num espectáculo ao vivo, em  Roma, Itália,  Julho de 2023

Pequenas definições à falta de maiores

Millôr Fernandes

Pequenas definições à falta de maiores
de
Millôr Fernandes
 
Chama-se de civilização esse lento processo pelo qual a humanidade acaba concordando com os loucos.
 
Amizade é aquilo que uma mulher tem por outra quando ambas detestam uma terceira.
 
Chama-se de subtileza essa faculdade que nos permite ofender uma pessoa com tempo para ir embora antes que ela possa reagir.
 
Médico é um sujeito que aplica drogas que mal conhece a organismos que nem conhece.
 
Chama-se psicanalista uma espécie de médico que está sempre mais perto da doença do que da cura.
 
Chama-se défice isso que uma pessoa tem quando tem menos do que quando não tinha coisa nenhuma.
 
Chama-se de chato o sujeito que tem um uísque numa das mãos e a nossa lapela na outra.
 
A universidade é um local onde a ignorância é levada a suas extremas consequências.
 
Chama-se celebridade um débil mental que foi à televisão.
 
O pobre trabalha para comer. O rico trabalha para comer fora.
 
Círculo é uma linha que resolve ir dar uma volta.
 
Pontual é alguém que resolveu esperar muito.
 
Solteiro é uma espécie de rato que pensa poder comer o queijo sem cair na ratoeira.
 
NOTA: Hoje ficamo-nos por aqui. Se quiserem mais, digam. Millôr Fernandes é inesgotável. Ele, refilão sem mácula, foi o homem que disse isto: “o que as pessoas não aceitam são pequenas coisas, o facto de eu nunca ter querido poder, de não ter aparecido na TV Globo, afinal alguém tem de ter recato neste país.”
Eugénio Lisboa, 18.08.2023

Reflexões de grandes escritores sobre o livro e a leitura


O  livro que nos deixa felizes
por Franz Kafka
 “Penso que devemos ler apenas os livros que nos ferem, que nos apunhalam. Se o livro não nos acorda com um golpe na cabeça, por que o estamos lendo, então? Porque isso nos deixa felizes, como  afirma? Meu Deus! Seríamos mais felizes se não tivéssemos livro nenhum. E o tipo de livro que nos deixa felizes é aquele que nós mesmos facilmente escreveríamos se precisássemos. Mas nós precisamos dos livros que nos afectam como um desastre, que nos atormentam profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser jogado  a uma floresta isolada de todos, como um suicídio. Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.”
Franz Kafka, em carta a Oskar Pollak, amigo da época da escola, datada de 27 de Janeiro de 1904

O Pressuposto Indispensável para se Ser um Grande-Escritor
por Robert Musil
"O pressuposto indispensável para se ser um grande-escritor é, então, o de escrever livros e peças de teatro que sirvam para todos os níveis, do mais alto ao mais baixo. Antes de produzir algum bom efeito, é preciso primeiro produzir efeito: este princípio é a base de toda a existência como grande-escritor. É um princípio miraculoso, eficaz contra todas as tentações da solidão, por excelência o princípio goethiano do sucesso: se nos movermos apenas num mundo que nos é propício, tudo o resto virá por si. Pois quando um escritor começa a ter sucesso dá-se logo uma transformação significativa na sua vida. O seu editor pára de se lamentar e de dizer que um comerciante que se torna editor se parece com um idealista trágico, porque faria muito mais dinheiro negociando com tecidos ou papel virgem. A crítica descobre nele um objecto digno da sua actividade, porque os críticos muitas vezes até nem
são más pessoas, mas, dadas as circunstâncias epocais pouco propícias, ex-poetas que precisam de um apoio do coração para poderem pôr cá fora os seus sentimentos;são poetas do amor ou da guerra, consoante o capital interior que têm de aplicar com proveito, e por isso é perfeitamente compreensível que escolham o livro de um grande-escritor e não o de um comum escritor. Acontece que uma pessoa tem uma capacidade de trabalho limitada, que os seus melhores resultados se aplicam com facilidade às novidades saídas anualmente da pena dos grandes-escritores, que assim se transformam em caixas-económicas da prosperidade intelectual da nação, na medida em que cada um deles arrasta consigo interpretações que não se limitam a ser explicações, são antes aplicações, e para o resto dos livros pouco sobra. Mas a coisa só alcança proporções verdadeiramente grandes pela mão dos ensaístas, dos biógrafos e dos historiadores instantâneos, que se servem dos homens grandes para descarregar as suas necessidades. Com o devido respeito, até os cães preferem para as suas necessidades mais comuns uma esquina movimentada a uma pedra solitária. Por que razão hão-de então os homens que sentem o nobre impulso de legar o nome à posteridade escolher uma pedra manifestamente solitária?
Quando dá por si, o grande-escritor já não é um ser com autonomia, viu-se transformado numa simbiose, no resultado de um grupo de trabalho à escala nacional, no mais dedicado e delicado sentido, beneficiando da mais bela certeza que a vida lhe pode conceder: a de que o seu êxito está intimamente ligado ao de inúmeros outros homens.
Provavelmente é essa a explicação para um dos traços mais comuns do carácter de um grande-escritor: um marcado sentido do bom comportamento. Só recorrem à escrita combativa quando sentem o seu prestígio ameaçado; em todos os outros casos o seu comportamento distingue-se pelo equilíbrio e pela benevolência. São sempre tolerantes para com as ninharias que se dizem em seu louvor. Não se rebaixam facilmente a escrever sobre outros autores; quando o fazem, raramente é para elogiar um homem superior, mas quase sempre para animar um daqueles talentos apagados que se compõem de quarenta e nove por cento de talento e cinquenta e um por cento de ausência dele, e, devido a esta composição, se ajustam a todas as situações em que é precisa alguma força, mas um homem forte poderia ser prejudicial; e a curto ou a longo prazo todos eles terão um lugar influente na vida literária.
O método do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adoptamos, com magnífica inconsciência, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que esplêndida facilidade exclamamos, ou se trate de um estadista, ou se trate de um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um génio!» ou «É um santo!», oferecemos naturalmente mais resistência. Mas ainda assim, quando uma boa digestão e um fígado livre nos inclinam à benevolência risonha, também concedemos prontamente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa de louros ou a auréola de luz.
Não há maior refrigério para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: tão logo temos um deles nas mãos, e mesmo que seja por apenas meia hora, sentimo-nos imediatamente refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; como se nos tivéssemos deleitado na fonte fresca de uma rocha. Tal facto depende das línguas antigas e da sua perfeição ou da grandeza dos espíritos, cujas obras permanecem intactas e vigorosas pelos milénios? Talvez de ambos. Mas sei que, se algum dia o estudo das línguas antigas cessar, como ameaça cessar agora, surgirá então uma nova literatura, feita de escrevinhações bárbaras, triviais e indignas, como ainda não chegou a existir; tanto mais que a língua alemã, que realmente possui algumas das perfeições das línguas antigas, é delapidada e mutilada com zelo e método pelos rabiscadores da época «actual», de modo que, pouco a pouco, ela se empobrece e degenera, transformando-se num jargão miserável."
 
Cada Leitura é Única
por Novalis
"Muitos autores são ao mesmo tempo os seus próprios leitores – à medida que escrevem -, e é por isso que tantos vestígios do leitor aparecem nos seus escritos – tantas observações críticas – tanto que pertence à província do leitor e não à do autor. Travessões – palavras em maiúsculas – passagens grifadas – tudo isso pertence à esfera do leitor. O leitor põe a ênfase como tem vontade – ele de facto faz de um livro o que deseja. Não é todo o leitor um filólogo? Não existe uma única leitura válida somente, no sentido usual. A leitura é uma operação livre. Ninguém me pode prescrever como e o que lerei."
 

Os Juízos Ligeiros da Imprensa
por Eça de Queirós
"Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e já irradicável hábito dos juízos ligeiros. Em todos os séculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e natural do entendimento. Com excepção de alguns filósofos mais metódicos, ou de alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para louvar ou condenar em política o facto mais complexo, e onde entrem factores múltiplos que mais necessitem de análise, nós largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo ondeante do charuto."
 
Os Livros representam a essência de um espírito
por Arthur Schopenhauer
"As obras são a quintessência de um espírito: por conseguinte, mesmo se este for o espírito mais sublime, elas sempre serão, sem comparação, mais ricas de conteúdo do que a sua companhia, e a substituirão também na essência – ou melhor, ultrapassá-la-ão em muito e a deixarão para trás: Até mesmo os escritos de uma cabeça medíocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e divertidos, justamente porque são sua quintessência, o resultado, o fruto de
todo o seu pensamento e estudo; enquanto a sua companhia não nos consegue satisfazer. Sendo assim, podem-se ler livros de pessoas em cujas companhias não se encontraria nenhum prazer, e é por essa razão que uma cultura intelectual elevada nos induz pouco a pouco a encontrar o nosso prazer quase exclusivamente na leitura dos livros, e não na conversa com as pessoas.
Existem duas histórias: a política e a da literatura e da arte. A primeira é a história da vontade, a segunda, do intelecto. Por isso, a primeira é quase sempre alarmante, ou melhor, assustadora. Nela, o medo, a necessidade, o engano e terríveis assassinatos ocorrem em massa. A outra, ao contrário, é sempre agradável e serena, como o intelecto isolado, mesmo quando descreve erros. O seu ramo principal é a história da filosofia. Na verdade, esta constitui o seu baixo ideal, que se faz ouvir até mesmo na outra história e também conduz a opinião do seu fundamento até ela: mas esta última domina o mundo. Sendo assim, a filosofia, no sentido próprio e inequívoco, também é a mais fote potência material; contudo, age de forma muito lenta."

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Uma pergunta para os tempos que correm


 Uma pergunta para os tempos que correm
Quando a sentinela grita “alto!” Para o anão que vai passando este se ofende?
                                                              Millôr Fernandes
 
Mais algumas perguntas pertinentes
de Millôr Fernandes
 
Você ri com a graça de Deus?
 
O cristal da boémia é um jarro pertencente a uma senhora que vive na farra?
 
Um juiz que recebe dinheiro dos dois lados é um juiz imparcial?
 
Os dermatologistas têm a sensibilidade à flor da pele?
 
O filho de um dentista é um garoto muito incisivo?
 
A mulher do actor de teatro, quando ele chega tarde em casa, faz uma cena?
 

Quando você vai comprar uma coisa na loja e o homem diz que só vende atacado, você puxa o revólver?
 
A vida dos desenhistas é cheia de riscos?
 
Quem mata a sede vai preso?
 
Então me diz, um criado mudo pode pedir aumento de salário?
 
Um músico pode ser preso por emitir notas falsas?
 
Os laços matrimoniais são dados com nó cego?
 
Eis um punhado de boas e incisivas perguntas, para meditação durante o fim de semana que se avizinha.
Eugénio Lisboa, 17.08.2023

SEPARAÇÃO

 
Uma separação definitiva
quer dizer que é mesmo sem regresso:
o coração fica para sempre opresso
e a vida sem qualquer alternativa.
 
A alma, de outra alma cativa,
fica de repente ao desavesso,
sem ser possível qualquer recomeço
ou fluido que a vida reaviva.
 
O viver torna-se então um não viver,
uma ferida que se não apaga,
como fogo sempre a reacender.
 
Tentar lembrar é deitar sal na plaga
e fazê-la ainda mais arder,
tanto mais quanto mais ela se afaga!
                             17.08.2023
Eugénio Lisboa

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Uma hermenêutica incontinente

 
Uma hermenêutica incontinente
por Eugénio Lisboa

Os clássicos mudam muito de opinião
 para agradar os que os interpretam.
                  Millôr Fernandes
 
“Publiquei aqui, há dias, um texto sobre interpretações assanhadamente ideológicas de obras literárias, praticando verdadeiros estupros interpretativos de grandes obras clássicas. Não é, diga-se de passagem, um mal nacional: grassa por todo esse mundo literário e universitário, com particular incidência no Brasil, onde todas as tontices importadas do estrangeiro assumem variantes de infecção aguda. Mas não só a ideologia leva ao crime. Outras modas em vigor inflectem de modo abusivo e desastrado a integridade dos textos. As redes sociais deram a esta incipiente epidemia dimensões assustadoras de pandemia. A ponto de o egrégio Umberto Eco ter declarado  que “o drama da internet foi ter promovido o idiota da aldeia a portador da verdade.” Ou, noutra passagem igualmente contundente, que “as redes sociais deram voz aos imbecis”. E deram: vê-se isso todos os dias e nem os lugares mais privilegiados ficam isentos  de serem visitados por estes parasitas, ignorantes mas atrevidos. As mais delirantes interpretações de textos são promovidas, numa orgia hermenêutica deveras assustadora. Seja dito que, na origem deste despautério, vai muita culpa para o próprio Umberto Eco, que, na sua celebrada OBRA ABERTA, abriu imprudentemente as portas às inúmeras interpretações possíveis de um mesmo texto. Se houvesse assim tantas, o texto tornar-se-ia irrelevante ou mesmo não existente. Se o que um autor quis dizer pode não ser fácil de descodificar, por outro lado, o que o texto parece dizer já pode ser um pouco menos problemático. O próprio Eco se veio a arrepender de ter escancarado demasiado as portas à incontinência hermenêutica e pôs a ela travões, em Os LIMITES DA INTERPRETAÇÃO. Mas o mal estava feito e a diarreia interpretativa era demasiado convidativa, para poder ser universalmente abandonada. Os leitores passam a ser os verdadeiros “donos” do texto e o texto degrada-se até se tornar pretexto.
O eminente Tzevetan Todorov troçou de tudo isto, nestes termos: “Um texto não passa de um piquenique, em que o autor traz as palavras e os leitores o sentido.” Num vigoroso ensaio – AGAINST INTERPRETATION . a temível Susan Sontag fulminou esta tara interpretativa, afirmando: “A interpretação é a vingança dos intelectuais contra a arte.” E ainda: “Em vez de uma hermenêutica, do que precisamos é de uma erótica da arte.”
O curioso é que muitos grandes e acutilantes leitores, como Nietzsche, fulminaram há muito este abuso interpretativo: “O texto desapareceu debaixo da interpretação”, disse o filósofo alemão, no seu PARA ALÉM DO BEM E DO MAL.  E o eclético e celebrado Harold Bloom, tentou mostrar que esta prática era milenar, ao dizer isto: “Penso que o Novo Testamento grego é a mais forte e mais bem sucedida desleitura de um grande texto anterior, em toda a história da influência.”
Nestes despautérios de interpretação, teve grande visibilidade a sexualidade pós-freudiana. Aí, valeu tudo. Numa ida ao Rio de Janeiro, a propósito de um congresso dedicado a José Régio, apareceu-me uma deslumbrada, com a descoberta de que o admirável romance O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO, de José Régio, mostrava que o escritor era homossexual. Estava então muito na moda, descodificar homossexualidade escondida por todo o lado. Ora nem Régio era homossexual, nem aquele romance tinha nada a ver com sexo ou seus arredores. Mas a tese deve ter tido filhos, porque estas descobertas costumam ser muito fecundas.
Outro exemplo extraordinário foi este, acontecido com a encenação da peça de Montherlant, LE MAÎTRE DE SANTIAGO. A obra é limpamente clássica e tem como protagonista Don Alvaro, Mestre daquela Ordem, cristão sem mácula, totalmente incorruptível.  Alguns nobres espanhóis querem usar o seu bom nome, para cobrir negócios sujos, na América recém descoberta. Para aliciá-lo, prometem-lhe arranjar um “bom casamento” para a filha Mariana.  Mas esta é exactamente como o Pai. Num diálogo, de um sublime austero, Don Alvaro sonda a filha. Neste momento, Montherlant dá uma pequeníssima indicação de cena: a meio do diálogo, o velho Mestre apercebe-se de um cabelo no vestido da filha e sacode-o. O autor da peça terá querido significar que a mais austera figura, e mesmo num momento de grande tensão, pode afligir-se com uma pequeníssima coisa que desfigura o vestuário da filha. Esta ínfima indicação de cena desencadeou na crítica teatral de Paris as mais estapafúrdias “interpretações”: uma delas ia no sentido de dizer que aquele gesto significava que Montherlant tinha querido ter relações sexuais com a mãe, outro, ainda mais ousado, afirmava estar ali a prova de que o dramaturgo sofria de um complexo de castração! Eis a interpretação no seu deslumbrante pior.
No teatro, onde os encenadores “sabem mais” do que os dramaturgos, já vi desastres semelhantes com grandes encenadores. Cito um caso. Quando vivia em Londres, o grande encenador Peter Hall, resolveu encenar a grande tragédia de Ibsen, O PATO SELVAGEM. Peter Hall acabara de “descobrir” haver na peça um subtexto cómico e resolveu transformar aquela pungente tragédia numa quase comédia. Acontece que o tal subtexto não era nada cómico, mas, sim, dilacerantemente patético.  Por outro lado, Peter Hall, embarcado na sua desleitura, esqueceu-se de que na peça de Ibsen uma criancinha se suicida, no final, o que não costuma acontecer nas comédias. Dislates destes são frequentes, com as peças de Shakespeare, o que levou o impagável e genial Mel Brooks a parodiar, num seu filme, estes atrevimentos de encenadores, fazendo do sinistro Ricardo III, um invertido efeminado, grotescamente amaneirado. Haverá quem descubra na peça de Shakespeare um subtexto qualquer, que justifique a metamorfose. Foram estas e outras que levaram Orwell a afirmar: “Se realmente existe essa coisa de se dar uma volta no túmulo, Shakespeare deve fazer uma data de exercício.”
Eugénio Lisboa, em 16.08.2023